Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Lumos Assessoria Editorial
C755
Conselho editorial do grupo RBS : ano III : coletânea de artigos para qualificação do jornalismo profissional : de setembro de 2O24 a agosto de 2O25 / Grupo RBS. 1. ed. Porto Alegre : Grupo RBS, 2O25. 128 p. ; 23 cm.
Ao completar três anos de atuação, o Conselho Editorial do Grupo RBS consolida-se como um espaço permanente de reflexão, escuta e aprimoramento do nosso jornalismo. Esta terceira coletânea de colunas, publicadas semanalmente em Zero Hora e em GZH entre setembro de 2024 e agosto de 2025, reúne as vozes de conselheiros que, a cada texto, provocaram debates sobre o papel dos veículos de comunicação, os desafios da contemporaneidade e as responsabilidades de quem informa milhões de gaúchos todos os dias.
Criado em 2022, sob a liderança do publisher Nelson P. Sirotsky, o Conselho Editorial nasceu com a missão de fortalecer a linha editorial e o compromisso público do Grupo RBS. Composto por integrantes internos e externos, o Conselho expressa a convicção de que o jornalismo se faz melhor quando é plural, transparente e permanentemente disposto a ouvir.
Os frutos desse diálogo estão presentes nas redações da RBS TV, da Rádio Gaúcha, de Zero Hora, do Pioneiro, do Diário Gaúcho e de GZH, que reúnem mais de 500 jornalistas comprometidos com a precisão da informação, a diversidade de perspectivas e a defesa da democracia.
Esta obra dá continuidade a um registro histórico iniciado em 2023: o de um tempo em que o jornalismo profissional reafirma sua relevância diante da avalanche de desinformação e das rápidas transformações tecnológicas. Mais do que uma coletânea, este livro é um testemunho do compromisso da RBS com a sociedade gaúcha — um convite ao diálogo e à confiança que sustenta nossa relação com cada um dos gaúchos.
Marta Gleich
Secretária do Conselho Editorial e diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS
Conselho Editorial
Publisher
NELSON P. SIROTSKY
Empresário dedicado ao setor de mídia há 50 anos, é presidente do Conselho de Gestão da RBS — o maior grupo de comunicação do sul do país, o qual presidiu por 21 anos. Também atua como publisher, à frente do Conselho Editorial da empresa. Em 2012, fundou a Maromar Participações, holding de investimentos de sua família. Foi conselheiro da Algar Telecom e da Zenvia. Com forte atuação associativa, presidiu a Associação Nacional de Jornais (ANJ) por dois mandatos, além de ter participado de entidades como Abert, Endeavor, Instituto Millenium e ADVB. Graduado em Administração de Empresas pela UFRGS, soma inúmeros cursos no Brasil e no Exterior. É coautor do livro O Oitavo Dia (Primeira Pessoa).
CARIN MANDELLI
Fundadora e CEO da ANK Reputation, consultoria de gestão de reputação. Reúne mais de 20 anos de experiência em comunicação, gestão de reputação de empresas, avaliação e gestão de risco de imagem e preparação de lideranças. Graduada em Jornalismo pela PUCRS, com MBA pela Fundação Dom Cabral e pós-MBA pela Kellogg School of Management. Atuou por 12 anos no Grupo RBS, onde foi produtora de Economia em Zero Hora, diretora de Comunicação Corporativa e membro da Diretoria-Executiva e do Comitê Editorial. Como voluntária, é diretora da Fundação Iberê Camargo. Foi vice-presidente da ADVB/RS e conselheira da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho.
ANDRESSA XAVIER
Jornalista com MBA em Gestão e Liderança. Atua como gerenteexecutiva de Programação e Jornalismo da Rádio Gaúcha, além de comunicadora. Apresenta o Gaúcha Atualidade, é colunista de Zero Hora e GZH e comentarista da RBS TV. Já passou pelas funções de produtora, editora e repórter, e implementou a Gaúcha Santa Maria e a Gaúcha Serra. Foi a primeira mulher a apresentar o Correspondente Gaúcha. Já participou de oito coberturas eleitorais. Cobriu também as eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2016 e 2024.
IVAN PACHECO, AGÊNCIA RBS
ANIK SUZUKI
GLADSTONE CAMPOS
Presidente-executivo do Grupo RBS. Bacharel em Administração de Empresas com ênfase em Marketing pela UFRGS e pós-graduado em Finanças pela PUCRS. Tem MBA pela University of Southern California (EUA) e especialização pela London Business School (Londres). Participou do Jim Collins Lab, no Colorado (EUA), e de projetos com renomados especialistas em gestão, como Ram Charan e John Davis. Tem vasta experiência na gestão de negócios, incluindo passagens por diversos cargos de liderança em empresas da RBS, além de entidades de classe, como Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão e Associação Riograndense de Propaganda.
ELLEN APPEL
Gerente-executiva de Jornalismo da RBS TV. Jornalista graduada pela PUCRS, em 1997, sua trajetória profissional foi construída no Grupo RBS. No mesmo ano, começou a trabalhar na Rádio Gaúcha, como produtora e redatora. Depois, passou pelo Canal Rural, onde permaneceu por oito anos. Já na RBS TV, em 2006, foi editora de texto do Jornal do Almoço e do RBS Notícias. Atuou também como editora-chefe do Campo e Lavoura e do Bom Dia Rio Grande, além de passar pela coordenação de Reportagem e Produção e pela chefia de Redação.
IVAN PACHECO, AGÊNCIA RBS
CLAUDIO TOIGO FILHO
RAUL KREBS
FRANCO RODRIGUES/DIVULGAÇÃO
JOSÉ GALLÓ
Com mais de 40 anos de experiência no varejo e graduado em Administração pela FGV, é fundador da Quartz Investimento e membro dos Conselhos da Associação Hospitalar Moinhos de Vento e do Grupo Sim. Foi CEO e presidente do Conselho da Lojas Renner e membro dos Conselhos da Ultrapar, do Itaú, da Localiza, da SLC e do Banco Real. Sob sua gestão, como CEO, a Lojas Renner passou de uma rede de varejo de moda com oito lojas para uma corporação com mais de 550 operações no Brasil, no Uruguai e na Argentina. É autor do livro O Poder do Encantamento (Planeta Estratégia).
MARCELO RECH
Consultor e colunista de Zero Hora. Por 27 anos, foi executivo do Grupo RBS, onde atuou como repórter, diretor de Redação de ZH, diretor-executivo de Jornalismo e vice-presidente Editorial e Institucional. Formado em Jornalismo, tem cursos de especialização no Media Management Center da Kellogg e em Media Strategy na Harvard Business School. Preside desde 2017 a Associação Nacional de Jornais (ANJ), faz parte do board da World Association of News Publishers e é ex-presidente do Fórum Mundial de Editores. Vice-presidente do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).
FABIANO PANIZZI
Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS e membro do Comitê Executivo da empresa. É responsável pelos conteúdos da RBS TV, da Rádio Gaúcha, dos jornais
Zero Hora, Diário Gaúcho e Pioneiro e de GZH. Jornalista formada pela UFRGS, tem quatro pós-graduações: MBA em Transformação
Digital e Novos Negócios (PUCRS), XBA
– Programa Executivo Internacional de Gestão Exponencial da StartSe University e mestrados profissionalizantes em Jornalismo
Digital e Gestão de Empresas Jornalísticas pelo IICS de SP. Coordena o Comitê Editorial da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner).
NILSON VARGAS
Durante 22 anos atuou em redações do Grupo RBS, sempre com funções de gestão. Em sua última missão na RBS, foi gerente de Jornalismo da Redação Integrada de Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro, GZH e Rádio Gaúcha. Antes, havia comandado as redações dos jornais Diário de Santa Maria, A Notícia e Diário Catarinense, também do Grupo RBS. Foi editor na revista Veja e em veja.com. Comandou a Diretoria de Comunicação da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). É consultor na área de comunicação. Jornalista graduado pela UFSM e pósgraduado em Teoria da Comunicação pela Fundação Cásper Líbero.
MATEUS BRUXEL
MARTA GLEICH
LISIANE APPEL
PEDRO DÓRIA
Jornalista, escritor e palestrante. Foi editor-executivo de O Globo e editor-chefe de digitais de O Estado de S. Paulo. Fundou a startup Meio, influente veículo do novo jornalismo digital. Também assina uma coluna semanal no Globo e na CBN. Estudou em Stanford e é autor de best-sellers sobre história do Brasil — o último, Fascismo à Brasileira (Planeta).
FRANCO RODRIGUES/DIVULGAÇÃO
RAQUEL RECUERO
Professora e pesquisadora do Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É coordenadora do laboratório de pesquisa MIDIARS. Formada em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas e em Direito pela Universidade Federal de Pelotas. Suas pesquisas concentramse principalmente na circulação e na legitimação de conteúdos e processos comunicativos nas plataformas digitais.
IVAN PACHECO
FERNANDO BÓSIO
RODRIGO MÜZELL
Gerente-executivo de Jornalismo
Digital do Grupo RBS, é responsável pelo conteúdo de GZH, Zero Hora e Rádio Gaúcha nos ambientes digitais. Em 2009, foi fellow do programa Alfred Friendly Press Partners, atuando como repórter de Cidades no jornal The Philadelphia Inquirer (EUA). Está desde 2000 no Grupo RBS: foi repórter e editor de Zero Hora até 2018 e gerente na RBS TV até 2022. Também liderou o Grupo de Investigação da RBS (GDI). Formado em Jornalismo pela UFRGS (2001), tem master em Jornalismo Digital pelo IICS (2015) e mestrado em Comunicação pela PUCRS (2020).
TIAGO CIRQUEIRA
Gerente-executivo de Esportes do Grupo RBS, é responsável pela gestão da plataforma integrada esportiva das marcas RBS TV, ge.globo/RS, Gaúcha, GZH, Zero Hora e Diário Gaúcho. Ao longo de 13 anos no grupo, coordenou transmissões e projetos multimídia que conectaram o público e o mercado gaúcho. Formado em Comunicação Social pela UFMG, liderou as coberturas das Copas do Mundo de 2014, 2018 e 2022 e das Olimpíadas de 2016, 2020 e 2024. Em 2019, foi o responsável pela criação da área integrada de Esportes da RBS, uma plataforma de negócios baseada em conteúdo, que consolidou uma estratégia 360° de produto, com impacto editorial e comercial.
MARCO FAVERO, AGÊNCIA RBS
artigos
1 o/09/24 | O BARULHO DE PABLO MARÇAL
08/09/24 | MARATONA DE DEBATES
15/09/24 | DO QUE IREMOS NOS ORGULHAR?
22/09/24 | A RELEVÂNCIA DO JORNALISMO NO MUNDO DIGITAL
29/09/24 | A DESINFORMAÇÃO CLIMÁTICA E O PAPEL DO JORNALISMO
06/10/24 | O PAPEL DO JORNALISMO NUMA ELEIÇÃO
13/10/24 | JAYME, 90 ANOS
20/10/24 | JORNALISMO PARA REENCONTRAR A HISTÓRIA
27/10/24 | A ELEIÇÃO, A TV E OS GAÚCHOS
03/11/24 | JORNALISMO, ELEIÇÕES E ABSTENÇÕES
10/11/24 | PONTO DE VISTA
17/11/24 | VERDADES DESCONFORTÁVEIS
24/11/24 | O JORNALISMO SOB OS ALGORITMOS
1 o/12/24 | O CALHAMAÇO
08/12/24 | SOCIEDADE CONSTRANGIDA
15/12/24 | A TV 3.0 VEM AÍ
22/12/24 | JORNALISMO PARA REEXISTIR
29/12/24 | JORNALISMO EM TRANSFORMAÇÃO
05/01/25 | NOVAS HABILIDADES PARA O JORNALISMO
12/01/25 | O JORNALISMO DIANTE DO CAOS DA DESINFORMAÇÃO
19/01/25 | A CAPACIDADE DE RESISTIR E DE SE REINVENTAR
26/01/25 | NÓS, AS PLATAFORMAS E O ÓDIO
02/02/25 | ZUCK E OS FATOS
09/02/25 | AUTOPROTEÇÃO E AUTORRESPONSABILIDADE
16/02/25 | O CASO DO BOLO EM DOCUMENTÁRIO
23/02/25 | PARA APROXIMAR O OLHAR
02/03/25 | PLURALISMO DE OPINIÕES
09/03/25 | MARATONAS DE COBERTURA
16/03/25| A ERA DA ECONOMIA DA ATENÇÃO
23/03/25 | O DESAFIO DO JORNALISMO DIANTE DO RUÍDO DAS REDES
30/03/25 | O PREÇO DO QUE CHAMAM DE “GRÁTIS”
06/04/25 | NA MIRA DO ÓDIO ONLINE
13/04/25 | O DESAFIO DA IMPRENSA
20/04/25 | A CHANCE DE UM NOVO ESTADO
27/04/25 | A TRANSFORMAÇÃO DAS REDAÇÕES COM IA
04/05/25 | VALEU A PENA VER DE NOVO
11/05/25 | UMA COPA A SER CONQUISTADA
18/05/25 | EU AINDA VOU ESCREVER PARA UM AGENTE DE IA
25/05/25 | A CONDENAÇÃO DE ZERO HORA E DE ROSANE DE OLIVEIRA
05/06/25 | NOSSO INSPIRADOR
08/06/25 | CENSORES
15/06/25 | O AGRO TEM MUITO MAIS A NOTICIAR
22/06/25 | O JORNALISMO TEM LADO?
29/06/25 | O VALOR E A CONEXÃO DA TELEVISÃO ABERTA
06/07/25 | ESPORTE E IDENTIDADE REGIONAL
13/07/25 | TRABALHO CONJUNTO
20/07/25 | A DISCUSSÃO ÉTICA E LEGAL DAS IAS
27/07/25 | A CACOFONIA DO NOSSO TEMPO
03/08/25 | ENTRE A POLARIZAÇÃO E O RADICALISMO
10/08/25 | TIKTOKIZAÇÃO DA NOTÍCIA
17/08/25 | FELCA
24/08/25 | A VERDADE CUSTA — E NÃO SÓ DINHEIRO
31/08/25 | INFORMAÇÃO, ANÁLISE E OPINIÃO
O barulho de Pablo Marçal
Se você é um dos 156 milhões de brasileiros que ficam online com certa regularidade, já percebeu na sua timeline a presença contundente de Pablo Marçal. O candidato transpôs os limites de São Paulo, onde concorre a prefeito, menos por seus projetos para a administração da maior cidade do país e mais pelo enorme engajamento nas redes, que, antes de serem suspensas pela Justiça Eleitoral, tinham cerca de 17 milhões de seguidores, número superior à soma de toda a população de São Paulo com a da Grande Porto Alegre.
Marçal engaja porque desperta amor e ódio, não podemos negar. Tem quem o ame por suas ideias e energia, mas também porque se sente vingado pelo estrago que causa ao “sistema”, como ele define o modelo atual de funcionamento da política brasileira. Para o outro grupo, ele não passa de um sujeito desonesto e perigoso, com ambições para 2026. Mas meu objetivo não é analisar o candidato, e sim como nós, eleitores, vamos aprender a navegar e tomar decisões neste ambiente tão cheio de ruído, acusações e baixarias.
ANIK SUZUKI CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS
É hora de olharmos com mais objetividade para esse contexto.
É fato que a tecnologia criou modelos de negócios com novas formas tanto de produzir e distribuir quanto de consumir informação. Boa parte do que acontece no universo online, de negócios e profissões legítimos a usos oportunistas, é uma novidade ainda desconhecida e mal digerida por grande parte da população e pelos políticos tradicionais. Mas é uma realidade incontestável e veio para ficar.
Isso coloca cada um de nós diante da responsabilidade de entender melhor seu impacto no nosso cotidiano e, neste momento, na política. Entre cortes de vídeos, lacração, memes, frases tiradas do contexto e deepfakes, cada vez mais políticos de diferentes partidos nos lançam à insegurança que vem do desconhecido. É hora de olharmos com mais objetividade para esse contexto e de buscarmos instrumentos que nos ajudem a compreendê-lo e a focar o que é importante para nós e para as nossas cidades.
É nesses momentos de incerteza, quando uma decisão nossa terá alto impacto na nossa vida e na sociedade, que o jornalismo profissional se fortalece. Não a simples opinião, a crítica engajada ou a troca de insultos, mas a reportagem verdadeira, baseada em fatos e dados, com apuração, checagem e aprofundamento, ágil e acessível, que nós, o público, realmente buscamos e merecemos.
09 24
Maratona de debates
MARTA GLEICH Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS
Daqui a apenas quatro semanas, você tem um encontro com a urna eletrônica. Será o primeiro turno das eleições, em que o eleitor digitará o número de seus candidatos a vereador e a prefeito. No Rio Grande do Sul, neste ano, parece que a campanha eleitoral surgiu de repente, enquanto os cidadãos ainda pensam em sair do longo momento de enchente e iniciar a reconstrução de suas vidas, seus negócios, suas comunidades. Neste contexto, caro leitor e eleitor, as escolhas ganharam ainda mais relevância.
Para ajudar os gaúchos em suas reflexões, previmos, de forma inédita por seu volume, uma maratona de debates em todas as cidades onde há emissoras da RBS TV e da Rádio Gaúcha (veja datas ao lado). É a oportunidade para cotejar propostas, pensar com calma no mais qualificado candidato a partir de suas convicções e tomar a melhor decisão quando você estiver, de forma livre e responsável, frente a frente com a urna e com o futuro do seu município.
Esta é só uma das dezenas de iniciativas em nossos veículos neste mês final de campanha. Entrevistas em profundidade com os candidatos, matérias analíticas dos problemas dos municípios, apresentação de propostas sobre temas específicos, acompanhamento dos candidatos, pesquisas e muitos outros conteúdos também fazem parte.
Planejada há mais de um ano, a cobertura eleitoral é um momento em que a RBS reforça sua crença no jornalismo profissional e independente, plural e comprometido com a verdade e a informação segura.
Do que iremos nos orgulhar?
Estamos em mais um Mês Farroupilha, um momento em que celebramos nossas tradições e valorizamos nossa identidade gaúcha, que nos define para além do simples local onde nascemos. Essa identificação foi formada por meio de uma história repleta de conquistas e superação, que nutriu sentimentos de pertencimento e muito orgulho.
Orgulho de ser gaúcho, de termos construído um Estado reconhecido pelos seus avanços econômicos, sociais e culturais. Um legado construído por muitas gerações, que, infelizmente, vinha perdendo força nas últimas décadas até começar a dar sinais de que uma virada positiva estava em curso.
Então, veio a enchente deste ano, impondo grandes e numerosos desafios. Nos encontramos agora numa encruzilhada histórica, e está em nossas mãos transformar a crise em uma oportunidade para a retomada estrutural necessária. Diante das muitas frentes de reconstrução, há duas condições fundamentais para termos um futuro melhor.
CLAUDIO TOIGO FILHO CEO do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS
A união precisa continuar presente na realização dos objetivos comuns.
A primeira é a união. Precisamos ser e agir de forma diferente. Em tempos de polarização e baixa disposição para construção conjunta, é necessário haver mais cooperação e menos disputas por protagonismo. A união, manifestada na solidariedade durante a fase mais crítica da enchente, precisa continuar presente na realização dos objetivos comuns a todos os gaúchos. Os responsáveis devem estar alinhados, com papéis claros e objetivos, em um ambiente de respeito e colaboração.
A segunda condição é a educação, premissa fundamental para um futuro mais próspero e sustentável. A força de trabalho do nosso Estado entrará em declínio, e o crescimento dependerá dos ganhos de produtividade.
Precisamos de uma sociedade preparada e capacitada, com oportunidades para as pessoas. Além disso, o Rio Grande do Sul corre um alto risco de aumento da evasão escolar, como ocorreu durante a pandemia.
Para que os jovens de hoje tenham o que celebrar e do que se orgulhar no futuro, precisamos agir no presente. Reafirmando nossa crença no poder transformador da comunicação, continuaremos a fazer parte da mobilização de esforços, buscando ser um farol para impulsionar e apontar caminhos. As próximas gerações também terão um passado do qual se orgulhar? Depende de nossas atitudes e escolhas agora.
09 24
A relevância do jornalismo no mundo digital
NELSON P. SIROTSKY Publisher e presidente do Conselho da RBS
O crescente consumo de informação através de plataformas digitais continua desafiando o jornalismo profissional. Se é verdade que, com a popularização da internet, os meios de comunicação tradicionais perderam a exclusividade da notícia, não é menos verdade que o jornalismo ético e independente ganha a cada dia maior relevância como monitor confiável da verdade, da democracia e dos cidadãos. Essa tem sido uma pauta permanente do nosso Conselho Editorial, que orienta a linha editorial e busca o aperfeiçoamento do jornalismo no Grupo RBS. Um dos temas centrais que discutimos
periodicamente é o da relevância do jornalismo no mundo digital. Compartilho aqui três conteúdos que considero essenciais nesse desafio do jornalismo profissional contemporâneo.
O primeiro deles é o respeito aos fundamentos do jornalismo profissional — a busca da verdade, a lealdade aos cidadãos, a disciplina da checagem, a prática de ouvir todos os lados, a independência, a imparcialidade e a correção de erros. São princípios que valem para todos os nossos profissionais, independentemente das plataformas em que estiverem se comunicando.
O segundo ponto desta análise é a convivência do jornalismo profissional com as grandes empresas de tecnologia , as chamadas big techs, responsáveis pelas redes sociais e pelas novas plataformas de produção e distribuição de informações — e também por muita desinformação. Enquanto nossos legisladores não criarem uma legislação eficiente que regulamente e controle a atuação dessas organizações, sem suprimir a liberdade de expressão, o jornalismo honesto e responsável terá que continuar fazendo a curadoria para proteger a sociedade das mentiras, das manipulações e das mensagens de ódio. Jornalistas profissionais e empresas de comunicação têm o dever de assumir a responsabilidade do que publicam, até para que o cidadão tenha o direito de pedir retratação e reparação quando se sentir caluniado ou injuriado. No ambiente sem lei das redes sociais, ele fica desamparado.
E aqui chego ao terceiro aspecto desta reflexão. O jornalismo só conseguirá cumprir a sua missão nesse ambiente diversificado se encontrar a linguagem certa para se comunicar com o público de cada uma dessas plataformas.
A mesma informação pode ser verdadeira e crível no jornal impresso e no TikTok, se quisermos utilizar dois exemplos distanciados pela faixa etária de seus públicos, desde que seja comunicada na linguagem adequada.
A RBS está comprometida com essas metas para continuar oferecendo informação qualificada a seus públicos em todos os formatos.
A desinformação climática e o papel do jornalismo
Nos últimos dias, mais uma vez enfrentamos, no Rio Grande do Sul, catástrofes climáticas, que são cada vez mais recorrentes. Desta vez, chuva intensa e forte inundou o sul do Estado, causando sérios problemas e, em muitas cidades, pânico. E, novamente, como em maio deste ano, vimos a desinformação tomar conta das plataformas de redes sociais, gerando ainda mais caos.
A desinformação envolve um conjunto de conteúdos problemáticos que geram dúvidas e ações, muitas vezes erradas, e que são diretamente potencializados, legitimados e amplificados pelas plataformas de mídia social. São, por exemplo, postagens que as pessoas recebem em grupos de amigos no WhatsApp, ou mesmo em páginas do Instagram, já cheias de curtidas, compartilhamentos e outras estratégias que reforçam a impressão de veracidade.
A desinformação floresce e circula com mais rapidez no vácuo informativo em situações de crise, como as tragédias climáticas que vivemos. A preparação para
RAQUEL RECUERO Professora, pesquisadora e membro do Conselho Editorial da RBS
A desinformação envolve um conjunto de conteúdos problemáticos que geram
dúvidas e ações, muitas vezes erradas, e que são diretamente potencializados, legitimados e amplificados pelas plataformas de mídia social.
a ação e a resposta a esses eventos, portanto, precisam envolver estratégias de comunicação. Mais do que isso, é necessário desenvolver estratégias que vão além do uso das redes sociais para disseminar informações ou verificar desinformação. Conteúdos gravados para mídias sociais circulam em momentos diversos, nem sempre sendo exibidos a todos ou no tempo adequado. Uma notícia solicitando a evacuação de um local no Instagram, por exemplo, pode chegar às pessoas após o fato ocorrido ou quando a evacuação já não é mais necessária. É preciso ir além da checagem, que ajuda, mas não preenche o vácuo do qual a desinformação se alimenta.
Assim, é necessário trazer o jornalismo de volta como uma estratégia central, pois é o espaço de construção e, sobretudo, de verificação e apuração dos conteúdos essenciais para a comunidade. É preciso trazer a mídia tradicional, que independe dos algoritmos de visualização, das curtidas e dos compartilhamentos, e que é capaz de um alcance muito maior. É preciso construir um sistema de comunicação em muitas frentes de colaboração, capaz de preencher o vácuo informativo e permitir que nossas futuras ações sejam rápidas, conscientes e eficazes. Precisamos nos preparar.
10 24
O papel do jornalismo numa eleição
NILSON VARGAS
Gerente-executivo de Jornalismo de Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro, GZH e Rádio Gaúcha e membro do Conselho Editorial da RBS
Uma coincidência repleta de significado: no fim de semana anterior ao das eleições municipais no Brasil, mais de 800 empresas de comunicação pelo mundo — entre elas, o Grupo RBS — celebraram o Dia Mundial da Notícia, chamando a atenção para a importância do jornalismo profissional na garantia da democracia e da liberdade de expressão. De fato, tanto quanto um sistema eleitoral confiável e eleitores votando com liberdade, uma imprensa independente é engrenagem indispensável no motor da democracia.
Nos episódios eleitorais, o papel da imprensa cresce, mas ele é perene, como expressou a jornalista filipina Maria Ressa, Prêmio Nobel da Paz em 2021, em entrevista ao colega Rodrigo Lopes: “É o jornalismo, baseado em fatos e evidências, que tem o dever permanente de defender os valores sobre os quais nossa civilização foi construída. Em todo o mundo são os jornalistas que vivem a sua responsabilidade de honrar este vínculo sagrado com os nossos públicos e as nossas comunidades”.
Nestas horas que nos separam do início da votação, em 6 de outubro, vale refletir sobre como este “vínculo sagrado” deve ser exercido. E uma das premissas é essencial: em grandes momentos, como uma cobertura eleitoral, o jornalista ganha relevância pelo conteúdo que produz para as diversas plataformas, e não por algum holofote que queira atrair para si em nome de personalismo ou ambição de influenciar em resultados. Ele não é um lacrador e não deve engendrar suas pautas com o intento de seduzir algoritmos de audiência. Uma postura pirotécnica não lhe conferirá o respeito que torna longevas e vitoriosas carreiras como a da nossa colega Rosane de Oliveira, uma enciclopédia de conhecimento eleitoral e um pilar de bom senso e equilíbrio nas coberturas de eleições ao longo de décadas.
Há vários anos, na Redação de Zero Hora, um ritual se repete nas noites dos domingos de eleição. Votos apurados, resultados conhecidos, os editores imprimem em tamanho natural as páginas já finalizadas e as dispõem lado a lado no chão de um dos corredores entre as mesas. É o “tapete de páginas”, como foi batizada a cena. Momento de confirmar se todos os conteúdos importantes chegarão ao leitor e se há equilíbrio na cobertura. E de ir aos detalhes, como grafias de palavras, identificações em legendas de fotos e eliminação de palavras repetidas em títulos. Cada colega que participa deste ritual, de alguma forma, está conferindo se foi cumprida a missão tão bem descrita por Maria Ressa, de honrar o “sagrado vínculo” com públicos e comunidades. A resposta será positiva se o protagonismo estiver no conteúdo das páginas, e não no sobrenome de quem as produziu.
13 10 24
Jayme, 90 anos
Na condição privilegiada de sobrinho, sócio e amigo, eu já teria motivos suficientes para homenagear Jayme Sirotsky neste 13 de outubro, data em que o Presidente Emérito do Grupo RBS completa 90 anos de vida. Mas prefiro deixar em segundo plano o parentesco, a parceria empresarial e a amizade para destacar outra razão mais relevante para a homenagem que compartilho com os leitores deste espaço habitual de reflexões jornalísticas: Jayme é hoje, muito provavelmente, o brasileiro que mais contribuiu para as liberdades de imprensa e de expressão em nosso país, no continente sul-americano e em boa parte do mundo democrático.
Primeiro latino-americano a assumir a presidência da mais representativa entidade jornalística do planeta, a Associação Mundial de Jornais, Jayme Sirotsky alcançou em 1996, em Washington, o ponto mais alto de sua militância em entidades associativas comprometidas com a liberdade de imprensa e com a independência da indústria editorial.
NELSON P. SIROTSKY Publisher e presidente do Conselho da RBS
Primeiro latinoamericano a assumir a presidência da mais representativa entidade jornalística do planeta, a Associação
Mundial de Jornais.
Antes, ele já havia prestado inestimáveis serviços a entidades dedicadas à liberdade de informar e empreender. No Estado, participou de todas as associações ligadas ao jornalismo impresso, ao rádio, à televisão e à publicidade. Nacionalmente, apoiou e presidiu entidades como a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Também foi diretor da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e, nessa condição, esteve entre os cem especialistas reunidos no México, em 1994, para elaborar e aprovar a Declaração de Chapultepec, carta de princípios que oficializou as liberdades de expressão e de informação como direitos inalienáveis dos povos e das sociedades democráticas. Posteriormente, com envolvimento pessoal e habilidade diplomática,
conseguiu que sucessivos presidentes do nosso país reconhecessem e aderissem oficialmente às recomendações do documento.
Em paralelo, dedicou-se visceralmente à comunicação no Rio Grande do Sul e a nossa empresa em particular. A RBS deve muito do que é hoje a Jayme Sirotsky, que participou ativamente da construção do grupo desde o seu início, ao lado de seu irmão Maurício Sirotsky Sobrinho. Referência de conhecimento e ética, ele tem sido ao longo da história da empresa um dirigente seguro, um conselheiro sereno e uma inspiração para todos nós.
Do ponto de vista pessoal e familiar, sou muito grato ao tio que acompanhou meu pai no registro de meu nascimento e que sempre esteve ao meu lado em todas as horas, especialmente nos momentos difíceis. Entre as muitas virtudes de Jayme, gosto de destacar três que o tornam uma pessoa muito especial. A primeira é sua disposição para agir: está sempre pronto para tentar, para experimentar e para empreender. A segunda característica
A RBS deve muito do que é hoje a Jayme Sirotsky, que participou ativamente da construção do grupo desde o seu início, ao lado de seu irmão Maurício Sirotsky Sobrinho. 13 10 24
Jayme Sirotsky é reconhecido como um diplomata da comunicação e um militante incansável das liberdades e da democracia, mas eu o considero — acima de tudo — um ser humano extraordinário.
que admiro nele é a sua curiosidade. Quer saber de arte, de literatura, de tecnologia, de meio ambiente, de qualquer coisa que represente novidade. E um terceiro aspecto que destaco em sua personalidade é o humor. Mesmo nos momentos delicados, sempre encontra uma palavra suave, uma brincadeira, uma tirada qualquer que acrescente mais sabor à vida.
Jayme Sirotsky é reconhecido como um diplomata da comunicação e um militante incansável das liberdades e da democracia, mas eu o considero — acima de tudo — um ser humano extraordinário, que conjuga ética, elegância e bom humor, razões pelas quais chega aos 90 anos tão amado e respeitado por familiares, amigos e admiradores. E no mundo todo — de sua Passo Fundo natal aos recantos mais distantes do planeta, por onde continua transitando com sua sede de conhecimento e de aventura.
Por tudo isso, nesta data tão significativa, quero deixar aqui registrado que é uma honra para todos nós continuar contando com a presença, com o dinamismo, com o aconselhamento e com o bom humor deste jovem de 90 anos.
10 24
Jornalismo para reencontrar a História
TIAGO CIRQUEIRA
Gerente-executivo
de Esportes
e
membro
do Conselho Editorial da RBS
Após ser realizado pela primeira vez em território brasileiro, mas fora do nosso Estado, será neste sábado que o Gre-Nal voltará ao Rio Grande do Sul. Estamos falando de um reencontro. E sabemos os inúmeros sentimentos que envolvem este momento. A dificuldade de listálos é proporcional à complexidade de contá-los. Poder contribuir para a construção da história que será relatada ao longo dos anos por torcedores. Um produto que será consumido na RBS TV, na Gaúcha, em GZH, Zero Hora, Diário Gaúcho, ge.globo/rs e Atlântida. Um quebra-cabeça montado a partir dos desejos do público e do
papel de cada canal de distribuição. Um exemplo preciso que explica a responsabilidade do nosso Esporte em ser uma plataforma transversal e integradora de conteúdos destinados à cobertura jornalística esportiva e à geração de negócios para atender às necessidades de público e clientes.
Diante da responsabilidade do jornalismo profissional, surge a dúvida: na multifragmentação do mundo, quais as necessidades do público?
A possibilidade de permitir ao torcedor que não está no estádio uma percepção de onipresença ao inseri-lo no fato por meio do nosso produto?
Ou dar àquele que está no local do jogo uma perspectiva complementar para que tenha cada vez mais ideia do todo? O medo de perder algo só não supera o de ver o seu time ser derrotado. A multiplicidade de telas cresce.
A disputa pela atenção do torcedor poderia, então, ser narrada com a mesma emoção que o Pedro Ernesto colocará em cada jogada do Gre-Nal.
Em fim de semana de clássico, as big techs que me perdoem, mas são a emoção, a paixão e o coração que regem, como grandes maestros, o consumo do conteúdo. E, por isso, o Grupo RBS estará presente em todos os momentos e locais para responder à necessidade do torcedor: imergir em uma experiência capaz de fortalecer a relação com a comunidade, com o seu clube.
Voltamos, então, ao quebra-cabeça, porém, com a visão de um público que, frente à multiplicidade de conteúdos produzidos pelo Grupo RBS, terá o direito de montar a sua perspectiva do Gre-Nal 443. Afinal, existe o Clássico do Reencontro sem abordar a retomada do aeroporto Salgado Filho que acontece logo na segunda-feira? Há como tratar do jogo masculino sem se lembrar do Gre-Nal feminino que será no domingo? Existiria o valor da volta ao RS se não tratássemos do elemento identitário e regional do maior clássico do Brasil? As respostas, na verdade, estão no fazer jornalístico que permeia as marcas da RBS para nos aproximar e reconectar a um dos principais elementos da identidade gaúcha: o GreNal. Pode apitar, seu juiz.
10 24
A eleição, a TV e os gaúchos
A eleição é sempre um grande momento para o jornalismo. Neste fim de semana, enquanto acompanharmos os últimos resultados no Estado, concluiremos nossa cobertura com a sensação de dever cumprido. Foram meses de trabalho intenso, resultado de um planejamento que começou há mais de um ano.
Na RBS TV, tínhamos diversos desafios, especialmente por se tratar de uma eleição municipal, que afeta diretamente a vida de cada comunidade. Desde agosto, iniciamos um acompanhamento diário dos candidatos. Entre o primeiro e o segundo turno, foram 664 espaços dedicados às agendas eleitorais no Jornal do Almoço. Um serviço à população, com as propostas dos candidatos transmitidas ao mesmo tempo em cada uma das 12 emissoras da RBS TV no Estado.
Outro dado relevante é o tempo destinado às inserções partidárias na programação. Entre o primeiro e o segundo turno, das 5h da manhã à meia-noite, contabilizamos 575 horas de conteúdo no ar, incluindo 78 horas de programas eleitorais gratuitos nas 12 emissoras.
ELLEN APPEL
Gerente-executiva de Jornalismo da RBS TV e membro do Conselho Editorial da RBS
O trabalho de televisão é um trabalho em equipe.
Para Porto Alegre, realizamos cinco rodadas de pesquisa eleitoral. Embora esse não seja o principal foco de nosso trabalho, a divulgação dos dados sempre gera uma agitação extra na redação. A equipe monta um processo rigoroso de checagem de dados para garantir a veiculação correta das informações.
No primeiro turno, nossa cobertura contou com equipes em 21 cidades. Agora, no segundo turno, trazemos ao público os detalhes da decisão em Porto Alegre, Canoas, Pelotas, Caxias do Sul e Santa Maria.
E o ponto alto da cobertura são os debates. Neste ano, montamos uma verdadeira operação de guerra, com cerca de 300 profissionais envolvidos. Foram realizados 12 debates no primeiro turno e quatro no segundo. Como ocorreram simultaneamente, além das operações locais em cada emissora, foi montada uma grande estrutura de apoio em Porto Alegre. Nos bastidores, funcionava uma sala do “VAR”, semelhante à usada no futebol, para revisar imagens e falas dos candidatos, garantindo o rigor na análise dos pedidos de direito de resposta.
O trabalho de televisão é, essencialmente, um trabalho em equipe. Jornalismo, operações, engenharia, técnica, exibição, programação e outras áreas de suporte atuando de forma integrada. Sabíamos da responsabilidade de entregar o melhor serviço às comunidades locais e, com orgulho, reforçamos a conexão da RBS TV com todos os gaúchos.
11 24
Jornalismo, eleições e abstenções
RODRIGO MÜZELL
Gerente-executivo de Jornalismo Digital e membro do Conselho Editorial da RBS
No domingo passado, o segundo turno das eleições em Porto Alegre terminou com a capital gaúcha repetindo o primeiro: foi a campeã de abstenções entre as capitais brasileiras, com 34,83% dos eleitores deixando de votar.
O fenômeno não é coisa de gaúcho: Brasil afora, as abstenções cresceram. Causa-me desconforto ver tanta gente abrindo mão de opinar sobre os rumos da sua cidade — afinal, na eleição municipal escolhemos quem decide sobre as nossas ruas, praças, postos de saúde, creches. Mas é claro que o eleitor ausente teve suas razões. Entre vários motivos apontados por estudiosos, se repete a percepção de cansaço e
desconexão com a política. Por que se envolver? Em que meu voto influi?
Quando o eleitor não acredita no seu papel, a democracia está em risco. E quem faz jornalismo tem de ajudar nesse problema — até porque o jornalismo é um dos fiadores da democracia. Nossa responsabilidade é garantir que o público tenha informação suficiente para opinar, e voz para chegar à classe política.
E como podemos ajudar?
1. Explicando o que os candidatos propõem e como isso se aplica na realidade. As promessas são factíveis? O candidato já as cumpriu em outro momento?
As ideias avançam sobre o que já foi feito? Conferir, questionar, traduzir o “politiquês” é essencial.
2. Mostrando como a política é feita na vida real. Nos palácios, nos parlamentos, nos gabinetes, nas bases dos partidos. Qual é a diferença ideológica entre partidos e pessoas? Quais acordos são feitos? A que interesses atendem?
Na cobertura eleitoral da RBS, buscamos atuar nessas duas dimensões. Com peso muito maior na primeira: em entrevistas na Gaúcha, na RBS TV e em Zero Hora, os candidatos tiveram a chance de explicar o que pretendiam em detalhes. Nas reportagens, o eleitor pôde avaliar as propostas e, em um quiz no digital, compará-las com suas próprias ideias. A segunda forma com que o jornalismo pode contribuir é acompanhar e analisar atos oficiais, mas também os bastidores da política. Por exemplo, fizemos isso em dois podcasts: o Zona Eleitoral trouxe a análise dos movimentos da semana com Rosane de Oliveira, Andressa Xavier, Dione Kuhn e Kelly Matos. E o Conversa de Gabinete, dos repórteres Fábio Schaffner e Paulo Egídio, revelava as estratégias de campanha que não apareciam nas entrevistas de candidatos.
Seja municiando o público para a corrida eleitoral de 2026, seja para avaliar os eleitos em 2024, nossa tarefa é essencial para ajudar quem decide votar a escolher seus representantes. E, quem sabe, contribuir para que o percentual de eleitores que confiam o suficiente na democracia para se manifestar aumente.
Ponto de vista
Às 7h35min (horário do Brasil) da manhã de quarta-feira, a comunicadora Andressa Xavier, de Nova York, Estados Unidos, pediu passagem na Rádio Gaúcha durante o programa de Antonio Carlos Macedo e declarou:
“A vitória de Donald Trump foi definida matematicamente, ele passou do número mágico, faz agora 277 votos. Trump está eleito”.
Na quinta-feira, o colunista Rodrigo Lopes embarcou para Baku, capital do Azerbaijão, para a cobertura da 29ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP29), que começa na segunda-feira e vai até 24 de novembro. O evento será uma espécie de prévia da COP da Amazônia, em Belém, e vai debater financiamento climático, transição energética, adaptação e resiliência diante dos fenômenos extremos em decorrência do aquecimento global.
Em outubro, o mesmo Rodrigo esteve em Israel durante quase duas semanas relatando o ambiente no Oriente Médio um ano depois dos atentados do grupo terrorista Hamas e o
MARTA GLEICH Diretora-executiva
de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS 10 11 24
A resposta é uma só: trazer o ângulo gaúcho sobre grandes momentos do planeta, e fazer isso com vozes conhecidas do dia a dia do nosso público.
novo front da guerra contra o Hezbollah, na fronteira com o Líbano. Desde 1996 no Grupo RBS, o comunicador já realizou mais de 30 coberturas internacionais, entre terremotos, furacão, atentados terroristas, golpes de Estado e seis guerras.
Dentro de alguns dias, a colunista Giane Guerra embarca para o Japão e a China, para acompanhar por duas semanas a comitiva de políticos e empresários liderada pelo governador Eduardo Leite que visa mostrar ao Oriente o que o Estado tem de bom, para atrair investimentos.
Logo após a enchente que assolou o Rio Grande do Sul em maio, uma delegação de seis profissionais da RBS liderada pelo gerente-executivo de Esportes, Tiago Cirqueira, foi para a França, cobrir as Olimpíadas de 2024.
Por que um grupo de comunicação regional, como a RBS, que cobre prioritariamente as coisas do nosso Rio Grande, se mete em tantas coberturas internacionais? Para que cruzar o mundo, ainda mais hoje em dia, com as facilidades da tecnologia e a overdose de informação que recebemos?
A resposta é uma só: trazer o ângulo gaúcho sobre grandes momentos do planeta, e fazer isso com vozes conhecidas do dia a dia do nosso público.
Faz muita diferença você ouvir um relato das notícias dado por alguém que tem a mesma cultura, os mesmos costumes que você, ou ouvir de alguém de quem você nunca ouviu falar, ou que nem sabe como é o público gaúcho. E isso não é bairrismo, não. É o olhar. É o ponto de vista.
17 11 24
Verdades desconfortáveis
JOSÉ GALLÓ
Empresário e membro do Conselho Editorial da RBS
A verdade é um valor essencial no jornalismo, mas as pessoas, muitas vezes, estão mais inclinadas a acreditar em notícias falsas. Uma falsa informação tem 70% mais chance de ser aceita e compartilhada nas mídias sociais e, na maioria das vezes, se mostra mais interessante do que uma notícia verdadeira.
Muitas vezes a sabedoria das multidões não confia nos especialistas, pensa que as pessoas comuns sabem mais.
Como dizia Mark Twain, uma inverdade dá uma volta ao mundo no mesmo tempo que a verdade calça seus sapatos.
A força das mídias sociais nos mantém na incerteza e na carência permanente, não nos conforta. Hoje a vulgaridade, os insultos e a raiva não são mais tabus.
As principais mensagens falsas chegaram a ser disseminadas com profundidade oito vezes maior do que as verdadeiras, em parte porque o nosso cérebro foi moldado para ser mais favorável às ameaças, às coisas negativas.
A desinformação é mais atrativa para compartilhamento em redes e rodas sociais.
O jornalismo profissional tem a responsabilidade de buscar a verdade em meio a esse cenário complexo, e é esse o diferencial que os veículos sérios oferecem. Não é fácil desvendar a verdade, que não se limita a posições sociais, políticas, nem a ideologias. A verdade é, muitas vezes, multifacetada, exigindo investigação profunda, apuração precisa e uma escuta ativa de todas as vozes.
Nos últimos anos, no Brasil, vimos como as interpretações enviesadas podem interferir na percepção sobre a mídia. Quando o governo é de esquerda, quem apoia essa linha tende a acusar a imprensa de ser de direita, e o inverso ocorre com governos de direita. Esse ciclo alimenta o rótulo de “ fake news” para qualquer informação que desafie as crenças pessoais. Porém, a verdade jornalística não deve se guiar pelo que cada grupo quer ouvir.
Veículos de imprensa sérios mantêm um compromisso com a isenção. Em uma sociedade polarizada, isso significa um esforço contínuo para ouvir todos os lados e evitar influências externas. No entanto, muitas pessoas ainda interpretam a realidade conforme suas convicções, e essa é uma das maiores dificuldades enfrentadas pela imprensa atual.
A verdade é rara e, muitas vezes, desconfortável. Ao longo do tempo, o jornalismo profissional foi se aperfeiçoando em apurar dados e verificar informações para oferecer ao público uma visão mais completa e confiável. Esse processo é essencial para que a sociedade possa tomar decisões informadas, compreendendo que nem sempre o que gostamos de ouvir corresponde aos fatos. A busca pela verdade deve ser um valor coletivo, e o jornalismo de qualidade é uma das suas maiores garantias.
O jornalismo sob os algoritmos
O jornalismo é fundamental para o funcionamento das democracias liberais, na medida em que atua como mediador entre os cidadãos e o Estado. É por isso que autores como Habermas e Dahl, por exemplo, veem o jornalismo em seu papel na esfera pública como capaz de auxiliar na circulação e organizar as informações necessárias para o exercício da cidadania. Para participarem, as pessoas precisam estar informadas sobre o que acontece no seu espaço, na sua região e no seu país. No entanto, nem sempre o conteúdo jornalístico é aquele que queremos saber, mas necessariamente aquele que precisamos saber.
As plataformas de mídia social, no entanto, trouxeram um novo modelo de produção e circulação de informações, diferente da mídia de massa. Agora, ao invés de apenas receber o conteúdo, as pessoas são agentes na escolha e no treinamento de ferramentas, denominadas algoritmos, que vão hierarquizar o conteúdo que verão dali por diante. E essa mudança é muito relevante na medida em que o conteúdo que os algoritmos entendem que mais interessa
RAQUEL RECUERO Professora, pesquisadora e membro do Conselho Editorial da RBS
Conteúdos que, muitas vezes, geram emoção, mas não informação. Conteúdos que polarizam e não dialogam. E que geram bolhas informativas.
às pessoas não é, obrigatoriamente, aquele de que elas precisam ter conhecimento para participar de seus espaços como cidadãs. Essas ferramentas, assim, passam a privilegiar, para um grande número de pessoas, por exemplo, entretenimento em vez de conteúdo jornalístico. Conteúdos que, muitas vezes, geram emoção, mas não informação. Conteúdos que polarizam e não dialogam. E que geram bolhas informativas.
O problema com este modelo é que ele acaba não apenas retirando a visibilidade dos conteúdos jornalísticos nessas plataformas, mas, igualmente, desidratando um pilar da participação cidadã. Em muitos casos, isso leva à radicalização das pessoas e à desconfiança em relação ao próprio Estado. Em outros, o cidadão simplesmente opta por consumir conteúdos que são mais agradáveis ou convenientes, ignorando os que são realmente necessários. Com menos atenção, o jornalismo tenta se reinventar, muitas vezes também privilegiando o entretenimento e o sensacionalismo ao invés das notícias. E o resultado disso é que temos menos informação de qualidade, mais apatia e menor participação. Afinal de contas, temos cada vez menos cidadãos. E, cada vez mais, menos jornalismo. Assim, não será surpresa se, no futuro, tivermos também menos democracia.
O calhamaço
PEDRO DORIA
Jornalista, cofundador do Canal
Meio e membro do Conselho
Editorial da RBS 1o 12 24
O relatório final da Polícia Federal, quase 900 páginas sobre o planejamento e o início da execução de um golpe de Estado em 2022, é arroz com farofa. Leitura difícil. Não é escrito como reportagem, como texto jornalístico, daqueles em que o fundamental aparece logo de cara e tudo é explicado nos pormenores. Tampouco é como thriller, em que o mistério vai se desvendando lentamente, no ritmo da ação, a cada virada de página.
Nada disso: é um documento chato, todo em legalês, repetitivo, com depoimentos escritos no jargão dos boletins de ocorrência policial, provas ajuntadas, fragmentos de conversas por WhatsApp, documentos
Informação, quando
as
pessoas se abrem
para a informação, tem o poder de construir uma realidade comum.
anexados, áudios transcritos. Há alguma ordem, alguma estrutura, mas nada é realmente feito para facilitar ao leitor comum. Juízes estão acostumados com maçarocas assim. Nós, não.
E, ainda assim, o inquérito é fascinante. Nós, a geração de jornalistas treinados nos anos 1980, 90 e adiante, nunca achamos que teríamos de cobrir uma tentativa de golpe militar. Parecia coisa que havia ficado na história. E, no entanto, cá estamos. Achamos ainda menos que viveríamos num país tão agressivamente dividido como o de hoje. Estamos há quase 10 anos nesta divisão que racha famílias, separa amigos de anos, torna conversas quase impossíveis. Porém, aqui estamos.
Isto quer dizer que temos trabalho. Talvez o trabalho mais importante de nossas carreiras: é o trabalho de contar essa história. Contar com detalhes, mostrar as provas que há, contar sem paixão e com precisão. Contar, mostrar, deixar claro. Num ambiente de desinformação, temos coletivamente que fazer nosso trabalho muito bem-feito. É nossa a missão de apresentar ao Brasil o que a Polícia Federal descobriu. Fazer isso sem exageros, sem paixões partidárias. Tornar evidente.
Nunca contar uma história direito foi tão importante. Informação, quando as pessoas se abrem para a informação, tem o poder de construir uma realidade comum. Quando compartilhamos uma mesma realidade, conseguimos novamente dar estrutura à comunidade. Conseguimos nos reconectar.
Mas como fazer com que mais e mais gente se abra à informação? Contando bem uma história. É nosso trabalho. E é hora de ele começar.
12 24
Sociedade constrangida
Assisti a Ainda Estou Aqui, filme baseado no livro do escritor Marcelo Rubens Paiva, que narra o impacto causado na sua família pelo desaparecimento de seu pai, o deputado Rubens Paiva, durante o regime militar, e a busca de sua mãe, Eunice, pela verdade sobre o destino do marido. Vale muito assistir. Pelo retrato histórico de uma época importante do Brasil, pelas atuações espetaculares das Fernandas, a Montenegro e a Torres, e das crianças do elenco. Principalmente, pela opção de valorizar a inteligência e a autonomia de pensamento do público.
Todos os alertas necessários são feitos de maneira sutil e elegante. Não é uma mensagem raivosa, posicionada ou ativista que, como ocorre frequentemente, acaba por afastar uma parte do público. Os diálogos entre os personagens são econômicos, e vamos percebendo e sentindo o que é preciso perceber e sentir sem que alguém tente nos convencer.
Assim que saí da sala de exibição, enquanto eu aguardava no saguão, uma mulher se aproximou de mim, queria
ANIK SUZUKI CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS
Estamos vivendo um tempo em que se tornou chato, simplista e, em algumas situações, até perigoso ser identificado como de esquerda ou de direita.
conversar. Comentou que chorou muito, que o filme traz um conteúdo necessário, especialmente para as novas gerações e ainda mais no momento que vivemos. Por várias vezes, ela intercalava suas impressões sobre o filme com a ressalva de que não era de esquerda. E isso me chamou muito a atenção. Por que ter gostado e considerado o filme relevante poderia levar à conclusão sobre ela ser de esquerda ou direita? Por que isso seria importante naquele momento? E por que a necessidade de dar uma justificativa desse tipo para uma desconhecida?
Não acho que seja um caso isolado. Estamos vivendo um tempo em que se tornou chato, simplista e, em algumas situações, até perigoso ser identificado como de esquerda ou de direita. Hoje, são rótulos que não dão conta da complexidade do pensamento e das ideias, criados para inibir a participação mais ativa da sociedade e utilizados, na maioria das vezes, com cunho pejorativo ou preconceituoso. Perdemos todos.
Pois esta armadilha também deve ser evitada pelo jornalismo e o seu compromisso com o interesse público e coletivo. Dar luzes a essas narrativas apenas reforçará a polarização existente, que já se provou improdutiva. Para a maioria que acredita e confia no jornalismo profissional, como eu, o que se espera é pluralidade e profundidade, para que possamos formar nossa própria opinião e não ter medo de expressá-la.
A TV 3.0 vem aí
ELLEN APPEL
Gerente-executiva
de
Jornalismo da RBS TV e membro do Conselho Editorial da RBS 15 12 24
A TV aberta, que continua sendo uma das principais fontes de informação e entretenimento dos brasileiros, está prestes a atravessar uma transformação ainda mais significativa do que a transição para o sinal digital. Com a chegada da TV 3.0, um novo capítulo da radiodifusão se abre, colocando a interatividade e a personalização no centro da experiência do telespectador.
Ao contrário do modelo atual, em que todos recebem o mesmo conteúdo, a TV 3.0 trará a oportunidade de produzir experiências únicas para cada pessoa. Por meio da integração
de tecnologias digitais e da internet, será possível ter acesso a conteúdos personalizados, como o trânsito no bairro ou até a previsão do tempo local diretamente na tela. E novas possibilidades de experiências também na relação do público com as marcas.
A interatividade, antes tímida, ganha corpo: votações em tempo real, enquetes, compras e partidas de futebol com ângulos de câmera que o público vai escolher estão entre as novidades que prometem transformar o modo de assistir à TV. A grande inovação da TV 3.0 não é apenas tecnológica, mas também cultural. Ela reposiciona a TV aberta no ecossistema digital, mas se mantém gratuita. E isso com mais qualidade de som e imagem.
É fato que a TV aberta enfrenta desafios: concorrência com plataformas de streaming, mudanças no hábito de consumo, audiência fragmentada e processos de produção de conteúdo que precisam ser revisados. A TV 3.0 surge como uma oportunidade de ressignificar a forma de fazer TV, integrando fluxos digitais e redes sociais em tempo real, aprimorando a linguagem televisiva e, sobretudo, explorando o potencial da interatividade.
A implementação desta nova tecnologia deve começar em 2025, com testes que antecedem sua chegada definitiva em 2026, como previsto até agora. Apesar de ainda dependermos de regulamentações que definirão os padrões desse novo sistema, uma coisa é certa: a TV 3.0 é uma grande chance de transformar a televisão em um ambiente ainda mais conectado e relevante, sem abrir mão da sua essência, e com um potencial de alcance ainda maior. A TV 3.0 não é apenas uma atualização tecnológica; representa uma ressignificação da TV aberta como um espaço interativo, gratuito e essencial na vida das pessoas.
Em breve, a TV 3.0 será uma realidade. Que saibamos aproveitar todas as possibilidades que teremos pela frente, oferecendo ao nosso público um conteúdo e uma experiência ainda melhores.
Jornalismo para reexistir
Antes que 2024 feche as suas portas, é preciso saber que a História não nos deixará esquecê-lo. Por alguns anos, naturalmente, voltaremos ao maio no qual sobrevivemos. E, para sempre, até que alguma inteligência artificial do futuro perca o registro, esse será o principal acontecimento de um Estado localizado no extremo sul do Brasil. Contudo, quais serão as memórias perpetuadas a partir do fato?
Aquelas geradas pelas notícias produzidas em tempo real e distribuídas por veículos jornalísticos. Ao mesmo tempo que traziam a realidade tomando conta das nossas cidades, inseriam as pessoas dentro do fato e ampliavam a visão delas em relação ao que estávamos vivendo. Teremos os registros que se espalharam pelas redes de quem estava apurando e verificando o grande volume de informações que recebíamos. Além de ocupar todas as plataformas disponíveis, em maio de 2024, fazer jornalismo profissional exigiu ainda mais cuidado para respeitar e acolher um momento em que as perdas eram irreparáveis. Atestar a veracidade e prestar serviço eram formas de evitar que se tornassem ainda maiores ou se ampliassem por mais tempo.
TIAGO CIRQUEIRA Gerente-executivo de Esportes e membro do Conselho Editorial da RBS
Em terras gaúchas, o “ganhar” vem depois de “pertencer” no dicionário.
Haverá a lembrança, o retrato das histórias distribuídas por jornalistas profissionais gaúchos. Dar a dimensão do que se vivia entre o Chuí e o Mampituba foi fundamental para que as doações ultrapassassem divisas. Nesse caso, o jornalismo contribuiu para que a coletividade fosse a tônica quando parecíamos estar distantes. Contar histórias é uma forma de aproximar as pessoas, se colocar ao lado e facilitar que a identidade seja reforçada. Dar foco ao regionalismo e à cultura local foi função básica para um povo que precisava resistir e reexistir. Cativar a atenção e gerar aderência por meio de exemplos reais. E as histórias reportadas atingiram esse resultado a partir do momento em que nos faziam reconhecer, pertencer e, então, vencer a batalha.
Em terras gaúchas, o “ganhar” vem depois de “pertencer” no dicionário. A peleia é da vida e a definição da identidade no RS se dá a cada movimento que torna as pessoas ainda mais parte da comunidade. Por isso, o valor de uma produção jornalística que está ao lado de quem a consome. E precisamos dizer, ainda mais depois de todas as memórias criadas em 2024: só se vence junto.
De forma colaborativa e contribuindo para que a sociedade cresça. Mantenha-se para cima. E, assim, construa próximas experiências que já estão ali, depois da curva, em 2025.
Essas também serão contadas aqui. De perto. Sem esquecer o que vivemos e realizamos. E com a coragem de, junto com os gaúchos, sermos os protagonistas das nossas novas memórias.
29 12 24
Jornalismo em transformação
NELSON P. SIROTSKY Publisher e presidente do Conselho da RBS
Uma empresa de comunicação como a RBS tem como propósito acompanhar de perto, através do jornalismo profissional, as vertiginosas transformações de um mundo em constante ebulição. Porém, neste ano que está terminando, foram tantas as mudanças políticas, climáticas e comportamentais que, nesta curta reflexão, fica até difícil alinhar tudo o que fizemos.
Começo pelo nosso Rio Grande, atingido por uma tragédia climática sem precedentes. Ao lado da impressionante mobilização de voluntários, os veículos da RBS protagonizaram um verdadeiro mutirão de jornalismo, tanto na cobertura dos fatos quanto na prestação de serviços à população gaúcha. Nossa
O jornalismo profissional de qualidade continua sendo decisivo para o exercício da cidadania.
parceria com a Globo proporcionou ampla visibilidade nacional e internacional para o drama do Estado e despertou imensa solidariedade para com as vítimas da inundação. Dessa mobilização, resultou também o Painel da Reconstrução — ferramenta para contínuo acompanhamento e cobrança das autoridades sobre o uso dos recursos necessários à recuperação criativa e eficaz do nosso Estado. Da mesma forma, nossa campanha Pra Cima Rio Grande expressa nossa crença de que estamos avançando nesta direção.
Nas eleições municipais, procuramos fazer uma cobertura útil, isenta e transparente do pleito, que, felizmente, transcorreu em clima de civilidade na maioria das cidades gaúchas. Promovemos debates e entrevistas na Capital e no interior do Estado, levando aos cidadãos e eleitores subsídios importantes para a escolha livre de seus representantes. Acredito que nossa cobertura contribuiu para o bom ambiente da disputa política no RS.
Sem negligenciar as questões locais, o Grupo RBS também marcou presença em grandes eventos internacionais, da COP29 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), no Azerbaijão, e dos Jogos Olímpicos de Paris às eleições norte-americanas, passando pelos conflitos bélicos e pelas viagens de nossas autoridades ao Exterior. Procuramos levar o olhar e a voz dos gaúchos para onde era importante o Rio Grande estar presente. Neste ano agitado e complexo, celebramos os 60 anos de Zero Hora e promovemos a atualização digital de nossos veículos e produtos em todas as plataformas. Vamos para 2025 com a convicção de que o jornalismo profissional de qualidade continua sendo decisivo para o exercício da cidadania e para o aperfeiçoamento da democracia. Feliz ano novo a todos!
Novas habilidades para o jornalismo
O público é a razão de ser do jornalismo. E atender às necessidades do público é a nossa tarefa fundamental. Cumprir com excelência essa missão exige várias habilidades, várias delas bem conhecidas: ser movido pela curiosidade, cultivar fontes para ter informações exclusivas, escrever e se comunicar com clareza, estar sempre onde a notícia está.
Com a consolidação do digital, novas capacidades passam a ser necessárias para oferecer informação de qualidade. Uma delas é a versatilidade. As notícias cada vez mais são entregues em formatos múltiplos: texto escrito, vídeo, áudio, gráficos e até games. O público hoje escolhe, na palma da mão, o formato mais conveniente para saber dos fatos.
E como saber o que é melhor entregar, e qual a forma mais conveniente? Aí entra outra exigência mais recente para os jornalistas: sermos capazes de trabalhar com dados cada vez mais detalhados sobre a audiência. Bem mais do que
RODRIGO MÜZELL Gerente-executivo de Jornalismo Digital e membro do Conselho Editorial da RBS
Quantas vezes não fomos surpreendidos por uma notícia de um assunto que nunca nos interessou, mas que fez diferença para tomar alguma decisão?
apenas as matérias mais acessadas, as redações hoje podem acompanhar até que ponto os textos foram lidos, se os vídeos foram assistidos, que assuntos interessam mais a qual perfil do público, em quais horários e canais de distribuição (capas do site, aplicativo, redes sociais, por exemplo).
Tomar decisões baseadas nesses dados exige conhecimento, treinamento e um olhar jornalístico aguçado. Afinal, nem sempre o que está sendo mais buscado é o mais importante. Quantas vezes não fomos surpreendidos por uma notícia de um assunto que nunca nos interessou, mas que fez diferença para tomar alguma decisão? Não sabíamos que precisávamos daquela notícia selecionada pela redação. O jornalista deve ser capaz justamente de aliar o olhar editorial ao interesse manifestado pelo público.
Nossa geração de jornalistas tem como missão incorporar essas novas habilidades — versatilidade na entrega da informação e uma percepção cada vez mais rica do que o público precisa — ao conjunto tradicional de técnicas. Para continuarmos sempre a prestar o melhor serviço ao público. A nossa razão de ser.
O jornalismo diante do caos da desinformação
MARTA GLEICH
Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS
Nesta semana, a decisão de Mark Zuckerberg de suspender a checagem de fatos na Meta (dona de Facebook, WhatsApp, Instagram) ligou um alerta. Não se trata de uma mera mudança nas redes sociais: é um passo a mais na desvalorização da verdade e um incentivo à desinformação. O movimento aumenta nossa responsabilidade como jornalistas na defesa da população diante do caos informacional a que todos estamos expostos.
Checar fatos não é uma opção em redações. É um dos alicerces do jornalismo, aprendido no primeiro dia de aula nas faculdades de
Comunicação — e, em última instância, um dos pilares da democracia. Sem democracia, narrativas falsas ganham ares de verdade e a audiência se torna ainda mais exposta a um oceano de conteúdos produzidos com segundas intenções. Em tempos de radicalização e polarização, a desinformação não é neutra.
Está a serviço de manipular opiniões, influenciar eleições, fragilizar instituições e potencializar crises, seja em pandemias, enchentes ou outras calamidades.
O abandono da checagem de fatos é, portanto, um convite à escalada da desinformação e da manipulação. No algoritmo misterioso das redes, o que importa é cada vez mais engajamento do usuário. E, como já referido neste espaço, nada cola mais do que fake news sensacionalistas. Se já vivemos, nos últimos anos, as consequências desastrosas da desinformação, qual será o custo para as comunidades de torná-la ainda mais indetectável?
Nesse contexto, o jornalismo profissional, realizado com método, ganha uma relevância sem precedentes. Enquanto redes sociais priorizam cliques (e somos todos vítimas disso, diariamente), os veículos de comunicação sérios se mantêm fiéis ao método: ouvir todos os lados, contextualizar os fatos, apurar com rigor e responsabilidade. Mais do que informar, cabe ao jornalismo defender sempre a verdade, construir confiança com seu público e se firmar como a alternativa segura diante do abismo da informação de má qualidade.
O fim da checagem na Meta, por enquanto válido apenas para os Estados Unidos, reforça a necessidade de se valorizar a imprensa como aliada da sociedade e guardiã da verdade. Neste mundo cada vez mais sem filtros, o jornalismo segue sendo o que garante a curadoria entre o que é e o que só parece ser.
A capacidade de resistir e de se reinventar
O ano de 2025 começa com o Rio Grande do Sul marcado por cicatrizes profundas. A tragédia das enchentes de 2024 abalou famílias, cidades e a identidade coletiva de um povo que há séculos enfrenta desafios com coragem. Visitantes de fora do Estado chegam aqui e se impressionam com as poucas marcas visíveis da inundação — e elogiam a capacidade dos gaúchos de dar a volta por cima. A devastação foi imensa, mas como dizia Winston Churchill em plena Segunda Guerra Mundial: “We shall never surrender” (nunca nos renderemos). Não nos rendemos, e agora nos perguntamos: como reconstruir melhor, como virar a página, como fazer deste novo ano um marco de esperança e ação?
Na Inglaterra devastada pela guerra, Churchill sabia que a resiliência dependia não apenas de resistência, mas de ambição.
Ele inspirou um país inteiro a lutar pelo que ainda não existia: uma nação reconstruída sobre alicerces mais sólidos. O mesmo desafio se apresenta agora ao Rio Grande
CLAUDIO TOIGO FILHO CEO do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS
do Sul. Temos que ir além da reconstrução básica. Como no pós-Katrina em Nova Orleans, o objetivo deve ser o build better, uma reconstrução que não só repara, mas transforma.
No entanto, para que isso aconteça, precisamos enfrentar as realidades de uma cultura instalada no sistema público caracterizada pela burocracia, pela lentidão na execução dos projetos e pela responsabilidade difusa, que não ajuda nem governantes, nem governados. A população tem dificuldade de enxergar um projeto que interligue todas as frentes necessárias. Há recursos disponíveis, mas faltam qualidade nos projetos, velocidade e gestão eficiente. Esse é o grande gargalo, e o papel do jornalismo, em nome do público, é mostrá-lo.
Os veículos da RBS, como Rádio Gaúcha, Zero Hora, GZH e RBS TV, têm sido uma ponte entre a população, as autoridades e as soluções.
Nossa missão é clara: cobrar que a reconstrução e a reinvenção do Estado saiam do papel. Não podemos permitir que a tragédia de 2024 vire apenas mais uma história esquecida. Mas também temos que celebrar o que já foi feito, mobilizando a sociedade para avançar. É preciso inspirar e realizar.
Aprendemos muito com as enchentes: sobre a força da solidariedade, mas também sobre nossa vulnerabilidade. Como sociedade, aprendemos pouco em termos práticos. Por isso, em 2025, o desafio é duplo: manter a sociedade resiliente e exigir resultados. Não podemos nos render ao cansaço ou ao pessimismo que pairam no ar a cada chuva. Precisamos de coragem, de otimismo, de ação.
A força de um povo está em sua capacidade de resistir e, mais importante, de se reinventar. Quem vê de fora se impressiona com a valentia do gaúcho, que tem sua identidade forjada na luta. É ela que nos une e que, em 2025, precisa se transformar em movimento. Vamos virar a página, mas não esquecer do que nos trouxe até aqui. Somos o Estado do futuro, e nossa reconstrução será a prova disso.
01 25
Nós, as plataformas e o ódio
RAQUEL RECUERO
Professora, pesquisadora e membro do Conselho Editorial da RBS
Um dos problemas mais sérios que precisam ser enfrentados na contemporaneidade é o papel das plataformas de mídia social na radicalização e na difusão do extremismo. Embora essas plataformas não sejam a origem do problema, é inegável que amplificam sua força, fornecendo infraestrutura e credibilidade para seu espalhamento.
Recentemente, por exemplo, viralizou o gesto do bilionário Elon Musk na posse do presidente americano Donald Trump, associado ao sieg heil, saudação nazista. Independentemente da intenção de
Musk com o tal gesto, a mensagem ressoou como uma autorização e foi intensamente compartilhada (e celebrada!) em grupos extremistas, que crescem cada vez mais online. Mensagens como essa, ao invés de ganharem repúdio e esquecimento, ganham tração e amplificam esses grupos, facilitadas por essas estruturas tecnológicas. Mas por quê?
É uma realidade complexa. Por um lado, vivemos uma crise social e de valores intensa. Por outro lado, essa crise é retroalimentada com falsas soluções, quando deveria ser debatida na esfera pública. No entanto, essa esfera agora é privatizada, dominada pelas plataformas digitais, que se tornam mediadoras perfeitas para o extremismo. Muitos pesquisadores, inclusive, têm identificado essa realidade como “polarização radical” ou “polarização destrutiva”, sugerindo que essa mediação dos discursos fornece o ambiente perfeito para o extremismo.
O caso é que as plataformas alimentam o ódio. Mas nós, enquanto usuários, somos também responsáveis pela circulação de conteúdos nesses espaços. Sem nossas ações, não há mídia social. Sem querer, será que também não compartilhamos o ódio? É fácil ser vítima dessas estruturas construídas para mobilizar pela emoção, e não pela razão. E a radicalização é a consequência direta dessas ações. Nós estamos sendo radicalizados todos os dias, como vítimas de uma estrutura que privilegia linchamentos virtuais, discussões inúteis e críticas incivilizadas. Sob a égide dessas plataformas, sentimo-nos seguros para dizer coisas que jamais diríamos.
Assim, a radicalização é um problema das plataformas, mas não só delas. É também um problema nosso, enquanto sociedade, e dos comportamentos e conteúdos que legitimamos todos os dias, na segurança do anonimato e alimentados pela emoção. É urgente refletir se é esta a sociedade que queremos construir.
Zuck e os fatos
Como fica o problema da desinformação com a mudança das regras na Meta? Na virada do ano, o fundador e CEO Mark Zuckerberg ocupou suas redes para dizer que o conteúdo político voltará a ser distribuído livremente no Facebook, no Instagram e no Threads. Até então, e já fazia um tempo, o algoritmo continha qualquer coisa que cheirasse a política.
A moderação vai pegar muito mais leve e os sistemas automáticos que procuram desinformação perderão seus dentes. Qual o efeito disto na sociedade e como mexe com nosso ofício aqui, o do jornalismo?
Ao menos por enquanto, as mudanças de regra da Meta não valem para todo o mundo. No que tange à moderação, estão contidas nos EUA. O discurso político, sim, ele está circulando muito mais. Só que, aqui no Brasil e fora daquele espaço governado por Donald Trump, as agências de checagem ainda atuam a toda. Isto inclui o financiamento, por parte da própria Meta, destes empreendimentos de imprensa cujo trabalho é bastante
PEDRO DORIA Jornalista, cofundador do Canal Meio e membro do Conselho Editorial da RBS
Uma democracia precisa de fatos e precisa do debate que nasce dos fatos.
simples: separar, naquilo que viraliza, o joio do trigo. O que pode ser confirmado em fontes oficiais e o que não tem rastro que permita confirmar sua veracidade.
Os fatos existem. De alguma forma, nos últimos anos, caímos num relativismo que nos põe em risco a todos. Podemos chegar a conclusões distintas sobre o que os fatos querem dizer. Mas eles seguem existindo. O índice de inflação é um só, calculado pela mesma instituição seguindo uma mesma fórmula. Pode ser bom para um governo, pode ser ruim. E, ainda assim, ele estará lá. O número de desabrigados pelas cheias também não muda. É contar quantas casas se perderam, quantos moravam ali e não têm mais onde ficar. Este é o fato. Vamos discutir, pois, quem é responsável pelas perdas.
Uma democracia precisa de fatos e precisa do debate que nasce dos fatos. Há espaço para direita e para esquerda apresentarem suas leituras. O que não tem espaço é para que direita ou esquerda escolham os fatos de que gostam, os que escondem e, pior, que ainda lancem invenções. Democracias dependem de que as pessoas compreendam os problemas que existem realmente e decidam sobre quem oferece a melhor solução.
Zuck chegou à conclusão de que fatos não são mais tão importantes em suas redes. É seu direito e nosso azar. O trabalho da gente, da imprensa, continua aqui porque alguém precisa fazê-lo. Os fatos, afinal, teimam em seguir existindo.
02 25
Autoproteção e autorresponsabilidade
ANIK SUZUKI
CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS
Circularam no Brasil todo, há cerca de duas semanas, as imagens de passageiros no metrô de São Paulo subindo em muretas e se equilibrando sobre corrimões para se salvarem em meio à enxurrada. Em entrevistas, a Defesa Civil de SP fez questão de ressaltar que este é um comportamento de autoproteção, comum em situações de caos, especialmente associadas a eventos climáticos extremos, e que, cada dia mais, teremos que estar prontos para isso.
Ninguém melhor do que quem viveu maio de 2024 no Rio Grande do Sul para saber disso. Ou, quem sabe, os 6 milhões de brasileiros que viveram cinco meses sob calor extremo no
Informação, análise e conhecimento, neste cenário de urgências, também devem ser parte da estratégia de autoproteção.
Brasil, também em 2024, segundo levantamento exclusivo do g1 divulgado há poucos dias, nesse ano marcado como o mais quente da história da Terra.
É neste contexto que vamos sediar a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, marcada para novembro em Belém, no Pará. Estão convidados a participar das discussões representantes de cerca de 200 países.
Empresas terão espaços para expor suas iniciativas, especialistas apresentarão seus estudos, e o Brasil contará com uma vitrine para mostrar seu potencial sob um holofote gigante.
Informação, análise e conhecimento, neste cenário de urgências, também devem ser parte da estratégia de autoproteção. É esperado do jornalismo profissional que esteja de fato preparado para esta cobertura. Que não se distraia com factoides, cortinas de fumaça e oportunismos e persiga o que realmente importa, com apuração, checagem e transparência em relação a todas as perspectivas que este tema exige. A busca por mocinhos e vilões é inócua e só serve ao debate ideológico. Já passou da hora de o tema avançar.
Mas não é só da imprensa a difícil missão de explicar o que está se passando no planeta e de proporcionar um debate produtivo. Nós, cidadãos, temos o dever de ampliar nosso repertório para sermos capazes de fazer uma leitura crítica e de nos posicionar com argumentos consistentes. Além disso, cada um deve agir naquilo que estiver ao seu alcance, especialmente no seu ambiente de trabalho, nas comunidades e nos fóruns dos quais faz parte. Isso se chama autorresponsabilidade. Ninguém mais pode fazer de conta que não está acontecendo nada.
O caso do bolo em documentário
O Rio Grande do Sul testemunhou nas últimas semanas um dos mais estarrecedores casos criminais de todos os tempos: a morte de três mulheres de uma mesma família às vésperas do Natal e a hospitalização de outras três pessoas. A causa, um bolo com veneno. Nessa semana, depois de todas as etapas inacreditáveis da história, mais uma surpreendeu os gaúchos. Como escreveu o colunista
Fabrício Carpinejar, não haverá indiciamento e julgamento da presa mais polêmica e controvertida do Estado, porque a suspeita, a contadora Deise Moura dos Anjos, foi encontrada morta em sua cela na quinta-feira.
Na sexta-feira, dia 21, após o BBB, a RBS TV lança um novo programa com foco em grandes reportagens e assuntos de interesse dos gaúchos. Intitulado RBS.DOC, o especial é inspirado em uma atração de grande repercussão na grade da emissora nos anos 1980, o RBS Documento. A estreia conta justamente o caso do bolo envenenado. A ideia é que este seja o primeiro episódio de uma série que abordará temas diversos até o fim do ano.
ELLEN APPEL Gerente-executiva de Jornalismo da RBS TV e membro do Conselho Editorial da RBS
A equipe da TV prepara um material exclusivo, que traz todos os detalhes desta tragédia que chamou a atenção do Rio Grande durante o verão de 2025. A proposta é contar a história sob diferentes aspectos — a investigação da polícia, como se chegou à substância que causou as mortes, o trabalho da perícia, inclusive sobre a morte de Deise, as incertezas em relação aos efeitos do arsênio no organismo dos sobreviventes —, além de revelar mais detalhes sobre as vítimas e a dinâmica dessa família. E esse é um ponto importante. Mais do que expor detalhes da história e mergulhar nos crimes, a preocupação central é humanizar o programa, contando a relação entre os integrantes da família dos Anjos.
Nos bastidores, o trabalho é intenso e envolve muitas áreas. Foram 30 dias desde a concepção do programa até a organização da cronologia dos fatos, além da realização de entrevistas que ajudarão a esclarecer o caso ao público gaúcho. Na sala reservada à produção do RBS.DOC, fotos nas paredes e bilhetes com os principais acontecimentos revelam o tom e o empenho da equipe, que está preparando recursos visuais no cenário para explicar todos os detalhes. Dezenas de profissionais se envolveram para a produção e a edição do documentário.
— Foram 32 horas de edição, a partir de mais de três horas de material inédito gravado, para contar aos gaúchos, na forma de um documento histórico, esse caso que representa mais do que um crime, é uma tragédia familiar — diz a responsável pelo roteiro e pela edição, Juliana Maciel.
Para construir o roteiro do programa, que também traçará um perfil de quem é capaz de cometer esse tipo de crime, o RBS.DOC relembrará outros casos de grande repercussão no Estado. Uma produção que reforça a relevância do jornalismo profissional e da TV aberta, com conteúdos aprofundados, de qualidade e de graça. Já há uma lista de temas selecionados para ganharem o mesmo espaço e repercussão ao longo de 2025. O próximo RBS.DOC deve abordar a enchente de maio de 2024: um ano da maior tragédia climática do Rio Grande do Sul.
Para aproximar o olhar
TIAGO CIRQUEIRA
Gerente-executivo de
Esportes e membro do Conselho Editorial da RBS
A visão que se tem dos fatos está diretamente ligada à distância com a qual se olha para eles e, como sabemos, a quem os vê. Um aviso: este não é um texto sobre oftalmologia. A menos que você julgue que, em algum lugar dos gramados, alguém possa estar precisando de óculos. Aqui, falo do Gauchão, o campeonato estadual que melhor define a sociedade na qual acontece. A projeção identitária de um povo que, de longe, pode ser visto como Gre-Nal, mas, de perto e com disposição para se observar, confirma a existência de um microlocalismo vivo e capaz de ir além do azul e do vermelho com diversas outras camadas de cores, sentimentos e realidades.
A dualidade de Grêmio e Inter representa de uma forma precisa o Rio Grande do Sul. Porém, no Grupo RBS, ainda mais ao longo do Gauchão, colocamos uma lupa na nossa comunidade para encontrar a essência de um povo que se forma a partir das arquibancadas e dos estádios. E nos deparamos com um campeonato que tem conceito, prioriza a relação comunitária e fortalece a identidade de quem o consome. Um conteúdo que gera pertencimento e dá oportunidade de criação de valor para todos os envolvidos.
Um Gauchão Total, formato que temos entregado desde 2020, quando a pandemia nos obrigou a aprender novos modelos. Nesse, o torcedor do Guarany de Bagé pode assistir aos seus jogos assim como o das duplas Gre-Nal, Ca-Ju e Bra-Pel. Neste fim de semana, por exemplo, teremos captação de imagens em Pelotas, Erechim, Bagé, Caxias do Sul e Porto Alegre. Histórias na RBS TV, na Gaúcha, no ge.globo/rs e em GZH, além das repercussões em Zero Hora e no Diário Gaúcho. Emoção e diversão que contribuem para que os gaúchos e as gaúchas tenham uma vida melhor, mais leve. Mais próxima.
Distribuir conteúdo sobre o Gauchão é uma redundância necessária para um Estado permeado por uma identidade apaixonada, resiliente e transformadora. Aproximar, por meio de uma cobertura jornalística, a perspectiva superficial que se pode ter de um campeonato estadual. Sempre norteados pela utilidade e pela eficiência daquele conteúdo no espaço em que será consumido.
Ainda faltam algumas semanas de todo o charme e raiz que o nosso estadual nos entrega. O convite, por meio de todos os caminhos que o Grupo RBS oferece, é para que você se aproxime, veja de perto, apure o olhar. E, então, aproveite para responder: até quando irão diminuir o Gauchão chamando-o de “ruralito”? Junte-se a nós. Ajude-nos a construir o maior campeonato da nossa terra. E, claro, não use os óculos errados.
02 03 25
Pluralismo de opiniões
A visão que o público tem sobre os nossos veículos e comunicadores é um elemento fundamental para o aperfeiçoamento do nosso trabalho. Por isso, sempre damos muita atenção aos comentários dos leitores dos nossos jornais e às participações dos ouvintes, telespectadores e usuários de nossas plataformas digitais. Não é incomum que observações pertinentes, mesmo as mais críticas, nos ajudem a corrigir rumos ou a acrescentar novos enfoques em nossas coberturas e análises. Exatamente em consideração a essa contribuição do público, promovemos constantes alterações no nosso quadro de colaboradores, sempre em busca de renovação e de maior qualidade.
Nesse contexto, reafirmamos: o Grupo RBS expressa suas posições unicamente no espaço editorial desta página, com a clara identificação. O comentário caracterizado como “Opinião da RBS” representa o posicionamento do grupo, orientado por sua direção e embasado no ideário construído ao longo de sua história. Já os textos assinados por comunicadores, colunistas e articulistas expressam a visão desses profissionais, independentemente de coincidirem ou não com a opinião da empresa. Nossos comunicadores têm
NELSON P. SIROTSKY Publisher e presidente do Conselho da RBS
O comentário caracterizado como ‘Opinião da RBS’ representa o posicionamento do grupo.
total autonomia para publicar suas visões sobre os fatos, evidentemente que com a devida responsabilidade, a observância da legislação vigente e o respeito aos princípios éticos/editoriais do Grupo RBS.
Não há como ignorar que alguns dos nossos principais colaboradores, pela qualidade de seu trabalho e pela credibilidade conquistada, muitas vezes têm seus conteúdos confundidos com as posições da empresa. Para ilustrar essa situação, lembro dois companheiros que já não estão entre nós: Paulo Sant’Ana, falecido em 2017, e David Coimbra, que nos deixou em 2022. Asseguro, até na condição de amigo pessoal de ambos, que inúmeras vezes em seus comentários eles contrariaram os nossos posicionamentos — e que jamais interferimos para condicioná-los ao nosso modo de pensar.
O pluralismo de opiniões inclui também a renovação constante de colunistas, pois estamos sempre em busca de novos talentos e novas vozes que possam contemplar a diversidade de interesses dos nossos públicos. Nesse sentido, antecipo aqui decisões recentes de nossa área editorial: a partir do próximo dia 11, o jornalista e escritor Eugênio Esber terá sua coluna publicada semanalmente em ZH (impressa e digital) e o jovem jornalista Gabriel Sant’Ana Wainer passará a ter seus espaços ampliados, inclusive com participação diária em GZH e na Rádio Gaúcha. Gabriel, que estreou neste jornal no final do ano passado com artigos lúcidos e talentosos, tem uma credencial extra que o torna único: é neto do saudoso e polêmico Paulo Sant’Ana. Por outro lado, já estou torcendo para que Bernardo Coimbra, filho de David, que tem 17 anos e ainda não escolheu sua futura profissão, também opte por ser jornalista e comunicador.
03 25
Maratonas de cobertura
RODRIGO MÜZELL Gerente-executivo de Jornalismo Digital e membro do Conselho Editorial da RBS
Um dos grandes desafios brasileiros é criar políticas de Estado que ultrapassem mandatos e não dependam da boa vontade dos governantes. Afinal, grandes desafios não se resolvem em quatro anos e precisam de consenso na sociedade para que sejam encarados de forma eficiente.
São maratonas, não corridas de 100 metros rasos. No Rio Grande do Sul, a reconstrução após as enchentes e o aumento da resistência às mudanças climáticas são exemplos disso.
O jornalismo é responsável por ajudar a sociedade a superar esses desafios ao provocar o debate público sobre os temas que exigem um olhar de longo prazo. Mas este papel, que é fundamental em uma democracia, também é cada vez mais complexo para a imprensa:
1. É preciso ter jornalistas nos veículos que entendam em profundidade os assuntos. Conheçam não só os desafios, mas também como funcionam os mecanismos, no setor público e no privado, que farão um projeto ter sucesso ou não. Por exemplo, ao acompanhar uma obra relevante para uma comunidade, os jornalistas precisam compreender o projeto, mas também as formas de financiamento e repasse das verbas, a costura política que leva a sua definição, as decisões técnicas tomadas. Tudo isso para fazer as perguntas corretas e, sobretudo, traduzir as respostas para o público.
2. É preciso chamar a atenção para o assunto de um público que tem cada vez menos atenção disponível. Melhorar a educação, a saúde ou a economia são tarefas complicadas, cheias de prós e contras e sem uma resposta 100% certa. Tipo de conteúdo que dá alergia na dinâmica de polarização que domina as redes sociais, em que os primeiros dois segundos de um vídeo são quando o usuário decide se vê ou não o conteúdo.
É natural. Bem menos gente clicaria numa notícia sobre qual maratonista lidera o 14º quilômetro da corrida do que na matéria que informa o vencedor. Mas, quando o assunto é o desenvolvimento do lugar em que vivemos, saber a situação parcial é muito importante, e o jornalismo precisa achar a forma adequada para atrair o público.
Conhecer o que funciona melhor para cada tipo de assunto é um caminho. As experiências das redações em personalizar o conteúdo para seus leitores fiéis também ajudam. Explicar a cada um quais são as consequências dos grandes desafios em sua vida e apostar em reportagens investigativas e formatos interativos, como infográficos, vídeos e podcasts, pode ser essencial para garantir o engajamento do público.
Às vezes, é desanimador cobrir assuntos em que os avanços são lentos, as discussões são muitas, a disputa política atrapalha e as novidades não abundam. Por isso é tão importante o trabalho paciente, dentro das redações, de acompanhamento criterioso dos grandes temas: há pouca gente disposta a fazer isso. É um compromisso do qual o jornalismo não pode se abster.
A era da economia da atenção
Você já tentou ler um artigo longo e, antes mesmo de chegar ao terceiro parágrafo, percebeu que seu pensamento havia escapado para outro lugar? Já sentiu a necessidade quase instintiva de checar o celular, abrir uma rede social ou clicar em uma notificação qualquer? Se sim, você não está sozinho. Nossa atenção se tornou um campo de disputa, um recurso valioso no mercado digital. Na chamada economia da atenção, a lógica é simples: vence quem prende o olhar por mais tempo.
O problema é que esse modelo privilegia o que é imediato, emocional e viciante. Notícias sobre crimes, tragédias ou polêmicas acaloradas geram engajamento instantâneo, enquanto reportagens sobre temas estruturantes — como desenvolvimento econômico, infraestrutura, inovação ou educação — exigem tempo, reflexão e concentração. O jornalismo enfrenta, então, um paradoxo: precisa continuar abordando os temas essenciais para a sociedade, mas lida com públicos cada vez mais impacientes e dispersos.
MARTA GLEICH Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS
O jornalismo analítico e as reportagens investigativas seguirão sendo a espinha dorsal do nosso trabalho.
Diante desse cenário, os jornalistas têm uma responsabilidade ainda maior. Não basta apenas informar, é preciso conquistar a atenção do leitor sem abrir mão da profundidade e do rigor. Em um mundo saturado de estímulos, como fazer com que uma investigação sobre os desafios da mobilidade urbana de Porto Alegre tenha o mesmo impacto de um escândalo político ou de um vídeo viral? Como mostrar que as decisões econômicas de hoje definirão o futuro do Rio Grande do Sul sem que esse tema seja rapidamente descartado pelo leitor em meio a um feed infinito de conteúdos?
No Grupo RBS, compreendemos essa transformação e estamos determinados a enfrentá-la sem comprometer nossos princípios. Isso significa investir em formatos inovadores, explorar narrativas mais envolventes e conectar grandes temas ao cotidiano das pessoas. O jornalismo analítico e as reportagens investigativas seguirão sendo a espinha dorsal do nosso trabalho, mas precisam ser apresentados de forma mais atrativa, com recursos audiovisuais, linguagem acessível e uma abordagem que desperte curiosidade.
Não podemos nos render à lógica do conteúdo descartável. Nosso compromisso é seguir contando as histórias que importam, ampliando a visão do público e contribuindo para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul. O desafio da economia da atenção é real, mas a missão do jornalismo permanece a mesma: trazer à luz o que é relevante, dar voz à sociedade e ajudar a construir um futuro mais informado e consciente.
O desafio do jornalismo diante do ruído das redes
CLAUDIO TOIGO FILHO
CEO do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS
O jornalismo profissional sustentase sobre princípios inegociáveis: investigar com rigor, ouvir todas as versões, hierarquizar o que realmente importa, oferecer contexto e diversidade de opiniões. Este compromisso nos diferencia. Mas, na era das redes sociais, em que qualquer indivíduo com alcance digital pode ser percebido como uma fonte de informação tão legítima quanto um veículo tradicional, o desafio da imprensa nunca foi tão complexo — nem tão crucial.
No Grupo RBS, fazemos jornalismo com método, checagem e pluralidade. Não somos apenas uma vitrine de
A batalha pela percepção é decisiva.
notícias. Somos curadores do que é relevante, seja na TV, no rádio, no digital ou no jornal impresso. Mais do que produzir conteúdo, buscamos ser reconhecidos como referência. Nosso papel é garantir um espaço onde diferentes vozes não apenas coexistam, mas se confrontem, dialoguem e ampliem a compreensão dos fatos.
A batalha pela percepção é decisiva. Em um ambiente saturado por ruídos, no qual a desinformação circula com a mesma velocidade das verdades bem apuradas, o público precisa distinguir o que caracteriza o jornalismo profissional. Quando um fato acontece, onde você busca a explicação? Para formar sua opinião, recorre a fontes diversas ou apenas àquelas que confirmam sua visão de mundo? Esse é um desafio que não pode ser ignorado. Mas sabemos que, se determinados segmentos da sociedade não se enxergam na cobertura jornalística, correm o risco de se afastar — e, nesse vácuo, prolifera a desconfiança, abrindo espaço para a erosão da credibilidade.
Não recuamos diante desse dilema. Pelo contrário, reforçamos nosso compromisso: ouvir todas as vozes, garantir colunistas com diferentes perspectivas, refletir a pluralidade econômica, social e política — e, claro, a diversidade do nosso futebol. Jornalismo relevante é aquele que se dispõe a representar, com honestidade, a complexidade do mundo. Credibilidade não se decreta, se constrói, dia após dia, pela capacidade de interpretar os acontecimentos com independência e profundidade.
Os desafios são inéditos, mas a resposta permanece a mesma: apuração rigorosa, compromisso inabalável com a verdade e respeito à diversidade de vozes. Este é o nosso papel. E é isso que nos diferencia.
O preço do que chamam de “grátis”
O brasileiro gosta de dizer que o Sistema Único de Saúde (SUS) é gratuito, pensa que a escola pública não custa nada, que asfalto e segurança são obrigações do governo. Mas de onde vem o dinheiro que paga esses serviços? Do bolso de cada um. Sim, eu e você pagamos — e pagamos caro. Só que não se percebe. E essa percepção errada nos transforma em um povo anestesiado, incapaz de cobrar aquilo que nos pertence. Este pensar está ainda mais arraigado nas classes menos favorecidas e que proporcionalmente pagam mais impostos incluídos nos preços, considerando sua renda.
O SUS não é de graça. Os hospitais públicos, as vacinas, as consultas, tudo é financiado pelos impostos. O mesmo vale para as escolas e universidades federais. No Brasil, a carga tributária equivale a cerca de 33% do PIB. Ou seja, um terço de toda a riqueza do país vai para os cofres do governo. Mas o que recebemos em troca? Filas no SUS, educação precária, infraestrutura deficiente, insegurança no nosso dia a dia.
JOSÉ GALLÓ Empresário e membro do Conselho Editorial
da RBS
E a conta fica ainda mais salgada quando entramos no território do uso dos recursos pelo Estado. Temos o recente exemplo das emendas parlamentares. Neste ano, R$ 50 bilhões do dinheiro público serão gastos em emendas parlamentares sem transparência. Deputados e senadores distribuem verbas bilionárias sem detalhar quem as recebe, onde são aplicadas e se são bem aplicadas. Não há prestação de contas, não há controle efetivo, em vários casos esta falta de prestação de contas é fruto de corrupção.
E nós? Assistimos calados, como um rebanho dócil que não questiona para onde vai o nosso dinheiro. Obras iniciadas e não finalizadas, pagamentos de penduricalhos que ultrapassam o valor máximo da remuneração do setor público e, inacreditável, sem o pagamento de impostos.
A imprensa tem um grande papel a desempenhar neste assunto. O jornalismo profissional precisa escancarar essas distorções, mostrar o que está sendo feito com cada centavo. Mas a população também precisa despertar. Informações existem. O que deve acontecer é a vontade de cada um de se informar dos fatos, das verdades que mostram esta inaceitável realidade. Preferimos acreditar na ilusão do “governo que dá” a enfrentar a verdade de que somos nós que bancamos tudo.
O que seria do Brasil sem uma imprensa livre para questionar o que não é correto, o que não é justo, o que não é honesto, ético, o que não está bem? Se ninguém perguntar, ninguém responde. Se ninguém fiscalizar, o dinheiro some. É uma questão de reforçar a cidadania de todos. E o preço da omissão é pago por todos nós, com um Estado que desperdiça recursos, que não tem verbas para investimentos essenciais, o que resulta em um país que não cresce.
RAQUEL RECUERO
Professora, pesquisadora e membro do Conselho Editorial da RBS
A série Adolescência, da Netflix, trouxe à esfera pública uma discussão fundamental e urgente: o papel das plataformas digitais na disseminação de discursos de ódio e da violência simbólica, bem como na cooptação de adolescentes por movimentos radicais. A produção aborda a chamada “machosfera” digital — redes de influenciadores, microcelebridades, grupos e organizações que promovem discursos misóginos e patriarcais, frequentemente desumanizando as mulheres, tratando-as como objetos, construindo-as como seres manipuladores ou intelectualmente inferiores, e justificando a violência contra elas.
Esses discursos, muitas vezes disfarçados de humor ou piada — e, em outras ocasiões, cifrados —, circulam em grupos fechados e são repassados em espaços com pouca ou nenhuma vigilância. Esses conteúdos, por vezes, chegam pelo YouTube até mesmo a crianças pequenas. A “brincadeira” começa como uma fantasia de dominação e pode rapidamente evoluir para a legitimação de atos violentos — como retratado na série. São sementes que normalizam o ódio, muitas vezes por meio de desinformação pseudocientífica e ressentimento. Trazem teorias falsas, legitimam frustrações e alimentam uma narrativa de “perseguição aos homens”.
Neste contexto, o papel do jornalismo como mediador da realidade que se impõe é fundamental. É preciso nomear o fenômeno, fazer com que as pessoas o conheçam, chamar a responsabilidade da própria sociedade na naturalização do ódio — e, sobretudo, identificar os casos em que isso ocorre. Como jornalistas, precisamos pautar o debate na sociedade como ele deve ser: qualificado, profundo e educativo. Pois é também do jornalismo a semente da mudança, da mediação da esfera pública, da apresentação da violência de gênero como ela é.
Mas é igualmente papel do jornalismo o exercício da autocrítica também da violência simbólica de gênero: sobre o enquadramento desses casos como “isolados”; sobre a reprodução de estereótipos a respeito de mulheres agredidas; e mesmo sobre o uso assimétrico da linguagem — como o uso de termos como “jovem” para meninas de 15 anos e “menino” para garotos da mesma idade, o que constrói ideias completamente distintas sobre maturidade e responsabilização.
E é, por fim, também do jornalismo a oportunidade de atuar na mudança social: construir campanhas pela igualdade de gênero, pautar o debate sobre a regulamentação das plataformas, responsabilizá-las por seus algoritmos e conteúdos, e expor — com seriedade e responsabilidade — as violências que se escondem dentro e fora da mira da internet.
O desafio da imprensa
Nosso principal desafio, na imprensa, neste ano e no próximo será ideológico. Não no sentido desse embate sem fim entre esquerda e direita, que racha famílias e afasta amigos, que nos acometeu no Ocidente. O dilema é outro: como lidar, de cabeça fria, com a eleição presidencial do ano que vem. Porque muita gente vai querer vê-la como uma repetição do pleito de 2022. E não será.
O relatório da Polícia Federal é bastante claro: o expresidente Jair Bolsonaro planejou um golpe de Estado e trabalhou duro para convencer o alto-comando do Exército a embarcar junto. Quando não conseguiu, pegou um avião para a Flórida. Temos provas materiais e temos depoimentos, incluindo os dos então comandantes do Exército e da Aeronáutica. Mas este trabalho é do Supremo.
Nenhum dos pré-candidatos de direita esteve envolvido no golpe. Não aparecem em nenhum dos relatórios policiais. Só que, e estes são dados da pesquisa Quaest colhida na última semana de março, 12% dos eleitores brasileiros veem
PEDRO DORIA
Jornalista, cofundador do Canal Meio e membro do Conselho Editorial da RBS
Como lidar, de cabeça fria, com a eleição presidencial do ano que vem.
em Bolsonaro seu líder. Nenhum candidato de direita pode prescindir do apoio do ex-presidente por esta razão. Quem vai ao segundo turno contra o adversário governista é quem tiver estes votos. O drama de qualquer candidato ao Planalto é sempre cruzar a linha dos 10%.
Este é o dilema da direita brasileira. Mesmo da direita democrática. Enquanto a base do bolsonarismo tiver este tamanho, não haverá político brasileiro de direita que não precise dessa turma. É o eleitor que escolhe Bolsonaro como líder. E esta é uma democracia.
A imprensa precisará ter a sapiência de não acusar de golpista qualquer candidato de direita apenas por ter o apoio de Bolsonaro. O que fazia de Bolsonaro golpista era o fato de declarar que queria eliminar a esquerda. Que a ditadura foi boa, que o AI-5 teve algo de necessário. A defesa, desde cedo em sua carreira parlamentar, do assassinato de brasileiros por razões de discordância política. O que fez de Bolsonaro golpista foram seus constantes discursos contra primeiro o Congresso, depois contra o Supremo. Contra a República. Se ele quis um golpe é porque sempre acreditou em golpes.
Ao menos por enquanto, não há sinal de que outros possíveis candidatos à Presidência sejam golpistas ou defendam golpes. Tratar políticos normais como o que são — normais — é o primeiro passo do bom jornalismo.
A chance de um novo Estado
Nas últimas décadas, o Rio Grande do Sul vem perdendo posições na maioria dos rankings econômicos, sociais e políticos do país. Polarização generalizada, lideranças fragilizadas, isolamento político, entraves institucionais, além de questões climáticas e muitos outros fatores, explicam a perda de um protagonismo que já foi muito relevante em outras épocas. A enchente de 2024 escancarou ainda mais essa vulnerabilidade. Paradoxalmente, está criada uma oportunidade — talvez única — de se construir um novo futuro para a sociedade gaúcha.
É com esse espírito que o Grupo RBS inicia, a partir do dia 24, uma nova fase da campanha “Pra cima, Rio Grande”. O momento pede mais do que cobranças e exposição dos problemas. Pede ainda mais jornalismo com propósito e busca de soluções concretas. A ideia não é silenciar a crítica quando ela se faz necessária — seguiremos cobrando com a mesma independência e firmeza de sempre. Mas reconhecemos que, além de apontar os gargalos do presente, é preciso inspirar o futuro. É esse o estado de ânimo que estamos assumindo editorial e institucionalmente: o da reconstrução eficaz, da esperança permanente e da concretização de iniciativas e projetos de relevante interesse de todos, impulsionados pelas convergências possíveis.
O Rio Grande do Sul precisa de pontes — físicas e simbólicas. A duplicação da BR-290, a reconstrução de estradas, as moradias, os diques e obras para conter as cheias são temas ainda emergenciais. Mas a urgência não pode vir descolada
NELSON P. SIROTSKY Publisher e presidente do Conselho da RBS
de contexto. Através do nosso jornalismo, queremos ajudar a sociedade a compreender o que está em jogo, onde estão os entraves, quem precisa agir e não o está fazendo. E, a partir deste entendimento, saber como cada um de nós pode ser agente ativo neste grande desafio.
Existe um plano — o Plano Rio Grande —, que não deve ser somente deste governo, e sim do Estado, de todos nós. Ele precisa ser destrinchado, acompanhado, cobrado, aperfeiçoado. O que avançou? O que está parado? Por que está parado? Quando serão atingidos os resultados desejados?
Esta fase do “Pra cima” é também, para nós da RBS, momento de reforçar a nossa autorreflexão. Qual a nossa responsabilidade, como empresa de comunicação, em um Estado que vem perdendo protagonismo? Queremos ser parte da solução. Já fomos agentes de transformação na luta contra o crack, na defesa da educação básica, na mobilização pela duplicação de rodovias, no combate à violência contra as crianças. Por que não ser, mais uma vez, por meio do jornalismo responsável, uma força que quer puxar o Estado para cima?
É preciso ampliar o destaque que damos às coisas que funcionam: a inovação que pulsa em eventos recentes como o South Summit ou a Expodireto, a força do voluntariado, histórias admiráveis de superação, a relevância do agro gaúcho, as empresas que seguem gerando emprego e reinventando suas rotas. O RS precisa de referências positivas e elas precisam ser mostradas e valorizadas.
Nosso desafio é duplo: continuaremos sendo duros com quem precisa ser pressionado e colocaremos holofotes nas histórias que merecem ser celebradas. A RBS não vai abdicar do seu papel de cobrar os poderes públicos ou as entidades empresariais. Mas também vai escolher — com coragem e critério — os temas em que pode contribuir diretamente para um ambiente de transformação, como propulsora de mudança.
Estamos comprometidos com o Rio Grande do Sul e com a esperança de que, todos juntos, façamos o Estado retomar suas relevantes posições históricas.
27 04 25
A transformação das redações com IA
A inteligência artificial (IA) está transformando diversas áreas da sociedade, e com o jornalismo não é diferente. O avanço dessa tecnologia tem trazido novas formas de produzir, distribuir e consumir notícias. Ao mesmo tempo, levanta preocupações sobre transparência, ética e desinformação.
Nas redações, a IA já é usada para automatizar tarefas operacionais, como transcrever entrevistas, analisar grandes bases de dados, gerar resumos e adaptar conteúdos para diferentes formatos, como TV, rádio e plataformas digitais. A ideia é usar a inteligência artificial como apoio na análise de materiais, informações e tarefas repetitivas, para permitir que os profissionais se concentrem em atividades mais criativas, que garantam maior qualidade ao que é produzido, gerando mais valor e relacionamento com o público.
ELLEN APPEL Gerente-executiva de Jornalismo da RBS TV e membro do Conselho Editorial da RBS
Não há dúvidas de que a inteligência artificial veio para ficar nas redações e será uma importante aliada.
A utilização da IA no jornalismo é uma oportunidade que, claro, como qualquer novidade, impõe desafios. É uma mudança de cultura dentro das redações em primeiro lugar. Também é importante garantir que não haja desconfiança por parte do público. Que ele saiba quando a tecnologia foi usada na produção do conteúdo. A transparência se tornou essencial para preservar a confiança na informação jornalística, já que, quando mal adotada, a inteligência artificial pode disseminar conteúdos e notícias falsas.
Muitas empresas jornalísticas já estabeleceram diretrizes para o uso responsável da IA. Entre os princípios do uso da inteligência artificial do Grupo RBS, fica evidenciado que a IA não substitui a apuração e a checagem de conteúdo original. Saber que fontes buscar, garimpar a informação, checar os fatos, realizar a curadoria de notícias e produzir conteúdos para diversos meios é o que tem valor no jornalismo profissional. Ainda constam nas diretrizes do grupo o respeito aos direitos autorais e a proibição de que editoriais ou artigos de opinião sejam produzidos exclusivamente por IA. Além disso, em determinados conteúdos, quando necessário, deve se dar clareza ao público de que a IA é utilizada pelas redações como ferramenta auxiliar. Sempre com supervisão humana de um jornalista profissional.
Não há dúvidas de que a inteligência artificial veio para ficar nas redações e será uma importante aliada. Não irá substituir o olhar, o julgamento e a responsabilidade final dos seus profissionais. As equipes ganham agilidade para focar o nosso diferencial, que é produzir um jornalismo responsável, plural e ético. E, claro, que nos conecte ainda mais com os nossos públicos.
Valeu a pena ver de novo
ANIK SUZUKI
CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS
Como a gente esquece fácil. Para onde vão nossas memórias? As cenas cotidianas que fizeram de nós quem somos: as histórias, os ensinamentos e o tempo que tivemos com os nossos pais, a cumplicidade com nossos irmãos, as brincadeiras e os segredos com os amigos, o frio na barriga, as descobertas e as experiências na escola, as paixões, as despedidas e os ritos de passagem, como nossos aniversários, formaturas, viagens, mudanças. Para onde vão essas memórias, e o que é capaz de trazê-las à tona?
Pois nessa semana que passou, completamente desavisada, vivi um turbilhão de emoções despertado por reportagens históricas do Brasil e do mundo, pelas grandes coberturas das últimas décadas, pelos personagens de novelas, por trilhas sonoras, artistas, comediantes, apresentadores, pelas cenas do esporte e nossos atletas de todos os tempos.
O show dos 60 anos da TV Globo, que espetáculo! O Jornal Nacional ao vivo dentro da casa dos brasileiros, quanta competência e sensibilidade.
As homenagens aos que tornaram tudo isso possível com o seu empreendedorismo, talento, criatividade, determinação e muito trabalho, todas merecidas.
Aprendi com meu pai e com a cultura nipônica a atenção aos detalhes, o valor do trabalho (muito) bem-feito e a busca pela excelência. Com a minha mãe, entendi o impacto que a beleza e a ordem trazem para a vida da gente. Assim, impossível não reconhecer que a Globo carrega em seu DNA o compromisso com a estética, com o cuidado artístico, com o desejo de entregar algo impecável ao público.
Sejamos justos: essa busca incessante por excelência, somada ao amor pelo Brasil e pelos brasileiros, foi decisiva para promover neste nosso país gigante, de tantos sotaques, desafios e divergências, uma identidade única, visual e cultural, a nossa brasilidade. A Globo construiu um modelo de televisão, do qual a RBS TV faz parte desde o princípio, que soube valorizar as regionalidades e, ao mesmo tempo, conectar esse país continental consigo mesmo, ajudando-nos a construir nossa autoestima, a sentir orgulho de quem somos.
Quanto a gente dá conta de ver, aprender, sentir e viver em 20, 40 ou 60 anos? Muito, mas infinitamente menos se o fizermos sozinhos. Por isso, ao passar a limpo esses 60 anos da TV Globo, com seus erros e acertos como qualquer pessoa, empresa ou instituição, enxerguei minha própria história e senti gratidão.
Uma copa a ser conquistada
Foi no início da noite da última quarta-feira, dia 7.
Enquanto o mundo voltava os olhos à chaminé da Capela Sistina, a Fifa anunciou as cidades-sede da Copa do Mundo de Futebol Feminino: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Porto Alegre. Todas também sediaram jogos do Mundial masculino em 2014. Passados 13 anos, teremos mais um grande evento no Brasil — desta vez, uma oportunidade única de valorizar o nosso futebol feminino.
E, se há cidades-sede, o evento já começou. No domingo, dia 11, será feita a primeira visita técnica ao Beira-Rio. Uma comitiva da Fifa estará em Porto Alegre para avaliar as adequações necessárias ao estádio. Ao compartilhar essa informação, ouvi de Valéria Possamai, repórter e produtora do Esporte do Grupo RBS: “E nós estaremos lá”. A vistoria ajudará a dimensionar a responsabilidade de sediar um megaevento. Também será chance para, como jornalistas e sociedade, avançarmos no debate sobre o espaço do feminino. Faltam cerca de 800 dias.
TIAGO CIRQUEIRA Gerente-executivo de Esportes e membro do Conselho Editorial da RBS
Vivemos em uma sociedade na qual mulheres protagonizam, lideram e transformam.
Em um ano em que celebraremos com orgulho a geração moldada por Marta, Cristiane, Pretinha, Formiga e Sissi, fica a pergunta: em qual sociedade esse momento ocorrerá em 2027? Naquela em que há um abismo entre as premiações e os salários de homens e mulheres? Ou em uma que valoriza o talento feminino e comemora a maior venda da história de uma jogadora? Que notícia ocupará as páginas de Zero Hora? E como contribuiremos para que as manchetes de jornais, rádios e TVs sejam construtivas, positivas e igualitárias?
Vivemos em uma sociedade na qual mulheres protagonizam, lideram e transformam. É essencial dar espaço, visibilidade e oportunidade — não por reputação, mas com a perspectiva de que poder aprofundar essas questões significa contribuir para sua consolidação. E o jornalismo deve estar a favor dessa realidade.
No Esporte do Grupo RBS, há muito a avançar. Desde o microfone da RBS TV nas mãos de Carmem Lopes, na década de 1980, o cenário mudou. Há quase três anos, temos o Resenha das Gurias, com Valéria e Carol Freitas. Desde 2020, transmitimos as finais do estadual feminino em TV aberta. Em julho, Joga Nelas, com Mylena Acosta e Heloíse Bordin, completa dois anos no Globo Esporte. Temos Vanessa Girardi, Amanda Munhoz e Manuela Ramos na gestão da área. Mas, sim, ainda há muito por fazer. E enormes conexões para criar. A existência da Copa do Mundo Feminina no Brasil não irá resolver os dilemas que enfrentamos. Há aqui mais uma oportunidade para que possamos juntos buscar soluções que nos orgulhem para além do ufanismo que o futebol gera de maneira ocasional. Essa pode ser a nossa conquista desde já até o depois da Copa.
05 25
Eu ainda vou escrever para um agente de IA
RODRIGO MÜZELL
Gerente-executivo de Jornalismo Digital e membro do Conselho Editorial da RBS
Um princípio básico do bom jornalismo é saber para quem você está escrevendo. Entender o perfil da audiência com dados, mas também pensar no leitor real, individualmente: quais seus interesses, seus problemas, seus desejos, sua realidade. Colocar um rosto no leitor ao escrever uma matéria quase sempre ajuda a criar uma conexão, essencial para qualquer tipo de comunicação.
Por esses dias, Zero Hora apurou qual é a situação do sistema de proteção contra cheias da Capital um ano depois da tragédia de maio de 2024. O título imaginou a pergunta que o leitor se faz sempre que se avizinham
Nossa
missão não
muda:
levar
ao
público
informação confiável para ajudálo a tomar as melhores decisões.
nuvens pesadas: “E se houver uma nova enchente?” A resposta da audiência foi imediata, com índice de leitura bem acima da média. A conexão se fez.
Mas há uma mudança drástica no horizonte. Trazida, é claro, pela inteligência artificial (IA). Cada vez mais o público vem usando a IA no cotidiano. Responder a perguntas simples, organizar o dia, escrever uma mensagem é apenas o começo. Vem aí a era dos agentes de IA: aplicativos treinados para entender preferências e contextos de cada um para ajudar no cotidiano. Você faz supermercado uma vez por semana, mas há 10 dias não vai às compras? O agente, como quem não quer nada, pergunta se não tem algo faltando na geladeira.
Isso também vai chegar ao consumo de informação, com agentes de IA procurando e oferecendo o que acham que você quer ou precisa saber. Se o leitor aderir a eles, o jornalista não se comunicará mais só com humanos: escreverá também para as máquinas.
Nossa missão não muda: levar ao público informação confiável para ajudá-lo a tomar as melhores decisões.
Mas um agente de IA se conectará com a apreensão causada por uma enchente? Dará a atenção necessária à matéria sobre o assunto? Não sei.
Precisamos entender ao máximo e o mais rápido possível como falamos com este novo “público”. Talvez precisemos aprender como escrever bem para as máquinas para chegar aos humanos. Assustador? Pois é. Mas o temor não é algo essencialmente humano?
25 05 25
A condenação de Zero Hora e de Rosane de Oliveira
Rosane de Oliveira publicou em sua coluna diária neste jornal, em julho de 2023, o ranking dos maiores contracheques do Judiciário gaúcho em abril daquele ano: os 10 desembargadores e 10 juízes que receberam as maiores quantias em um mês. Havia contracheques de R$ 343 mil até R$ 662 mil.
Há uma lei no Brasil, a Lei de Acesso à Informação, que garante a visibilidade desses valores. Eu, você, qualquer cidadão pode entrar no site do Conselho Nacional de Justiça, por exemplo, e conferir quanto cada servidor recebe por mês. São informações públicas.
Rosane explicava o que compunha os valores: desde o salário, ou subsídio mensal, até indenizações de licenças-prêmio. E o que eram as licenças-prêmio? Até 2021, servidores e magistrados do Judiciário tinham direito a três meses de repouso remunerado a cada cinco anos, além das férias anuais de dois meses.
O Tribunal de Justiça explicou que, devido ao volume de trabalho, nem sempre foi possível aos juízes, desembargadores e funcionários usufruírem desses três meses de descanso. Então, os valores foram pagos parcelados em três vezes, ou de uma vez só. E isso, entre outras coisas, engordou os contracheques.
MARTA GLEICH Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS
Nesta semana, Rosane de Oliveira e o jornal Zero Hora foram condenados a pagar uma indenização de R$ 600 mil, por danos morais, à desembargadora que encabeçava esse ranking. Ou seja: por publicar que a doutora Íris Helena Medeiros Nogueira recebeu em determinado mês o valor de R$ 662 mil, dados verídicos que estão no Portal da Transparência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ZH e a colunista são condenados a pagar R$ 600 mil, porque a desembargadora, expresidente do Tribunal de Justiça, se sentiu ofendida.
O caso ganhou repercussão nacional. A Associação Nacional de Jornais se solidarizou com a colunista e o jornal e reafirmou o princípio constitucional da liberdade de imprensa e a defesa da ampla transparência. A decisão da juíza contra
Zero Hora e Rosane de Oliveira foi notícia no Estado de S.Paulo, na Folha de S.Paulo, na Veja, na Gazeta do Povo, na GloboNews, na Band, na CNN, na Carta Capital e gerou pronunciamentos na Câmara Federal, Assembleia Legislativa e Câmara de Vereadores de Porto Alegre.
É uma sentença de uma juíza de primeiro grau, que tem independência para exercer seu papel, assim como a desembargadora Íris tem todo o direito de entrar na Justiça.
Zero Hora e sua colunista, baseados na lei, vão cumprir todos os ritos: o jornal e Rosane vão recorrer, e tudo vai ser novamente julgado — pelo Tribunal de Justiça e, se necessário, depois pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal. O sistema judiciário é uma instituição sólida, importante e que funciona no país. A própria Justiça tem os mecanismos para que as rés, Zero Hora e Rosane, busquem o direito de informar. As instituições e os poderes brasileiros, Executivo, Legislativo e Judiciário, têm um sistema complexo, mas na imensa maioria das vezes eficiente, como acontece nas democracias. Ao funcionar, protegem os direitos da sociedade.
Zero Hora e seus colunistas, com responsabilidade, serenidade e respeito às leis, seguirão cumprindo sua missão exercida há 61 anos: assegurar a seus leitores o acesso às informações, inclusive sobre como o dinheiro público, aquele dos impostos, é gasto. A liberdade de imprensa não é algo trivial, é um princípio exercido a serviço da sociedade e um dos fundamentos da democracia, embora muitas vezes as informações trazidas pelos jornais sejam indigestas.
NELSON P. SIROTSKY Publisher e presidente do Conselho da RBS
Maurício Sirotsky Sobrinho foi muitos. Foi um menino inquieto em Erebango, onde nasceu, filho de imigrantes judeus fugidos da pobreza e das perseguições na Europa no início do século passado. Foi um adolescente voluntarioso em Passo Fundo, onde estudou e começou a desenvolver seu talento de comunicador na voz do poste da Praça Marechal Floriano. Foi locutor da Rádio Gaúcha na sua primeira experiência profissional na Capital. Foi administrador da Rádio Passo Fundo. Foi repórter, narrador e apresentador nas rádios Farroupilha e Difusora. Foi ator de radionovelas e se destacou como animador de programas de auditório,
Maurício Sirotsky Sobrinho foi muitos.
especialmente do Programa Maurício Sobrinho no Cinema Castelo, em Porto Alegre. Foi artista, publicitário, executivo e empresário.
Foi o fundador da RBS.
Foi, também, marido da Ione, pai da Suzana, da Sônia e do Pedro. Foi meu pai. Foi um ser humano intenso, com suas virtudes e seus defeitos. E foi, acima de tudo, um empreendedor, um lutador, um homem determinado e incansável na busca de seus objetivos.
Por isso, passadas quase quatro décadas de sua morte prematura, aos 60 anos, meus irmãos e eu decidimos aproveitar o centenário de seu nascimento, neste 5 de junho, para homenageá-lo e para resgatar sua trajetória pessoal e profissional, de modo que seus contemporâneos possam recordá-lo e as novas gerações possam conhecê-lo melhor.
Como consequência dessa homenagem, Maurício Sirotsky Sobrinho será agora, também, uma estátua de concreto no parque que leva seu nome, também conhecido como Harmonia, produzida pelo escultor Vinícius Ribeiro; será, ainda, o tema do documentário 100 Anos à Frente, dirigido por Rene Goya, que a RBS TV apresentará no próximo
sábado; e terá sua história recontada, com passagens inéditas, num livro que está sendo escrito pelo jornalista Tulio Milman, com lançamento previsto para a próxima Feira do Livro de Porto Alegre, em novembro, pela editora AGE. Além disso, será homenageado no próximo Prêmio ARI de Jornalismo, numa categoria especial destinada a estudantes universitários.
É para esse público jovem, principalmente, que estamos resgatando e reapresentando a história desse gaúcho impetuoso, reconhecido como um dos principais comunicadores do Estado e um destacado empresário da comunicação no Brasil. Maurício também foi pioneiro e visionário nesta área, ao afiliar a TV Gaúcha (atual RBS TV) à Rede Globo de Televisão e ao criar a primeira rede regional que transformou o modelo de operações de TV no país.
Ele enfrentou desafios imensos na construção da RBS e na superação de obstáculos que surgiram em seu caminho. Trabalhou muito, arriscou tudo o que tinha. Alcançou êxitos, mas também passou por inúmeros reveses, sempre com coragem e determinação, contando com o estímulo de minha mãe em todos os momentos. Ela uniu a família pelo afeto e foi o fator de equilíbrio emocional nas situações difíceis. Por isso, Ione Pacheco Sirotsky também está sendo lembrada e homenageada por seus filhos e netos neste centenário.
Maurício deixou um legado imenso de ideias, valores, exemplos e também um projeto empresarial centrado na comunicação e no jornalismo, construindo uma parceria sólida com os gaúchos. Cabe-me agora, com o apoio de minha mulher, Nara, de nossos filhos, de meus irmãos,
Maurício foi muitos e sua versatilidade nos ensinou a enfrentar múltiplos desafios. Mais do que nunca, o seu legado está presente hoje, e estará sempre em nosso olhar de futuro.
primos e sócios, a responsabilidade de liderar, manter e aperfeiçoar esta obra iniciada por meu pai, o que estamos fazendo também com a colaboração de muitos e dedicados companheiros.
Também na condição de herdeiro dessa paixão pela comunicação, reafirmo neste momento simbólico o meu compromisso pessoal com os principais legados de Maurício Sirotsky Sobrinho — seus valores éticos, sua obsessão pelo trabalho, sua crença nas pessoas e seu projeto empresarial comprometido com o público. Nesses quase 40 anos sem sua presença física, ele continua sendo a nossa maior inspiração para manter a RBS no rumo certo, especialmente em momentos complexos como o atual, com a indústria da comunicação constantemente desafiada a se adequar aos novos modelos digitais ao mesmo tempo que enfrenta a desinformação e busca incorporar o lado positivo da inteligência artificial. Maurício foi muitos e sua versatilidade nos ensinou a enfrentar múltiplos desafios. Mais do que nunca, o seu legado está presente hoje, e sempre estará em nosso olhar de futuro.
06 25
Censores
Um espírito censor se instalou na sociedade.
É fundamental que nós, na imprensa, abramos uma conversa mais franca a respeito deste assunto. Nesse sentido, é importante termos a coragem de usar as palavras certas. Mas é importante, igualmente, reconhecer a extensão do problema. Porque ele não é de esquerda ou de direita. O problema está por toda parte.
Neste momento, muitos de esquerda defendem a condenação a oito anos de prisão do humorista Leo Lins. Suas piadas são racistas, antissemitas, homofóbicas. Ele não é um caso único. Na verdade, muita gente de direita perdeu o direito de falar no Brasil desde o governo Bolsonaro. Perderam o direito por discurso político, alguns por abertamente atacarem as eleições, mas calados foram e calados seguem.
À direita, não é diferente. Por todo o país, livros são proibidos em escolas por serem progressistas demais. Dois
PEDRO DORIA Jornalista, cofundador do Canal Meio e membro do Conselho Editorial da RBS
Não nos ocorria a toda hora que o único jeito de salvar a democracia ou proteger as famílias fosse calar o discurso que nos ofende.
funkeiros cariocas, Oruam e MC Poze, pegaram dias na cadeia, essencialmente, por defender um estilo de vida ligado ao crime em suas músicas.
Ambos os lados se dizem muito democratas. Se sentem sinceramente bem-intencionados. Mas o ponto é o seguinte: nós não tínhamos esse tipo de conversa, com este nível de frequência, há 10 anos ou há 20. Não nos ocorria a toda hora que o único jeito de salvar a democracia ou proteger as famílias fosse calar o discurso que nos ofende. Isso mudou. Estamos, como sociedade, convencidos de que a fala é uma arma, que ideias matam, derrubam regimes.
Aquilo que convencionamos chamar democracia, na segunda metade do século 20, não funciona assim. Aquele tipo de regime considera que discurso, mesmo discurso radical, tem espaço. Porque, esta era a crença, o debate era capaz de dissuadir, de convencer o contrário. Acreditávamos em debate.
Não acreditamos mais que debate mude ideias. Talvez não mude, mesmo. Talvez o digital tenha tornado impossível o debate. Mas, sem acreditar em debate, até que ponto podemos nos dizer democratas?
06 25
O agro tem muito mais a noticiar
ANIK SUZUKI
CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS
Ao longo da minha vida profissional, tenho tido a oportunidade de conhecer histórias incríveis de empresas que hoje representam muito bem o Brasil perante o mundo. Por isso, sempre penso que o país teria muito a ganhar com um diálogo mais efetivo entre quem produz e quem informa. Na semana passada, participei de um fórum global do agronegócio, que reuniu, em São Paulo, mais de 20 mil pessoas de todo o país e 180 empresas, com conteúdo, música, gastronomia e networking, e constatei que, de maneira geral, os moradores das cidades conhecem muito pouco o agro e sua relevância para a economia brasileira e global.
O Rio Grande do Sul tem muito a contar sobre o agro, ainda mais nesta fase de reconstrução do Estado, em que o setor enfrenta desafios para seguir crescendo. No agro, somos exemplo para o país em várias frentes — e, daqui a poucos meses, poderemos mostrar o que temos de melhor na COP30, no Pará. Este é um momento em que se abre uma janela de oportunidade para promover essa aproximação, e vejo no jornalismo profissional a melhor forma para encurtar essa distância entre o campo e a cidade e vice-versa.
Ainda há pontes a serem construídas, e tanto a imprensa quanto o agronegócio têm como avançar para gerar conhecimento e reconhecimento. Como observei no evento, o agro é um universo, tem identidade, repertório, sotaques e hábitos próprios, muito diferente para quem vive uma rotina urbana.
Para mostrar o que o agro gera de valor para todos, a cobertura jornalística tem farto material nas histórias inspiradoras de famílias, empreendedores e profissionais, para além de indicadores e notícias factuais, hoje já informados com eficiência. Ainda mais quando sabemos que o campo precisa atrair e reter mais jovens qualificados, que por desconhecimento e distanciamento nem sempre imaginam o quanto é investido em inovação, tecnologia e sustentabilidade — e o impacto direto da atividade na economia do país.
A boa notícia é que há um número cada vez maior de líderes do agro mais conscientes do papel da imprensa para traduzir seu protagonismo e sua relevância para a sociedade. E, por parte da mídia, o compromisso de informar com profundidade e qualidade tudo que impacta a vida das pessoas. Empresas e imprensa são partes de um mesmo ecossistema social, cada qual com seus códigos e suas responsabilidades. Quando agro e imprensa constroem pontes de valor, criam oportunidades para todos os brasileiros.
22 06 25
O jornalismo tem lado?
Objetividade sempre foi um norte da profissão de jornalista. Um pacto implícito entre o profissional e seu público: a notícia viria limpa, neutra, sem nenhuma contaminação. Mas essa combinação não é 100% precisa na prática. Toda escolha editorial — o que entra na pauta, o que fica de fora, quantos conteúdos são publicados de um assunto ou de outro, quais fontes são procuradas para uma reportagem — já pode ser considerada um ponto de vista.
Num mundo em que a desinformação é sistemática e a verdade é atacada como posição política, a pretensa neutralidade se tornou insuficiente. Diante do racismo, da violência política, da negação científica, não há dois lados igualmente defensáveis.
Quando há um fato verificável de um lado e uma mentira do outro, tratá-los como equivalentes não é equilíbrio — é distorção.
MARTA GLEICH Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS
O jornalismo que importa
é o que encara os conflitos com critério, contexto e coragem.
Defender o jornalismo profissional hoje é admitir que a objetividade como mito fundacional não é absoluta. Em seu lugar, precisamos reforçar ainda mais a transparência com todos os públicos (e eles são muito diversos!), a responsabilidade nas escolhas e o rigor ético e profissional. O leitor, mais do que nunca, deve saber de onde partimos, quais são nossos métodos, como chegamos àquilo que publicamos.
Em tempos de polarização, o jornalismo que importa é o que encara os conflitos com critério, contexto e coragem. Não escolhemos um lado político. Escolhemos o lado da apuração, da verdade factual. Se isso desagrada extremismos, é sinal de que o jornalismo ainda cumpre seu papel.
Não há imparcialidade possível diante da injustiça, da censura, da brutalidade. Há integridade, que é outra coisa. O jornalismo que sobreviverá ao nosso tempo será aquele que parar de fingir que não escolheu um lado — e assumir, com clareza, que está ao lado da democracia, da liberdade e da dignidade humana.
O valor e a conexão da televisão aberta
ELLEN APPEL Gerente-executiva de
Jornalismo da RBS TV e membro do Conselho Editorial da RBS
A televisão aberta brasileira segue como um dos pilares mais sólidos da vida pública. Com presença diária nos lares, nos comércios e nas conversas, exerce papel essencial na formação da consciência coletiva, na oferta de informação confiável e na valorização da cultura nacional e regional.
Mais do que um meio de comunicação, a TV aberta é um elo entre comunidades. Emissoras regionais têm a capacidade única de estar onde as pessoas vivem, trabalham e sonham. Contam histórias que não cabem nos trending topics, revelam talentos locais, denunciam injustiças e informam sobre o que realmente importa na vida das pessoas.
O jornalismo televisivo, com sua linguagem acessível, a presença ao vivo, a força das imagens e o compromisso com a verdade, tem uma legitimidade que atravessa gerações.
Esse vínculo só é possível porque, do outro lado da tela, há comunicadores em quem o público confia. Repórteres, apresentadores, comentaristas: são eles que transformam notícia em proximidade, jornalismo em hábito. É pela identificação com esses rostos familiares que se constroem audiência fiel, engajamento real e conexão emocional. Quando o telespectador se vê representado, se sente parte da conversa.
O jornalismo televisivo, com sua linguagem acessível, a presença ao vivo, a força das imagens e o compromisso com a verdade, tem uma legitimidade que atravessa gerações. Ao longo de décadas, fomos testemunhas da história do país e da do nosso Estado sendo contadas em tempo real, com rigor e emoção — e seguimos sendo.
A mobilização que a TV aberta gera é única. De campanhas solidárias a grandes reportagens, passando por escutar quem nunca teve voz. Seu impacto social é concreto. E se amplia quando há empatia entre quem comunica e quem assiste. Afinal, pessoas se conectam com pessoas.
Num tempo em que a confiança é um bem precioso, a televisão aberta permanece como um espaço de encontro entre jornalismo de qualidade, interesse público e vínculo humano. E seguirá sendo, enquanto houver quem a faça com ética, excelência e vocação para servir à sociedade.
06 07 25
Esporte e identidade regional
A Copa do Mundo de Clubes provoca reflexões sobre a intersecção entre eventos esportivos e a construção da identidade cultural. No Rio Grande do Sul, onde a relação com o futebol é histórica, a cobertura jornalística assume um papel central, não apenas informando, mas também moldando percepções e narrativas. Qual o espaço dessa competição na mídia regional? A teoria do acontecimento nos ajuda a entender que eventos esportivos reúnem comunidades e ativam perspectivas coletivas. A produção de conteúdo deve ir além da descrição de fatos, capturando o significado social de cada jogo para os torcedores e os espaços em que estão inseridos.
A análise deve considerar a dinâmica de pertencimento e como a percepção de existência do indivíduo é construída por meio do esporte. A mídia atua com foco na formação de uma relação comunitária ligada à fidelidade clubística. Contudo, em meio à redução de distâncias gerada pela hiperconectividade, essa lealdade regional está se tornando mais fluida. O público jovem, por exemplo, demonstra menor ligação com o tradicional e uma maior abertura
TIAGO CIRQUEIRA Gerente-executivo de Esportes e membro do Conselho Editorial da RBS
Atualmente, gerar valor também se refere à capacidade de inserir o público no mundo e traduzir as histórias globais para a comunidade local.
para novas possibilidades de consumo. Isso explica o crescimento do sportainment observado na NBA e NFL, impactando o consumo do esporte e a fidelização de públicos. Com a fragmentação da adesão do público, construir experiências que ressoem com novas camadas sociais é essencial para atrair e reter torcedores, mas, principalmente, aumentar o número de consumidores.
No RS, o desafio é equilibrar a tradição do futebol gaúcho com as demandas de um público que busca entretenimento diversificado que transcenda divisas e fronteiras. Nesse contexto, a Copa do Mundo de Clubes pode se tornar um divisor de águas. Se veículos de comunicação capturarem e transmitirem a essência dessa experiência, poderão criar conexões e revalidar a relação com o público.
Atualmente, gerar valor também se refere à capacidade de inserir o público no mundo e traduzir as histórias globais para a comunidade local. Por isso, mais uma vez, a Gaúcha é emissora detentora de direitos com presença in loco em um grande evento. E, como parte desse cenário, é fundamental a reflexão sobre como revitalizar essa relação com produtos que abordam o mundo e constroem vínculos sem comprometer o localismo que fortalece a paixão identitária ligada aos clubes gaúchos. A escolha das histórias com base na necessidade do nosso consumidor e a preocupação em desenvolver formulações atrativas para contá-las para públicos complementares são o que nos guia. E, assim, manteremos o nosso papel na construção de um futuro em que o esporte continue sendo um elemento essencial da identidade cultural do Rio Grande do Sul.
Trabalho conjunto
RODRIGO MÜZELL
Gerente-executivo de Jornalismo
Digital do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS
Um dos valores mais antigos do jornalismo é o furo. Dar uma informação antes de todos, mostrar algo pela primeira vez, trazer com agilidade um fato de grande impacto são pré-requisitos exigidos dos melhores jornalistas. Em tempos cada vez mais velozes e conectados, quando tudo pode cair nas redes a qualquer momento, a ansiedade impera nas redações. A exclusividade pode sumir no minuto seguinte — basta que alguém poste em sua rede pessoal a informação.
É aí que entra outro valor fundamental do jornalismo: a responsabilidade. O erro costuma
Além de respirar fundo, jornalistas profissionais costumam usar uma ferramenta fundamental: a tomada conjunta de decisões.
acompanhar a pressa. Na ânsia de publicar, a informação pode ficar imprecisa; o outro lado, negligenciado; a chamada, sensacionalista. Quanto mais delicado o fato, mais importante é respirar e avaliar o impacto, as consequências e a forma mais clara e objetiva de publicá-lo.
Além de respirar fundo, jornalistas profissionais costumam usar uma ferramenta fundamental: a tomada conjunta de decisões. Uma redação precisa ser um lugar de conversa e debate constantes. Para chegar à palavra mais adequada para o título, à informação mais correta, à edição mais equilibrada. Quando o tema é mais complexo, os líderes das redações da RBS o discutem em um comitê que envolve jornalistas de TV, rádio, digital e jornal. Mais do que chegar a um consenso, o objetivo é encontrar a forma mais adequada de levar a notícia a cada público.
Parece demorado. Mas, como estamos na era da velocidade, é o oposto. O debate é ágil, mas garante que vários pontos de vista sejam contemplados. As perguntas necessárias são feitas — sobre a checagem, sobre a melhor forma de edição, sobre o impacto junto ao público. As diferenças entre as mídias são consideradas e a melhor forma de publicação é combinada.
Ajuda a parar para respirar. E garante o diferencial dos profissionais de jornalismo diante do ruído das redes: a seriedade e a responsabilidade no que fazemos.
20 07 25
A discussão ética e legal das IAs
Vivemos o impacto de uma revolução que mal começamos a compreender: a inteligência artificial, até aqui apenas uma possibilidade de estudos acadêmicos, tornou-se parte do cotidiano das empresas, das pessoas e, de forma crescente, das redações jornalísticas. No Grupo RBS, a adoção responsável da IA já é uma realidade. Ferramentas que transcrevem áudios, analisam dados massivos e otimizam a distribuição de conteúdos, somente para citar alguns exemplos, nos ajudam a ser mais ágeis e melhorar as entregas a nossos públicos. Essa transformação é irreversível — e bem-vinda, quando guiada por valores, critérios editoriais e uma ética clara.
Mas há riscos tão velozes quanto as oportunidades. O mais evidente é a ilusão de que tudo o que a inteligência artificial diz é verdade. Plataformas como ChatGPT, Gemini, DeepSeek ou Perplexity respondem em instantes a perguntas cada vez mais complexas, com aparente autoridade, mas sem o filtro essencial da apuração, da checagem rigorosa, da responsabilidade editorial. O que parece informação muitas vezes é erro. A IA confunde
CLAUDIO TOIGO FILHO CEO do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS
O mais evidente é a ilusão de que tudo o que a inteligência artificial diz é verdade.
fontes confiáveis com conteúdo irresponsável presente por todo lado nos meios digitais. Em tempos de excesso de informação, essa distinção é vital.
Outro ponto crítico é o direito autoral. As grandes IAs foram treinadas com todo o conteúdo produzido por jornalistas, cientistas, artistas e professores — sem pedir autorização, sem reconhecer autoria, sem remunerar os responsáveis. A apropriação massiva de conteúdo original para treinar modelos que depois o substituem, com base no mesmo conteúdo, é um paradoxo ético e econômico. Se não houver respeito ao direito já existente, corremos o risco de destruir a base de sustentação da criação intelectual e jornalística profissional. É preciso preservar marcos legais e a ética. A sociedade precisa decidir: queremos um futuro em que a inteligência artificial conviva com o jornalismo, a arte e a ciência, fortalecendo-os? Ou aceitaremos um modelo que os substitui — e, ao fazê-lo, empobrece o pensamento crítico, a diversidade de vozes, a verdade como bem público?
O jornalismo vive de perguntas difíceis. A IA, de respostas instantâneas. Mas nenhuma sociedade pode prosperar apenas com atalhos. É preciso que se avance, sem evitar as discussões necessárias inerentes a qualquer grande transformação do mundo. E que se analise o que estamos vivendo sob todos os ângulos e com todos os atores à mesa.
A cacofonia do nosso tempo
JOSÉ GALLÓ
Empresário e membro do Conselho Editorial da RBS
A probabilidade de você ler este texto até a última linha é pequena. Não porque ele é mais ou menos interessante: simplesmente porque ingressamos na Era da Pressa.
A leitura de um texto ou a atenção dedicada a uma conversa não são mais as mesmas. As pessoas mal conseguem articular uma ideia antes de serem interrompidas. Todos nós estamos ansiosos, sem paciência, fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Os debates se tornaram fragmentados. O raciocínio complexo tornou-se raridade. O tempo da reflexão, da análise, da qualidade das ideias se perdeu na urgência da reação imediata.
Essa pressa está comprometendo a vida. A leitura rápida de um título, de uma mensagem, e o consumo fragmentado das redes sociais podem nos levar a avaliações superficiais e decisões erradas. Pensamentos mais elaborados mal têm tempo de se formar antes de chegar mais um alerta sonoro ou a tela acender mais uma vez. Definir o melhor a fazer exige ponderação, raciocínio e tempo. Mas cedemos lugar ao imediatismo, à urgência e à superficialidade.
Há poucos dias alguém me perguntou se era verdade que os Estados Unidos iriam lançar uma bomba no Brasil. Mas de onde surgiu isso? Dos boatos, delírios e teorias conspiratórias que pipocam a todo momento no nosso dia a dia. Tudo vira verdade, e assim vai se levando a vida aos trambolhões. O que deveria provocar indignação nos alerta para algo ainda mais grave: a erosão da capacidade coletiva de discernir o real do absurdo.
A cultura da urgência está também nas ruas. Observo, com frequência, carros amassados na traseira — e invariavelmente há um celular no painel, distraindo o motorista. A pressa está em todo lugar, como no trânsito, nos cortes bruscos, nas ultrapassagens forçadas, nas sinaleiras não respeitadas, nos atropelamentos, nas mortes evitáveis.
É nesse cenário de ruído e urgência que o jornalismo responsável precisa reafirmar sua vocação essencial: a verificação rigorosa dos fatos, a capacidade de análise e de mostrar contexto. A imprensa não é mais uma voz no caos: é um lugar de pausa, de profundidade e de responsabilidade. Quando tudo grita e nada mais tem valor, o conteúdo criterioso de uma reportagem bem apurada pode ser a diferença. Em tempos de decisões afobadas e vida sob pressão, a informação confiável torna-se não apenas necessária, mas vital. Que o jornalismo sério permaneça como farol, na contramão da crescente cacofonia de distrações e ruídos irrelevantes.
08 25
Entre a polarização e o radicalismo
O excessivo tensionamento social no Brasil tem sido tema presente nas reuniões do Conselho Editorial da RBS. Aprofundamos essa discussão em nosso último encontro e gostaria de compartilhar com os leitores alguns pontos centrais da nossa conversa.
Virou lugar-comum apontar a polarização como um dos grandes males do país e de outras democracias. A disputa política entre dois polos, no entanto, não é danosa em si. A tragédia está na radicalização. É quando um dos lados ou ambas as correntes que concentram a preferência dos cidadãos passam a desconsiderar a possibilidade de ao menos ouvir e respeitar os argumentos do grupo antagonista e de debatê-los de forma civilizada, especialmente nas redes sociais.
A polarização pode apenas mostrar divergências sobre os meios para atingir um objetivo comum, como o desenvolvimento econômico. Como exemplo, pregar o liberalismo como o melhor caminho ou um Estado maior e indutor. Após o cotejo das propostas e diante dos fatos, em
NELSON P. SIROTSKY Publisher e presidente do Conselho da RBS
uma democracia é no voto que os cidadãos firmam ou mudam de opinião. Na radicalização, reina a incapacidade de refletir sobre os pressupostos da visão contrária e mesmo sobre situações indesmentíveis. O adversário vira inimigo e alimentam-se a intolerância e a repulsa.
A radicalização é destrutiva. Divide a sociedade e gera impasses que travam pautas que deveriam ser de interesse coletivo. A intransigência faz a política falhar como ponte para o diálogo. Diante da radicalização, a democracia tem maior dificuldade de mediar conflitos. As consequências nefastas transbordam, em um ciclo realimentado pelas redes sociais, que contribuem para a formação de bolhas de pensamento e privilegiam conteúdos que despertem emoções intensas entre as partes. Não há quem não conheça casos de relações familiares ou de amizade quebradas por essa circunstância.
O jornalismo profissional é, por vezes, acusado pelos apoiadores mais engajados dos polos de ter lado — e sempre é o oposto de quem desfere a crítica. Trata-se de uma compreensão equivocada, provocada pela paixão ideológica. Notícias pontuais ou uma análise que desagrade a uma das vertentes não significam adesão ou posição contrária sistemática. O fato é um acontecimento verificável, ainda que a notícia sobre ele contemple diferentes versões. E, a partir dele, é possível elaborar opiniões distintas, desde que responsáveis e embasadas.
O propósito do Grupo RBS é fazer um jornalismo objetivo e consequente, que seja um porto seguro de certificação da realidade. Isso não exclui, ao mesmo tempo e em espaços bem identificados, apresentar diferentes pontos de vista sobre o mesmo fato. A pluralidade é bem-vinda. Assim como é salutar, para o cidadão, estar aberto a ser exposto a informações e opiniões contrárias às suas convicções. Tudo isso faz parte do debate democrático, que deve permear a disputa política construtiva e as relações pessoais. Jornalismo responsável noticia e comporta a polarização nos limites da civilidade, com o cuidado de não ser usado para alimentar a radicalização.
08 25
Tiktokização da notícia
RAQUEL RECUERO
Professora, pesquisadora e membro do Conselho Editorial da RBS
Há algumas semanas, a pesquisa Digital News Report divulgou um dado impressionante: 44% dos jovens consomem notícias principalmente por meio de plataformas de redes sociais, como Instagram e TikTok. Essa mudança no consumo cresce em todo o mundo, tornando essas plataformas a principal porta de entrada de conteúdo, superando, por exemplo, a televisão. O dado desenha um importante desafio: ao serem percebidas como espaços informativos e não de entretenimento, essas plataformas usurpam o lugar do jornalismo sem cumprir sua função. Seus conteúdos
seguem lógicas algorítmicas que priorizam engajamento e viralidade: ou seja, são curtos, simplificados e recheados de emoção para captar atenção. Não por acaso, a mesma pesquisa mostrou que 58% dos participantes têm dificuldade de diferenciar o que é real do que não é nessas plataformas. Em contextos assim, a tendência é buscar aquilo que nos conforta emocionalmente, e não o que foi verificado e contextualizado. A verdade passa a ser uma questão de opinião.
O problema é que, para exercer a cidadania e compreender seus espaços sociais, as pessoas continuam precisando de conteúdos apurados, contextualizados e curados conforme sua relevância. Essa é a função do jornalismo: desenhar o espaço social, visibilizar o que importa e servir ao interesse público — o oposto da lógica das plataformas. No entanto, por uma questão de sobrevivência, o que temos hoje é, cada vez mais, uma caminhada rumo à “tiktokização” da notícia. Na busca por sobrevivência, os conteúdos publicados nesses espaços tornam-se mais apelativos, mais voltados para o entretenimento e menos relevantes. Editorias cada vez mais se veem obrigadas a criar vídeos de 15 segundos no TikTok, com edições ágeis, emojis e trilhas dramáticas. Embora isso ajude na distribuição, acaba por diluir temas complexos e atuais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, os desmandos de Donald Trump, a situação política do Brasil e mesmo a situação de Gaza, polarizando opiniões.
A lógica do engajamento acaba moldando a notícia.
O jornalismo precisa resistir à lógica do clique. Precisa focar naquilo que é necessário para as diversas realidades em que atua: na localização, no contexto, na construção do debate público para cada população. É necessário fugir da sedução do viral, da simplificação apressada, do apelo emocional, da polarização. Talvez esse jornalismo não seja viral. Mas é ele que ancora o debate público minimamente qualificado e, junto a ele, qualquer possibilidade real de democracia.
Felca
Boa parte de nossa conversa pública, desde o último fim de semana, foi pautada pelo youtuber Felipe Bressanim Pereira, de 27 anos. O Felca. Seu vídeo de 50 minutos a respeito de adultização e mesmo sexualização de crianças na internet já disparou suspensão de perfis nas redes, operações de busca e apreensão e pelo menos uma prisão. Fez mais do que isso: da esquerda representada pela deputada federal Erika Hilton à direita de seu colega na Câmara Nikolas Ferreira, todo mundo elogiou. Felca rompeu a polarização.
Na imprensa, nós precisamos entender por quê. O assunto não é novo. As redes são lenientes com a exploração de menores há bastante tempo. No caso da Meta, o fato de que a empresa tinha consciência de que distribuía vídeos que levavam à automutilação de adolescentes foi denunciado por um ex-funcionário no Congresso Americano há anos. Também nesta semana, vazou que o código de ética da própria Meta para IA diz que está tudo bem deixar a inteligência artificial ter conversas românticas com menores. Só que o problema
PEDRO DORIA
Jornalista, cofundador do Canal Meio e membro do Conselho Editorial da RBS
O que deu a Felca a credibilidade que outros não conquistaram?
não é novo. A imprensa profissional trata dele há muito tempo e não está sozinha. O Ministério Público, ONGs altamente capacitadas, muita gente se engajou para denunciar.
E, ainda assim, sempre bateu na muralha da extrema direita.
Alguém gritava: “Estão querendo censurar as redes”, e isso bastava. Jamais se tratou de censura.
O que deu a Felca a credibilidade que outros não conquistaram?
Primeiro, organizou seu discurso de forma a não antagonizar a direita. Pelo contrário, é um discurso conservador de defesa das crianças. Isso ajuda. Depois, empatia. Felca sente, se choca. Ele faz o papel de um espectador normal. O fato de não parecer jornalista, não falar como jornalista, neste caso incrivelmente o ajuda. Ele é um cidadão indignado — a barreira da autoridade constituída não se põe. Os sinais que levantam as defesas do público antissistema não estão lá. Pois é: na cultura da internet, uma aparência amadora dá credibilidade.
Nós, jornalistas, temos um bocado a aprender sobre comunicação digital.
08 25
A verdade custa — e não só dinheiro
ANIK SUZUKI CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS
Vivemos em um tempo de pressa. As informações chegam em avalanche, as opiniões se formam em segundos, a ansiedade por se posicionar é maior do que a paciência de esperar os fatos se revelarem. E uma informação, como afirmou o historiador Yuval Noah Harari em sua recente passagem pelo Brasil, não significa necessariamente verdade.
Buscar a verdade — cada dia mais desafiada por certezas previamente formuladas, generalizações, ideias fixas e outros vieses — tem um custo, que vai muito além do financeiro. Implica tempo para conhecer e avaliar as diferentes perspectivas em torno de um fato, distinguir opinião e informação e checar
É preciso vencer a comodidade de se fechar em bolhas e de recusar o contraditório.
os dados em fontes confiáveis — e disposição para refletir e, quem sabe, rever convicções. Mas quem está disposto a pagar esse preço?
Muito da explicação de tantas pessoas se contentarem em acreditar em versões e desconsiderarem fatos está na nossa impaciência coletiva. Preferimos uma versão parcial rápida, às vezes fantasiosa, mas que se ajusta às nossas teses e se torna opinião instantânea em nossas redes. Nesse emaranhado, a verdade se torna nebulosa, e o fato em si já nem tem importância.
O jornalismo profissional, se praticado corretamente e com qualidade, deve assumir esse alto custo para buscar a verdade, consciente do enorme desafio de ser ágil sem se render à pressa. Precisa preservar a pluralidade de vozes, evitando o jornalismo declaratório e a influência demasiada do barulho das redes, e investir ainda mais, continuamente, em apuração e checagem.
Já a sociedade, ou seja, cada um de nós, também tem o seu papel, que inclui disposição para ouvir, comparar versões, questionar e admitir que uma opinião formada hoje pode mudar amanhã, à luz de novas informações. É preciso vencer a comodidade de se fechar em bolhas e de recusar o contraditório. Não ter pressa em sentenciar como “mentira da mídia” um fato que ainda está se desdobrando, sobre o qual precisam se pronunciar os envolvidos e as fontes especializadas. Contribuir mais, acusar menos.
Buscar a verdade pode ser um processo caro e trabalhoso, mas vale a pena. A informação de qualidade é resultado, sim, de apuração responsável dos fatos, pluralidade e independência, mas também de boa vontade, atitude e integridade.
08 25
Informação, análise e opinião
Você concorda com todas as opiniões emitidas por colunistas e comunicadores da RBS? A resposta, quase certamente, é não. A minha também. E isso é muito saudável. Posso ler uma coluna em Zero Hora, assistir a um comentário na RBS TV ou na Gaúcha e, a cada vez, concordar ou discordar. Essa divergência não apenas é legítima: ela é parte do papel do jornalismo profissional, que abre espaço para diferentes vozes e garante ao público a liberdade de formar sua própria visão de mundo.
Ainda assim, nem sempre o público distingue com clareza três pilares do ofício jornalístico: informação, análise e opinião.
Informação é o núcleo duro de nossa atividade. São os fatos, apurados e checados com rigor, apresentados sem adjetivos, nem interpretações enviesadas. É a realidade. É esse compromisso que distingue a notícia profissional do rumor e da desinformação.
MARTA GLEICH Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS
É nesse território que repórteres sustentam seu trabalho: entre o fato e o contexto.
A análise é o esforço de contextualização. Ela situa o fato em seu cenário mais amplo, revela bastidores, explica causas, aponta consequências prováveis. Ajuda a compreender não apenas o que ocorreu, mas por que ocorreu. É nesse território que repórteres sustentam seu trabalho: entre o fato e o contexto. Não opinam, mas informam e analisam.
Já comunicadores e colunistas têm como ofício justamente dar suas opiniões, interpretações, perspectivas e juízos sobre os fatos — desde que com responsabilidade e baseados em apurações de dados reais. Sua função não é apenas comentar, mas provocar reflexão, desafiar certezas, abrir caminhos de debate. Um veículo de comunicação que se pretende relevante não pode abrir mão desse espaço de ideias, pois nele reside a pluralidade que enriquece a esfera pública.
É importante, no entanto, ressaltar: a opinião dos colunistas não se confunde com a opinião do veículo. Cada um escreve sob sua responsabilidade, como expressão de sua trajetória, de sua visão de mundo, de suas convicções. A voz institucional de um jornal se manifesta unicamente em seus editoriais, e reflete a opinião da empresa.
Essa separação entre tipos de conteúdo é uma marca de seriedade. É o que garante ao leitor compreender quando está diante de uma notícia e quando está diante de uma opinião. Preservar essa fronteira, em um cenário de overdose de informação, é reafirmar o compromisso essencial da imprensa: ser, ao mesmo tempo, fonte de conhecimento confiável e arena de ideias vigorosas.
EXPEDIENTE :
Design editorial e diagramação
Carolina Fillmann por Design de Maria
Revisão
Daniela Neu
Impressão
Gráfica Odisséia
Este livro foi editorado nas fontes Cormorant Garamond e Gilroy. Impresso em papel Pólen 90g/m 2 e Cartão 300g/m 2 na Gráfica Odisséia.