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As aventuras de Pinóquio

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CARLO COLLODI

HISTÓRIA DE

BONE M U

ILUSTRAÇÕES

Carlo Chiostri TRADUÇÃO

Beatriz Magalhães

CO


Copyright © 2021 Autêntica Editora Título original: Le avventure di Pinocchio – Storia di un burattino Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.

edição geral e preparação de texto

Sonia Junqueira revisão

Carolina Lins ilustração de capa

Marcelo Bicalho projeto gráfico

Diogo Droschi diagramação

Christiane Morais de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Collodi, Carlo, 1826-1890 As aventuras de Pinóquio : história de um boneco / Carlo Collodi ; ilustrações Carlo Chiostri ; tradução Beatriz Magalhães. -- 1. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica, 2021. -- (Clássicos Autêntica / coordenação Sonia Junqueira) Título original: Le avventure di Pinocchio: Storia di un burattino ISBN 978-65-5928-088-9 1. Ficção - Literatura infantojuvenil 2. Literatura infantojuvenil I. Chiostri, Carlo. II. Título III. Série. 21-66933

CDD-028.5 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura infantojuvenil 028.5 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129

Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465-4500

São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Sala 309 . Cerqueira César 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468

www.grupoautentica.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br


Sumário

9 CAPÍTULO 1 Como foi que Mestre Cereja, o marceneiro, achou um toco de pau que chorava e ria como um menino 12 CAPÍTULO 2 Mestre Cereja dá o toco de pau ao amigo Gepeto, que tinha tido a ideia de fabricar um boneco extraordinário que soubesse dançar, praticar esgrima e dar saltos mortais 15 CAPÍTULO 3 Gepeto começa logo a fabricar o boneco, a quem dá o nome de Pinóquio. Primeiras travessuras do boneco 21 CAPÍTULO 4 A história de Pinóquio com o Grilo Falante, na qual se vê como as crianças malcriadas se aborrecem ao serem corrigidas por quem sabe mais que elas 24 CAPÍTULO 5 Pinóquio tem fome e procura um ovo para fazer uma omelete, mas no melhor da festa a omelete voa pela janela 26 CAPÍTULO 6 Pinóquio adormece com os pés sobre o fogareiro e, na manhã seguinte, acorda com eles queimados 28 CAPÍTULO 7 Gepeto volta para casa e dá ao boneco o lanche que tinha trazido para si 32 CAPÍTULO 8 Gepeto refaz os pés de Pinóquio e vende a própria casaca para comprar-lhe o Abecedário 36 CAPÍTULO 9 Pinóquio vende o Abecedário para ir ver o Teatro de Bonecos 39 CAPÍTULO 10 Os bonecos reconhecem em Pinóquio um irmão e lhe fazem uma grande festa; mas, no melhor dela, aparece o titereiro ComeFogo, e Pinóquio corre o risco de ter um péssimo fim 42 CAPÍTULO 11 Come-Fogo espirra e perdoa Pinóquio, que então salva da morte o amigo Arlequim


46 CAPÍTULO 12 O titereiro Come-Fogo dá a Pinóquio cinco moedas de ouro para que as entregue a Gepeto, mas, em vez disso, Pinóquio se deixa enrolar pela Raposa e pelo Gato e vai embora com eles 51 CAPÍTULO 13 A Pousada do Camarão Vermelho 55 CAPÍTULO 14 Pinóquio, por não dar atenção aos bons conselhos do Grilo Falante, se encontra com os assassinos 59 CAPÍTULO 15 Os assassinos perseguem Pinóquio e, alcançando-o, logo o penduram em um galho do Grande Carvalho 62 CAPÍTULO 16 A Bela Menina dos Cabelos Azuis recolhe o boneco, coloca-o na cama e chama três médicos para saber se está vivo ou morto 67 CAPÍTULO 17 Pinóquio come o açúcar, mas não quer se medicar. Porém, quando vê os coveiros que o levarão embora, toma o remédio. Depois diz uma mentira, e por castigo seu nariz cresce 73 CAPÍTULO 18 Pinóquio reencontra a Raposa e o Gato, e vai com eles semear as quatro moedas no Campo dos Milagres 78 CAPÍTULO 19 Pinóquio tem as moedas de ouro roubadas e, como castigo, leva quatro meses de prisão 83 CAPÍTULO 20 Libertado da prisão, Pinóquio se prepara para voltar à casa da Fada, mas na estrada encontra uma serpente horrível e acaba preso em uma armadilha 86 CAPÍTULO 21 Pinóquio é preso por um camponês, que o obriga a fingir de cão de guarda em um galinheiro 90 CAPÍTULO 22 Pinóquio descobre os ladrões e, como recompensa por ter sido fiel, é posto em liberdade 94 CAPÍTULO 23 Pinóquio chora a morte da Bela Menina dos Cabelos Azuis, encontra Colombo, que o leva até a beira do mar, e se joga na água para ajudar Gepeto 101 CAPÍTULO 24 Pinóquio chega à Ilha das Abelhas Trabalhadoras e reencontra a Fada


108 CAPÍTULO 25 Pinóquio promete à Fada ser bom e estudar, pois está cansado de ser um boneco e quer virar um menino de bem 112 CAPÍTULO 26 Pinóquio vai com colegas de escola até a beira do mar para ver o terrível Peixe-Cão 116 CAPÍTULO 27 Em uma grande luta entre Pinóquio e os colegas, um deles fica ferido, e Pinóquio é preso pelos guardas 123 CAPÍTULO 28 Pinóquio corre o risco de ser frito na frigideira feito um peixe 128 CAPÍTULO 29 Pinóquio volta para a casa da Fada, e ela lhe promete que no dia seguinte não será mais um boneco, mas um menino. Grande lanche de café com leite para festejar o acontecimento 137 CAPÍTULO 30 Pinóquio, em vez de virar um menino, viaja escondido com seu amigo Pavio para o País dos Brinquedos 142 CAPÍTULO 31 Depois de cinco meses de boa vida, Pinóquio, para sua grande surpresa, sente nascer um belo par de orelhas de burro e vira um burrico, com cauda e tudo 150 CAPÍTULO 32 Nascem orelhas de burro em Pinóquio, e ele vira um verdadeiro burrico e começa a zurrar 157 CAPÍTULO 33 Virando um burrico de verdade, Pinóquio é levado para ser vendido, e o diretor de uma companhia de palhaços o compra para ensiná-lo a dançar e a saltar cercas; mas uma noite ele se fere, e alguém o compra para fazer um tambor com sua pele 166 CAPÍTULO 34 Pinóquio, jogado no mar, é comido pelos peixes e volta a ser um boneco, mas, enquanto nada para se salvar, é engolido pelo terrível Peixe-Cão 173 CAPÍTULO 35 Dentro da barriga do Peixe-Cão, Pinóquio reencontra... Quem? Leia o capítulo e saberá 179 CAPÍTULO 36 Finalmente, Pinóquio deixa de ser um boneco e vira um menino


1. Como foi que Mestre Cereja, o marceneiro, achou um toco de pau que chorava e ria como um menino

–E– Um rei!

ra uma vez...

– Não, errou. Era uma vez um toco de madeira. Não era uma madeira de luxo, mas um simples toco da pilha de lenha, daqueles que colocamos nos fogões e nas lareiras para acender o fogo e aquecer as casas no inverno. Não sei como foi, mas o fato é que um belo dia esse toco de pau apareceu na oficina do velho marceneiro Mestre Antônio, chamado por todos de Mestre Cereja por causa da ponta de seu nariz, sempre lustrosa e vermelha como uma cereja madura. Logo que viu aquele toco de pau, Mestre Cereja alegrou-se todo e, esfregando as mãos de tão contente que estava, murmurou: – Esse toco apareceu em boa hora, serve para eu fazer as pernas de uma mesinha. Dito e feito: pegou logo o machado afiado para começar a tirar a casca e acertar a madeira. Mas, quando ia dar a primeira machadada, ficou com o braço parado no ar, pois ouviu uma vozinha fraca, fraca, que pedia: . 9 .


...ouviu uma vozinha fraca, fraca.

– Não me bata com força! Imagine como ficou o bom e velho Mestre Cereja! Espantado, girou os olhos em torno da oficina para ver de onde podia ter saído aquela vozinha... e não viu ninguém! Olhou debaixo da bancada, ninguém; olhou dentro de um armário que ficava sempre fechado, ninguém; olhou na cesta das aparas e da serragem, ninguém; abriu a porta da oficina, deu uma espiada na rua, ninguém. Ou, quem sabe...? – Já entendi! – pensou então, coçando a peruca. E começou a rir: – Claro que eu imaginei aquela vozinha. Ao trabalho! Pegando de novo o machado, disparou um forte golpe no toco de pau. – Ai! Você me machucou! – reclamou a vozinha. Dessa vez Mestre Cereja ficou pasmo, com os olhos arregalados, a boca escancarada e a língua balançando até o queixo, como uma carranca de chafariz. Logo que recuperou o uso da palavra, começou a dizer, tremendo e gaguejando de espanto: . 10 .


– Mas de onde terá saído essa vozinha?! Se aqui não há vivalma... Será que por acaso esse toco de pau aprendeu a falar e a chorar como um menino?! Eu não posso acreditar nisso! Esse toco é um pau de lenha para lareira, como todos os outros, e, no fogo, daria para ferver uma panela de feijão... Ou, quem sabe, tem alguém escondido dentro dele?! Se tem, tanto pior. Dou um jeito nele agora mesmo! E, dizendo isso, agarrou com as duas mãos o pobre toco de pau e, sem dó nem piedade, começou a bater com ele nas paredes da oficina. Depois ficou escutando, para ouvir se alguma vozinha reclamava. Esperou dois minutos, e nada; cinco minutos, e nada; dez minutos, e nada! – Agora entendi de uma vez por todas! – pensou, coçando de novo a peruca. Mas, dessa vez, teve de se esforçar para rir: – Está mais do que claro que imaginei a tal vozinha dizendo ai! Ao trabalho! E porque tinha ficado com um medo enorme, tentou cantarolar para criar um pouco de coragem. Entretanto, deixando de lado o machado, pegou a plaina para acertar e alisar o toco de pau, mas, enquanto deslizava a ferramenta para cima e para baixo, ouviu a vozinha, que disse, rindo: – Pare! Está me fazendo cócegas! Dessa vez, o pobre Mestre Cereja desmaiou de susto. Quando reabriu os olhos, estava sentado no chão. Seu rosto não parecia o mesmo, e a ponta do nariz, sempre vermelha, estava azul de tanto medo.

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2. Mestre Cereja dá o toco de pau ao amigo Gepeto, que tinha tido a ideia de fabricar um boneco extraordinário que soubesse dançar, praticar esgrima e dar saltos mortais

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aquele momento, bateram na porta. – Entre! – disse o marceneiro, sem força para ficar de pé. Quem entrou na oficina foi um velhote muito ágil, chamado Gepeto. As crianças da vizinhança, quando queriam provocar muita raiva nele, o chamavam de Polenta, por causa de sua peruca amarela, que parecia muitíssimo com uma polenta feita de milho. Gepeto era muito bravo. Ai de quem o chamasse de Polenta! Virava uma fera, e não havia mais como segurá-lo. – Bom dia, Mestre Antônio. O que faz no chão? – Ensino tabuada às formigas. – Boa sorte nessa tarefa! – O que o trouxe aqui, Compadre Gepeto? – Minhas pernas, Mestre Antônio. Vim lhe pedir um favor. – Estou aqui, pronto para servi-lo – disse o marceneiro, ficando de pé. – Esta manhã, tive uma ideia. – Que ideia? – Pensei em fabricar um belo boneco de pau, mas um boneco extraordinário, que Um velhote muito ágil, saiba dançar, praticar esgrima chamado Gepeto. . 12 .


e dar saltos mortais. Com esse boneco, quero andar pelo mundo, para ganhar um naco de pão e um copo de vinho. O que acha disso? – Bravo, Polenta! – gritou a vozinha que não se sabia de onde vinha. Ao ser chamado de Polenta, Compadre Gepeto ficou vermelho feito um pimentão e, virando para o marceneiro, disse, furioso por causa do atrevimento: – Por que me ofende? – Quem está ofendendo você? – Você, que me chamou de Polenta! – Não fui eu. – Então, por acaso, fui eu mesmo?! Foi você, sim! – Não! – Sim! – Não! – Sim! E, cada vez mais furiosos, das palavras os dois partiram para a ação e se atracaram, se unharam, se morderam e se rasgaram. Terminada a luta, Mestre Antônio tinha na mão a peruca amarela de Gepeto, e Gepeto tinha na boca a peruca cinza do marceneiro. – Devolva minha peruca! – gritou Mestre Antônio. – E você devolva a minha, e vamos fazer as pazes. Os dois velhotes, depois de cada um ter recuperado a própria peruca, apertaram as mãos e juraram ser bons amigos por toda a vida. – Então, Compadre Gepeto, o que quer de mim? – disse o marceneiro, em sinal de que tinham mesmo feito as pazes. – Quero um toco de pau para fabricar meu boneco. Pode me dar? Mestre Antônio, todo contente, foi logo pegar aquele pedaço de pau que lhe causara tanto medo. Mas quando ia entregá-lo ao amigo, o toco deu um pinote e, escapando violentamente das mãos do Mestre, foi bater com força nas canelas magricelas do pobre Gepeto. – Ah! É dessa bela maneira, Mestre Antônio, que você me dá essa coisa? Você quase me estropiou!... – Juro que não fui eu! – Então fui eu, por acaso?! – A culpa é toda desse toco... . 13 .


– Sei que é do toco, mas foi você que o atirou nas minhas pernas! – Eu não atirei nada! – Mentiroso! – Gepeto, não me ofenda, senão chamo você de Polenta!... – Asno! – Polenta! – Burro! – Polenta! – Macaco feio! – Polenta! Ao ser chamado de Polenta pela terceira vez, Gepeto ficou cego de raiva, avançou sobre o marceneiro... e os dois se pegaram com unhas e dentes. Terminada a batalha, Mestre Antônio se viu com dois arranhões a mais no nariz, e Gepeto, com dois botões a menos no casaco. Com as contas assim empatadas, apertaram as mãos e juraram ser bons amigos por toda a vida. Então Gepeto pegou o bravo toco de pau e, agradecendo ao Mestre Antônio, voltou mancando para casa.

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3. GEPETO COMEÇA LOGO A FABRICAR O BONECO, A QUEM DÁ O NOME DE PINÓQUIO. PRIMEIRAS TRAVESSURAS DO BONECO

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casa de Gepeto era um quartinho térreo que recebia luz de um vão de escada. A mobília não podia ser mais simples: uma cadeira ruinzinha, uma cama nada boa e uma mesinha toda arruinada. Na parede do fundo, via-se uma lareira com fogo aceso, mas o fogo era só um desenho, e perto dele estava pintada uma panela que fervia alegremente e soltava para o ar uma nuvem de fumaça que parecia fumaça de verdade. Assim que entrou em casa, Gepeto pegou as ferramentas e logo começou a entalhar o toco para fabricar seu boneco. – Que nome vou dar a ele? Já sei, vou chamá-lo de Pinóquio. Conheci uma família inteira de Pinóquios: Pinóquio, o pai, Pinóquia, a mãe, e os filhos Pinóquios. O mais rico deles ainda era pobre. E todos viviam bem. Esse nome trará sorte a ele – disse para si mesmo. Quando encontrou o nome para o boneco, Gepeto se animou mais a trabalhar, e logo fez os cabelos, depois a cara, depois os olhos. Feitos os olhos, imagine a surpresa do velhote quando se deu conta de que se moviam – mas, naquele momento, estavam parados, imóveis, olhando para ele. Gepeto, percebendo o olhar dos dois olhos de pau, quase passou mal e perguntou, incomodado: – Olhões de pau, por que me olham? Ninguém respondeu. Depois dos olhos, Gepeto fez o nariz, mas, assim que ficou pronto, o nariz começou a crescer – e cresceu, e cresceu, e cresceu! Em poucos minutos, era um narigão que não acabava nunca. O pobre Gepeto já estava cansado de tanto entalhar, e, quanto mais entalhava e cortava, mais aquele nariz impertinente espichava. . 15 .


Quanto mais entalhava e cortava, mais aquele nariz impertinente espichava.

Depois do nariz, começou a boca. Ela ainda não estava pronta quando se pôs a rir e a zombar dele. – Pare de rir! – disse Gepeto, irritado, mas foi como falar com um muro. – PARE DE RIR, REPITO! – gritou, com voz ameaçadora. Então a boca parou de rir, mas botou a língua toda para fora. Gepeto, para não estragar seu dia, fingiu não notar e continuou a trabalhar. Depois da boca fez o queixo, depois o pescoço, depois os ombros, a barriga, os braços e as mãos. Terminadas as mãos, Gepeto sentiu a peruca ser tirada de sua cabeça. Olhou para cima da bancada... e o que viu? Sua peruca amarela na mão do boneco. – Pinóquio!... Devolva já minha peruca! Mas Pinóquio, em vez de devolver, colocou a peruca na própria cabeça, ficando meio sufocado debaixo dela. . 16 .


Com aquele gesto atrevido e debochado, Gepeto ficou triste e desanimado como nunca tinha ficado na vida e, virando-se para Pinóquio, disse: – Filho moleque! Ainda não está pronto e já está faltando com o respeito ao seu pai! Mal, meu filho, começou mal!

Mas Pinóquio, em vez de devolver, colocou a peruca na própria cabeça...

E enxugou uma lágrima. Faltava ainda fazer as pernas e os pés. Quando acabou de fazer os pés, Gepeto sentiu um chute na ponta de seu nariz. – Eu mereço! Devia ter pensado nisso antes! Agora é tarde! – disse para si mesmo. Então pegou o boneco por debaixo dos braços e o colocou no chão, para fazê-lo caminhar. . 17 .


– Peguem aquele boneco! Peguem aquele boneco! – gritava Gepeto.

Pinóquio tinha as pernas travadas, não sabia se mover, e Gepeto conduziu-o pela mão para ensiná-lo a dar um passo depois do outro. Quando suas pernas se destravaram, Pinóquio começou a caminhar e a correr pelo quarto, até que, passando pela porta de casa, pulou para a rua e fugiu. O pobre Gepeto corria atrás sem poder alcançá-lo, pois o levado do Pinóquio ia aos pulos, como um coelho, e, batendo os pés de pau no calçamento da rua, fazia o barulho de vinte pares de tamancos. – Peguem aquele boneco! Peguem aquele boneco! – gritava Gepeto. Mas as pessoas que andavam pela rua, vendo aquele boneco de pau que corria feito um cavalo de corrida, paravam para olhá-lo, encantadas, e riam, riam e riam até não poderem mais. Afinal, e por sorte, apareceu um guarda que, ouvindo toda aquela algazarra e acreditando tratar-se de um rapazote que tivesse levantado a mão para bater no patrão, plantou-se corajosamente . 18 .


no meio da rua, de pernas abertas, decidido a pará-lo para impedir maiores desgraças. No entanto, Pinóquio, notando de longe que o guarda barrava toda a rua, planejou passar de surpresa entre suas pernas – mas falhou. O guarda, sem nem se mover, agarrou-o gentilmente pelo nariz (era um narigão despropositado, que parecia feito de propósito para ser agarrado pelos guardas) e o colocou nas mãos de Gepeto. Que, como corretivo, queria dar logo um bom puxão de orelhas no boneco, mas imagine como ficou quando, ao procurar as orelhas, não conseguiu encontrá-las. E sabe por quê? Porque, na pressa de entalhar o boneco, tinha se esquecido delas!

...agarrou-o gentilmente pelo nariz... . 19 .


Gepeto segurou Pinóquio pela nuca e, enquanto o levava de volta, disse, sacudindo ameaçadoramente a cabeça: – Vamos logo para casa. Lá, não duvide, acertaremos nossas contas! Ouvindo essa falação, Pinóquio se atirou no chão e não quis mais caminhar. Enquanto isso, os curiosos e os desocupados, parando em volta dos dois, começavam a fazer fofoca. Esse dizia uma coisa, aquele, outra. Alguém comentou: – Pobre boneco! Tem razão em não querer voltar para casa! Quem sabe como o trataria esse brutamontes do Gepeto!... Outro acrescentou maldosamente: – Aquele Gepeto parece um homem de bem, mas é um verdadeiro tirano com as crianças! Se deixam aquele pobre boneco em suas mãos, é muitíssimo capaz de picá-lo em pedacinhos! Afinal, tanto disseram e tanto fizeram, que o guarda deixou Pinóquio em liberdade e levou para a prisão o pobre Gepeto, que, não tendo palavras para se defender, chorava como um bezerrinho e, ao entrar na cela, resmungava, soluçando: – Filho desalmado! E pensar que penei tanto para fazer um boneco de bem! Mas é culpa minha! Devia ter pensado nisso antes!... O que aconteceu depois é uma história muito estranha, daquelas difíceis de acreditar, e vou contá-la nos próximos capítulos.

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