JOUDE JASSOUMA com LAURENCE DE CAMBRONNE
EU VENHO DE ALEPO ITINERÁRIO DE UM REFUGIADO
JOUDE JASSOUMA com LAURENCE DE CAMBRONNE
EU VENHO DE ALEPO ITINERÁRIO DE UM REFUGIADO
Tradução de Fernando Scheibe
Copyright © 2017 Allary Éditions Copyright © 2017 Editora Nemo/Vestígio
Publicado mediante acordo especial com a Allary Éditions em conjunto com a 2 Seas Literary Agency, sua agente devidamente designada, e com a Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária, sua coagente. Título original: Je viens d’Alep. Itinéraire d’un réfugié ordinaire Todos os direitos reservados pela Editora Nemo. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. gerente editorial
revisão
Arnaud Vin
Aline Sobreira
editor assistente
capa
Eduardo Soares
Alberto Bittencourt (sobre fotografia de Catalina Martin-Chico)
assistente editorial
Jim Anotsu
diagramação
Waldênia Alvarenga
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Jassouma, Joude Eu venho de Alepo : itinerário de um refugiado / Joude Jassouma com Laurence de Cambronne ; tradução Fernando Scheibe. – 1. ed. – São Paulo : Vestígio, 2017. Título original: Je viens d’Alep. Itinéraire d’un réfugié ordinaire ISBN 978-85-8286-394-7 1. Alepo (Cidade) - Síria - História - Guerra civil 2. Jassouma, Joude 3. Refugiados - Síria - Biografia 4. Sírios - Biografia I. Cambronne, Laurence de. II. Título. 17-04490 CDD-920.71 Índices para catálogo sistemático: 1. Refugiados sírios : Memórias autobiográficas 920.71
A VESTÍGIO É UMA EDITORA DO GRUPO AUTÊNTICA São Paulo Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, Horsa I 23º andar . Conj. 2301 . Cerqueira César . 01311-940 São Paulo . SP Tel.: (55 11) 3034 4468 www.grupoautentica.com.br
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1 Está recomeçando, Aya, temos que partir
Abril de 2015. Eu caminhava numa ruazinha perto da minha casa, em Ariha. Olhava para a montanha Al Arbine, que parece subir até o céu. O dia estava bonito, as cerejeiras em flor. À minha direita, algumas cabanas, ao longe, grandes olivais. À minha frente, a ponte que cruza a estrada e que devo atravessar para voltar para casa. Estava feliz, casado fazia um ano. Aya estava grávida. Alguns meses antes, tínhamos deixado nossa cidade, Alepo, porque nosso prédio tinha sido bombardeado mais uma vez. Por isso nos refugiamos em Ariha, 70 quilômetros a oeste, perto de Idlib. Estávamos bem instalados, num pequeno apartamento. Eu tinha comprado uma geladeira, uma TV, cadeiras... Caminhava, pois, tranquilamente, quando alguma coisa ao pé de um dos pilares da ponte atraiu minha atenção. Pareciam pedaços de ossos. Intrigado, desci para tirar aquilo a limpo e me deparei com uma mão cortada. Depois de alguns instantes de hesitação, me abaixo para observar mais de perto. Era a mão de um homem. De um ladrão? Há quanto tempo estava ali? 9
O que fazer? Examino com mais atenção. Quase não há mais pele. Já é um esqueleto. Não posso deixá-la ali, desse jeito. É uma mão bastante fina, provavelmente de um jovem ou mesmo de um adolescente. Pego uma pedra e começo a raspar a terra para enterrá-la. Por dez minutos raspo a terra seca. Coloco a mão no fundo do buraco e a cubro de terra. Penso de repente em Antígona, que queria sepultar seu irmão... Recito a surata do Alcorão, Al-Fatiha, prece que se diz antes de começar qualquer coisa. Passo o dia inteiro pensando naquilo. Como chegamos a esse ponto? Que grau de barbárie atingimos? Não se enterram mais os mortos aqui em Ariha? A primeira marca da civilização não é impedir que os animais devorem os restos humanos? Quem era aquele jovem? Quais eram seus sonhos? Uma vez em casa, não digo nada a Aya. Nem aos meus pais, nem à minha irmã, nem aos meus irmãos que moram com a gente. Eles também deixaram o lado oeste de Alepo e vieram para cá. Lá, sua casa ficava ao lado da nossa, perto da zona de combate, e eles não aguentavam mais ver passarem por cima de suas cabeças os mísseis lançados dos bairros do leste pelo mais importante grupo de opositores, os rebeldes da Frente al-Nusra, islamistas1 ligados à Al-Qaeda. Em Ariha, tivemos que nos amontoar todos os sete num apartamento de dois quartos...
Utilizo o neologismo “islamista” para traduzir a palavra francesa islamiste no sentido que adquiriu nos últimos anos de islamita radical. (N.T.)
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Um ano antes, em 2014, o recrutamento obrigatório tinha começado. Os combates contra os rebeldes tinham dizimado o exército de Bashar al-Assad, e o governo decidiu que a partir de então todos os homens entre 18 e 42 anos seriam recrutados, quisessem ou não. Meu irmão Iade partiu para Istambul, logo seguido pelos meus quatro irmãos mais novos, Hussam, Khaled, Mohamed e Zacarias. Eles não queriam participar dessa guerra absurda. Eu decidi ficar para ajudar meus pais. Sabia que era arriscado. Tinha 31 anos, podia ser detido pelos soldados de Bashar a qualquer momento e ser enviado ao combate ou, pior, jogado na prisão como desertor, isto é, traidor da nação. Nesse caso, seria torturado e executado, e entraria para o grupo dos desaparecidos, como milhares de jovens sírios nos últimos cinco anos. Voltava periodicamente a Alepo com o carro do meu irmão para buscar caixas de camisetas, pijamas e calças de algodão que ele tinha abandonado em sua malharia ao partir para a Turquia. Tinha que fazer enormes desvios para evitar os check-points, onde com certeza seria detido. De volta a Ariha, passava de loja em loja para vender as roupas e fazer algum dinheiro. E até que me saía bem, sou um bom vendedor. Em nossa cidadezinha, em meio aos cerejais, nos sentíamos a salvo simplesmente porque as forças do regime de Damasco estavam posicionadas 30 quilômetros ao norte. Ali, fazia dois anos que o exército sírio tinha repelido todos os ataques dos rebeldes da Frente al-Nusra. Não queríamos saber desses islamistas de ideologia salafista. Na escola, os professores tinham nos falado com frequência 11
dos Irmãos Muçulmanos, movimento de opositores religiosos intolerantes que queriam instaurar a charia, a lei canônica do Islã, baseada no Alcorão, e desestabilizar nosso belo país laico e socialista. Todas as meninas iam ao colégio. Muitas mulheres muçulmanas nem sequer usavam véu. Era um país onde cristãos e muçulmanos viviam em paz, fossem estes xiitas, sunitas ou alauitas. Mas é preciso lembrar que, nesse “melhor dos mundos” da Síria de então, Hafez al-Assad, o pai de Bashar, tinha reinado com mão de ferro por 30 anos, a fim de garantir essa paz aos sírios. Em 1982, mandou massacrar 25 mil civis e Irmãos Muçulmanos em duas semanas, e manteve na prisão, por 20 anos, milhares de opositores, religiosos extremistas em sua maior parte. Em março de 2011, manifestantes começaram a desfilar pacificamente para exigir uma mudança de regime e uma transição democrática. Mas Bashar al-Assad não queria abandonar o poder nem negociar com os opositores. Na Síria, não houve Primavera Árabe. A repressão foi imediata e sangrenta. Dois mil mortos em três meses. O país afundou na guerra. Eu não queria ter que escolher entre o ditador que só conhecia a via das armas e os rebeldes, logo arregimentados pelos extremistas islamistas que bombardeavam e destruíam nossa bela cidade. Nos três anos que se seguiram a essas manifestações, assistimos, impotentes, à lenta destruição de Alepo. O minarete da Grande Mesquita, obra do século XI, destruído, os mercados do século XIV devastados, a catedral católica armênia em ruínas.
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Em Ariha, descobríamos a vida de recém-casados. Eu e Aya estávamos felizes e, para dizer a verdade, surpresos por levar uma vida normal: sem bombas, sem mísseis, sem aviões dando rasantes nos telhados com um barulho infernal... Finalmente um pouco de calma em nossa vida, e mesmo felicidade: certa manhã, Aya anunciou que estava grávida. Naquele inverno, passeamos muito nas ruas e nos mercados de Ariha. Admirávamos as fileiras de oliveiras a perder de vista. A Síria continuava sendo, apesar de tudo, o quinto maior produtor de azeite de oliva do mundo! A barriga de Aya ia crescendo. Estávamos relativamente otimistas. Talvez a guerra terminasse logo, quem sabe? No início de 2015, a Síria estava dividida em quatro partes. No nordeste, os curdos, sunitas, dominavam um grande território ao longo da fronteira turca. No leste, o Estado Islâmico, sunita, ocupava o vale do Eufrates, de Deir ez-Zor até Kobanî, na fronteira turca, além da cidade de Raqqa. No oeste, à beira do Mediterrâneo, as forças do regime de Damasco mantinham a região de Lataquia, povoada de alauitas, uma minoria saída do cisma, a divisão das religiões islâmicas, à qual pertence Bashar al-Assad. As forças do regime dominavam também uma faixa de território até Israel, ao longo da fronteira com o Líbano. Finalmente, no nordeste, as forças rebeldes islamistas da Frente al-Nusra estavam posicionadas ao redor de Alepo. Em nossa ingenuidade, pensávamos que os rebeldes não chegariam a Ariha. Porém, na noite de 28 de março, vimos no canal Al Jazeera que os rebeldes da al-Nusra tinham lançado uma ofensiva ao norte, do lado de Idlib, lá onde se 13
concentravam as forças de Bashar al-Assad, a 30 quilômetros de nossa cidadezinha. No dia 15 de abril de 2015, pouco tempo depois de ter enterrado aquela mão sob a ponte, vivi outra cena traumatizante: São 8 horas da manhã. Levanto, visto uma calça jeans preta, uma camiseta branca e minha jaqueta de couro. O dia está bonito. Abro a porta de vidro da sacada. Lá adiante, sobre a montanha Al Arbine, as casinhas de pedras amarelas e telhados vermelhos já estão iluminadas pelo sol matinal, os arbustos de giestas cintilam. Mais ao longe, na planície, as cerejeiras ainda estão em flor. Na rua, os carros passam lentamente. Sobre a calçada, um grande cachorro esquelético, sarnento, de pelo curto marrom escuro, carrega alguma coisa na boca. Primeiro pensei que fosse um rato, mas o bicho que o cachorro não solta e sacode para tudo quanto é lado tem pelos longos demais. Na verdade, os pelos são cabelos, e o bicho, uma cabeça. Uma cabeça humana! Grito: “Ya Alá! Oh, meu Deus!”. O cachorro acaba soltando a cabeça, os cabelos se estendem pela calçada, o sangue escorre do pescoço. Aterrorizado, desvio o olhar. Fecho os olhos, espero um momento antes de reabri-los lentamente. Terá sido um pesadelo? O cachorro não está mais lá, mas a cabeça sim, imóvel sobre a calçada, ao lado de um tufo de mato, nascido entre duas lajotas. Volto para dentro de casa e despenco na primeira cadeira. Olho para o teto. Chamo Aya. – É um horror, vi uma cabeça! 14
– Como assim uma cabeça? Do que você está falando? – Lá embaixo, na calçada... uma cabeça... decapitada... – O quê?! Ela solta um grito, logo seguido por um barulho terrível, tiros de AK-47, explosões. Começo a tremer. – Está recomeçando, Aya, está recomeçando. Temos que partir. Rápido! – Sim, vou arrumar as coisas. – Não, não temos tempo, vamos deixar tudo e partir imediatamente. Deixamos nossas roupas, nossos calçados, tudo o que eu tinha comprado com minhas últimas economias, a geladeira, o ar-condicionado, a TV, tudo. Pego apenas em nosso quarto nossos smartphones e os carregadores. Enfio a certidão de casamento e nossas carteiras de motorista e de identidade na mochila preta onde guardo meus diplomas da universidade de Alepo e o certificado do estágio de francês que fiz em Clermont-Ferrand, em 2008. Os bombardeios se intensificam. Descemos as escadas pulando os degraus. Aya corre segurando a barriga. Entramos no primeiro ônibus que passa. Meus pais recolhem ainda alguns pertences. Partirão de carro com meus irmãos mais novos e minha irmã. Desde o início da guerra, é a quarta vez que temos que abandonar tudo. Dois dias depois, por telefone, nossos vizinhos nos contam que soldados encapuzados plantaram bandeiras negras islâmicas por toda a cidade, e que nosso prédio foi bombardeado e saqueado. 15
Mais uma vez tínhamos perdido tudo. Aquela foi a gota d’água. Nesse dia compreendi que tínhamos que deixar a Síria. Voltamos para Alepo. Aya estava grávida de sete meses. Partiríamos depois do parto.
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