A vida de
LIMA BARRETO Francisco de Assis Barbosa
A vida de
LIMA BARRETO 1881-1922
Francisco de Assis Barbosa
11 a
edição
Copyright © Herdeiros de Francisco de Assis Barbosa Copyright © 2017 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
Imagem da página 1: caricatura de Lima Barreto, de autoria de Hugo Pires, 1919. Imagens de capa e das páginas 2, 4 e 5: fotografias do livro de registros do Hospital Nacional de Alienados, Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1914. Reprodução: Bira Soares.
editora responsável
notas de revisão
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Beatriz Resende
editora assistente
capa
Cecília Martins
Diogo Droschi
assistente editorial
diagramação
Rafaela Lamas
Waldênia Alvarenga
revisão
Lívia Martins
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
Barbosa, Francisco de Assis A vida de Lima Barreto : 1881-1922 / Francisco de Assis Barbosa. -- 11. ed. -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2017.
ISBN 978-85-513-0241-5
1. Barreto, Lima, 1881-1922 2. Escritores brasileiros - Biografia I. Título. 17-05013
CDD-928.69 Índices para catálogo sistemático: 1. Escritores brasileiros : Biografia 928.69
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FAB ou Chico
Eu já o conhecia quando nos encontramos em São Paulo, no Congresso Nacional de Escritores. Era o começo de 1945. Lá fora, o fim da guerra. Aqui dentro, o fim da ditadura. Chico tinha vindo de Diretrizes. Ali, ao lado do Joel Silveira, ganhou fama como repórter. Suas entrevistas ficaram famosas. Algumas se tornaram documentos históricos. No Congresso, logo se distinguia. Não era de ficar na sombra. Sua voz sonora ecoava na secretaria. Fazia a chamada e estava sempre lá, visível, atuante. Era o seu jeito de ser. Paulista de velha cepa, de Guaratinguetá, como Brito Broca, fez toda a sua vida no Rio. Bacharel em Direito, o jornal anos a fio consumiu suas energias. Na faculdade começou a abrir o seu círculo de afeições e admirações. Estava entre os fiéis do Gilberto Amado. Como Odylo Costa, filho. Como Odylo, aproximou-se de Virgílio Alvim de Melo Franco. Por aí também, pelo jornal Política & Letras, nossos caminhos se cruzaram. Não era boêmio, o Chico. Não o era pelo menos nesse tempo, posterior à fase da Lapa de Luiz Martins e R. Magalhães Júnior. Veio depois a Última Hora, de Samuel Wainer, que eu tinha tido como chefe de redação no O Jornal. O novo jornal nos convocou. Samuel nos deu o título de redatores-principais. Dividíamos tarefas, numa trabalheira que começava cedo. Sempre às sete horas da manhã, sem folga no sábado e às vezes com plantão no domingo. Chico, pontualíssimo, estava sempre disposto. Já tinha testemunhado antes o seu incansável labor, na Assembleia Constituinte de 1946. Um leão, o Chico. Ninguém lutou mais pela valorização da categoria profissional. Colou no Café Filho e enfrentou uma frente oposicionista de peso. Passional, se encontrava resistência, aí é que se empenhava mesmo. Eu dizia de brincadeira que ele era um colérico, na classificação de Kretschmer. Assim o classifiquei quando brigamos numa certa manhã. Com o trânsito difícil, cheguei cinco minutos atrasado, ali na Praça Onze. 9
Ele ia entrando no táxi, para me substituir na entrevista política que me cabia a mim. Ao me ver, não se conteve. Dormíamos poucas horas e tínhamos os nervos à flor da pele. Ele bateu a porta com estrondo e me virou as costas. Cada um para o seu lado, chegamos a um requinte que muito nos divertiria mais tarde, em nossas comuns reminiscências. Como dividíamos a sala, tomei a iniciativa de levantar uma divisória que nos impedia de nos ver um ao outro. Só falávamos o indispensável, matéria profissional. Mas a briga e a divisória não duraram muito. Um domingo o Chico apareceu na minha casa na Gávea, com um dicionário que me deu de presente. Passamos juntos a tarde e nunca mais deixamos de nos entender. Ele procurador, eu advogado substituto, nos encontramos no serviço público. Ele tinha um sagrado horror ao foro. Trabalhava como sempre, dedicado, sério, exaustivo. Mas nada de defesa oral. Viveu momentos de pânico, que exagerávamos de brincadeira. Sua cultura jurídica, dizia, devia muito aos meus conselhos. E contava que lhe dei a chave da sabedoria, apontando-lhe duas armas para os pareceres: o Carlos Maximiliano e o bom senso. Pilhéria, claro. Nada podia eu lhe ensinar. Chico se aplicava, competente, fosse no que fosse. Lima Barreto ressuscitou na sua pesquisa. Tomou gosto pela História do Brasil, de que se tornou um especialista. Trabalhou, operoso, em favor das glórias alheias, ilustres ou modestas, obscuras ou brilhantes. Andava meio triste nos últimos anos, o nosso Chico. Boné na cabeça, a farta e bela cabeleira, ainda rimos muito quando nos encontramos pela última vez. Daí a dias, morreu. Em São Paulo, como era de seu desejo. Otto Lara ResendeI
RESENDE, Otto Lara. FAB ou Chico. In: Chico Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação da Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 5-6. Catálogo da exposição realizada em setembro de 1992, pela Fundação Cada de Rui Barbosa, em homenagem a Francisco de Assis Barbosa.
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Lima Barreto e Chico Barbosa
Esta é a décima primeira edição de A vida de Lima Barreto, publicada 26 anos após a morte do biógrafo pioneiro em 8 de dezembro de 1991. O corpo da primeira edição (1952) sofreu modificações ao ser preparada a quinta edição (1975), quando as citações passaram a ser remetidas às Obras de Lima Barreto, organizadas por Francisco de Assis Barbosa, em 1956, com a colaboração de Antonio Houaiss e Manuel Cavalcanti Proença. Optamos por manter as referências bibliográficas de origem, apesar de estarem as Obras de Lima Barreto há muito esgotadas. Nem todos os volumes das Obras de Lima Barreto foram ainda republicados. O esforço e a dedicação de Francisco de Assis Barbosa ao escritor carioca começou pelo resgate dos originais deixados no guardacomidas da casa em Todos os Santos, após ganhar a confiança da família, especialmente da irmã, D. Evangelina de Lima Barreto, que se tornou importante fonte de informações. Em seguida, veio o deciframento de diversos manuscritos organizados por Lima Barreto em amarrados, como o texto do Diário do hospício e as anotações, espalhadas por várias cadernetas, que formaram o Diário íntimo. Diante de um escritor que dizia de sua própria caligrafia ininteligível – “A minha letra é um bilhete de loteria. Às vezes me dá muito, outras vezes tira-me os últimos tostões da minha inteligência”I –, a tarefa não há de ter sido fácil. Como o texto indica, a consulta aos contemporâneos em conversas ou correspondência foi extensa. A consulta a periódicos continuou sendo, muitas vezes – e a leitura da biografia o mostra bem –, um trabalho detetivesco. O resultado de tudo isso foi BARRETO, Lima. Esta minha letra... In: _____. Toda crônica. Organização de Beatriz Resende e Rachel Valença. Rio de Janeiro: Agir, 2004. v. 1, p. 90.
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não só A vida de Lima Barreto, mas também a possibilidade de dar ao público leitor as Obras de Lima Barreto, em 17 volumes. A verdade é que estamos diante de bem mais do que a biografia do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma; o que temos aqui é um dos mais importantes estudos da vida literária brasileira no período e uma prática inovadora do gênero biografia. A vida de Lima Barreto retrata a história da cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, analisa as relações entre intelectuais e a sociedade, produz um agudo balanço da política no país e passa a influenciar decisivamente os estudos literários. O interesse de Francisco de Assis Barbosa por tudo que se escrevia, estudava, pesquisava, filmava ou encenava em torno de seu biografado permaneceu por toda sua vida. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 13 de maio de 1971, lembra ao auditório: “Na data de hoje, Lima Barreto completaria noventa anos”. E acrescenta: “Afonso Henriques de Lima Barreto, o grande romancista carioca da Primeira República, tão maltratado pela vida, nem por isso deixou de acreditar nos homens e até na Academia”. A cada nova edição de A vida de Lima Barreto, procurava indicar o estado da pesquisa sobre a arte do escritor, acompanhando cada dissertação, cada tese, cada tradução realizada. O curioso é que, nesse movimento, Chico Barbosa, como o chamávamos, criou uma espécie de “família”, abrigando, em peculiar fraternidade, todos nós que nos deixamos contaminar por sua paixão. Em torno de Chico Barbosa gravitaram, por muitos anos, gerações de pesquisadores e professores que se ocupavam da obra de Lima Barreto. O agradecimento de Nicolau Sevcenko em Orfeu extático na metrópole expressa bem a orfandade em que ficamos desde que perdemos esse interlocutor atento: Perda abaladora para mim foi a do querido amigo e conselheiro oportuno, o professor Francisco de Assis Barbosa. Desde o meu trabalho anterior de pesquisa, sobre o Rio de Janeiro, o professor Francisco passou a me apoiar e estimular em todos os sentidos, numa atitude desprendida feita dessa generosidade de erudito devotado aos estudos da cultura brasileira, que lhe era tão típica e fazia dele um modelo e amparo inestimável aos pesquisadores. 12
Ele faleceu no dia em que veio a São Paulo, decidido a lutar contra todas as suas limitações físicas, para examinar este meu trabalho.II
A cada trabalho que finalizo sobre nosso romancista carioca, me lembro do último dia em que vi Chico Barbosa. Depois de mais um encontro estimulante na Casa de Rui Barbosa, da qual era diretor, conversando sobre a correspondência de Lima e o que ainda faltava trazer a público, levei-o de carro à clínica onde faria exames, preparando-se para viajar para São Paulo e participar da banca de defesa de Sevcenko. Já fora do carro, voltou-se e, debruçado à janela, me disse, com o carinho habitual: “Minha filha, ainda vamos fazer muitas coisas juntos”. De algum modo, continuamos fazendo. A seção de manuscritos da Biblioteca Nacional abriga os originais de Lima Barreto, alguns deles acessíveis ao público através da BN Digital. Os documentos mencionados como pertencentes à “Coleção do Autor” estão hoje no Arquivo Francisco de Assis Barbosa da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em São Paulo, de que é curadora a sempre atenciosa Cristina Antunes. Esse ano de 2017 vem sendo tratado como o “ano de Lima Barreto”, com homenagens, reedições e novos estudos sobre o autor, o que indica que Lima Barreto finalmente teve o reconhecimento merecido. A longa demora evidencia, mais uma vez, a importância das leituras e dos estudos de Francisco Barbosa e da pertinência com que se dedicou ao escritor carioca. Rio de Janeiro, maio de 2017 Beatriz Resende
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SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 13-14. 13
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