Foto: Arnold S.
9 788582 358801
1977, em Bordeaux, onde ainda reside, é uma autora cujo trabalho tem encantado leitores ao redor do mundo. Seus livros, traduzidos para mais de vinte idiomas, são marcados por personagens cativantes e por uma escrita poética e sensível. As histórias que ela cria, ao mesmo tempo leves e emocionantes, refletem a vida de maneira profunda. Virginie é a escritora francesa mais lida em seu país nos últimos três anos, segundo o jornal Le Figaro, Figaro, e recebeu o prêmio de Autora Favorita dos Franceses em 2022, concedido pela France Télévisions.
A autora mais lida da França.
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Maior que o céu
VIRGINIE GRIMALDII, nascida em
Elsa organiza despedidas todos os dias, mas não sabe o que fazer quando chega a sua hora de dizer adeus. Desde que o pai faleceu, ela atravessa as horas como quem veste um casaco de chumbo, refugiada em seu humor ácido, em suas cachorras e nas sessões com o psiquiatra. Vincent é um escritor de sucesso que faz todo mundo rir, menos a si mesmo. Depois de um escândalo com seu editor e de uma história de amor bruscamente interrompida, ele vive em permanente insônia, culpado por seguir em frente e cada vez mais preso ao passado. Todas as quartas, Elsa e Vincent se cruzam na sala de espera do dr. Chaumet. Ela chega atrasada, ele cedo demais; ela esconde as lágrimas com piadas, ele disfarça o sofrimento com histórias. Entre tempestades, trens cancelados e noites em claro, esses dois desconhecidos vão descobrir que o consolo, às vezes, tem as feições de alguém tão perdido quanto você.
VIRGINIE GRIMALDI
ISBN 978-85-8235-880-1
MAIOR que o céu
VIRGINIE GRIMALDI
Elsa conhece a morte de perto: agente funerária, ela vê famílias despedaçadas escolherem flores, urnas e palavras de despedida. Desde que perdeu o pai, porém, é como se tivesse enterrado também a própria leveza. O sono virou refúgio, a culpa tornou-se companhia constante e o humor – essa linguagem que inventou para devolver o sorriso ao rosto do pai – passou a ser sua melhor armadura. Vincent, por sua vez, é o autor queridinho das feiras literárias e das vitrines, um homem que vive de emocionar os outros com suas histórias. O que ninguém vê é o preço desse brilho: noites em claro, uma depressão que finge não ter e um sentimento persistente de impostor, como se nunca tivesse deixado de ser o garoto da periferia cuja mãe limpava hospitais enquanto ele sonhava com livros. Elsa e Vincent se encontram todas as quartas na sala de espera do dr. Chaumet. Primeiro, são apenas dois desconhecidos que mal trocam olhares e dão respostas atravessadas, cada um agarrado à própria dor. Até que uma tempestade interrompe a circulação dos trens e empurra Vincent para a porta da casa de Elsa. Ao abordar terapia, depressão, alcoolismo, maternidade solo, homofobia na adolescência, diferenças de classe e amores interrompidos, Virginie Grimaldi constrói um romance que faz rir em uma página e chorar na seguinte. Maior que o céu é uma história sobre sobreviver às próprias tempestades, honrar quem se foi e, ainda assim, ter coragem de amar de novo.
VIRGINIE GRIMALDI
MAIOR QUE O CÉU
TRADUÇÃO:
Julia da Rosa Simões
Copyright © 2024 Virginie Grimaldi, Flammarion Copyright desta edição © 2027 Editora Gutenberg Título original: Plus grand que le ciel Todos os direitos reservados pela Editora Gutenberg. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
editora responsável
revisão
Flavia Lago
Flavia Lago
editora assistente
ilustração de capa
Natália Chagas Máximo
Paula de Aguiar
preparação de texto
diagramação
Andréia Manfrin
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Grimaldi, Virginie Maior que o céu / Virginie Grimaldi ; tradução de Julia da Rosa Simões. -- 1. ed. -- São Paulo : Gutenberg, 2027. Título original: Plus grand que le ciel ISBN 978-85-8235-880-1 1. Romance francês I. Título. 26-369884.0
CDD-843 Índices para catálogo sistemático: 1. Romances : Literatura francesa 843 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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A meu pai.
Eu gostaria que você estivesse aqui Que você batesse à minha porta Você me diria: sou eu Adivinha o que eu trouxe E você me traria você.
Boris Vian, Canção de ninar para os ursos que não estão aqui
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Elsa Ah? Está bem. Bom, eu me chamo Elsa, tenho 42 anos. Tenho um filho de 15 anos, Tristan. Ele acabou de terminar o ensino fundamental. Que coisa, é sempre por ele que começo a me definir quando preciso me apresentar. Eu poderia dizer que tenho um irmão mais novo, que estou sempre com frio, que gosto de sorvete de menta com chocolate, de séries suecas, de ouvir podcasts, que sei de cor letras de músicas que não ouço há vinte anos, que posso passar horas observando o vento nas folhas, que tenho duas cachorras e um gato, que reprovei duas vezes na prova de habilitação, que sou alérgica a frutos do mar, que odeio flores cortadas, que tenho uma paixão por pontes e portas, que adoro pão com sementes de papoula, mas que as sementes de papoula adoram se enfiar entre meus dentes, que lembro o nome dos meus colegas da primeira série, mas que posso esquecer o que fui comprar na Leroy Merlin, que sou divorciada há sete anos e amiga do meu ex, e mesmo assim, toda vez que preciso me apresentar a alguém, já aviso de cara que sou mãe de família. Essa se tornou uma das minhas principais características, como a cor dos meus olhos ou a minha altura. … Eu também preciso dizer que não é a primeira vez que consulto um psiquiatra. Meus pais me levaram para ver um quando eu tinha 9 ou 10 anos, porque eu não suportava a ideia de ficar longe deles. Nem quando ia dormir na casa dos meus avós, que moravam do outro lado do corredor e sempre ficavam com meu 9
irmão, eu ficava tranquila. Isso se tornou um verdadeiro problema no dia da viagem da escola para uma estação de esqui, na quarta série. Eu gritei tanto que desmaiei. Fiquei em casa. Lembro que o psiquiatra tinha um artefato hipnótico em cima da mesa, aquelas esferas que ficam colidindo umas nas outras em moto-contínuo, e ele falava com uma voz suave, profunda. Tenho a impressão de que o senhor fala pouco, não? … Enfim, logo me senti segura na sala do psiquiatra – ainda mais porque minha mãe estava na sala de espera. Me sentei na frente dele, que não perdeu tempo: – O que você teme, no fundo, quando fica longe dos seus pais? Respondi que não sabia direito, que talvez tivesse medo de nunca mais voltar a vê-los. Ele entrelaçou as mãos sobre o ventre e disse, com a maior naturalidade do mundo, entre o choque de duas bolinhas: – Você sabe que eles vão morrer um dia? … Eu nunca mais quis voltar. Encontrei o senhor na internet, procurando direto no mapa. Moro no fim da rua, é prático. Além disso, o senhor tem boas avaliações, exceto uma que diz que nunca está no horário, mas quem sou eu para falar: estou sempre atrasada, por mais que me esforce. É quase fisiológico, já desisti de lutar. Cheguei atrasada na prova oral de conclusão do ensino médio e em todos os encontros da minha vida. Não cheguei no horário para o meu casamento e muito menos para assinar os papéis do divórcio. Na verdade, estou atrasada desde que nasci, dois dias depois do previsto. Meus amigos me conhecem, sempre marcam um horário mais cedo comigo quando saímos – spoiler: não funciona. O único que não consegue se acostumar é meu chefe. 10
Bem, atualmente isso não é um problema, já que estou de licença médica. É por isso que estou aqui, na verdade. Sou consultora funerária, trabalho na mesma empresa há mais de dez anos. É uma empresa familiar, e isso faz toda a diferença: trabalhei vários meses para uma rede nacional, e lá faltava o lado humano que eu buscava nessa profissão. Gosto do meu trabalho. Gosto mesmo. Quando as pessoas entram na loja, é porque acabaram de perder um ente querido. É um tanto brutal, elas mal têm tempo de assimilar a notícia e já precisam lidar com trâmites burocráticos. Elas estão sensíveis, vulneráveis, e a menor contrariedade pode ser sentida como uma agressão. Uma mulher que havia perdido o marido me disse um dia: “Eu queria sair por aí com um cartaz: Frágil, manusear com cuidado”. Eu me esforço para oferecer suavidade, gentileza, atenção. Quero respeitar a dor das pessoas. Costumo ouvir bastante: “Era uma boa pessoa, sabe?”, como se precisassem que eu soubesse, eu, uma simples desconhecida, que aquela pessoa não era um morto qualquer. Não estou nem aí se vendo o caixão mais caro ou a lápide que dá maior lucro, o que realmente me faz sentir útil, o que dá sentido à minha vida, é ajudar as pessoas a dizerem adeus. Histórias trágicas, já vi aos montes. Mortos, me deparei com muitos. A gente acaba se acostumando. No começo, eu ficava impressionada, até achei que precisaria mudar de carreira, mas, no fim das contas, o mais difícil não são os corpos. O mais difícil é a dor. Não consigo me acostumar. Sempre levo um pouco dela comigo ao ir embora. Faz duas semanas que não volto lá. Eu até que tinha me saído bem. O retorno foi um pouco difícil nos primeiros dias, mas mergulhei no trabalho, voltei aos meus rituais, meus hábitos. Até retomei a corrida e as aulas de inglês. A vida tinha voltado ao normal. 11
… Eu estava na padaria quando aconteceu. Era quase a minha vez de ser atendida, eu repetia mentalmente a frase que ia dizer, como sempre faço quando preciso falar com alguém: “Bom dia, uma baguete mais clara, por favor”. E então, na frente dos croissants de manteiga, senti uma dor no peito. Como se algo tivesse quebrado, em algum lugar, foi como se eu estivesse me rasgando. Comecei a chorar. Depois, virou uma vertigem, um buraco imenso que me engoliu por inteiro. Eu não conseguia respirar, pensei que aquilo nunca iria parar. Voltei para casa sem a baguete, sem enxergar nada e, desde então, só tenho dormido. Não deixa de ser estranho. Todo mundo dizia que eu estava reagindo bem. É isso, faz dois meses que meu pai morreu, e é a primeira vez que consigo dizer essa frase. Acha que pode me ajudar?
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Vincent Bom. Manon foi embora. Ela levou suas roupas, seus cremes, seus livros, os pôsteres emoldurados, minha mesinha de centro, as velas, a cômoda, a louça, até o lustre da sala. Estou sozinho, no escuro, comendo com as mãos, e não dou a mínima. Olho para minha vida como se fosse um filme. Uma versão mal dublada em que não sou sequer o herói. Acho que se tivesse acontecido com meu vizinho, eu me comoveria um pouco mais. Ela bem que tentou me fazer reagir, oscilando entre a gentileza e a agressividade, mas eu via as lágrimas enchendo seus olhos e só conseguia pensar em uma coisa: que ela fosse embora. Que aquilo acabasse logo. Eu me ouvia dizendo “sinto muito” e tinha plena consciência de que não era suficiente. A gente diz que sente muito quando pisa no pé de alguém, chega atrasado, perde uma ligação, não gosta de um prato de macarrão. Eu poderia, no máximo, sentir muito por ela levar minha mesinha de centro. Mas sabotar um relacionamento, deixar um amor se consumir como um cigarro mal apagado, fazer sofrer a pessoa que prometemos nunca ferir – isso merece mais do que um simples “sinto muito”, não é mesmo? Caramba, faz seis meses que venho aqui uma vez por semana e ainda não faço ideia do que o senhor pensa. Não sei muito bem para que serve tudo isso. Toda vez me convenço de que vai ser a última. E acabo voltando. Só para ficar falando sozinho e pagar a sessão no final. Bem caro esse monólogo. … 13
Ontem, encontrei um amigo da época do ensino médio, Max. A gente se dava bem, estudamos na mesma turma do primeiro ao último ano. Nossos sobrenomes ficavam um atrás do outro, fizemos o exame final nas mesmas salas. Nos encontrávamos nos mesmos shows, frequentávamos os mesmos bares, com os mesmos amigos. Ele dirigia um velho Fiat Uno que nem tinha mais cor, de tantos adesivos que cobriam o carro. Ele era o cara descolado, de calças coloridas e cigarro na orelha, sempre fazendo piadas, mas sempre ouvindo os outros. Todo mundo gostava dele. Passou no exame final com distinção, honrando o compromisso com os pais, jogou algumas coisas numa mochila e foi dar a volta ao mundo. Recebi notícias dele por dois ou três anos, depois sumiu. Fiquei surpreso quando recebi uma mensagem no Facebook. Marcamos de nos encontrar num bar de que gostávamos. Quase não o reconheci. Vi em seu rosto os vinte e cinco anos que tinham se passado. Ele ainda bebe cerveja, ainda tem o mesmo sorriso que fazia todas se derreterem. Eu tinha um pouco de inveja, na época. Ele agia sobre mim como uma capa da invisibilidade, bastava estar ao meu lado para que ninguém me notasse. Seu olhar, por outro lado, havia mudado. Era o mesmo verde, os mesmos cílios negros, mas alguma coisa já não brilhava mais. A mesma ausência que percebo toda vez que me vejo no espelho. Ele me contou sobre os anos em que ficamos sem nos ver. Tailândia, Índia, Nepal, Vietnã, Mongólia, onde viveu por um tempo. O retorno à França, dez anos atrás, o reencontro com Isabelle Damier, a morena da primeira fila. Eles se casaram, tiveram dois filhos, ele a traiu com quase toda a cidade. Ela o perdoou uma vez, três vezes, seis vezes, depois pediu o divórcio. Ele pediu demissão, foi morar com os pais e escondeu seus bens mais preciosos. Estava orgulhoso do que tinha feito: “Aquela vadia não ia ficar com meu dinheiro de jeito nenhum. Dou o mínimo.” 14
Para resumir: ele trai todas as novas namoradas, vê os filhos um fim de semana sim, outro não, reclama de ter que se ajustar às datas das férias escolares e não suporta os próprios pais. Passou a noite falando mal da ex-mulher que destruiu sua vida. Não perguntou uma única vez como eu estava. Ao voltar para casa, senti um certo prazer em perceber que ele tinha se tornado um imbecil (é impressionante como a decadência dos outros nos tranquiliza sobre nossa própria mediocridade). Mas o que mais me deu vontade de vomitar foi o fato de ele realmente acreditar que a culpa é da ex. Para não pagar pensão alimentícia, o cara prefere abrir mão do trabalho que gosta, não ter um tostão, viver aos 45 anos no mesmo quarto em que passou a adolescência, comer a sopa da mamãe todas as noites assistindo ao telejornal, e tudo por culpa dela. Entende? Ele é sincero na própria imbecilidade. Como alguém pode distorcer tanto a realidade, inventar toda uma outra história, em vez de olhar para si mesmo? Preferimos transformar um inocente em culpado, desde que não sejamos nós. … Eu em primeiro lugar. … Talvez seja bom o senhor não dizer nada, no fim das contas. Minha consciência tem gritado demais comigo ultimamente, prefiro me abrir com o senhor do que com ela. Estou contando tudo isso porque a história de Max é apenas o reflexo da minha. Preciso admitir, doutor: no reino dos imbecis, sou o que usa a coroa.
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O consultório ficava no terceiro andar, sem elevador. Apesar de seus notáveis esforços de desafiar os limites do tempo, Elsa estava apenas cinco minutos atrasada. Ela entrou no prédio, deixando para trás o calor pegajoso de julho. Ela havia hesitado em voltar. Marcara a consulta depois de assistir, fascinada, a uma série sobre um psiquiatra e seus pacientes. Era exatamente o que ela precisava, alguém que fizesse as perguntas certas e desse as respostas certas. Mas a primeira sessão a deixara perplexa. O psiquiatra não falava, não reagia, e ela chegara a se perguntar se ele estava respirando. Voltara para casa decidida a nem aparecer no próximo encontro. Pagar tão caro por três piscadelas de olho? Sinceramente, seria mais barato – e igualmente eficaz – comprar uma planta. Seu irmão Clément é que a havia convencido: “Elsa, você precisa fazer alguma coisa, e não estou falando só do seu hálito e das suas olheiras. Se você topasse com Hannibal Lecter, ele é quem levaria um susto”. Ela então concordara em alterar sua empolgante rotina de passar horas afundada no sofá, controle remoto na mão, assistindo a programas que não mobilizavam nenhum neurônio. A porta era exatamente igual à da frente. Nenhuma placa indicava que um psiquiatra atendia lá dentro. Só o capacho gasto indicava que o lugar era visitado com frequência, e um adesivo convidava a tocar a campainha e entrar. Elsa obedeceu e fechou a porta atrás de si. A sala era pequena e escura. Não se esperaria outra coisa de uma sala de espera de um psiquiatra. A janela dava para a 16
rua, pouco movimentada. Sobre um papel de parede azul claro, um cartaz indicava os honorários e informava que toda sessão não cancelada com quarenta e oito horas de antecedência seria cobrada. Elsa se alegrou de não ter desistido, se sentou em uma poltrona e tirou o celular da bolsa. Na tela bloqueada, uma foto de seu filho e de seu pai, que ela dispensou com a ponta do dedo antes que sua mente se perdesse. Um alto-falante tocava um velho clássico de jazz que a fazia querer cortar os pulsos com o papel de parede. No Instagram, ela assistia a um vídeo de um urso nadando na piscina de um cidadão estadunidense totalmente atônito com a situação. O som da campainha a fez pular. Ela se encolheu. Vincent entrou, murmurou um cumprimento educado e se sentou na poltrona mais distante da dela. Elsa consultou a hora no celular. Sua consulta estava dez minutos atrasada, não havia dúvida. Aquele homem não deveria estar ali, ela não deveria esbarrar com ninguém, esperava um mínimo de discrição. Se quisesse que todos soubessem que precisava de um psiquiatra, andaria com uma caixa de antidepressivos na mão, o que não era – ainda – o caso. Além disso, aqueles tênis altos e aquele moletom com capuz a incomodavam. Ele a observava, ela sentia, a presença dele a deixava nervosa. – Tem horas? – ele perguntou. – Não – ela respondeu, sem pensar. – Talvez pudesse olhar no seu celular ou no seu relógio? – ele sugeriu, sorrindo. Elsa levantou o pulso, olhou o relógio e retrucou: – Cedo demais, você chegou adiantado. – Preciso pegar o trem para vir – ele explicou –, é difícil prever o tempo de todos os deslocamentos e… – Imagino que seu horário seja depois do meio-dia? – Sim, isso mesmo. Detesto me atrasar e, na semana passada, o trem teve um… 17
– Maravilha – ela o interrompeu. – Agora que já socializamos, você se importa de me deixar ler em paz? Ela voltou à rolagem dos vídeos inúteis. Vincent suspirou de frustração. Ele se levantou e olhou pela janela, para a rua, além dos telhados, até a espessa floresta de pinheiros que se estendia até onde os olhos alcançavam. Ele não esperava chegar tão cedo. Era a primeira vez que encontrava alguém naquela sala. Na semana seguinte, pegaria o próximo trem. A porta do consultório se abriu, vozes se desejaram um bom-dia, uma silhueta passou diante da porta de vidro da sala de espera. Elsa se levantou. – Obrigado pela gentileza – disse Vincent. – Foi um prazer! Ela saiu sem lhe dirigir um olhar e sem dizer uma palavra.
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