Foto: GAP
Karl Marx
“Sua atividade aparece como tormento, sua própria criação como um poder estranho, sua riqueza como pobreza, o laço essencial que o liga aos outros homens como inessencial; sua vida como sacrifício, seu poder sobre o objeto como o poder do objeto sobre ele”. Excertos de James Mill
Marcello Musto é professor de
Sociologia na York University, em Toronto. Em português publicou as monografias O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (2018); Repensar Marx e os marxismos: guia para novas leituras (2022); e Karl Marx: biografia intelectual e política (2023). É também o organizador da coletânea O primeiro rascunho de O Capital de Marx: história da gênese e da recepção dos Grundrisse (2026) e das antologias Trabalhadores, univos! (2014) e O essencial de Marx e Engels (2024). Seu trabalho foi traduzido para 25 idiomas e muitos de seus escritos estão disponíveis em www.marcellomusto.org.
“Na medida em que o processo de produção é processo de valorização, o capitalista nele se apropria do trabalho vivo como força vital do capital. Este se torna um monstro vivo e começa a agir ‘como se tivesse amor em seu corpo’”. O Capital. Capítulo VI (inédito)
Escritos sobre a alienação
“O caráter social da atividade aparece como algo estranho, reificado, em oposição aos indivíduos; não como sua relação uns com os outros, mas como sua subordinação a relações que existem independentemente deles e que se originam da interação de indivíduos indiferentes entre si”. Grundrisse
Karl Marx
Escritos sobre a alienação Marcello Musto (Org.)
“Uma determinada relação social entre os próprios seres humanos assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Na região nebulosa do mundo da religião os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria. Assim acontece com os produtos da mão humana no mundo das mercadorias. A isso eu chamo O Capital o fetichismo”. “Com Marx, a teoria da alienação saiu dos textos dos filósofos e das salas de aula universitárias para irromper nas praças, por meio das lutas operárias, e se tornar crítica social”. Marcello Musto, Introdução APOIO:
ISBN 978-65-5928-766-6
9 786559 287666
COLEÇÃO ALTERNATIVAS AO CAPITALISMO
A teoria da alienação ocupa um lugar de destaque na obra de Marx e, há muito tempo, é considerada uma de suas contribuições mais importantes para a crítica da sociedade burguesa. Por meio dos conceitos de trabalho estranhado, subsunção do trabalho ao capital e fetichismo da mercadoria, Marx desvelou os mecanismos de exploração da classe trabalhadora na sociedade capitalista. Esta é a primeira antologia jamais publicada, em âmbito internacional, a reunir sistematicamente os escritos de Marx sobre a alienação, abrangendo diferentes momentos de sua trajetória intelectual. No passado, a maior parte dos estudos sobre esse tema baseou-se em seus textos de juventude. Neste livro, ao contrário, a atenção se concentra principalmente nos escritos econômicos de Marx, nos quais suas reflexões alcançam um grau de elaboração muito superior ao dos primeiros estudos filosóficos. Além disso, a denúncia da nova forma de escravidão imposta pelo capital é frequentemente acompanhada de valiosas indicações sobre a sociedade comunista por ele concebida. Do conjunto desses textos, emerge um autor para quem as formas de dominação constituem dimensões centrais das relações sociais modernas. A leitura das melhores páginas de Marx sobre a alienação na sociedade capitalista oferece um precioso instrumento crítico, tanto para a compreensão do passado quanto para a transformação do presente.
Coleção Alternativas ao Capitalismo Coordenação: Marcello Musto, York University, Canadá
A coleção Alternativas ao Capitalismo tem como objetivo abordar as principais questões do capitalismo e indicar possíveis alternativas para transformar a sociedade. Reúne monografias, volumes organizados, antologias e traduções de obras previamente publicadas em outros idiomas, por prestigiados especialistas internacionais, nas áreas das ciências sociais e das humanidades. Os livros apresentam investigações originais sobre questões contemporâneas, expandem os limites das interpretações aceitas e da literatura existente, colocam diferentes conceitos e pensadores em novas relações e inspiram conversas significativas para os dias de hoje. Eles provêm de uma ampla gama de perspectivas políticas, disciplinas acadêmicas, contextos culturais e áreas geográficas, produzindo uma coleção inovadora e plural. Títulos publicados O primeiro rascunho de O Capital de Marx História da gênese e da recepção dos Grundrisse
Marcello Musto (Org.)
Em nome da liberdade Uma crítica socialista democrática ao regime neoliberal de Estado
Juarez Guimarães Friedrich Engels Ontem e hoje
Terrell Carver
Karl Marx: Escritos sobre a alienação
Marcello Musto (Org.)
Título em preparação O fetichismo e sua história
Alfonso Iacono
Saiba mais
Karl Marx
Escritos sobre a alienação Marcello Musto (Org.)
COLEÇÃO ALTERNATIVAS AO CAPITALISMO
APOIO:
Copyright da organização © 2026 Marcello Musto Copyright desta edição © 2026 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora Ltda. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. diretora editorial
Rejane Dias editora responsável
Cecília Martins revisão
Lívia Martins capa
Diogo Droschi (Sobre estudo de William Morris, Kennet, c. 1920. Tecido de algodão estampado, produzido em Merton Abbey, Inglaterra. Acervo do Cleveland Museum of Art/Rawpixel.) diagramação
Guilherme Fagundes
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Marx, Karl, 1818-1883 Karl Marx : escritos sobre a alienação / Marcello Musto (org.) ; [tradução Leonardo de Deus]. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2026. -- (Alternativas ao Capitalismo, vol. 4) ISBN 978-65-5928-766-6 1. Economia marxista 2. Marx, Karl, 1818-1883 - Crítica e interpretação 3. Marxismo I. Musto, Marcello. II. Título. III. Série. 26-373106.0
CDD-335.4 Índices para catálogo sistemático: 1. Marxismo : Economia 335.4 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
Belo Horizonte Rua Carlos Turner, 420 Silveira . 31140-520 Belo Horizonte . MG Tel.: (55 31) 3465 4500
São Paulo Av. Paulista, 2.073 . Conjunto Nacional Horsa I . Salas 404-406 . Bela Vista 01311-940 . São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468
www.grupoautentica.com.br SAC: atendimentoleitor@grupoautentica.com.br
Nota editorial
7
Traduzir o Marx da teoria da alienação: as armadilhas de um léxico em disputa
9
Marcello Musto
Introdução Uma releitura marxiana do conceito de alienação
47
Marcello Musto
Parte I. Primeiros escritos filosóficos e políticos 1.
Manuscritos econômico-filosóficos de 1844
115
2.
Excertos do livro de James Mill Élémens d’économie politique
125
3.
A sagrada família
131
4.
A ideologia alemã
133
5.
Trabalho assalariado e capital
135
6.
Discurso para o aniversário de The People’s Paper
139
Parte II. Dos Grundrisse às Teorias do mais-valor 7.
8.
9.
Grundrisse. Esboços da crítica da economia política
145
Texto original de Para a crítica da economia política
183
Para a crítica da economia política. Manuscrito de 1861-1863
187
10. Teorias do mais-valor
203
Parte III. O Capital e os seus manuscritos preparatórios 11. Manuscritos econômicos de 1863-1865
223
12. O Capital. Livro I. Capítulo VI (inédito)
225
13. O Capital. Livro I
247
14. O Capital. Livro III
257
Índice de nomes e conceitos
273
Nota editorial
A maior parte dos excertos incluídos nesta antologia – correspondentes aos textos 3, 4, 7, 8, 9 (de Para a Crítica da Economia Política. Manuscrito de 1861-1863, Autêntica, 2010), 10, 11 (que aparece aqui pela primeira vez em língua portuguesa) e 12 do sumário – foi traduzida, do alemão, por Leonardo de Deus. Ele também traduziu o texto 6, do inglês. Os excertos dos textos 1, 2, 5, 13 e 14 foram selecionados das seguintes obras e são reproduzidos com autorização dos respectivos editores: 1. Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Tradução de Tomas da Costa. Petrópolis: Vozes, 2022. pp. 74-88. 2. Karl Marx. Excertos do livro de James Mill “Éléments d’économie politique”. Tradução de Luiz Philipe de Caux. Cadernos de Filosofia Alemã, vol. 21, n. 1, 2016. pp. 147-148; 152-153; 155156; 160. 5. Karl Marx. Trabalho assalariado e capital. Tradução de Lívia Cotrim. São Paulo: Expressão Popular, 2010. pp. 513-516; 521-523. 13. Karl Marx. O Capital, Livro 1: O processo de produção do capital. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. Coordenação e revisão de Paul Singer. São Paulo: Ubu, 2025. pp. 129-136; 153155; 327; 514; 572-573. 14. Karl Marx. O Capital, Livro 3: O processo da produção capitalista como um todo. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. Coordenação e revisão de Paul Singer. São Paulo: Ubu, 2025. pp. 93-95; 264; 380-381; 786-787; 790-796; 797. 7
Com o objetivo de uniformizar a terminologia empregada pelos diferentes tradutores, os termos alemães Entäußerung e Entfremdung foram sistematicamente vertidos, respectivamente, por “alienação” e “estranhamento”. Os meus textos “Traduzir o Marx da teoria da alienação: as armadilhas de um léxico em disputa” e “Uma releitura marxiana do conceito de alienação” foram traduzidos, do italiano, por Marisa Silva Amaral. As breves introduções, indicadas em itálico, que aparecem no início de cada seção dos escritos de Marx foram elaboradas por mim. Os anos indicados entre parênteses na linha seguinte aos títulos correspondem às datas de redação dos textos de Marx. Marcello Musto Toronto, 1º agosto 2026
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Traduzir o Marx da teoria da alienação: as armadilhas de um léxico em disputa Marcello Musto
As palavras da alienação
Alienação ou estranhamento? Aliás, não. Para descrever com mais precisão o primeiro fenômeno, não seria melhor falar de exteriorização? E se se optasse, em seu lugar, como fez – ainda que não sistematicamente – Maximilien Rubel, por despossessão? O que dizer, além disso, das escolhas de filósofos como o italiano Galvano della Volpe e o francês Franck Fischbach, que adotaram, respectivamente, expropriação e perda de expressão? Durante décadas, os mais atentos intérpretes e tradutores da obra de Marx, em muitos países e idiomas, se viram obrigados a enfrentar questões semelhantes a essas, sem chegar a um acordo sobre a melhor forma de traduzir os termos alemães Entäußerung e Entfremdung e as expressões a eles relacionadas, como entfremdete Arbeit, entfremden, entäußern, etc. Às vezes, a discussão se estendeu também a outras categorias conexas, a exemplo de Veräußerung e Versachlichung. Seria errado considerar essas controvérsias como uma contenda fútil entre especialistas. Conforme tentarei demonstrar neste texto, sem, contudo, antecipar o conteúdo da minha introdução, uma reprodução precisa da terminologia de Marx é fundamental para uma compreensão plena de seu pensamento. Além disso, a análise das traduções até então realizadas permite compreender melhor alguns aspectos teóricos dos diferentes marxismos do século passado. É preciso observar 9
também que, surpreendentemente, apesar de o conceito de alienação em Marx ter sido objeto de inúmeras publicações, surgidas em múltiplos contextos disciplinares e nacionais, ninguém jamais realizou um estudo comparativo das traduções de Entäußerung e Entfremdung nas principais línguas em que esse debate se consolidou. Proponho-me desenvolver no futuro uma pesquisa dessa natureza, destacando aspectos linguísticos, teóricos e políticos tão relevantes quanto pouco conhecidos. Aqui me limitarei a: 1) ilustrar os principais elementos conceituais que fundamentam a disputa pelos termos; 2) sublinhar a importância de não concentrar a atenção exclusivamente nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, mas de dedicar ao menos igual consideração a O Capital e aos seus manuscritos preparatórios; 3) passar em revista as principais escolhas de tradução adotadas até o momento e as motivações que as determinaram, assinalando algumas distorções; 4) resumir, sem oferecer uma reconstrução completa, como e por que se consolidaram certas convenções terminológicas em algumas das línguas nas quais o marxismo teve mais ampla difusão; 5) ilustrar às leitoras e aos leitores os critérios lexicais adotados nesta antologia. A crítica a Hegel e as coordenadas histórico-conceituais do debate
Em primeiro lugar, é preciso ter bem presentes os pressupostos, frequentemente ignorados, da questão. Um ponto de partida importante é que Marx jamais escreveu um texto – nem sequer um artigo – especificamente dedicado ao conceito filosófico de alienação, tampouco ao fenômeno da alienação na sociedade capitalista; suas preocupações teóricas estavam voltadas para outros aspectos, mesmo quando ele era um jovem expoente da esquerda hegeliana. Além disso, quando, ao final dos anos 1840, em Trabalho assalariado e capital, voltou a abordar o tema da 10
alienação em termos substancialmente análogos,1 evitou utilizar essa palavra, evidentemente pouco adequada a um discurso dirigido ao movimento operário, talvez justamente por seu caráter abstrato e filosófico. Em segundo lugar, para compreender Marx não se pode prescindir de um confronto com Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Originalmente, este último utilizou amplamente o termo Entäußerung, tanto em sentido especulativo na Fenomenologia do espírito, onde indicava a objetivação do espírito no processo dialético de autoconhecimento (portanto, algo dotado de um significado positivo), quanto em sentido jurídico nos Princípios da filosofia do direito, onde designava a cessão da propriedade. Essa dupla matriz – ontológica e contratual – continuaria a acompanhar o uso desse termo e a torná-lo complexo e, por vezes, ambíguo. A crítica à concepção de Entäußerung na Fenomenologia do espírito de Hegel foi um dos temas fundamentais dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Contra Hegel, acusado de não ter separado as duas coisas, Marx distinguiu entre Vergegenständlichung, isto é, o processo de objetivação – antropológica e trans-histórica – por meio do qual os seres humanos produzem suas existências, e Entäußerung, ou seja, o processo de trabalho historicamente determinado por relações econômico-sociais fundadas na propriedade privada, mediante o qual não apenas é produzido um objeto, mas este se materializa em uma potência independente de seu produtor. Marx descreveu assim a fusão operada pelo autor daquela que ele próprio provavelmente considerava a obra filosófica mais complexa de todos os tempos, a Fenomenologia do espírito: “Hegel apreende a autoprodução do ser humano como um processo; a objetivação [Vergegenständlichung], como desobjetivação [Entgegenständlichung], como alienação [Entäußerung] e como 1
Karl Marx. Trabalho assalariado e capital. Cf. infra, pp. 89-92. 11
suprassunção dessa alienação [Aufhebung dieser Entäußerung]”.2 São quatro momentos distintos, reduzidos a um único movimento dialético, no qual – segundo Marx – também a negação da objetividade e sua superação são absorvidas na mesma equação entre objetivar-se e alienar-se. Ao contrário, em várias passagens de sua obra, tanto nos escritos de juventude quanto nos posteriores, Marx deu a entender que, em uma sociedade comunista, o trabalho humano se manifestaria como Vergegenständlichung sem necessariamente ser Entäußerung. O jovem que redigiu os Excertos do livro de James Mill /Élémens d’économie politique – elaborados paralelamente aos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 – afirmou, ainda que com uma linguagem fortemente marcada pela filosofia, que, se produzíssemos “enquanto homens”,3 cada um se realizaria por meio do produto de seu próprio trabalho, tanto em si mesmo quanto no outro. Treze anos depois, nos Grundrisse, sem o estilo, por vezes nebuloso, das obras de juventude, Marx afirmou que o problema não residia na circunstância de o trabalho “ser objetivado [Vergegenständlichtsein], mas no fato de ele ser estranhado, alienado, cedido [Entfremdet-, Entäußert-, Veräußertsein], de pertencer não ao trabalhador, mas às condições de produção personificadas, ou seja, ao capital”.4 Como o alvo da crítica já não era Hegel, mas os apologistas do capitalismo, ele acrescentou que “[o]s economistas burgueses estão tão presos às concepções de 2
Karl Marx. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Petrópolis: Vozes, 2022, p. 164.
3
Karl Marx. Excertos do livro de James Mill Élémens d’économie politique. Cf. infra, p. 82.
4
Karl Marx. Grundrisse. Cf. infra, p. 134, trad. mod. Sobre a relevância dos Grundrisse na elaboração da crítica da economia política de Marx, consulte o recente Marcello Musto (Org.). O primeiro rascunho de O Capital de Marx: história da gênese e recepção dos Grundrisse. Belo Horizonte: Autêntica, 2026. 12
um determinado estágio histórico do desenvolvimento da sociedade, que a necessidade da objetivação [Vergegenständlichung] dos poderes sociais do trabalho se lhes aparece como indissociável da necessidade de seu estranhamento [Entfremdung] em relação ao trabalho vivo. No entanto, com a supressão do caráter imediato do trabalho vivo, como meramente individual [...], com o estabelecimento da atividade dos indivíduos como imediatamente universal ou social, esses momentos objetivos [gegenständlichen Momenten] da produção serão despojados dessa forma do estranhamento [Entfremdung]”.5 Segundo Marx, portanto, o problema não residia na objetivação enquanto tal, mas no fato de que as condições e os produtos do trabalho pertenciam ao capital, e não aos operários. Somente um trabalho cujo caráter social não fosse mais mediado pela troca e por sua subordinação ao capital, mas se afirmasse imediatamente como social, teria podido restituir aos trabalhadores, sob a forma de propriedade comum, as condições materiais da produção, impedindo que a objetivação se transformasse em estranhamento. Observe-se que, tendo de escolher um termo para expressar um juízo crítico, Marx optou por Entfremdung. Outro aprofundamento precioso – que, contudo, não pode ser desenvolvido no espaço limitado de que dispomos aqui – diz respeito à transformação dos conceitos de Entfremdung e Entäußerung de Hegel para a esquerda hegeliana. Em Hegel, o estranhamento é um momento dialético negativo, mas necessário, destinado a ser superado no interior do próprio sistema. Autores como Ludwig Feuerbach e Moses Hess contribuíram, de forma decisiva, para desvincular Entfremdung e Entäußerung de seu enquadramento idealista, transformando-os no diagnóstico de um mal real e ainda não superado – a alienação religiosa para o primeiro; aquela produzida pelo dinheiro para o segundo – que exigia uma 5
Marx. Grundrisse. Cf. infra, p. 134. 13
transformação efetiva, e não uma simples reconciliação conceitual. Em Feuerbach, em particular, o conceito central foi Entäußerung – o homem que projeta suas próprias qualidades essenciais em um ser outro que não ele mesmo, deus –, e não Entfremdung, que em seu léxico permaneceu um termo secundário. Nem mesmo em Hess o afastamento de Hegel foi acompanhado por uma distinção rigorosa e sistemática entre os dois termos alemães, visto que, em sua definição do dinheiro, Entäußerung aparece como sinônimo de Entfremdung. Marx fez parte desse debate e a evolução de seu pensamento nessa fase crucial de sua formação intelectual não pode ser plenamente compreendida sem ter isso em conta.6 É nessa passagem, da concepção idealista hegeliana ao diagnóstico de um mal real em Feuerbach, Hess e Marx, que se situa um momento decisivo também para o desenvolvimento do conceito de alienação, o qual – de antiga origem teológica e jurídica – encontra aqui, pela primeira vez, aplicação no âmbito da teoria social e econômica. Foi nesse contexto intelectual, portanto, que Marx elaborou sua própria terminologia, com resultados nem sempre lineares. Por exemplo, pode surpreender constatar que, nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, as quatro célebres manifestações da alienação – a saber, em relação ao produto do trabalho, à atividade laboral, à própria natureza de ser humano [Gattungswesen] e aos outros seres humanos – são expressas ora com Entäußerung, ora com Entfremdung. Naquela que pode ser definida como a formulação universalmente mais utilizada para descrever esse fenômeno, Marx usou nos dois primeiros casos Entäußerung e Entfremdung como sinônimos (vejam-se, a título de ilustração, as frases: “a apropriação como estranhamento, 6
Sobre a trajetória de formação – e o confronto entre as principais intepretações – do jovem Marx, cf. Marcello Musto. Repensar Marx e os marxismos: guia para novas leituras. São Paulo: Boitempo, 2022, pp. 21-99. 14
como alienação” e “o estranhamento, a alienação do trabalhador”).7 Nos dois últimos, optou por Entfremdung. Assim, nem sempre é justo culpar os tradutores-traidores; parte da confusão também pode ser atribuída ao uso ambivalente das palavras pelo próprio Marx. A ambiguidade está presente em seu texto mesmo, que – vale lembrar – não passa de um esboço incompleto. Como é improvável que Marx considerasse os dois termos sempre intercambiáveis entre si (eles são estreitamente relacionados, mas distintos), podemos afirmar que ele não demonstrou uma disciplina lexical rigorosa. Lida com atenção, linha por linha, a obra mais famosa do “jovem Marx” não apresenta aquela clareza terminológica que se exige de seus tradutores. Em outras palavras, a oscilação que às vezes encontramos nas traduções já está presente no original e isso não se limita apenas aos escritos de juventude. De fato, como se pode perceber na citação anterior extraída dos Grundrisse, na qual encontramos uma tríade de termos (Entfremdet-, Entäußert-, Veräußertsein), quase sinônimos, contrapostos à objetivação [Vergegenständlichung], a mesma incoerência lexical reaparece intacta, sem que Marx, ao que parece, a tenha resolvido nem mesmo em alguns escritos de períodos posteriores. A transformação do significado de Entäußerung
Cabe agora perguntar se, e como, Marx traduziu Entäußerung e Entfremdung ao longo de sua vida. Como é sabido, tanto os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 quanto os Grundrisse foram publicados postumamente. Não sabemos, portanto, qual era sua opinião sobre como seria adequado transpor os dois conceitos para outras línguas. Isso nos permite – com muito prazer 7
Marx. Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Cf. infra, pp. 70-1. Não são os únicos exemplos presentes no texto. Notem-se também “o estranhamento, a alienação na atividade mesma do trabalho”; “o trabalho estranhado, alienado”; “o conceito do trabalho estranhado, alienado”, ibid. Cf. infra, pp. 72, 75 e 76. 15
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