

Irka Barrios
Irka Barrios
Porto Alba
Copyright © 2026 Irka Barrios
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diretora editorial
Rejane Dias
editoras responsáveis
Ana Elisa Ribeiro
Rafaela Lamas
preparação
Ana Elisa Ribeiro
revisão
Ariadne Martins
capa Alles Blau
diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Barrios, Irka
Porto Alba / Irka Barrios. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Contemporânea, 2026.
ISBN 978-65-5928-694-2
1. Ficção brasileira I. Título.
26-340464.0
CDD-B869.3
Índices para catálogo sistemático:
1. Ficção : Literatura brasileira B869.3
Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129
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I.
Tulio queria saber detalhes, se Ana tinha se adaptado, se a equipe era boa, se havia, afinal, uma equipe, se o hotel era confortável, a comida esquisita. Contou de suas pequenas vitórias diárias, depois as derrotas – bem mais dramáticas –, e sua voz assumiu um tom de melancolia que tornou a ligação insuportável.
Eu também sinto muito, Ana disse. E desligou. Atendeu à porta, era Babilônia. Antes de entrar, ela deu uma volta, um giro delicado sobre o eixo de uma perna, e um gritinho agudo. Usava uma peruca cor-de-rosa de corte Chanel e franja, e vestido branco de um ombro só. Na cintura, tinha amarrado uma corda de sisal e, nos pés, sandálias de tiras, trançadas até a metade da canela. Os olhos sem cílios tinham as pálpebras riscadas com delineador preto.
Mirei na Cleópatra e acertei num soldado romano. Empurrou Ana e mostrou a garrafa de tequila dentro da sacola plástica junto com um copo pequeno. Beba, querida, beba por mim. Fechou os olhos e torceu um pouco a cabeça para o lado, sem dúvida um gesto de abnegação. Sinta o gosto do álcool abrindo suas narinas. Piscou diversas vezes, como se relembrasse algo de que sentia muita falta.
Ana pensou em recusar a oferta, em dizer que não, tinha trabalho no dia seguinte, não podia se dar ao luxo de uma ressaca, e onde já se viu uma médica de ressaca?, ainda mais ali, naquela cidadezinha tão típica. Contevese. No fim das contas, ela achava que sim, ambas tinham direito a um trago.
Entornou o primeiro shot.
Anda, Babilônia a encorajou.
Calma, mulher, eu não consigo mais beber ligeiro.
Babilônia a repreendeu com uma interjeição e voltou a servir o copinho de vidro. Por mim, pediu.
Ana mostrou o muque, trincou os dentes e bebeu a segunda dose.
Não sentiu o prazer imenso que Babilônia prometera, só uma dormência, a vertigem do estágio pré-transe, quando o corpo experimenta os primeiros sinais de que está alterado. Ainda não era um levitar, só um flutuar, como se o peso diminuísse um bocadinho. Mais um gole (desta vez curto) e tudo se transferiu para longe, bem longe, os doentes ardendo em febre, as peles descascadas, a tosse, o senhorzinho, aquele que precisou de um analgésico mais forte, que certamente daquela noite não passaria, tudo ficou distante, um ponto minúsculo boiando num oceano de águas mornas.
Que fantasia você planejou para mim?, perguntou para Babilônia.
Ela havia separado alguns vestidos, um saiote e, agora lembrava, uma calça larga, de palhaço. Tinha certeza de que conseguiriam compor um personagem convincente. Ajudaria Ana a se maquiar, trouxera tinta branca e vermelha, e até uma touca. Faltava costurar uns pompons, coisa rápida.
Ana segurou a mão de Babilônia quando a viu servir a quarta dose.
Não, disse, agora preciso é de uma cerveja.
Desceram pela rua espiando para dentro das casas esparsas que surgiam após um ou outro terreno ocupado com plantações de milho ou de mandioca. A maioria mantinha as janelas e portas abertas, apesar do adiantado da hora. Sentados nas varandas, homens sem camisa, mulheres esbaforidas e crianças estridentes aguardavam o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Era o que havia de mais carnavalesco naquele lugar. Lembrando-se de onde estava e para onde se dirigia, Ana perguntou como é que elas cruzariam para o outro lado.
Tem um barqueiro, Babilônia respondeu.
Uma sensação contraventora invadiu o pensamento de uma Ana prestes a entrar ilegalmente em outro país. E, por mais que fosse uma besteira, nada tão fora da lei ou criminoso – não eram fugitivas, só turistas ou, vá lá, foliãs, e por poucas horas –, ela não podia evitar a comparação com o mexicano que atravessa o deserto e emigra para os Estados Unidos. Pisar sem autorização num país estrangeiro era como deixar de ser, estar sem estar.
Liberdade quase absoluta.
O barco pequeno, uma espécie de canoa motorizada, o medo das lendárias traições da correnteza do rio, o barulho incessante das águas que logo ali criavam um redemoinho muito perigoso, nada disso baixou a expectativa de Ana. Soubera do péssimo humor dos agentes da imigração. Ríspidos, de poucas palavras e certa truculência. Não queria nem pensar no que aconteceria caso ela e Babilônia fossem pegas pela polícia da fronteira. Atraída pelas luzinhas de Alba Posse, uma Ana de corpo leve concluía que definitivamente ali não seria necessário um patrulhamento tão ostensivo.
Após um ruído grave, o motor do barco perdeu força e fez uma curva aberta, dirigindo-se a uma espécie de porto, no meio de arbustos. Ana mergulhou a mão no rio. Abriu os dedos, como se estivesse peneirando a força da água.
O barqueiro aceitava peso ou real, quinze a ida mais quinze a volta. Se quisessem pagar tudo, ele faria por cinquenta as duas. Ofereceu o horário da meia-noite para o retorno.
Meia-noite e meia, aqui?, Babilônia tentou negociar.
O homem coçou a cabeça, um pouco confuso. Deve ter imaginado que a festa não se estenderia por tanto tempo. Por fim, concordou.
As duas subiram a escada de tábuas entalhadas no barranco. Ana diminuiu o passo para aguardar Babilônia, que vinha ofegante. Ao atingirem a rua, ouviram o som dos tambores.
É para lá, Babilônia apontou, e apressou-se a comentar os negócios do barqueiro:
Hoje era o pai, mas geralmente é o filho que faz as travessias fora de hora. Bonitão o moço.
São confiáveis?
São. E também trazem encomendas, se você precisar. Até pouco tempo atrás, valia a pena comprar xampu, detergente, sabão em pó e outras coisinhas. A qualidade é boa, alguns produtos bem melhores do que os nossos. Só que o preço subiu.
Mas e os guardinhas da aduana?
Deve ter alguma propina. Babilônia pensou por uns instantes, o dedo indicador batendo de leve no lábio: óbvio que tem. Alba Posse não era uma cidade muito diferente de Porto Alba. Suas ruas e calçadas tinham a cor do pó
avermelhado característico da terra da região, as casas esparsas, só que um pouco menores e mais simples, e uma avenida costaneira que, segundo Babilônia, foi construída poucos anos antes, revitalizando a orla, que era bem feinha.
Muitos turistas atravessam por aqui. O pessoal gosta de passear em Oberá, em Posadas, até em Foz do Iguaçu, ela disse, um tantinho orgulhosa. E contou que, até há pouco tempo, Alba Posse não tinha nada de nada. Era só um rincãozinho sem graça que servia como rota de passagem. Uma ou duas lojinhas vendiam vinho. De uns dez anos para ali, os hermanos perceberam a necessidade de um comércio atrativo. Melhoraram a infraestrutura, criaram condições para o turista desfrutar um tempo agradável, porque ninguém merecia esperar numa fila, muitas vezes no sol, para ser atendido por guardas raivosos. Babilônia achava que a tendência era melhorar a cidadezinha ainda mais.
E a represa?
Ah, aí tudo vai por água abaixo. Água acima, no caso, riu um pouco. Depois rebateu a contrariedade de Ana. Que ela ficasse tranquila, a briga não terminaria fácil. Os argentinos sairiam tão prejudicados quanto os brasileiros, e eles se organizavam bem, embora ela estivesse surpresa com as reuniões da comunidade. Havia intenso contato com associações e movimentos de pessoas atingidas por barragens, e a população não pretendia ceder. Ainda mais depois das tragédias em Mariana e… como era mesmo o nome da outra cidade mineira? Brumadinho. Sim, Brumadinho. Se no Brasil estavam mobilizados, na Argentina, muito mais. O projeto teria de passar por inúmeras etapas, incluindo consulta popular – plebiscito –, e era ali que a coisa ficaria difícil. As famílias precisariam ser realocadas. E deixar sua casa, suas coisas, mudar-se para um lugar estranho, tudo
isso tornava a situação dramática. A maioria das pessoas não deseja passar por isso. Se Ana, ali, a convite para um trabalho temporário, devia sofrer com saudades de suas coisinhas, imagina quem nunca voltaria para casa.
O rumo da conversa fez Ana remoer os acontecimentos pré-tequila. A sensação de pilequinho se dissipava e pensar em Tulio era a última coisa que queria.
Vamos, apressou Babilônia, antes que a festa acabe.
Dobraram à esquerda assim que atingiram a rótula da costaneira, sempre em busca da música, que passou a retumbar no peito. Nesse ponto, Ana não se enganou: o ritmo era bem diferente do samba. Parecia uma marcha num tom mais animado, como as da época da escola, quando os membros da banda recebiam uma folga do maestro e podiam tocar num ritmo descontraído. De longe, elas enxergaram o público que seguia a banda em cortejo. Uma pequena aglomeração, algo em torno de cem ou cento e vinte pessoas alegres, vestidas com cores fortes, que ora arrastavam os pés, ora pulavam, numa dança pouco convencional, porém divertida. Mais perto, Ana reconheceu algumas fantasias típicas do Carnaval brasileiro: homem vestido de mulher, havaiana, bailarina, além de dois blocos uniformizados com camisetas cheias de desenhos e dizeres, um grupo de verde, outro de azul. O público logo as incorporou ao desfile. Seguiram todos até a praça central, contornaram-na e retornaram pelo mesmo percurso. Na primeira esquina, Ana encontrou um ambulante. Com os reais trocados que tinha na bolsa, comprou uma cerveja de latinha. Depois teria de dar um jeito de trocar a nota de cem. No momento, não queria ocupar a cabeça com câmbios. Ao contrário da Ana sóbria do início da noite, essa outra versão, semiembriagada, decidiu beber a cerveja
o mais rápido possível. Quando amassou a lata para jogá-la no lixo, tinha recuperado o pilequinho e cantava com as duas mãos para cima. Os confetes misturados a papéis picados, brilhosos, refletiam as luzes da rua e desciam devagar, grudando nas caras das colombinas e das melindrosas. Mais adiante apareceu um Tristão. E, lá na frente, empunhando o estandarte do bloco, uma mulher vestida de pássaro. De costas, notava-se o collant coberto de penas acinzentadas e uma estrutura metálica que servia de suporte para asas de anjo. Ana só reconheceu a fantasia quando a mulher se virou e ela pôde ver, preso ao nariz, um bico adunco, todo alaranjado, com dois furinhos equidistantes. A noite ainda reservava surpresas. Ana se viu obrigada a perder dinheiro no câmbio dos cem reais para buscar mais uma cerveja. Não pôde deixar de observar, dançando muito próximo ao estandarte, a criatura mais atraente do desfile. Do alto de pernas de pau que o elevavam a mais de dois metros de altura, um fauno dançava com a desenvoltura possível para um calçamento cheio de imperfeições. Não disfarçou o interesse e até achou que ele percebeu, porque, a partir de certo momento, notou-o mais solto, mais sensual. Mas ele não concedeu a ela o prazer de trocarem um olhar que fosse.
Ana veria o fauno por outras duas vezes. Primeiro, já sem as pernas de pau e ainda com as calças que simulavam o pelo de um bicho: o tecido, uma espécie de veludo negro com culotes duros na altura dos quadris, e o peito nu, como é característico nesse tipo de fera. Encostado na parede de um bar, fumava um cigarro que se encaixava por baixo da máscara que escondia parte de seu rosto, e cantarolava uma milonga. Da segunda vez, o viu puxado por uma mulher
(não a mulher-pássaro, outra, menos marcante), a caminho de um beco e, fascinada pela cena, só não seguiu atrás porque Babilônia interveio:
Ei! Aonde você pensa que vai?
Quando os últimos tambores silenciaram, Babilônia achou que deviam descansar um pouco as pernas. Encontraram aberto o único bar que abrigou os foliões sobreviventes. Cantavam, ou tentavam cantar, marchinhas brasileiras. Ana pediu cerveja e Babilônia, um copo. Precisavam brindar a noite. Ergueram os copos no ritmo das músicas, uniram-se ao coro.
Perderam a hora.
Sentaram-se na escadaria da descida para o porto, com a remota esperança de que alguém aparecesse. Tiveram sorte. Exaustas, após quase uma hora de espera, depararam com um homem falando um espanhol tão apressado que pareceu meio ríspido. Vinha de calça jeans e botas, sem camisa. Cumprimentou Babilônia e depois Ana: Me chamo Verón.
O rio se movia lentamente quando Verón chegou com o barco reserva. O vagar da correnteza transmitia certa segurança, como se sussurrasse aos ouvidos, com a clara intenção de não despertar as criaturas da noite. Em pé, no meio da embarcação, Verón manobrou-a com um remo. Pegou uma corda grossa e jogou-a para Ana. Num esforço para agarrar a ponta, ela se lançou para a frente. Não conseguiu alcançar, a corda caiu na água. Verón a puxou de volta. Usando o cotovelo como fulcro, enrolou-a de novo e assoviou para Babilônia. Lançou a corda direto nas mãos dela, que segurou firme enquanto Verón se puxava para
mais perto. Quando tocou as pedras da margem, acenou com a cabeça e as autorizou a subir. Meio atrapalhada, Ana pisou numa das laterais, provocando um desequilíbrio na embarcação.
Estás borracha?, Verón perguntou mais para Babilônia do que para Ana.
Incomodada com a audácia do barqueiro, Ana fechou a cara. Sentou-se na proa e se manteve calada. Sem fazer caso da rebeldia de Ana, Babilônia e Verón brincavam, contavam piadas, riam. Um tanto ofendida pelo descaso, Ana olhou para a terra firme, que aos poucos se afastava. Não via mais tantas luzes, perdia-se num espaço tão vasto e tão escuro, como se estivesse presa num sonho. E então veio o medo, a agulha fininha que espeta quando menos esperamos. Teve um sobressalto ao perceber que podia cair na água e ser esquecida para sempre.
Quando desembarcaram do lado brasileiro, Babilônia convidou Verón para ficar. Fez Ana prometer que tomaria a saideira na casa dela. Poxa, não custava. Era Carnaval, exagero Ana dizer que teria de se levantar cedo, ninguém funciona cedo na Quarta-Feira de Cinzas.
Tá bom, a saideira. Ana cedeu, sempre teve dificuldades com pessoas insistentes.
Conforme avançavam pelas ruas de Porto Alba, viam luzes se acendendo nas casas. Verón contava histórias engraçadas, elas riam, Ana mais comedida, Babilônia estridente. Ao longe, cães latiam, e numa esquina alguém gritou que calassem a boca. Pararam, olharam-se em silêncio, desataram a rir. Verón sugeriu que apressassem o passo antes que um vizinho chamasse a polícia.
A saideira era uma garrafa de espumante, enjoativa de tão doce, que Babilônia achou no fundo da geladeira. Beberam na sala, um cômodo com a decoração das casinhas do interior, sofás de dois e três lugares com contornos arredondados e enfeites de crochê sobre os encostos.
Perguntaram como Ana estava se saindo no trabalho, comentaram alguns detalhes sobre a doença, e ela se achou íntima o suficiente para perguntar:
Vocês já tiveram?
Yo sí, Verón respondeu após uma rápida olhada para Babilônia.
Sim, e nos curamos, Babilônia emendou.
Ana insistiu, quis saber mais detalhes, ouvira muitos relatos, as pessoas descreviam sintomas diversos, manchas na pele, problemas gástricos, convulsões, dores de cabeça.
Muitos sistemas afetados e a gravidade dependia do paciente, das características de cada um. A população sabia muito, os médicos, pouco. Como era possível que soubessem tanto da doença, mais do que qualquer médico que esteve por ali?
Não gostamos de médicos, disse Babilônia. Riu mais uma vez, daquela forma exagerada. Desculpou-se: você não, você é exceção, meu amor. Garantiu que Ana podia confiar no conhecimento popular. Conviviam há muito tempo com o Mal-do-Rio, sabiam todo o curso da doença, as complicações, tudo. E as autoridades nunca ligaram para seu povo doente, só agora, porque um grupo de executivos tinha medo de conversar com os agricultores. E era bom que tivessem medo, porque os de fora sofriam mais. Não havia uma resistência que as pessoas adquiriam com o tempo? Então, devia ser a resistência que tornava os nativos menos suscetíveis aos sintomas mais graves. Mas isso era tudo, não havia enigma algum. Lançou um olhar amigável
para Ana e se apressou em explicar que ela podia trabalhar tranquila, não pegaria a doença, mesmo sendo de fora. Com a cabeça cheia de dúvidas, Ana resolveu não confrontar. Não era o momento. Mudou de assunto, serviu um pouco de espumante e pediu que Verón contasse mais alguma história de suas travessias. Ele reiniciou a fala e contou duas ou três anedotas, o tom de voz baixando junto com a euforia, até o momento em que Babilônia apagou no sofá. Ana inquietou-se, queria ir embora. Verón se ofereceu para acompanhá-la, mas primeiro quis mostrar o lugar mais especial da casa de Babilônia: Espera um poco, es una surpresa. Naquele exato momento, Ana reparava em algumas características de Verón. O moço era bonito mesmo. O rosto tinha uma mistura de traços delicados contrastando com outros bem fortes, como os olhos e o nariz grande, meio disforme. Os braços cobertos por uma pele de peixe branco com feixes de músculos que saltavam contra o algodão da camiseta. Em algum momento da travessia, Verón vestira a camiseta. Suas escápulas ficaram mais evidentes quando ele segurou Babilônia e a guiou até a cama. Após as últimas gotas do espumante, Ana perdeu um pouco do controle e deve ter olhado muito escandalosamente, porque não demorou a vir o reforço do convite para que ela o acompanhasse até logo ali. Pela mão, como se conduz uma cega, Verón a levou até o cômodo dos fundos, uma cozinha com a parede cheia de janelas basculantes. Ele deve ser bem íntimo de Babilônia, foi um dos pensamentos que pinçou do meio de outras ideias confusas que a afligiam. Observou-o girar a chave da porta de ferro e sentiu a mão de Verón enlaçando sua cintura. Atrás da cozinha havia uma área aberta, uma espécie de terraço.
Vem solamente hasta aqui, no más que isso, e segurou-a pelo braço. Brincou, como uma criança, fingindo empurrála para um vão impossível de enxergar. Cuidado, disse, após segurá-la com força.
O hálito dele tinha um cheiro bom, muito bom, um pouco enjoativo como o espumante, mas atraente. Ana não conseguia mais controlar o tipo de mensagem que enviava para Verón. Sem anunciar suas intenções, ele mais uma vez a enlaçou pela cintura e sussurrou-lhe ao ouvido alguma gracinha muito latin lover, que em qualquer outra ocasião seria motivo de riso, mas ali soou adequada. Sorriu.
Uns passos, só mais uns passinhos à frente, logo ali, o vão desconhecido. A agulha fininha a espetava de novo, só que agora ela buscava essa sensação.
Antes mesmo de beijá-la na boca, Verón segurou-a pela nuca e virou seu rosto. Enfiou a ponta da língua dentro da orelha de Ana, como os adolescentes fazem. Virou-a de frente, olhou dentro de seus olhos e, com um puxão certeiro, arrancou a calça fofa de palhaço que ela nem lembrava mais que vestia.
Como um mau agouro, um frio abrupto se estabeleceu na Quarta-Feira de Cinzas. Ana estranhou um bocado, e a dona da hospedaria explicou, ao servir o café, que uns dois Natais atrás ocorrera o mesmo. O tempo ali era assim, às vezes ficava feio sem avisar. Devia durar uns três dias, a mulher arriscou. Comentou algo sobre presságios, Ana não deu importância. Lutava contra a dor lancinante nas têmporas. Sorriu tanto quanto possível, aprovando a porção de café na xícara. A mulher se retirou com passos que martelaram na cabeça.
O primeiro gole nem chegou a descer, voltou na mesma hora. Respirou fundo, controlando-se para não vomitar. Precisava de uma Coca-Cola. E de uma Aspirina. Ou duas. Depois, primeiro tinha de ingerir algo consistente. O malestar se diluiria assim que o estômago se enchesse um pouco. Serviu-se do pão caseiro, acomodado como um bebê dentro de uma cestinha de vime e coberto com um guardanapo xadrez. Comeu devagar. Arrancava pequenos pedaços, passava um pouquinho de manteiga salgada e mandava para dentro, engolindo depois de transformar a massa num bolo pastoso. Levaria quinze minutos no desjejum, caso o flash do sonho que tivera não a perturbasse. Numa sala enorme, cheia de estofados dispostos em círculo, Ana ouvia gente conversando. Conhecia as pessoas, todas da família, parentes próximos, outros distantes. Conversavam num tom neutro, com falas pausadas, e cada um respeitava a vez do outro. Sentada meio de lado, desconfortável por causa do vestido, Ana ouvia, não falava. Acendeu um cigarro. Fumou-o aos poucos, saboreando o gosto, exalando a fumaça que formava um nevoeiro ao redor de si. As pessoas continuaram a conversa, ninguém protestou, mesmo quando o ambiente se tornou sufocante. O ato de tragar e exalar aquela fumaça provocava em Ana um imenso prazer e isso era o mais estranho de tudo, porque ela não era de fumar. Ao erguer o braço para levar o cigarro à boca, a manga do vestido azul-escuro, de paetês, arranhava embaixo da axila (ela lembrava agora: um dos desconfortos era o vestido, muito apertado, limitando os movimentos). Mesmo assim, ela erguia e baixava o braço com frequência, sustentando a pose cristalizada de uma atriz dos anos trinta. Você vai trabalhar hoje, não vai?, a mulher a cutucou de leve e ofereceu mais café.
Pelo relógio do celular, Ana notou que quarenta minutos haviam se passado. Fez um gesto negativo. Que a mulher entendesse que esse gesto servia para recusar tanto o café quanto perguntas indiscretas. Não se acostumaria com as liberdades que os locais tomavam. Além disso, a pergunta traduzia mais uma repreensão do que uma simples dúvida sobre os deveres da nova médica da cidade. Enrolou uma banana e uma maçã num guardanapo de papel e pediu licença. Mal saiu e voltou, esquecera de pegar a latinha de Coca-Cola no refrigerador. Escancarou a janela do quarto e se deitou no chão, aconchegada em duas cobertas que encontrou no fundo do roupeiro. Dali, de seu ninho, enxergava um quadro cinzento com nuvens mais densas cobrindo o sol, uma bola branca sem o poder de transmitir calor, e outras, menos densas, se movendo muito rápido. Próxima da moldura inferior do quadro, a confusão de fios da rede elétrica: três bem grossos e outros fininhos, a maioria esticada, dois mais frouxos. Fios sem pássaros. Uma vontade gigantesca de embarcar de volta no ônibus, o mesmo ônibus sacolejante que dez dias atrás a trouxera até ali, e de, ainda no caminho para o aeroporto, acessar a página da companhia aérea e comprar a primeira passagem disponível, mesmo que, pela urgência da data, o trecho custasse mais de cinco mil reais, e de chegar em casa sem aviso e deixar a cabeça pesar sobre as pernas de um Tulio desprevenido, que, sem esconder a perplexidade, pousaria a mão sobre seus cabelos molhados do banho e prometeria que, sim, tudo ficará bem.
Fechou os olhos ao sentir os primeiros sinais de que a dor cedia. Não se mexeu por uns dez minutos ou mais. Talvez tenha dormido ou entrado num estado profundo de consciência. Só despertou com um apito do celular.
Ainda de olhos fechados, silenciou o aparelho. Adormeceu mais uma vez.
Acordou um pouco depois do meio-dia. Sentia-se melhor, mesmo que longe de reconhecer indícios de disposição.
Desbloqueou o celular e escreveu para Bete: vou às duas e meia. Entre uma da tarde e duas horas, concedeu-se diversos cinco minutinhos, engambelando o relógio. Em algum momento da modorra, relembrou o ritmo dos tambores, a dança e a criatura sobre as pernas de pau. Relembrou o tecido preto simulando um couro de bicho, os culotes das laterais da calça, o torso nu, o pescoço como um tronco de árvore, o rosto ocultado pela máscara com a expressão de ataque, e os chifres retorcidos, posicionados de forma a parecer que cresciam, de verdade, naquele crânio.
Até então, ela não tinha pensado em Verón.
Duas da tarde. Com todos os prazos estourados, Ana correu para debaixo do chuveiro que, por sorte, oferecia água em abundância, numa temperatura agradável. Sentiu-a levar para o ralo os últimos vestígios da dor de cabeça, queria desfrutar de um banho demorado. O compromisso, o horário que ela mesma estipulara, sobrepôs-se à sua vontade.
Para sua surpresa, ninguém na enfermaria questionou sua demora. Que sorte, a aura intocável ao redor da figura do médico ainda vigorava no interior. Relaxou, tudo bem uma vez ou outra se beneficiar do status.
O senhorzinho não tinha, mesmo, passado daquela noite. A família acertara o transporte do corpo com a funerária e, pelo que Bete anunciou, o enterro seria no final da tarde. Restava assinar o atestado de óbito, que ela, inclusive, redigira.
Contrariada com a situação, Ana disse que não assinaria papel algum.
Estavam muito abalados, defendeu-se Bete, e eu não quis atrapalhar teu período de descanso com burocracias.
Ana argumentou que descanso era o que menos importava. Acabara de assinar o contrato e formara-se médica sabendo das obrigações da profissão. Bete a rebateu com um tom preocupado em demasia, algo exagerado, num toque de cinismo, e alertou que Ana deveria se impor. Conhecia o costume do povo da cidade pequena, muitos abusavam da boa vontade dos médicos, e quando ela menos esperasse haveria uma fila de gente pedindo consulta na porta da hospedaria. Ana cruzou os braços. Engrossou a voz para solicitar os prontuários dos pacientes internados. Fez questão de abri-los na presença de Bete, examinou as anotações do dia e se encaminhou para as visitas. Antes de entrar na enfermaria, virou-se com o dedo em riste:
Eu só assino o óbito depois de ver o morto.
Certo, doutorinha, Bete respondeu meio no susto. Prometeu acompanhá-la até o cemitério depois das visitas da tarde.
Anexada aos fundos do posto de saúde municipal, a enfermaria contava com recepção, sala de exames, vestiário, sala de esterilização, depósito e um amplo salão que acomodava oito leitos. Tudo limpo e muito bem equipado, graças ao dinheiro que a companhia hidrelétrica injetara no consórcio com a prefeitura. Quatro técnicas de enfermagem, também contratadas em regime emergencial, revezavam-se em plantões de doze por trinta e seis horas. Com a postura de administradora, Bete assumira a maioria das responsabilidades e, do alto de seus saltos barulhentos, mandava e desmandava nas técnicas. E soube acatar a autoridade de Ana.
Referia-se a ela como a nova doutorinha, um termo que, conforme a situação, denunciava sentimentos de carinho ou deboche. Algumas vezes o tratamento significava tanto uma coisa quanto outra, mas Ana não estava disposta a ter essa conversa. Não se sentia confortável seguindo regras idiotas de hierarquia. O importante, no período de adaptação, era conquistar a colaboração da equipe, sem rusgas, competições ou invejas.
O terceiro leito mantinha a roupa de cama de seu último ocupante, o senhorzinho que acabara de falecer. Ana demorou-se um minuto observando a cama, as manchas do lençol, o travesseiro esmagado bem no meio, onde uma cabeça repousava até há pouco tempo. Seguiu, verificou as condições dos doentes dos outros dois leitos: uma mulher de vinte e três anos com o corpo coberto de feridas que sangravam ao toque e um homem de sessenta com febre, diarreia e as mesmas feridas da mulher, só que menos graves. Recomendou cuidados intensivos, prescreveu pomada anestésica e um analgésico potente.
Amanhã quero o senhor mais disposto, despediu-se e entregou os prontuários para a técnica.
Serviço levinho, nem precisava fazer plantão. Podia dormir na hospedaria, desde que o celular ficasse ligado. De segunda a sexta atendia pacientes no posto de saúde. Logo no primeiro dia, Bete quis fofocar sobre a partida do médico que a antecedeu. Ana achou prudente cortar o assunto e, dessa forma, soube apenas que ele se demitira. O motivo permaneceu uma incógnita e, depois da lição de moral, teria vergonha de perguntar, mesmo que a curiosidade corroesse seus nervos.
Ainda fazia frio quando chegaram ao cemitério. Guardaram a distância protocolar, só se aproximaram da
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