O fruto do Espírito (Gálatas 5.22-24).................................................................610
ADICIONAIS
A HISTÓRIA DA BÍBLIA
UMA BIBLIOTECA TOMA FORMA
A Bíblia é na verdade uma coletânea ou seja, uma biblioteca de muitos escritos. A história da redação, edição, compilação e preservação da Bíblia é tão fascinante quanto uma história de detetive.
Assim como em um processo de investigação, há muitas pistas relacionadas à formação da Bíblia. Algumas podem parecer entediantes e superficiais, e nem sempre é fácil ver a direção principal presente entre as listas de nomes, lugares e datas. Mas não é impossível ter uma visão geral, o que aumenta imensamente o nosso apreço por essa literatura que reivindicamos serem as Escrituras Sagradas.
Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento começaram como histórias que circulavam oralmente. Os povos nômades tinham pouco uso para a linguagem escrita. A identidade de Israel desenvolveu-se por meio de séculos de uma existência de peregrinação, sem ter um lugar determinado como lar e sem manter registros escritos. Contar histórias era uma forma de arte, e os mestres passaram adiante a saga de Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Jacó e Raquel, José, Moisés e Miriã, Josué, Débora e Gideão.
Uma grande onda de histórias antigas registradas por escrito parece ter ocorrido durante o tempo dos reis Davi e Salomão, por volta de 1000 a 922 a.C. Os estudiosos acreditam que as tradições orais corriam o risco de serem perdidas quando Israel parecia estar seguramente estabelecida como uma nação com fronteiras políticas. Talvez Davi tenha considerado que as histórias antigas dariam mais estabilidade para sua monarquia.
Essa era de ouro da monarquia de Israel deu origem também ao registro escrito das experiências contemporâneas. Primeiro e Segundo Samuel revelam uma visão interna da corte real durante os reinados de Saul e de Davi. Muitos dos salmos provavelmente foram escritos durante esse período.
O ANTIGO TESTAMENTO
Esse processo em duas etapas ― oral e escrita ― caracteriza a maioria dos livros do Antigo Testamento. Com o tempo, cada uma das três seções principais do Antigo Testamento veio a ser aceita como orientação sobre os padrões religiosos ― eram um cânone para a fé judaica (a palavra cânone significava originalmente um instrumento de medição; a ideia aqui é uma norma ou autoridade).
Nossa história
Tudo o que aparece no Antigo Testamento deriva dos primeiros cinco livros, que formam uma unidade conhecida como Torá. Muitas vezes referida como “Lei”, a Torá é principalmente a memória fundamental dos eventos do povo de Deus, Israel. A história longa e dramática sobre como esse povo surgiu, como sobreviveu e se tornou uma nação está vinculada à criação e à posterior queda do mundo em pecado.
Nosso Desafio
Séculos após o êxodo e a conquista da terra, Israel enfrentou uma série de crises políticas. Durante esse período, o povo perdeu metade do seu reino, dez de suas tribos e sua independência. Contudo, não foi como se Israel não tivesse
escolha. Pelo menos 16 pessoas atuaram ao longo daquele período difícil, chamando os líderes e o povo a permanecerem fiéis a Deus. Esses profetas perceberam que a lealdade espiritual e a justiça eram os únicos caminhos para Israel se manter firme. Os escritos proféticos expõem o desafio permanente a todos que afirmam confiar no Senhor.
Nossas reflexões
Boa parte da história de Israel foi instável enquanto o povo errava, fugia, lutava e lamentava a respeito de sua nação. No entanto, durante o auge do reino de Israel, várias peças foram compostas e registradas. Esses escritos estão distribuídos em hinos para adoração (Salmos), sabedoria (Provérbios), história (Crônicas) e amor romântico (Cântico dos Cânticos). Os escritos oferecem tanto um olhar sobre os tempos quanto uma afirmação dos elementos comuns a todas as eras. Em 90 d.C., os judeus completaram seu cânone ao reconhecer a autoridade dos escritos de Salmos, Jó, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, e demais.
O NOVO TESTAMENTO
As Escrituras judaicas eram as únicas escrituras para Jesus e seus discípulos e para a primeira geração da Igreja. No entanto, logo os cristãos começaram a perceber que havia algumas necessidades importantes com as quais as Escrituras judaicas não lidavam. Vários cristãos das duas primeiras gerações, motivados a suprir essas lacunas, escreveram cartas, evangelhos e sermões que circularam entre as igrejas. No Novo Testamento, podemos identificar um reflexo dos três propósitos que orientam sua mensagem.
A propagação da Palavra
Os cristãos primitivos, imersos na tradição judaica, conheciam bem o poder da palavra
falada. Eles também percebiam que a oralidade não era tão eficaz no Império Romano, que cada vez mais se apoiava nas mensagens escritas. Conforme o tempo passava, a precisão da palavra falada era considerada cada vez menos confiável. A escrita, portanto, preservou detalhes fundamentais da história de Jesus.
Todavia, a mensagem cristã era mais do que uma história. Ela declarava a necessidade de toda a humanidade arrepender-se e confiar em Deus por intermédio de Cristo. E por que confiar em Cristo? Por causa do que ele realizou: ensinamentos, pregações e curas, seu sofrimento e sua morte, sua ressurreição e ascensão, e seu relacionamento com os futuros cristãos. Os quatro Evangelhos conservam esses importantes ensinamentos.
Debates e desentendimentos
Talvez seja surpreendente para alguns o fato de que havia desavenças entre os cristãos nos primeiros anos da era cristã. As preferências individuais e as antigas diferenças entre judeus e gentios criavam controvérsias quase de imediato. As pessoas discordavam sobre conceitos doutrinários e quais atitudes eram aceitáveis. O apóstolo Paulo respondeu a essas dificuldades escrevendo cartas para várias congregações. Talvez seja reconfortante para nós lembrar de que os primeiros escritos cristãos foram impulsionados por discordâncias existentes entre as igrejas.
A obediência às crenças
É claro que nem todos que entraram em contato com o cristianismo nascente concordaram com ele. Muitos judeus não estavam convencidos de que Jesus era o Messias tão esperado. Vários cristãos passaram a seguir ideias de mestres que interpretavam a fé de maneira controversa. Além disso,
havia a desconfiança do governo romano, cauteloso em relação a mais um movimento em uma província problemática. Essas pressões internas e externas levaram os escritores do Novo Testamento a esclarecer sua fé como cristãos.
Os Evangelhos
Uma parte importante do Novo Testamento é constituída pelas histórias de Jesus, que mostram sua influência enquanto esteve na terra e em como essa influência inspira a humanidade. Temos quatro versões dessas histórias, cada uma oferecendo uma ênfase distinta: Mateus, Marcos, Lucas e João. Esses livros são chamados de “Evangelhos” porque relatam as boas-novas de Jesus Cristo.
A história da igreja primitiva
O escritor do Evangelho de Lucas não se deteve apenas em Jesus. Ele também descreveu as atividades da geração que veio após Jesus, pois o livro de Atos cobre o período desde o dia de Pentecostes até a missão de Paulo aos gentios e sua prisão posterior.
A correspondência
Tal como acontece a famílias e amigos nos dias de hoje, as jovens congregações mantinham contato umas com as outras e vários líderes da igreja escreviam para as igrejas sobre temas teológicos e éticos. Paulo foi o líder que mais escreveu cartas às igrejas.
O encerramento
O livro de Apocalipse encerra o Novo Testamento como como um ápice empolgante e misterioso. Ele explica simbolicamente os propósitos de Deus por intermédio de Cristo para a plenitude do tempo e da criação.
O ANTIGO E O NOVO TESTAMENTO
Jesus de Nazaré pregava a iminente vinda do Reino de Deus previsto nos livros dos profetas. Após a morte de Jesus, seus discípulos começaram a ensinar sua mensagem em Jerusalém e nas cidades do Mediterrâneo Oriental. Eles eram judeus e usavam os textos que chamamos de Antigo Testamento ou Bíblia Hebraica, embora divergissem na interpretação de muitas passagens, principalmente em relação ao papel de Jesus no cumprimento de muitas delas.
Os cristãos acreditavam que Jesus Cristo cumprira de modo incontestável a história de Deus, da qual Israel se lembrava desde Abraão, passando pela reconstrução do templo. Jesus foi um judeu e, por isso, referia-se constantemente às Escrituras e via seu ministério de acordo com os preceitos nelas contidos (veja Mt 5.17-20). Por isso, a Bíblia Hebraica passou a ser também a Bíblia cristã. Os escritos que hoje chamamos de Novo Testamento dependem dos eventos e das concepções do Antigo Testamento. Na verdade, o Novo Testamento e sua proclamação não poderiam existir sem o testemunho das Escrituras judaicas. Esse fato não deve nos surpreender, pois, os cristãos acreditavam que o Deus a quem conheciam como o Pai do Senhor Jesus Cristo era o mesmo Deus que chamou Israel à existência.
Um conhecido estudioso da Bíblia explica a unidade da Bíblia desta maneira:
A Bíblia [...] tem uma unidade como a de uma grande peça de teatro. Ela se move do início ao fim, da criação à nova criação. A história lida com as esperanças e os temores das pessoas, com sua alegria e angústia, suas ambições e seus fracassos. Há uma grande concordância entre a enorme diversidade presente na Bíblia: diferentes autores, diferentes situações históricas, diferentes tipos de expressão teológica. No entanto, subjacente a toda essa enorme variedade
está o movimento dinâmico, similar ao enredo de uma peça de teatro, que une o todo. O drama bíblico, entretanto, é único pelo fato de que Deus aparece no elenco. O Senhor não é apenas o autor que se encontra por trás das cenas, impulsionando e dirigindo o drama, mas é também o protagonista, aquele que ocupa o palco como ator principal. O enredo bíblico é o desdobramento do propósito de Deus para a criação a despeito de todos os esforços contrários. O desenlace é alcançado,
de acordo com a convicção da comunidade cristã, quando a crucificação e a ressurreição de Jesus de Nazaré são proclamadas como o sinal da vitória decisiva de Deus. À luz desses eventos culminantes, os estágios anteriores da história são entendidos com um sentido mais profundo e mais abrangente.
( O desenrolar do drama da Bíblia , por Bernhard W. Anderson)
A AUTORIDADE DA BÍBLIA
A AUTORIDADE DA BÍBLIA
Por autoridade das Escrituras entendemos que ela possui o direito de governar os corações, mentes e corpos de cada ser humano. Essa autoridade não depende de a humanidade cooperar com ela ou compreendê-la. A sua autoridade depende do poder e da supremacia de seu autor, Deus.
A afirmação de que Deus se revelou em forma escrita através de autores humanos e que as informações contidas nos livros canônicos não são de origem humana é a base para a defesa dessa autoridade. Implica, mas não se esgota, em assuntos relacionados à inerrância, infalibilidade, interpretação, crítica e lei bíblica.
O sopro de Deus
O apelo à autoridade da Bíblia é fundamentado no conceito de inspiração. Embora a Bíblia não fale diretamente sobre inspiração em sua maior parte, um versículo é sempre mencionado: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça” (2Tm 3.16). A palavra “inspirada” nessa passagem é o termo grego theopneustos, cujo sentido literal é “sopro de Deus” ou “fôlego de Deus”. A esse versículo segue-se outro, que se refere às “sagradas letras” (v. 15), ou seja, a Bíblia Hebraica, e possivelmente também a algumas das cartas de Paulo.
Os cristãos evangélicos veem a Bíblia como preservada de erros pelo Espírito Santo, que guiou os escritores do erro, sem eliminar suas preocupações, situações ou estilos específicos.
Este envolvimento divino, permitiu que os escritores bíblicos se comunicassem sem corromper a mensagem de Deus, tanto para os destinatários imediatos de seus escritos como para aqueles que viriam depois. Esta concepção de inspiração é chamada de “inspiração verbal e plenária”, o que significa que cada palavra (não apenas as ideias ou conceitos abrangentes) foi significativamente escolhida sob a superintendência do Espírito Santo de Deus.
Os evangélicos reconhecem a existência de variações textuais entre relatos bíblicos de eventos e discursos aparentemente idênticos, e os veem como complementares, não contraditórios, e os explicam como pontos de vista divergentes de seus escritores. Por exemplo, o Evangelho de Mateus pretendia comunicar o Evangelho aos judeus, o Evangelho de Lucas aos gregos e o Evangelho de Marcos aos romanos. Algumas discrepâncias são explicadas por alterações nos manuscritos (que supostamente contêm muito aproximadamente o texto original e) que essas alterações foram introduzidas à medida que as cópias eram feitas (talvez das próprias cópias), de forma deliberada ou acidental.
Como determinamos a autoridade das Escrituras?
Atribuir autoridade suprema às Escrituras levanta a questão de como determinamos que ela possui essa autoridade. Isto é, onde está a evidência? Existem dois tipos de evidências para determinar essa autoridade.
1. Evidências internas. O primeiro lugar que procuramos a autoridade das Escrituras é
a própria Escritura. Olhar para fora em busca de confirmação é secundário. Não dependemos Não olhamos para a criação para determinar a autoridade da Palavra divina. Olhamos para o Criador, que fala através de sua Palavra. Os céus declaram a glória de Deus, mas as Escrituras declaram sua glória e suas palavras. A Bíblia atesta sua própria autoridade para governar a criação, declarando-se a divina Palavra de Deus (Sl 19:1; 2Tm 3.16 ; 2Pe 1.21).
As Escrituras registram profecias cumpridas de Gênesis a Apocalipse. Cerca de 150 anos antes de o rei Ciro da Pérsia viver, Deus o chamou pelo nome por meio do profeta Isaías. Ele declarou que Ciro seria rei e serviria aos seus propósitos para o seu próprio povo após o cativeiro babilônico (Is 44.1,4,28). Muito antes de Jesus nascer, os profetas do Antigo Testamento falaram do seu ministério terreno em mais de 300 profecias . Cristo cumpriu todas elas. Estas profecias, juntamente com muitas outras na Bíblia, testificam a confiabilidade das Escrituras e do direito de serem autoritárias nas nossas vidas.
Deus dirigiu o que cada autor da Bíblia a escrever pelo seu Espírito sem contradição ou erro. Deus trabalhou através das personalidades, experiências e estilos de escrita dos autores, mas as palavras eram dele e não deles (2Pe 1.20,21). A perfeição, o poder e a autoridade de Deus conferem naturalmente à sua Palavra esses mesmos atributos. Jesus Cristo, o Filho de Deus, atestou esta verdade quando orou: “A tua palavra é a verdade” (Jo 17.17b). Cristo disse aos seus discípulos que o Espírito Santo viria e confirmaria esta verdade nos corações de seus seguidores (Jo 16.13).
Jesus confirmou a autoridade das Escrituras quando disse: “Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra” (Mt 5.18). Em Lucas 16.17, ele disse:
“É mais fácil os céus e a terra desaparecerem do que cair da Lei o menor traço”. A “Lei” são as Escrituras do Antigo Testamento a Bíblia Hebraica. Após sua ressurreição, Jesus caminhou pela estrada de Emaús e conversou com dois discípulos. “²⁷ E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras” (Lc 24.27). Cristo confiou na exatidão e na autoridade das Escrituras do Antigo Testamento.
Pedro, inspirado pelo Espírito Santo, falou sobre a autoridade divina do Novo Testamento. “Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20,21). O mesmo Deus que inspirou o Antigo Testamento e o preservou fielmente é o mesmo Deus que escolheu todos os autores do Novo Testamento e falou através deles.
2. Evidências Externas. Com documentos tão antigos como a Bíblia, as evidências externas são limitadas e espalhadas ao longo dos tempos. Ainda assim, é difícil ignorar as evidências, como os manuscritos do Mar Morto. Cerca de novecentos documentos antigos estavam preservados em frascos hermeticamente fechados, esquecidos durante quase 1.900 anos. A descoberta mais emocionante nos recipientes foram pergaminhos de todos os livros da Bíblia Hebraica, exceto o livro de Ester.
Quando os especialistas compararam esses manuscritos com as cópias modernas do Antigo Testamento, os resultados foram surpreendentes. A cópia do livro de Isaías dos Manuscritos do Mar Morto, provaram ser, palavra por palavra, idênticos à nossa Bíblia Hebraica padrão em mais de noventa e cinco por cento do texto. Os cinco por cento de variações consistiam
principalmente em lapsos óbvios de caneta e variações ortográficas, que não afetam nem a mensagem da revelação.
Antes da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, arqueólogos encontraram cerca de dez mil documentos bíblicos que datam do século 5 d.C. em uma antiga sinagoga da cidade do Cairo, no Egito. Junto com o testemunho dos Manuscritos do Mar Morto e do Cairo, os arqueólogos também descobriram o altar de pedra de Ataroth, a Pedra de Roseta e a
Rocha Behistun. Estas últimas descobertas permitiram aos especialistas decifrar o código de várias línguas antigas. Ao traduzirem muitos documentos antigos, os especialistas confirmaram a exatidão de muitos registros históricos de civilizações e reis narrados na Bíblia, que antes eram considerados falsos por alguns estudiosos.
Então, seja pela evidência interna ou externa, Deus provou o seu poder para preservar as Escrituras através dos tempos, o que atesta sua autoridade suprema.
A IMPORTÂNCIA DA BÍBLIA
Quando buscamos entender a mensagem de Deus para nós e viver de acordo com a vontade divina, nós nos voltamos para as Escrituras e a tradição da Igreja em busca de orientação para nossa própria experiência a fim de fazer uma verificação. Também nos voltamos para nossa razão a fim de usá-la como ferramenta para juntar Escrituras, tradição e experiência.
AS ESCRITURAS
Sob muitos aspectos, a Bíblia é como uma colcha de retalhos. Ela chega a nós escrita por meio de muitas pessoas em períodos diferentes. E, ainda assim, os retalhos multicoloridos tramam um tecido. As experiências que motivaram a escrita da Bíblia foram tão importantes para aqueles que as viveram, relataram e escreveram que se tornaram e permanecem sendo atuais.
A Bíblia é sagrada porque é a palavra de Deus. A Bíblia guarda relatos de histórias, poesia e instrução moral e ética, todavia, ela é mais do que história interessante, bela e repleta de lições morais importantes. A Bíblia é sagrada porque Deus escolheu usá-la como um meio para se comunicar conosco.
Podemos resumir a importância das Escrituras das seguintes maneiras:
As Escrituras são fundamentais porque nelas e por meio delas encontramos a Deus. As Escrituras apresentam um registro de como outros encontraram o Senhor. Lemos sobre Moisés encontrando Deus na sarça ardente que não era consumida; Rute encontrando Deus em meio a uma crise em sua vida; Paulo encontrando Deus na estrada para Damasco.
Todavia, conforme lemos, estudamos e meditamos sobre as Escrituras, o Senhor nos encontra ali também e compartilha sua natureza divina conosco.
As Escrituras são fundamentais porque nelas Deus compartilha conosco seu plano. O mundo muitas vezes nos parece caótico. Os eventos que vivenciamos podem não fazer sentido para nós. Buscamos um sentido mais profundo para a vida do que o mero ciclo biológico de nascimento e morte. As Escrituras nos ensinam que o Senhor ordena o mundo para os seus propósitos divinos. Deus se revelou ao mundo em Jesus de Nazaré “reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19).
As Escrituras são fundamentais porque através delas entendemos a natureza de Deus. “Deus tanto amou o mundo” é a maneira de João descrever a natureza do Senhor (Jo 3.16). O Deus revelado em Jesus Cristo é único entre os deuses adorados pela humanidade ao longo de sua história. Quando um vulcão entra em erupção no Havaí, o cristão não interpreta esse evento como sinal da frustração da deusa Pele com a humanidade. Coisas terríveis acontecem no mundo, porém sabemos pelas Escrituras que a natureza de Deus é amor e que ele “age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam” (Rm 8.28a).
As Escrituras são fundamentais porque nelas encontramos tudo o que é necessário para levar uma vida santa. A vida santa é aquela agraciada pelos dons espirituais da fé, da esperança e do amor. Por meio das Escrituras, adquirimos a força espiritual necessária para viver em harmonia com os propósitos de Deus. Todas as pessoas buscam respostas para as
questões da vida: como sei o que é certo e errado? A quais objetivos devo devotar minha vida e energia? Como posso alcançar meu potencial? Essas são perguntas que a Bíblia leva a sério e para as quais oferece resposta.
Por esses motivos, a Bíblia tem lugar central em nossa vida e é a base para toda a nossa adoração como cristãos. Se examinarmos de perto os hinos que entoamos e as orações que fazemos, descobriremos que são centrados na mensagem bíblica.
A TRADIÇÃO RECEBIDA
Quando Jesus foi para a sinagoga, ele leu as Escrituras hebraicas. Além de serem consideradas textos sagrados, elas também faziam parte da tradição sob a qual Jesus nasceu. Assim também ocorre conosco. As Escrituras são tanto um texto sagrado quanto nossa tradição. A Bíblia faz parte do mundo em que nascemos. Faz parte da nossa tradição.
Na igreja, a tradição enriquece nossa experiência. Os hinos, as orações e os credos, apesar de centrados nas Escrituras, passaram a fazer parte da nossa tradição. Quando afirmamos os credos, partilhamos com aqueles que seguiram as Escrituras ao longo dos séculos as ideias centrais da fé, agora incorporada nessas declarações de fé atemporais. Lembramos a história de nossos pais e mães na fé e tiramos força do exemplo deles. Entoamos os grandes hinos da igreja e nos regozijamos nas tradições que colaboram para nos tornarmos quem somos.
A tradição nos ajuda a ultrapassar as fraquezas da igreja no presente e a recuperar a riqueza da fé expressa por gerações anteriores. Por exemplo, John Wesley acreditava que a mensagem completa da Bíblia, em especial a ideia de santidade, não era ensinada na igreja de sua época. No período em que viveu, ele
ofendeu muitos líderes da igreja com seu método e estilo de pregação. Sua convicção sobre o significado das Escrituras levou a uma ênfase na santidade de coração e de vida nas sociedades metodistas da Inglaterra e no movimento metodista na América do Norte.
Wesley não rejeitou a tradição. Antes, ele foi além de seu tempo a uma tradição anterior que, no seu entendimento, alçava a uma compreensão mais completa da Palavra de Deus. A tradição da igreja também pode enriquecer a vida e a fé e ajudar a entender as Escrituras para nossa própria época.
A EXPERIÊNCIA
As Escrituras e a tradição apresentam um entendimento do mundo. Ainda assim, uma das tarefas mais importantes da vida, se não a mais importante, é desenvolver crenças genuinamente nossas. A experiência pessoal é uma parte vital desse desenvolvimento.
A experiência especificamente religiosa parece ser universal, mas nem todas são iguais. Para o cristão, a experiência religiosa autêntica tem de estar em harmonia com o evangelho. Quando acreditamos que Deus fala conosco, o que ouvimos deve ser confrontado com a mensagem básica das Escrituras. Se o que escutamos é diferente da mensagem bíblica, é um sinal de alerta de que algo está errado. Examinando um pouco mais o texto, podemos descobrir que nosso entendimento da Palavra é falho ou que algum aspecto da nossa experiência pessoal está fora de sincronia com o cerne do evangelho.
As Escrituras e a tradição são portadoras de uma mensagem inestimável. Mas a mensagem permanece como mera informação se não for verificada pela experiência pessoal. As Escrituras e a tradição podem ensinar que Deus é amor, mas se não experimentarmos esse
amor como uma realidade em nossa vida, será difícil acreditar nesses ensinamentos. Quando experimentamos o amor de Deus como algo real, nosso espírito ressoa o testemunho das Escrituras e da tradição.
A RAZÃO
Deus nos concede a mente e o poder de raciocínio por meio dos quais é possível entender o mundo e nosso lugar nele. A razão é aquela parte de nós pela qual somos capazes de planejar de antemão, de aprender com os erros, de compreender os sentidos e de aplicar os padrões éticos à vida. A capacidade de raciocinar torna possível aos seres humanos chegar à lua, melhorar a qualidade dos produtos alimentícios, descobrir as causas de doenças e estabelecer instituições que proveem cura e apoio às pessoas que possuem alguma necessidade especial.
O próprio fato de nos referirmos às Escrituras como a Palavra de Deus implica que Deus escolhe se dirigir a nós como seres racionais. As palavras são produtos exclusivos da racionalidade. Sem o raciocínio não seria possível ouvir ou responder à Palavra de Deus, nem examinar a vida e as tradições à luz das Escrituras.
Quando lemos as Escrituras, o raciocínio nos capacita a considerar o tempo e o lugar em que a passagem particular foi escrita e a refletir sobre as pessoas e a situação às quais
ela foi dirigida pela primeira vez. O raciocínio nos ajuda a determinar a relevância única dessa Palavra para nós e para nossa época, pois embora a verdade de Deus seja atemporal, cada geração tem de descobrir como aplicar a verdade à sua época e ao seu lugar. A verdade fundamental das Escrituras é, com certeza, que Deus é amor e que somos chamados a estar em relacionamentos marcados pelo amor. É por meio do raciocínio que somos capazes de determinar o que significa agir de modo amoroso em relação ao outro.
RESUMO
A vida do cristão deve ser vivida em resposta ao amor gracioso de Deus. Aprendemos a respeito desse amor nas Escrituras, em especial na história bíblica de nascimento, vida, ministério, sofrimento, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Somos apoiados na fé pelo testemunho de todos aqueles que vieram antes de nós e que modelaram a tradição que recebemos. Na vida, quando somos capacitados pelo amor, verificamos pela experiência a verdade da mensagem cristã. Ao lermos as Escrituras, ao respondermos à tradição e ao interpretarmos a experiência, empregamos a capacidade de raciocínio.
No entanto, em todas as coisas, o raciocínio, a experiência e a tradição focam o que Deus torna conhecido nas Escrituras.
OS PRINCIPAIS TEMAS DA BÍBLIA
Onde buscamos os principais temas das Escrituras? Como saberemos o que é importante quando encontrarmos?
Nossa primeira orientação é a tradição, que simplesmente significa o que a igreja tem ensinado com alguma consistência ao longo de sua história.
Também usamos o raciocínio quando examinamos as Escrituras e a tradição. Fazemos perguntas, desafiamos as respostas convencionais e equilibramos as conclusões rivais.
Por fim, descobrimos que nossas crenças interagem com nossa experiência. Como nossas crenças refletem na experiência? Como as nossas experiências se refletem nas crenças?
Os temas escriturais esboçados aqui resistiram ao teste de centenas de anos de experiência na tradição da igreja. Eles foram testados pela razão e sobreviveram na experiência.
DEUS: CRIADOR E REDENTOR
Este mundo bom
A base para tudo o mais em que cremos é a fé em Deus como Criador. Nós e o mundo devemos a existência ao fluxo constante da energia criadora e sustentadora de Deus. Na verdade, agora que aprendemos mais a respeito dos mistérios do espaço, podemos dizer que sejam quais forem os mundos que existam lá fora, quais criaturas extraterrestres vivam e em quais mundos estranhos, eles também devem sua existência ao mesmo Deus que reconhecemos como “Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis” (O Credo Niceno).
A Bíblia inicia com duas histórias de criação: Gênesis 1.1―2.4a e 2.4b-25. Em Gênesis 1, encontramos vez após outra as palavras: “E Deus viu que ficou bom” (1.10). Ficamos sabendo que, não importa quão ruins as coisas pareçam, o mundo em que vivemos é fundamentalmente bom. A importância e o valor profundo do relacionamento entre um homem e uma mulher e a integridade da sexualidade humana são enfatizados (Gn 1.27-31; 2.21-25).
O Salmo 8 é uma afirmação comovente da maravilha da criação e de nosso lugar nela, reconhecendo nossa dependência do Criador.
Em um poema de beleza pungente, o profeta Isaías canta as maravilhas do ser de Deus e da intimidade da presença dele conosco (Is 40).
A criatura humana: especial e corrompida
Nós, seres humanos, somos uma parte da criação. A preocupação contemporânea com a ecologia nos lembra desse fato. É verdade que nos foi dado domínio sobre o restante da criação (Gn 1.26-28), o que com certeza significa que temos de respeitar e usar o mundo para o bem comum.
Contudo, também somos diferentes do restante da criação. Fomos criados “à imagem de Deus” (Gn 1.27). A tradição identifica essa imagem de muitas maneiras. Um entendimento básico é que somos criados com uma relação especial com Deus conforme sugere um estudioso, uma relação de responsabilidade e responsividade. Enraizados nessa relação estão os dons criativos que tornam bela a vida
humana, dons esses que todos compartilhamos em alguma medida.
Somos especiais ― e sempre seremos. Mas estragamos isso. A história da criação continua na história da queda (Gn 3). Adão e Eva, capacitados com a liberdade para responder à vontade de Deus, escolheram seguir o próprio caminho. Essa é também a nossa história.
Qual foi o pecado deles? Basicamente, o orgulho e a teimosia. E observe: todos nós exercemos a mesma vontade própria orgulhosa (veja Rm 3.23).
A consequência disso é a alienação. Primeiro, de Deus, contra quem nos rebelamos; depois, da natureza: fomos expulsos do jardim. E, tragicamente, nos alienamos uns dos outros: o homem da mulher e o irmão do irmão (como Caim e Abel; Gn 4.1-8).
A preocupação de Deus com a humanidade: a aliança
A má notícia é nossa rebelião. A boa notícia é a resposta de Deus. O Senhor ficou preocupado com nosso mau comportamento e teve de tratá-lo. Mas Deus nunca desiste de nós (Gn 6.1-8). O Criador também é o Redentor.
Uma das percepções mais bonitas do Antigo Testamento é a de que Deus toma a iniciativa de estabelecer uma aliança, um acordo, com a humanidade. Em essência, o que o Senhor diz é: “Eu os amo e não quero deixá-los continuar no caminho em que estão. Se me ouvirem e me obedecerem, farei com que recebam as bênçãos que em verdade pretendo lhes dar.”
Por isso, Deus fez uma aliança com Abraão (Gn 12.1-3; 22.15-18) e renovou-a com Moisés (Êx 2.24; 3). Observamos que essa aliança feita com Israel também abençoou “todos os povos da terra” (Gn 28.14).
Jeremias sonhou com uma “nova aliança”, um aprofundamento espiritual da relação redentora de Deus com a humanidade (Jr 31.31-34).
A nova aliança recebe um sentido ainda mais profundo por meio de Jesus. Na véspera de sua morte, Jesus estabeleceu uma nova configuração dessa aliança com seus discípulos e, por intermédio deles, conosco (Mt 26.2629; Mc 14.22-25; Lc 22.17-19; veja também 1Co 11.23-26).
A expressão familiar “Novo Testamento” significa o mesmo que nova aliança.
O Deus de bondade e misericórdia
O Deus revelado no Antigo Testamento é marcado por um caráter muito especial. O Senhor de Israel é diferente dos deuses dos povos vizinhos e de outras civilizações.
Javé, como é chamado o Deus de Israel, é santo e demanda santidade do seu povo escolhido. Além disso, exige lealdade e adoração exclusivas. Esse é o sentido quando se diz que o Senhor é “zeloso”.
Mas a maravilha do caráter divino se aprofunda; esse Deus santo também é um Deus de misericórdia. O Senhor ama as criaturas humanas, e é por isso que ele entra em uma aliança para redimi-los. Esse atributo de misericórdia, traduzido também como “amor leal”, é a marca mais profunda do caráter divino.
A união de bondade e misericórdia é sempre reafirmada. Quando Deus exige obediência, oferece também a promessa de misericórdia (veja Êx 20.4-6; Dt 7.6-11).
O salmista canta a misericórdia de Deus, seu “amor leal”, e convida ao regozijo da fé (Sl 100).
Encontramos uma das expressões mais belas do amor de Deus nos escritos de Oseias.
Sua esposa lhe foi infiel, assim como nós somos infiéis a Deus. No entanto, Oseias não conseguiu deixar de amar a esposa e percebeu que Deus, de forma semelhante, não desiste das pessoas.
Deus amor
É em Jesus Cristo que o amor de Deus é revelado e expresso de maneira mais plena. Essa é a crença cristã distintiva.
Jesus, é claro, foi criado como um judeu que acreditava na misericórdia de Deus. Em seu próprio ensinamento, ele reafirmou essa fé e acrescentou uma nova dimensão a ela. Deus não apenas nos ama como seres humanos desobedientes, mas ainda nos busca ativamente em nossos caminhos cheios de erros.
Por isso, Jesus contou a história do pastor que vai atrás da ovelha perdida e a história da mulher que varre a casa atentamente em busca de uma moeda perdida. E também há outra história que todos apreciam: a do filho pródigo cujo retorno é celebrado pelo pai que, “cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou” (Lc 15.20b).
Essas histórias foram contadas em resposta à crítica frequente dirigida a Jesus. Ele buscava deliberadamente o pária social, o deserdado. Sua resposta em outra ocasião é direta e poderosa: “O Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19.10).
Os seguidores de Jesus aprofundaram essa declaração impressionante ao dizer que Jesus não só nos ensinou a buscar o amor de Deus, mas que ele é a própria expressão do amor expansivo e salvador do Pai. João 3.16, talvez o versículo mais amado do Novo Testamento, afirma essa fé com muita clareza. O versículo 17 afirma o propósito da ação radical de Deus: não condenar, mas salvar.
O Deus triúno
Acabamos de dizer algo que é novo nas Escrituras: falamos de Deus como o Pai e de Deus como o Filho. Os escritores do Antigo Testamento não podiam dizer isso. Somente no Novo Testamento tal fé é afirmada.
A fé hebraica é estritamente monoteísta. Há somente um Deus, o Deus de Israel. Jesus e seus discípulos, é claro, criam nisso.
A igreja cristã é fiel à crença em um só Deus. Contudo, a Igreja também reconhece que o Senhor se deixa experimentar em mais de uma forma. Os cristãos primitivos sentiam que Deus, em Jesus, estava se aproximando deles de modo especial. E após a morte e ressurreição de Jesus, eles começaram a dizer: Deus “enviou seu Filho”. O Deus que eles conheciam como Pai veio a eles como Filho.
Eles já estavam estendendo sua fé relativa ao Deus único. Mas logo viria mais: eles experimentariam Deus como o Espírito Santo, e teriam de encontrar uma nova linguagem para usar em relação ao Senhor.
Os escritores do Novo Testamento não desenvolveram uma doutrina completa da Trindade. Entretanto, usaram uma linguagem que inspirou os credos do perído patrístico. Veja Mateus 28.19 e 2Coríntios 13.14. Esses autores deram a matéria-prima a partir da qual outras gerações de cristãos gerariam a doutrina da Trindade: um Deus em três pessoas.
A PESSOA E A OBRA DE CRISTO
Encarnação
A declaração impressionante de João 3.16,17 levanta duas questões a respeito de Jesus. Quem era ele? O que ele fez? As respostas fornecidas pelo Novo Testamento deram origem a duas
grandes doutrinas eclesiásticas: encarnação e expiação.
O termo “encarnação”significa que Deus, em Jesus de Nazaré, entrou na história humana de uma forma exclusiva. Deus fez-se um ser humano. Deus encarnou tornou-se carne em Jesus.
Cada escritor do Novo Testamento afirmou essa declaração sobre a encarnação. Eles o fizeram de diferentes maneiras e sob diversas representações: nas histórias do evangelho sobre o que Jesus disse e fez, nos sermões registrados em Atos dos Apóstolos, na reflexão sobre quem Jesus era nas epístolas e na grande visão de um novo mundo encontrada em Apocalipse. Cada documento atesta, a seu próprio modo, Jesus como “Senhor” (a palavra usada para Deus no Antigo Testamento) e como “Cristo” (o Messias).
Talvez a declaração mais eloquente dessa fé esteja no que é conhecido como o prólogo ao Evangelho de João (Jo 1.1-18). A afirmação central está no versículo 14: a Palavra (que no versículo 1 é identificada como Deus) tornou-se carne (um ser humano de fato).
E se perguntarmos o que o Senhor pretende com essa aventura misteriosa, a resposta estará nos versículos 17 e 18. Jesus Cristo inaugurou uma nova forma de relacionamento com Deus não mais por meio da lei, mas pela graça. Jesus Cristo torna Deus totalmente conhecido.
Expiação
Outra questão é: o que Jesus fez? A resposta para essa pergunta está expressa na doutrina da expiação.
O termo “expiação”significa a restauração da relação com Deus. Estávamos em divergência com ele, mas agora podemos ser um com ele. E a afirmação radical da nossa fé é que essa
restauração não é obra humana, mas é um ato de Deus em nosso favor.
O sofrimento e a morte de Jesus são a obra central da expiação. Todo o Novo Testamento é o reconhecimento da morte de Jesus na cruz como o ato salvífico de Deus. Nessa morte, o Senhor fez o necessário para restaurar nossa relação com ele e com os outros.
Várias imagens da expiação são utilizadas pelos escritores do Novo Testamento. Uma delas é “propiciação” (Rm 3.25; 1Jo 2.2; 9,10). Esse termo complexo significa algo como ser purificado do mal de modo que a pessoa possa se aproximar de Deus. Outra imagem faz uso do termo legal “justificação”. Somos culpados e sabemos disso, mas não podemos fazer nada a respeito dessa culpa. Deus assume nossa culpa e nos perdoa gratuitamente (Jo 3.16,17; Rm 5.8). Efésios 1.7 acrescenta redenção, como na compra de escravos para livrá-los. Mas talvez a imagem mais bela seja “reconciliação”. Estamos alienados de Deus e defensivos quanto a isso. O Pai, a quem ofendemos, toma a iniciativa por nós, derruba a nossa atitude defensiva e restaura o relacionamento. Segunda Coríntios 5.19 é a declaração direta dessa afirmação notável.
Ressurreição
A obra de Jesus não termina em sua morte. A crucificação resulta na ressurreição. Aqui há mais uma vez um testemunho central unânime dos escritores do Novo Testamento.
Os Evangelhos registram a história. Cada escritor a relata da sua maneira e reconta os eventos conforme suas próprias lembranças. Mas o testemunho é claro: Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos.
Sermões registrados em Atos reafirmam essa fé (At 2.24,32; 17.31). A ênfase é sempre no fato de que “Deus o ressuscitou dos mortos” (At 13.30). A ressurreição não representa um
aumento do potencial humano. Ela é o ato redentor de Deus: a vitória sobre a morte.
O mesmo refrão corre ao longo das cartas. Em 1Coríntios 15.3-8, Paulo apresenta o primeiro relato escrito do evento em que nossa fé se baseia e desenvolve seu raciocinio de forma determinada a partir desse evento. O argumento é intrincado, porém a conclusão é clara: a esperança está solidamente fundamentada na vitória de Deus sobre a morte na ressurreição de Jesus.
Paulo tira uma conclusão extraordinária dessa fé: o mesmo poder por meio do qual Deus ressuscitou Jesus dos mortos está disponível para nos capacitar a derrotar as influências mortais que nos arruínam e para alcançar uma nova qualidade de vida (veja Romanos 8.11).
A salvação para a humanidade: a maravilhosa graça
A reflexão sobre o que dissemos a respeito da pessoa e obra de Jesus Cristo deixa claro que tudo isso é a ação redentora de Deus em nosso favor. É a expressão da graça divina: o amor contínuo e sacrificial de Deus.
O Criador e Redentor se move continuamente em direção à humanidade em níveis ainda mais profundos. O que foi vislumbrado pela primeira vez na aliança (a preocupação de Deus com a humanidade) e o que foi cantado pelos poetas e profetas (a misericórdia divina), é agora expresso de forma plena no amor abnegado e sofredor de Deus entregue em Jesus Cristo.
Essa graça maravilhosa é a única base da nossa esperança por cura. A aceitação da dádiva da graça plena é a chave para nos libertar da culpa e da frustração. A leitura cuidadosa de Romanos 3.23-25 produz uma declaração firme dessa fé. (Veja também Efésios 2.8,9)
John Wesley redescobriu um belo termo para expressar o mistério da dádiva gratuita
do amor de Deus. Ele falou sobre a “graça preveniente”, isto é, o amor que nos busca quando estamos perdidos (como o pastor busca pela ovelha). Significa que Deus, ainda quando estamos irados e alienados, tenta nos restaurar (reconciliação). Mesmo nos momentos em que não temos consciência, Deus tenta nos alcançar. E quando finalmente aceitarmos a dádiva, sentiremos que isso aconteceu porque Deus procurou com insistência nos persuadir a aceitá-la.
A justificação pela fé
Admitimos, mesmo com relutância, que somos pecadores. Nós não apenas fazemos coisas erradas como também somos capazes de atos e pensamentos estúpidos e destrutivos. Como podemos ser perdoados não só de nossos erros, mas também de nossa postura?
A resposta cristã é a doutrina fundamental conhecida como justificação pela fé: somos perdoados por meio da aceitação da dádiva gratuita do Senhor, ou seja, a graça oferecida por ele. Infelizmente, tendemos a ocultar essa resposta surpreendente, talvez até mesmo desconfortável, sob uma lista de tarefas e obrigações. As atividades se tornam uma tentativa de merecer o perdão por meio da obediência a algumas supostas exigências. Assim, a afirmação impressionante da graça gratuita de Deus tem de ser periodicamente redescoberta. Esse foi um primeiro aspecto da Reforma Protestante. Martinho Lutero redescobriu a declaração maravilhosa de Paulo em Romanos 3.28. Esse versículo passou a ser a senha da Reforma e de todas as igrejas protestantes que surgiram a partir desse evento.
Desse modo, a fé é a aceitação da dádiva de Deus. Tentar merecer o favor de Deus é frustrante, pois não leva a nada. A resposta de preferência é uma abertura da nossa parte
para Deus, que já está buscando nos alcançar. E confiar no amor fiel que conhecemos como graça.
A fé e as obras
Paulo foi bem específico: somos justificados pela fé “independente da obediência à Lei” (Rm 3.28). Lutero enfatizou isso com a expressão “apenas pela fé”. Essa afirmação de fé levanta uma questão interessante. Uma vez que somos salvos, podemos nos comportar como quisermos?
Essa dúvida parece ter surgido bem no início do ministério de Paulo. Por isso, em uma de suas primeiras cartas para os Gálatas, ele teve de se dirigir a eles de maneira bastante firme. Estamos livres da rigidez do domínio da lei, mas não somos livres para agir como nos agrada. Somos libertados para a lei mais profunda do amor (Gl 5.13-15).
Tiago enfatizou a importância de demonstrar a fé através das obras dizendo: “Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras” (2.18b).
Certamente, não é uma questão de alternativa. A fé nos atrai para a fidelidade. Mas devemos ser claros: a obediência não é um esforço exaustivo para merecer o perdão. Nossas obras de amor são uma resposta feliz ao amor dado gratuitamente por Deus.
O ESPÍRITO SANTO E A IGREJA
O Espírito de poder, verdade e amor
A vida cristã começa com o perdão. Aonde vamos a partir daqui? Recebemos o mandamento de amar. Mas como lidar com isso? Nesse ponto, o Novo Testamento nos oferece um novo recurso gracioso: a presença e o poder do Espírito Santo.
O Pentecostes foi a ocasião de uma experiência definitiva na vida dos discípulos (At 2.1-4). Jesus lhes prometera que, após sua partida, o Espírito Santo viria a eles (At 1.4,5; Jo 16.7) e que receberiam poder (At 1.8). Acreditamos compartilhar da mesma promessa: Deus pode estar presente no mais profundo do nosso ser para curar, motivar e promover o nosso crescimento.
João registra Jesus falando do Espírito em uma série impressionante de imagens (Jo 14.15-17,25,26; 15.26,27; 16.7-15). O Espírito Santo é o Espírito da verdade que promoverá a verdade em nós, o Conselheiro que estimulará e sustentará nosso crescimento.
Paulo escreve extensamente sobre os “dons espirituais” (1Co 12) e mais intimamente sobre o “fruto do Espírito” (Gl 5.22). O principal dom, ou fruto, do Espírito é a capacidade de amar (1Co 13).
A comunidade do Espírito
Esse relato da experiência cristã ainda está incompleto. Ele é pessoal, porém não pode ser solitário. Nós, indivíduos, não vivemos sozinhos; precisamos de comunidade. E o Novo Testamento oferece um cumprimento especial dessa necessidade: a Igreja.
Quando Paulo escreve mais extensamente sobre o Espírito, ele escreve também sobre a Igreja (1Co 11‒14). Temos a tendência de pensar em “aderir” a uma igreja, mas Paulo fala como se fôssemos “chamados” para formar uma comunidade do Espírito.
A frase “o corpo de Cristo” talvez seja a imagem eclesiástica mais conhecida (1Co 12). Como indivíduos, estamos juntos em uma união orgânica. Temos muitos dons do Espírito diferentes, os quais são essenciais para a vida da coletividade. Vivemos e trabalhamos juntos “visando ao bem comum” (v. 7). Portanto,
“há um só corpo e um só Espírito” (Ef 4.4; veja também 4.1-16).
As primeiras formas de organização e prática congregacionais eram simples, mas à medida que a Igreja cresceu, elas se tornaram mais complexas. No entanto, a função da Igreja sempre foi clara, como ainda é: nutrir a experiência cristã (“para que o corpo de Cristo seja edificado”) e, ao mesmo tempo, nos preparar “para a obra do ministério” (Ef 4.12).
Os sacramentos
Desde o início da nova vida em Cristo, os seguidores do Senhor reúnem-se para comungar e adorar (At 2.42,46; Hb 10.2325). Os cristãos começaram com práticas que lhes eram familiares por causa da vida na sinagoga, e gradualmente foram dando novo sentido a elas.
Algumas formas de adoração logo adquiriram uma importância especial e vieram a ser conhecidas como “ordenanças” (em algumas tradições eclesiásticas como “sacramentos”). Há divergências sobre o que deve ser chamado de ordenança, mas a maioria dos cristãos evangélicos reconhece dois, talvez porque esses estejam definitivamente enraizados no próprio Novo Testamento.
O batismo era uma prática judaica, conforme vemos no ministério de João Batista e na aceitação do rito por Jesus (Mt 3; Mc 1.411; Lc 3.2-22; Jo 1.6-8,19-34). No entanto, o batismo na época de Jesus (At 2.38) e em nome da Trindade (Mt 28.19) concedeu ao rito um sentido totalmente novo. Fundamentalmente, o batismo é o sinal da graça salvífica de Deus em operação na nossa vida e é o sinal da nossa entrada na comunidade do Espírito.
A ceia do Senhor é a segunda ordenança (ou sacramento) da Igreja, instituído pelo próprio Jesus na última ceia. A história é
relatada nos Evangelhos e em um registro ainda mais antigo de Paulo (1Co 11.23-25). A ceia do Senhor, ou eucaristia, como também é conhecida, passou a ser o ato central da adoração cristã. Tudo o que entendemos por encarnação, expiação, justificação, santificação e esperança de vida eterna enfim, todo o evangelho cristão é afirmado nessa ordenança.
O povo de Deus
Outra imagem da Igreja é a de ser “o povo de Deus” (1Pe 2.9,10). Essa imagem, é claro, reflete o entendimento de Israel como o povo escolhido do Senhor e afirma que somos, como cristãos, chamados a ser o recém-constituído povo de Deus.
A palavra grega para “povo” é laos . O vocábulo português “laico” tem origem nesse termo grego, que indica exatamente o que se quer dizer por igreja. A Igreja não é o clero, nem a conferência, nem o sínodo, tampouco qualquer forma institucional. A Igreja é o povo de Deus. Duas frases nos ajudam a entender o que isso significa.
“O sacerdócio de todos os crentes” é uma expressão marcante da Reforma Protestante. Afirma que toda pessoa pode ir diretamente a Deus em fé. Cada cristão é um sacerdote.
“O ministério laico” significa que os leigos são os ministros de Cristo na sociedade. O trabalho do corpo de Cristo no mundo é feito pelos “membros” do corpo. O ministério de Cristo na sociedade é realizado pelo povo “ordenado” para esse ministério por seu batismo, ou seja, os leigos.
Qual é nossa responsabilidade na sociedade? Em uma pequena frase muito exigente:amar o próximo. Por isso, Jesus conta a profunda história do bom samaritano (Lc 10.25-37). Paulo também endossa a importância central do amor (Gl 5.13-15; Rm
13.8-10). Somos chamados à tarefa contínua de encontrar maneiras de implementar essa “lei régia”.
AS DIMENSÕES DA ESPERANÇA
O Reino de Deus
Uma das marcas do ensinamento de Jesus é o uso extenso da expressão “o Reino de Deus”. Contudo, o sentido da expressão se mostra complexo. Algumas pessoas tentam identificar a Igreja como o reino, enquanto outras pensam nele apenas como uma ordem social. No entanto, nenhuma dessas interpretações parece se ajustar à evidência.
A palavra “reino” significa governo ou reinado. Dois aspectos consistentes da soberania de Deus são que ele governa sobre o universo e sobre a história, quer admitamos isso quer não; mas o efeito final do governo de Deus depende de nossa aceitação e da obediência a ele.
Assim, o peso da mensagem dos profetas era que Israel, embora teoricamente reconhecesse Deus como seu Rei, só podia terminar de forma desastrosa em razão da desobediência habitual (Am 7.7-9).
Jesus acrescenta uma nota nova: ele afirma que em sua presença e em seu ministério, o governo de Deus está presente de um novo modo (situação declarada de maneira dramática em Lc 17.20,21). Jesus declara isso em uma série de afirmações sobre o desfecho da história, que são bem inquietantes (veja Mc 13).
Nesse ínterim, temos de aceitar a soberania de Deus. Talvez a melhor e mais simples palavra seja a exortação de Jesus: tenha como prioridade máxima da sua vida ser governado por Deus (veja Mt 6.33).
A vinda do reino
Os autores das Escrituras (Antigo e Novo Testamento) são notavelmente confiantes de que, não importa como nos comportemos, Deus acabará por afirmar o seu governo divino. O Senhor que estabeleceu a aliança será fiel a esse compromisso. E, em última análise, “todos os povos da terra serão abençoados” (Gn 12.1-3), e não apenas Israel.
Essa crença é expressa na bela visão do profeta Isaías sobre o reino messiânico. Não importa quão desobedientes os seres humanos sejam, Deus é fiel e estabelecerá um governo de bondade e misericórdia (Is 2.1-4; 9.2-7). Essa visão nos fascina desde que isso nos foi prometido. Ela se cumprirá à medida que a história avança? Ou se realizará apenas “além da história”? A resposta final está nas mãos de Deus, portanto, podemos confiar na solução.
O Apocalipse de João é outra magnífica declaração do governo supremo de Deus, apesar de ser muitas vezes mal compreendido. Devemos ter cuidado em não usá-lo como base para predizer a história, como se estivéssemos olhando para quadros e gráficos capazes de prever os acontecimentos. O cerne da visão de João é a garantia de que, não importa o que aconteça na história, Deus afirmará por fim sua soberania.
Händel nos faz cantar: “E ele reinará para sempre” (veja Ap 11.15). João nos assegura que devemos ousar esperar ser parte desse reino: “eles [os servos de Deus] reinarão para todo o sempre” (Ap 22.5).
A casa do nosso Pai
A questão do destino pessoal pós-morte é basilar na experiência humana. O que nos acontecerá quando morrermos?
No Novo Testamento, nossa fé é personalizada. Jesus juntou-se aos fariseus na afirmação
da ressurreição (Mc 12.18-27). Suas reflexões pessoais posteriores viraram parte entesourada da nossa crença: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos [...]. Vou preparar lugar para vocês. E [...] voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver.” (Jo 14.2,3; veja também v. 27).
Treinado como fariseu, Paulo também cria na ressurreição dos mortos (At 23.6; 26.8). Depois, ele acrescentou uma perspectiva cristã ao afirmar que a ressurreição de Jesus é a evidência decisiva para a validação dessa crença (1Co 15.12-20).
Paulo personalizou nossa esperança na sua propria percepção ponderada de que seremos dotados com um “corpo espiritual” para a vida transcendente na casa do Pai (1Co 15.35-38,42-44). No entanto, nossa esperança não é unicamente pessoal, pois nossa própria habitação será transformada. Por isso, João previu “novos céus e nova terra” (Ap 21.1). Paulo colocou isso de modo ainda mais ousado: todo o cosmo será libertado no cumprimento do propósito eterno de Deus (Rm 8.18-25).
CANONIZAÇÃO E TRADUÇÃO
O PROCESSO DE CANONIZAÇÃO
O que é um cânone das Escrituras? Por que ele é tão importante? Como o conseguimos?
A palavra “cânone” vem de um termo grego cujo sentido é “cana de medição”. Quando usamos a palavra em conexão com as Escrituras, queremos dizer que esses livros são uma medida, ou padrão, para a fé e para a vida.
A canonização é o processo pelo qual esses livros particulares foram considerados como um padrão. O cânone das Escrituras, a nossa Bíblia, foi desenvolvido pelo povo de Deus em resposta à necessidade da Igreja.
As Escrituras de Jesus e da igreja do século 1 eram as Escrituras hebraicas, o que os cristãos chamam de Antigo Testamento. Por quase cem anos, as Escrituras hebraicas formaram o cânone suficiente para a igreja. Então as pessoas passaram a fazer perguntas: E quanto a Jesus? Como viver a nova fé em um mundo que nos tenta a sermos infiéis?
As cartas de Paulo foram a primeira parte do Novo Testamento a ser escrita. Como as cartas ajudavam a responder às perguntas sobre a fé e a vida, elas foram preservadas, copiadas e colecionadas. Em 95 d.C., alguns cristãos já usavam as cartas de Paulo como Escrituras.
Muitos relatos foram escritos para registrar o que Jesus disse e fez, como também o que a sua vida, morte e ressurreição significam para os cristãos. Sabemos de cerca de uma dúzia de evangelhos que foram escritos naqueles anos iniciais, mas apenas Mateus, Marcos, Lucas e
João alcançaram a condição de “Evangelhos” pela Igreja. Outros escritos cristãos também surgiram ― cartas, sermões, apocalipses e ensinamentos.
Então, por que a Igreja decidiu desenvolver um Novo Testamento? Ninguém acordou certa manhã e resolveu que a Igreja precisava de um cânone. Antes, este se desenvolveu em resposta às pressões vindas de fora da Igreja e às necessidades identificadas no interior dela.
O cânone desenvolveu-se em parte por causa de necessidades e pressões internas sentidas pela Igreja. Qual era a crença certa?
A Igreja definiu a crença certa na “Regra de Fé” ― o que também chamamos de credos. Os escritos que ajudaram a definir e a apoiar a Regra de Fé tornaram-se padrões, ou cânones.
Eles eram conhecidos como “apostólicos” porque preservavam o ensinamento e a tradição dos apóstolos. Esse processo era o lado positivo da canonização.
Parte da pressão que ocasionou o desenvolvimento do cânone veio de fora da Igreja. Muitos livros eram escritos afirmando-se como ensinamento cristão. De algum modo, alguém tinha de decidir se tais livros continham o ensinamento apostólico. Esse processo foi o lado negativo da canonização. Em algum momento por volta de 150 d.C., um homem chamado Marcião formulou uma lista de livros que definiu como um cânone. Sua lista incluía dez cartas de Paulo e o Evangelhos de Lucas. Ele rejeitou o Deus do Antigo Testamento Criador não era o Deus de Jesus Cristo. Quando a lista de Marcião surgiu, a Igreja teve de pensar
com seriedade sobre quais livros eram de fato autoritativos.
A Igreja não respondeu reunindo um comitê para decidir. Ninguém tinha o poder necessário para fazer isso, mas havia concordância universal sobre vários pontos em resposta a Marcião. Primeiro, a Igreja acreditava que o Deus do Antigo Testamento também era o Deus de Jesus Cristo. Por conseguinte, o Antigo Testamento era autoritativo para a fé e para a vida na igreja. Segundo, havia um movimento em direção à afirmação dos quatro Evangelhos como modelo para a fé. Terceiro, outras cartas, como as de Paulo, eram defendidas como autoritativas. Estas incluíam as que hoje denominamos 1Pedro e 1João e, para algumas igrejas, livros como o de Barnabé, de Clemente e de Hermas.
Ireneu, bispo no sul da França (cerca de 185 d.C.), foi o primeiro escritor a apontar que havia um “Novo Testamento”, ou seja, uma coletânea reconhecida de escritos iguais em autoridade e valor ao Antigo Testamento. Contudo, a coletânea de Ireneu ainda não incluía todos os livros que enumeramos em nosso Novo Testamento. Livros como Hebreus, Tiago, 2Pedro, Judas e Apocalipse eram encontrados em algumas listas canônicas, mas não em outras.
Mais tarde, houve um evento que foi decisivo para o processo de canonização. Em 303 d.C., durante a última grande perseguição, o imperador Diocleciano ordenou que todas as Escrituras cristãs fossem destruídas, e que a pena para a desobediência seria a morte. Então a questão do cânone passou a ser pessoal, ou seja, quais livros eram sagrados o bastante para que se morresse por eles?
Após a perseguição promovida por Diocleciano, os concílios da Igreja começaram a definir o cânone. A lista de livros do Novo Testamento mais antiga de que se tem conhecimento está incluída em uma carta do bispo Atanásio de
Alexandria. Ela foi enviada para suas igrejas em 367 d.C. e permanece igual até os dias de hoje. Em 382 d.C., um concílio reunido em Roma fez uma lista completa dos livros canônicos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento.
Os livros que denominamos “apócrifos” fizeram parte do cânone durante boa parte da história da Igreja. Na época da Reforma Protestante, Martinho Lutero declarou-os secundários e não equiparáveis a livros autoritativos. O Concílio católico-romano de Trento, em 1546, declarou esses livros como parte autoritativa do cânone. Os protestantes em geral a consideravam como secundária e, até recentemente, não a incluíam nas bíblias impressas. No entanto, nos últimos trinta anos os protestantes têm mostrado mais interesse nos livros apócrifos,, embora sem considerálos autoritativos. Já outras igrejas evangélicas, incluindo as pentecostais, consideram os livros apócrifos apenas como literatura histórica, sem valor autoritativo.
VERSÕES DA BÍBLIA PARA O PORTUGUÊS
Os registros mais antigos da tradução de trechos da Bíblia para o português são do século 13. Foi sob o reinado de D. Dinis I (1261–1325), rei de Portugal, que foram traduzidos os vinte primeiros capítulos do livro de Gênesis, tendo a Vulgata Latina como base. Aproximadamente em 1400, o rei D. João I (1385–1433) ordenou que fossem traduzidos os Evangelhos, alguns trechos de Atos dos Apóstolos e algumas passagens das Cartas Paulinas apenas para os membros da nobreza. Esse trabalho, que também teve a Vulgata Latina como referência, foi realizado por padres católicos. O esforço conjunto desses clérigos resultou em uma publicação que incluía os textos mencionados e o livro de Salmos, que foi traduzido pelo próprio rei.
A primeira tradução completa do Novo Testamento para a língua portuguesa foi feita por João Ferreira Annes de Almeida, na cidade de Batávia (atual Jacarta), na ilha de Java (hoje, parte da Indonésia). Almeida nasceu em Várzea de Tavares, Portugal, em 1628, e faleceu em 1691, em Jacarta, Indonésia. Neste país, em 1642, ele aceitou a fé da Igreja Reformada Holandesa e, posteriormente, foi ordenado ministro. Almeida iniciou sua obra de tradução do Novo Testamento ainda muito jovem, aos 16 anos, usando as versões italiana, francesa, espanhola e latina. Esse trabalho se perdeu e a tradução definitiva foi publicada somente uma década antes de sua morte, em 1681.
Almeida completou a tradução de todos os livros do Novo Testamento, mas não conseguiu terminar a tradução do Antigo, chegando até Ezequiel 48.21. Ele baseou sua tradução no Texto Massorético da Bíblia Judaica e no Textus Receptus do Novo Testamento. Seu amigo e companheiro de ministério na Igreja Reformada Holandesa, Jacobus op den Akker, foi quem concluiu o trabalho de tradução.
A Bíblia completa em português foi publicada em dois volumes no ano de 1753, e a primeira impressão em volume único deu-se em Londres, em 1819. Durante os séculos 18 e 19, a tradução de Almeida passou por diversas revisões, sendo a mais importante delas realizada no ano de 1898, em Lisboa, a qual ficou conhecida como Almeida Revista e Corrigida (ARC). Considerada emblemática, a ARC tornou-se a versão da Bíblia mais conhecida pelos leitores protestantes brasileiros até meados do século 20.
A versão Almeida Revisada de Acordo com os Melhores Textos em Hebraico e Grego (AVR) foi uma nova revisão da tradução de João Ferreira de Almeida em linguagem erudita (hoje chamada de português antigo ou arcaico), baseada na versão Revista e Corrigida (ARC), de 1898. Foi realizada com o intuito de incorporar
os avanços da escola eclética de crítica textual bíblica à Bíblia comum brasileira e com o objetivo de atualizar o vocabulário obsoleto, que era mal compreendido ou simplesmente não compreendido.
A versão Almeida Revista e Atualizada (ARA) tem por base os manuscritos considerados muito superiores àqueles que Almeida tinha à disposição: a ARC parte do Textus Receptus e a ARA, do Nestle-Aland. O resultado é uma tradução igualmente superior quando comparada à tradução original de Almeida.
A Tradução na Linguagem de Hoje (TLH) e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) representam um trabalho que buscou manter o texto com um significado mais próximo aos textos originais em hebraico, aramaico e grego. A NTLH recebeu uma revisão tão profunda que é considerada uma nova tradução das Escrituras Sagradas.
A Almeida Corrigida e Fiel (ACF) oferece uma versão do Antigo e do Novo Testamento com o mínimo de palavras de transição, para garantir que o texto final possua fluência na língua portuguesa e preserve as características da versão Almeida Revista e Corrigida.
A Almeida Edição Contemporânea (AEC) é fruto de um trabalho realizado por uma comissão de especialistas de diferentes confissões cristãs. Ela oferece ao público uma versão da Bíblia de Almeida livre de arcaísmos e ambiguidades, preservando o estilo próprio da versão que foi sua base, a Almeida Revista e Corrigida.
A Almeida Século 21 (AS21) é uma versão que incorpora os avanços da crítica textual bíblica, possibilitando um salto de ordem gramatical e ortográfica. Sua fidelidade literária e fluidez proporcionam ao leitor um auxílio importante para o entendimento da Bíblia.
A Nova Almeida Atualizada (NAA) tem como referência o texto português da versão
Almeida Revista e Atualizada (1993). Contudo, essa versão segue e traduz o texto hebraico da Bíblia Hebraica Stuttgartensia, consultando os manuscritos do mar Morto e o texto grego Nestle-Aland.
A Nova Versão Internacional (NVI) é uma tradução inteiramente nova, feita a partir das línguas em que os textos bíblicos foram originalmente escritos (hebraico, aramaico e grego). O texto foi traduzido de modo que possibilitasse a leitura sem maiores dificuldades, porém sem ser demasiadamente informal. Sua tradução é fiel ao significado pretendido pelos autores e seu o resultado permite uma leitura agradável.
A Nova Versão Transformadora (NVT) é uma tradução da Bíblia para a língua portuguesa baseada nos originais em hebraico, aramaico e grego. Ela também oferece ao leitor um texto de fácil compreensão, com vocabulário e estrutura gramatical bem acessíveis. A NVT ainda conta com mais de quatro mil notas de rodapé que trazem opções de tradução e variações semânticas, além de informações sobre o contexto cultural, histórico e geográfico das passagens bíblicas.
As versões parafraseadas da Bíblia assumem considerável liberdade em traduzir o texto bíblico para o português cotidiano, em um esforço para transmitir verdades espirituais. As paráfrases tentam expressar o sentido básico subjacente, em vez de as palavras e as frases exatas do texto bíblico original. Como são de fácil entendimento, as versões parafraseadas da Bíblia podem ser muito úteis para os que acabam de ter contato com as Escrituras, em especial quando usadas em parceria com uma tradução que segue o texto original de
forma mais estrita. Duas das melhores versões parafraseadas conhecidas são: A Bíblia Viva (1971), de Kenneth Taylor, e A Mensagem: a Bíblia em Linguagem Contemporânea (2002), de Eugene Peterson.
O ESPÍRITO SANTO
A história da canonização e da tradução da Bíblia pode parecer apenas um registro da reação aos eventos externos, aos votos feitos, à decisão do que é a Palavra de Deus autoritativa e o que não é. É claro que a história é tudo isso, mas também é o reflexo de estudo acadêmico cuidadoso, de busca curiosa e minuciosa em manuscritos antigos e de muito tempo passado em consulta a dicionários.
Todavia, a história da canonização e da tradução tem mais outra camada de sentido, uma que é muito mais profunda do que a história que nos é contada. A Igreja sempre acreditou em empreender o processo de canonização e tradução sob a orientação do Espírito Santo. Acreditamos que o Senhor inspirou a escrita dos livros da Bíblia. Também cremos que Deus inspirou o processo de seleção dos livros que iriam compor a Bíblia. Cremos que Deus estava em operação nos estudos da gramática, do vocabulário e dos manuscritos antigos que levaram à tradução das Escrituras para a língua do povo.
Como Deus operou nessas áreas, não entendemos. Quando tentamos descrever as ações de Deus, as palavras são insuficientes. Discordamos uns dos outros a respeito do que significa inspiração. Acreditamos, entretanto, com todas as nossas diferenças, que Deus estava ativo em todo o processo.
COMO ESTUDAR UMA PASSAGEM DA BÍBLIA
A Bíblia é o livro da Igreja, e por isso a chamamos de Escrituras Sagradas. Ela é é o guia autoritativo para a Igreja, mas muitas pessoas têm dificuldade de estudá-la, por a considerarem complexa e de difícil compreensão.
Como superar esses obstáculos? Como tornar a Bíblia o seu livro fundamental? Parte da resposta está em aprender a estudar as passagens bíblicas com mais profundidade, embora essa não é uma matéria simples. Apesar disso, a maioria de nós pode aumentar esse conhecimento com a prática. Uma vez que aprenda a fazer perguntas sobre uma passagem da Bíblia e aprenda a fazer a busca para obter uma resposta, estará dada a partida e você avançará. Quanto mais passagens examinar e mais familiarizado ficar com as ferramentas de estudo da Bíblia, mais habilidoso se tornará para compreender a sua mensagem.
UAL A PASSAGEM DA
BÍBLIA QUE VOCÊ ESTÁ ESTUDANDO?
Você pode selecionar uma passagem por uma razão dentre cem. Talvez tenha visto uma citação bíblica em um cartaz, em um livro ou em um site. Talvez um versículo que ouviu na igreja não saia da sua mente. Talvez alguém na vizinhança, na escola ou no trabalho tenha perguntado (ou dito) algo sobre uma passagem. Talvez esteja pesquisando um tópico em particular e uma concordância o dirigiu para o trecho em questão. Ou talvez esteja tentando ler um livro da Bíblia e achou necessário dividir a leitura em blocos menores.
É uma passagem muito curta, com poucos versículos? É uma passagem mais longa, um capítulo inteiro? Não há regras rígidas nem diretas quanto à extensão apropriada de uma passagem para se estudar a Bíblia. Contudo, você pode se perguntar: “Há um pensamento completo aqui?”
Às vezes, uma ideia completa está encerrada em um único versículo. Frequentemente, uma quebra de parágrafo ou estrofe fornece o indício. Às vezes, você precisa de um capítulo inteiro para alcançar um pensamento completo. Em algumas passagens, o fluxo de uma história indica por onde começar e onde terminar (não faria sentido, por exemplo, estudar somente metade de uma parábola de Jesus.) Faça o melhor julgamento que puder e vá em frente. Os passos seguintes o ajudarão a saber se você estabeleceu de maneira adequada os limites de uma passagem.
LEIA CUIDADOSAMENTE A PASSAGEM, PALAVRA POR PALAVRA
O passo mais importante em qualquer tipo de estudo da Bíblia é ler o texto como se o estivesse fazendo pela primeira vez.
Tomemos como exemplo a parábola do bom samaritano (Lc 10.29-37). Quem é “o próximo” nessa história? A maioria das pessoas responderá: “o homem que foi espancado e deixado quase morto”. A partir dessa resposta é fácil generalizar que nosso próximo é qualquer pessoa em necessidade. Esse princípio pode ser incontestável, mas ignora parte da tônica da parábola.
Leia o texto mais uma vez. “O próximo” é na verdade o samaritano que salvou o homem espancado. Pense em como a ideia de um judeu aceitando a ajuda de um samaritano deve ter chocado os ouvintes judeus. Era muito ruim estar desamparado, mas ainda pior era depender totalmente da compaixão de um inimigo, ou pelo menos foi assim que a situação deve ter parecido aos ouvintes de Jesus. A mensagem sobre amar o próximo é mais rica do que a maioria de nós supõe. E perderemos o sentido mais profundo a menos que exploremos com cuidado o que o texto bíblico realmente diz.
Então, enquanto lê a passagem, anote quaisquer palavras ou frases que chamem sua atenção como uma chave potencial para o que a passagem diz. Inclua quaisquer termos com os quais não esteja familiarizado.
INVESTIGUE OS TERMOS-CHAVE
Muitos dos termos usados na Bíblia não significam o que imediatamente parecem. Você pensa que sabe o sentido, mas não conhece as conotações mais relevantes e ricas do grego ou do hebraico original. Portanto, uma ferramenta de auxílio teológico é essencial para o estudo da Bíblia. Um dos melhores volumes recentes é o Dicionário bíblico Tyndale, dos editores Philip W. Confort e Walter A. Elwell, publicado pela Editora Geográfica.
Tomemos como exemplo as expressões “conhecer, conhecimento”; você aprende que o termo hebraico traduzido por “conhecer” significa muito mais do que conhecimento intelectual. Significa “ter experiência com” algo ou alguém. Conhecer a Deus, por conseguinte, adquire um significado que vai muito além de deter informação ou teorias sobre ele; significa que você vivencia intimamente o Senhor em sua vida.
O mundo descrito na Bíblia é um mundo desconhecido para nós sob muitos aspectos. Ele causa estranheza porque é muito diferente do mundo contemporâneo. Você, como leitor cauteloso, não quer deixar passar esse caráter desconhecido ao presumir rápido demais que sabe o que acontecia naqueles dias da Antiguidade. Os dicionários bíblicos podem ajudar. Mais como enciclopédias em pequena escala do que dicionários tradicionais, eles têm uma riqueza de informação sobre o povo, os eventos, as ideias e os livros da Bíblia.
Examinemos os “fariseus” como um exemplo. Muitas pessoas têm uma imagem deles como sujeitos maus. Mas uma rápida olhada em um dicionário bíblico revela que eles, em muitos aspectos, eram modelos morais e religiosos para sua sociedade. Muitos pilares das nossas igrejas de hoje ― cristãos totalmente respeitáveis, bons, decentes e tementes a Deus são bem semelhantes aos fariseus, que eram heróis em sua sociedade. As histórias do evangelho soam um pouco diferentes uma vez que você percebe que as advertências de Jesus contra os fariseus da época podem se ajustar muito bem a alguns membros da nossa própria igreja!
ENTENDA O CONTEXTO LITERÁRIO
Aqui você precisa responder a duas perguntas: “Que material bíblico precede imediatamente a passagem que estou estudando? Que material bíblico segue imediatamente a passagem?” Como regra geral, quanto mais longa a passagem em estudo, mais material anterior e posterior você quererá ler. Se o seu foco for alguns poucos versículos, leia pelo menos o capítulo em que estão inseridos. Caso seu foco seja um capítulo inteiro, leia pelo menos o capítulo anterior e o posterior.
Faça anotações a respeito do contexto, daquilo que está acontecendo em torno da passagem. Suponha, por exemplo, que você está estudando 1Coríntios 11.27. Algumas pessoas entendem esse versículo de forma equivocada, pensando que têm de ser perfeitos moral e espiritualmente se quiserem participar da comunhão dos santos, o que as leva à privação do que deveria ser um meio de graça.
Mas um exame cuidadoso dos versículos anteriores e posteriores (v. 17-34) revela que Paulo lidava com uma situação em que alguns indivíduos estavam se transformando em glutões e beberrões enquanto outros passavam fome. O ponto de Paulo era que todos que participassem da ceia do Senhor deveriam ter o cuidado de compartilhar o alimento e a bebida. Ele queria que os cristãos de Corinto reconhecessem que a ceia do Senhor devia ser celebrada com um sentimento de unidade e cuidado mútuo.
Veja outro exemplo nessa mesma carta aos Coríntios. O capítulo 13, por causa da eloquência da sua linguagem, é com frequência tirado do contexto e usado em cerimônias de casamento e em cartões de felicitação. Mas vamos pensar em como pode ser feita uma análise séria daquilo que Deus está dizendo ali por intermédio do apóstolo Paulo.
Observe o capítulo 12. Paulo fala sobre os dons do Espírito Santo e da comunidade cristã como o corpo de Cristo. Agora, veja o capítulo 14, onde Paulo ainda aborda os dons do Espírito Santo. O capítulo 13 está no meio. O que esse contexto implica? No mínimo, lembra-nos que o amor ― o tipo de amor do qual Paulo trata é um dom de Deus, e não uma realização humana. E o contexto sugere que esse dom do amor é o que capacita os cristãos a se comportarem de forma apropriada como membros do corpo de Cristo. À parte do dom do amor, não utilizamos os outros
dons espirituais de modo apropriado nem vivemos em uma comunidade de cristãos que seja saudável.
ENTENDA O CONTEXTO CANÔNICO
Questionar a respeito do contexto canônico significa perguntar onde a passagem em estudo está localizada na Bíblia como um todo. Que relações essa passagem possui com outras na Bíblia?
Quanto mais familiarizado você estiver com o contexto geral das Escrituras, mais fácil será essa etapa. Por exemplo, se você souber algo sobre o êxodo dos israelitas do Egito, é mais provável que aprecie o que significou para os exilados da Babilônia fazer parte de um novo êxodo iniciado por Deus 750 anos depois, de volta à terra de Israel. Ou veja outro exemplo: se você lembrar do relato sobre a Torre de Babel, é provável que reconheça sua inversão na história de Pentecostes. Em um caso, as línguas foram multiplicadas e reinou a confusão. No outro caso, uma variedade de línguas se tornou a ocasião para um entendimento comum maravilhoso sobre o poder e o propósito de Deus.
Duas ferramentas de estudo podem ajudar até mesmo os iniciantes a fazerem ligações entre a passagem em estudo e o restante da Bíblia. Uma é verificar as referências indicadas na própria Bíblia. Muitas vezes os versículos relacionados iluminam ou são iluminados pela passagem que você está estudando. Por exemplo, a referência para Lucas 3.4-6 o conduzirá para a fonte da citação no Antigo Testamento, Isaías 40.3-5. E se você consultar a referência para as palavras ditas na cruz por Jesus citadas em Mateus 27.46, descobrirá que Jesus estava repetindo o início do Salmo 22. Outro exemplo: o sentido da última ceia
de Jesus com seus discípulos registrada em Lucas 22 será aprofundado se você reconhecer a ligação com a Páscoa do Antigo Testamento ― e a referência cruzada o direcionará para Êxodo 12.
Outra ferramenta básica para o estudo da Bíblia que pode ser usada para localizar sua passagem no contexto amplo da mensagem das Escrituras é uma concordância bíblica. Muitas pessoas usam esse recurso apenas quando desejam consultar um versículo do qual não se lembram bem e isso fica ocupando seu pensamento. Mas uma concordância tem uma função sistematizadora no estudo da Bíblia. Suponha que você quer estudar um tema como “redenção” (porque ele apareceu na passagem que você está lendo). Uma concordância lhe diz onde encontrar outras referências a esse tema na Bíblia.
ENTENDA O CONTEXTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO
Nosso entendimento de qualquer documento importante é aprimorado ao sabermos algo sobre a situação em que ele foi escrito. Pegue o famoso texto “Letter from a Birmingham Jail” [Carta de uma prisão em Birmingham], de Martin Luther King Jr. O entendimento dessa mensagem será mais claro se soubermos algo sobre o homem que a escreveu, sobre a localização de Birmingham e o que estava acontecendo naquela época, sobre a história do movimento dos direitos civis e assim por diante.
Da mesma forma, nosso entendimento de uma passagem da Bíblia é aprimorado ao respondermos perguntas como: Quem escreveu? Quando? Onde? O que estava acontecendo na época? Suponhamos que você esteja lendo uma passagem do livro de Jeremias. É preciso saber que Jeremias foi um profeta cujo ministério
se estendeu por quarenta anos (cerca de 626586 a.C.) e que o Império Babilônio estava prestes a esmagar o povo de Judá e levá-los cativos. Precisa saber que, embora Jeremias tenha sido repudiado por seus contemporâneos como pessimista e traidor, a história provou que ele estava certo.
Esse tipo de informação sobre o pano de fundo pode ser encontrada em muitos lugares. Mas há três tipos de ferramentas de estudo que são acessíveis e fáceis de utilizar. Os manuais bíblicos o ajudam a não perder de vista o todo, enquanto estiver examinando detalhes. Eles normalmente apresentam um esboço conciso do conteúdo e do contexto histórico de cada livro da Bíblia. (A maioria das versões também inclui seções com material de apoio, desde medidas, pesos, moedas e calendários da Antiguidade até manuscritos antigos e dados arqueológicos.)
Os panoramas do Antigo e do Novo Testamento oferecem mais da história nas explicações sobre o conteúdo e o desenvolvimento das Escrituras do que encontramos nos manuais bíblicos. No entanto, o uso é semelhante: obter um panorama mais amplo da localização de uma passagem particular. Outro recurso que pode ajudar é um atlas bíblico. Até mesmo o exame rápido em um mapa com o objetivo de situar geograficamente uma passagem bíblica pode ajudar a encontrar mais sentido no texto.
ENTENDA O SENTIDO ORIGINAL DA PASSAGEM
Para a maioria de nós, escrever é de grande auxílio porque nos força a juntar os pensamentos para analisá-los. Assim, tome algum tempo para elaborar tudo o que aprendeu sobre a passagem que está estudando. Depois, ponha no papel o sentido que possivelmente foi pretendido para os leitores ou ouvintes originais. Tente
não ir adiante aplicando a passagem à sua própria situação. Primeiro esteja certo de ter uma ideia clara do significado original da passagem no contexto da Antiguidade.
O QUE A PASSAGEM
SIGNIFICA HOJE?
Por fim, você está preparado para obter a “compensação” por um estudo em profundidade da Bíblia. Você quer compreender o que a passagem significa para os leitores cristãos de hoje? Depoisde ter se demorado em um trecho a fim de esclarecer seu sentido original, você precisa se perguntar: “Em que o mundo em que vivo (o mundo inteiro e a pequena parte em que habito) é parecido com aquele descrito na Bíblia? Quais as semelhanças fundamentais que existem sob as diferenças?” Para responder a essas perguntas, é necessário fazer algumas adicionais: “De que maneira eu e as outras pessoas em meu círculo somos similares à audiência original? Compartilhamos algumas necessidades essenciais ao longo dos séculos? Somos propensos a erros similares que necessitam de correção? Enfrentamos o mesmo tipo de ansiedade a respeito da vida, da morte e do valor humano? Enfrentamos problemas sociais semelhantes aos que o Israel da Antiguidade e a Igreja cristã primitiva encararam? Carregamos responsabilidades similares para com a saúde moral das famílias e das comunidades?” Uma vez que identifique alguns pontos em que indivíduos e situações contemporâneas são semelhantes, você será capaz de reconhecer que a Bíblia se dirige a vocêtanto quanto se dirigia às pessoas na Antiguidade.
Vejamos alguns exemplos. Leia Gênesis 1–2. Como o mundo em que vivemos é semelhante ao mundo descrito na Bíblia? Quais necessidades, problemas e questões você mesmo enfrenta e vê mencionados nesse texto? Em primeiro lugar, nós enfrentamos uma crise ambiental.
Recuperar o verdadeiro sentido de ter domínio (como distinto de dominação) não seria uma dádiva desprezível nos dias de hoje. Da mesma forma, o relato de que Adão foi colocado no jardim para cultivar e cuidar (proteger) tem implicações para a maneira como tratamos o mundo natural.
Agora leia Amós 5.10-15,21-24. A passagem soa como uma ladainha de problemas sociais contemporâneos: o colapso do sistema judicial, a exploração dos pobres, o suborno de funcionários públicos. O profeta Amós sustenta que Deus está preocupado com a justiça social, que a piedade religiosa não pode compensar a indiferença para com o bem-estar de toda a comunidade. O que isso implica para o comportamento dos cristãos atuais?
Reflita sobre a parábola de Jesus sobre os trabalhadores na vinha, em Mateus 20.1-16. No tempo presente, quem se identifica com os que labutaram o dia todo? Quem se equipara aos que trabalharam durante apenas uma hora?
A parte difícil ― mas absolutamente essencial ― do estudo da Bíblia é ser implacavelmente honesto a respeito de sua própria identificação com a passagem bíblica. Muitas pessoas da classe média nas igrejas cristãs ficam ofendidas com essa história porque elas próprias se identificam com os trabalhadores que labutaram o dia todo. Em função disso elas reclamam justiça, e então a bondade graciosa de Deus pode ser considerada uma pílula amarga de engolir. Logo, consideramos essa parábola um desafio para repensar a maneira como interpretamos a realidade e nosso lugar nela.
Por fim, veja 1Coríntios 8. A questão em torno da carne que sobrava dos sacrifícios pagãos sendo vendida no mercado é um assunto que dificilmente vem à tona na maioria das congregações atuais! Mas pense por um momento: será que não praticamos hoje algo equivalente a comer alimentos sacrificados a ídolos, algo
que não está errado em si mesmo, mas que faz um irmão ou irmã cair? Portanto, o conselho de Paulo aos coríntios também se aplica a nós.
Aplicar a mensagem de uma passagem bíblica ao tempo presente é arriscado. No entanto, é possível minimizar esse risco ao se perguntar reiteradamente: “A mensagem que vejo nesse trecho é de fato compatível com àquela original?” Uma coisa é estender a mensagem de um texto para lidar com situações modernas paralelas. Bem diferente, entretanto, é descartar ou distorcer sua intenção original. Além dessa verificação, só podemos confiar no conselho de Paulo aos cristãos de Filipos: “Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.” (Fp 2.12b,13).
UM BREVE ROTEIRO PARA O ESTUDO DE PASSAGENS
DA BÍBLIA
1. Qual passagem da Bíblia você quer examinar?
2. Leia a passagem com cuidado, palavra por palavra. Anote quaisquer vocábulos ou frases que chamem a atenção como potenciais chaves para o sentido do trecho. Faça anotações sobre os termos novos.
3. Examine os termos centrais utilizando um manual bíblico ou dicionário bíblico. Mantenha um registro do que encontrar.
4. Esclareça o contexto literário do trecho em questão. O que diz o texto bíblico que precede e o que segue imediatamente a passagem em estudo?
5. Tenha claro o contexto canônico. Onde essa passagem se localiza na Bíblia como um todo? Que relação ela tem com as outras partes da Bíblia?
6. Esclareça também os contextos histórico e geográfico da passagem. O que estava ocorrendo na época em que ela foi escrita? Escreva o que descobrir sobre o autor, data de escrita, lugar de origem ou de destino, eventos históricos, temas e questões problemáticas.
7. Determine o sentido original da passagem. Clareza e exatidão aqui são cruciais para o sucesso do último passo.
8. Explique o que o trecho em estudo si gnifica para os leitores cristãos de hoje. Como nossa situação se assemelha à das pessoas que ouviram pela primeira vez essa mensagem bíblica? Quais as necessidades, esperanças e os temores que compartilhamos ao longo dos séculos, os quais permitem que nos apropriemos da Palavra, trazendo-a para nossa vida? Quais questões que enfrentamos (ou deveríamos enfrentar) equivalem às enfrentadas pelos personagens da Bíblia?
A GEOGRAFIA DA PALESTINA
Desde o tempo do historiador grego Heródoto (século 5 a.C.), o nome Palestina, entre outros nomes, designa boa parte do território ao longo da costa oriental do mar Mediterrâneo.
Sob o governo britânico por mandato da Liga das Nações (1922-47), a Palestina representava o território que abrangia desde o sul do monte Hermom até o deserto do Sinai, e desde o mar Mediterrâneo até o rio Jordão. A terra a leste do rio Jordão até os desertos sírio e árabe era chamada Transjordânia, ou Reino Hachemita (ou Haxemita) da Jordânia. A Transjordânia está incluída nesta discussão da geografia da Palestina.
As fronteiras tradicionais da Palestina abrangem um território que se equipara ao tamanho do estado americano de Vermont, de aproximadamente 25.900 quilômetros quadrados. Berseba fica cerca de 268 quilômetros (ou 145 milhas náuticas) distante de Dã. No tempo das expansões sob o rei Davi, quando o território israelita ocupava o sul e o centro da Síria (incluindo Damasco) e chegava ao sul do mar Vermelho, a distância norte-sul era cerca de 648 quilômetros (ou 350 milhas náuticas). O território no sentido leste-oeste alcançava cerca de 153 quilômetros.
A Palestina fica entre os lugares de origem das civilizações da Antiguidade: o vale dos rios Tigre-Eufrates (moderno Iraque) a nordeste e o Egito a sudoeste. É um elo terrestre através do qual os comerciantes e exércitos do mundo viajavam. O comércio internacional trouxe prosperidade para a região em tempos de paz, e os exércitos a reduziram a cinzas nos tempos de guerra.
A terra que se estende do Golfo Pérsico na direção noroeste até o vale do Tigre-Eufrates, passando pela Síria e descendo a costa fenícia até o deserto do Sinai, foi chamada de “Crescente Fértil”. Ali havia água suficiente para sustentar assentamentos, o comércio internacional, as viagens e o movimento de tropas.
A geografia da Palestina é muito complexa. Montes, vales, gargantas (fendas) e planaltos estendem-se principalmente de norte a sul, mas também do nordeste ao sudoeste e, em alguns casos, na direção leste-oeste.
Com elevações variando de cerca de 2.804 metros acima do nível do mar na crista do monte Hermom a aproximadamente 396 metros abaixo do nível do mar Morto, os microclimas e a fauna e flora variam tremendamente. As casas de barro (ou então de tijolos secos ao sol) cobertas com telhados de palha eram adequadas ao clima quente do vale do Jordão. Já na região montanhosa eram necessárias casas de pedra (cobertas com vigas de madeira e uma massa feita com ramos e barro misturados com pequenas pedras) guarnecidas com braseiros, que permitiam o aquecimento durante o inverno. Por causa da grande diversidade do terreno, do clima, dos povos e da natureza, a Palestina sempre foi um mundo em miniatura.
A PLANÍCIE COSTEIRA
A planície costeira, que se estende de Tiro, no Norte, até Gaza, no Sul, tem por volta de 209 quilômetros de extensão. Ela é estreita no Norte e ampla no Sul. Nos tempos bíblicos, algumas partes dessa planície tinham baixa ocupação. No extremo sul ficavam cinco cidades filisteias (Gaza, Asdode, Ascalom, Gate e Ecrom).
I.
GEOGRAFIA DA PALESTINA
II. Região montanhosa
III. Região montanhosa do Neguebe
IV. Vale do Jordão
Monte
Tiro
Aco
Megido
O MAR GRANDE (MAR MEDITERRÂNEO)
Ecrom
Asdode
Ascalom
Gaza
Gate
Monte Ebal
Monte Gerizim
Mar de Quinerete
Dã
Rio Iarmuque
Rio Jordão Rio Jaboque
GILEADE
AMOM
Ribeiro do Arnom
Mar Morto
MOABE
Ribeiro do Zerede
Estrada do rei
Ao sul de Tiro ficava o único bom porto natural, em Aco (moderna Haifa), logo ao norte do monte Carmelo. Herodes, o Grande, fez um porto artificial em Cesareia (22-10 a.C.) construindo um imenso quebra-mar e um paredão semicircular no mar Mediterrâneo. Por causa da falta de portos naturais, os hebreus nunca se aventuraram na direção oeste como fizeram os fenícios na direção norte. Por meio de caravanas, o comércio se movia pelo território principalmente ao longo da planície costeira, assim como os exércitos dos povos da Antiguidade.
A REGIÃO DAS COLINAS
Essa região, conhecida em hebraico como Sefelá, constitui um tipo de “terras médias”, ou seja, uma área entre a planície costeira e as montanhas da Judeia. Amplos vales, adequados para a agricultura, estendem-se por entre as baixas colinas calcárias. A região foi um campo de batalha entre os hebreus e os filisteus na planície costeira e era propícia para as cidades fortificadas dos povos em conflito.
AS MONTANHAS CENTRAIS
A maior parte da Palestina é situada no sopé das montanhas do sul do Líbano, que se erguem 1.828 metros acima do nível do mar (exceto o monte Hermom, que alcança 2.804 metros), descem para aproximadamente 610 metros em Samaria (menos pelos 934 e 884 metros dos picos do Ebal e Gerizim), levantam-se a cerca de 792 metros em Jerusalém e, por fim, desaparecem nas terras arenosas e nas dunas da estepe ao sul de Berseba (o Neguebe). As montanhas calcárias que antes abrigavam grandes florestas agora são em sua maioria estéreis, com esparsas áreas de reflorestamento e bolsões agrícolas (oliveiras, figos, trigo, vinhas).
Rompendo as montanhas na direção nortesul e correndo no sentido noroeste-sudeste, estão as férteis planícies de Megido e Jezreel, esta última descendo bruscamente para a parte baixa do vale do Jordão. Os vales na direção leste-oeste em Samaria (Dotã e Siquém) e em Judá (Aijalom, Soreque e Elá) ofereciam rotas desde a planície costeira até as regiões montanhosas.
O VALE DO JORDÃO
O vale do Jordão faz parte de uma das maiores falhas geológicas da terra. O vale do Rifte, ou Vale da Grande Fenda, começa no Norte da Síria e se estende até a África Oriental. É um extenso (aproximadamente 3 mil quilômetros) conjunto de placas tectônicas cuja seção norte forma o vale do rio Jordão, que flui pelo lago Hule, segue pelo mar da Galileia (Quinerete, lago de Genesaré ou mar de Tiberíades), chega ao mar Morto e estende-se pela planície de Arabá até o golfo de Ácaba.
O mar da Galileia fica cerca de 211 metros abaixo do nível do mar, enquanto o mar Morto, cerca de 396 metros abaixo do nível do mar.
A largura média do vale do Jordão é de 16 quilômetros.
A água do mar da Galileia é fresca, mas a do mar Morto tem um alto teor de minerais (sódio, cloreto, carbonato de potássio, bromo, fosfato, magnésio, cálcio e potássio) e não tem vida marinha. A distância entre o rio Jordão e o mar da Galileia é de 104 quilômetros em linha reta, mas ele serpenteia por cerca de 321 quilômetros entre um ponto e outro. Nos tempos antigos, essa área era uma selva e habitada por animais selvagens. Alguns rios tributários vindos do leste deságuam no Jordão, e vários canais navegáveis possibilitam as viagens e o comércio entre as regiões do leste e oeste.
O PLANALTO DA TRANSJORDÂNIA
Esse território é atravessado por quatro rios principais na direção leste-oeste (o Iarmuque, o Jaboque, o Arnom e o Zerede) que definem cinco regiões a partir do Norte para o Sul: Basã, Gileade, Amom, Moabe e Edom.
Basã era uma terra notável por seu rebanho e pelo basalto negro empregado em construções.
Gileade também oferecia terra boa para pastagem e abrigava densas florestas no tempo de Davi, cujas árvores aparentemente produziam a matéria-prima para um tipo de bálsamo medicinal bastante valorizado na Antiguidade (Jr 8.22).
Amom ocupava a área fértil entre os rios Arnom e Jaboque. Sua capital era Rabá, a atual Amã, situada na nascente do rio Jaboque. Os amonitas e os hebreus travavam com frequência lutas ferrenhas ali.
Moabe, em cuja planície Israel acampou antes de entrar na terra prometida (Nm 35.1; Dt 1.5), ficava em uma região bastante alta (em alguns pontos chega a alcançar mais de 914 metros de altitude), mas ainda assim bem abastecida de água. Moabe produzia trigo e cevada e tinha rebanhos de ovelhas e bodes; algumas vezes, foi próspera quando houve fome em Judá (Rt 1.1). A hostilidade entre os hebreus e os moabitas foi uma constante ao longo dos séculos.
Edom, cujo significado é “vermelho” em função do arenito avermelhado da região, era uma fonte de cobre na Antiguidade. A sabedoria dos edomitas era notória (Jr 49.7; Ob 1.8). Para o sustento, seus habitantes dependiam das caravanas que passavam através de suas fronteiras.
A “estrada do rei”, uma importante estrada pública e rota internacional de caravanas,
atravessava toda a extensão do planalto da Transjordânia desde Damasco, no Norte, até o golfo de Acaba (ou Ácaba ou), no Sul, e trazia riqueza para as cidades e regiões pelas quais passava.
O clima da Palestina tem duas estações bem definidas: um inverno chuvoso, com neve nas montanhas do Líbano e ocasionalmente em Jerusalém, e um verão longo e seco. As chuvas precoces (ou “primeiras”), que hidratam o solo permitindo a aragem, caem em outubro e novembro. As chuvas pesadas vêm em dezembro e fevereiro. E as chuvas tardias (ou “últimas”) que aprimoram e amadurecem as safras, caem de março a abril.
As nuvens de chuva vêm do oeste. Em partes do Líbano, a precipitação anual muitas vezes atinge 983 mililitros; 655 mililitros na Alta Galileia, 660 mililitros em Jerusalém, de 164 a 246 mililitros na região entre Hebrom e Berseba, 131 mililitros no Sul do Neguebe e 82 mililitros no Sul da Transjordânia.
Se a chuva não cai no tempo certo e na quantidade adequada, as colheitas são perdidas e o resultado pode ser a fome (1Rs 17.1; 18.1,2).
As orações pedindo chuva e as cerimônias para induzi-las (Zc 10.1; Jl 2.23) eram uma parte importante da vida religiosa e econômica de Israel. Os profetas de Israel argumentavam com firmeza que YAHWEH, o Senhor, e não o deus cananeu Baal, controlava as chuvas e as colheitas nutridas por elas (Am 4.7,8; Os 2.5,8; Jr 5.23,24).
Segundo os nossos padrões, a Palestina é, no geral, uma terra mal dotada. A porção central do país consiste em colinas e montanhas de pedra calcária sem muita profundidade de solo. Os portos ao longo da costa são poucos e inadequados. O solo acidentado, rochoso e em geral árido condena seus habitantes a um trabalho duro para alcançar sua subsistência.
Para o povo da Palestina, no entanto, a guerra quase incessante e a destruição decorrente de sua localização e geografia foram mais devastadoras do que a falta de água e de um bom solo. Era inevitável que a Palestina, uma vez que formava uma ponte terrestre entre as grandes civilizações do Oriente Médio, estivesse à mercê de seus povos em tempos de expansão e conflito internacionais. A aliança com poderes dominantes com o objetivo de garantir segurança terminou muitas vezes na destruição da Palestina junto com a de seu aliado derrotado. Além disso, em tempos de fome os povos do deserto ao leste e ao sul da Transjordânia a saqueavam, devastando o corredor mais fértil a oeste.
A grande diversidade da Palestina sempre tornou difícil a unificação política, econômica,
religiosa e social. Portanto, uma frente comum contra os inimigos externos era muitas vezes dificultada por disputas locais e pela indiferença.
Em suma, a segurança, a água, o pão e a unidade cultural, política e religiosa têm sido problemas dominantes desse pequeno pedaço de terra.
Os hebreus da Antiguidade viam sua terra como “uma boa terra” (Dt 8.7,8). Comparada com as áreas desertas pelas quais Israel vagou por uma geração inteira no tempo de Moisés, essa caracterização é justificada. Entretanto, a vida nessa ponte internacional sempre foi árdua e insegura. A terra prometida não era o jardim do Éden. É por essa razão que os olhavam adiante, para a vinda desse jardim em dias futuros.
ANTIGO TESTAMENTO
CAPÍTULOS, VERSÍCULOS E PALAVRAS
NO ANTIGO TESTAMENTO
LIVRO BÍBLICO
Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
Rute
1Samuel
2Samuel
1Reis
2Reis
1Crônicas
2Crônicas
Esdras
Neemias
Ester
Salmos
Eclesiastes
Cantares de Salomão
NÚMERO DE CAPÍTULOS
LEI
NÚMERO DE VERSÍCULOS NÚMERO DE PALAVRAS
LIVRO BÍBLICO NÚMERO DE CAPÍTULOS NÚMERO DE VERSÍCULOS NÚMERO DE PALAVRAS
Isaías
Lamentações
Ezequiel
Daniel Oseias
Amós
Obadias
Miqueias
Naum
Sofonias
Ageu
Malaquias
Totais
Os dados para capítulos, versículos e palavras são baseados na Nova Versão Internacional (NVI).
CRONOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO
?Criação
?Dilúvio
2000-1500 a.C.? Os patriarcas (Abraão, Isaque, Jacó José) a.C.? O êxodo do Egito 1200-1020? Os juízes
1020-1000 a.C.? Rei Saul
1000-960 a.C.? Rei Davi
960-930 a.C.? Rei Salomão
930-922 a.C.? Divisão do reino
Reis de Judá
Roboão 922-915
Abias 915-913
Asa 913-873
Reis de Israel 922-901 Jeroboão I
901-900 Nadabe
877-876 Elá
876-872 Tibni 867-869 Onri
869-850 Acabe 850-849 Acazias
Acazias 843-842
Atalia 842-837 (rainha regente)
Amazias 800-783
1Incluindo os anos de corregência.
2Governo rival.
786-746 Jeroboão I
Azarias/Uzias 783-742
Salum 745-737 Menaém
Acaz 735-715
Ezequias 715-687
Manassés 687-642
Amom 642-640
a.C. Queda de Samaria (Reino do Norte) para Assíria
Eliaquim 609-598
597 a.C. Primeira deportação de Judá
587 a.C. Queda de Judá (o Reino do Sul) diante da Babilônia. Segunda deportação
538-539 a.C. Ciro, rei da Pérsia, decreta que os judeus podem voltar para Judá reconstruir templo. Os judeus voltam sob direção de Sesbazar.
520 a.C. Zorobabel, novo govenador da província persa de Jeúde (anteriormente Judá central), tenta reconstruir templo. A oposição local frustra esse esforço.
516/515 a.C. Por meio do decreto de Ciro, obra do templo retomada ele
458 a.C. Com comissionamento de Artaxerxes I, Esdras vai para Jerusalém
Esdras em 398 a.C. depois disso).
458/457 a.C. Esdras lê lei em público apresenta uma inquirição formal quanto
445 a.C. Artaxerxes I designa Neemias governador de Judá.
445-433 a.C. Neemias serve como governador de Judá, reconstrói os muros da
433? a.C. ou mais tarde. Neemias volta para Judá inicia várias reformas religiosas.
GÊNESIS
ESBOÇO DE GÊNESIS
I. História primeva (1.1–11.32)
A. O princípio (1.1–3.24)
1. A criação do mundo (1.1–2.3)
2. O jardim do Éden (2.4–3.24)
B. Caim, Abel e Sete (4.1-26)
C. De Adão a Noé (5.1-32)
D. O dilúvio (6.1–8.22)
1. Deus chama Noé; a construção da arca (6.1–7.16)
2. O dilúvio e suas consequências (7.17–8.22)
E. A aliança de Deus com Noé (9.1-29)
F. Os descendentes de Noé (10.1-32)
G. A torre de Babel (11.1-9)
H. Os descendentes de Sem a Abrão (11.10-32)
II. A história dos patriarcas (12.1–36.43)
A. A história de Abraão (12.1–25.18)
1. Deus chama Abraão (12.1-9)
2. Abraão e Sara no Egito (12.10-20)
3. Abraão e Ló se separam (13.1-18)
4. A guerra com os reis do Oriente (14.1-24)
5. A aliança de Deus com Abraão (15.1-21)
6. Hagar e Ismael (16.1-16)
7. A aliança da circuncisão (17.1-27)
8. As promessas e o riso (18.1-15)
9. Sodoma e Gomorra (18.16–19.29)
10. A família de Ló (19.30-38)
11. Abraão, Sara e Abimeleque (20.1-18)
12. Isaque e Ismael (21.1-21)
13. A aliança de Abraão com Abimeleque (21.22-34)
14. Deus testa Abraão (22.1-24)
15. A morte de Sara (23.1-20)
16. Isaque e Rebeca (24.1-67)
17. A morte de Abraão (25.1-18)
B. Isaque, Jacó e Esaú (25.19–27.46)
1. O nascimento e a rivalidade de Jacó e Esaú (25.19-34)
2. As bênçãos de Isaque (26.1-35)
3. Jacó recebe a bênção de Isaque (27.1-46)
C. Jacó no exílio (28.1–31.55)
1. O sonho de Jacó em Betel (28.1-22)
2. Jacó, Lia e Raquel (29.1–30.24)
3. Jacó e Labão (30.25–31.55)
D. Jacó em Canaã (32.1–35.29)
1. Jacó luta com “um homem” (32.1-32)
2. Jacó e Esaú se reconciliam (33.1-20)
3. Siquém e Diná (34.1-31)
4. Jacó vai a Manre (35.1-29)
E. Os descendentes de Esaú (36.1-43)
III. A história de José (37.1–50.26)
A. José é vendido como escravo (37.1-36)
B. Judá e Tamar (38.1-30)
C. José no Egito (39.1–50.26)
1. As provações e as vitórias (39.1–41.57)
2. A família de José no Egito (42.1–45.28)
3. A migração de Jacó para o Egito (46.1–47.31)
4. A morte de Jacó (48.1–50.14)
5. Os últimos anos de José (50.15-26)
Introdução
Gênesis é um livro sobre como o universo, a Terra e suas criaturas, a fé e a comunidade de fé começaram. No entanto, em seu cerne, Gênesis é uma declaração de fé. As histórias nesse livro testificam que toda realidade se inicia em Deus e que nada existe exceto pela vontade e pelo poder de Deus. Suas histórias nos dizem que, se perguntarmos todos os “porquês” e “como” sobre o fim supremo do mundo, a resposta tem de ser: Deus.
Título, data e autoria
Uma vez que este livro anônimo integra o Pentateuco, não é possível estabelecer sua autoria e data à parte da composição deste. As evidências relacionadas a Gênesis sugerem que Moisés deu ao livro a sua substância essencial (assim como ao restante do Pentateuco) e editores posteriores o suplementaram. Portanto, a autoria de Moisés não implica que ele tenha escrito o livro inteiro. Todos os acontecimentos de Gênesis são anteriores ao nascimento de Moisés, indicando que ele utilizou tradições já existentes. Podemos ver Moisés como um editor ou historiador que, junto com a comunicação direta e sobrenatural de Deus, preparou uma obra com as histórias da família de Abraão e de seus descendentes até chegarem ao Egito. As narrativas deste livro teriam sido primeiramente transmitidas de forma oral e depois escrita, com a finalidade de que o povo hebreu pudesse cultivar suas raízes históricas e sua fé. Além disso, como os mitos da criação são básicos nas religiões pagãs, é natural que Moisés incluísse um relato da criação em oposição aos mitos pagãos.
Não podemos deixar de citar o testemunho do Novo Testamento, que afirma ser Moisés o autor do Pentateuco (Mc 12.26; Lc 24.27; Jo 1.45; Rm 10.5; 2Co 3.15). Esse testemunho interno a favor da autoria mosaica é apoiado por informações históricas. Gênesis reflete a sua origem no segundo milênio a.C. Os onze primeiros capítulos de Gênesis têm paralelos e diferenças propositais com mitos do antigo Oriente Próximo anteriores à era de Moisés. Isso inclui relatos da criação mesopotâmicos de Enuma Elish e dos dilúvios encontrados na Epopeia de Atrahasis e na Epopeia de Gilgamesh. Os nomes e os costumes nas histórias dos patriarcas mostram a época em que eles viviam, o que indica que houve um autor de época mais antiga que possuía dados confiáveis. Os textos de Ebla do século 24 a.C.
mencionam Ebrium, que pode ser o mesmo Héber de Gênesis 10.21, e os textos de Mari, do século 18 a.C. confirmam a existência de nomes como Abraão e Jacó. A prática de conceder um direito de primogenitura era difundida no Antigo Oriente Próximo, assim como a venda de uma herança, como lemos em Gênesis 25.29-34. A adoção de um escravo pelo seu senhor (veja Gn 15.1-3) é encontrada em uma carta da antiga Babilônia, e a adoção de Efraim e Manassés por seu avô (48.5) pode ser comparada com uma adoção semelhante em Ugarit (séc. 14 a.C.).
Os nomes dos patriarcas são típicos do período e muitos costumes familiares correspondem ao que conhecemos sobre aquele tempo.
A ascensão de José a conselheiro-chefe do Egito, embora não mencionada nos textos egípcios, é bastante viável para a era dos hicsos (governantes semitas do Egito, c. 1.600 a.C.).
Vários séculos separam Moisés dos patriarcas, período durante o qual as histórias sobre eles foram repassadas de forma oral, ou talvez por algum tipo de registro escrito que tenha sido posteriormente perdido. Em qualquer caso, esses paralelos corroboram a confiabilidade histórica da narrativa de Gênesis.
O conteúdo de Gênesis
O conteúdo de Gênesis pode ser dividido em três seções abrangentes: a história primeva (da criação até a torre de Babel), a história dos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) e a história de José.
Cada uma dessas seções é uma coleção de tipos diferentes de materiais, como histórias, genealogias, orações e poemas. A maior parte de Gênesis é dedicada a relatos sobre pessoas particulares em circunstâncias e épocas específicas. No entanto, essas histórias também têm uma aplicação e um propósito que vão além da vida dos indivíduos envolvidos.
Gênesis é como uma “história de família” para a comunidade de fé.
Embora usemos a palavra “história” em relação aos eventos descritos em Gênesis, não devemos entendê-lo em nosso sentido moderno da palavra. Gênesis não é um documento objetivo, com notas de rodapé, referências cruzadas com datas específicas para as pessoas e os eventos que descreveram. Ele obedece a uma perspectiva definida a partir da qual o livro foi escrito, e essa perspectiva é que toda a realidade, e especificamente a realidade da comunidade de fé, fundamenta-se na vontade e no poder de Deus. Gênesis é uma história teológica que busca preservar as experiências, as lembranças e as crenças dessa primeira comunidade.
Contudo, isso não quer dizer que o seu conteúdo não é verdadeiro ou histórico.
A tendência da pesquisa arqueológica e de outras pesquisas históricas em anos recentes é esclarecer de modo mais completo o mundo da Antiguidade e confirmar o relato escritural. Com certeza, muitas questões permanecem sem resposta e, para nossa mente do século 21, faminta por fatos nos quais fundamentar nossas crenças, talvez nunca haja respostas suficientes. Entretanto, Gênesis chamam-nos a ir além desse ponto para questões mais abrangentes que eles responderam de fato. Como este mundo veio a existir? Qual é nosso lugar no mundo? Como começou a comunidade de fé?
Gênesis
Introdução ao capítulo
Gênesis 1.1–2.4a é a história da criação relatada em vocabulário majestoso, rítmico e dignificante e é semelhante a uma liturgia, passível de ser usada em um culto de adoração.
De certo modo, esse relato baseia-se na “ciência” de sua época, que considerava o universo dividido em três partes: os céus, a terra e o inferno. Essa história da criação também tem algumas similaridades com os relatos da criação de outras culturas do Oriente Próximo da Antiguidade, em particular da Mesopotâmia. Gênesis 1.1, porém, ultrapassa qualquer explicação científica ou cultural moderna ou antiga para a criação. O escritor declara que tudo, toda a realidade, depende da vontade e do poder soberanos de Deus para sua existência. Nada é independente ou autossustentável, mas tudo depende do Criador.
Aqui está um esboço desta seção:
I.Do princípio ao primeiro dia (1.1-5)
II.O segundo dia (1.6-8)
III.O terceiro dia (1.9-13)
IV. O quarto dia (1.14-19)
V. O quinto dia (1.20-23)
VI.O sexto dia (1.24-31)
VII.O sétimo dia (2.1-4a)
A mensagem de Gênesis
O autor do livro de Gênesis e aqueles que organizaram a Bíblia perceberam que o testemunho de Gênesis 1.1 é o alicerce sobre o qual tudo o mais nas Escrituras foi construído. É apropriado que o testemunho
da comunidade de fé comece com a expressão “no princípio”.
O que Gênesis 1.1 nos diz sobre como o mundo foi criado e sobre o propósito da sua criação?
• A tradição do Antigo Testamento declara que a sabedoria de Deus e a palavra de Deus existiam antes da criação e que elas são os próprios meios da criação. O prólogo do evangelho de João (Jo 1.1-18) afirma isso e declara que Cristo é a sabedoria e a palavra por trás da criação.
• O ato da criação pertence somente a Deus. O verbo “criar” usado em Gênesis 1.1 é aplicado apenas a Deus, nunca a qualquer outra coisa ou pessoa.
• A criação é uma expressão concreta da vontade de Deus.
• Toda a criação é unificada sob a vontade do Senhor e obedece a ela. Essa é a ordem estabelecida, e Deus considera “bom” tudo o que fez.
• Esse “bom” não só se conforma com a vontade de Deus, mas também é belo e prazeroso.
• Aos seres humanos, como representantes de Deus (criados à imagem dele) e para o serviço a ele, é confiado o domínio sobre a terra. O maior exemplo desse serviço é encontrado na vida de Jesus que, como a imagem de Deus (2Co 4.4), veio para servir à humanidade e à criação.
• Os seres humanos e o restante da criação não são divinos, mas são sagrados e abençoados.
Gênesis
Introdução a esses capítulos
Este segundo relato coloca mais atenção na criação dos primeiros seres humanos e explora a relação deles com Deus.
Eis um esboço para Gênesis 2–3:
I. O jardim e o primeiro ser vivo (2.4b-17)
II.A criação da mulher (2.18-24)
III.A realização da escolha (3.1-13)
IV. As consequências da escolha (3.14-24)
A mensagem de Gênesis 2–3
A história da criação em Gênesis 2–3 dá atenção ao lugar dos seres humanos na ordem criada por Deus. Os seres humanos não são criados para viver isolados, mas para uma vida em comunhão com a terra, suas criaturas, uns com os outros e com Deus. O que essa história nos diz sobre a relação entre o Criador e a humanidade?
• Os seres humanos são criados para viver em relação harmoniosa com Deus, uns com os outros e com o resto da criação.
• Os seres humanos são criados com a capacidade de entender as leis de Deus e de obedecêlas.
• Os seres humanos receberam uma vocação e também limites quanto ao uso da criação de Deus. Esses limites, se respeitados, levarão ao bem-estar.
• O medo, a ansiedade e a vergonha derivaram da falha na confiança em Deus e da falha na obediência aos limites estabelecidos por ele para a existência humana.
• O pecado está relacionado com o desejo dos seres humanos de possuir o poder de Deus.
• A devastação na criação está relacionada com o pecado humano. Essa devastação inclui a alienação existente entre as pessoas e entre as pessoas e Deus.
• Não há liberdade nem segurança para a humanidade à parte de Deus.
Gênesis 4.1–6.4
Introdução a esses capítulos
A história da humanidade continua, agora fora do jardim do Éden. Essa parte da história explora como a relação dos seres humanos uns com os outros afeta a sua relação com Deus.
Esses capítulos podem ser assim esboçados:
I.Caim e Abel (4.1-16)
II. A família de Caim e o nascimento de Sete (4.17-26)
III.De Adão a Noé (5.1-32)
IV. Os nefilins (6.1-4)
A mensagem de Gênesis 4.1–6.4
As histórias de Adão, Eva, Caim e Abel nos informam que essas pessoas não são apenas nossos ancestrais físicos, mas também ancestrais espirituais. Conseguimos nos ver neles e aprendemos mais sobre nossa relação com Deus por meio da história deles.
AS GENEALOGIAS EM GÊNESIS 4–5
ABEL CAIM ADÃO EVA
ENOQUE
IRADE
MEUJAEL
METUSAEL
LAMEQUE
JABALJUBALTUBALCAIMNAAMÁ
SEM CAM JAFÉ SET
ENOS
CAINÂ
MAALALEEL
JAREDE
ENOQUE
MATUSALÉM
LAMEQUE
NOÉ
As histórias em Gênesis 4.1–6.4 testificam que Deus é tanto juiz quanto redentor. O que esses capítulos nos dizem sobre a relação da humanidade pecadora com o Deus que condena e protege?
• A história de Caim e Abel nos mostra que nossa relação uns com os outros afeta nossa relação com Deus. Não podemos ser falsos uns com os outros sem também ser falsos com Deus.
• Nós podemos e devemos controlar o pecado. Somos criados para fazer “o que é bom” diante de Deus, mas isso exige grande esforço e diligência constante. O pecado é um inimigo íntimo que mora na nossa porta e tenta nos fazer sair.
• Nós e a toda a criação sofremos as consequências do nosso pecado.
• Deus controla o espírito, o sopro de vida, e se move para declarar esse controle sempre que os seres humanos ou divinos ultrapassam seus limites.
• A despeito do pecado humano, Deus não de siste da criação. Ele tem uma relação com a humanidade e está disponível para aqueles que invocam o nome do Senhor.
Gênesis
Introdução a esses capítulos
Gênesis 6.5–9.29 relata a história do grande dilúvio e, depois disso, da aliança de Deus com Noé, homem lembrado e honrado na Bíblia por sua retidão incomum, cuja obediência a Deus salvou a humanidade da completa destruição (veja também Ez 14.14,20; Hb 11.7).
A história do dilúvio tal como se apresenta hoje é uma combinação de tradições israelitas da Antiguidade. Outras culturas da Antiguidade (por exemplo, os sumérios da Mesopotâmia e os nativos da América do Norte) também têm relatos de um grande dilúvio mundial do qual poucos seres humanos sobreviveram.
No entanto, a despeito de algumas similaridades entre as histórias mesopotâmicas e as histórias israelitas, destaca-se uma diferença importante. Nas versões mesopotâmicas (como o épico babilônio Gilgamesh), o dilúvio vem aparentemente do capricho dos deuses, e a humanidade sobrevive apenas por causa da pena de um deles. Na narrativa bíblica, tanto o dilúvio quanto a sobrevivência da humanidade acontecem pela vontade e pelo poder de Deus, o Senhor da criação.
Aqui está um esboço de Gênesis 6–9:
I.Os motivos para o dilúvio (6.5-8)
II. Os preparativos para o dilúvio (6.9–7.10)
III.O dilúvio (7.11-24)
IV. A terra seca aparece (8.1-19)
V. A oferta e a promessa (8.20-22)
VI.A bênção e a aliança (9.1-17)
VII.A maldição sobre Canaã (9.18-29)
A mensagem de Gênesis 6–9
O relato do dilúvio e suas consequências mostra claramente que o pecado e a capacidade humana para fazer o mal continuam a afetar a história da humanidade. O que essa história nos diz sobre a relação entre a história da humanidade e o pecado humano?
• O pecado e a capacidade maldade humana continuam a afetar a história da humanidade porque o pecado afeta a relação entre o homem e Deus.
• Um testemunho fundamental na comunidade de fé é que Deus julga e é ativo na história humana. A criação não é deixada solta para definir o próprio destino.
• O Senhor age na história humana para realizar os justos propósitos para os quais o mundo foi criado.
• O pecado humano afeta o curso pelo qual esses propósitos justos são alcançados, mas o pecado, em última análise, não obstruirá os objetivos de Deus.
• O julgamento de Deus é combinado com sua graça.
• A humanidade deve sua existência à graça do Criador, e não o próprio mérito.
Gênesis
Introdução a esses capítulos
Gênesis 10–11 começa com uma visão geral sobre como as famílias, a partir da família de Noé, se espalharam pelo mundo e se dividiram em povos distintos (10.1–11.9). A atenção, a seguir, recai sobre a família de Abraão, por meio da qual virá o povo israelita (11.10-32).
Aqui está um esboço desses capítulos:
I.Os descendentes de Noé (10.1-32)
II.A torre de Babel (11.1-9)
III. Os descendentes de Sem até Abrão (11.10-32)
A mensagem de Gênesis
As genealogias de Gênesis 10–11 servem como uma ponte entre o tempo primevo da história humana e o que denominamos tempo histórico. Essas famílias também servem como uma ponte entre os povos do mundo, de forma geral, e a família de Israel, em particular. O autor de Gênesis não deixa dúvidas de que todas as famílias da terra são inter-relacionadas. Ele também indicam que algo especial está para acontecer com essa família em particular e, por isso, é montado o palco para o chamado que Deus faz a Abraão. Com esse chamado, o pessimismo de Gênesis 11.1-9 é temperado com esperança. No meio da confusão e da alienação da humanidade, Deus seleciona um povo em particular e um homem em particular
com quem inicia uma relação especial. O que esses capítulos nos dizem sobre a relação contínua entre Deus e a humanidade?
• Todos os povos e todas as nações devem sua existência à graça de Deus e aos planos dele para a criação.
• Tudo começa com a bênção e a promessa de Deus.
• Ainda assim, as pessoas buscam igualdade com o Senhor (compare a história do “fruto da árvore do conhecimento” em Gn 2–3 com a história da Torre de Babel em Gn 11.1-9).
• A despeito da presunção e da desobediência da humanidade, os propósitos de Deus, em última instância, não serão frustrados.
• No meio de um movimento universal de afastamento do Criador, Deus age para criar um povo por meio do qual suas intenções originais para a criação possam ser realizadas.
Gênesis 12
Introdução a esse capítulo
Esse capítulo é um ponto de virada na narrativa do livro de Gênesis. A história da família humana em Gênesis estreita gradativamente seu foco, passando de todas as famílias do mundo (Gn 10.1-32) para uma em particular (Gn 11.10-32) e, a seguir, para um homem em especial (12.1).
O capítulo 12 tem duas partes principais:
I.Deus chama Abraão (12.1-9)
II.Abraão e Sara no Egito (12.10-20)
A mensagem de Gênesis
Abraão e sua família deixam o Egito mais ricos do que quando chegaram, mas não por mérito nem por fidelidade. Somente a intervenção e a fidelidade de Deus às próprias promessas
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• Mapas da Terra Santa nos tempos do Antigo Testamento e da época de Jesus;
• Guias para os principais eventos, personagens e conceitoschave da Bíblia;
• Cronograma da história bíblica;
• Ilustrações do Tabernáculo, do Templo e de outros lugares históricos importantes;
• Orientações para a pronúncia de nomes bíblicos;
• Glossário de termos relevantes das Escrituras;
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