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Livro Conselho Editorial 2

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Um grupo para aperfeiçoar o jornalismo profissional

Ao completar dois anos de atividade, o Conselho Editorial do Grupo RBS lança a segunda coletânea de colunas publicadas todo fim de semana em Zero Hora, escritas por seus conselheiros e convidados. Esses textos documentam alguns dos temas que pautaram os debates dos conselheiros de setembro de 2023 a agosto de 2024, e sua publicação neste livro tem o propósito de dar ainda mais transparência à atividade da RBS junto aos seus públicos.

Criado em agosto de 2022, o Conselho, liderado pelo publisher Nelson P. Sirotsky, conta com integrantes internos e externos à empresa e tem como objetivo aperfeiçoar constantemente a linha editorial de RBS TV, rádio Gaúcha, Zero Hora, Pioneiro, Diário Gaúcho e GZH.

Ciente da responsabilidade que tem com os milhões de telespectadores, usuários, leitores e ouvintes, o Grupo RBS busca, no Conselho Editorial, tornar seu jornalismo mais plural, equilibrado, próximo da comunidade e comprometido com o desenvolvimento da sociedade gaúcha e com a democracia.

Marta Gleich

Secretária do Conselho Editorial e diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS

Conselho Editorial

NELSON P. SIROTSKY

Empresário dedicado ao setor de mídia há 50 anos, presidiu a RBS por 21 anos. Hoje, atua como presidente do Conselho de Gestão e da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho e também como publisher à frente do Conselho Editorial. Em 2012, fundou a Maromar Participações, holding de investimentos de sua família. Foi conselheiro da Algar Telecom e da Zenvia. Com forte atuação associativa, presidiu a Associação Nacional de Jornais (ANJ) por dois mandatos, além de ter participado de entidades como Abert, Endeavor, Instituto Millenium e ADVB. Graduado em Administração de Empresas pela UFRGS, soma inúmeros cursos no Brasil e no Exterior. É coautor do livro O Oitavo Dia (Primeira Pessoa).

Publisher Conselheiros

ANIK SUZUKI

Fundadora e CEO da ANK Reputation, consultoria de gestão de reputação. Reúne mais de 20 anos de experiência em comunicação, gestão de reputação de empresas, avaliação e gestão de risco de imagem e preparação de lideranças. Graduada em Jornalismo pela PUCRS, com MBA pela Fundação Dom Cabral e pós-MBA pela Kellogg School of Management. Atuou por 12 anos no Grupo RBS, onde foi produtora de Economia em Zero Hora, diretora de Comunicação Corporativa e membro da Diretoria-Executiva e do Comitê Editorial. Como voluntária, é diretora da Fundação Iberê Camargo e da 14a Bienal do Mercosul. Foi vice-presidente da ADVB/RS e conselheira da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho.

GLADSTONE CAMPOS
CARIN MANDELLI

ALINE

CLAUDIO TOIGO FILHO

Presidente-executivo do Grupo RBS. Bacharel em Administração de Empresas com ênfase em Marketing pela UFRGS, é pós-graduado em finanças pela PUCRS. Tem MBA pela University of Southern California (EUA) e especialização pela London Business School (Londres). Participou do Jim Collins Lab, no Colorado (EUA), e de projetos com renomados especialistas em gestão, como Ram Charan e John Davis. Tem vasta experiência na gestão de negócios, incluindo passagens por diversos cargos de liderança em empresas da RBS, além de entidades de classe, como Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Associação

Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão e Associação Riograndense de Propaganda.

Gerente-executiva de Produto Digital do Grupo RBS, é responsável pela gestão do portfólio de produtos de Jornalismo e Esportes com foco em geração de novas receitas e na evolução da experiência dos usuários no ambiente digital de GZH, Zero Hora e rádio Gaúcha. Desde 2007 na RBS, já liderou times de produção e distribuição de conteúdo, audiência e engajamento de assinantes e a transformação digital na Redação Integrada. Coordenou as coberturas digitais da Copa do Mundo 2014 e da Olimpíada 2016 e foi uma das enviadas do Grupo RBS à Copa do Mundo 2018 na Rússia. Formada em Jornalismo pela PUCRS, tem MBA em Novas Mídias e em Gestão Estratégica de Negócios pela ESPM.

JORGE AUDY

Superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do Tecnopuc. Membro do Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação da Presidência da República. Doutorado em Sistemas de Informação e pós-doutorado na Associação Internacional de Parques Científicos e Áreas de Inovação (Iasp), na China e na Espanha. É membro de diversos Conselhos, como de Diretores Internacionais da Iasp, de Diretores da Triple Helix Association e do Pacto Alegre. Recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico na categoria Comendador, a Comenda de Inovação de Porto Alegre e o título de Cidadão Emérito de Porto Alegre.

JOSÉ GALLÓ

Com mais de 40 anos de experiência no varejo e graduado em Administração pela FGV, é fundador da Quartz Investimentos, vice-presidente do Conselho do Instituto Caldeira e membro dos Conselhos da Associação Hospitalar Moinhos de Vento e do Grupo Sim. Foi CEO e presidente do Conselho da Lojas Renner e membro dos Conselhos da Ultrapar, do Itaú, da Localiza, da SLC e do Banco Real. Sob sua gestão, como CEO, a Lojas Renner passou de uma rede de varejo de moda com oito lojas para uma corporação com mais de 550 operações no Brasil, no Uruguai e na Argentina. É autor do livro O Poder do Encantamento (Planeta Estratégia).

FABIANO PANIZZI
LUIGI SODRÉ
BITENCOURT/ABRUC
RAUL KREBS

MARCELO RECH

Consultor e colunista de Zero Hora. Por 27 anos, foi executivo do Grupo RBS, onde atuou como repórter, diretor de Redação de ZH, diretor-executivo de Jornalismo e vice-presidente Editorial e Institucional. Formado em Jornalismo, tem cursos de especialização no Media Management Center da Kellogg e em Media Strategy na Harvard Business School. Preside desde 2017 a Associação Nacional de Jornais (ANJ), faz parte do board da World Association of News Publishers e é ex-presidente do Fórum Mundial de Editores. Vice-presidente do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).

RICARDO GANDOUR

Jornalista e engenheiro, com mestrado em Ciências da Comunicação (USP) e extensão em Administração (FGV), Gestão (Insead) e Publishing (Stanford). Foi pesquisador visitante na Columbia University (EUA). É professor na ESPM e membro dos conselhos consultivos do Palavra Aberta, Columbia Global Centers, Insper e Instituto TornaVoz. Foi diretor de Jornalismo da Rádio CBN, do Grupo Estado, do Diário de S.Paulo e de publicações na Editora Globo. No Grupo Folha, foi repórter, editor e diretor-fundador da Publifolha. Lançou Jornalismo em Retração, Poder em Expansão – A segunda morte da opinião pública (Summus).

MARTA GLEICH

Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS e membro do Comitê Executivo da empresa. É responsável pelos conteúdos da RBS TV, da rádio Gaúcha, dos jornais Zero Hora, Diário Gaúcho e Pioneiro e de GZH.

Jornalista formada pela UFRGS, tem quatro pós-graduações: MBA em Transformação

Digital e Novos Negócios (PUCRS), XBA – Programa Executivo Internacional de Gestão Exponencial da StartSe University e mestrados profissionalizantes em Jornalismo

Digital e Gestão de Empresas Jornalísticas pelo IICS de SP. Coordena o Comitê Editorial da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Nacional de Editoras de Revistas (Aner).

RODRIGO LOPES

Comunicador do Grupo RBS, é colunista de Zero Hora e GZH e comentarista da RBS TV e da rádio Gaúcha. Desde 1996 na RBS, atuou como repórter e foi editor de Mundo e de Capa de ZH. Coordenou o Grupo de Investigação (GDI) em 2016. Como enviado especial, fez mais de 30 coberturas internacionais, entre elas as guerras no Líbano, na Líbia, no Iraque, na Ucrânia e em Israel. Atuou como correspondente em Brasília entre 2022 e 2023. Formado em Jornalismo pela UFRGS, tem master em Direção Editorial pelo IICS e mestrado em Ciências da Comunicação pela Unisinos, além de pós-graduações em Jornalismo Ambiental, Jornalismo Literário e Estudos Estratégicos Internacionais. É autor dos livros Guerras e Tormentas e Trem para Ucrânia (BesouroBox).

IVAN PACHECO
EMI SHIMADA
RAUL KREBS
FRANCO RODRIGUES/DIVULGAÇÃO

Colaboradores

No último ano, uma vez a cada mês, uma pessoa de fora do Conselho Editorial foi convidada para contribuir com um artigo sobre jornalismo. Os profissionais a seguir, que escreveram esses textos, também têm seu conteúdo reproduzido nesta coletânea.

ELIS RADMANN

Fundadora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO). Cientista social e política graduada na UFPel e mestre em Ciência Política pela UFRGS. Conselheira do Conselho Consultivo da Federasul e da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM). Coordenou a pesquisa Epicovid-19 no RS.

EUGÊNIO BUCCI

Jornalista, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP e superintendente de Comunicação Social na mesma universidade. Escreveu, entre outros livros, Sobre Ética e Imprensa (Companhia das Letras) e Existe Democracia sem Verdade Factual? (Estação das Letras e Cores).

MARIA ISABEL OLIVEIRA/O GLOBO
LUCIANO SCHWANZ

FLÁVIO LARA RESENDE

Advogado e jornalista, com pós-graduação em Administração Financeira e MBA em Finanças.

Diretor-geral do Grupo Bandeirantes de Comunicação.

Preside a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e o Comitê Jurídico da Associação Internacional de Radiodifusão (AIR).

MARLOVA JOVCHELOVITCH NOLETO

Diretora e representante da Unesco no Brasil, mestre em Serviço Social pela PUCRS, onde atuou como professora universitária. Foi presidente do Conselho Nacional de Assistência Social (Cnas) e conselheira das fundações Maurício Sirotsky Sobrinho e Abrinq e do Idis. É autora de livros sobre terceiro setor, serviço social, municipalização e direitos humanos.

PATRICIA BLANCO

Relações públicas pela Faculdade Cásper Líbero, com pós-graduação em Marketing pela ESPM, é presidente-executiva e do Conselho Diretor do Instituto Palavra Aberta. É vice-presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional e membro do Conselho de Ética do Conar e do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo.

PEDRO DORIA

Jornalista, escritor e palestrante. Foi editor-executivo de O Globo e editor-chefe de digitais de O Estado de S. Paulo. Fundou a startup Meio, influente veículo do novo jornalismo digital. Também assina uma coluna semanal no Globo e na CBN. Estudou em Stanford e é autor de best-sellers sobre história do Brasil — o último, Fascismo à Brasileira (Planeta).

NILSON VARGAS

Gerente de Jornalismo de Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro, GZH e rádio Gaúcha. É jornalista graduado pela UFSM e pós-graduado em Teoria da Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. Foi editor na revista Veja e em veja.com. Na RBS, também atuou como editor-chefe do Diário Catarinense e de Zero Hora.

RODRIGO MÜZELL

Gerente-executivo de Jornalismo Digital do Grupo RBS, é responsável pelo conteúdo de GZH, Zero Hora e rádio Gaúcha nos ambientes digitais. Formado em Jornalismo pela UFRGS, tem master em Jornalismo Digital pelo IICS e mestrado em Comunicação pela PUCRS e foi fellow do programa AFPP no jornal The Philadelphia Inquirer (EUA) em 2009.

MICHELL SANTANA
ABERT/DIVULGAÇÃO
CAROLINA SALAZAR
LEO MARTINS
MILA PETRILLO/UNESCO
FERNANDO BÓSIO

03/09/23 | NÃO SERÁ PELO TIKTOK

10/09/23 | JORNALISMO E DESENVOLVIMENTO

17/09/23 | REALIDADE E PERCEPÇÃO

24/09/23 | AS REDES, O JORNALISMO E AS ENCHENTES

1 O /10/23 | JORNALISMO COM EMOÇÃO

08/10/23 | A PERSPECTIVA QUE IMPORTA

15/10/23 | JORNALISMO EM TEMPOS DE GUERRA

22/10/23 | QUANDO O JORNALISMO E A EDUCAÇÃO

SE UNEM EM PROL DA DEMOCRACIA

29/10/23 | OS RISCOS DA “IMPORTAÇÃO” DA GUERRA

05/11/23 | CULTURA DA EDUCAÇÃO E A IMPRENSA

12/11/23 | CONEXÃO COM O ESTADO

19/11/23 | JORNALISMO, O ELOGIO DA INCERTEZA

26/11/23 | A FALTA QUE FAZ UM PRÊMIO

03/12/23 | TESTE DE IA

10/12/23 | OS BASTIDORES DAS NOTÍCIAS

17/12/23 | UM DEBATE NECESSÁRIO

25/12/23 | CONFIANÇA PARA CONSTRUIR E REALIZAR

1 O /01/24 | CRENÇAS RENOVADAS

07/01/24 | VÍDEO E A BATALHA POR ATENÇÃO

14/01/24 | UM FENÔMENO PREOCUPANTE

21/01/24 | VINTE EDIÇÕES DE UM GRANDE PRÊMIO

28/01/24 | JORNALISMO E MEIO AMBIENTE

04/02/24 | MAIS UM DESAFIO PARA A EDUCAÇÃO

11/02/24 | A AMEAÇA DA DESINFORMAÇÃO, UM PERIGO REAL

18/02/24 | CLIMA EJORNALISMO

25/02/24 | AO LADO DOS GAÚCHOS

03/03/24 | IMPRENSA E LIBERDADE

10/03/24 | A IMPRENSA PRECISA EXISTIR

17/03/24 | ÁGORA E FAROL

24/03/24 | SEM INFORMAÇÃO, HÁ DESINFORMAÇÃO

31/03/24 | SETE ENSINAMENTOS DO FUNDADOR DO WAZE

07/04/24 | É PERMITIDO DISCORDAR

14/04/24 | EDUCAÇÃO, INOVAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO

21/04/24 | IA NÃO MATA, MAS TRAZ RISCOS

28/04/24 | UMA CERTEZA PARA O JORNALISMO

05/05/24 | JORNALISMO EM TEMPOS DE CATÁSTROFE

12/05/24 | VAMOS REERGUER O NOSSO ESTADO

19/05/24 | NUNCA ESQUECEREMOS

26/05/24 | OS RECADOS DA TRAGÉDIA

02/06/24 | AMÁLGAMA DE DISSONÂNCIAS

09/06/24 | PRA CIMA, RIO GRANDE!

16/06/24 | A FORÇA DO STREAMING

23/06/24 | O JORNAL IMPRESSO VAI ACABAR?

30/06/24 | CUIDAR DA REPUTAÇÃO DO RS

07/07/24 | O EQUILÍBRIO ENTRE O URGENTE E O IMPORTANTE

21/07/24 | O JORNALISMO E AS TRAGÉDIAS

28/07/24 | COMPROMISSO COM A RETOMADA

11/08/24 | QUANDO ACABA A RECONSTRUÇÃO DO RS?

18/08/24 | O QUE O PÚBLICO DESEJA E O QUE O JORNALISMO DEVE ENTREGAR

25/08/24 | ELEIÇÕES AINDA MAIS DIGITAIS

Não será pelo TikTok

Em fevereiro de 2020, elevei a barra do caradurismo e, ao fim de uma conversa no jornal The Washington Post com seu então editor-executivo, Martin Baron, pedi que escrevesse uma mensagem ao GDI, o Grupo de Investigação da RBS. Baron era editor-chefe do The Boston Globe quando uma equipe investigativa desvendou os escândalos de abusos de crianças na Igreja Católica nos EUA – uma epopeia jornalística retratada em Spotlight: Segredos Revelados, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2016.

“Desejo a vocês o melhor – força e determinação”, escreveu Baron no bilhete que decora a parede da Redação Integrada onde se localiza o GDI. Força e determinação são, de fato, dois elementos cruciais a mover investigações jornalísticas, e a atuação do GDI dá repetidas mostras disso, como na recente série de reportagens de Giovani Grizotti, um ás desta especialidade, sobre os desmandos nas escalas de médicos do Samu.

É preciso força e determinação – muita persistência, enfim – para varar madrugadas diante de prédios públicos e controlar os horários de entrada e saída de funcionários de um serviço essencial do qual dependem vidas.

Sem força e determinação, os obstáculos de uma investigação jornalística – portas fechadas, ameaças e intimidações físicas e legais, manobras diversionistas e pressões de toda ordem – não seriam transponíveis. Devese, porém, separar denúncia e investigação. A segunda, como no caso do Samu, começa pela primeira. Nos últimos anos, registre-se, vazamentos seletivos confundiram-se com fatos confirmados, quando, na verdade, eram denúncias a servir de lenha ideológica na fogueira de radicalismos.

Sem força e determinação, os obstáculos de uma investigação jornalística não seriam transponíveis.

No Conselho Editorial da RBS, além dos riscos do denuncismo, a densidade da apuração jornalística e sua relevância social são temas recorrentes. O GDI combina ambas, ainda que por vezes os atingidos pela apuração e os que vivem em plácida letargia com desmandos torçam o nariz para o papel de vigilância da imprensa. Investigar é um elemento definidor da atividade jornalística, que exige recursos e apoio da sociedade, até porque as reportagens que dela decorrem não são a melhor forma de se fazer amigos em determinados círculos.

Também por causa desse ônus, não serão os TikToks da vida que investirão em grupos de investigação, o que só reforça o papel insubstituível dos veículos jornalísticos. Uma reportagem investigativa como a do Samu é o antípoda da tiquetoquenização da comunicação, pela qual videozinhos rápidos são criados apenas com a intenção de prender o usuário em conteúdos supérfluos e inúteis.

Muita força e determinação ao GDI, portanto.

MARCELO RECH
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

09 23

Jornalismo e desenvolvimento

ELIS RADMANN

Cientista social e política, diretora-executiva do Instituto Pesquisas de Opinião

A lista de prioridades do governo estadual para acelerar o desenvolvimento foca na manutenção das contas públicas, na modernização da máquina, em ações de desburocratização e na evolução de índices econômicos, de saúde, de segurança e de educação. Essas medidas são caras e reconhecidas, tanto pelo setor produtivo como pela população, como medidas de manutenção e crescimento, dentro de uma mesma tendência.

Entretanto, as pesquisas quanti e quali realizadas pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO)

sistematizaram as expectativas da opinião pública quando o tema é desenvolvimento econômico. A população acredita que o desenvolvimento virá através da ampliação de empregos, e o setor produtivo aposta na diminuição da carga tributária e na desoneração da folha. Quando se fala em desenvolvimento, o ponto de convergência passa pelo crescimento das cidades. Se as cidades crescem, o Estado se desenvolve!

Para os entrevistados, a jornada necessária para que o desenvolvimento ocorra precisa respeitar e valorizar a força de cada região, e o jornalismo precisa contribuir com o fortalecimento dessa jornada.

A primeira tarefa é motivar o Estado a ser um agente de fomento, um indutor do crescimento e fornecedor de inteligência estratégica regionalizada, tecnologia e rede de relacionamento, conectando as várias regiões e potencializando o mercado interno gaúcho.

É necessário detectar e potencializar as vocações regionais, incentivando a produção local, apostando em cadeias produtivas e colocando os municípios como protagonistas. O jornalismo, além de manter o palco para o debate, pode conectar as pontas soltas do processo.

É vital que o jornalismo apoie políticas públicas que estimulem a autoestima das cidades, com ações de interação e cooperação entre as pessoas. E também dê atenção às políticas de capacitação para a população mais vulnerável, integrando-as em um novo arranjo produtivo local.

O associativismo é reconhecido como uma alavanca de crescimento local e regional, que se conecta com as premissas do povo gaúcho, e precisa receber sempre a cobertura atenta do jornalismo.

Uma política de desenvolvimento econômico local exige um planejamento integrado entre os diversos atores estaduais e municipais e boa vontade dos políticos, e isso precisa estar presente na pauta do jornalismo!

Realidade e percepção

Em todos os momentos da nossa vida, seja em nível pessoal ou empresarial, não basta parecer, tem que ser. Essa máxima se aplica também à imprensa, que deve sempre ir em busca do que é, da realidade, e não da percepção da realidade. E por que estou escrevendo sobre isso? Porque a percepção da realidade pode gerar uma distorção na interpretação das coisas. Se um órgão de imprensa deixa de fazer seu papel de buscar os fatos com todos os cuidados e coloca no ar algo somente em cima da percepção, terá um problema sério de credibilidade.

Neste contexto, entra em questão algo muito danoso: as fake news e as mídias sociais sem comprometimento com a verdade – que muitas vezes não tratam nem de uma percepção, mas de uma distorção da realidade. Em um fenômeno cada vez mais difícil de controlar, as pessoas acreditam naquele conteúdo e são enganadas. Pessoalmente, acredito que no longo prazo haverá uma decepção do público, levando a um amadurecimento em relação às fake news. Minha avaliação é de que o pico de fake news, felizmente, já passou. Se estiver correto, o próximo ciclo

A vigilância e a ação contra as fake news precisam ser constantes.

será extremamente positivo, porque o dano em termos de reputações pessoais e profissionais até aqui foi amplo. A vigilância e a ação contra as fake news precisam ser constantes. A gente não deve se acomodar quando algo distorcido acontece. Especialmente empresas com boa reputação, que fazem um bom trabalho de sua marca e sua imagem, não devem deixar passar uma inverdade. E uma crise a partir de informações mentirosas é um grande teste, mas embute uma oportunidade para se praticar ainda mais a ética, a proximidade e o envolvimento com a comunidade. Empresas guiadas por esses valores são mais sustentáveis e resistentes às fake news

Quando uma inverdade for disseminada, pare e identifique exatamente qual é o problema. Qual é a percepção errada? E o que é a realidade? Ouça todos os lados. Separe o que é realidade e o que é a camada emocional que pode piorar as reações ao que aconteceu. Não aja por impulso, evite o contencioso, trabalhe em cima de fatos e dados, dedique tempo para isso. Ataque o problema, não a percepção sobre o problema.

A imprensa profissional e o jornalismo investigativo – como o praticado pelo GDI do Grupo RBS – trabalham justamente em cima da busca da realidade, dos dados, e não com percepções. Nos comentários dos assinantes junto às reportagens, percebo que já há uma conscientização maior, colocando suas observações em cima dos fatos, e não com base em achismos. É esse o caminho a se buscar.

As redes, o jornalismo e as enchentes

Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS

Acompanho jornalistas e comunicadores gaúchos em diferentes plataformas e observei que, com a cobertura das enchentes no Estado, alguns deles multiplicaram em dezenas de milhares o número de seguidores e de engajamento nas redes sociais. Eles estavam nas comunidades cobrindo os impactos da tragédia e souberam usar bem as redes para complementar o trabalho jornalístico que estavam fazendo, mostrando bastidores e outros recortes dos acontecimentos, quase de forma ininterrupta.

Nos locais atingidos pelas chuvas, os moradores recorreram ao jornalismo e a seus profissionais não apenas como canal com credibilidade

para obter informações confiáveis, mas também para serem representados. Em vídeos, vi inúmeras pessoas abordando as equipes para sugerir pautas, fazer apelos às autoridades e a todos aqueles que desejavam ajudar, porque não estavam se sentindo ouvidas em suas necessidades ou estavam temerosas de serem preteridas no atendimento pelos poderes públicos.

A imprensa estimulou as doações e o trabalho voluntário e ainda ajudou nos direcionamentos sobre quais itens eram os mais demandados nos diferentes momentos. O jornalismo foi – e está sendo – parte da solução, seja como meio para o poder público chegar até os cidadãos e vice-versa, seja para dar alcance às demandas das pessoas.

Vi ainda um jornalismo empático, próximo das pessoas e, muito importante, sem os exageros e demagogias da exploração fácil de tamanha vulnerabilidade. E essa reação do público nas redes reforça para mim que o jornalismo de qualidade é sempre soberano e se potencializa pela complementariedade entre as diferentes plataformas. As mudanças tecnológicas, industriais, culturais e de comportamento têm impacto em como a informação circula, mas nenhuma sugere que podemos renunciar ao bom jornalismo. Quando um fato tem alto impacto nas nossas vidas, não é suficiente o vídeo compartilhado pelo amigo ou os comentários soltos, descontextualizados, que passam na nossa timeline.

Várias vezes ouvi do Nelson Sirotsky, publisher da RBS, que o jornalismo cresce nos grandes momentos, e essa frase nunca perde atualidade. Sempre que precisamos de credibilidade, agilidade e confiança é nos veículos e profissionais de imprensa que nos apoiamos. O que para mim reforça a ideia de que não há conflito ou canibalização entre plataformas, pelo contrário, há, sim, um enorme potencial de ganhos para todos.

Jornalismo com emoção

Na última terça-feira (26), o Conselho Editorial do Grupo RBS e líderes de Jornalismo e Esporte da empresa assistiram a um vídeo que resumiu a cobertura da tragédia no Vale do Taquari. As imagens exibiam o esforço de profissionais para chegar a locais de onde todos queriam sair, o abraço entre comunicadores e vítimas e o desabafo de profissionais que voltaram para casa com o coração apertado.

– Ao captar imagem em lugares assim, não tem como escolher muita coisa. É muita desgraça. Tem de verdadeiramente viver: não empatia de falar, não para que outros vejam. Empatia de sentir o que as pessoas estão passando – refletiu, emocionado, o repórter-cinematográfico Everton Chrisóstomo, o Tigrão, como é chamado pelos colegas.

Ao final de cinco minutos de vídeo, todos na sala também estavam comovidos. As imagens espelharam a entrega pessoal de jornalistas, produtores, cinegrafistas, fotógrafos, técnicos, motoristas e administrativos.

e membro do Conselho Editorial da RBS

As experiências em zonas de guerras me convencem de que não há como separar o jornalista do ser humano.

Um debate antigo no jornalismo diz respeito à divergência entre objetividade e subjetividade. A primeira postula que o repórter deve afastar-se de um episódio e ater-se a fatos e dados. A segunda defende que, como ser humano, essa dissociação seria impossível. O simples gesto de apontar a câmera para um local e não para outro já estaria “contaminado” pela subjetividade.

As experiências em zonas de guerras me convencem de que não há como separar o jornalista do ser humano. Fazê-lo significaria não apenas faltar com a transparência como privar o público de metade da história. Não se trata de prescindir do rigor na apuração. Nem de resvalar para o sensacionalismo, sintoma da decadência da credibilidade. O jornalista nunca é mais importante do que a notícia, mas uma reportagem que destrincha apenas números, gráficos e teses é insípida, inodora e incolor.

“A morte de um único soldado russo é uma tragédia; a morte de milhões é uma estatística”, teria dito Stalin, responsável, entre outras atrocidades, pelo assassinato de 7 milhões de ucranianos há mais de 90 anos. Prefiro Madre Teresa: “Se olho para a massa de pessoas, nunca vou agir; mas se olho para um deles, agirei”. Aplicada ao jornalismo: “Conta a história de uma pessoa e contarás a de 1 milhão”.

Seres humanos com rosto, nome e sobrenome aproximam, mobilizam comunidades. Jornalistas com sensibilidade, também. Isso é estar junto. Ou, como diz Everton, o Tigrão, é empatia. Pura empatia.

A perspectiva que importa

DÉBORA PRADELLA

Gerente-executiva de Produto Digital do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Abordar temas importantes e complexos e ser capaz de torná-los interessantes para o público sempre foi um desafio para o jornalismo. Na última reunião do Conselho Editorial, nós voltamos a esta questão: como encontrar a melhor forma de atrair a atenção da sociedade para assuntos relevantes, como educação e desenvolvimento do RS?

Em nossa reflexão coletiva, dois pontos se repetiram em diversas falas:

1. Não falamos com uma massa homogênea de pessoas. Nosso público é formado por indivíduos e comunidades com interesses, conhecimentos e realidades diferentes entre si e

também em relação a nós, jornalistas. Entender isso é essencial para destrincharmos temas complicados de acordo com as necessidades de quem nos consome, sempre com um olhar de fora para dentro.

2. Assuntos grandes e complexos se tornam intangíveis para o público. Por isso, é necessário foco em perspectivas e abordagens que mexam com o dia a dia da população. Conectar a pauta com a vida das pessoas e traduzir como impacta suas rotinas e seus anseios. E esta conexão só é possível com proximidade, diálogo, escuta e compreensão do nosso público.

Temos um exemplo dentro da RBS. Referência na rádio Gaúcha, na RBS TV e em Zero Hora e líder de audiência com sua coluna em GZH, a Giane Guerra é um modelo de conexão com seu público. É na troca diária com leitores e ouvintes que ela constrói seus conteúdos e define o tratamento que dará para um tema tão desafiador como economia, conectando o assunto com o dia a dia das pessoas. “É preciso ter o sentimento de barriga no balcão. A minha prioridade é atender o público e olhar o que ele está dizendo. Ler um e-mail de ouvinte ou leitor é mais importante para mim do que qualquer release, qualquer mensagem do meu chefe ou de uma fonte. Eu olho as redes sociais, eu paro para conversar com as pessoas nas ruas, eu reservo sempre uma hora depois de eventos para ouvir o público.”

O jornalista e escritor Jeff Jarvis, especialista e estudioso sobre as transformações do jornalismo, reforça que devemos parar de tratar o público como se fosse uma massa, uma multidão, e reconhecer a individualidade das pessoas e de suas comunidades: “A maneira como o jornalismo vai servir ao público depende do que o público precisa”. Temos que ser cada vez melhores em ouvir, entender o que as comunidades querem antes de começar a apurar nossas reportagens. Só assim seremos capazes de conectar temas complexos com o interesse das pessoas.

Jornalismo em tempos de guerra

Para um jornalista recém-saído da faculdade, ser um correspondente de guerra é algo muitas vezes almejado como o ápice da profissão, pela oportunidade de testemunhar e relatar ao público, em tempo real, os fatos que, muitos anos depois, estarão nos livros de História para sempre.

Retratada no cinema por vezes de forma muito mais fantasiosa e romântica do que a realidade, a figura do profissional civil que vai à frente de batalha quando todos tentam fugir de lá é quase tão antiga quanto a própria imprensa. Fundamental para ajudar o público a entender os acontecimentos e enxergar a realidade tal como ela é, ainda que uma análise completa no calor do combate impeça a visão total dos fatos e suas consequências, o correspondente profissional tem hoje uma segunda missão: trabalhar pela verdade na guerra da desinformação das redes sociais, que espalham imagens e textos ora verdadeiros, ora totalmente falsos.

Recentemente, fizemos uma pesquisa na RBS, e uma das perguntas era: “Por que o público lê Zero Hora e GZH, ou escuta a rádio Gaúcha?”. Muitas respostas apontavam para algo como “depois que recebo algo nas redes sociais, busco Zero Hora, GZH

A figura do profissional civil que vai à frente de batalha quando todos tentam fugir de lá é quase tão antiga quanto a própria imprensa.

ou a Gaúcha para verificar se é verdade”. É aí, e em guerras de uma forma ainda mais aguda, que o jornalismo profissional se diferencia.

Na segunda-feira, reunião de membros deste Conselho Editorial decidiu enviar para a cobertura, direto do front, Rodrigo Lopes, um experiente profissional que realizou mais de 30 coberturas internacionais, entre elas as guerras no Líbano, na Primavera Árabe, na Líbia, no Iraque e mais recentemente na Ucrânia.

– Esta cobertura é triste, mas ao mesmo tempo histórica. Se há um lugar no mundo com potencial de provocar uma guerra de proporções mundiais, esse local é o Oriente Médio: reúne religião, história, ambições de poder e fanatismos. Explicar, contextualizar e, de forma objetiva, mostrar ao público da RBS o que está em jogo é um desafio que se coloca lado a lado com a necessidade de se manter seguro, enfrentar aeroportos fechados e relatar o drama humano – diz Lopes.

Ao oferecer ao público um relato da guerra pelos olhos de um experiente jornalista gaúcho, conhecido das audiências de RBS TV, Gaúcha, Zero Hora e GZH, com conteúdos exclusivos, análise, contexto e o relato da tragédia que seres humanos estão vivenciando do outro lado do planeta, a RBS faz o glocalismo, o global e o local e suas interconexões, dando a sua contribuição em seu papel de contar a História no momento em que ela surge, na busca da verdade dos fatos, sem nunca perder a dimensão humana.

10 23

Quando o jornalismo

e a

educação

se unem em prol da democracia

Presidente-executiva

e do Conselho Diretor do Instituto Palavra

Aberta

Não é de hoje que o papel e a credibilidade da imprensa têm sido colocados em xeque. Também não é de hoje que nos deparamos com casos cada vez mais comuns de ameaças contra jornalistas no exercício profissional, que transcendem as redes sociais e passam a representar risco real de violência.

Tentativas de intimidação contra jornalistas são ameaças ao direito à informação, pois é por meio da imprensa que a sociedade se informa, emite opiniões, vigia, denuncia e cobra dos poderes e das instituições o funcionamento da democracia.

A escalada de ataques à imprensa revela outro fator preocupante. Por muito tempo, acreditou-se que os leitores entendiam como funcionava a prática jornalística. Mas hoje está clara a falta de conhecimento sobre a sua real função, gerando descrença em relação a sua imparcialidade e independência.

É neste cenário que a educação midiática se torna uma grande aliada e precisa ser introduzida no dia a dia dos ambientes escolares, além de ser um assunto do próprio jornalismo. Trata-se da urgente necessidade de desenvolver um conjunto de habilidades capazes de sustentar uma atitude mais questionadora e crítica sobre qualquer informação, seja ela online ou offline

Trata-se de aprender a questionar a fonte, o propósito, o objetivo, a intenção da informação recebida. De compreender a importância de ter uma dieta informacional variada, de fazer uma leitura reflexiva e de sair da passividade para uma atitude proativa com relação ao consumo de informação, em qualquer meio.

Não é de hoje que o papel e a credibilidade da imprensa têm sido colocados em xeque.

Do lado da imprensa, mostrar os critérios adotados, quem são os autores das matérias, quem são os proprietários e quem financia os veículos, de forma transparente, passou a ser fundamental para que o funcionamento e a importância da imprensa fiquem evidentes.

Ao levarmos o diálogo sobre o papel da imprensa para dentro da escola de forma eficiente e engajadora, estaremos contribuindo para a formação de cidadãos mais aptos a participarem do ambiente informacional em que estamos imersos. Além, é claro, de valorizar o jornalismo e a imprensa como fundamentais para o fortalecimento da democracia.

Os riscos da “importação” da guerra

A Guerra do Vietnã, o “imperialismo” americano, o embargo econômico a Cuba e as violações do regime, a crise na Venezuela, o conflito Rússia x Ucrânia. Não é de hoje que temas internacionais – uns mais do que outros – são “importados” para o contexto brasileiro e, em geral, instrumentalizados por atores políticos domésticos.

Com o confronto entre Israel e Hamas não é diferente.

Desde o infame 7 de outubro, cada palavra ou ação no Oriente Médio alimenta, do lado de cá, a 16 mil quilômetros de distância, discussões apaixonadas (e por vezes raivosas) turbinadas pelo ambiente de polarização nacional.

Recém-chegado do front, onde atuei como correspondente nos primeiros dias da guerra, desembarquei na última terça-feira na reunião mensal do Conselho Editorial do Grupo RBS. Entre os vários desafios que a atual confrontação impõe ao jornalismo, o fenômeno da “abrasileiração” do conflito é um dos que mais preocupam. São vários os riscos de olhar rivalidades no Exterior sob as lentes de nossa compreensão do

Colunista e comentarista do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

O jornalismo profissional
é antídoto para que se evite essa armadilha.

mundo: o primeiro é cair na simplificação da disputa, relegar uma crise ao duelo direita x esquerda, que não só reduz a complexidade da guerra a uma lógica de “mocinho x bandido” como ignora que o Oriente Médio tem dinâmicas regionais próprias. Os movimentos no front ou nos gabinetes são influenciados por variáveis internas e externas e disputas de poder que não cabem em simplificações – tampouco se adaptam à realidade brasileira e a seus dilemas.

Ao “abrasileirarmos” o conflito, desconsideramos nuances, ignoramos a História e descontextualizamos decisões. Este é o primeiro passo para que visões obtusas sobre a guerra se cristalizem.

O jornalismo profissional é antídoto para que se evite essa armadilha. Neste Conselho, firmamos posição em torno da necessidade de explicar, contextualizar, lançar luzes sobre fatos nebulosos, buscar diversidade de opiniões e propor soluções. Nossa linha editorial é a favor da paz, contra o terrorismo e em defesa da solução de dois Estados – um israelense e um palestino – legítimos. Buscaremos, em nossos espaços, evitar ao máximo a importação do conflito e o reducionismo desses dias insanos a disputas partidárias e ideológicas brasileiras.

Cultura da educação e a imprensa

AUDY

Superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do Tecnopuc e membro do Conselho Editorial da RBS

Uma educação de qualidade, integral e inclusiva é o fundamento de todas as nações que entenderam as novas dinâmicas de desenvolvimento social a partir da revolução da tecnociência da segunda metade do século 20. A educação de um povo é parte essencial e definidora de sua cultura, com reflexos em todas as dimensões da sociedade. No tempo que vivemos, o acesso à informação e o conhecimento gerado desempenham papel crítico na formação da cultura.

Em tempos de redes sociais, de abundância de informações, de fontes pouco confiáveis – muitas vezes imperceptivelmente inseridas nos novos canais de comunicação –, a importância dos jornalistas e do

jornalismo profissional emerge como um fator crítico. Eles que, com suas técnicas e conhecimentos, são capazes de combater a desinformação e pautar a sociedade em temas de interesse público.

Entendo que a pauta mais relevante para o futuro da sociedade é a educação. Nesse sentido, é de extrema importância que a educação, em seu sentido amplo, seja um tema constante na pauta jornalística. Para além da cobertura factual e dos serviços que apoiam a população no cotidiano, o jornalista deve, cada vez mais, refletir sobre a influência que exerce e assumir o papel de contribuir para o desenvolvimento de uma cultura de educação na sociedade, nas mais diversas áreas, entre as quais estão a segurança, a saúde, a economia, a sustentabilidade, a inclusão, as mudanças climáticas etc.

Entre os desafios a serem superados pelos profissionais de imprensa para atuar na construção dessa cultura, destaca-se a necessidade de frequente adaptação – às novas tecnologias e aos contextos sociais –, buscando desenvolver estratégias, linguagens e formatos que atraiam diferentes públicos, entre eles jovens e adultos, por meio de multiplataformas.

Assim, reconhecendo a influência que exerce e trabalhando para a construção de uma cultura de educação, o jornalismo amplia sua atuação social, deixando de ser apenas um interlocutor dos principais acontecimentos, e assume uma posição de agente que impulsiona mudanças necessárias para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Quando isso não acontece, ou seja, a educação não é uma pauta constante na imprensa, esta provavelmente reflete uma sociedade que não valoriza a educação como o mais importante meio de transformação social. Agora, se a sociedade valoriza a educação para a construção de um futuro melhor, deve ser papel da imprensa apoiar o desenvolvimento dessa cultura. Em ambos os casos, uma imprensa consciente e ética deve ser protagonista deste processo de construção social.

Conexão com o Estado

Na RBS, acreditamos que a comunicação pode contribuir para que as pessoas tenham uma vida melhor. Temos compromisso com o Rio Grande do Sul e buscamos materializar este propósito por meio da ligação que temos com milhões de gaúchos diariamente. Para mantermos esta conexão relevante, gerando impacto positivo para a sociedade, buscamos constantemente ouvir e entender as necessidades e as oportunidades dos nossos públicos, dando espaço para os seus problemas e para a construção de soluções.

Além das frequentes pesquisas que realizamos, nossos líderes, comunicadores e repórteres estão cada vez mais nas ruas, nos eventos pelo Estado, ouvindo e entendendo como a RBS pode contribuir a partir da comunicação. Temos iniciativas com foco em levantar sugestões de temas importantes para comunidades e segmentos do Estado. O Fronteiras do Sul, com três edições já realizadas, mobiliza diferentes setores da economia e representantes da sociedade civil organizada para construir pautas prioritárias para a região.

Sempre estamos abertos a sugestões de pauta de leitores e parceiros, que nos chegam diariamente.

Estamos promovendo o Conexão Serra, um convite a líderes, empresários e representantes de entidades e associações para construírem juntos pautas que contribuam para o desenvolvimento da serra gaúcha. Neste ano, realizamos a segunda ouvidoria do agro, um espaço para ouvir contribuições e nos conectarmos ainda mais com este setor tão importante para a nossa economia.

Sempre estamos abertos a sugestões de pauta de leitores e parceiros, que nos chegam diariamente. Neste ano, implementamos processos internos para sistematizar e acompanhar as sugestões levadas a líderes e comunicadores da empresa em encontros institucionais. Também damos voz diretamente ao público, por meio da interatividade dos veículos eletrônicos, via WhatsApp e com artigos, um espaço aberto para dar visibilidade a diferentes pontos de vista sobre assuntos que não necessariamente estão contemplados na cobertura jornalística.

Com este diálogo constante, nos conectamos às questões mais relevantes e abrimos espaço para diferentes posições, reforçando nosso papel de ser a arena segura para os debates importantes para o futuro do Estado.

CLAUDIO

Jornalismo,

o elogio da incerteza

EUGÊNIO BUCCI

Professor titular da ECAUSP, articulista do Estadão e autor, entre outros livros, de “Incerteza”, publicado pela editora Autêntica

Com muita frequência, alguém compara o jornalismo investigativo com o trabalho de policiais. A comparação não é absurda, mas é errada. Não é absurda porque, obviamente, tanto o repórter quanto o detetive labutam para saber o que aconteceu de verdade, separando os acontecimentos reais das versões fantasiosas. A semelhança, portanto, existe. Mas, além desse ponto, as duas ocupações são irreconciliavelmente distintas. Tratá-las como análogas é um erro – e esse erro pode ser perigoso.

Na sua lida diária, o policial tem autorização judicial para ouvir telefonemas íntimos e para vasculhar correspondências e extratos bancários de gente suspeita (ou nem tão suspeita assim). O repórter, não; sua matéria-prima vem das inconfidências de quem fala um pouco além da conta,

seja por vaidade, por deliberação ou por ressentimento ou descuido. A polícia se define por ser invasiva e impositiva, ela interroga e ordena; o jornalista apenas entrevista e observa.

Não que essas duas profissões sejam as únicas que precisam ter um bom domínio do que se passa na realidade. O médico, para estabelecer um diagnóstico seguro para um caso difícil, vai buscar exames precisos, verossímeis e confiáveis. O cientista depende de análises empíricas rigorosas. O professor que corrige trabalhos de seus alunos e o árbitro que apita uma partida de futebol devem se ater à realidade dos fatos. Nenhum deles pode se guiar pelo achismo. Logo, o jornalista e o detetive não estão sozinhos em seu apego aos fatos – mas nem por isso fazem a mesma coisa.

Aqui, não há certezas eternas – a discussão sobre os fatos é renovada todos os dias.

A maior diferença entre as duas ocupações não está nos métodos de cada uma –que em nada se parecem. Na verdade, a maior diferença está na maneira como as duas convivem com a incerteza. A polícia investiga os mistérios criminais para embasar decisões do Poder Judiciário – e estas, depois do trânsito em julgado, não admitem rediscussão. Assim, policiais e juízes são amigos das certezas definitivas. Combinadas, as duas funções definem a palavra final sobre um assunto controverso.

Na imprensa, é o contrário. Embora o jornalismo também ajude a esclarecer os acontecimentos, seus praticantes sabem que no dia seguinte tudo pode mudar. Aqui, não há certezas eternas – a discussão sobre os fatos é renovada todos os dias. A atualidade é sempre um enigma, e o futuro é incerto. Por isso a aventura da imprensa é tão fascinante.

A falta que faz um prêmio

Desde 2016 o Brasil não tem mais um prêmio nacional e fortemente relevante no campo do jornalismo. Até então tínhamos o Prêmio Esso, criado em 1955 e apoiado por uma companhia de petróleo – tecnicamente um branded content, como hoje chamamos os projetos apresentados por marcas. Graças a uma governança adequada e a comitês julgadores independentes e de alta credibilidade, o Esso se transformou na mais prestigiosa premiação jornalística do Brasil, chegando a ser comparado ao Pulitzer, láurea capitaneada pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, a mais importante premiação jornalística no mundo.

Anualmente o Prêmio Esso contemplava várias categorias, como Reportagem, Fotografia, Criação Gráfica, Telejornalismo e Regionais – na última edição, em 2015, Zero Hora levou o prêmio pela reportagem “Cicatrizes”, da repórter Luísa Martins e do fotojornalista Júlio Cordeiro, sobre 10 personagens cujos corpos carregavam cicatrizes da história de suas vidas. Naquele ano, o Grande Prêmio foi para Paulo Saldaña, Rodrigo Burgarelli e José Roberto

Desde 2016 o Brasil não tem mais um prêmio nacional e fortemente relevante no campo do jornalismo.

de Toledo, pela reportagem “Farra do Fies”, que investigou os gastos do governo federal com o financiamento estudantil.

Havia também as categorias temáticas, como Informação Econômica e Informação Científica, Tecnológica e Ambiental. A categoria mais recente, criada em 2011, contemplava reportagens na área da educação. “Estima-se que mais de 33 mil trabalhos jornalísticos tenham sido avaliados pelas comissões de julgamento, premiando mais de mil trabalhos gráficos, reportagens e fotografias, laureando os melhores profissionais da imprensa brasileira”, disse a nota da empresa ao suspender a premiação e fazer um balanço da 60ª edição, que naquele ano totalizou R$ 123,2 mil em prêmios.

Mas o impacto de um prêmio vai muito além do mero incentivo monetário. Um prêmio relevante motiva, encoraja e sobretudo espalha admiração e inspiração por gerações de jornalistas, especialmente entre os mais jovens e iniciantes na carreira.

Já são quase 10 anos sem o Prêmio Esso, período em que jornalistas têm sido cada vez mais perseguidos e bombardeados pela radicalização política turbinada pelas redes (ou mídias?) “sociais”. O Brasil precisa voltar a ter um prêmio relevante e de alta credibilidade no jornalismo. Que as entidades do setor se unam, eventualmente envolvam faculdades e universidades, e busquem restaurar essa baliza motivadora para o exercício do jornalismo.

RICARDO GANDOUR
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

12 23

Teste de IA

MARCELO RECH

Jornalista e membro do Conselho

Editorial da RBS

Você também pode fazer o teste. Eu escolhi o único tema que domino como ninguém mais: eu mesmo. À pergunta sobre quem é Marcelo Rech, a inteligência artificial do ChatGPT me responde com dois pecados desinformativos: me concede dois anos a menos (obrigado, Chat), fruto de um erro publicado em um site há uns 10 anos, e mistura minha atuação com a de um jornalista homônimo que vive em Brasília. O ChatGPT pode se achar esperto, mas não é inteligente o suficiente para imaginar que possam existir dois jornalistas com o mesmo nome.

Faz quase um ano que escrevi em ZH uma primeira coluna saudando a eclosão da IA, mas de lá para cá fui sendo tomado por mais dúvidas do que deslumbramentos. A primeira

constatação está relacionada ao início desta coluna: não se pode confiar na precisão da IA, não ao menos se você pretende usá-la para algo sério, como o jornalismo ou o mundo dos negócios, da saúde, da administração pública ou da política. A inteligência artificial, como se vê, precisa de supervisão – e aí reside um novo e ainda mais relevante papel para o jornalismo.

Há umas boas duas décadas, o jornalismo começou a passar por uma profunda transformação. A par da sua atividade central de apurar os fatos e retratar o cotidiano, a profusão de versões nas redes sociais impeliu o jornalismo a incorporar o papel de verificador da realidade, ou seja, a tirar a limpo se aquilo que circula pelo mundo digital faz sentido, se é verdade, se é exagerado, se está fora ou dentro de contexto e assim por diante. Neste novo papel, os jornalistas se transformaram em certificadores de versões, empregando técnicas de apuração e acesso a fontes confiáveis para desmontar ou confirmar narrativas digitais.

Agora, a IA expande ainda mais essa responsabilidade. Uma parte considerável da atividade jornalística, como de resto todas as funções intelectuais repetitivas, tende a ser progressivamente substituída pela IA. Em contrapartida, naquilo que o jornalismo é insubstituível –desencavar fatos e conferir versões –, a IA abre um novo, promissor e imprescindível campo de atuação para quem atua com dados de realidade, sejam jornalistas ou pesquisadores.

Neste mundo fluido, princípios básicos precisam ser reafirmados com solidez. Pelo lado dos desenvolvedores de IA, conteúdos jornalísticos não podem ser usados sem autorização ou remuneração aos produtores. Pelo lado do jornalismo, a ética deve imperar em quaisquer circunstâncias ou tecnologias. Ter segurança sobre a origem confiável de uma informação, transparência e responsabilidade para assumir as consequências da produção de IA são algumas delas. Não será um mundo simples, mas nunca foi.

Os bastidores das notícias

Desde que comecei a participar do Conselho Editorial da RBS, entre as coisas que mais me impressionaram estão o cuidado e as etapas para se fazer uma reportagem ou uma simples nota que é divulgada. Quem é consumidor de notícias não faz ideia do processo que está por trás daquele vídeo a que assistimos na TV ou daquela matéria que lemos no jornal. Ao ter contato com jornalistas, editores e colunistas das redações, compreendi os bastidores do ofício do jornalismo de uma maneira que o público não imagina.

A começar pela pauta. Como é que uma redação escolhe, entre milhares de temas possíveis que acontecem todo dia, aqueles que serão trabalhados e entregues ao consumidor? Aí entra a tal curadoria jornalística, ou seja, a capacidade dos editores de, conhecendo o seu público e sabendo o que é importante para aquele grupo, selecionar “isso sim, isso não”.

Na apuração dos fatos, os jornalistas precisam conversar com muitas pessoas, e não são quaisquer pessoas, mas os envolvidos diretamente nos assuntos ou especialistas no tema. Fontes qualificadas. E há uma dupla, tripla checagem.

Quanto mais polêmico ou difícil um assunto, mais gente é ouvida. Isso requer uma outra capacidade, que é ter fontes de confiança, estabelecidas durante anos, que contam aos jornalistas os meandros de temas que não são disponibilizados, muitas vezes, para ninguém mais. E isso precisa ser feito em uma hora, uma manhã, um dia! Um telejornal ou um programa de rádio é produzido em pouquíssimo tempo.

Quando o conteúdo fica pronto, ele passa pelo crivo de um editor, que confere se todos os lados foram ouvidos, se existe ou não uma reportagem ali (muitas vezes os fatos não se confirmam), se os dados estão corretos e como tudo será divulgado. Vale uma notinha? Uma reportagem longa? Televisão precisa de imagens, rádio precisa de áudio, cada veículo tem seu formato.

Sem falar que é preciso, além de informações, dados, fatos, fornecer análise – por que isso é importante? Por que aconteceu? O que pode acontecer a seguir? E assim por diante. E há, também, toda a parte da opinião: colunistas e comunicadores que têm a liberdade para expressar seus pontos de vista, para que o público os ouça ou leia e forme suas próprias convicções.

Muitas vezes assisti a essas discussões no Conselho e tive o privilégio de enxergar esses bastidores. Ainda que toda a vida tenha sido um voraz consumidor de notícias, não fazia ideia dos inúmeros passos e cuidados que uma redação profissional toma para produzir e formatar o conteúdo antes que ele chegue ao público. Ao participar deste grupo, cada vez mais me convenço da necessidade que temos do jornalismo profissional, para que a comunidade receba informação checada, com curadoria e responsabilidade.

Entre agentes de um mesmo mercado – TV aberta, redes sociais, vídeos curtos, indústria de streaming – e que hoje se submetem a regras distintas, a regulação econômica desses gatekeepers tem especial relevância, que é a de criar um regramento a ser observado por quem exerce atividade de extraordinário impacto social no Brasil.

Um debate necessário

Final de ano é sempre uma oportunidade para avaliarmos ações e atividades, não apenas referentes a nossos

Diariamente são criadas bolhas de desinformação, altamente rentáveis e sustentadas por um sofisticado sistema algorítmico.

FLÁVIO LARA RESENDE

Presidente da Associação

Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão

êxitos e conquistas, mas sobretudo ao não atingimento de metas e, consequentemente, à necessidade de uma análise mais detalhada sobre nossos objetivos.

Tivemos, em 2023, importantes eventos políticos, sociais e econômicos em nosso país, mas o ano também foi marcado por relevantes acontecimentos na indústria de mídia. Destaco, em especial, a regulação das atividades econômicas das plataformas de internet.

No primeiro trimestre, o Congresso

Nacional debateu a votação do Projeto de Lei 2630/20, que, à semelhança do que já foi feito na Europa, buscava enfrentar a falta de responsabilidade e de transparência dessas plataformas.

Se a desinformação tem encontrado trânsito livre na internet, e há um intermediário nessa cadeia que se beneficia financeiramente desses eventos, nada mais natural do que exigir responsabilidade desse agente, como ocorre, normalmente, em qualquer outra atividade humana.

Infelizmente, em razão da ausência de regras mínimas, continuamos assistindo, na internet, à veiculação de publicidade – legal e ética – vinculada a conteúdos desinformativos e a discursos de ódio, entre outros. Diariamente são criadas bolhas de desinformação, altamente rentáveis e sustentadas por um sofisticado sistema algorítmico, que penalizam e privam a sociedade do seu direito constitucional de informar e de ser informada.

O PL 2630/20 não avançou, sobretudo por causa da narrativa que lhe foi imposta por setores que o vincularam à censura na internet. Uma narrativa, aliás, que ganhou terreno no lugar mais fértil – o da irresponsabilidade.

Entendo, todavia, que estamos prontos para retomar este importante debate. Ele é necessário e exige o envolvimento de todos nós. Aguardemos 2024!

Confiança para construir e realizar

Você já reparou que o pano de fundo dos assuntos que recentemente despertaram grandes debates é o quanto estamos carentes de confiança? Desinformação, fake news, deepfake, inteligência artificial generativa e outras novidades não só demandam esforço extra para se manter atualizado e entender as várias perspectivas sobre os temas como geram a sensação de que estamos perdendo alguma informação, algum contexto importante.

Olhando para o universo corporativo e institucional, com empresas e instituições também enfrentando questionamentos constantes, assim como para os movimentos da opinião pública, muitas vezes apressada em julgar, não tenho dúvida de que a incerteza repercute nas decisões importantes que tomamos no dia a dia, no que deixamos ou não de fazer. Por isso, neste último mês de 2023, escolhi falar de confiança, como base para o que queremos construir e realizar no próximo ano.

Como é impossível saber tudo sobre tudo o tempo todo, mais do que prever, precisamos contar com aqueles em

Confiança exige proximidade e se constrói com coerência e consistência ao longo do tempo.

que confiamos. Vale para pessoas, empresas, instituições e para o jornalismo profissional. Mas confiança se conquista. E, para isso, é preciso ser intencional, isto é, ter método, processos, indicadores e responsabilização. Confiança exige proximidade e se constrói com coerência e consistência ao longo do tempo. As inúmeras reflexões que fazemos no Conselho Editorial da RBS vêm ao encontro dessa crença: o jornalismo deve estar próximo e conectado com as pessoas, para que a empresa possa conhecer o seu público, e o público possa conhecer a empresa e suas pessoas.

Já comentei aqui neste espaço a importância da leitura e do jornalismo em todos os aspectos da minha vida – além do prazer de desfrutar de uma reportagem bem feita, de conhecer opiniões diferentes das minhas e que me ajudam a enxergar novas perspectivas. Sempre que tenho dúvida sobre uma informação ou fato, recorro aos veículos de comunicação e aos profissionais nos quais confio para ter segurança de que é verdadeiro. Acredito que é assim com muitas pessoas, além de mim. Em tempos de transformações, o jornalismo que entrega informação de qualidade, verdadeira e que apresenta as diferentes visões dos fatos será, cada vez mais, fundamental para que a sociedade tenha a confiança necessária para crescer e prosperar. Desejo que 2024 seja incrível para todos!

Crenças renovadas

Com base na última reunião de 2023 de nosso Conselho Editorial, elaboramos um conjunto de resoluções que queremos ver implementadas em nossos veículos que têm no jornalismo o seu propósito maior. São pontos que convergem para um único objetivo: fazer jornalismo profissional de qualidade também como contraponto à onda de desinformação representada pelas fake news e pela contaminação ideológica das redes sociais. Vamos a eles:

• Crença no jornalismo profissional, que pode ser definido como aquele que produz informação verificada e contextualizada, opinião responsável e plural, e se mantém independente do poder e comprometido com a liberdade de expressão responsável, a democracia e o interesse público.

• Conexão permanente com o público, que significa a proximidade efetiva dos nossos veículos com ouvintes, leitores, telespectadores e usuários das mídias digitais. Vamos valorizar e renovar nossos espaços em todas as mídias para que a rádio Gaúcha, com sua consagrada programação, possa ter lançamentos de novos produtos digitais e continue sendo “a tua voz”; a RBS TV seja “bem pra ti”, como foi exemplarmente na cobertura das recentes cheias do Vale do Taquari; Zero Hora complete os seus 60 anos rejuvenescida e inovadora tanto no impresso quanto no digital; e GZH se mantenha como a porta de entrada para a notícia em tempo real para seus milhões de usuários.

• Jornalismo com emoção e racionalidade. Vamos continuar combatendo a polarização, que deforma a verdade e gera conflitos, sem renunciar à emoção, que nos faz humanos e nos torna solidários. Assim trataremos de temas atuais, como diversidade, equidade, inclusão e preservação ambiental, entre outros, sempre ouvindo, pesquisando e respeitando os nossos milhões de consumidores.

• Uso da tecnologia. A RBS usará a inteligência artificial e outras ferramentas tecnológicas como instrumentos de construção do melhor jornalismo para sua audiência, sem dispensar o talento de seus profissionais capacitados para exercer a curadoria dos conteúdos e opinar sobre eles.

• Vínculo com as comunidades. Manteremos nosso compromisso com o hiperlocalismo, com a informação que ajuda o cidadão a viver melhor, a se posicionar diante dos desafios da sociedade e a fazer escolhas conscientes.

• Visão na política. Como 2024 será mais um ano eleitoral, já podemos antecipar que nossas coberturas terão como foco prioritário o eleitor, mostrando-lhe os desafios de seu município para ajudá-lo a escolher com liberdade e convicção os políticos e partidos que irão representá-lo.

• Presença no esporte. O público está convidado a embarcar em nossos veículos de comunicação para viver intensamente sua paixão pelo futebol gaúcho e pelo esporte em geral, com direito a ver de perto também os Jogos Olímpicos de Paris.

Cada vez mais conectado com os gaúchos, o Grupo RBS deseja a todos um feliz 2024.

01 24

Vídeo e a batalha por atenção

Nove horas e 32 minutos. Este é o tempo, em média, que um brasileiro fica conectado à internet por dia segundo o Digital Global Overview Report 2023. E você já reparou quanto desse tempo é dedicado cada vez mais a assistir a vídeos? Estamos vivendo uma era em que o vídeo digital vence a batalha por atenção e domina nossas TVs e nossos smartphones e computadores.

O próprio Google já reconheceu a supremacia do vídeo.

O vice-presidente sênior da empresa, Prabhakar Raghavan, compartilhou dados que apontam que 40% dos jovens entre 18 e 24 anos buscam informações no TikTok e no Instagram em vez de irem ao Google. Ou seja, uma parcela do público já prefere que os resultados para as suas pesquisas sejam no formato visual, e não em texto.

Em plataformas como YouTube, TikTok e Instagram, o público engaja com novos conteúdos e cria conexões através do envolvimento emocional. E o que o jornalismo tem a ver com isso? Tudo. Segundo o Digital News Report 2023 da Reuters, 62% dos usuários do mundo consumiram notícias em vídeo nas redes sociais (20% deles, no YouTube). No

Gerente-executiva de Produto Digital do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Estar nas plataformas em que o público está presente e engajado permitirá que o conteúdo jornalístico alcance novas audiências, formando o consumidor de notícias do futuro.

Brasil, 32% dos usuários do TikTok dizem que usam a plataforma para se informar. “Acompanhar notícias” está entre as quatro principais ações que costumam fazer na plataforma de acordo com pesquisa da Opinion Box divulgada neste ano. O público não quer só dancinha: quer informação relevante e confiável também nesses canais.

O relatório Media Trends & Predictions 2024, da Kantar Ibope Media, aponta vídeos como uma das tendências que seguem neste ano e indica que as empresas de jornalismo devem “aproveitar o poder das plataformas de forma eficaz”. O on demand continuará em alta, mas o fascínio pela transmissão ao vivo linear também ganhará força, principalmente em eventos como Olimpíadas e eleições. Estes momentos enfatizarão a relevância dos veículos e exigirão adaptação a esta nova forma de produzir, consumir e interagir com os conteúdos no digital.

Estar nas plataformas em que o público está presente e engajado permitirá que o conteúdo jornalístico alcance novas audiências, formando o consumidor de notícias do futuro. Para isso, é necessário apostar na crescente preferência pelo audiovisual e ter mais flexibilidade para testar novas linguagens e formatos dentro do território de news e esportes. Aqui na RBS, estamos acompanhando estas tendências e investindo em iniciativas que reforçarão nossa presença em plataformas digitais de vídeos curtos e transmissões ao vivo. Que venha um 2024 ainda mais audiovisual e digital.

fenômeno preocupante

Diretora-executiva de Jornalismo e

Esporte e secretária do Conselho

Editorial da RBS

Imagine, por um instante, você não consumir mais notícias. Nenhuma. Não saber nada do que se passa no mundo, no Brasil ou mesmo na sua cidade. Pode parecer incrível, mas existe um número crescente de pessoas no planeta que evitam consumir informações jornalísticas.

Este fenômeno, chamado de news avoidance ou news fatigue (evitação ou cansaço de notícias), é estudado há muitos anos e, mais uma vez, faz parte de uma das mais importantes pesquisas sobre jornalismo: o relatório anual do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, publicado nessa semana.

Um capítulo em especial chama atenção: como os 314 líderes de redações de 56 países ouvidos no estudo pretendem combater em 2024 o fenômeno, causado por diferentes motivos, como excesso de informação, fragmentação da atenção,

cansaço pela polarização exacerbada no mundo, pouco tempo, anestesia provocada pelo consumo exagerado de redes sociais, falta de escolaridade ou não saber diferenciar conteúdo jornalístico profissional de conteúdo inverídico, não checado ou de baixa qualidade.

Segue o que os executivos de notícias responderam a respeito do que pretendem fazer a curto prazo para combater a tendência:

• 67% consideram explicar melhor temas complexos;

• 44% pretendem intensificar o jornalismo construtivo, que busca não apenas apontar problemas, mas oferecer soluções;

• 43% produzirão reportagens humanas, inspiradoras;

• 35% investirão em uma equipe de reportagem mais diversa;

• 35% utilizarão formatos ou linguagem mais acessíveis;

• 21% colocarão notícias mais positivas em suas edições;

• 18% mostrarão mais notícias de curiosidades ou de entretenimento.

Repetidas vezes discutimos nosso papel de levar aos diferentes públicos do Rio Grande do Sul informações verdadeiras, precisas, plurais.

Nas reuniões do Conselho Editorial do Grupo RBS, repetidas vezes discutimos nosso papel de levar aos diferentes públicos do Rio Grande do Sul informações verdadeiras, precisas, plurais, no formato adequado, bem contextualizadas, com agilidade. Sabemos que muitos fatores influenciam o fenômeno news avoidance ou news fatigue, inclusive a falta de investimento em educação. Mas não nos furtamos da nossa responsabilidade, especialmente em relação às novas gerações. Buscamos, sempre, aprimorar nossa atividade para que não tenhamos, no futuro, um número crescente de pessoas que ignorem o que acontece à sua volta e, com isso, se tornem cidadãos menos participantes e responsáveis com sua comunidade.

Vinte edições de um grande prêmio

Em 26 de novembro de 2023, o jornalista Ricardo Gandour escreveu neste espaço sobre a falta que faz um prêmio nacional de jornalismo para reconhecer os melhores profissionais da imprensa brasileira num tempo em que a atividade é tão relevante para a sociedade e, ao mesmo tempo, tão torpedeada por setores nada comprometidos com a verdade.

A ausência deste holofote nacional acaba trazendo o foco para um ambiente tão importante aos profissionais da área quanto a opinião pública: a redação. Nas redações da RBS há um caso exemplar de reconhecimento ao jornalismo: o Prêmio RBS de Jornalismo, Esporte e Entretenimento.

Numa conta rápida, é possível afirmar que pelo menos 6 mil trabalhos foram inscritos em duas décadas. O número de autores é algumas vezes maior, e aqui está uma das características da premiação: valorizar o trabalho em equipe feito por profissionais de diferentes veículos, algo típico de uma rede de comunicação multimídia e integrada. Foram comuns, nos muitos eventos de premiação, cenas de palco repleto de autores de um só trabalho.

Qualidade, precisão, busca de soluções para problemas apontados na apuração, engajamento com o público, construção

ética e equilíbrio são outros atributos que a RBS sempre procurou valorizar ao escolher os vencedores.

O correr dos anos mostrou um dos segredos da longevidade do prêmio: o encaixe ao momento do país e do jornalismo. No 2020 de pandemia, por exemplo, a entrega dos diplomas e troféus foi em solenidade remota. Já na primeira edição, em 2004, quando a imprensa ainda tentava entender o fenômeno da internet, uma das categorias premiadas foi “experiência de vínculo entre online e veículo tradicional”.

O pomposo nome hoje é desnecessário, pois muitos dos trabalhos inscritos são multiplataforma e, portanto, digitais.

Qualidade, precisão, busca de soluções para problemas apontados na apuração, engajamento com o público, construção ética e equilíbrio são outros atributos que a RBS sempre procurou valorizar ao escolher os vencedores. Atributos que podem ser sintetizados no nome do reconhecimento entregue a cada ano ao primeiro colocado: Grande Prêmio Jayme Sirotsky, em homenagem ao presidente emérito da RBS, presença carismática em todas as solenidades com um discurso sempre marcado por ensinamentos e bom humor. “Vamos agora revelar o vencedor do ‘troféu eu’”, ele costuma repetir no palco para descontrair um momento que é simbólico, é de todos e reafirma os princípios do jornalismo praticado por veículos e profissionais do Grupo RBS. Sobre esta base sólida de 19 edições, já neste início de 2024 será lançado o 20º Prêmio RBS de Jornalismo, Esporte e Entretenimento.

Jornalismo e meio ambiente

RODRIGO LOPES

Colunista e comentarista do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Para um jornalista, a maior dificuldade de cobrir uma conferência da ONU sobre o clima, como a COP28, de Dubai, em 2023, é dar conta do gigantismo do evento: há, claro, o debate geopolítico, em que titãs põem seus interesses à mesa sobre o futuro do planeta. Existe também a necessidade de cobrir as agendas federal, estadual e municipal. São, ainda, centenas as maravilhas tecnológicas em prol do futuro com menos carbono.

Para nós, da RBS, interessam sobretudo os temas de impacto regional: a preservação do bioma Pampa, a mitigação de problemas como as estiagens que impactam o agronegócio, a prevenção e as respostas às tempestades e o que cada um de nós pode fazer para melhorar o ambiente.

Historicamente, as COPs são palco de discursos vívidos, mas com pouca

efetividade, de ações espetaculares de ambientalistas, sem adesão de setores como indústria e agronegócio, em geral demonizados. Isso vem mudando. Na COP26, na Escócia, em 2021, foi formado o grupo de Koronívia, que versa sobre a atividade primária como parte da solução das emissões dos gases de efeito estufa. Também na indústria, de forma geral, não se imagina mais competitividade asilada de sustentabilidade.

O Rio Grande do Sul, berço do movimento ecológico brasileiro, é terra de expoentes do jornalismo ambiental. Mas, nos últimos anos, essa especialidade do ofício perdeu relevância na imprensa profissional, ficando relegada a veículos de nicho. Nas grandes redações, pautas sobre ambiente, muitas vezes, são encaradas como “chatas” – ou acredita-se que são entendidas como tal pela audiência.

A realidade factual impõe que esse não pode ser o entendimento. Tornar interessante um assunto importante é missão de todo jornalista, e o tema ambiental é um dos tantos capazes de conectar o global ao local. Assim como a indústria e o agronegócio, nós, jornalistas, também precisamos dobrar essa esquina da História.

O Grupo RBS está comprometido em aprofundar este debate, fundamental para as próximas gerações, evidenciando, no dia a dia, os impactos das alterações climáticas, cobrando responsabilidades, mas também propondo soluções. E, sobretudo, permanecendo junto ao nosso público nos momentos mais difíceis. Sempre respaldado pela ciência.

Mais um desafio para a educação

Algumas inovações na história da humanidade chamamos de disruptivas por estabelecerem mudanças radicais, causando profundo impacto. Foi assim na descoberta do fogo, na criação da imprensa, no surgimento dos computadores e da internet, e não é diferente com a emergência da inteligência artificial (IA).

Com ciclos cada vez menores e impactos cada vez maiores, essas inovações provocam transformações em todas as áreas da sociedade. É o que temos visto com a IA generativa. No campo do jornalismo e da comunicação, ela pode ser utilizada para melhorar a rotina das redações e a entrega à sociedade. Porém, há uma dimensão ética em discussão, que inclui efeitos nos empregos e na remuneração, o viés algorítmico e o aumento da desinformação.

Diante disso, veículos de comunicação, sobretudo de países europeus e dos EUA, têm criado políticas para pautar o uso de IA generativa em suas redações, bem como proibido ou limitado o acesso dessas ferramentas a seu acervo. O jornal The New York Times abriu um processo contra a OpenAI (ChatGPT) e a Microsoft (Bing) por entender que elas agem indevidamente ao usar artigos e reportagens para treinar e alimentar suas ferramentas de inteligência artificial sem remunerar os detentores dos direitos autorais. Esse movimento também tem sido visto aqui no Brasil.

Porém, em um país onde a educação está aquém do desejado, tanto em termos de inclusão quanto em termos de qualidade, a entrada da IA na rotina das pessoas não está acompanhada de uma formação adequada para o seu uso e para o discernimento de suas implicações. Isso afeta a sociedade em diversos níveis.

Nas eleições deste ano, por exemplo, devemos ter um impacto muito significativo do uso da IA generativa, para o bem e para o mal. Nesse sentido, o apoio de instituições e profissionais qualificados na área pode ser uma forma de mitigar os riscos do uso indevido dessas tecnologias, enquanto a sociedade não atinja o conhecimento necessário para lidar com essa realidade.

Para além disso, é urgente a consciência de que o grande desafio quando falamos sobre inovações disruptivas, como agora no caso da IA, é a educação. Não somente a educação para o trabalho, mas principalmente a educação para o pleno exercício da cidadania. Uma educação alicerçada em valores, com foco na formação de pessoas íntegras e preparadas para atuar em um mundo que se torna cada vez menor e mais complexo. Essas questões sobre uso e direitos autorais da IA serão mais bem resolvidas por educação de qualidade do que por tribunais.

A ameaça da desinformação, um perigo real

Diretora e representante da Unesco no Brasil

A Unesco, agência da ONU com um mandato específico para promover “o livre fluxo de ideias por palavra e imagem”, trabalha em defesa da liberdade de expressão e de informação, que tem como uma de suas âncoras a existência de uma mídia livre, plural e independente. A tecnologia digital está transformando rapidamente a circulação de informações em todo o mundo e propicia inúmeros avanços, mas também traz sérios desafios a serem enfrentados quanto à proteção da liberdade de expressão e dos direitos humanos.

Em 2023, cerca de 60% da população utilizou plataformas digitais para se expressar ou para se informar. Já em 2024, quase 2,6 milhões de pessoas irão às urnas em 81 países, e o jornalismo desempenhará um papel fundamental para garantir que, enquanto se prepara para votar, o público tenha acesso a informações precisas. Segundo uma pesquisa recente realizada por Unesco e Instituto Ipsos, 56% dos usuários de internet se mantêm informados por redes sociais, um meio muito à frente da TV (44%). No entanto, os meios de comunicação tradicionais são considerados mais confiáveis em termos de credibilidade e qualidade das notícias: no geral, 66% dos entrevistados confiam nas notícias transmitidas pela TV, em comparação com 50% que confiam nas veiculadas em redes sociais. Isso ocorre porque, também segundo a pesquisa, 68% dos usuários de internet disseram que a desinformação é mais difundida nas redes sociais.

Esse sentimento prevalece em todos os países, grupos etários, origens sociais e preferências políticas. Ademais, a maioria sente que a desinformação é uma ameaça real: 85% manifestam preocupação com o impacto e a influência da desinformação em seus concidadãos. Precisamos estar atentos ao perigo real que a desinformação representa e verificar a fonte da informação antes de reproduzi-la em nossas redes sociais ou em grupos de mensagens. Por esse e outros motivos, recentemente a Unesco lançou suas “Diretrizes para a governança das plataformas digitais: salvaguardar a liberdade de expressão e o acesso à informação com uma abordagem multissetorial”.

A organização está empenhada em apoiar seus Estados-membros, a sociedade civil e os principais intervenientes digitais na adoção desse texto, de modo a nos manter focados no combate ao discurso de ódio e à desinformação, preservando a liberdade de expressão e a confiabilidade da informação. Não se trata de uma contradição: ao reforçarmos o acesso à informação livre, verdadeira e confiável, reforçamos também a liberdade de pensamento e de expressão.

Clima e jornalismo

O planeta está esquentando. Depois dos sucessivos recordes de calor em 2023, janeiro registrou a mais alta temperatura média global já verificada para o primeiro mês do ano – 0,7 graus Celsius a mais do que a média de 1991-2020, segundo o observatório Copernicus.

As mudanças climáticas afetam todas as atividades humanas. Do agronegócio ao turismo, da maior ocorrência de quedas de árvores nas ruas e de deslizamentos nas estradas e encostas à intensificação de doenças, como a dengue. O jornalismo profissional precisa cobrir com precisão esse tema transversal, que atravessa todas as editorias – e, em especial, por ser campo fértil para fake news de toda espécie.

A WAN-IFRA, associação mundial de editores, abrigou no ano passado o lançamento do ClimateXChange, programa para estimular a cobertura climática com foco especial no sudeste asiático e no Oceano Pacífico, região afetada pelo aumento do nível do mar. A Austrália fez acordo para gradativamente receber os 11 mil moradores do arquipélago Tuvalu, fadado a desaparecer sob as águas.

O jornalismo profissional precisa cobrir com precisão esse tema transversal, que atravessa todas as editorias – e, em especial, por ser campo fértil para fake news de toda espécie.

O jornalismo brasileiro não está mal nessa foto. Ao contrário, observadores e estudiosos internacionais nos olham com atenção e respeito. “Há uma longa e estabelecida jornada da cobertura climática no Brasil que pode ser um modelo para a imprensa americana”, disse à coluna Kyle Pope, diretor-executivo e cofundador da Covering Climate Now, entidade que congrega redações do mundo todo em prol do aprimoramento dessa cobertura. Pope tem credenciais para a avaliação: foi, até o ano passado, por sete anos, o editor-chefe da Columbia Journalism Review, uma das mais tradicionais publicações que analisam o jornalismo pelo mundo. “Nos Estados Unidos, o clima ainda é algo lateral nas coberturas políticas, e isso tem que mudar ainda neste ano”, complementa, referindo-se às eleições por lá.

Por aqui, instituições e faculdades de Jornalismo intensificam iniciativas em torno do letramento climático – esse é o conceito. Caso da ESPM em São Paulo, que criou um minor (microcertificação), uma ênfase no currículo “para melhor preparar os estudantes para cobrir essas ocorrências, que só devem crescer nos próximos anos”, segundo Maria Elisabete Antonioli, coordenadora do curso de Jornalismo.

O clima deve ter, e já está tendo, a prioridade e a transversalidade que as áreas de educação e saúde passaram a ter nas redações brasileiras a partir dos anos 2000.

RICARDO GANDOUR
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Ao lado dos gaúchos

CLAUDIO TOIGO FILHO

CEO do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

“A gente vive junto” é muito mais do que um posicionamento institucional. É um compromisso que reafirmamos diariamente na RBS, buscando estar ao lado dos gaúchos com informação e serviço, contando histórias, debatendo soluções para desafios das comunidades e valorizando iniciativas de diferentes regiões do Estado.

Estamos mais uma vez na tradicional Festa da Uva, em Caxias do Sul, com ampla cobertura, incluindo a transmissão do primeiro Jornal do Almoço Bem Pra Ti do ano – e temos mais 10 edições já confirmadas deste projeto tão querido pelos gaúchos, que leva o JA a percorrer diferentes cidades. Dando sequência a um intenso calendário de cobertura editorial e ações institucionais em eventos pelo Rio Grande do Sul, a Gaúcha transmitiu nesta semana a abertura da colheita do arroz, de Capão

do Leão, no Atualidade, estaremos na Fenavindima, em Flores da Cunha, neste sábado, e abriremos em março nossa casa na Expodireto Cotrijal, um dos maiores eventos do agronegócio, realizado em Não-Me-Toque.

Nosso jornalismo tem raízes em diferentes cantos do Estado, com 12 emissoras da RBS TV e quatro da Gaúcha. Nesta semana, celebramos os 55 anos da RBS TV Caxias, que – ao lado da Gaúcha Serra e do jornal Pioneiro, que completou 75 anos – valoriza uma região tão importante para a economia e a cultura do Estado. GZH Passo Fundo completa em março um ano com foco em conteúdo hiperlocal e na conexão com o norte do Estado, marcando a expansão digital da RBS pelo Interior e somando-se à audiência de GZH, que alcança 10 milhões de usuários mensais.

A partir do jornalismo profissional, seguiremos abordando temas relevantes diariamente, valorizando aquilo que torna cada comunidade única e tudo o que nos une como gaúchos.

Neste ano de eleições municipais, estaremos ainda mais próximos e vigilantes. Cumprindo nosso propósito de contribuir para uma vida melhor aos gaúchos, teremos uma cobertura centrada nos desafios das comunidades e nas propostas apresentadas pelos candidatos.

Assim, a partir do jornalismo profissional, seguiremos abordando temas relevantes para os 11 milhões de espectadores, ouvintes e leitores com quem nos conectamos diariamente, valorizando aquilo que torna cada comunidade única e tudo o que nos une como gaúchos.

Imprensa e liberdade

Quando se fala de liberdade de imprensa, foca-se o exercício livre da atividade jornalística – e é importante que, para o bem das democracias, seja assim. No entanto, a expressão é composta por dois substantivos. Para haver liberdade de imprensa, é preciso haver também imprensa. E é aí que estamos diante de um grande perigo.

Uma das bases do regime democrático, a imprensa livre vem sendo sufocada pela combinação perversa da erosão gradual das liberdades com a degradação econômica de veículos de comunicação. Nos EUA, por exemplo, cerca de 10 jornais fecham a cada mês, deixando comunidades inteiras sem fonte de informação local ou à mercê de bandoleiros digitais que se valem do vácuo jornalístico para vender elixires da radicalização.

Apesar de todas as suas limitações, empresas jornalísticas são a melhor invenção dos últimos séculos para que as sociedades se conheçam melhor – a partir de retratos da realidade e da pluralidade de ideias – e, assim, possam fazer escolhas sensatas sobre o futuro. Mas, por sua dinâmica de crítica, denúncia e opinião, a atividade jornalística sempre atraiu a ira de liberticidas. Nunca houve uma ditadura que convivesse com uma imprensa livre, ressalve-se.

A imprensa também vem sendo garroteada por uma forma que dispensa o operoso controle de conteúdos jornalísticos.

Mais recentemente, a imprensa também vem sendo garroteada por uma forma que dispensa o operoso controle de conteúdos jornalísticos. Em países como Venezuela e Nicarágua, governos agem para simplesmente eliminar a imprensa, aí entendida como aquela que faz jornalismo sem ser um braço oficialesco do regime. O tsunami se completa com a drenagem de recursos publicitários por oligopólios digitais que rejeitam os mecanismos de responsabilização e as contrapartidas que são parte do DNA dos meios de comunicação.

A captura de conteúdos jornalísticos pela inteligência artificial, sem a devida remuneração dos produtores, só tende a agravar um quadro que, no longo prazo, pode fazer desaparecer a imprensa independente. Em seu lugar, restariam tão somente câmaras de eco digitais a refletir pensamentos dominantes, bolhas de grupos ideológicos e informações falsas.

Em nome da pluralidade e da estabilidade, o mundo livre deve atuar na reversão desse cenário por uma lógica simples. Em seu negócio, as big techs produzem como efeito secundário uma poluição social materializada em desinformações e discursos de ódio. É o jornalismo profissional que tem a técnica e a capacidade de neutralizar, ainda que parcialmente, esses resíduos tóxicos. Então, como em qualquer indústria, os poluidores devem ajudar a pagar o custo da limpeza da poluição. E devem fazer isso antes que seja tarde demais para a sanidade mental do planeta.

MARCELO RECH
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

A imprensa precisa existir

PEDRO DORIA

Jornalista, cofundador e editor do Meio, colunista de CBN, Globo e Estadão

Quando inventamos esse sistema de autogestão da sociedade que chamamos de democracia liberal, logo percebemos que era preciso um adendo. Uma estrutura, independente do Estado e de qualquer partido, que pudesse olhar para dentro do Estado e trazer de lá informação. É a informação da qual cada cidadão precisa para poder votar. Chamamos a isso de imprensa. Sem imprensa, uma imprensa livre, democracias não são possíveis.

Com o tempo, os papéis exercidos pelo jornalismo se dividiram em dois. Um deles é noticioso, levar ao público aquilo que acontece onde os três poderes atuam, o que ocorre nas ruas de nossas cidades, tudo que ajudar a informar o voto. O outro é abrir palco para os debates, para que as correntes de opinião presentes na sociedade possam expor o que veem como problemas, que soluções apresentam. Seus

argumentos. Democracias, as democracias que temos, a nossa democracia aqui, nascida em 1985, se ergueram sobre este pilar.

O pilar está quebrado. O sistema que leva notícias se partidarizou. Brasileiros, americanos, italianos, argentinos – cada vez mais recebemos informação que apenas confirma os preconceitos que já temos. No flanco do debate público, o quadro é pior. As redes fingem que há debate, mas ninguém é mais exposto ao outro lado. O outro lado se tornou um inimigo mortal. O simulacro de debate nada mais é do que um recitar de slogans que os lados decoram para lançar qual granadas perante os slogans decorados dos inimigos.

A principal evidência de que o sistema de informação quebrou é o desaparecimento do centro. Quanto menos gente se situa entre os flancos da centro-esquerda e da centro-direita, mais gritante é o sinal de que ouvimos cada vez menos as dores, os receios, as angústias de quem pensa diferentemente.

A principal evidência de que o sistema de informação quebrou é o desaparecimento do centro.

Imprensa não precisa vir na forma de jornal, TV, rádio. Pode vir de redes, de streaming, caixas de som inteligentes. Mas imprensa precisa existir. Ela precisa ser independente do Estado e de grupos políticos. E ela precisa poder chegar às pessoas. O que quebrou este pilar das democracias não foi a internet, nem mesmo as redes. Foram os algoritmos que decidem quem vai ver o quê. Algoritmos que, no afã de entregar só o que agrada, o que desperta atenção, o que inflama as emoções, interrompem o fluxo do resto: 0 que leva à reflexão, o que incomoda. O outro lado como humano, não como inimigo.

A missão posta, a nós jornalistas, é reerguer a imprensa.

Ágora e farol

Em 2024, mais de 2 bilhões de eleitores irão às urnas em cerca de 50 países. Mas o voto não tem o mesmo valor em Moscou, Caracas, Porto Alegre ou Nova York. Neste domingo, por exemplo, Vladimir Putin, um autocrata de direita, deve estender sua permanência no Kremlin até 2030 em eleições de fachada. Em 28 de julho, será a vez de Nicolás Maduro, outro autocrata, só que de esquerda, retirar da cartola mais seis anos no poder.

Ainda que restrições à liberdade e violações de direitos políticos sejam temas que irmanam esses países, desinformação, ataques à imprensa profissional, instrumentalização de redes sociais e uso de inteligência artificial para manipular o eleitor não serão práticas restritas a nações onde a democracia se liquefaz. Mesmo processos eleitorais consolidados, como no Brasil e nos EUA, que realizam eleições em outubro e em novembro, respectivamente, não estão imunes a tentativas de desvios. Os eleitores serão bombardeados por fake news.

É nesse momento que entra o jornalismo.
A imprensa profissional tem o dever de estar ao lado da população.

É nesse momento que entra o jornalismo. A imprensa profissional tem o dever de estar ao lado da população. Eleições normalmente já impõem imensos desafios. Mas, em cenários de polarização e descrença nas instituições, a situação é ainda mais complexa. No caso do Brasil, o eleitor terá a oportunidade de debater os problemas do dia a dia das ruas, dos parques, do recolhimento do lixo, do saneamento básico, da educação infantil e da mobilidade, por exemplo. Por isso, urge um jornalismo propositivo, que não se limite a retratar as campanhas, mas que aponte soluções. Uma boa maneira de se fazer isso é lançar luzes sobre exemplos de outras cidades ou nações. Veículos de comunicação precisam ceder espaço às preocupações da população e confrontá-las com o que os candidatos têm a dizer. Eleições são ainda uma chance de os jornalistas utilizarem a tecnologia a serviço do (e)leitor, de apostarem em iniciativas hiperlocais e de checagem de dados (factchecking) diante de promessas disparadas ao vento, sem lastro na realidade.

Infelizmente, na Rússia de Putin e na Venezuela de Maduro, o jogo já está jogado. Mas, por aqui, o jornalismo precisa abrir sua caixa de ferramentas com brevidade a fim de ser ágora, a praça pública grega, palco de debates fundamentais da democracia, e, ao mesmo tempo, farol para uma sociedade mais desenvolvida.

RODRIGO LOPES
Colunista e comentarista do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Sem informação, há desinformação

Gerente-executiva de Produto Digital do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

O tema combate à desinformação nunca saiu da pauta, mas em um ano eleitoral ele ganha ainda mais protagonismo. Por isso, é importante destacar algumas lições sobre jornalismo e comunicação que podem nos guiar neste ano desafiador.

Lição 1: onde não há informação, há desinformação.

Em um ambiente sem informação confiável, há espaço para criação de hipóteses e teorias que, após serem amplamente compartilhadas, são encaradas pelo público como verdades. “Nós temos que levar as teorias da conspiração a sério e pensar por que são tão importantes e poderosas.

É porque são histórias que dão explicações simples para o mundo”, já alertou Claire Wardle, professora britânica e diretora-executiva da First Draft News, organização criada com o propósito de capacitar a sociedade para combater informações enganosas.

As redes sociais são o ambiente perfeito para a disseminação de teorias conspiratórias. É onde pessoas se sentem parte ativa no compartilhamento de informações e onde interesses escusos são escondidos atrás de robôs que criam e impulsionam conteúdos falsos. Em ano eleitoral, isso é ainda mais grave. Por isso, cobrar a regulamentação dessas plataformas para combater e controlar notícias falsas se torna cada vez mais urgente. É preciso que as grandes empresas de tecnologia se responsabilizem pelo impacto que a desinformação gera na sociedade e deixem de lucrar com isso.

Lição 2: transparência é essencial. Respostas pouco transparentes ou ausência de respostas oficiais só pioram a situação e amplificam a desinformação gerada pelas redes sociais. Em um seminário promovido pelo TSE no Brasil, Wardle reforçou que é justamente no vácuo de informações e dados oficiais que entra a desinformação. A tentativa de ocultar ou remover uma informação pode gerar um fenômeno social chamado “efeito Streisand”, que é quando essa estratégia de censura se volta contra o censor e o fato passa a ser replicado em massa. Por isso, transparência e informações oficiais confiáveis também são peças importantes para mitigar esse sistema de disseminação de notícias falsas.

Lição 3: jornalismo e checagem como antídoto. Jornalismo profissional segue sendo o melhor antídoto para o combate à desinformação. Esta missão é aplicada diariamente pelas redações jornalísticas do mundo, seja checando notícias falsas sobre guerras e eleições ou conferindo dados da gestão pública para prestar contas à sociedade. E é por isso que precisamos do jornalismo cada vez mais forte, para checar, informar e combater a desinformação. Este é o nosso compromisso, e o público pode sempre contar com o jornalismo para esclarecer os fatos.

Sete ensinamentos do fundador do Waze

Um dia antes do evento South Summit em Porto Alegre, o fundador do Waze, Uri Levine, concedeu uma entrevista ao colunista Rodrigo Lopes e conversou com executivos da RBS sobre o futuro do jornalismo. É desta conversa que faço um resumo para nossos leitores:

1 – Não temos como prever o que vai acontecer com os veículos de comunicação no futuro. Mas há uma certeza: a qualidade do conteúdo e manter-se fiel à busca da verdade é o segredo para as empresas jornalísticas. “Conteúdo confiável sempre vai vencer”, disse Levine.

2 – Neste mar de informações disponíveis, as pessoas vão pagar por conveniência e qualidade, ou seja, receber o conteúdo no formato, no horário e no dispositivo que querem, com a qualidade que esperam.

3 – Uma das principais missões e responsabilidades das empresas jornalísticas é separar fatos de opiniões e de notícias falsas. Porque grande parte das pessoas não sabe mais diferenciar um do outro. Além disso, o público

Há uma certeza: a qualidade do conteúdo e manter-se fiel à busca da verdade é o segredo para as empresas jornalísticas.

perdeu a capacidade de crítica do conteúdo. Simplesmente vão aceitando tudo, sem diferenciação.

4 – Ainda que não saibamos como vai ser o futuro, o importante é a velocidade da mudança. Como acompanhar? As coisas vão acontecendo e você vai mudando. Rápido. É isso que garante que você acompanhe as transformações.

5 – Preste atenção na distribuição. Como o conteúdo está sendo entregue? Onde? Muita coisa já está em redes sociais, e vai estar ainda mais.

6 – E o uso da inteligência artificial generativa (IAG) em redações? Pode-se usar. Mas como um rascunho, desde que os jornalistas se certifiquem de que as informações são verdadeiras. IAG tem a ver com linguagem, não com fatos. Os fatos precisam ser checados, e é a redação que garante sua veracidade.

7 – Levine é autor do livro Fall in Love With the Problem, not the Solution, lançado no Brasil com o título Apaixone-se pelo Problema, não pela Solução, que é a base do Waze (o foco sempre foi o problema dos motoristas ao gastar tempo no trânsito). Foco no problema é “a estrela do norte”. Fale com as pessoas que têm aquele problema. Elas saberão explicar em detalhes sua dificuldade. E as pessoas querem muito falar de seu problema, elas se engajam e ajudam o seu negócio.

É permitido discordar

A realidade nos mostra que a era da opinião veio para ficar. Se você parar para pensar, nunca foi tão impactado pelas muitas opiniões que chegam não só pelos espaços na imprensa, mas também por grupos de mensagens, redes sociais, podcasts e tantos outros canais. Pessoalmente, considero uma evolução da nossa sociedade, que se sente encorajada a pensar e expor suas opiniões. Nem sempre foi assim.

Por outro lado, me intriga que, ao mesmo tempo que vivenciamos o livre pensar e a liberdade de manifestação, experimentamos tamanha dificuldade de convivência com aqueles que pensam diferentemente de nós. O direito de expressar opinião vem junto com a necessidade de conviver com pontos de vista diferentes, sem que precisemos diminuir, xingar, excluir ou cancelar o outro.

Respeitar quem pensa diferentemente será prática necessária especialmente neste ano, pois o choque de ideias, assim como de narrativas, costuma se intensificar durante períodos eleitorais. Haverá disputa em 5.568 municípios, com mais de 150 milhões de pessoas aptas a votar. Além de temas locais, questões da pauta nacional certamente serão incluídas no debate. Em termos globais, mais da metade da população mundial vive hoje em países que terão eleições neste ano, Estados Unidos entre eles. É potencial para problemas que não acaba mais.

Além disso, a inteligência artificial, com suas múltiplas vantagens e armadilhas, entrará de vez nas campanhas. O alerta tem de ser redobrado, pois é fértil o terreno para desinformação, fake news e ataques às reputações de pessoas, candidatos ou não, e empresas.

Respeitar quem pensa diferentemente será

prática necessária especialmente neste ano, pois o choque de ideias, assim como de narrativas, costuma se intensificar durante períodos eleitorais.

Cresce ainda mais a responsabilidade do jornalismo profissional em noticiar os fatos, com verdade, pluralidade e independência para subsidiar a formação de opinião de maneira autônoma. É uma via de mão dupla: o jornalismo tem seu papel, e nós, cidadãos, também, buscando fontes de informação sérias, checando o que parece duvidoso, não compartilhando notícias falsas e, principalmente, sabendo que conhecer diferentes opiniões é a melhor forma de qualificar a nossa.

CEO da ANK Reputation e membro do Conselho
Editorial da RBS

Educação, inovação e o desenvolvimento

Os aspectos centrais da atividade jornalística estão relacionados com a busca da verdade, a transparência e o compartilhamento de valores globais fundamentais para a sociedade, como a paz, os direitos humanos e a liberdade. Ao definir suas bandeiras editoriais, as empresas de comunicação ao mesmo tempo refletem e pautam as discussões relevantes que ajudam a sociedade a se conhecer, a refletir criticamente sobre seu passado e a construir seu futuro. Emergem, assim, temas atuais, como mudanças climáticas, energias renováveis, ESG, educação, inovação e desenvolvimento social.

Uma visão mais propositiva do papel do jornalismo profissional e de seu compromisso com a sociedade em que atua envolve uma dimensão pedagógica relevante. Sob um certo aspecto, significa uma busca constante de um novo jornalismo para uma sociedade em transformação para o tempo que vivemos. Para o nosso tempo.

E quanto mais se configura o mundo digital, em que as dimensões física, digital e social se confundem, mais importante é estarmos atentos aos vetores da transformação que vivemos. As redes sociais e as novas tecnologias, como inteligência artificial, terapias gênicas, ciência de dados e internet das coisas, não são elementos

neutros ou passivos nos processos de comunicação e interação entre as pessoas. As novas tecnologias, em especial as deep techs, quanto mais pervasivas se tornam, mais influenciam e afetam nossas relações. E mais atentos devemos estar a elas.

Voltando ao tema da dimensão pedagógica do jornalismo profissional na busca da verdade com transparência, um bom exemplo envolve a discussão, tanto nacional como regional, sobre a construção de planos e a definição de estratégias de desenvolvimento. E a identificação das relações entre o desenvolvimento, a inovação e a educação. No tempo em que vivemos, desenvolvimento deve envolver sempre as perspectivas econômica, social, cultural e ambiental.

Quando falamos de inovação, globalmente aceita como um atributo essencial na busca de produtividade e de competitividade no mundo empresarial, devemos ter também em mente que ela (a inovação) nem sequer faz sentido se não se traduzir em impacto social e melhorias na qualidade de vida das pessoas ao longo do tempo.

A educação é em si o fator principal e preliminar para qualquer processo de desenvolvimento. Além de ser o mais eficaz processo de mobilidade e justiça social, a educação é fator crítico para o desempenho de uma economia e uma sociedade moderna. Uma educação inclusiva e de qualidade, que ofereça oportunidades para o pleno desenvolvimento das pessoas, seu preparo para a cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Todos os países do mundo que se desenvolveram de forma destacada a partir da revolução da tecnociência da metade do século 20 primeiro realizaram uma transformação na educação de seu povo. Somente depois definiram e implantaram planos nacionais de desenvolvimento, tendo a inovação como um dos pilares do processo. Não adianta a inovação ser uma prioridade sem ter a educação como o elemento central da estratégia de desenvolvimento.

Conectando novamente com o papel do jornalismo neste mundo cada vez mais complexo e com fontes de informações diversas e pouco confiáveis, os veículos de comunicação, ao darem espaço para discussões relevantes e atuais, como a do desenvolvimento, acabam atuando, também, como propulsores dessas transformações.

IA não mata, mas traz riscos

RICARDO GANDOUR

Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Para entender o impacto da inteligência artificial (IA) no jornalismo, é preciso olhar os processos de trabalho. As redações são tocadas por meio de rotinas e métodos que podem ser sintetizados em verbos. Vamos a eles (vou propositalmente anotá-los com iniciais maiúsculas), percorrendo as três mais importantes formas de se expressar por meio de texto, áudio ou vídeo: a Informação, a Análise e a Opinião. Para Informar, o primeiro verbo é Apurar. E para isso, Coletar (dados, informações, declarações), Ouvir, Ver (cenas, multidões), Ler. Lembrar também é importante (consultar arquivos). Produzir e Gravar (imagens, gráficos, áudios). Quem lê este texto já percebeu que muitas dessas tarefas, substanciadas

pelos verbos, podem ser executadas por IA, em maior ou menor grau. Uma expressão verbal fundamental: Olhar o contexto. E, finalmente, Escrever, Montar e Editar. O quanto de IA já se pode usar ao Coletar, por exemplo? Câmeras conseguirão descrever uma cena completa e seus personagens? Mas Olhar o Contexto e Editar me parecem tarefas primordialmente humanas.

Para Analisar, acionamos o Comparar, em grande medida mecanizável. Daí segue-se Avaliar. Aqui também conta muito o Relembrar (a mesma consulta aos arquivos). E fecha com um outro, bem humano: Apontar.

E para Opinar? Esse gênero que tanto contamina (mas não deveria) os dois acima? Resgatar (coisas de Informação e Análise), Comparar, Avaliar e Apontar são essenciais. Mas a esses seguem-se Formular; em alguns casos, Julgar, no melhor dos sentidos; e, finalmente, Opinar.

Esse exercício nos leva a um ponto muito claro: a IA poderá automatizar muitos dos verbos do processo jornalístico – e isso já está acontecendo, aqui e ao redor do mundo. Mas os gestores editoriais não deveriam reservar alguns processos exclusivamente para a ação humana?

No jornalismo e em outras áreas, um aspecto emerge como evidente: o aumento da produtividade, e até da eficácia, trazido pela automatização de certas tarefas. Aquele levantamento inicial (“o trabalho do estagiário, do trainee”, ouço com frequência) se torna subitamente mais rápido e, por vezes, mais robusto.

Mas e o treinamento e a preparação dos jovens? Ao longo do tempo, não correremos o risco de emburrecer toda a cadeia profissional? E o necessário olhar novo, chegante, de uma nova geração, para aquilo que nós e os robôs já sabemos?

A IA não mata agora, mas pode trazer riscos a longo prazo.

Uma certeza para o jornalismo

Nesta semana, editores e executivos de empresas de mídia se reuniram em Londres, no Reino Unido, para a 94ª edição do Congresso Mundial da International News Media Association (Inma), que reúne boa parte das maiores empresas de mídia mundiais. Oportunidade para discutir, sob uma perspectiva global, o negócio da comunicação e trocar experiências entre veículos de todas as partes do mundo – representando a RBS, estive junto a integrantes de 302 empresas de 48 países diferentes.

Nas palestras, nas visitas técnicas e em dezenas de conversas, um assunto dominou a lista de incertezas: qual será o impacto da inteligência artificial generativa sobre os negócios na área de jornalismo? A IA permite facilitar inúmeras tarefas, mas também levanta questões sobre o predomínio crescente de grandes empresas de tecnologia no mercado e o uso não autorizado de conteúdo jornalístico por aplicações como o ChatGPT, por exemplo. Duas tendências, porém, surgiram com clareza:

• O público no centro. O jornalismo precisa levar conteúdo de qualidade para ajudar o leitor a navegar um cotidiano cada vez mais corrido e complicado. E a IA precisa ajudar o jornalismo a focar esforços humanos no que tem mais valor para seu leitor.

• As pessoas não têm as mesmas necessidades. Assim, os jornalistas precisam ser guiados por dados para entender seu público profundamente. Essa compreensão não é só de qual reportagem tem mais interesse, mas também em qual formato ou canal ela deve estar. Vídeo? Áudio? Texto? Rede social?

As fórmulas para atender a esses pontos são variadas entre os veículos. O New York Times decidiu criar a maior equipe de cobertura de eleições da História e apostar todas as fichas em qualificar e desenvolver coberturas em tempo real, comentou o editor-executivo do jornal, Joseph Kahn. Em Taiwan, a jornalista Kassy Cho criou o Almost, marca que publica notícias exclusivamente nas redes sociais em vídeo, para jovens abaixo dos 25 anos. O jornal

The Guardian lançou em abril um aplicativo que usa IA para sugerir receitas a partir dos arquivos da seção de Culinária do jornal: você diz o que tem na geladeira, o app sugere a janta e ensina a fazer.

Porém, as diferentes visões se encontram em uma palavra repetida ao longo da semana em todas as reflexões: transformação. O público se informa de maneiras cada vez mais diversas e temos de encontrá-lo onde ele está. Isso exige mudar a forma como publicamos nosso conteúdo para que seja, além de importante, adequado.

Vem muita novidade por aí, porque as transformações terão de ser mais rápidas. Mais do que isso, terão de ser contínuas nas redações –afinal, a tecnologia permite que o público mude de opinião, hábito e preferência de forma acelerada. A única certeza é que continuaremos mudando – enquanto o público precisar.

05 24

Jornalismo

em tempos de catástrofe

Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS

Para que serve o jornalismo em uma emergência climática extrema?

Em momentos agudos como o da tragédia que infelizmente assola o Rio Grande do Sul mais uma vez, em primeiro lugar, serve para ajudar as pessoas a sobreviverem: para onde ligar se precisar ser resgatado. Quais estradas estão interrompidas. Qual a probabilidade de os rios subirem em determinados lugares e quando a evacuação deve ocorrer.

Em momentos como este, a diretriz nas redações segue esta prioridade: primeiro, o que chamamos de “serviço e alertas” – tudo o que ajudará as pessoas a sobreviverem e a passarem melhor pela emergência, como neste momento dramático como nunca se viu no Estado.

A segunda prioridade é mobilizar pela solidariedade e pela reconstrução. O tamanho desta tragédia ainda não permitiu que se entrasse de vez nesta frente, porque a situação ainda está muito crítica. Mas, assim como fizemos nos últimos eventos climáticos graves, o Grupo RBS novamente vai ajudar de todas as maneiras para que o Rio Grande do Sul se una em esforços para, mais uma vez, recuperar as cidades, as estradas, as pontes, as casas, o comércio etc. E isso se faz com o clamor pelas doações, nos locais adequados, sempre em compasso com a Defesa Civil. Fazemos isso por meio da campanha e dos programas Ajuda Rio Grande.

Nos últimos dias, RBS TV, Gaúcha, GZH, Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro voltaram 100% dos seus esforços para informar, informar, informar. Derrubamos programações normais para, em todos os espaços possíveis, levar ao público o máximo de informações. Autoridades não têm como fazer chegar à população imediatamente, salvo por meio dos veículos de comunicação de jornalismo profissional, as mensagens que precisam ser transmitidas.

Foram centenas de repórteres, apresentadores, editores, cinegrafistas, fotógrafos, comunicadores, em dezenas de cidades diferentes do Estado, para trazer o quadro completo, minuto a minuto.

Por mais que nos esforcemos, com todas as nossas equipes junto à população, numa catástrofe como esta nunca parece ser suficiente. A sensação de impotência e o pesar pelas perdas de vidas são gigantescos. Mas seguiremos trabalhando duro para informar e mobilizar ao máximo, para que o jornalismo cumpra seu papel em mais este desafio extremo do Rio Grande do Sul.

Vamos reerguer o nosso Estado

O Rio Grande do Sul vive a maior tragédia de todos os tempos. É um momento muito triste, com perda de vidas, desaparecidos e milhares de pessoas desabrigadas. Mas precisamos de mobilização, união e compromisso para enfrentá-lo.

Cumprindo com nosso propósito, estamos com 100% das nossas equipes de jornalismo, esporte e entretenimento e todas as áreas de apoio mobilizadas para levar aos gaúchos informação de qualidade, prestando serviço, buscando soluções e combatendo fake news.

Em nome dessa missão, empresas de comunicação se dão as mãos. Estamos agradecidos ao Grupo Sinos, que nos apoia na impressão de Zero Hora e Pioneiro. A distribuição desses jornais vem sendo retomada gradativamente, à medida que estradas e ruas vão sendo reabertas. Da mesma forma,

O povo gaúcho é forte, aguerrido, e vamos reerguer nosso Estado.
Mas, para isso, precisamos de planejamento, coalização de forças e ousadia.

recebemos mais de 20 profissionais da Rede Globo, que vieram ao Estado para informar todo o país da gravidade da situação que estamos vivendo e da necessidade de uma mobilização nacional.

Seguiremos cuidando dos nossos colaboradores e garantindo a continuidade de nossa operação a serviço dos gaúchos. Mas sabemos que é preciso ir além. Com a campanha e os programas especiais Ajuda Rio Grande, buscamos reforçar orientações e alertas das autoridades e incentivar a corrente de solidariedade para arrecadar doações e encorajar o trabalho voluntário. E logo daremos um passo a seguir: fomentar a mobilização da sociedade para a reconstrução do nosso Estado.

O Rio Grande do Sul não pode e não vai parar. O povo gaúcho é forte, aguerrido, e vamos reerguer nosso Estado. Mas, para isso, precisamos de planejamento, coalização de forças e ousadia. Precisamos buscar especialistas e aprender com cases de sucesso de regiões que viveram tragédias climáticas e encontraram soluções e melhores práticas para se reinventar, como New Orleans e o Japão, entre outros.

A solução está nas nossas mãos. Devemos estar preparados. Deixando de lado diferenças ideológicas, vamos somar forças para focar naquilo que nos une: um futuro melhor para o Estado, que é de todos nós. E a RBS estará ao lado dos gaúchos nessa missão.

Nunca

esqueceremos

MARCELO RECH

Jornalista e membro do

Conselho Editorial da RBS

Em linha reta, a distância do Oiapoque ao Chuí é de 4,18 mil quilômetros, mais do que entre Lisboa e Moscou. Mas foi do Amapá que o governador Clécio Luís, a exemplo de tantos outros dirigentes estaduais, ligou para o governador Eduardo Leite para colocar os recursos de seu Estado, por mais modestos que sejam, à disposição do Rio Grande do Sul. Em Brasília, doadores congestionaram por horas os acessos à base aérea para levar doações; e o terminal do aeroporto de Guararapes, em Recife, ficou lotado de mantimentos e roupas trazidos às pressas pelos irmãos nordestinos.

Helicópteros, barcos, bombeiros, policiais civis e militares de todo o Brasil acorreram ao Rio Grande do Sul tão logo se configurou a dimensão da catástrofe. Caminhões com faixas de força aos gaúchos transportam de outros Estados milhares de toneladas de doações, que formam uma linha vital de salvação neste momento. Heroicos são também esses caminhoneiros que, com devoção, têm passado dias em rodovias semidestruídas, desvios e engarrafamentos para manter o abastecimento do Rio Grande do Sul.

Talvez não soubéssemos que éramos uma nação profundamente solidária, ou não nos lembrássemos mais, diante da divisão entre brasileiros escavada artificialmente para eleger políticos de diferentes matizes ideológicos que tiram vantagem do ódio entre conterrâneos. Mas a tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul nos deu uma janela para enxergar por cima dos cretinos das redes sociais que, do sofá, tripudiam dos esforços de servidores civis e militares que há duas semanas mal se alimentam e dormem para salvar vidas e tentar restabelecer um mínimo de normalidade.

Quem sabe não está nascendo aqui no Rio Grande do Sul, como uma flor no pântano da catástrofe, um Brasil com mais cara do Brasil onde as divergências não separavam famílias e amigos nem catalogavam partidos como anjos ou diabos? Esse Brasil não concordava, e nem devia concordar, em tudo, mas não desejava a aniquilação daquelas partes que não pensavam como as outras. É essa chance que temos agora diante de nós, por obra de voluntários, doadores, servidores e poderes que não distinguem crenças políticas ao estender a mão.

No telefonema ao governador gaúcho, seu colega do Amapá aproveitou para agradecer o apoio do Rio Grande do Sul a 24 amapaenses tratados aqui por problemas renais crônicos. Esse é o Brasil que estava oculto e que pode emergir das águas de maio. Basta que, ali na frente, quando os rios baixarem e o noticiário voltar ao normal, as promessas e os discursos oficiais não sejam arquivados e que, principalmente, não percamos de vista que, um dia, o Brasil se uniu para salvar o Rio Grande do Sul. Nós nunca esqueceremos.

Os recados da tragédia

As últimas três semanas comprovaram um fato: não estamos preparados para tragédias. Estamos assistindo a fenômenos que não existiam há alguns anos. Dizer que isso surpreende é inadequado, porque todos os especialistas, incluindo os meteorologistas, alertam ser este o nosso novo normal. A realidade mudou – e precisamos nos preparar para isso.

Os danos à infraestrutura são gigantescos. Em rodovias, aeroporto, trensurb, portos, pontes, viadutos, a lista não tem fim. A falta de investimentos, inclusive em manutenção, nessas obras fundamentais para a mobilidade e a logística do Estado é evidente. E são bilhões de reais. Os técnicos enumeraram os problemas: estradas sem escoamento de água, plantio inadequado ou inexistente de vegetação às margens, lavouras muito perto dessas estruturas, tubulação de porte insuficiente, pontes obsoletas, prédios construídos em barrancos... Sem falar em captação de água em locais inadequados, casas de bombas inoperantes justamente quando mais se precisa delas ou diques e comportas que não seguram a água.

Estamos vivendo no passado. Temos décadas à frente para chegar a uma cultura de investimento e prevenção como a existente no Japão, por exemplo, em que, após repetidas tragédias, prédios que resistem a terremotos foram erguidos. A Holanda tem 60% do seu território abaixo do nível do mar e evita inundações.

Nas nossas cidades, os canos de escoamento estão preparados para uma realidade urbana de 20, 30 anos atrás. Obras cobrem, sem maiores planejamentos, áreas enormes com concreto, asfalto ou outros materiais impermeáveis, fazendo com que a água da chuva escoe para as vias – e ali fique, porque não há tubulação ou bombas adequadas para baixá-la.

Vivenciamos a maior tragédia climática de todos os tempos. Enormes áreas urbanas ficaram às escuras por muitos e muitos dias, pelo alagamento. Imagine se o vento também tivesse ocorrido.

Estamos obsoletos em relação ao novo normal. Os desafios do clima nos deixam sem água, sem luz, sem internet, sem comunicação, sem ruas, sem estradas, sem hospitais, sem escolas, sem segurança, em alguns lugares sem comida sequer.

Não sou especialista, sou apenas um observador e sei que o que vou falar vai ser um pouco duro: os efeitos climáticos que estamos sofrendo são causados em 50% por fenômenos como El Niño ou La Niña. Mas os outros 50% são mudanças no clima que vão piorar, porque os polos estão derretendo, a temperatura dos oceanos está mudando e nossas florestas seguem sendo desmatadas. Vivemos um momento que não requer explicações futuras. Exige ações agora.

O papel do jornalismo neste contexto é fundamental: cabe à imprensa conscientizar a população para que exija uma solução dos problemas da obsolescência em nossa infraestrutura, da inexistência de prevenção de tragédias e de encaminhamento de todos os aprendizados que tragédias anteriores deixaram.

Amálgama de dissonâncias

RODRIGO LOPES

Colunista e comentarista do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Na história recente do jornalismo americano, é conhecido o papel desempenhado pelo Times-Picayune, jornal de New Orleans cuja corajosa cobertura da tragédia do furacão Katrina, em 2005, lhe rendeu um prêmio Pulitzer. Menos frequente é o destaque a sua trajetória no período seguinte ao desastre, quando as grandes emissoras dos Estados Unidos e as agências internacionais de notícias retiraram os holofotes da metrópole inundada.

O Picayune se tornou um espaço privilegiado de debate de ideias para a reconstrução. Alguns diziam que New Orleans, com 484 mil habitantes pré-furacão, deveria ser abandonada – e uma nova cidade precisaria ser reconstruída em outro lugar, longe do Lago Pontchartrain, no qual os diques

esfarelaram-se com o vento. Outros defendiam que a cidade deveria ficar e, com um grande plano de reengenharia, se tornar mais resiliente. Foi o que ocorreu. Mas entre o hoje e o ontem, várias sugestões afloraram nas páginas impressas e da web do Picayune.

Esse é um dos papéis do jornalismo profissional passado o momento mais dramático de uma tragédia, fase na qual o Rio Grande do Sul está ingressando: ser hub para um gigantesco brainstorming, dando voz à Academia, à sociedade civil, ao poder público e à iniciativa privada. Ao mesmo tempo que oferece seus espaços para ser praça pública, um veículo de comunicação funciona como amálgama de convergências em meio a dissonâncias, iluminando o debate com exemplos de fora, de cidades pelo mundo que se tornaram mais fortes após viverem suas catástrofes dentro de casa.

Há também, claro, outros papéis: o jornalismo pós-tragédia deve cobrar eventuais responsabilidades, fazer a crítica construtiva diante de planos mirabolantes que surgem no processo e desnudar o aproveitamento político do desastre. A prática do jornalismo investigativo é profilaxia contra a corrupção.

Em meio a tudo isso, um veículo de comunicação deve ser a alavanca do espírito de um povo, como foi o Picayune em New Orleans: porta-voz das dores da população, mas também de seus anseios de renascimento. No Rio Grande do Sul, quando a verdade submergiu no alagamento da desinformação, o rádio a pilha se tornou um farol. No day after, é na imprensa profissional que a população terá seus direitos esclarecidos e cobrados.

Por fim, o jornalismo perpetua o fato. Não esqueceremos. Quando muitos forem embora, os jornalistas do Rio Grande do Sul continuarão, ano após ano, lembrando a maior tragédia ambiental dos gaúchos – só assim seremos melhores, na vigilância para que não se repita. New Orleans não é igual a antes de agosto de 2005. Assim como o nosso Estado não será depois de maio de 2024. Se seremos melhores ou piores, vai depender de todos nós.

Pra cima, Rio Grande!

Na antevéspera do aniversário de 60 anos de Zero Hora, transcorrido no último dia 4 de maio, escrevi para publicar neste espaço do Conselho Editorial um texto em que alinhava os principais desafios enfrentados pelo jornal ao longo de sua história. Naquele momento, ninguém poderia imaginar que o maior de todos os desafios – não apenas para ZH, mas para todos os gaúchos – estava por desabar sobre nós. A enchente histórica que provocou mortes, destruiu cidades e desabrigou milhares de pessoas no Estado também desafiou a resistência e a bravura dos rio-grandenses, além de despertar a solidariedade de brasileiros de todos os recantos do país.

Desde o primeiro momento da tragédia climática, um batalhão de voluntários mobilizou-se espontaneamente para salvar vidas e abrigar vítimas. Na sequência, uma onda de doações inundou o Estado e reacendeu a chama da esperança no coração dos gaúchos. Conjuntamente com o governo federal, o governo estadual, as prefeituras e as demais autoridades da administração pública, incluindo

integrantes das Forças Armadas, das forças policiais, bombeiros e agentes de saúde, incontáveis heróis anônimos formaram um mutirão de humanismo e fraternidade em meio ao maior desastre ambiental do país. A mobilização do Brasil pelo Rio Grande nos reconforta e nos fortalece.

O

Grupo RBS

acredita

que a inédita conexão nacional deve servir como fonte geradora da energia necessária para o enfrentamento dos desafios que o Rio Grande ainda tem pela frente.

O Grupo RBS, por meio de seus veículos e profissionais, que continuam acompanhando presencialmente cada momento dessa dramática epopeia, acredita que a inédita conexão nacional deve servir como fonte geradora da energia necessária para o enfrentamento dos desafios que o Rio Grande ainda tem pela frente. Como parte desse propósito, estamos lançando neste final de semana um projeto institucional centrado na união, no trabalho coletivo e no poder da criatividade dos rio-grandenses. Partindo também dos aprendizados colhidos na fase emergencial da atual crise, a proposta central é contribuir para que nosso Estado se torne um lugar ainda melhor para se viver e também esteja mais preparado para superar eventuais adversidades.

Pra cima, Rio Grande! – é a conclamação expressa no manifesto que estamos divulgando nacionalmente neste domingo para afirmar, alto e bom som, que o futuro está em nossas mãos e que queremos um Rio Grande – sempre e verdadeiramente – grande. De nossa parte, estamos cada vez mais comprometidos a utilizar jornalismo profissional e qualificado para desenvolver pautas focadas na retomada das atividades e na reconstrução do Estado. Em continuidade ao trabalho que estamos fazendo na cobertura da tragédia climática, queremos mostrar soluções criativas adotadas por outros países em eventos semelhantes. Também manteremos a atenção sobre as promessas e as providências das autoridades públicas, dando visibilidade a cada ação para que a população tenha assegurados seus legítimos direitos de fiscalizar e receber as devidas prestações de contas. Procuraremos, igualmente, valorizar decisões adequadas e casos positivos que possam servir de exemplo a comunidades e indivíduos. Da mesma maneira, não deixaremos de condenar eventuais oportunismos políticos, que só servem para gerar polarização e são inaceitáveis no atual momento.

No seu projeto de contribuição para a reconstrução do Estado, o Grupo RBS ampliará a valorização das empresas gaúchas e incentivará o consumo local, pois tem convicção de que a recuperação da economia, com geração de empregos e garantia de renda, é essencial para o bem-estar da população. Nesse sentido, haverá reconhecimento em todas as abordagens jornalísticas da importância da educação e da indústria, do comércio, da agricultura, da pecuária, dos serviços e do turismo

como forças basilares da nossa economia. Por serem vitrines dessas atividades, procuraremos dar sempre maior visibilidade e divulgação aos nossos eventos setoriais e regionais, como festas municipais, feiras, exposições e manifestações culturais. Elevar o Rio Grande do atual estado de emergência ao seu merecido patamar de desenvolvimento e segurança incluirá, certamente, uma abordagem propositiva e preventiva das mudanças climáticas, sempre ouvindo e dando voz aos especialistas no tema, principalmente os cientistas e a comunidade acadêmica. Também queremos ouvir a sociedade civil, os movimentos de empresários e trabalhadores, as chamadas minorias sociais, todos os gaúchos que se dispuserem a participar do debate e desta empreitada reabilitadora.

Pra cima, Rio Grande! – é também um apelo por união, diálogo, colaboração e trabalho.

Nesse sentido, de valorizar as coisas boas do Rio Grande do Sul, estamos preparando ainda para este mês de junho lançamentos e inovações em nossos produtos jornalísticos. As mudanças estruturais em nossos veículos, planejadas para atender a todos os nossos públicos, incluem novo site e novo aplicativo para GZH, fortalecimento de Zero Hora na plataforma digital, remodelação da edição impressa e total protagonismo da rádio Gaúcha neste modelo integrado, que também terá outros produtos e conteúdos inovadores, sempre com a assinatura qualificada de nossos jornalistas e comunicadores. Na área da televisão, continuaremos aperfeiçoando a nossa cobertura regional, promovendo os valores locais e divulgando-os para todo o Brasil por meio da nossa sólida parceria com a Rede Globo.

O Grupo RBS assume o seu protagonismo na reconstrução, propondo-se a continuar informando com seriedade, opinando com responsabilidade, inovando com criatividade e dando voz para todos que quiserem contribuir de alguma forma para que o Estado supere logo o maior desafio de sua história.

A força do streaming

DÉBORA PRADELLA

Gerente-executiva de Produto Digital do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

No evento trágico que vivemos em nosso Estado com as enchentes de maio, duas necessidades do público ficaram muito claras e guiaram o jornalismo digital da RBS: a busca por conteúdo confiável e também por informação em tempo real. Ao entender essa demanda dos usuários, aproveitamos a força do streaming – a transmissão de vídeo pela internet – para ampliar o alcance da nossa cobertura. Foram 360 horas ininterruptas de transmissão ao vivo da programação da rádio Gaúcha no YouTube de GZH entre os dias 5 e 19 de maio, 24 horas por dia.

Uma força-tarefa unindo nossos times de Jornalismo, Esporte e Operações garantiu uma cobertura em vídeo que complementou a experiência dos usuários – todos queriam ler,

ouvir e também ver tudo sobre os últimos acontecimentos. A relevância do que fizemos se comprovou em números, com um crescimento de mais de 254% nas visualizações e mais de 716% no número de inscritos no canal de GZH.

Este resultado é reflexo de um hábito já estabelecido do público de consumir informação em vídeo online – seja ao vivo ou on demand (quando se acessa depois da transmissão). O Brasil é o segundo maior consumidor de streaming do mundo, com mais de 60% da população utilizando o serviço, segundo relatório da Sherlock Communications divulgado neste ano. Ou seja, o streaming é um investimento essencial para os veículos jornalísticos na busca por relevância no ambiente digital.

Este formato de distribuição tem o poder de ampliar a presença do jornalismo, atingir novas audiências e reforçar a relação do usuário com a marca e com o conteúdo em diversas plataformas. Estar presente no streaming como empresa de informação não significa competir com os demais veículos, como rádio e TV, mas complementá-los, entendendo o papel de cada um na jornada diária de quem consome notícias.

O Brasil é o segundo maior consumidor de streaming do mundo, com mais de 60% da população utilizando o serviço.

Aqui na RBS temos um time focado em acompanhar as tendências e desenhar as novas oportunidades para o streaming, garantindo conexão com as necessidades da nossa audiência. Na semana do dia 23 de junho, lançaremos quatro novos programas de Esportes e Jornalismo, e não vamos parar por aí. Porque, além de fazer bom jornalismo, temos o compromisso de levá-lo aonde o público está, adaptando nossa forma de entregar informação de acordo com os novos hábitos de consumo transformados pela tecnologia.

O jornal impresso vai acabar?

Há mais de 30 anos, quando exercia a presidência da RBS, convidei o professor Nicholas Negroponte, fundador do Laboratório de Mídia do conceituado MIT (Massachusetts Institute of Technology) e um dos profetas da era digital, para uma conversa sobre o futuro da comunicação. Falando para executivos da empresa, Negroponte deixou-nos duas reflexões bem objetivas. A primeira, que o mundo se digitalizaria numa velocidade incrível. A segunda, que os jornais impressos iriam desaparecer.

Aquela conversa – difícil acreditar que já se passaram 33 anos do momento em que assumi a posição de CEO da RBS – teve consequências: aceleramos o ingresso do Grupo RBS no mundo digital, passamos a olhar o novo cenário proporcionado pelo avanço tecnológico com mais determinação e aprofundamos o conhecimento das mudanças de hábitos dos consumidores.

Quanto à segunda reflexão de Negroponte, nossa visão foi de que a qualidade e a credibilidade do conteúdo jornalístico disponibilizado aos consumidores de informação são sempre mais relevantes do que o meio de entrega. Já investíamos nisso na época e continuamos acreditando nesse caminho.

Lembrei-me da conversa com Negroponte ao refletir sobre a edição de Zero Hora deste final de semana, independentemente de como você a está lendo: no jornal digital, no computador, no tablet ou no celular, ou nesta histórica edição impressa com 144 páginas. Nesses anos todos, impresso ou digital não foram um caminho ou outro, nem o cerne da questão. O que a RBS fez, está fazendo agora mesmo e fará no futuro é uma opção pelo jornalismo profissional, no formato que o público quiser. O jornalismo de qualidade é a aposta permanente, no impresso ou no mundo plenamente digitalizado e suas diferentes formas de chegar ao consumidor.

Neste fim de semana, a RBS está lançando vários produtos, firme na nossa crença de que o jornalismo é algo muito relevante para o nosso público. Ainda mais no desafiador momento de mobilização e reconstrução que estamos vivendo, expresso no editorial da RBS.

Negroponte tinha razão: o mundo se digitaliza cada vez mais rápido e, infelizmente, alguns títulos impressos desapareceram. Ao mesmo tempo, muitos outros, como The New York Times, Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo, entre outros, estão sabendo conviver simultaneamente com o mundo digital e o analógico. Zero Hora, com seus 60 anos recém-completados, está entre eles.

Na terça-feira, em uma reunião com comunicadores e líderes da RBS, me lembrei da conversa de três décadas atrás. E me recordei, também, de um bate-papo recente na sede da empresa, durante o South Summit de Porto Alegre, em março deste ano, com Uri Levine, cofundador do Waze e autor do livro Apaixone-se pelo Problema, não pela Solução. A primeira pergunta que fiz a Levine foi a mesma que fiz a Negroponte. “Até quando o jornal impresso vai existir?” Ele de pronto respondeu: “O jornal impresso existirá enquanto houver consumidores que preferirem este formato”. GZH, que em maio atingiu quase 15 milhões de usuários e 120 mil assinantes digitais, Zero Hora e Gaúcha têm seus produtos relançados neste fim de semana e estão vivendo a plenitude do mundo digital. Zero Hora, aos seus 60 anos, se renova no digital e no impresso. Nós, da RBS, acreditamos no jornalismo profissional, na força da comunicação e no nosso Rio Grande do Sul. Concordo tanto com Negroponte quanto com Levine. E você, caro leitor, acha que o jornal impresso um dia vai acabar?

Cuidar da reputação do RS

Depois de dois meses de uma cobertura que mostrou ao Brasil e ao mundo os impactos da maior tragédia climática da história gaúcha, agora, na retomada, é preciso reconstruir também a reputação do Estado. O jornalismo profissional contribuiu decisivamente para salvar vidas, dar transparência à ação do poder público, incentivar o voluntariado e a participação das empresas e para a formação da enorme rede de solidariedade que tomou o país.

O desafio da cobertura agora é seguir mostrando que toda ajuda ainda é muito necessária, porque a jornada é longa e não se pode permitir que sejam esquecidos

aqueles com maiores dificuldades para recomeçar, porém trazendo também razões objetivas para acreditar na reconstrução.

Amplio essa reflexão para cada um de nós, que em nossas redes sociais e nas conversas informais destacamos a gravidade das perdas – sobretudo para estimular empatia e solidariedade.

Manter uma imagem de vulnerabilidade do Estado provoca nas empresas receio de investir, afasta o turista e incentiva o êxodo de talentos. São situações que precisamos combater, especialmente quando não se pode renunciar a investimentos e às melhores cabeças para reerguer o Estado, incorporando aprendizados para evitar que a tragédia volte a acontecer.

É preciso dar luz para as informações verdadeiras sobre a força do Rio Grande, um dos cinco maiores PIBs estaduais, com a quarta maior renda per capita, acima da média nacional. O Estado é o sétimo em capital humano, no ranking de competitividade.

Além disso, tem um parque industrial robusto e é um dos líderes do agronegócio, com 70% da produção de arroz e 90% da de vinhos, entre outros. Até ser fechado em maio, o aeroporto de Porto Alegre era líder em satisfação geral dos passageiros e um dos 10 mais importantes do país.

O Rio Grande do Sul quer os turistas de volta, quer jovens de todo o país disputando vagas em suas universidades, quer novos investimentos e mentes criativas para trabalhar pelo seu futuro. Existe aqui musculatura para superar as dificuldades. A retomada será tão mais rápida quanto forem os investimentos para gerar empregos e renda e quanto mais o Estado se provar próspero, com oportunidades para morar, trabalhar e investir. Que essas sejam as marcas que fiquem dessa crise.

O equilíbrio entre o urgente e o importante

Muitas vezes, frente a situações inesperadas, nos vemos capturados pelo senso de urgência e corremos o risco de esquecer o que é realmente importante. A emergência climática vivida no RS demonstra a urgência de acolher as pessoas que tanto necessitam e a importância de pensar em nosso futuro como sociedade. As inundações que assolaram o RS demandam uma nova forma de pensar em nossa capacidade de absorver os crescentes desequilíbrios climáticos e suas consequências no futuro. Precisamos aprender a aprender com essas crises para sairmos mais preparados para o próximo evento. A verdade é que não é isso que tem acontecido. Nos últimos anos, tivemos sequencialmente situações desse tipo e parece que pouco aprendemos com cada uma delas. Infelizmente, não ouvimos ou não entendemos as mensagens que estávamos recebendo. A consequência é que nos vimos surpreendidos e despreparados para o desastre, que tem causas globais e locais, questões de legislação e culturais.

Precisamos aprender com nossas experiências e nossos erros passados na área ambiental, que não foram poucos.

Se não fizermos isso, os recursos federais e internacionais de nada servirão para estarmos preparados para a próxima

Precisamos, também com urgência, consolidar uma cultura de resiliência na nossa comunidade.

emergência climática. Nosso maior desafio é construir uma nova visão de futuro para o RS. E conceber um novo modelo de desenvolvimento socioeconômico e ambiental que nos permita uma convivência saudável com a água – tanto na falta, que gera problemas com a seca, quanto no excesso, com as enchentes. E este é um desafio que vai impactar mais as novas gerações.

É urgente fazermos investimentos de curto prazo para recompor a dignidade das pessoas atingidas pela tragédia. Precisamos, também com urgência, consolidar uma cultura de resiliência na nossa comunidade. Entendo a importância de os municípios e o Estado contarem com uma estrutura organizada nessa área, com uma liderança pública ativa, reconhecida e, sobretudo, preparada para enfrentar as futuras emergências climáticas.

É importante, principalmente, buscar uma solução de longo prazo que redesenhe o desenvolvimento social, econômico e ambiental do Estado. E isso deve ser feito de forma participativa, solidária, escutando as pessoas, construindo JUNTOS. Porque o futuro é da colaboração. E isso passa também pela educação, uma educação integral, que inclua na formação dos nossos jovens a questão ambiental e o respeito à natureza, em busca de uma sociedade que reconheça a importância e a fragilidade de nossa casa comum.

O jornalismo e as tragédias

RICARDO GANDOUR

Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

A cobertura de fatalidades e eventos trágicos é sempre um desafio a mais para o jornalismo, por exigir o equilíbrio entre duas abordagens conceitualmente antagônicas: a solidariedade e o distanciamento.

A primeira, um necessário estado de espírito: com rapidez e precisão, levar ao público, com imagens, sons e textos, a real dimensão do ocorrido, as vítimas, a situação de cidadãos e de suas famílias, captando e transmitindo o martírio e os danos aos envolvidos, direta e indiretamente. Participar do clamor, sofrer e emocionar-se junto com seus leitores, ouvintes e espectadores, ao mesmo tempo que presta serviço, orientando e convocando ajudas de

toda espécie e origem. Quando o veículo jornalístico está inserido na comunidade em que os fatos acontecem, proximidade e solidariedade se misturam e se nutrem mutuamente.

O distanciamento aparece nos momentos seguintes. Aqui não se trata de estado de espírito, mas dos métodos que caracterizam a prática do jornalismo profissional. É preciso distanciamento para apurar as causas, as responsabilidades, os motivos. Essa abordagem por vezes poderá ser confundida com frieza, mas será um sentimento inevitável, pois apenas causas apuradas com clareza e precisão poderão contribuir para evitar desastres semelhantes no futuro. Em casos de ocorrência mais curta, essas duas abordagens se percebem de forma bem nítida. Tome-se, por exemplo, um incêndio ou o desabamento de um edifício. Primeiro, transmite-se o choque, a desolação, contam-se as vítimas, choram-se os mortos. Passadas as labaredas e a poeira, discutem-se as causas, apuram-se as responsabilidades.

O que dizer de uma tragédia de dimensões como a que afetou e ainda afeta o Rio Grande do Sul, em que essas duas etapas de cobertura se prolongam e se misturam? Como manter, em paralelo, o “sofrer junto”, prestando serviço e ajudando, e a essencial cobrança por esclarecimentos, medidas e providências práticas?

Como membro paulista do Conselho Editorial da RBS, cumprimento as equipes de todos os veículos deste grupo por terem conseguido, desde 29 de abril, data das primeiras notícias de volumes de chuvas sem precedentes, manter uma cobertura de alto nível em todos os aspectos.

A celebração dos 60 anos e a estreia de produtos redesenhados foram adiadas e repensadas, com a solidariedade e o distanciamento necessários, em prol de uma cobertura que – como diz um antigo clichê das redações – não tem hora para terminar. Pra cima, Rio Grande!

Compromisso com a retomada

Os aprendizados que compartilhamos depois de enfrentar a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul provocam cada um de nós – como cidadãos, como empresas e como sociedade – a se perguntar que legado queremos deixar para as próximas gerações. A partir de que bases vamos construir o futuro do nosso Estado?

Uma resposta já sabemos: precisamos evoluir em nossas premissas e práticas, buscando modelos de gestão sustentável para que nossos filhos e netos vivam em um Estado melhor para todos.

Reafirmando a mobilização de esforços para o desenvolvimento econômico e a reconstrução do Rio Grande do Sul, o Grupo RBS lança o “Retoma RS”, um projeto editorial conectado ao movimento “Pra cima, Rio Grande”, com foco em difundir e debater boas práticas de sustentabilidade ambiental, social e de governança – os três pilares que formam a sigla ESG. Contando com as contribuições de quatro empresas reconhecidas por sua atuação e sua expertise nessas frentes – Lojas Renner, Aegea, Be8 e Randoncorp –, queremos valorizar

Precisamos evoluir em nossas premissas e práticas, buscando modelos de gestão sustentável para que nossos filhos e netos vivam em um
Estado melhor para todos.

e amplificar iniciativas e exemplos que podem ser replicados a partir de cases de sucesso em diferentes setores da economia. Ancorado em Zero Hora e marcando o reposicionamento da marca que completou 60 anos em maio, o projeto colaborativo, com 12 meses de duração, será desdobrado em produtos multimídia, valorizando conteúdos sobre governança, sustentabilidade e responsabilidade social, com veiculação também em Gaúcha e GZH. A estreia será na próxima quarta-feira, com a publicação da primeira edição do caderno mensal de Zero Hora.

Esta parceria com empresas desta relevância, focada no desenvolvimento sustentável no Estado, demonstra a confiança e a importância do papel do jornalismo profissional para impactar positivamente a sociedade e apontar caminhos para o futuro.

Como empresa de comunicação, estamos cientes de nossa responsabilidade neste momento de superação a partir do poder transformador da informação. O “Retoma RS” se soma a uma robusta frente de ações para a retomada, tema presente na pauta diária de nossos veículos, dando visibilidade a cada avanço e cobrando a devida aplicação de recursos e iniciativas necessárias para a recuperação do Estado. Ao lado de parceiros e do público, seguiremos, a cada dia, reafirmando o nosso compromisso com os gaúchos.

Quando

acaba a reconstrução do RS?

Empresário e membro do Conselho Editorial da RBS

Quando o movimento “Transforma RS”

trouxe, em plena enchente, o consultor em catástrofes da ONU, da Cruz Vermelha e do Unicef Marcio Gagliato, que atuou em tragédias na Líbia, na Somália, na Faixa de Gaza, no Irã, na Síria, na Polônia e na Ucrânia, ele listou alguns fatores fundamentais para que o RS supere a catástrofe e se reconstrua.

1. A solução precisa ser apartidária.

2. A saída da crise deve se dar com o agente local – o governador e os prefeitos.

3. É preciso saber que a solidariedade dura de dois a três meses.

4. Deve-se tomar muito cuidado com os mais desamparados, buscando resolver as emergências para evitar uma instabilidade social.

5. A reconstrução pode levar de seis a sete anos.

6. É necessário reconstruir melhor do que era antes.

Sim, a solução precisa ser criativa e há uma oportunidade de avançar em relação ao que se tinha antes da enchente, erguendo um Estado atualizado para os novos tempos. Problemas como retirada de matas ciliares à beira dos rios, estradas sem escoamento, assoreamento de rios, pontes construídas para uma realidade de décadas atrás ou cidades com construções que não permitem escoamento da água precisam ser resolvidos.

Mas como vamos fazer tudo isso? São necessários muitos recursos e uma união de Estado e iniciativa privada, trabalhando em conjunto. Uma gestão adequada, reenergizando o projeto de desenvolvimento do RS, com atração de empresas, tecnologia, preparo sob o ponto de vista de segurança ambiental. A reconstrução, melhor do que éramos, pode alavancar o território gaúcho.

Este não é um projeto dos atuais governantes federais, estaduais ou municipais: é um projeto de Estado, até porque a reconstrução levará dois, três governos para acontecer. É o setor público em conjunto com o setor privado, com suas entidades empresariais, academia, que devem construir e aderir a este plano de reconstrução e, principalmente, garantir sua execução na íntegra, independentemente de quem seja o próximo governante.

Tudo isso precisa ser de conhecimento de toda a população, e é aí que entra o papel do jornalismo profissional e independente: a população precisa conhecer o plano, se conscientizar inclusive de questões mais técnicas e cobrar que tudo isso aconteça.

O que o público deseja e o que o jornalismo deve entregar

Analisado com lupa por editores, executivos e pesquisadores de mídia, o Digital News Report 2024, divulgado em junho, traz dados indispensáveis sobre o comportamento do consumidor de notícias. Em tempos de brutal disputa por atenção, equilibrar conteúdos relevantes e interessantes, dilema diário de todo jornalista, nunca foi tão fundamental. Um dos itens observados diz respeito ao fenômeno news avoidance (evitação de notícias, em tradução livre). Não apenas porque esse item afeta a indústria, mas principalmente porque o vazio informacional costuma ser terreno fértil para o germinar de autocracias.

O ponto de atenção é o número de brasileiros que dizem evitar o consumo de notícias: 47% da população em 2024. Como hipótese, analistas atribuem o índice à sobrecarga noticiosa sobre os ataques de 8 de janeiro e às informações sobre os conflitos no Oriente Médio e a Guerra da Ucrânia.

O ponto de atenção é o número de brasileiros que dizem evitar

o consumo de notícias: 47% da população em 2024.

Olhando a metade cheia do copo: o documento traz, em si, parte do antídoto. Perguntados sobre por qual tipo de conteúdo os “evitadores de notícia” se interessam, 55% afirmam que desejam informações positivas; 46%, que os veículos tragam soluções para os problemas; 39% querem conteúdos explicativos; 38% aspiram por notícias sobre “pessoas como eu”; 37% reivindicam investigação; e 35% desejam saber sobre as “grandes manchetes do dia”.

Trocando em miúdos: ainda que não transformemos o jornalismo em “armazém de secos e molhados”, é possível apontar caminhos, não apenas evidenciar problemas. Em se tratando do Rio Grande do Sul, que viveu sua maior tragédia climática, isso é muito relevante. Os leitores/usuários desejam compreender os fatos: mais contexto e menos informações soltas; mais “gente” nos textos, imagens e voz, histórias com as quais se identifiquem. O público reconhece o papel de “cão de guarda” (watchdog) da imprensa em prol da sociedade. E aspira estar atualizado sobre a cidade, o país e o mundo para ter repertório para conversar com seu círculo de convívio.

Em resumo: o estudo da Reuters traz no problema a própria solução. Mesmo quem “evita” notícia reconhece que precisa dela. Seja para formar opinião entre os amigos, seja para tomar posição. Sem abrir mão da qualidade. Em outras palavras, o público aspira por Jornalismo. Com criatividade e profissional.

Colunista e comentarista do Grupo
e membro do Conselho Editorial da RBS

Eleições ainda mais digitais

DÉBORA PRADELLA

Gerente-executiva de Produto Digital do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

As Eleições 2024 começaram a tomar forma com o início da propaganda eleitoral, no dia 16 de agosto. Além da presença de bandeiras nas ruas, o que já se percebe é um investimento robusto em conteúdo e publicidade digital desde o primeiro dia da campanha. E este contexto traz novos desafios e oportunidades para a cobertura jornalística.

A disseminação de notícias falsas é o principal deles. Com o uso de inteligência artificial, novas formas de enganar o eleitor foram inventadas – hoje é possível criar um vídeo simulando falas e expressões de um candidato sem que ele jamais tenha falado sobre determinado tema, por exemplo. Nesta semana, o TSE inclusive atualizou a Resolução n.o 23.610 para coibir deepfakes e o

uso de robôs nas campanhas, além de responsabilizar big techs (como Google e Facebook) que não retirarem do ar conteúdos com desinformação.

O jornalismo profissional entra como mais um antídoto para combater as notícias falsas e garantir informação de qualidade para os eleitores. Trago aqui cinco pontos que podem guiar uma boa cobertura digital para as Eleições:

1. CHECAR EM TEMPO REAL: ter velocidade para verificar declarações com dados quantitativos e oficiais pode ajudar a frear a propagação de informações falsas. A iniciativa “É isso mesmo?”, do GDI, que conferiu a veracidade das falas dos pré-candidatos à prefeitura de POA durante o primeiro debate da Gaúcha, é um exemplo disso.

2. EDUCAR O PÚBLICO: não presumir que todos têm o mesmo nível de informação e ensinar a audiência sobre o pleito eleitoral e sobre como verificar conteúdos através de gráficos, vídeos, listas e explicações detalhadas.

3. SER TRANSPARENTE: deixar claro de onde saíram as informações publicadas e dar visibilidade para organizações respeitadas de verificação ajuda as pessoas a entenderem o processo de um veículo profissional de jornalismo e a reforçar a credibilidade e a busca por fontes confiáveis.

4. ENGAJAR E DAR VOZ À POPULAÇÃO: conversar com as comunidades locais para criar conteúdos que ajudem verdadeiramente as pessoas a decidirem seu voto é uma maneira de se antecipar à desinformação e criar proximidade e conexão.

5. LEVAR O CONTEÚDO ATÉ AS PESSOAS: só se combate a desinformação levando conteúdo de qualidade aos locais em que as mentiras são disseminadas. Veículos profissionais precisam distribuir conteúdo nas mais diversas redes sociais, com linguagem e formatos apropriados para preencher as lacunas que são ocupadas pelas notícias falsas.

EXPEDIENTE :

Design editorial e diagramação

Carolina Fillmann por Design de Maria

Revisão

Daniela Neu

Impressão

Gráfica São Miguel

Este livro foi editorado nas fontes Cormorant Garamond e Gilroy.
Impresso em papel Pólen
90g/m 2 e Cartão 300g/m 2 na Gráfica São Miguel.

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