Ampliação do programa de saúde visual nas escolas

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Murilo Benício vê Ferrete, de ‘Três Graças’ como um vilão de família
Após viver vilões que marcaram época, Murilo Benício celebra o novo olhar do público sobre esses personagens na atualidade. O ator destaca que existe um entendimento maior por parte da audiência atualmente, visando apenas o entretenimento e a diversão. > VEJA + PÁGINA 7

LESTE
Enfrentamento à violência contra a mulher
A Prefeitura de São Paulo lançou a segunda fase do programa Ver e Aprender, iniciativa de saúde visual nas escolas municipais que receberá investimento para ampliar o atendimento oftalmológico gratuito a estudantes da rede municipal. > VEJA + PÁGINA 5

A Prefeitura de São Paulo realiza, no próximo dia 29, o primeiro Mutirão de Atendimento Jurídico para o Enfrentamento e Combate à Violência Doméstica da cidade, no CRCM São Miguel, das 10 às 16 horas. > VEJA + PÁGINA 3

Nem todo branco é racista

POR DU PRAZERES
Durante muito tempo, a luta contra o preconceito racial foi equivocadamente vista, por muitos, como uma pauta identitária exagerada, comumente chamada de mimimi. No entanto, o racismo não é um fenômeno natural; é uma construção social e sistêmica que estrutura privilégios e desvantagens. É uma instância de poder criada e sustentada pelos brancos que, por isso, têm o dever ético de atuarem ativamente na sua desconstrução. Não basta mais se ancorar em frases feitas e ridículas como: “tenho amigos negros” ou “os negros são mais racistas que os brancos”. Em uma sociedade estruturalmente desigual, a neutralidade acaba sendo uma forma de conivência. Não ser racista, mas ser cúmplice de racismo, ao final, é a mesma coisa.
Abraçar o discurso antirracista exige que o indivíduo branco saia da zona de conforto e reconheça sua branquitude como um lugar de privilégio simbólico e material. O antirracismo não é sobre culpa, que é um sentimento paralisante, mas sobre responsabilidade, que funciona como um motor para a mudança real. O primeiro passo nessa jornada é a escuta ativa. É fundamental ceder o protagonismo, ler autores negros e compreender que a vivência branca não é o padrão universal. No entanto, esse compromisso deve transbordar para a prática cotidiana através de ações concretas, como interromper o silêncio ao questionar piadas racistas, promover a equidade ao cobrar diversidade em cargos de liderança no ambiente de trabalho, buscar entender como o racismo opera de forma velada em processos de contratação, no acesso a espaços públicos e no nosso dia a dia. Reconhecer o próprio privilégio e usá-lo para abrir portas e derrubar muros é o ato mais honesto e corajoso que uma pessoa branca pode realizar hoje. Nós negros precisamos de vocês brancos nesta batalha. Mexam-se.
autor do livro “Quilombo: contos e receitas”, professor universitário, pós-doutor em Letras
CULTURA
O Noir é nosso e deve ser

POR VINÍCIUS FERREIRA
Aficção noir não foi inventada no Brasil, obviamente. Mas, com a devida vênia aos versos de Milton Nascimento e Tunai, “cabem tão dentro de nós, que perguntar carece, como não fomos nós que fizemos”. Poucos instrumentos parecem tão reveladores para interpretar o Brasil contemporâneo quanto as tramas noir, marcadas pela investigação de crimes, pela ambiguidade moral e pela falência das instituições.
Se, em suas origens norte-americanas, o gênero tratava a violência como regra e sintoma, ao ser transportado para o Brasil encontra na desigualdade estrutural, na corrupção sistêmica e na precariedade institucional uma espécie de “pátria natural”. Aqui, o noir deixa de ser apenas estética e se aproxima de diagnóstico.
As narrativas noir expõem com frequência a porosidade entre legalidade e ilegalidade. Não é preciso ter lido “A dialética da malandragem”, de Antônio Candido, para reconhecer a familiaridade nacional com agentes do Estado e do crime compartilhando práticas e códigos.
Nesse cenário, o investigador desiludido encarna o indivíduo diante dos dilemas da sobrevi-
vência. Em luta desigual, sem clareza sobre as regras da justiça, ele cria éticas particulares para não sucumbir à normalização da violência, à impunidade e à fragilidade democrática.
Nas narrativas noir, importa menos o crime em si do que a revelação de suas engrenagens. Por isso, obras brasileiras recentes têm ampliado o gênero ao incorporar elementos da história nacional. Exemplo é Vento em setembro, de Tony Bellotto, vencedor do Prêmio Jabuti 2025. Ao construir uma ambientação labiríntica em dois tempos, o romance sugere que passado e presente no Brasil são quase indistinguíveis quando se trata de compreender traumas e mazelas varridas para debaixo do tapete. Assim, deixa de ser mero entretenimento e se torna esforço de interpretação da realidade.
Para a literatura brasileira, vale rever o lugar da ficção noir. É hora de reconhecer sua capacidade de tensionar os limites entre ordem e caos, lei e violência, convocando à reflexão sobre o enfrentamento das nossas desigualdades profundas.
Mais do que resolver enigmas, a narrativa noir brasileira expõe o país a perguntas que ele insiste em adiar.
Vinícius Ferreira é professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora


COMPORTAMENTO
A vida nos impõe dureza

POR MARIA DE LOURDES
Como observadora atenta da alma humana, percebi que a vida, muitas vezes, nos impõe uma arquitetura de sobrevivência muito similar a de uma noz. Existe uma rigidez necessária, uma carapaça que desenvolvemos para suportar as pressões externas, os silenciamentos e as intempéries de uma realidade que, historicamente, exige das mulheres uma força desproporcional. No cenário atual, onde os índices de violência contra a mulher ainda nos estarrecem, essa proteção emocional não é uma escolha estética; é um mecanismo de defesa vital contra o desamparo e a agressão. Precisamos falar abertamente sobre esse “endurecimento”. Ele nasce dos enfrentamentos diários, das pequenas e grandes lutas que moldam quem somos. Em um mundo que ainda tenta ditar nossos passos e limitar nossos desejos, a resiliência torna-se nossa pele mais dura. Muitas vezes, essa proteção é vista como frieza ou distanciamento, mas, na verdade, é o resultado de uma sensibilidade que precisou se transmutar em coragem para não ser estilhaçada. O endurecimento é a resposta instintiva ao medo e à necessidade de preservação da própria identi-
gazeta há 20 anos
Odade. Entretanto, o que a analogia da noz nos ensina de mais valioso é que a casca, por mais resistente que seja, não define o fruto; ela apenas o guarda. Existe um perigo real em nos confundirmos com a nossa armadura, esquecendo que o propósito da proteção é permitir que a semente interna permaneça intacta, viva e potente.
A violência e o medo tentam nos esvaziar, mas a nossa natureza é feita de algo muito mais profundo: uma capacidade inesgotável de regeneração e recomeço. A esperança reside justamente no gesto de compreender quando essa proteção cumpriu seu papel e permitir-se, então, romper as limitações. Mesmo em tempos áridos, onde as notícias parecem sufocar nossa liberdade, vejo mulheres transformando dor em autonomia e luto em luta. A beleza da existência feminina está nessa dialética entre a resistência da casca e a delicadeza do miolo. Não estamos sozinhas nessa jornada de “quebrar cascas”. A união e o reconhecimento mútuo dessas batalhas silenciosas são o que fortalece nossa estrutura. A vida pode ser dura, mas a capacidade de criar formas de existir, a partir de cada desafio superado, é a prova definitiva de que a luz sempre encontrará uma fresta para atravessar o que quer que tente nos fechar.
Maria de Lourdes Rabelo Cruz é escritora e psicanalista
O QUE ERA NOTÍCIA EM 28 de maio de 2006
EDIÇÃONº 1003
Itaquera rumo ao crescimento
centro de Itaquera está passando por grandes mudanças. Uma delas é a construção das alças de acesso à Avenida Jacu-Pêssego (foto), que irá melhorar o trânsito nas ruas Gregório Ramalho e Américo Salvador Novelli. Mas as intervenções não se resumem a isso: há um pacote de projetos que incluem a revitalização da Praça da Estação, a construção do Pop Center, destinado aos camelôs, e de um terminal urbano, ambos embaixo do Viaduto da Avenida David Ferreira.
O bairro de Itaquera, que nos últimos anos se beneficiou com uma série de transformações principalmente no que diz respeito ao sistema viário está prestes a sofrer outras. “O ex-prefeito José Serra aprovou alguns projetos locais e agora o prefeito Gilberto Kassab está providenciando os recursos”, disse animado o subprefeito de Itaquera, Laert Lima Teixeira, em entrevista a esta Gazeta. Entre as mudanças, está a revitalização da praça que abrigava a antiga estação de trem, que foi demolida para a construção da nova Radial Leste.

A
Prefeitura realiza mutirão jurídico



DA REDAÇÃO
APrefeitura de São Paulo realiza, no próximo dia 29, o primeiro Mutirão de Atendimento Jurídico para o Enfrentamento e Combate à Violência Doméstica da cidade, no Centro de Referência e Cidadania da Mulher (CRCM) São Miguel, das 10 às 16 horas.
O evento oferecerá orientação jurídica, acolhimento psicossocial e assistência social, com a atuação de profissionais especializados no atendimento a casos de violência doméstica e de gênero. A ação também contará com a participação da equipe do Centro de Atenção à Saúde Sexual e Reprodutiva Maria Auxiliadora Lara Barcelos — Casa SER Dorinha.
Não é necessário estar
cadastrada previamente em algum serviço da rede para participar.
A rede de enfrentamento à violência contra a mulher da Prefeitura de São Paulo oferece acolhimento, orientação e acompanhamento multidisciplinar para mulheres em situação de violência e vulnerabilidade social. As unidades promovem atendimento especializado, oficinas, rodas de conversa e ações voltadas à cidadania e à autonomia financeira.
Até 11 de maio de 2026, foram contabilizados 3.228 atendimentos relacionados a situações de violência doméstica e de gênero. Os equipamentos atuam de forma integrada com outros serviços públicos, possibilitando encaminhamentos nas áreas de saúde, educação, assistência social, trabalho


e demais políticas públicas. Desde 2021, a gestão inaugurou dois novos Centros de Referência e Cidadania da Mulher — CRCM Cachoeirinha e CRCM São Miguel — e o Posto Avançado de Apoio à Mulher no Terminal Sacomã, ampliando o acesso aos serviços de proteção e acolhimento em diferentes regiões da cidade. A rede é formada por 27 equipamentos especializados, entre eles os Centros de Referência e Cidadania da Mulher (CRCMs), os Centros de Defesa e de Convivência da Mulher (CDCMs), a Casa da Mulher Brasileira e a Casa de Acolhimento Provisório de Curta Duração Rosangela Rigo, além de três Postos Avançados de Apoio à Mulher e uma Unidade Móvel de Atendimento às Mulheres.

NA SELVA DE PEDRAS
A história de um homem que transformou uma região inteira


DA REDAÇÃO
No final de 2003, o cenário às margens do córrego Tiquatira era composto por entulho, esgoto e desolação. Inconformado, o empresário aposentado Hélio da Silva decidiu, por conta própria, iniciar o cultivo de mudas nativas da Mata Atlântica onde antes só existia descarte de lixo. Esse gesto de cidadania solitária, que resultou na plantação de milhares de exemplares, ganha agora as páginas da literatura infantojuvenil em O plantador de árvores, da escritora Maíra Lot Micales. A obra detalha como a visão de Hélio ultrapassou o cinza e o barulho do trânsito para enxergar um refúgio de biodiversidade no coração da metrópole. Através das ilustrações de Matheus Furtado, os
pequenos leitores acompanham o protagonista em sua rotina de cuidado, guiada pelo lema “HEI” — Humildade, Entusiasmo e Integridade. Na trama, a autora revela o cotidiano de um homem que vê cada espécie como uma filha, mantendo um diário rigoroso que cataloga o crescimento de uma floresta erguida com as próprias mãos. Um dos momentos mais marcantes da trajetória de Hélio foi a sua resistência contra o vandalismo. Por duas vezes, centenas de mudas foram destruídas, mas a reação do ambientalista foi o que consolidou seu legado: um “protesto verde”. Em vez de desistir, ele estabeleceu: para cada árvore perdida, três novas ocupariam o lugar. Essa determinação transformou a área degradada no Parque Linear Tiquatira, oficializado em 2008



pela Prefeitura, onde hoje mais de 40 mil árvores abrigam aves e oferecem sombra para as famílias da comunidade. Na obra, publicada pela Caminho Suave, Maíra utiliza essa biografia para discutir temas urgentes como a importância da proatividade para a mudança, a sustentabilidade e a responsabilidade social de forma lúdica. Ao converter o concreto em folhagem, a obra reafirma que ninguém é pequeno demais para alterar o cenário onde vive. O livro encerra com um convite para que cada família se torne, também, agente de transformação.
FICHA TÉCNICA
O plantador de árvores; autora: Maíra Lot Micales; editora: Caminho Suave; preço: R$ 59,90. Onde encontrar? Amazon


PROGRAMA DE SAÚDE VISUAL NAS ESCOLAS
Nova fase e ampliação do programa de saúde visual nas escolas

Iniciativa passa a incluir alunos da EJA, CIEJA e MOVA; primeira etapa realizou mais de 290 mil avaliações e entregou 66 mil óculos gratuitos

DA REDAÇÃO
APrefeitura de São Paulo lançou, no último dia 14, a segunda fase do programa Ver e Aprender, iniciativa de saúde visual nas escolas municipais que receberá investimento de R$ 42 milhões para ampliar o atendimento oftalmológico gratuito a estudantes da rede municipal e, pela primeira vez, também aos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), dos Centros Integrados de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) e do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (mova). A nova etapa prevê atendimento para mais de 300 mil crianças e adolescentes da rede municipal, além de cer-
ca de 37,5 mil estudantes da educação de jovens e adultos. O lançamento ocorre após a conclusão da primeira fase do programa, a maior ação de saúde visual já realizada na Rede Municipal de Ensino. Desde novembro de 2023 até abril deste ano, a iniciativa realizou mais de 290 mil avaliações, encaminhou 82 mil estudantes para consultas oftalmológicas e entregou gratuitamente mais de 66 mil óculos. Ao todo, 620 escolas das 13 Diretorias Regionais de Educação participaram da ação. A expectativa inicial era de que cerca de 20% dos estudantes avaliados apresentassem necessidade de correção visual ou de acompanhamento especializado. No entanto, os dados consolidados da



primeira fase apontaram índice superior a 30%, revelando uma demanda reprimida maior do que a estimada inicialmente.
Durante o processo, estudantes de 6 a 17 anos passaram por triagem, consultas, exames especializados e acompanhamento médico, incluindo procedimentos cirúrgicos quando necessários. Os alunos que receberam prescrição para uso de óculos puderam escolher gratuitamente as armações com apoio de técnicos especializados responsáveis pela adaptação adequada ao rosto de cada estudante. Além do impacto na saúde, escolas relataram melhora no desempenho pedagógico dos alunos atendidos.


TEATRO - GRÁTIS
12º Round: A História de Emile Griffith, no TUSP
12º Round: A História de Emile Griffith, com texto de Sérgio Roveri e direção de Bruno Lourenço, que estreou em 2025 no Sesc Ipiranga. A peça agora ganha uma nova temporada no TUSP - Teatro da USP, até 14 de junho. Em cena, estão Alexandre Ammano, Fernando Vitor e Letícia Calvosa.
Apesar de ter feito uma brilhante carreira no boxe, o caribenho Emile Griffith, passou a enfrentar uma luta contra o preconceito dentro e fora dos ringues ao assumir sua bissexualidade. Traçando um voo panorâmico sobre temas como a violência no mundo do esporte, o racismo, a homofobia e as fronteiras da masculinidade negra, a peça também se propõe a discutir como essas tensões ainda ecoam até hoje na sociedade, abordando as contradições, violências e resistências vividas por corpos dissidentes.

Cinco vezes campeão mun- Racismo e a homofobia no esporte são pautas levantadas por 12º Round, que ganha nova temporada
dial em três categorias de peso diferentes, Griffith foi o primeiro atleta com este perfil a assumir publicamente sua bissexualidade. Sua vida foi profundamente transformada após vencer o combate com Kid Paret, que havia chamado Emile de ‘bicha’ várias vezes em público e, no embate, foi nocauteado e faleceu, numa luta televisionada para todos os EUA em 1962.
SERVIÇO
12º Round: A História de Emile Griffith – até 14 de junho de 2026, de quinta a sábado, às 20h; e aos domingos, às 19h. Local: TUSP - Teatro da USPRua Maria Antônia, 294 - Vila Buarque. Duração: 70 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Capacidade: 100 lugares. Ingressos: gratuitos, liberados 1h antes de cada sessão na bilheteria (sujeito à lotação do espaço), limitados a uma entrada por pessoa

Murilo Benício vê Ferrete, de ‘Três Graças’, como um vilão de família
Após viver vilões que marcaram época, Murilo Benício celebra o novo olhar do público sobre esses personagens na atualidade. O ator destaca que existe um entendimento maior por parte da audiência atualmente, visando apenas o entretenimento e a diversão. “Tem esse lugar lúdico que o espectador entende. Não é igual antigamente, que batiam na gente no meio da rua. Hoje há uma compreensão maior de que isso é uma novela, feita para entreter, para as pessoas rirem e se divertirem um pouco depois de um dia de trabalho”, afirma.
Nos últimos capítulos da novela, o vilão conseguiu retomar a presidência da fundação que leva seu nome e impediu a posse oficial de Gerluce, papel de Sophie Charlotte. Ferette anula na Justiça a liminar que reconduziu Rogério, de Eduardo Moscovis, ao comando da fundação. O processo, ele alega conflito de interesses, argumento aceito pelo fato de o desembargador que deu a ordem ser pai da policial Juquinha, vivida por Gabriela Medvedovsky, namorada da filha de Ferette, Lorena, de Alanis Guillen.
P – Ao longo da novela, algumas sequências exigiram bastante esforço físico. Até que ponto atuar, nesses momentos, se aproxima de um trabalho físico e técnico?
R – Totalmente. São cenas muito difíceis porque misturam ação com uma carga emocional forte. Então, além de interpretar, você precisa estar extremamente atento para que tudo aconteça com segurança. Nada ali é por acaso, tudo é pensado e ensaiado.
P – Esse cuidado coletivo muda a forma como o elenco interage em cena?
R – Muda bastante. A gente conversa muito antes, principalmente nas cenas mais delicadas. Existe uma troca real: sentamos, discutimos, pensamos juntos em como fazer. Isso cria uma confiança importante entre os atores.
P – No entanto, o ritmo acelerado das novelas não permite muitos encontros e estudos. O que isso representa no resultado final?
R – Representa muito. Nem sempre dá para chegar e simplesmente gravar. Quando a gente tem esse tempo, consegue construir melhor, testar possibilidades e garantir que tudo funcione, tanto

Para Murilo Benício, o desafio na composição do personagem esteve justamente em escapar de soluções fáceis e arquétipos previsíveis
artisticamente quanto tecnicamente.
P – Você tem conseguido acompanhar a repercussão da novela?
R – É bem difícil. Como estou dentro do estúdio, acabo não acompanhando tanto a reação imediata. Às vezes a cena vai ao ar e eu ainda estou totalmente focado no que vem pela frente.
P – A saga do Ferette chegou ao fim. O que foi mais interessante de desenvolver nesse personagem?
R – Justamente o fato de não ser simples. Ele vive um conflito entre o desejo e a estrutura familiar. É mais interessante ele amar a família e, ainda assim, cometer erros. Isso aproxima o personagem de algo real, porque esse tipo de contradição existe.
P – De que forma?
R – Temos muitas pessoas com o caráter do Ferette por aí. É muito difícil mudar. São poucas as pessoas que realmente conseguem rever esse tipo de educação. É um processo que exige vontade, e nem todo mundo está disposto a passar por isso.
Mundo de mudanças
Ao refletir sobre as transformações sociais ao longo das últimas décadas, Murilo Benício reconhece que cresceu em um contexto marcado por valores hoje amplamente questionados. “Você nascia machista, você nascia preconceituoso. Minha adolescência foi nos anos 1980, era algo absurdo”, afirma, ao lembrar de uma época em que a repressão era naturalizada e a diversidade praticamente invisibilizada no cotidiano. O ator destaca que, apesar desse cenário, sua trajetória foi atravessada por experiências que ampliaram seu olhar. “Claro que existiam pessoas gays, mas ninguém podia ser. Eu venho de um lugar do qual até hoje me desconstruo”, explica ele, que valoriza o papel do teatro ao ampliar novas perspectivas e o ajudou a enxergar o mundo de forma mais aberta e interessante. “Tive sorte de gostar de teatro. Então, muito cedo eu já conheci um mundo muito diferente e muito mais interessante”, completa.








