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Livro Conselho Editorial 1

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Porto

G892c Grupo RBS

Conselho Editorial do Grupo RBS : ano I. – Porto Alegre : Grupo RBS, 2023.

127 p. : il.

“Coletânea de artigos para qualificação do jornalismo profissional – Agosto de 2022 – Agosto de 2023”.

ISBN 978-85-69240-28-0

1. Jornalismo : Editorial : Coletânea de artigos. I. Título.

CONSELHO RBS DO GRUPO EDITORIAL

ANO I DE AGOSTO DE 2022 A AGOSTO DE 2023

COLETÂNEA DE ARTIGOS PARA A QUALIFICAÇÃO DO JORNALISMO PROFISSIONAL

Catalogação elaborada por Cristina Alice Gomes CRB10/1015

Um grupo para aperfeiçoar o jornalismo profissional

Em agosto de 2022, o Grupo RBS, maior empresa multimídia do sul do Brasil, então com 65 anos de existência, lançou uma importante iniciativa para evoluir na qualidade de sua atividade de comunicação: o Conselho Editorial. A criação do grupo marcou a maior aproximação de Nelson P. Sirotsky do jornalismo da empresa, na figura de publisher – a pessoa responsável pela linha editorial e pelo fortalecimento do nosso jornalismo.

Formado por integrantes internos e externos à RBS, o Conselho Editorial completou, em agosto de 2023, o seu primeiro ano de atuação, com grande impacto junto às redações da RBS TV, da Rádio Gaúcha, dos jornais Zero Hora, Pioneiro e Diário Gaúcho e do produto digital GZH, onde atuam mais de 500 jornalistas. Com audiências de milhões de telespectadores, leitores, usuários e ouvintes, esses veículos de comunicação se tornaram, a partir das contribuições dos conselheiros, mais transparentes junto ao público, ainda mais plurais, mais equilibrados, mais próximos da comunidade e mais atentos a sua responsabilidade, como imprensa, pela democracia e pelo desenvolvimento da sociedade.

Desde a primeira semana, o Conselho Editorial do Grupo RBS ocupou uma coluna semanal na edição de fim de semana do jornal Zero Hora, veículo impresso de maior circulação no Rio Grande do Sul, e em GZH, site e aplicativo de notícias de maior audiência no Estado. São essas colunas de conselheiros e de convidados externos, na íntegra, que estão reproduzidas nesta publicação, para documentar o primeiro ano de atividade e consolidar um registro histórico dos temas que pautavam as discussões editoriais naquele momento. O livro busca dar ainda maior transparência à nossa atividade junto aos públicos e contribuir para o fortalecimento do jornalismo profissional, cada vez mais relevante em um mundo repleto de desinformação.

Marta Gleich

Secretária do Conselho Editorial e diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS

Conselho Editorial

Publisher

NELSON P. SIROTSKY

Empresário dedicado ao setor de mídia há 50 anos, presidiu a RBS por 21 anos e, hoje, integra o seu Conselho de Administração e atua como publisher e presidente da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho. Em 2012, fundou a Maromar Participações, holding de investimentos de sua família. Foi conselheiro da Algar Telecom e da Zenvia. Com forte atuação associativa, presidiu a Associação Nacional de Jornais por dois mandatos, além de ter participado de entidades como Abert, Endeavor, Instituto Milenium e ADVB. Graduado em Administração de Empresas e Pública pela UFRGS, ao longo de sua trajetória fez inúmeros cursos no Brasil e no Exterior. É coautor do livro O Oitavo Dia (Primeira Pessoa).

Conselheiros

ANIK SUZUKI

Fundadora e CEO da consultoria ANK Reputation. Reúne 20 anos de experiência em comunicação, gestão de reputação de empresas, avaliação e gestão de risco de imagem e preparação de lideranças. Graduada em Jornalismo pela PUCRS, com MBA pela Fundação Dom Cabral e pósMBA pela Kellogg School of Management. Atuou por 12 anos no Grupo RBS, onde foi produtora de Economia em Zero Hora, diretora de comunicação corporativa, membro da Diretoria-Executiva e do Comitê Editorial. Como voluntária, é diretora da Fundação Iberê Camargo. Foi vice-presidente da ADVB/RS e conselheira da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho.

CLAUDIO TOIGO FILHO

Presidente-executivo do Grupo RBS. Bacharel em Administração de Empresas com ênfase em Marketing pela UFRGS, é pós-graduado em finanças pela PUCRS. Tem MBA pela University of Southern California (EUA) e especialização pela London Business School (Londres). Participou do Jim Collins Lab, no Colorado (EUA) e de projetos com renomados especialistas em gestão, como Ram Charan e John Davis. Tem vasta experiência na gestão de negócios, tendo passado por diversos cargos de liderança em empresas da RBS, além de entidades de classe, como Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão e Associação Riograndense de Propaganda.

GLADSTONE CAMPOS
RAUL KREBS
CARIN MANDELLI

JOSÉ GALLÓ

Com mais de 30 anos de experiência no varejo e graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, é presidente do Conselho de Administração da Lojas Renner S/A. Foi membro do Conselho de Administração de Ultrapar, Itaú, Localiza, SLC e Banco Real. Sob sua gestão, de 1991 a 2019, a Lojas Renner passou de uma rede de varejo de moda com oito lojas para uma corporação com mais de 550 operações no Brasil e no Uruguai. É fundador da Quartz Investimentos, vice-presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Caldeira e membro associado ao Conselho da Associação Hospitalar Moinhos de Vento. É autor do livro O Poder do Encantamento

MARCELO RECH

Consultor e colunista de Zero Hora. Por 27 anos, foi executivo do Grupo RBS, onde atuou como repórter, diretor de Redação de ZH, diretor-executivo de Jornalismo e vice-presidente Editorial e Institucional. Formado em Jornalismo, tem cursos de especialização no Media Management Center da Kellog e em Media Strategy na Harvard Business School. Preside desde 2017 a Associação Nacional de Jornais (ANJ), é membro do comitê executivo da World Association of News Publishers e ex-presidente do Fórum Mundial de Editores. Vice-presidente do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar).

MARTA GLEICH

Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS e membro do Comitê Executivo da empresa, é responsável pelos conteúdos de RBS TV, Rádio Gaúcha, jornais ZH, DG, Pioneiro e GZH. Jornalista formada pela UFRGS, tem quatro pósgraduações: MBA em Transformação Digital e Novos Negócios (PUCRS), XBA – Programa Executivo Internacional de Gestão Exponencial da StartSe University e mestrados profissionalizantes em Jornalismo Digital e Gestão de Empresas Jornalísticas pelo IICS de SP. Coordena o Comitê Editorial da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Nacional de Editoras de Revistas (Aner).

RICARDO GANDOUR

Jornalista e engenheiro, com mestrado em Ciências da Comunicação (USP) e extensão em Administração (FGV), Gestão (Insead) e Publishing (Stanford). Foi pesquisador visitante na Columbia University (EUA). É professor na ESPM e membro dos conselhos consultivos do Palavra Aberta, Columbia Global Center, Insper e Instituto TornaVoz. Foi diretor de jornalismo da Rádio CBN, do Grupo Estado, do Diário de S.Paulo e de publicações na Editora Globo. No Grupo Folha foi repórter, editor e diretor-fundador da Publifolha. Lançou Jornalismo em Retração, Poder em Expansão – A segunda morte da opinião pública (Summus).

RAUL KREBS
FABIANO PANIZZI
EMI SHIMADA
FRANCO RODRIGUES/DIVULGAÇÃO

Colaboradores

RODRIGO MÜZELL

Gerente de Jornalismo Digital do Grupo RBS, é responsável pelo conteúdo de GZH, Zero Hora e Rádio Gaúcha nos ambientes digitais e pelo projeto de transformação digital nas redações do grupo. Desde 2001 na RBS, atuou como repórter de Economia, coordenou a cobertura da Copa do Mundo 2014 e foi editor digital em Zero Hora, além de gerente de Produto da RBS TV. Formado em Jornalismo pela UFRGS, tem Master em Jornalismo Digital pelo IICS e mestrado em Comunicação pela PUCRS, com foco em desinformação, além de ter sido fellow do programa AFPP no jornal The Philadelphia Inquirer (EUA) em 2009.

WILLIAM LING

Presidente do Conselho de Administração e membro do Comitê Executivo da Évora

S.A., que atua nas indústrias de embalagens metálicas, tampas plásticas e florestal, com fábricas em 14 países. Dirige o Instituto Ling desde sua fundação. Bacharel em Administração de Empresas pela UFRGS e pós-graduado pela Arthur D. Little School of Management, Cambridge, EUA, obteve Master of Science in Management na Stanford Graduate School of Business, Palo Alto, EUA. Sócio da Associação Hospitalar Moinhos de Vento, irmão da Santa Casa de Misericórdia, conselheiro do Masp e da Fundação Iberê Camargo, membro fundador e conselheiro da Bienal do Mercosul.

A partir de março de 2023, uma vez a cada mês, uma pessoa de fora do Conselho Editorial foi convidada para contribuir com um artigo sobre jornalismo. Os profissionais a seguir, que escreveram esses textos, também têm seu conteúdo reproduzido nesta coletânea.

CARLOS ALBERTO DI FRANCO

Bacharel em Direito e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, dirige o programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia (ISE) e é professor da Facultà di Comunicazione Sociale Istituzionale (Roma). Colunista e escritor, atua como consultor e conselheiro em empresas de comunicação.

JAYME SIROTSKY

Presidente emérito do Grupo RBS. Presidiu a WAN –Associação Mundial de Jornais e a Associação Nacional de Jornais e foi vice-presidente da Sociedad Interamericana de Prensa durante a elaboração da Declaração de Chapultepec. É um dos fundadores do Conar. Fundou e preside o Instituto Jama, voltado à educação.

FERNANDO BÓSIO
KARINE VIANA/DIVULGAÇÃO
RAUL KREBS
DIVULGAÇÃO

LUIZ LARA

Luiz Lara é publicitário e fundador da Lew’Lara\ TBWA. Atualmente, é chairman do Grupo TBWA no Brasil e sócio da TO BE GOOD. Foi presidente da Abap, é presidente do Conselho do Cenp e membro da Assembleia Geral da ESPM. Atua em várias organizações do Terceiro Setor.

PAULO UEBEL

Advogado. É presidente do Conselho de Administração da Codemge|Codemig e membro do Conselho de Administração do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG. Foi secretário de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia e secretário de Gestão da Prefeitura de São Paulo.

NILSON VARGAS

Jornalista graduado na UFSM e pós-graduado em Teoria da Comunicação na Faculdade Cásper Líbero. Foi editor na revista Veja e em veja.com. Na RBS, foi editor-chefe do Diário Catarinense e de Zero Hora. É gerente de Jornalismo de Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro, GZH e Rádio Gaúcha.

PRISCILA CRUZ

Uma das vozes mais ativas pela Educação pública no Brasil, Priscila Cruz é presidente-executiva e uma das fundadoras do Todos pela Educação. Mestre em Administração Pública pela Harvard Kennedy School of Government, é graduada em Administração de Empresas pela FGV-SP e em Direito pela USP.

SÉRGIO LÜDTKE

Sérgio Lüdtke é editor-chefe do Projeto Comprova, coordenador dos cursos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da equipe de pesquisadores do Atlas da Notícia e presidente do Projor - Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo.

MARCOS NAGELSTEIN/AGÊNCIA PREVIEW
CAROLINA SALAZAR
DIVULGAÇÃO
TODOS PELA EDUCAÇÃO/ARQUIVO
ARQUIVO PESSOAL

artigos

JORNALISMO RESPONSÁVEL, UM EXERCÍCIO CONTÍNUO

OS DESAFIOS DA COBERTURA ELEITORAL

SOBRE FAKE NEWS E HATERS

ARENA PARA O DEBATE

FOCO NO PARLAMENTO

O ANALFABETISMO FUNCIONAL

JORNALISMO PROFISSIONAL: A MISSÃO

PELO FUTURO DO BRASIL

O DESAFIO DOS DEBATES

POR QUE PUBLICAMOS PESQUISAS

AINDA AS PESQUISAS

CONTRIBUIÇÃO ÀS ELEIÇÕES

O DESAFIO DA MÍDIA

NOVAS ETAPAS

MAIS PESQUISAS, MAIS JORNALISMO

O PORTO SEGURO DO CONSUMIDOR

OS NOSSOS OLHARES

MOBILIZAÇÃO

BEM PRECIOSO

MAIS JORNALISMO EM 2023

COMPROMISSO COM O JORNALISMO

DE QUALIDADE SEMPRE

O SAUDÁVEL DESCONFORTO

A RESPONSABILIDADE DO JORNALISMO

O DESAFIO DO DIGITAL

QUAL O FUTURO DO JORNAL IMPRESSO?

PINTANDO A ALDEIA

A RBS É DE DIREITA OU DE ESQUERDA?

A CONTRIBUIÇÃO DO LEITOR

O DESAFIO DA GOVERNANÇA EDITORIAL

JORNALISMO – A HORA DA MUDANÇA

A FORÇA DO INTERIOR

O IMPORTANTE PRECISA SER INTERESSANTE

A PERGUNTA DO LEITOR

PROBLEMAS DIGITAIS, SOLUÇÕES ANALÓGICAS

QUANTO VALE O JORNALISMO?

O JORNALISMO NECESSÁRIO

COMO LIDAR COM CRISES

DESAFIADOR MUNDO NOVO

A FORÇA DA CURADORIA

OBJETIVIDADE NO JORNALISMO

EDUCAÇÃO MUDA O NOTICIÁRIO

DOS PERGAMINHOS DO MAR MORTO

AO JORNALISMO DIGITAL

O OLHAR HUMANO SOBRE A IA

AINDA SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

INFORMAR PARA DEMOCRATIZAR E TRANSFORMAR

A CURA PELA NOTÍCIA

JÁ ESTÁ ACONTECENDO

O SERVIÇO QUE PRESTAMOS

A INFORMAÇÃO PEDE A NOSSA ATENÇÃO

A PRIMEIRA VAIA A GENTE NUNCA ESQUECE

CONFORTÁVEL NA ZONA DE DESCONFORTO

MUDOU O CONTEXTO, NÃO NOSSA POSIÇÃO

ROBÔS PRODUTORES DE CONTEÚDO

DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE DE IMPRENSA

EMPRESA DE MÍDIA

Jornalismo responsável, um exercício contínuo

Informação é imprescindível para as pessoas embasarem suas decisões no dia a dia, planejarem o seu futuro e exercerem o seu papel na sociedade. Por isso, precisa ser segura e confiável, pressupostos que são assegurados com uma comunicação de qualidade, exercida com responsabilidade e equilíbrio. Em seus 65 anos, a RBS pautou seu jornalismo por princípios editoriais, que nesta etapa como publisher pretendo aprofundar e aperfeiçoar, com o propósito de assegurar pluralidade nas opiniões e diferentes versões dos fatos para quem acessa nossos veículos, nas várias plataformas, em busca de conteúdos verdadeiros, produzidos com isenção e independência.

Nos últimos 50 anos, atuei em inúmeras áreas da RBS. Tenho consciência da responsabilidade de uma empresa de comunicação e de seus profissionais. Acredito que, em jornalismo, o exercício dessa responsabilidade precisa ser contínuo. Devemos, permanentemente, nos aperfeiçoar para seguirmos relevantes, a partir do respeito e da confiança dos nossos públicos.

Como publisher estou priorizando a criação do Conselho Editorial da RBS, instância presente em muitas empresas jornalísticas no Brasil e no Exterior. Integrado por profissionais da empresa e membros externos, nosso Conselho tem como missão principal contribuir para preservar e aperfeiçoar nossos valores e princípios editoriais.

A liberdade de expressão, de imprensa e do público para selecionar os conteúdos desejados são conquistas da sociedade brasileira.

A liberdade de expressão, de imprensa e do público para selecionar os conteúdos desejados são conquistas da sociedade brasileira, que não tolera qualquer tipo de censura e nem quaisquer tentativas de controle e manipulação de informação. Tais conquistas pressupõem, ainda, responsabilidade de todos e respeito às leis do país.

Portanto, a RBS avançará nessa jornada, para garantir a pluralidade de opiniões e a busca incessante pela verdade dos fatos. Combateremos as fake news, assim como todo tipo de preconceito e discriminação. Nossos veículos também têm como missão mostrar e valorizar o Rio Grande do Sul e o Brasil no que eles têm de melhor, sua cultura, diversidade e resiliência. O jornalismo profissional com qualidade que fazemos na RBS, sempre atentos para evoluir, representa o nosso compromisso com as instituições brasileiras e com a nossa democracia.

08 22

Os

desafios da cobertura eleitoral

Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho

Editorial da RBS

A primeira reunião do Conselho Editorial, realizada na terça-feira, foi extremamente objetiva. Debatemos a cobertura das próximas semanas, até as eleições, em um cenário de teste de resiliência e exercício de cidadania para todos nós brasileiros, diante de um quadro muitas vezes radicalizado. Como jornalista que cobriu as últimas 18 eleições no país, posso dizer com segurança: nunca houve uma cobertura eleitoral tão desafiadora para a imprensa quanto a que está aí. Essa sensação foi confirmada no primeiro encontro do Conselho.

Já estamos trabalhando a partir das contribuições dos conselheiros nos seguintes pontos:

• Há um enorme desafio em traduzir e tornar atraentes temas como eleições em um país em que três em cada 10 pessoas são analfabetos funcionais. Esses cidadãos não conseguem entender quando leem uma notícia. 72% não sabem o que faz o STF. A linguagem utilizada por jornalistas e comentaristas precisa ter em mente os públicos para os quais se está falando.

• Em um ambiente polarizado, a imprensa sofre enormes pressões, seja da esquerda ou da direita, e no período eleitoral isso se torna ainda mais pesado. É preciso seguir firme no jornalismo responsável e profissional, sem deixar que a patrulha provoque qualquer tipo de autocensura.

• Os conteúdos jornalísticos são divididos em informação, análise e opinião. Essa diferenciação não está clara para grande parte do público. Um trabalho contínuo e repetido de identificação desses conteúdos precisa ser realizado.

• As eleições legislativas são tão, ou mais, importantes quanto as eleições para o Executivo. Mas a cobertura enfoca muito mais a eleição para presidente e governador. Se não fosse o Legislativo, muitas transformações relevantes, como as reformas, não ocorreriam. Como cobrir eleições para a Assembleia e o Congresso, com milhares de candidatos, e como explicar ao eleitor que seu voto para o Legislativo é fundamental?

• O estímulo ao respeito, à civilidade e ao debate democrático em alto nível pode ser a marca da cobertura eleitoral da RBS, mesmo que uma cobertura equilibrada, sem espaço para os bate-bocas partidários, possa parecer morna ou até ter menor audiência.

Se você tiver alguma sugestão ou comentário para o Conselho, por favor, nos escreva pelo e-mail contatoconselhoeditorial@gruporbs.com.br.

A partir de agora, neste espaço, cada um dos conselheiros aprofundará temas relacionados aos desafios de se fazer jornalismo nesses tempos, com qualidade e responsabilidade.

Sobre fake news e haters

Quem não se sente inseguro, com dúvidas, sobre como agir ao ser alvo de uma fake news ou de ataques virtuais organizados? As notícias falsas são um fenômeno na internet, alastram-se diariamente em posts e grupos nas redes sociais, arrastando reputações, provocando perdas e sofrimento. Por isso, são tema permanente do Conselho Editorial da RBS. Como enfrentar essas situações e não virar refém da cultura do cancelamento?

Em primeiro lugar, mantenha a sua comunicação em dia.

Deixe as pessoas saberem quem você é, no que acredita e qual a sua trajetória. Assim, você terá um colchão de reputação para as horas difíceis. Mas faça isso com cuidado: evite opiniões ou ações polêmicas desnecessárias e seja claro nos seus posicionamentos, não dê margem a múltiplas interpretações.

Ser vítima de fake news é uma situação muito angustiante. É natural pensar que, se ficarmos quietos, sem reagir, evitaremos que ela cresça. Em nossa sociedade hiperconectada, essa postura precisa ser bem avaliada em

Fake news e ataques orquestrados por haters têm sua força no volume.
Combata volume com contundência.

seus riscos, porque o silêncio abre espaço à dúvida e deixa um rastro de distorções ou mentiras no Google por anos. Se a acusação for grave, não deixe o acusador falando sozinho. Fale com a maioria silenciosa, aquela que não posta comentários nas redes, mas está acompanhando tudo e formando opinião. Se posicione, a verdade é muito poderosa.

Você precisará ter seus próprios canais organizados e funcionando (podem ser redes sociais, sites, fóruns online, espaços na imprensa, entre outros). Fake news e ataques orquestrados por haters têm sua força no volume. Combata volume com contundência. Seja objetivo e use a força inquestionável do argumento. E, sobretudo, seja ágil. Timing é decisivo para conter crises.

Sejamos claros: fake news não é engraçada, nem inocente. Não é posicionamento e muito menos estímulo ao debate construtivo. Ela é criada para prejudicar pessoas ou instituições, com o objetivo de obter vantagem. Aja, não apenas para se proteger, mas também para não disseminar. Não chancele ou compartilhe informações não confirmadas. Como uma pandemia da nossa era, esse mal precisa ser enfrentado por todos. E o jornalismo profissional, de qualidade, que represente as múltiplas visões dos fatos e proporcione a cada um formar a própria opinião é um aliado indispensável no combate à desinformação.

Arena para o debate

CLAUDIO

TOIGO FILHO

CEO do Grupo RBS e membro do Conselho

Editorial da RBS

A pluralidade é um valor fundamental da democracia e um dos princípios jornalísticos mais importantes para a RBS. O mundo digital, em especial as redes sociais, aumentou o potencial da pluralidade, já que cada pessoa tem a possibilidade de transmitir suas ideias para o mundo. Porém, algo contraditório tem acontecido nesse aspecto. Há uma tendência crescente de a comunicação ter seu alcance restrito aos indivíduos com interesse similar, seja em grupos de WhatsApp ou devido aos algoritmos de direcionamento das plataformas digitais. Nessas chamadas bolhas, a diversidade de preferências e opiniões não prepondera, prejudicando que mensagens

divergentes cheguem a outras pessoas. No momento eleitoral que vivemos, essa limitação fica evidente, pois os postulantes também precisam conquistar os não seguidores que estão fora das suas redes de apoio ou afinidade.

Nesse contexto, aumentam a responsabilidade e o papel social das empresas de jornalismo. Na RBS, enxergamos isso também como uma oportunidade. Queremos ser cada vez mais o palco dos temas mais relevantes para as pessoas que vivem ou se interessam pelo Rio Grande do Sul. Uma arena para o debate, a análise de ideias e a verificação dos fatos. Um lugar seguro, comprometido com a verdade, onde o contraditório é explorado e em que visões diferentes são apresentadas e desafiadas de forma independente, em benefício do público. Ser essa arena é uma missão que depende cada vez mais da pluralidade. Se exercitarmos bem esse papel, ampliaremos a confiança de nossos públicos. Sabemos que não é um desafio simples. Vivemos num tempo em que informações que confirmam nossa visão de mundo são bem digeridas. Já as que conflitam com o que acreditamos, mesmo que sejam fatos, parecem inadequadas ou são confundidas com opinião. Você pode esperar que sejamos amplificadores somente dos seus pensamentos, mas veículos que falam com todos os públicos trazem todas as visões, portanto, não se espera que concorde com tudo que publicamos. Caso contrário, teremos perdido a capacidade de abordar os fatos, independentemente de a quem eles agradem.

O debate sobre a ampliação de nossa pluralidade para exercer plenamente o papel de arena segura de debates no RS é pauta permanente das discussões do Conselho Editorial da RBS, uma iniciativa lançada no ano em que a empresa completa 65 anos. Queremos continuar exercendo nosso propósito na sua plenitude, sendo a arena para os temas relevantes da nossa sociedade. Ouvindo, dialogando, trazendo diferentes perspectivas, para que você possa decidir o que é melhor. Fazendo jornalismo profissional, independente e de qualidade.

é uma temeridade para os destinos dos indivíduos e da sociedade.

Foco no parlamento

Por mexer com paixões e nervos, a atual campanha para presidente pode ser a mais emocionante, enquanto a disputa para o governo do Estado é a mais próxima e, no Rio Grande do Sul, como de hábito, desperta discussões acaloradas. Mas campanhas tão ou mais relevantes quanto as duas anteriores – as que definem os perfis de nossos parlamentos – parecem condenadas a um injusto quase anonimato pelo eleitorado.

No Conselho Editorial da RBS, está claro o desafio das redações de trazer à tona a importância da disputa pelos legislativos, como, aliás, já demonstrado em reportagem de Carlos Rollsing em Zero Hora e GZH no fim de semana passado. Pouca gente lembra em quem votou há quatro anos para a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa, o que só reforça a necessidade de se tentar reverter esse aparente desinteresse. Deixar de monitorar as atividades do eventual parlamentar eleito, desconhecer a atuação de bancadas, maiorias e minorias, ignorar a comparação de candidaturas ou minimizar a representação parlamentar

É nos parlamentos que se desenha com mais nitidez a sociedade em que viveremos.

É nos parlamentos que se desenha com mais nitidez a sociedade em que viveremos. Cidadãos podem gritar à vontade contra eventuais exageros, desmandos ou inércias nos poderes Executivo e Judiciário, mas é o Parlamento, por meio de legislações, que estica, encolhe, limita ou amplia o raio de ação dos demais poderes e instituições da República. São os parlamentos que sacramentam o orçamento e a aplicação dos impostos arrecadados e que aceleram ou travam reformas com mais impacto na vida dos cidadãos do que muitas das discussões inócuas no âmbito de governos.

Um dos desafios da imprensa ao cobrir eleições parlamentares é encontrar formas criativas de ampliar o interesse pelo voto nos parlamentos sem descambar para favorecimentos. Não é uma tarefa simples, dada a drenagem de atenção pelas eleições majoritárias e dado o risco de desequilíbrio. Mas seguir jogando luz no lado menos iluminado desta eleição é uma tarefa mandatória para um grupo de comunicação comprometido em colaborar com a discussão do futuro das comunidades onde atua.

MARCELO RECH
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

analfabetismo funcional

JOSÉ GALLÓ

Empresário e membro do Conselho Editorial da RBS

A mídia tem um importante papel a cumprir no combate ao analfabetismo funcional, cuja causa

é o nível educacional da população.

E não vejo, muitas vezes, as rádios e TVs, os jornais, os meios digitais assumirem essa responsabilidade. Vamos ao contexto do assunto.

O que é o analfabetismo funcional?

Imagine uma pessoa que, ao ler o título de um jornal, ao assistir a uma notícia de um telejornal, ao receber uma informação pelas mídias sociais, não consiga entender do que se trata, raciocinar sobre as implicações do tema, ou, pior, sequer tenha condições de questionar se aquilo é verdadeiro ou falso. Aliás, o analfabetismo funcional é um dos maiores responsáveis pela existência de fake news.

Os números são estarrecedores. Uma pesquisa da Quaest deste ano revelou que 72% da população não sabe o que faz o STF. Outra pesquisa, encomendada pela Associação da Classe Média, de 2005, revelou que os brasileiros têm pouquíssimo conhecimento sobre impostos. Somente 3% sabem que pagam ICMS, por exemplo. E neste país trabalha-se cinco meses por ano somente para pagar impostos, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. Os percentuais são muito altos: 40% do preço da água mineral é imposto. Roupa, 34%. Gasolina, 61%. Celular, 40%. Geladeira, 46%. A maior parte da população não tem a mínima ideia de que o Brasil é uma festa de impostos.

Um artigo da Constituição Federal exige que notas fiscais discriminem os impostos embutidos em cada item. Levou 12 anos para que a lei entrasse em vigor. Há muito tempo já, portanto, as notas fiscais listam todos os impostos dos itens comprados, e ninguém olha para isso.

O cidadão precisa se questionar: se pago tudo isso de impostos, o que tenho de exigir em troca? Educação, saúde, segurança, infraestrutura.

O analfabetismo funcional contribui com o perverso cenário da corrupção. No início da Lava-Jato, uma pesquisa perguntava o que era corrupção. A grande maioria não sabia, não conseguia entender que você paga muitos impostos, que esses recursos deveriam ser usados para saúde, educação etc. e que alguém rouba esse dinheiro. O valor desviado é o seu dinheiro, não é do Estado. O Estado recebe os impostos e tem obrigação de atender a todos os seus direitos. Mas, como não tem uma boa gestão, acaba se endividando, e você, consumidor, fica endividado também.

Esclarecer tudo isso é o papel da mídia. Não vejo essa questão dos impostos sendo explorada e mais bem divulgada nos meios de comunicação. A TV não considera a realidade de analfabetismo funcional do país, que está em todas as classes. Tratar disso de forma clara e mostrar essas verdades reduz o analfabetismo funcional, ajuda as pessoas a interpretarem seu mundo e amplia a cidadania.

Jornalismo profissional: a missão

A distribuição da informação sempre foi vital para o desenvolvimento humano. A história nos ensina que um dos motores do progresso é o fato de sabermos que pode ser possível algo que nem imaginávamos existir. O saber move e motiva. Em seu campo, o jornalismo também se ocupa do saber. “É o conjunto de atividades que, seguindo regras e princípios, produz um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas”, diz a breve e precisa definição dos manuais do Grupo Globo.

Para cumprir essa missão, o jornalista se utiliza de método. Nada é feito ao acaso ou de qualquer jeito. Uma reportagem segue passos planejados, em etapas de checagem e ângulos de visão. E nunca estará definitivamente pronta, sempre admitindo novas contribuições e correções de erros, num processo contínuo – “a busca permanente da melhor versão possível da verdade”, segundo Carl Bernstein.

Aos textos factuais e informativos se juntam outros dois tipos de escrita ou de fala: a análise e a opinião. Analisar é, a partir de fatos e dados, fazer comparações, examinar

A empresa jornalística tem endereço conhecido e editores aptos a admitir contestações e correções.

hipóteses e construir projeções. Opinar é emitir juízo próprio, transparente e pessoal – e será tanto melhor quanto mais estiver embasado em informação e análise. Este é o trio de ouro do jornalismo: informação, análise e opinião.

Os meios digitais universalizaram o acesso à publicação e à distribuição de informações, com inegáveis benefícios à expressão de grupos e ideias anteriormente pouco ou nada representados. Ao mesmo tempo, a transformação do espaço midiático deu margem à mistura entre aquelas três categorias de conteúdo. Nas redes sociais, a mistura virou confusão – sem contar o acúmulo de pseudoinformações inventadas e fantasiosas.

É por isso que tanto se insiste no conceito de “jornalismo profissional”. Nas empresas jornalísticas estabelecidas, pessoas com formação e método fazem de sua profissão a contínua produção e edição de informação, para embasar análises e acolher opiniões e debates. A empresa jornalística tem endereço conhecido e editores aptos a admitir contestações e correções.

Ao completar 65 anos, o grupo RBS reiterou seu compromisso com o método jornalístico e criou o Conselho Editorial – para o qual tive a honra de ser chamado, convite que publicamente agradeço. Estamos aqui para apoiar as redações do grupo no cumprimento da missão do jornalismo profissional. É isso que nos move e nos motiva.

RICARDO GANDOUR
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Acreditamos que o jornalismo profissional tem papel importante na construção desse futuro desejado. Por isso, na cobertura da eleição mais polarizada da história do país, decidimos que não bastava apenas cumprirmos nossas regras editoriais, como historicamente o fazemos. Era preciso, também, dar maior visibilidade e transparência às posições da empresa, ao trabalho responsável dos seus profissionais e à percepção que o público tem dos produtos da RBS. Entre outras iniciativas, criamos uma Curadoria de Críticas, com o propósito de recolher e avaliar observações publicadas ou enviadas pela audiência, a fim de dar-lhes um encaminhamento consequente, de modo a aperfeiçoar nosso trabalho.

Pelo futuro do Brasil

NELSON P. SIROTSKY

Publisher e membro

do Conselho Editorial da RBS

Desde que iniciamos a operação do Conselho Editorial, em agosto, a campanha eleitoral tem sido o assunto prioritário das nossas análises e resoluções. Nesta chegada ao final do primeiro turno de disputa política, reforçamos a convicção de que todos os nossos cuidados se justificam, principalmente depois desse último debate da Globo entre os candidatos à Presidência da República (transmitido para o Rio Grande do Sul pela RBS TV, por GZH e pela Rádio Gaúcha), caracterizado mais por agressões e ofensas entre os principais postulantes ao cargo do que propriamente por propostas para governar o país. O Brasil que os brasileiros almejam é, certamente, outro – com menos ódio, mais civilidade e um ambiente democrático gerador de desenvolvimento, paz e prosperidade.

Acreditamos que o jornalismo profissional tem papel importante na construção desse futuro desejado.

Reafirmamos publicamente nossas posições. A RBS não tem nem apoia candidatos ou partidos, procura abrir espaços equilibrados para todos, divulga apenas resultados de pesquisas eleitorais efetuadas por institutos de reconhecida credibilidade, não trata pesquisas como principal elemento da cobertura, dá ênfase à pluralidade de visões e preserva sua independência. Nossos comunicadores e colaboradores têm liberdade para emitir suas opiniões, com a responsabilidade que esperamos deles. Além disso, a RBS não oculta erros de informação e se dispõe a corrigi-los tão logo se comprove o equívoco.

Sob inspiração desse conjunto de orientações éticas e editoriais, estamos concluindo neste domingo a cobertura da primeira fase do atual processo eleitoral, cumprindo a nossa missão de oferecer ao público informações equilibradas e opiniões plurais – mesmo quando os protagonistas da notícia, com poucas exceções, não se mostram à altura do país que os brasileiros haverão de edificar com escolhas conscientes e respeito ao resultado das urnas.

O desafio dos debates

Diante da urna no dia 30, o eleitor terá a chance fundamental de opinar sobre o rumo que prefere para o Estado e o Brasil. Para isso, precisa de algo bem básico: saber o que os candidatos pretendem fazer. A tarefa costuma ser complicada, mas não por falta de recursos – a propaganda eleitoral em rádio e TV e a cobertura diária da imprensa neste período são alguns deles.

No próximo dia 14 na Rádio Gaúcha e na noite de 27 de outubro na RBS TV, o eleitor terá à disposição outra ferramenta importantíssima: os debates para o governo do Estado. Quando as ideias de um candidato podem ser questionadas por outro, que tem, por sua vez, a chance de mostrar por que as suas são melhores. O confronto de ideias ajuda a separar o que é realizável e o que é apenas boa intenção – ou demagogia.

Após o primeiro turno, porém, é preciso questionar: ajudou mesmo? Nos debates para a eleição presidencial, foi difícil ver propostas concretas em discussão. Ainda mais raro, vê-las sendo levadas a sério pelos oponentes. Sobraram ataques às biografias alheias e louvação

TV

É um desafio da mídia avaliar se os formatos funcionam, mas a sociedade e o meio político também precisam repensar os debates.

ideológica; faltaram projetos. Em vários momentos, vimos brigas pessoais que resultaram na avalanche de direitos de resposta concedidos no debate da Rede Globo, no último dia 29.

O calor da discussão é inevitável, não é em si negativo e muito menos exclusividade brasileira. Como definir um formato que mantenha a conversa entre os candidatos mas também estimule que tratem dos assuntos mais relevantes à população? A TV francesa aposta em colocar os dois candidatos frente a frente, definindo os temas e deixando que conversem sem interferência do mediador. No Brasil, a tradição é haver etapas mais definidas e cronometradas no detalhe. Busca-se garantir a variedade de assuntos, misturando momentos de tema livre com outros determinados pela produção.

É um desafio da mídia avaliar se os formatos funcionam, mas a sociedade e o meio político também precisam repensar os debates. A legislação que determina à TV e ao rádio que convidem um grande número de candidatos – eram sete nos presidenciais – pode ser reavaliada. Ainda mais fundamental, porém, é que os candidatos cheguem para o debate para apresentar ou criticar propostas, em vez de agredir adversários ou tentar “causar” em trechos recortados especialmente para as redes sociais. Ao jornalismo profissional cabe estimular a postura construtiva e não tratar esses momentos como um jogo com vencedores ou perdedores.

Por que publicamos pesquisas

MARTA GLEICH

Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS

Desde o final do primeiro turno das eleições, parte do público tem perguntado por que seguimos divulgando pesquisas. Os descompassos entre os números dos últimos levantamentos pré-eleições e o resultado das urnas, inclusive no Rio Grande do Sul, geraram críticas e questionamentos sobre metodologias e utilidade das pesquisas. Debatemos sobre o assunto, inclusive no Conselho Editorial, e divido aqui com os leitores nossas reflexões.

As pesquisas vão continuar existindo. O público tem interesse nesse conteúdo. Os veículos de comunicação que as contratam não têm o direito de, em tendo essa informação, omiti-la. Essas empresas de comunicação, como a RBS, esperam que os institutos apontem

as tendências de voto com correção, dentro do intervalo de confiança e da margem de erro. Não foi isso que ocorreu no primeiro turno, mas espera-se que os institutos revejam seus métodos.

No primeiro turno, a RBS deu ampla visibilidade ao público, com transparência, às suas regras para divulgação de pesquisas. Relembro aqui algumas delas:

• Damos visibilidade secundária às pesquisas. Esses levantamentos nunca são o título principal da capa de um jornal ou site, nem a chamada principal num telejornal ou boletim de rádio.

• Entendemos que pesquisas são um elemento no processo eleitoral, e sempre um retrato do momento, não são definidoras da eleição. Movimentos nas últimas horas antes do voto podem alterar esse quadro, por isso pesquisas devem ser vistas com parcimônia.

• Só veiculamos pesquisas de institutos com experiência, como Ipec (ex-Ibope) e Datafolha, e pagas por meios de comunicação e entidades e empresas reconhecidas. Não divulgamos pesquisas pagas por candidatos ou partidos políticos, ou quando não ficar explícito quem é o contratante.

• Em nossas reportagens, não fazemos análises ou interpretações de números, apresentamos somente os resultados do levantamento. Opiniões ficam restritas a colunistas e comentaristas de política.

Entendemos, neste segundo turno, que devemos seguir publicando pesquisas – a primeira para o governo do Estado divulgada ontem no RBS Notícias, em GZH e na Gaúcha, e hoje nesta edição. Haverá mais duas pesquisas para o Piratini, nos dias 21 e 28. Vamos, também, divulgar pesquisas para presidente, do Ipec e do Datafolha, sempre cobrando dos institutos que façam um bom trabalho e ajustem suas metodologias. No entanto, estamos reduzindo ainda mais seu destaque nos conteúdos. Pesquisa é pesquisa, e deve ser vista como tal. Um retrato do momento, não o resultado das urnas. E defendemos o direito de você, eleitor, ter acesso a essa informação.

Ainda as pesquisas

Como tenho o privilégio da idade e da experiência, vivi o tempo em que era a esquerda a vociferar contra as pesquisas eleitorais, clamando por sua proibição, punição a institutos e boicotes a veículos de comunicação que divulgavam números adversos. Nada como uma década atrás da outra para constatar que, hoje, a direita assume o mesmo discurso da esquerda de então.

No Conselho Editorial da RBS, pesquisas são temas recorrentes, mas não para endossá-las cegamente. Elas produziram uma leva enorme de erros no primeiro turno, e o Conselho entende que, como qualquer serviço privado, os institutos e empresas que as produzem devem ser fortemente cobrados por suas ineficiências.

Mas daí a estabelecer novas restrições e criar punições vai uma distância impensável numa democracia. Transita da ingenuidade à má-fé, por exemplo, o projeto de punir institutos e até ameaçar com prisão os responsáveis que “errarem os resultados”. Grossa asneira de quem imagina que votos não migram em massa até mesmo no dia da eleição. E a proibição das pesquisas criaria uma rede

Na RBS, a grande mudança no tratamento das pesquisas ocorreu após a renhida eleição de 1998 que levou Olívio Dutra e Antônio Britto ao segundo turno.

subterrânea, destinada a favorecer partidos e grandes investidores, que, de posse desses dados sigilosos, definiriam suas estratégias privadas, tanto no campo eleitoral quanto no mercado financeiro.

Na RBS, a grande mudança no tratamento das pesquisas ocorreu após a renhida eleição de 1998 que levou Olívio Dutra e Antônio Britto ao segundo turno. Num clima político tão apaixonado como agora, e para evitar suposições de favorecimentos, me vi, como diretor de Redação de Zero Hora, compelido a produzir seguidas manchetes com a mesma e exata formulação, pesquisa após pesquisa. Só mudavam os números: “Pesquisa Ibope: Fulano tem x% e Sicrano, y%”. Do ponto de vista jornalístico, era uma incongruência.

Olívio venceu aquela eleição por 50,78% a 49,22%, na margem de erro do Ibope, mas os protestos foram tantos que Nelson Sirotsky teve a ideia de encararmos de frente as pesquisas. E assim, logo após o pleito, promovemos no auditório da Assembleia Legislativa um dia de debates sobre o tema. Dirigentes partidários, Justiça Eleitoral, jornalistas e dirigentes de institutos discutiram a fundo as pesquisas para chegar a uma conclusão: pesquisas são parte inerente das eleições, mas não devem ser suas protagonistas. Desde então, a RBS trata pesquisas apenas como mais um acessório eleitoral. E, felizmente, nunca mais foram manchete de Zero Hora.

MARCELO RECH
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Contribuição às eleições

Conselho Editorial da RBS

Dois meses e meio após a criação do Conselho Editorial da RBS, trago para você, leitor, uma prestação de contas do trabalho do grupo. Prestação de contas, sim, porque estamos aqui a serviço do público, com o propósito de exercer a atividade jornalística com responsabilidade e contribuir para o desenvolvimento do Estado, rumo a um futuro melhor para as próximas gerações.

E o que fez o Conselho nesse período?

Tratou de eleições. E não poderia ser diferente, num dos momentos mais importantes para o Brasil e para o Estado.

Seguem as medidas efetivas que tiveram impacto direto no jornalismo da RBS.

E que vão muito além das eleições, porque foram incorporadas ao processo de trabalho e continuarão sendo utilizadas nos veículos da RBS, depois do período eleitoral.

• Ampliamos muito a transparência da nossa atividade jornalística. Explicamos de diferentes formas nossos métodos e critérios, nossa linha editorial e o que buscamos na eleição. Alguns exemplos: propostas dos candidatos têm muito mais espaço do que o bate-boca partidário; pesquisas ganham pouca visibilidade, como um conteúdo secundário, porque são apenas um retrato do momento, e não o resultado das urnas; cobramos de forma permanente dos institutos de pesquisa o aperfeiçoamento de seus métodos.

• Procuramos diferenciar para o público o que é informação (notícias, fatos, contar o que aconteceu) do que é análise (por que as coisas aconteceram, o que elas significam, como se relacionam a outros fatos) e do que é opinião (o ponto de vista de colunistas e comunicadores).

Ampliamos muito

a transparência da nossa atividade jornalística.

• Combatemos as fake news o tempo todo, buscando esclarecer ao público o que é verdade.

• Ampliamos os espaços plurais, dando muito mais abertura a todas as vozes e a todas as opiniões, sendo uma arena onde todos têm chance de falar.

• Seguimos firmes às regras de nosso Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística e às diretrizes da nossa linha editorial, sem nos autocensurarmos pelas pressões que a imprensa tem sofrido, de todos os lados.

Chegamos ao fim de semana do segundo turno. Esperamos ter contribuído para o debate em alto nível, baseado em propostas, para o esclarecimento do eleitor e para a qualificação da atividade jornalística. A atividade do Conselho Editorial segue agora com muitos outros temas além da eleição.

O desafio da mídia

Passadas as eleições, começa agora um período decisivo para o Brasil, com mudanças que poderão redesenhar o nosso futuro. É um momento de grande desafio também para a imprensa, que terá o papel de retratar com equilíbrio, pluralidade e isenção fatos de grande repercussão na vida do país, em meio a expectativas e reações de uma sociedade diversa e fragmentada, que deixou suas mensagens muito claras na eleição mais apertada desde a redemocratização.

A transição de governo começa com o país ainda dividido, mas será fundamental que sejam encontrados pontos de convergência para que possamos avançar. Nesse sentido, a cobertura jornalística terá como missão acompanhar de perto os 60 dias de transição, os primeiros 30 dias do Executivo e a formação do novo Congresso Nacional, porque dessas articulações resultará o tom dos próximos quatro anos para o Brasil. Também deverá estar entre as prioridades mostrar os impactos dessas mudanças para a economia e o desenvolvimento do Rio Grande do Sul, em que

A cobertura jornalística terá como missão acompanhar de perto os 60 dias de transição.

o governador eleito, Eduardo Leite, e a nova Assembleia estão montando estratégias para enfrentar os enormes desafios que temos pela frente.

Informar, explicar e analisar as decisões e planos anunciados, fiscalizar as autoridades e os políticos, com olhar crítico para todos os lados, sempre no interesse do cidadão – que é o papel da imprensa –, nunca foi tão necessário. Trazer para o debate as ideias, as demandas e as angústias diante da montagem e do início do novo governo contribuirá no esforço de cicatrização das feridas eleitorais, em nome de um país melhor para todos.

A cobertura precisa trazer, ainda, a perspectiva brasileira sobre os fatos internacionais que também impactam o país, nossa economia interna, nossas exportações e o fluxo de investimentos externos, necessários para acelerar o crescimento. Além disso, o Brasil hoje é uma marca forte, admirada e com enorme potencial diante do mundo. Tudo o que é noticiado sobre nós gera interesse fora daqui, molda nossa reputação e cria oportunidades de aumentar nossa relevância no mundo.

Por tudo isso, a pergunta que precisamos responder agora é: como as mudanças que estão por vir impactarão nossas vidas, as empresas e o crescimento do país e do nosso Estado?

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Novas etapas

CLAUDIO

TOIGO FILHO

CEO do Grupo

RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Com o fim do período eleitoral, modifica-se o enfoque da cobertura jornalística. Nossas redações passam à próxima etapa, de acompanhar o período de transição de governos, os compromissos assumidos pelos eleitos e a expectativa da população em relação a seus futuros governantes.

Vejo nossa cobertura política, a partir do dia seguinte à eleição, dividida em três momentos: o primeiro, de compreensão dos resultados; o segundo, de preparação dos governos, com a escolha das equipes e a formatação das propostas; e o terceiro, o da execução dos mandatos.

Na primeira etapa de compreensão dos resultados, nos dedicamos a apresentar todos os dados sobre os eleitos e analisar em profundidade a reconfiguração

do poder no Executivo e no Legislativo, suas inter-relações e possíveis impactos, tanto no âmbito federal como no estadual. Neste primeiro momento, tivemos manifestações importantes de insatisfação, por parte do eleitorado, em relação ao resultado da eleição presidencial. A RBS tem, em seus valores, a defesa das leis e da Constituição. Nosso desafio editorial foi mostrar ao público o que eram atos ilegais e inconstitucionais, e diferenciá-los de manifestações legítimas de insatisfação.

Estamos vivendo agora o segundo momento, de preparação dos governos. É nisso que focamos nossos esforços. O objetivo é contextualizar, analisar e trazer todos os dados, para que o público acompanhe este novo momento. Seguiremos com nosso olhar profundo e diário na cobertura estadual e ampliaremos o enfoque nas questões nacionais, devido à relevante alternância que ocorreu em Brasília. Para reforçar nossa presença na Capital Federal, a partir desta semana o jornalista Rodrigo Lopes passa a trabalhar de lá, trazendo para os veículos da RBS um olhar gaúcho sobre os fatos políticos e econômicos do país. Daremos atenção a temas importantes e cujas diretrizes ainda não estão claras, ou preocupam de uma forma especial toda a população, como o equilíbrio das contas públicas e a economia, e a todos os temas nacionais com forte impacto no Rio Grande do Sul. Rodrigo Lopes, junto com Samantha Klein, passam a ser os correspondentes da RBS em Brasília.

A partir de janeiro, com as posses, continuaremos exercendo nosso papel de acompanhar, sempre com o olhar atento e crítico, o desempenho dos Executivos e Legislativos. O papel da imprensa é, representando os seus públicos, verificar se promessas de campanha e plataformas de governo estão sendo cumpridas, com sustentabilidade e responsabilidade a respeito de suas consequências.

Seguiremos, nessas importantes etapas do Brasil e do Rio Grande do Sul, no exercício do jornalismo profissional, com independência, visão plural e compromisso com toda a sociedade.

Mais pesquisas, mais jornalismo

As eleições deste ano trouxeram à tona o debate em torno da precisão das pesquisas de intenção de voto. Debate em grande medida inédito e com forte tom de questionamento. Eleições anteriores não haviam registrado polêmicas da magnitude como a que vimos até há poucas semanas. Efeito da polarização, do Censo atrasado ou erro metodológico?

O fato me fez lembrar de uma frase que sempre gostei de usar nas redações, quando frente a frente às fragilidades da nossa área, falível como toda atividade humana: para os problemas do jornalismo, mais jornalismo. A reportagem contém erros? Corrigimos. Ficou incompleta? Fazemos outra, ouvindo mais vozes, olhando para mais lados. Insuficiente? Fazemos mais uma, e assim por diante. Avanços, em vez de retrocessos.

Jornalismo não é ciência, mas sim uma atividade prática, que empresta conceitos de disciplinas como a lógica, a filosofia, a estatística e, mais recentemente, a computação, entre outras. Mas a busca do rigor metodológico aproxima o jornalismo do campo científico. Erros em reportagens

A ciência e a técnica progridem a partir das dúvidas.

devem, além de corrigidos, ser objeto de reflexão e aprendizado. Por que o equívoco aconteceu?

O que poderíamos ter feito de diferente em prol de maior precisão? Muitas vezes esse raciocínio leva a novos ângulos, eventualmente resultantes em furos de reportagem. Mais jornalismo.

Na ciência, os desvios e as discrepâncias são antes de tudo dados importantes e subsídios para novas descobertas, jamais desalento ou motivo para interrupções ou retrocessos. Um certo medicamento tem seu efeito reduzido ao longo do tempo? Investiga-se a população tratada. O algoritmo da rede social privilegia quantidade e repercussão em vez de relevância e qualidade? O ideal é que se invista em seu aprimoramento... e, bem, isso dá uma outra coluna, ou várias... A ciência e a técnica progridem a partir das dúvidas.

Como não especialista no assunto, permito-me estender o raciocínio às pesquisas, notadamente uma prática do campo científico e metodológico. São absurdas as hipóteses de proibição ou qualquer outra restrição. Cabe aos institutos especializados (e sabidamente estão fazendo isso) se debruçar sobre as novas realidades para aprimorar seus métodos. Mais pesquisas – sobre o comportamento e as tomadas de decisão das pessoas. Só assim teremos o aprimoramento dessa ferramenta estatística, valiosa não só no campo eleitoral, mas para o debate público e o progresso da sociedade como um todo.

RICARDO GANDOUR
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Empresário e membro do Conselho Editorial da RBS

O consumidor – seja de uma loja ou de um meio de comunicação – aderiu ao mundo virtual muito mais rápido do que qualquer empresa. A expansão do acesso à internet e aos smartphones facilitou a digitalização de uma forma vertiginosa. Isso gerou uma expectativa nas pessoas de que as empresas acompanhassem na mesma velocidade seus hábitos de consumo no celular ou no computador.

O usuário de um site como GZH, por exemplo, quer a informação imediata, com qualidade, fácil de encontrar.

Como empresário do varejo, observo fenômeno semelhante na minha atividade. Mas também vejo que há um movimento pendular. Aparentemente, a digitalização e as redes sociais levaram muito longe o pêndulo das expectativas sobre o mundo virtual. E agora o pêndulo está se equilibrando. Sim, estamos todos na internet e nas mídias sociais. Mas queremos, também, aquilo que não é

somente digital: o jornal impresso, o rádio, a televisão, ou a loja física. As coisas se complementam e se potencializam. Há uma sinergia.

O digital é algo de muita intensidade (muitas coisas ao mesmo tempo, excesso de informação, muito volume), e isso cria ansiedade, dúvidas e até insegurança. Nas redes sociais, por exemplo, não se sabe, naquela overdose de estímulos, o que é verdade e o que não é. Nesse excesso de conteúdo, marcas nas quais o consumidor confia dão segurança. Marcas que estão nas duas dimensões, a virtual e a não virtual, são um refúgio.

Nesse cenário de transformação, é preciso que veículos de informação saibam acompanhar as mudanças no consumo de notícias.

Nesse cenário de transformação, é preciso que veículos de informação saibam acompanhar as mudanças no consumo de notícias e entreguem o melhor dos dois mundos: instantaneidade, rapidez, agilidade e volume do digital, com curadoria, edição cuidada e completa dos jornais, telejornais ou programas de rádio. Um complementa o outro. Buscando sempre retratar os fatos e a verdade.

No comércio, sabemos que o consumidor procura também a loja física porque lhe dá segurança e confiabilidade. Posso comprar no e-commerce, mas a loja física me dá a sensação de que a empresa existe de fato. Muitos negócios nascidos no digital, inclusive, estão criando espaços físicos para o consumidor.

Na lei do pêndulo, que primeiro vai aos extremos e depois se equilibra, a mídia também se insere. O consumidor não quer nem somente o digital, nem somente o veículo tradicional. Quer o melhor dos dois mundos, de forma complementar. E isso assegurado por marcas fortes, confiáveis e com credibilidade, que são o porto seguro do leitor.

Os nossos olhares

Uma televisão de tubo com um videocassete embaixo. Esse era o motor de um lugar especial para a gurizada nos colégios da década de 1980: a Sala do Audiovisual. Quando a professora avisava que a aula seria lá, era festa – sinal de um recreio de duas horas vendo filme. Não admira que a minha primeira memória de futebol seja na “sala do áudio” do Colégio Sevigné em junho de 1986: um golaço do Josimar, foguete arremessado da meia-direita no ângulo do goleiro da Irlanda do Norte. A professora aproveitou para nos ensinar onde era a Irlanda do Norte. Josimar nos ensinou o que é uma Copa do Mundo.

Para o Brasil, a Copa é um momento gigante – é só olhar para as ruas vazias às 16h de uma segunda-feira na estreia da Seleção contra a Sérvia. E o desafio de cobrir exige investimento e esforço do mesmo porte. A RBS mandou para o Catar uma equipe de 16 profissionais de jornalismo e operações. Apoiados por quase 200 colegas em Porto Alegre, eles estão à frente de uma cobertura que vai durar 45 dias e levará as emoções de todos os 64 jogos para milhões de gaúchos em Rádio Gaúcha, RBS TV, GZH, Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro, ge.globo/rs, Rádio Atlântida e Rádio 92.

Gerente de Produto de Jornalismo da RBS TV e membro do Conselho Editorial da RBS

Estar no local dos acontecimentos é necessário para o bom jornalismo. E um valor essencial para a RBS, que vai às Copas desde 1974 – não por acaso, a Gaúcha é a única rádio do sul do país licenciada para transmitir o Mundial. Em meio à overdose de informação, é ainda mais importante que as histórias dos jogos, das torcidas, das culturas que se encontram tenham um olhar familiar e cheguem ao nosso público direto dos acontecimentos, e do jeito mais adequado para cada um.

Aí reside outro desafio: uma cobertura realmente multimídia. E nesse assunto o esporte da RBS tem tradição – basta lembrar de grandes comunicadores como o Professor Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros, multimídias desde antes da internet. Essa “escola” se aprimora a cada Copa – que o diga o Pedro Ernesto, que está na sua décima segunda. No Catar, os talentos da nossa equipe dão mais um passo, levando conteúdo adaptado ao estilo de cada meio sem perder a sua individualidade. Fazem isso porque, ao longo do ano, já praticam com excelência na cobertura da Dupla Gre-Nal, cada vez mais integrada, em rádio, TV, jornal e digital.

Estar no local dos acontecimentos é necessário para o bom jornalismo.

Nos grandes momentos, o jornalismo de excelência precisa investir em ter seu olhar próprio. Nos momentos gigantes, de muitos olhares. Ainda que, hoje, tenhamos acesso direto a todas as imagens, gols e lances, a Copa é muito mais do que apenas o jogo em si. É o debate, a curiosidade, a risada da zebra, a tensão do bolão. É compartilhar. Talvez não seja por acaso que eu lembre tanto do golaço do Josimar na sala do audiovisual quanto da gritaria dos meus colegas de 1ª série. São os nossos olhares.

Chamamos internamente esse tipo de iniciativa de “bandeiras”. E temos muitos outros exemplos: um dos mais recentes foi o movimento Unidos pela Vacina, ou, em outra mobilização que segue valendo, a duplicação da BR-116, que ainda não está concluída. Ou, ainda, um espaço mais visível para alguns temas, como o da inovação, do empreendedorismo e da economia como um todo, como fazemos com iniciativas como o South Summit, o Instituto Caldeira ou o Pacto

Alegre. Mas também ocorre pontualmente, como um grande chamado para que a população aplaudisse os profissionais de saúde durante a pandemia, no horário do RBS Notícias do dia 12 de março passado, iniciativa que se propagou de forma positiva e foi encampada por muitas entidades.

Mobilização

do Conselho Editorial da RBS

Uma das contribuições que um meio de comunicação pode dar a uma comunidade é conseguir mobilizar o público, as autoridades, os responsáveis, por uma grande causa.

A mídia, seja uma emissora de TV ou rádio, um site, um jornal, é como um alto-falante na praça que alerta para algo importante (a metáfora não é por acaso. Assim, o fundador da RBS, Maurício Sirotsky Sobrinho, iniciou sua carreira em Passo Fundo).

Isso se dá de diferentes formas. Alguns exemplos, que ainda podem estar na memória de muitos, são a campanha dos Monstrinhos, de combate à violência contra as crianças, ou Crack nem Pensar.

Uma das contribuições que um meio de comunicação pode dar

a uma comunidade é conseguir mobilizar o público, as autoridades, os responsáveis, por uma grande causa.

A capacidade de chamar seus públicos em defesa de temas relevantes para a sociedade gaúcha é uma das realizações que nos dão mais satisfação. É uma forma objetiva de contribuir para que haja uma união em torno de algo importante para a comunidade. Na reunião da semana passada do Conselho Editorial, esse tema foi abordado: o que deveríamos fazer de “bandeira” em 2023? Muitas ideias surgiram para serem desenvolvidas no ano que vem, sempre com o compromisso deste Conselho e da empresa de fazer jornalismo, esporte e entretenimento que conectem os gaúchos e contribuam para uma vida melhor.

Bem precioso

Você já refletiu por que dedica atenção a um conteúdo – seja de caráter jornalístico ou de entretenimento? O que prende sua atenção? O que a desvia? Quando você se conecta e se desconecta de um conteúdo? E por quê?

Todas essas perguntas têm relação com um dos bens mais preciosos de nossa era: o tempo. A tecnologia pode avançar sem limites, com 5G, 8k ou 1.000 mega de internet, mas tudo esbarra num simples e imutável fato da vida: as 24 horas do dia não são elásticas, não ao menos sem comprometer a saúde. Então, é melhor que esse bem precioso seja despendido em algo que faça sentido em sua vida e a transforme positivamente, bem como a sociedade de uma forma geral.

Tais reflexões fazem parte do pano de fundo de discussões no Conselho Editorial da RBS para manter em permanente evolução os chamados meios convencionais de comunicação – jornal, rádio e TV, que, apesar de profecias de décadas atrás, demonstram extraordinária resiliência e, cada um a seu modo, oferecem experiências únicas.

Inquietação permanente é a bem-vinda e necessária matéria-prima que alimenta a renovação e o futuro da comunicação.

O caso do jornal, por exemplo. Em um mundo de informação e desinformação virtualmente infinitas, um produto jornalístico que tem início, meio e fim, além de definir claramente uma hierarquia noticiosa, proporciona uma imersão informativa confiável em meio aos caóticos oceanos das redes sociais, que tentam fisgar atenções a qualquer custo a fim de extrair dados do usuário.

Já o rádio, cujo desaparecimento foi profetizado na década de 1940, se mostra um meio de enorme vitalidade. Duas explicações para o fenômeno, além da simplicidade de conexão. O rádio é o único meio consumido sem distrações enquanto se executam tarefas rotineiras, como lavar louça ou dirigir automóvel. E, sobretudo, ele conversa com o íntimo de cada ouvinte, criando uma relação de companheirismo.

A TV, por outro lado, continua como a grande janela de entretenimento e informação dos brasileiros. Mesmo que, como ocorre com jornais e rádios, as atenções sejam compartilhadas com suas extensões digitais, a TV aberta chega de graça a todos os cantos do Brasil, seguindo imbatível como meio de massa.

Nenhuma dessas considerações deve servir de conforto. Os chamados meios convencionais precisam se reinventar constantemente e aferir o tempo todo a sintonia com seus públicos. Deitar sobre louros do passado é o caminho certo para qualquer organização, jornalística ou não, perder a preciosa atenção. Inquietação permanente é a bem-vinda e necessária matéria-prima que alimenta a renovação e o futuro da comunicação.

MARCELO RECH
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Mais jornalismo em 2023

Em 2022, talvez tenhamos vivido o ápice do fenômeno da polarização, com críticas, questionamentos e julgamentos sobre quase tudo, pessoas, empresas e instituições. Com o jornalismo não foi diferente, especialmente em um ano atravessado por uma guerra que desorganizou a economia global, com efeitos no Brasil, e por uma disputa eleitoral acirrada que dividiu o país.

Veículos de comunicação e profissionais da notícia foram criticados, e alguns atacados até fisicamente, com o argumento de terem lado e supostamente mostrarem os fatos com abordagens favoráveis a esse ou aquele interesse específico. Somados à explosão da desinformação e das fake news, disseminadas nas redes sociais, criou-se o que se pode chamar de tempestade perfeita sobre a imprensa.

Há muito tempo acompanho, como jornalista, empresária e, principalmente, como consumidora de informação, os debates em torno de coberturas jornalísticas e, por isso, gostaria de compartilhar uma reflexão para quem quer estar conectado com os acontecimentos do entorno e do mundo: é difícil encontrar um momento em que o jornalismo profissional de qualidade se faz mais necessário.

Refiro-me àquele que apura os fatos com correção e profundidade, confiável, que nos ajuda a navegar nas complexidades de uma sociedade diversa, promove o contato com o diferente e nos puxa para fora da nossa bolha, na qual estão aqueles que majoritariamente pensam parecido conosco. Por meio dele, podemos observar o cotidiano sob novas perspectivas e contar com a opinião especializada de quem se debruça sobre assuntos que não temos tempo para acompanhar. Aquele que apura e fiscaliza em nosso interesse. Portanto, precisamos cada vez mais de jornalismo. Nunca menos.

Refiro-me àquele que apura os fatos com correção e profundidade, confiável, que nos ajuda a navegar nas complexidades de uma sociedade diversa.

O que reforça a ideia de que os veículos de comunicação e os jornalistas não estão imunes a questionamentos, e é positivo que sejam estimulados a aperfeiçoar o seu trabalho, renovar suas fontes, repensar formatos e estar sempre atentos às mudanças de hábito e comportamento da sociedade, para assegurar que diferentes pontos de vista estejam representados no debate público. E é nesse espírito que encerramos este primeiro ciclo das nossas reflexões no Conselho Editorial da RBS: estimulados pelas muitas novidades já programadas para 2023 e motivados com as discussões que ainda estão por vir.

Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS

Compromisso com o jornalismo de qualidade sempre

Jornalismo profissional de qualidade, um contraponto essencial à desinformação, à manipulação de fatos e às fake news, é o compromisso que temos hoje e que vamos aprofundar em 2023 na produção de conteúdos distribuídos pelos veículos do Grupo RBS em diferentes plataformas. Isso significa assegurar a nossos públicos o direito à informação independente, à checagem rigorosa dos fatos e à admissão de erros e correções quando necessário. Esse procedimento tem que ser exercido sempre, seja em momentos previamente planejados, como a cobertura das eleições de 2022, nos fatos corriqueiros do dia a dia ou em episódios que não se sabe quando vão acontecer, como a morte de Pelé, um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Com a contribuição do nosso Conselho Editorial, seguiremos incansáveis na busca pela verdade, por meio do jornalismo exercido com método, da maior abrangência de pautas e com destaque para o hiperlocalismo, ampliando os públicos, avançando em tecnologia e incentivando sempre a formação de novas gerações de profissionais.

Qualidade é um conceito que, em jornalismo, precisa ser constantemente redefinido e atualizado, em sintonia com as demandas dos públicos e com as transformações da sociedade. Queremos ouvi-los cada vez mais para que nossos temas e nossos formatos sejam efetivamente relevantes. Buscaremos esse objetivo com pluralidade, equilíbrio e responsabilidade na apuração de fatos e na divulgação de opiniões, por entendermos que liberdade de imprensa e de expressão não significa imunidade. Ao contrário, aumenta ainda mais a responsabilidade de assegurarmos que múltiplas visões sejam representadas, de forma independente, ajudando as pessoas a fazer melhor seus julgamentos e a tomar decisões mais acertadas.

Quem se submete à desinformação e a inverdades fica menos preparado para entender o mundo de forma ampla, como é retratado pela mídia profissional, com qualidade. Daí a decisão da RBS de buscar mais protagonistas, diversificando ainda mais temas e visões. No esporte, nossa cobertura seguirá dando ênfase ao futebol masculino e feminino, além de outras modalidades. Teremos mais espaço também para a economia gaúcha, com atenção especial ao agronegócio, ao empreendedorismo e aos movimentos pela inovação no Estado. O mesmo tratamento será dado à cultura, à tradição e às expressões urbanas, valorizando nossos inúmeros talentos.

Paralelamente, seguiremos aprofundando temas essenciais para a sociedade, como educação, saúde e segurança pública. Os avanços se estenderão também a outras áreas relevantes para as pessoas, como a questão climática e ambiental, entre outras. Com um jornalismo profissional e de qualidade, no papel de curadores e de arena para o debate construtivo, levaremos aos nossos públicos um mundo mais complexo e mais plural do que o das bolhas nas redes sociais.

Assegurar que todas as visões estejam representadas nos conteúdos jornalísticos contribui para a reunificação do país e para o fortalecimento da democracia, em um momento importante de mudança do cenário político em âmbito estadual e nacional. E coincide com um novo ciclo digital na RBS, com transformações que, a partir de 2023, irão aprimorar ainda mais nossa experiência oferecida aos públicos.

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CLAUDIO TOIGO FILHO

CEO do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Passada a posse, com o começo do ano e do novo governo, o Brasil entra em nova fase. No jornalismo independente, segue tudo igual: para quem tem compromisso com a busca da verdade e com a produção de conteúdo de qualidade, mudam os governos, não o papel de fiscalizar quem está no poder, denunciar malfeitos, cobrar promessas de campanha e exigir, em nome da sociedade, que autoridades cumpram bem sua função. Isso pode causar desconforto nos partidários da direita, se é a direita quem está no governo, ou nos da esquerda, se o governo é de esquerda.

Sabemos que o momento da alternância no poder faz subir o grau de desconforto. Digamos que você tenha votado no Bolsonaro. Lula, eleito, aparecerá mais no noticiário. Isso pode ser desconfortável para você, porque ele agora é presidente e não foi sua escolha. Agora, vamos que você tenha votado em Lula. Ao se iniciar o mandato, se acentua o papel da imprensa de fiscalizar seu governo. Ao ver na mídia qualquer crítica ou questionamento, o eleitor de Lula achará que a imprensa está jogando contra. Aliás, já começamos a receber críticas da esquerda em relação à cobertura do governo que se inicia. Isso é natural e acontece a todos os veículos de comunicação que praticam jornalismo profissional.

Nosso papel não é acusar por acusar, ou criticar por criticar. A tarefa está em, sem torcer para A ou B, fazer jornalismo responsável, plural e equilibrado, apurando e checando fatos, mostrando diferentes visões e fazendo o papel de watchdog, ou cão de guarda, como dizem os norte-americanos.

Mesmo que não se concorde com a linha do governo – ou a linha política de um amigo, parente ou colega –, o pluralismo de ideias enriquece o ser humano (e o jornalismo), desde que haja respeito no diálogo. Aos veículos de comunicação cabe mostrar todos os matizes de visões, sempre buscando dar ainda mais espaço para todas as vozes e diversificando fontes. Aquilo que difere de nossas convicções pode ser desconfortável, mas, sendo ético e com propósito positivo, é saudável.

No Conselho Editorial, os temas acima perpassam quase todas as reuniões, com o objetivo de, em momentos como este, estarmos ainda mais atentos a nossa função, buscando qualificar nossas redações e tornar mais responsável nossa atividade. Se isso lhe causar algum desconforto, pode significar duas coisas: você está em saudável contato com ideias diferentes, e nós, em mais um governo, estamos fazendo jornalismo independente.

A responsabilidade do jornalismo

Desde domingo, quando começaram a ocorrer os atos de invasão dos três poderes em Brasília, houve uma mobilização imediata do nosso jornalismo e do Conselho Editorial. O momento de gravidade dos crimes e de ameaça à democracia determinava uma análise criteriosa do cenário, o reforço de diretrizes editoriais para as redações e uma reflexão sobre o papel que temos como imprensa neste momento.

Na linha de transparência que tentamos estabelecer com o público neste espaço, desde a criação do Conselho Editorial em agosto de 2022, faço um resumo aqui para esclarecimento de todos.

Estamos em um momento delicado da história. Os riscos não terminaram. Sabemos de nossa responsabilidade, como veículos de comunicação, no fortalecimento do Executivo, do Legislativo, do Judiciário, e reiteramos o compromisso da RBS com a democracia e com o cumprimento das leis.

Nossos veículos devem dar voz, de forma equilibrada, aos dois lados, ouvindo fontes democráticas.
A pluralidade é um valor indiscutível na nossa linha editorial.

Seguiremos fazendo jornalismo independente, responsável, plural, com distanciamento crítico, no interesse do público e na busca obsessiva da verdade.

Jornalisticamente, não pendemos para nenhum dos lados, seja direita ou esquerda. Nosso apartidarismo permite que tenhamos independência para criticar ou elogiar, se o governo vigente, em nível federal, estadual ou municipal, errar ou acertar.

Temos consciência de que a direita não é igual à minoria radical que invadiu os prédios em Brasília. A grande maioria dos eleitores de direita, inclusive entidades liberais, condena os atos criminosos de 8 de janeiro.

Nossos veículos devem dar voz, de forma equilibrada, aos dois lados, ouvindo fontes democráticas. A pluralidade é um valor indiscutível na nossa linha editorial. Mas os holofotes não podem estar em fontes radicais: nosso papel é o de buscar os pontos em que há consenso, para que o país possa seguir em frente.

O momento é de análise do que ocorreu e de apuração de responsabilidades, para que todos os episódios sejam apurados, os criminosos, punidos, e que os brasileiros compreendam o que ocorreu e por que ocorreu, para que não se repita.

O desafio do digital

RODRIGO MÜZELL

Gerente de Jornalismo

Digital e membro do Conselho Editorial da RBS

Um desafio se impõe às sociedades que buscam preservar a democracia em tempos de turbulência: garantir o acesso à informação de qualidade e combater a desinformação. Essa é uma tarefa de toda a sociedade, mas na qual o jornalismo tem papel fundamental. E, à medida que a nossa vida migra para o digital, fica mais importante exercer essa função no ambiente online.

Assunto constante no Conselho

Editorial da RBS, aumentar cada vez mais a relevância do nosso conteúdo digital não é desafio simples. Menos ainda, recente – já fazemos jornalismo digital há mais de um quarto de século. No entanto, o público em 2023 nos traz algumas tarefas. Uma delas é sempre estar nas plataformas e nos formatos que deseja consumir. Em vídeo, texto

e áudio, com doses definidas pelo gosto do consumidor. E um hábito não exclui o outro. Uma onda crescente de consumo de imagens convive com o interesse maior por podcasts; a informação curta pelo WhatsApp não impede que busquemos um conteúdo mais aprofundado do assunto que nos interessa. É assim que pensamos a atuação em GZH e nos demais canais da RBS. Mais do que uma mídia, o digital é um ambiente de encontro.

Mas também é um lugar de conflito. Em grupos fechados em que as informações falsas circulam ou em redes sociais que estimulam a formação de bolhas, brigas e polarização, o momento é de crescente fadiga de notícias. Fenômeno mundial que, segundo pesquisa do Reuters Institute, está mais forte no Brasil. É necessidade cada vez maior da imprensa entender seu público e apostar nos assuntos que ele considera mais importantes. Entregar conteúdos de forma mais personalizada, buscar um equilíbrio maior entre notícias ruins e boas (sim, elas existem!) e investir em reportagens que apontem caminhos para resolver os problemas. Ser útil.

Em meio a uma avalanche de notícias, temos a tarefa de contextualizar os fatos. O que significa o aumento de um ponto na inflação? Ou milhões gastos em uma obra? O digital permite fazer isso tanto em formatos que se encaixam na rotina corrida quanto nos momentos de pausa. Nas redações, o uso da inteligência artificial para automatizar funções mais simples é tendência mundial que permite liberar o jornalista para refletir mais sobre as informações que apura. E aumentar a presença em plataformas de redes sociais mais recentes, como o Tik Tok, na qual principalmente consumidores mais jovens buscam informação e entretenimento.

No jornalismo digital, que há 25 anos responde à mudança constante do público, a palavra “novo” chega a ser velha. Até por isso, é ainda mais necessário reforçar a busca pelos valores mais tradicionais do jornalismo: ética, equilíbrio, pluralidade, precisão. Nossa tarefa diária, e também nosso privilégio.

Qual o futuro do jornal impresso?

Muito se discute o futuro do formato impresso do jornal, esse produto como hoje o conhecemos e que o leitor e a leitora têm em mãos, ou em papel e tinta ou na edição digital de celular ou tablet. O assunto é debatido nas empresas de mídia e nas salas de aula dos cursos de comunicação – não só de jornalismo, mas também de marketing e publicidade, áreas interessadas na reflexão. O formato editado sobrevive, ancorado num hábito que acompanha boa parte do público.

O número total de exemplares se mantém estável, com as edições digitais compensando quedas do papel – e até cresce em algumas regiões.

O rótulo formato editado não é por acaso. É uma oferta editorial que contém um ingrediente fundamental do jornalismo profissional, a edição. Aí reside a maior preocupação: mais do que a sobrevivência de um tipo de produto, é imperativo preservar o processo que o sustenta, importante não só para quem lê, mas também para quem faz.

Editar é avaliar o noticiário previamente checado, estabelecer pesos relativos, hierarquizar e organizar conteúdos, dando nitidez à distinção entre informação, análise e opinião. (Cá

O assunto é debatido nas empresas de mídia e nas salas de aula dos cursos de comunicação – não só de jornalismo.

entre nós, é basicamente o que as redes sociais em geral não têm; e sejamos justos, é muito visível que as marcas do jornalismo profissional têm transposto ao ambiente digital, seus sites e suas redes, os valores da edição.)

Para quem lê, é prática diária de educação midiática. Informar-se pelos sites e pelas redes das marcas jornalísticas é e será cada vez mais importante – e aqui estamos falando de audiências que só crescem. Mas o formato editado, pela sua finitude, nos dá a dimensão e a importância relativa de cada bloco, nos treina o olhar. Por entendermos cada peça, compreendemos muito melhor o quebra-cabeça como um todo. Edição educa.

E para nós, jornalistas? Nossa rotina já é há muito tempo voltada à prestação imediata de serviços informativos. As redações operam em tempo real. Mas o fato de que, em paralelo ao turbilhão do breaking news, a redação tenha que se ocupar do processo que leva ao formato editado, preserva nas equipes o exercício da organização e da hierarquização no espaço finito. Mesmo que sejam equipes separadas, a cultura sobrevive no geral. Veteranos transmitem a técnica aos mais jovens. E o mesmo acontece na TV e no rádio, onde o espaço finito é o tempo.

Portanto, vida longa ao formato editado, em papel e tinta ou no digital, na TV e no rádio. E, com ele, os valores e os princípios da edição.

Pintando a aldeia

Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Com alguma dose de razão, colegas de Rio e São Paulo caçoavam de mim, então diretor de Redação, sobre como a Zero Hora noticiaria que um cometa aniquilaria o planeta no dia seguinte. Enquanto a maioria diria que o mundo seria extinto, a manchete de ZH, segundo a zoeira deles, seria: “O Rio Grande do Sul acaba hoje”.

Noves fora a brincadeira, o fato é que a fórmula de sucesso da RBS na comunicação inclui, desde sua fundação, a alquimia de saber identificar e tratar de temas locais com qualidade, credibilidade, profundidade e atratividade, e entregar esses conteúdos aos públicos conforme suas esferas de interesse. “Se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia”, sintetizava, com toda a propriedade, o escritor russo Leon Tolstói.

Um breve exemplo dessa convicção. Três dos maiores cronistas da RBS, já falecidos, construíram legiões de admiradores porque souberam ser universais falando de e no Rio Grande do Sul. O Bom Fim de Moacyr Scliar, o IAPI de David Coimbra e o entorno de Lupicínio Rodrigues expressado por Paulo Sant’Ana traduzem bem essa capacidade de enxergar o todo a partir da perspectiva local e transformá-la em visões únicas e globais.

O dilema de ser regional mas ao mesmo tempo universal e cosmopolita, sem resvalar para o provincianismo, permeia boa parte das discussões do Conselho Editorial da RBS. Uma palavra-chave para se perseguir essa linha editorial é singularidade. Os veículos da RBS nunca terão a melhor posição para cobrir o impacto econômico da covid-19 na China, mas devem ser os mais capacitados a entender e explicar como as perspectivas da economia chinesa afetam os ciclos econômicos gaúchos e a vida dos cidadãos comuns por aqui.

Com a lógica de cobrir os acontecimentos pela ótica gaúcha, cabe à RBS também

estar presente nos locais e momentos decisivos do Brasil e do mundo.

Com a lógica de cobrir os acontecimentos pela ótica gaúcha, cabe à RBS também estar presente nos locais e momentos decisivos do Brasil e do mundo. É por isso que a RBS investe no acompanhamento de jogos da Seleção, Olimpíadas, guerras e outros eventos marcantes, além de manter, há décadas, uma presença em Brasília, recentemente reforçada por Rodrigo Lopes. Quem quer que represente olhos e ouvidos dos gaúchos tem de saber cada vez mais pintar sua aldeia e ser ao mesmo tempo universal.

MARCELO RECH

A RBS é de direita ou de esquerda?

Em alguns momentos, a pergunta do título desta coluna surge: para que lado político o Grupo RBS torce?

Durante o governo Bolsonaro, houve gente que disse: a RBS é de esquerda. Agora, desde que o governo Lula assumiu, ouvimos pessoas dizendo: a RBS é de direita. Aliás, isso aconteceu durante os mandatos anteriores de Lula e Dilma. Há momentos em que a empresa é considerada de um lado, e momentos em que é considerada de outro.

A verdade é: a RBS não é nem de direita, nem de esquerda.

Ao fazer jornalismo profissional, esforça-se ao máximo para relatar os fatos como eles são. Fala o que precisa ser dito. Há coisas boas e outras não tão boas, na esquerda e na direita. E a RBS busca a realidade e a relata em suas reportagens, notícias e matérias.

Quando um colunista ou comentarista (como Juliana Bublitz, Rosane de Oliveira, Fabrício Carpinejar, somente para citar três nomes) produz um conteúdo, ele tem liberdade para expressar o seu ponto de vista, a sua opinião.

Isso é diferente das reportagens e notícias, nas quais não há opinião, só relato do que aconteceu. Os colunistas e

comentaristas devem fazer isso com liberdade, mas baseados em dados e fatos, e sempre com muita responsabilidade e sabedores do impacto de seu trabalho. E isso pode significar ora elogiar, ora criticar o governo. Ninguém da direção da empresa telefona para um colunista ou comentarista sugerindo que ele opine assim ou assado. Essa liberdade para que expressem o que pensam, sempre com responsabilidade, está prevista nas normas da empresa.

A missão da RBS é apurar o que aconteceu, relatar com o máximo de precisão o que ocorreu, chegar o mais próximo possível da verdade, permitir que diferentes fontes se expressem.

A missão da RBS não é ser de direita ou de esquerda. A missão da RBS é apurar o que aconteceu, relatar com o máximo de precisão o que ocorreu, chegar o mais próximo possível da verdade, permitir que diferentes fontes se expressem. Compreende-se, no mundo polarizado em que vivemos, que as pessoas muitas vezes tenham necessidade de rotular, a partir do seu ponto de vista, que uma empresa de comunicação torce para cá ou para lá. Há sempre muita emoção a partir do ponto de vista de quem rotula. Mas a RBS não pode se deixar influenciar por essas emoções, nem pressões. Tem de ser independente em sua linha editorial, que prevê pluralidade, dar espaço para todos os lados, buscar a verdade e checar as informações antes de divulgá-las. Tudo isso faz parte do jornalismo profissional. Para atender melhor os seus públicos, e construir uma relação de confiança, a RBS deve seguir firme nesses princípios, independentemente do governo de plantão.

A criação do Conselho Editorial, com integrantes internos e externos à empresa, ligados ou não à atividade de comunicação, é mais um passo para a manutenção e o aprimoramento, com responsabilidade, dessa linha editorial independente, plural, apartidária e profissional.

A contribuição do leitor

Quando, aos 13 anos, decidi que seria jornalista, era estimulada pelo meu pai – perfeccionista e leitor voraz – a questionar e debater informações que lia em jornais e revistas da época. Eu e meus irmãos nos acostumamos a ver ele telefonar para as redações para perguntar sobre dúvidas em relação a algo que lera em uma reportagem, apontar dados incompletos, às vezes errados, e fazer sugestões.

Tenho saudade dessa leitura crítica, alerta, que não se conforma com informações superficiais, pela metade ou duvidosas. Que não se contenta com o “ouvi dizer” e vai atrás de conteúdos críveis, confiáveis. Esse consumidor de notícias atento e exigente tem uma contribuição muito importante para o jornalismo profissional de qualidade.

Vivemos um momento espetacular, de abundância de conteúdos, que nos chegam em alta velocidade, com diversidade de fontes e múltiplos acessos.

Todos nós temos hoje uma autonomia jamais pensada para nos comunicar, compartilhar e formar nossas opiniões. Podemos fazer a própria curadoria dos assuntos que nos interessam e consumi-los quando e como quisermos. Esse é o lado maravilhoso do mundo digital.

Porém, essas possibilidades estão estimulando uma cultura danosa, com perdas para a cidadania: estamos menos exigentes em relação ao que nos chega como notícia. Sem muita reflexão, confiamos e compartilhamos, bem-intencionados que somos. Falta tempo para ler, ouvir e assistir a tudo que gostaríamos, mas não podemos abrir mão da exigência da informação confiável e de qualidade que entra na nossa vida e, muitas vezes, orienta nossas decisões e dá subsídios para uma leitura do mundo e para formar opinião.

Assim como os jornalistas e os veículos

de comunicação, nós, consumidores de informação, temos um papel fundamental ao fortalecer o jornalismo profissional.

As notícias distorcidas ou falsas (fake news) devem ser combatidas por todos.

Assim como os jornalistas e os veículos de comunicação, nós, consumidores de informação, temos um papel fundamental ao fortalecer o jornalismo profissional, questionando e sugerindo para aprimorar, nunca para ofender ou desprezar. Cada vez que optamos pelo jornalismo sério, de qualidade, quando incentivamos nossas famílias e nossos amigos a buscar fontes confiáveis, quando compreendemos o processo de fazer jornalismo e contribuímos de forma crítica e construtiva em nome do reporte correto dos fatos, ganhamos todos.

Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS

O desafio da Governança Editorial

Em seus mais de 60 anos de jornalismo diário, a RBS vem aperfeiçoando a produção de comunicação de qualidade, assumindo compromissos sólidos com seus públicos. Ser transparente é nossa obrigação. Esse espaço semanal do Conselho Editorial é também uma oportunidade para se dar clareza aos públicos sobre alguns de nossos processos internos para o aprimoramento do jornalismo profissional, que, além da missão de informar com correção, é, cada vez mais, um contraponto essencial à desinformação e às notícias falsas, infelizmente tão presentes no nosso dia a dia.

Na RBS, esse trabalho é exercido hoje por 500 profissionais da área da informação e da opinião. São jornalistas profissionais, apresentadores, comunicadores, colunistas, comentaristas, líderes de redação, editores, repórteres, designers, diagramadores, fotógrafos, cinegrafistas, produtores e assistentes de conteúdo. Entre eles, temos 50 profissionais contratados pela empresa que, além do trabalho de reportar os fatos e informações, também emitem suas opiniões sobre acontecimentos do dia a dia. Temos outros 38 articulistas convidados, que também compartilham seus pontos de vista em espaços identificados. Destaco ainda, as centenas de pessoas

que estão em contato permanente com nossos profissionais e comunicadores, assim como com as nossas redações. Junto com o público, todos fazem parte de um complexo e dinâmico ecossistema de informação profissional.

A missão maior de nossos profissionais é a ampla cobertura dos fatos, sempre a partir de fontes confiáveis, por meio de uma rigorosa checagem de cada informação antes de divulgá-la, para dar luz a diferentes análises e opiniões, que representam com equilíbrio e ponderação a diversidade de pontos de vista dos nossos públicos. Cabe à empresa assegurar que as opiniões sejam dadas com liberdade, independência e absoluta responsabilidade. Por outro lado, é indispensável que, quando eventualmente exageramos ou cometemos erros, estes sejam corrigidos com transparência e sem subterfúgios.

Esse é um processo contínuo, 24 horas por dia, sete dias por semana, sem pausa. São inúmeras reuniões presenciais, incontáveis contatos virtuais e milhares de interações diárias entre nossos profissionais, suas fontes e o público.

Nosso Conselho Editorial, com membros de dentro e de fora da empresa, reforça a diversidade de olhares, ajudando a zelar pela independência, pluralidade, transparência e equilíbrio da linha editorial, além de exercer um processo crítico sobre nossos conteúdos diários e grandes coberturas.

O Comitê de Jornalismo, por meio da diretora-executiva de Jornalismo e Esporte, dissemina os resultados dessas discussões entre jornalistas e comunicadores em reuniões periódicas e contatos diários nas nossas redações. Pessoalmente, entendo que o mundo virtual ajuda muito, mas é fundamental para o jornalismo a continuidade dos encontros presenciais, na empresa e fora dela.

Como publisher, procuro ser o guardião de nossos valores jornalísticos e desse ecossistema de produção de informação, fazendo com que funcione com total transparência e eficácia. Entendo que esse trabalho contribui para garantir ao nosso público um jornalismo de qualidade, em constante aperfeiçoamento, fundamental para o desenvolvimento da sociedade e para a consolidação da nossa democracia.

Jornalismo

– A hora da mudança

O cenário do consumo de informação preocupa. E muito. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Todos, sem exceção, percebem que chegou para o jornalismo a hora da mudança.

As notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meiasverdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. O fenômeno da disrupção digital, da perda do domínio da narrativa e da desintermediação dos meios tradicionais teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

comunicação

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização. Trata-se de um fenômeno generalizado.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação da corrupção. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa?

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

A força do Interior

Com apenas 14 anos, Maurício Sirotsky Sobrinho, o fundador da RBS, começou sua carreira precoce de comunicador, quando criou em Passo Fundo “A voz do poste”: um alto-falante pendurado no meio da praça central da cidade. Corta. A cena avança algumas décadas. Nesta semana, na mesma Passo Fundo, a RBS criada por Maurício lançou a expansão de GZH: um veículo digital, que leva notícias não para uma quadra, mas para, virtualmente, o mundo inteiro.

Do alto-falante ao aplicativo digital, a RBS está sempre mudando, inovando, ousando, se transformando para acompanhar o leitor, telespectador, ouvinte em seus hábitos de consumo de informação. Uma coisa, no entanto, nunca mudou: a crença no jornalismo profissional e no poder das notícias locais. Mais do que nunca, essa aposta segue válida.

Em todo o mundo, estudiosos da comunicação alertam para um fenômeno perigoso. O deserto de notícias. É o nome dado a regiões do planeta em que não há sequer um veículo de comunicação, seja rádio, TV, jornal ou site, para fornecer notícias locais. Perigoso porque comunidades precisam de

O jornalismo local, ou seja, ter ainda mais notícias de cada região do Estado, é o oposto do deserto de notícias.

informação precisa e de qualidade sobre o que acontece nos arredores para tomar pequenas e grandes decisões, como a escolha do melhor trajeto, caso uma rua tenha trocado de mão, ou do candidato a prefeito. Como sobreviver sem informações da nossa aldeia, nossa cidade, nossa região? O jornalismo local, ou seja, ter ainda mais notícias de cada região do Estado, é o oposto do deserto de notícias. E a RBS investe para se ter ainda mais conteúdo tanto da Região Metropolitana quanto do interior do Rio Grande do Sul.

GZH Passo Fundo, a primeira iniciativa de expansão de GZH, por acaso ocorre no mesmo local em que Maurício iniciou suas atividades, mas não por acaso ocorre na pujante região de Passo Fundo. O local foi escolhido por sua relevância nas áreas econômica, especialmente no agronegócio, social, cultural e política. Passo Fundo é um exemplo em muitas áreas, inclusive na educação e na saúde.

O projeto, uma experiência que poderá se repetir em outros municípios, se alinha a duas discussões recorrentes do Conselho Editorial. A aposta no jornalismo profissional, plural, responsável, independente, próximo da comunidade e de suas demandas, que combate desinformação/fake news e reforça a democracia. E a força das notícias locais, vocação da RBS de falar para os gaúchos sobre os fatos que interessam aos gaúchos, algo que está no DNA e nas origens da empresa.

a sociedade. Esse ambiente, quase caótico, gera desafios para o jornalismo que vão muito além da simples escolha do meio de distribuição.

Por outro lado, esta transformação também gera uma oportunidade para o jornalismo fortalecer-se como solução para muitos desses problemas. No Grupo RBS, temos a crença de que o jornalismo profissional, independente e plural é essencial para uma sociedade livre e justa. Também acreditamos que precisamos continuar evoluindo para que possamos materializar o nosso propósito de fazer um jornalismo que conecte os gaúchos e contribua para uma vida melhor. Tem sido assim desde o primeiro dos nossos 65 anos.

O importante precisa ser interessante

Não é novidade o impacto da digitalização nos hábitos de consumo e nos negócios. A indústria de comunicação foi uma das primeiras a ser afetada. Inicialmente, parecia ser apenas a chegada de um novo canal de distribuição. Uma disputa do online versus o off-line, do físico versus o digital. Porém, os impactos na comunicação foram muito além de uma simples escolha do canal de consumo. A indústria foi afetada de muitas e significativas formas, com transformações importantes para os consumidores. Excesso de conteúdo, insegurança de não estarmos sabendo de algo que deveríamos saber, desinformação, superficialidade e desinteresse em relação a temas importantes são alguns exemplos de impactos para

O jornalismo precisa continuar evoluindo e acompanhando as diferentes demandas das pessoas.

A partir da conexão com os gaúchos e do profundo entendimento de suas necessidades, iremos buscar respostas a questões importantes para que a comunicação e o jornalismo sejam ainda mais úteis e relevantes, cumprindo seu papel social. Algumas dessas questões são: como abordar temas profundos e densos em um ambiente de dispersão de atenção e de consumo rápido e superficial? Qual a melhor linguagem e estilo para os diferentes públicos, assuntos e meios? Como podemos melhorar a distribuição do conteúdo em redes sociais, com responsabilidade e imparcialidade, frente aos algoritmos que valorizam outros atributos?

Com o objetivo de responder a essas e outras perguntas e para aperfeiçoar nossa entrega para o público, estamos abrindo discussões na RBS para ressignificar o jornalismo. Acreditamos que o jornalismo tem um papel fundamental para a sociedade e, para que isso seja percebido e realizado, ele também precisa continuar evoluindo e acompanhando as diferentes demandas das pessoas.

colocar no lugar do público e fazer a pergunta que abre o texto.

A pergunta do leitor

“O que eu tenho a ver com isso?”

Se pudéssemos ouvir os pensamentos do público ao ser impactado por uma notícia, não seria raro escutar a pergunta acima. Um pouco insolente, certamente impaciente, mas sobretudo certeira ao atacar o desafio atual do jornalismo: dar sentido à enxurrada diária de informações.

Continuo aqui uma reflexão iniciada na semana passada pelo CEO da RBS, Claudio Toigo Filho, que trouxe um dos pontos discutidos com frequência no Conselho Editorial – é preciso que o importante seja interessante. Além disso, é necessário que o conteúdo seja considerado importante pelo público. E como saber o que, dentro da abundância de fatos diários, é importante?

Com a análise da audiência, pesquisas e feedbacks dos leitores, não faltam dados para as redações tomarem decisões de pauta. Mas uma ferramenta tão importante quanto está à disposição de todos os jornalistas: se

Para manter uma relação consistente com o público, é preciso ver o mundo a partir do seu olhar, oferecer contexto e dar sentido aos fatos.

Produzir uma notícia partindo da perspectiva do público exige a reflexão sobre quais são os interessados ou atingidos por aquele tema e o exercício de empatia de pensar como eles. A partir daí, demanda que a matéria traga as informações mais úteis e o contexto para os fatos: por que é importante, o que ocorreu antes, quais são as possíveis consequências. Não joga o leitor no meio da novela sem explicar a trama. Também evita supervalorizar assuntos menos relevantes que estão “bombando” na internet – o fantasma antigo da ditadura dos cliques. Afinal, precisamos ajudar o público a ver sentido nos fatos, e não aumentar a confusão e o ruído.

Em todos os momentos de excelência do jornalismo, essa lógica esteve presente. Mas em tempos de overdose de informação, está mais importante do que nunca. Com o olhar do público e o contexto necessário, nosso conteúdo ajuda a reduzir a sensação de estar perdendo algo importante. Dá anticorpos contra a desinformação, com elementos para filtrar as mentiras que recebemos a toda hora. Facilita que o público veja a notícia, tire as suas conclusões e decida, afinal, o que ele tem a ver com isso.

Problemas digitais, soluções analógicas

A atitude de alguns empresários e especialistas de pedir “um tempo” –seis meses, no caso – nas pesquisas e nos desenvolvimentos em torno do ChatGPT, o mais emblemático produto da chamada inteligência artificial (IA), traz à tona um conceito: o mundo se move aceleradamente pelas vias digitais, mas as principais decisões da humanidade ainda se pautam por encaminhamentos analógicos.

O alerta, divulgado na semana passada no site do instituto Future of Life, questiona se as máquinas poderão vir a inundar nossos canais de informação com “notícias” artificiais e mentiras.

E vai além, analisando o impacto da possível automatização de muitas tarefas em trabalhos de naturezas diversas – o que pode ocorrer também nas redações jornalísticas.

O assunto foi tema da recente edição do festival SXSW, evento de inovação e tecnologia realizado na cidade texana de Austin, nos Estados Unidos. Lá, Greg Brockman, presidente da OpenAI, a criadora do ChatGPT, se disse um “otimista realista”, mas acrescentou: “não vai ser perfeito, teremos problemas”. A pesquisadora do futuro e professora da New York University Amy Webb foi além, pontuando que a IA pode causar um abismo social entre os que terão ou não acesso ao “letramento” nessas novas tecnologias.

No tal manifesto, os especialistas e empresários argumentam que certas decisões “não devem ser delegadas a líderes tecnológicos não eleitos”. E defendem que a pausa seja usada para que se desenvolvam técnicas para discernir o que é real do que é artificial, com “riscos de perturbação política e econômica” – inclusive para a democracia.

A internet mexeu fortemente com as

duas principais variáveis da humanidade: o tempo e a distância.

O SXSW também analisou o impacto nas redações, na moderação de conteúdos e nas atividades de curadoria de uma forma geral. Análises de dados, comparações, análises e até descrição de imagens fotográficas poderão vir a ser realizadas por esses novos programas computacionais. Mas em todos os painéis sobre o tema as discussões convergiram para um ponto: o olhar humano será ainda mais essencial nesses novos cenários. Senão, alertam, o universo da fabricação de fake news será habitado por esses sofisticados mecanismos – se é que já não é.

A internet mexeu fortemente com as duas principais variáveis da humanidade: o tempo e a distância, duas dimensões absolutamente analógicas. Há uma outra: o bom senso. É isso que move o clamor dos empresários e especialistas ao pedir “um tempo”. Tempo para pensarmos, para refletirmos. Quem viver verá.

RICARDO GANDOUR
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Quanto vale o jornalismo?

Como seria o mundo se já não houvesse mais jornalismo?

Quem relataria, e como, as guerras e os escândalos de corrupção, quem denunciaria mazelas sociais e omissões do poder público? Quem aqueceria corações e inspiraria milhões ao trazer à tona boas notícias e apresentar perfis de heróis do cotidiano? Quem abriria espaço para o contraponto e confrontaria versões para chegar o mais próximo possível da realidade? E quem corrigiria seus próprios erros e trabalharia em regime de plantão permanente para verificar versões e desmontar desinformações que circulam pelas redes sociais antes que elas causem mais danos?

Um mundo sem jornalismo seria presa fácil dos rumores, os quais, sem as barreiras do jornalismo e da informação verdadeira, levariam em pouco tempo o planeta a uma desestabilização econômica e política. Um mundo sem jornalismo, portanto, perderia suas referências e embarcaria a todos num caos degenerativo de consequências imprevisíveis. Viveríamos em permanente estado de pânico diante de cada boato.

Apesar dessa importância, qual o valor monetário do jornalismo?

Apesar dessa importância, qual o valor monetário do jornalismo? Até agora, o modelo que sustentava esses retratos contínuos da realidade se assentava sobre dois grandes pilares: publicidade e assinaturas. Hoje, porém, cerca de 80% das receitas publicitárias digitais do Ocidente são canalizadas para duas grandes plataformas tecnológicas, que drenaram os conteúdos e a receita publicitária dos veículos jornalísticos mas rejeitam qualquer responsabilidade inerente a essa atividade.

Nos últimos anos, muitos países estão aprovando leis que determinam um reequilíbrio nas negociações, de modo que não fale mais alto o poder de vida e morte sobre veículos jornalísticos exercidos pelas big techs. São os casos de 23 dos 27 países da União Europeia, da Austrália, da Nova Zelândia e, em breve, do Canadá. Na superfície, trata-se de reconhecer direitos autorais de quem produz informação, mas, no fundo, o que esses países estão fazendo é combater a poluição social gerada pelas redes por meio da revitalização do jornalismo.

No Brasil, o debate está sendo travado em torno do PL 2630, a Lei das Fake News. Quem se beneficia da desinformação e do discurso de ódio tem um lado. De outro, estão os que buscam a defesa da democracia e um ambiente mais saudável e harmônico para a vida em sociedade, antes que seja tarde demais.

necessário

Gerente-executivo

Pautar, apurar, editar e publicar, nesta ordem, são verbos que sintetizam o fluxo natural de uma redação. Mas há momentos em que esse fluxo precisa ser pausado para dar lugar a discussões éticas que colocam o que se pode chamar de instinto publicador em confronto com os compromissos da imprensa profissional e responsável. Estamos vivendo um desses momentos.

Tudo começa com o assassinato brutal de quatro crianças numa creche em Blumenau (SC). Instinto publicador: mergulhar na notícia, nos detalhes da barbárie, na comoção, no perfil do assassino – suas origens, se sofreu bullying, se a vida lhe foi cruel. Compromisso da imprensa profissional: não fazer o jogo do assassino, glamorizando-o, tornando-o mais importante do que as vítimas, não

detalhar a monstruosidade, entre outros aspectos que, repetindo e grifando, uma redação com jornalistas profissionais certamente debateu a fundo naquele 5 de abril.

Do embate entre o publique-se e o compromisso ético derivaram nossos padrões de cobertura do caso, a partir de inquietações de nossa equipe de jornalistas e culminando com uma profunda discussão e deliberações entre os integrantes do Conselho Editorial: do assassino não dar nem o nome e não expor sua história; do episódio economizar detalhes que aprofundem a dor ou inspirem outras tragédias; da investigação ter foco em cobrar punição; dos desdobramentos dar atenção a como proteger o ambiente escolar e acolher alunos e professores impactados em Blumenau e Brasil afora.

Quase ao mesmo tempo, e sem combinar, redações de vários veículos passaram a praticar essas premissas.

Os dilemas não pararam em Blumenau. Desde aquele 5 de abril, gestores da educação, pais, funcionários, professores e estudantes estão atordoados com uma onda de ameaças de atentados e algumas ocorrências isoladas de violência. Não demorou para que o WhatsApp da Rádio Gaúcha, as redes de GZH e dos nossos profissionais fossem invadidos por pedidos de ajuda e, sim, cobranças para que noticiássemos cada ameaça (que logo se revelaria falsa).

Instinto publicador: noticiar, até para atender aos apelos. Compromisso da imprensa profissional: refletir se publicar a avalanche de boatos não iria amplificar o pânico e o poder da bandidagem digital. Não noticiar ameaças, não valorizar cancelamentos de aulas, cobrar punição dos responsáveis e exaltar quando identificados, buscar as melhores práticas de enfrentamento de situações de choque, apurar casos ligados a ódio racial ou político e monitorar indicadores como ausências em sala de aula estão entre as decisões que tomamos.

São regras vivas, mutáveis e sujeitas a erros, mas que nos dão o conforto de que buscamos praticar o jornalismo necessário neste momento.

Como lidar com crises

Desde a criação do Conselho Editorial da RBS, volta e meia o tema aparece: como empresas, organizações, setores, entidades e pessoas públicas precisam se preparar para enfrentar uma eventual crise e, se uma surgir, como lidar com ela. Também debatemos em profundidade a respeito do papel da imprensa ao cobrir uma crise em algum setor ou empresa (a mais recente no Rio Grande do Sul relacionada ao trabalho análogo à escravidão, mas poderia estar falando de qualquer outra).

Ninguém tem dúvida de que o mundo de hoje está muito diferente daquele que tínhamos 10 anos atrás. A começar que a conscientização sobre ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) não é apenas uma ideia: já faz parte dos valores da sociedade e da gestão das empresas. Com a digitalização, esses conceitos se espalharam de forma muito rápida e estão muito maduros. É preciso se preocupar com temas como poluição, emissão de carbono, descarte adequado de materiais como plástico; cuidar do social, da diversidade de gênero, idade, raça; e, na governança, respeitar a ética, o cidadão, ser transparente, apenas para citar alguns exemplos de cada letra da sigla. A exigência sobre as empresas e as organizações aumentou, e muito.

Qualquer coisa que fuja a essa mentalidade de respeito ao ambiental, ao social, e de uma governança muito correta, espalha-se rapidamente e ganha um grande destaque, porque as pessoas estão prestando atenção máxima a tudo isso. Quando algo se rompe em algum desses conceitos, está criada a crise. Pode ser um derramamento de um elemento tóxico em um arroio, alguma prática que caracterize o trabalho análogo à escravidão, algo que configure racismo, assédio moral ou sexual... tudo isso tem uma importância e uma visibilidade muito maiores hoje. O que fazer?

Empresas e organizações precisam avançar nas três áreas ESG, de forma constante, mas também prevenir crises. Que riscos posso estar correndo em nível ambiental, social, de governança, estendendo-se também a todo o ecossistema, fornecedores, relações com governos, com acionistas, ONGs, sociedade civil etc.? Como posso reduzir cada um desses riscos? Criar um manual de enfrentamento de crises pode ser uma boa ideia. Montar um comitê de crise, com um representante de cada área da empresa, inclusive a jurídica, assessoria de imprensa, pessoas e marketing, idem.

Mesmo com todos os avanços e cuidados, crises podem acontecer, até porque sempre há seres humanos envolvidos. E sabemos que as crises não vão acabar, ainda mais com uma altíssima exigência da sociedade.

Se surge a crise, como lidar com ela? Acione imediatamente o comitê de crise. Nomeie um porta-voz, alguém treinado, para falar em nome da organização. Avalie a extensão do problema, sem subdimensionar o seu tamanho. Defina a posição que será tomada pela empresa. Fale com a sociedade, com autoridades, com todos os setores que têm relações com a instituição e, principalmente, com a imprensa, por meio do seu porta-voz. Quando uma empresa não fala, a entidade que detectou e irradiou a crise vai falar sozinha. E, se não houver contraponto, haverá somente uma voz. A imprensa séria sempre busca os dois lados, mas não tem o que fazer se um dos lados não fala. Explique o que aconteceu, seja transparente, diga o que está fazendo para resolver o problema. E faça tudo isso rápido. O tempo de resposta é fundamental.

Desafiador

JAYME SIROTSKY

Presidente emérito do Grupo RBS, presidente do Instituto Jama, ex-presidente da WAN-IFRA – World Association of News Publishers

Passei uma parte importante de minha vida defendendo as liberdades individuais, em especial a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. E venho seguindo, como todos os meus contemporâneos, a rápida evolução das formas de produção e distribuição das informações. As transformações são tão velozes que temos dificuldade de acompanhá-las na intensidade em que ocorrem. Nesse contexto, estamos hoje confrontados com uma nova, fascinante e desafiadora realidade, que inclui, entre tantos avanços, a inteligência artificial generativa – com as dúvidas que todos temos sobre para onde ela vai nos levar.

Nesse debate, que inclui alertas de toda ordem, tentativa de regulamentação por meio de projeto de lei e de censura por parte de autoridades, e até uma surpreendente proposta de pausa nas

No meu entendimento, o melhor antídoto para os males da alienação continua sendo a educação.

pesquisas formuladas, entre outros, pelos próprios pesquisadores, todas as vozes devem ser ouvidas. Mas não pode haver retrocessos, o mundo não gira para trás. As novas ferramentas estão aí, o que nos cabe agora é conviver com elas e encontrar caminhos para que sejam utilizadas para o bem.

As transformações rápidas confundem e desestabilizam. Nesse cenário de inovações frenéticas, está cada vez mais difícil distinguir as falsas informações da realidade dos fatos. É aí que entra o jornalismo profissional, exercido por pessoas capacitadas a operar a informação com técnica, ética e responsabilidade, de modo a transferir à sociedade os conteúdos que mais se aproximam da verdade dos fatos. Mas há um novo desafio: como alcançar indivíduos enfeitiçados pela pirotecnia dos meios digitais, iludidos pela desinformação e, em alguns casos, envenenados pelos discursos de ódio?

No meu entendimento, o melhor antídoto para os males da alienação continua sendo a educação. Mesmo que leve algum tempo, é a educação que nos capacitará para a tomada de decisões sensatas, para as boas relações com nossos semelhantes, para a colaboração e para o progresso coletivo. É ela que nos habilitará a escolher bons governantes e representantes políticos dignos. É ela, também, que nos ajudará a conviver com as novas tecnologias e a restabelecer em nosso país o convívio civilizado, indispensável para a construção de um futuro melhor para todos os brasileiros. A educação é o passaporte para a liberdade.

A força da curadoria

Sei que muitas pessoas como eu com frequência sentem-se “devendo” ou até angustiadas quando alguém comenta sobre um fato que, aparentemente, está em todas as conversas, mas de que até então nem tinham conhecimento. Nos últimos dias, só para citar assuntos que passaram nas minhas diferentes telas, percebi que muito se falou sobre o novo status global da covid-19, da coroação do novo rei da Inglaterra, da capivara que foi devolvida ao influenciador e sobre a carta do Banco Central e o futuro da taxa de juros brasileira, entre muitas outras notícias.

Cito propositalmente fatos de distintos graus de relevância e interesse, e certamente cada um poderia relacionar outros tantos. O ponto aqui é que, por gosto pessoal e dever profissional, tento estar atualizada sobre todos os assuntos que estão quentes na opinião pública e, na grande maioria das vezes, não sou bem-sucedida. Em meio a milhões de dados e informações que nos rodeiam, fica difícil separar o que realmente é importante, relevante e interessante saber. Mais ainda, conectar os fatos, discernir o que é verdade, saber como nos afetam e ainda evitar as armadilhas da desinformação. Não há dúvida de que precisamos de ajuda, de curadoria.

Percebo que os veículos da RBS caminham para uma curadoria cada dia mais atenta aos hábitos e interesses das pessoas.

E é por isso que sou uma defensora ferrenha do trabalho da imprensa. Porque sempre quando me surpreendo com algo, quando tenho dúvidas, quando acho que estou desatualizada, é à imprensa que recorro. Acredito que essa curadoria, que hierarquiza a informação e a entrega apurada, checada e organizada, é um dos maiores valores do jornalismo profissional.

No Conselho Editorial da RBS, temos debatido profundamente sobre esse papel do jornalismo e sobre as iniciativas para aperfeiçoar essa entrega de valor para o público. Percebo que os veículos da RBS caminham para uma curadoria cada dia mais atenta aos hábitos e interesses das pessoas, não coletivamente falando, mas pensando no indivíduo.

Quanto mais avançar na direção de respeitar as visões e as realidades de cada um, tendo como base a produção de conteúdo de qualidade, objetivo e plural, mas sem impor o mesmo para todos, mais o jornalismo profissional ajudará as pessoas a consumirem o que de fato importa para suas vidas. Porque, como ouvi recentemente de um amigo, o melhor antídoto para a sensação de atropelo e desinformação, mesmo quando estamos nos informando o dia inteiro, é substituir quantidade por qualidade.

Objetividade no jornalismo

MARTA GLEICH

Diretora-executiva de Jornalismo e Esporte e secretária do Conselho Editorial da RBS

O primeiro dever do jornalismo é a busca da verdade. Essa é a frase que abre o Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística do Grupo RBS. Também é um conceito que jornalistas aprendem nos primeiros dias de faculdade. A busca da verdade é o objetivo do bom jornalista durante toda a sua vida.

Recentemente, Martin Baron, exeditor-chefe do Washington Post, conhecido mundialmente por seu trabalho de investigação sobre abusos sexuais dentro da Igreja

Católica publicado no Boston Globe e retratado no filme Spotlight, falou sobre objetividade em um discurso em uma universidade. A palestra foi transformada em um ensaio publicado pela Folha de S.Paulo, e o tema foi pauta de uma reunião do Conselho Editorial. Não poderia ser mais atual.

Vejam as conclusões da conversa, a partir de trechos do discurso de Baron e das contribuições dos conselheiros:

• A objetividade é imprescindível para o jornalismo. Significa usar a técnica jornalística para mostrar o mundo como ele é, e não como a gente gostaria que fosse.

• A objetividade não significa neutralidade, mas uma investigação tão imparcial quanto é humanamente possível, o reconhecimento de que os fatos são sempre complexos e de que jornalistas precisam ter disposição para ouvir e ânsia de aprender para superar limitações e cumprir seu trabalho.

• Em uma era de desinformação, a busca da verdade é ainda mais importante. Jornalismo é a busca permanente da melhor versão possível da verdade.

• A objetividade está no cerne do problema que a imprensa enfrenta. É preocupante o crescente repúdio a esse princípio em alguns setores da própria imprensa.

• O que mata o jornalismo é quando ele entra no caminho do ativismo, e não no da objetividade.

• A pressa em publicar pode comprometer a visão completa sobre os temas noticiados. O jornalismo digital deve contextualizar os fatos logo que a primeira versão da notícia é publicada, para evitar a impressão de falta de objetividade, investigação, dados e fatos e capacidade de reportagem.

• O que garante a objetividade na imprensa é o método jornalístico. Isso significa rigor no trabalho: está na escolha da pauta, na independência intelectual do profissional, na checagem com o máximo possível de fontes, no compromisso com a pluralidade, na separação entre o que é fato e o que são achismos ou boatos, na edição cuidadosa. O mérito está em perseguir a objetividade, sendo transparente e tendo uma conversa franca com o público.

• O formato do conteúdo contribui para a objetividade: identificar, entre os conteúdos, o que é informação, análise e opinião, por exemplo, pode ajudar. Não escrever mais do que o necessário, ou de uma forma confusa também.

Educação muda o noticiário

No começo do mês, recebi a oportunidade de me juntar ao Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável, vinculado ao governo federal. Será uma contribuição absolutamente voluntária, técnica e suprapartidária, junto a um grupo diverso, para criar e aperfeiçoar políticas públicas em diversas áreas no país.

Minha defesa no órgão? A educação, claro.

Afinal, não tem como pensar no desenvolvimento do Brasil (economia, meio ambiente, segurança e saúde) sem antes pensar na educação. Uma pesquisa Ipec recente, encomendada pelo Todos pela Educação, mostra que a grande maioria (96%) dos brasileiros concorda que melhorar a educação pública é muito importante para resolver problemas como a violência, a pobreza e a desigualdade. E eles estão certos.

Um estudo do Instituto Natura, do ano passado, aponta que o aumento em indicadores educacionais da Educação

Básica nos municípios do país está associado com queda da taxa de homicídios, aumento da empregabilidade e maior acesso ao Ensino Superior. O mesmo instituto também

Se colocarmos a Educação no centro das nossas vidas, tiraremos as pessoas da pobreza e prepararemos o Brasil para o futuro.

concluiu, com apoio de pesquisadores da USP e do Insper, que investir em educação integral pode reduzir a taxa de homicídios em até 50%.

É por isso que precisamos nos mobilizar mais e ter a educação como prioridade. Entendo que cada um tem uma causa, uma luta. Mas meu chamado é para que a educação seja, no mínimo, sua segunda grande causa.

O jornalismo tem sido um aliado muito importante nessa luta. Mas é preciso mais – e com o apoio das redações. E aqui deixo uma humilde provocação: que tal perguntar mais sobre educação para os entrevistados em diferentes pautas? Pode ser um dos caminhos para qualificar o debate.

No encontro anual Educação Já, promovido pelo Todos pela Educação, em abril, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso sugeriu que o país tenha uma grande notícia sobre educação por semana. Em coro com o ministro, dobrei a aposta: e se tivéssemos ao menos uma notícia por dia? Isso, claro, passa pelo jornalismo forte e independente.

Se, pelos próximos 10 anos, colocarmos a educação no centro das nossas vidas, tiraremos as pessoas da pobreza e prepararemos o Brasil para o futuro. Consecutivamente, teremos chances de mudar as manchetes do nosso noticiário. Para melhor.

Dos pergaminhos do Mar

Morto ao jornalismo digital

Há poucas semanas, participei de uma missão empresarial a Israel, para conhecer iniciativas tecnológicas e projetos inovadores na área de comunicação. Sempre é impressionante e inspirador constatar que um país com 9,5 milhões de pessoas, menor do que o Rio Grande do Sul e com apenas 75 anos desde o reconhecimento pela Organização das Nações Unidas, se uniu em torno de um propósito por sua defesa e sobrevivência. Israel está se transformando em um admirável exemplo global de inovação e de novas tecnologias ao compartilhar conhecimentos que agregam desenvolvimento e melhorias para todos nas mais diversas áreas.

No final da viagem, visitamos, em Jerusalém, o Museu de Israel, onde estão os Pergaminhos do Mar Morto, um extraordinário conjunto de textos, com data estimada em dois séculos antes de Cristo, descobertos incidentalmente por beduínos, em 1947. Ainda hoje, são objeto de pesquisas e muito do seu valor está relacionado a extratos de textos que comprovam a narrativa contida na Torá, o mais sagrado dos livros do judaísmo. Na ocasião, comentei com meus colegas de viagem a importância de este manuscrito poder ser lido e estudado em plena era digital.

A relevância dada aos registros manuscritos ainda hoje é uma amostra objetiva do interesse na história dos que vieram antes de nós e de como podemos aprender e ser mais eficazes em nosso próprio tempo. É aqui que faço a conexão com o jornalismo contemporâneo e sua responsabilidade perante a sociedade. O jornalismo profissional e sério registra a realidade em que vivemos, seja no mundo, no Brasil, no Rio Grande do Sul ou em qualquer lugar, construindo a história ao longo do tempo.

E a busca pela verdade dos fatos é o propósito do jornalismo profissional, missão que tem maior relevância frente às fake news. Em Israel, há muitas iniciativas a partir da inteligência artificial (IA) para apoiar a produção de conteúdo, a checagem de informações e as novas formas de se chegar ao público. Está em curso uma transformação que poderá ressignificar o jornalismo profissional, mas este sempre será embasado em valores permanentes, na curadoria profissional e no compromisso com o público.

O que me faz ser otimista é ver a RBS comprometida com o constante aperfeiçoamento do seu jornalismo e com formas inovadoras de levar a informação ao público, pois estamos construindo a história, seja em pergaminho, papel, áudio, vídeo, plataformas digitais ou na nuvem digital. No futuro, nossos registros jornalísticos do presente serão consultados e, quanto mais precisos forem, melhor será a compreensão sobre o tempo que hoje vivemos.

O olhar humano sobre a IA

Em 2023, é difícil pensar o futuro do jornalismo sem falar de inteligência artificial (IA). Com seu lançamento no final do ano passado, o ChatGPT popularizou a IA generativa, capaz de aprender com suas experiências e criar a partir dos dados disponíveis. É impossível não se espantar com sua capacidade de resumir ou escrever textos, traduzir ou organizar informações, entre tantas outras possibilidades.

Como o jornalismo pode usar a IA? Seja no tradicional Simpósio de Jornalismo Online promovido pela Universidade do Texas, em abril, ou no Encontro LatinoAmericano de Mídia Digital da Associação Mundial de Jornais, em maio, experiências diversas mostram caminhos. Em redações norte-americanas, por exemplo, vislumbra-se o uso para otimizar a transcrição de áudios ou vídeos, redigir ou resumir conteúdo disponível em documentos ou bases de dados, analisar informações da audiência ou até dar ideias para reportagens.

O potencial é enorme, e vem sendo discutido inclusive na RBS. Na semana passada, um grupo de 44 pessoas interrompeu suas atividades normais durante dois dias para

pensar possibilidades de inteligência artificial em nossa atividade. Organizados pelo Núcleo Digital de GZH, profissionais de jornalismo, produto, tecnologia e marketing fizeram uma imersão no tema em um hackathon – uma maratona de trabalho que desenvolveu sete ideias para uso de IA em nossas atividades. Os protótipos criados em 15 horas intensas de trabalho são empolgantes.

Na mesma medida da excitação, ainda há dúvidas neste novo momento. Confiamos o suficiente nas máquinas para deixá-las sem supervisão? Que grau de envolvimento humano precisamos ter em conteúdos gerados por IA? Há notícias de novos problemas trazidos pelo uso – recentemente, o jornal The New York Times noticiou que um advogado usou IA para criar uma sustentação oral e o software inventou precedentes jurídicos inexistentes. O avanço precisa acontecer com cautela e responsabilidade.

Quanto mais usarmos as ferramentas de dados e a inteligência artificial, mais qualificada e decisiva deve ser a avaliação

humana.

Por aqui, temos um norte: para fazer jornalismo melhor, mais rico, completo e plural, devemos entender como aproveitar todas as ferramentas disponíveis. Nosso papel é entregar ao público informação, análise e opinião que ajudem a navegar no mar de informação desencontrada das redes. E esse valor não vem de um algoritmo, mas é dado pela capacidade intelectual das redações, dos jornalistas e comunicadores.

Estamos no início de uma mudança que promete ser profunda, mas de uma certeza já dispomos: quanto mais usarmos as ferramentas de dados e a inteligência artificial, mais qualificada e decisiva deve ser a avaliação humana, dos jornalistas, a partir das nossas premissas editoriais.

Ainda sobre inteligência artificial

RICARDO GANDOUR

Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

A expressão inteligência artificial (IA) tem dominado as conversas e os debates em vários campos do conhecimento, de contextos e atividades – nas escolas, nas empresas, nas instituições de pesquisa e também nas redações das empresas jornalísticas. Aqui, vem a pergunta: qual pode ser o impacto dessas novas tecnologias na produção de informações?

A mais conhecida ferramenta é o ChatGPT, lançada em novembro do ano passado pela empresa norte-americana OpenAI. Mas o uso de software na confecção de textos informativos já se conhece pelo menos desde 2015, quando a agência de notícias Associated Press começou a experimentar a novidade na cobertura do sobe e desce dos preços

das ações nos mercados de capitais. Logo depois, as mesmas técnicas foram utilizadas para se construir relatos básicos sobre o andamento de jogos de futebol. Tudo muito lógico: dados objetivos que, analisados em sequência, se transformam em textos corridos.

A resposta àquela pergunta poderá vir desse simples substantivo: ferramenta. É sob esse atributo que cada tecnologia foi se incorporando ao dia a dia da produção jornalística. Foi assim com o telex, o fax, a fotografia digital, o design e a diagramação de páginas e de telas. Agora, porém, há uma grande diferença. Enquanto as novidades das últimas décadas mexeram com a forma, o meio e a velocidade dos processos de produção, a IA vem tocar no objeto central de nossa atividade, o conteúdo – não só de textos, mas também de imagens.

Nesse ponto, a grande discussão é se uma possível automação da produção de conteúdos poderá ser destruidora de empregos – isso em várias atividades, não só no jornalismo. Não acredito nessa hipótese, assim, de forma simplista, mas em outra, mais ampla: poderá, sim, transformar ocupações, talvez simplificando algumas, mas certamente criando demandas para novas habilidades. A história nos mostra que a mão e o cérebro humanos sempre prevalecerão ao longo dos processos de trabalho. Um software poderá, sim, criar um texto a partir de dados disponíveis na websfera – de forma resumida, é isso o que faz a IA –, mas a interpretação do contexto e a subjetividade serão sempre atributos humanos.

E que isso venha para fazermos um melhor jornalismo, mais eficiente e sobretudo mais preciso. Como escreveu Jack Shafer, colunista de mídia do site norte-americano Politico, na Columbia Journalism Review: “se a IA vier para melhor servirmos nossos leitores, deveria ser muito bem-vinda”.

Para angústias digitais, reflexões analógicas.

Informar para democratizar e transformar

Liberdade de imprensa é alicerce da democracia. Essa frase e suas variações foram, exaustivamente, alardeadas nos últimos anos. Paradoxalmente, esse mantra repetido à exaustão não se satura e tornou-se mais atual do que nunca. De Ruy Mesquita, Zuenir Ventura, Millôr Fernandes e Cármen Lúcia, passando por Albert Camus, George Orwell e tantos outros, todos falaram sobre a importância da imprensa e do jornalismo profissional na defesa dos interesses democráticos. Neste caso, esses interesses coletivos devem sempre se sobrepor aos valores individuais. Todos devemos reiterar que o jornalismo é instrumento fundamental para exercer a cidadania em sua plenitude. E quanto mais se está bem informado, mais luz se joga na sociedade para as tomadas de decisões.

Nesse contexto, os meios de comunicação assumem o protagonismo nas suas mais variadas plataformas, produzindo uma infinidade de conteúdo que, filtrado individualmente, informa, forma e define rumos sociais. Esses meios foram capazes de se adaptar ao ritmo das transformações e das mudanças no comportamento da audiência. Do tempo em que se lia jornal todos os dias, passamos para um cenário de consumir jornal o dia todo. O rádio se tornou um produto audiovisual relevante. Os podcasts não param de crescer no

Junto a essa transformação do mercado editorial estão as marcas, que subsidiam e se retroalimentam na credibilidade de ambos.

Brasil. Pesquisas indicam 34 milhões de pessoas conectadas no formato. As TVs interagem e são acessadas em todas as telas, em qualquer lugar, a qualquer hora. A mídia out of home interage com tecnologia de ponta. As redes sociais são novos ativos de comunicação, os meios estão ali, num diálogo aberto, informando e entretendo seus consumidores. Somente no Instagram, GZH está perto de 900 mil seguidores, representando quase 70% da população de Porto Alegre. Esse universo transmídia cresce, transcende e se tornou aliado da democracia, já que o impacto de uma informação de qualidade, apurada e depurada, está cada vez mais ao alcance de todos.

Junto a essa transformação do mercado editorial estão as marcas, que subsidiam e se retroalimentam na credibilidade de ambos. A liberdade comercial, autorregulada pelo Cenp, também é um alicerce da liberdade de expressão. A propaganda e o jornalismo caminham juntos, mas sempre de forma independente, com a publicidade comercial não se imiscuindo nas redações, respeitando a independência editorial, valor nato à imprensa profissional, que deve ser preservado.

Parafraseando Thomas Jefferson, liberdade –comercial e editorial – não pode ser limitada sem ser perdida. Temos que trabalhar todos juntos – veículos, anunciantes, sociedade civil e poder público – para garantir um Estado verdadeiramente democrático, respeitando os limites e o contraditório.

A cura

MARCELO RECH

Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

Em tempos nos quais vocações muitas vezes parecem secundárias, gosto de pensar o jornalismo como a medicina. E não apenas porque as duas profissões, quando exercidas a pleno, exigem desprendimento pelo fato de que, muito provavelmente, jornalistas e médicos serão escalados para plantões de fins de semana, feriados e madrugadas ou convocados a qualquer hora para atuar em emergências.

Medicina e jornalismo lidam com a matéria-prima mais sensível – seres humanos em frequentes situações de alta voltagem emocional – e têm objetivos com parentesco em comum. A boa medicina busca prevenir doenças e curar as já instaladas. O bom jornalismo procura inocular vacinas contra a epidemia de desinformação ou produzir antídotos contra o vírus que já contaminou organismos sociais. Para tanto, ambos recorrem – ou recomenda-se recorrer – às melhores e mais abalizadas fontes disponíveis.

Dilemas éticos são outro aspecto que aproxima as duas profissões. Em ambas, nem todas as decisões são cartesianas ou cristalinas. Na medicina, por vezes, trata-se da escolha sobre quem atender primeiro ou, em situações desesperadoras, a tentar saídas igualmente desesperadas. No jornalismo, trata-se de escolher ao que e como se dará visibilidade e a reavaliar enfoques adotados – há critérios éticos e técnicos, mas nem sempre eles são suficientes para cobrir todas as circunstâncias. Não raro, para angústia de seus profissionais, recorre-se a uma alternativa apenas menos pior que a omissão.

Jornalistas e médicos da Austrália, do Azerbaijão, da Suécia ou do Brasil têm formação e cultura distintas, mas seus princípios e objetivos sociais, cada um em suas especificidades, são os mesmos em todo o mundo. Na medicina e no jornalismo, há centros de excelência e outros nem tanto, bem como profissionais mais ou menos capacitados. Mas há uma linha divisória que os distancia decisivamente dos embusteiros.

Médicos e jornalistas nem sempre acertam, até porque com frequência se veem diante do imponderável, de dados rarefeitos ou do simples desconhecido.

Médicos e jornalistas nem sempre acertam, até porque com frequência se veem diante do imponderável, de dados rarefeitos ou do simples desconhecido. Assim como médicos, contudo, jornalistas, diferentemente de quem espalha e se beneficia de desinformações, não vivem de erros, mas de acertos. Essa lógica simples ajuda a compreender as peculiaridades das profissões – e por que o jornalismo é tão atacado hoje ao se interpor contra os charlatães das fake news.

Já está acontecendo

Há umas duas semanas, sugeri às redações da RBS uma reportagem sobre os microplásticos nos oceanos. Nesta edição, você pode conferir esse conteúdo no caderno Doc. Não podemos negar: problemas de toda ordem estão ocorrendo com efeitos nefastos sobre o ambiente.

A temperatura da Terra está aumentando, cientistas afirmam que já se elevou 1,1ºC, comparada com o nível pré-industrial. Há degelos em regiões tradicionalmente congeladas. Nos últimos 20 anos, as geleiras e as calotas polares perderam 28 trilhões de toneladas. A Nasa apresentou estudo informando que o nível global do mar subiu cerca de 20 centímetros no último século, quase o dobro comparado com o século passado, e o ritmo continua se acelerando. Chuvas catastróficas, secas severas, com atualmente metade da população mundial enfrentando insegurança hídrica pelo menos um mês a cada ano (dados apresentados no último relatório do Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC). Plástico no mar, que vai parar nos peixes, que acaba dentro do seu corpo. A coluna toda poderia ser sobre exemplos variados e ainda faltaria muito espaço.

Assuntos ligados ao ambiente precisam estar na pauta dos veículos de comunicação.

Qual é a responsabilidade da imprensa neste cenário assustador? Educar. Esclarecer. Mobilizar para que empresários, políticos, dirigentes de entidades, intelectuais, líderes em geral e toda a sociedade se conscientizem e ajam. Muita gente acha que não vai acontecer. Esse “não vai acontecer” é uma visão que ganha algumas bolhas das redes sociais e se espalha perigosamente. Muita gente não está consciente. Mas a realidade nos mostra o contrário: já está acontecendo. Assuntos ligados ao ambiente precisam estar na pauta dos veículos de comunicação. A RBS, assim como outras empresas do setor, deveria colocar o tema de uma forma mais incisiva na pauta, por seu poder de unir e mobilizar a sociedade.

Olhe a seu redor. Não são fenômenos que ocorrem lá longe, no Ártico. Estão por todo lado. E estão se acelerando: alguns fenômenos que deveriam ocorrer somente em 2050 agora estão previstos para 2030. Sem querer ser alarmista, daqui a pouco chegaremos a um ponto de irreversibilidade. Como não estamos nos mobilizando na nossa rua, na nossa atividade profissional, na nossa comunidade? Foram chocantes as fotos do lixo descartado no Rio Gravataí, que deságua no Guaíba, de onde se retira água para toda a Capital. Água mais poluída precisa de mais produto químico para ser tratada. Como disse um líder local, lixo não tem pernas, não foi parar lá sozinho. É urgente educar para o ambiente, e, de novo, a imprensa deve ter um papel importante nisso.

O

serviço que prestamos

RODRIGO MÜZELL

Gerente de Jornalismo

Digital e membro do Conselho Editorial da RBS

Pergunte para um jornalista por que ele escolheu essa profissão na hora de marcar o xis no vestibular. As respostas serão as mais variadas. Por exemplo, lá em 1996, eu responderia algo como “gosto de futebol e de música... imagina escrever sobre isso?”. Ao amadurecer, os melhores jornalistas aprendem que a nossa profissão vai além de estar perto das coisas que nos interessam. Jornalismo é, na essência, um serviço para a sociedade.

Até temos uma categoria de reportagens que normalmente chamamos “de serviço”: as que ajudam o leitor a resolver algo agora, hoje, de forma direta. Como evitar a gripe neste inverno? Que horas o meu time joga? Consigo evitar um engarrafamento? A RBS tem longa tradição nesse tipo de conteúdo, seja

em rádio, TV ou jornal. Com o digital, temos cada vez mais dados para ajudar a perceber quais são as necessidades imediatas da audiência e focar nos pontos mais relevantes. Com o avanço da inteligência artificial e das formas de contato com o público, queremos evoluir ainda mais.

O jornalismo também ajuda com questões menos imediatas. A decisão em Brasília sobre a taxa básica de juros influencia no rendimento da poupança dos trabalhadores. Notícias sobre quais são as tendências de tecnologia ajudam estudantes a tomar suas decisões de acordo com as carreiras mais promissoras. Nas redações, nem sempre vemos esses conteúdos como “serviço”, mas eles são importantes para a vida prática de quem os acessa – é a imprensa que deve sempre evoluir na arte de ligar os pontos e mostrar as consequências práticas de assuntos que parecem distantes ou apenas curiosidades.

Mas ainda há um tipo de serviço mais amplo e descrito pela missão do jornalismo: ajudar o público a entender o mundo e decidir como pode melhorálo. (Não dá pra dizer que nós, jornalistas, não pensamos grande.) Olhar desse ponto de vista nos fará ver serviço em reportagens de todo tipo. Desde a cobertura de guerras, política ou notícias internacionais até cultura e futebol.

A caixa de ferramentas das redações para explicar da melhor forma o que está acontecendo está cada vez maior. Colunistas e comentaristas conectam as informações apuradas pelos repórteres de forma cada vez mais multimídia. Com recursos gráficos, vídeos e podcasts, há ofertas tanto para quem gosta de ir mais a fundo quanto para os que precisam ganhar tempo. O bom uso de redes sociais permite às redações incorporar a reação do público ao seu noticiário, entender os pontos ainda pouco explicados, avançar nas dúvidas que persistem sobre os assuntos.

Com tantas possibilidades, resta aos jornalistas a angústia de tentar escolher as melhores, sob a avaliação constante do público. Mais complicado do que a minha ambição inicial de apenas ter a chance de escrever sobre o que eu adoro. Mas também bem mais prazeroso.

A informação pede a nossa atenção

Imagine, prezado leitor, contar apenas com as mensagens no WhatsApp para saber o que acontece na cidade onde você mora. Pois essa é a realidade de 29,3 milhões de pessoas que habitam os 2.968 municípios que no Brasil são considerados desertos de notícias. Em cinco a cada 10 cidades brasileiras, as pessoas não têm acesso a qualquer informação jornalística sobre o lugar onde vivem.

Segundo o último censo realizado pelo Atlas da Notícia, cerca de 800 mil gaúchos vivem em desertos de notícias, condição que afeta quatro em cada 10 municípios do Rio Grande do Sul.

A escassez de informação produzida com o propósito de servir ao público e, portanto, bem apurada, que se abastece em fontes confiáveis e diversas, compromissada com os fatos e narrada de modo compreensível, abre espaço para a desinformação e leva a escolhas levianas, como o voto em um mau representante, por exemplo.

Como as escolhas de cada cidadão acabam se refletindo na qualidade da democracia, é fundamental que tratemos

Povoar esses desertos e ampliar a oferta de fontes de informação confiáveis não é uma tarefa somente para empresas e jornalistas.

do acesso à informação jornalística de interesse público como um desafio para a sociedade, como uma vacina contra a desinformação, como base para construção de uma democracia mais robusta.

Povoar esses desertos e ampliar a oferta de fontes de informação confiáveis não é uma tarefa somente para empresas e jornalistas que produzem notícias de interesse público. O ecossistema de informação foi precarizado desde que as mídias sociais passaram a absorver quase toda a atenção disponível.

Os algoritmos que hoje orientam nossas escolhas não se responsabilizam pelas consequências. Eles sequestram nossa atenção com conteúdo sexy e divertido. A notícia, por outro lado, é limitada pelos fatos, refém das evidências e muitas vezes dolorida. É fácil prever quem perde essa disputa se não houver compreensão e ajuda externa.

O jornalismo precisa ser mais diverso, inclusivo, transparente, aberto e conectado com as pessoas, mas ampliar e diversificar a oferta de informação é um desafio para a sociedade e, por extensão, para o Estado. Está mais do que na hora de discutirmos o financiamento público para reflorestar ou extinguir os desertos de notícias. O acesso à informação precisa estar na pauta política como a garantia a saúde, segurança e educação.

A permanência dos desertos de notícias deveria envergonhar a todos nós.

A primeira vaia a gente nunca esquece

Durante uma recente confraternização com os profissionais da Rádio Gaúcha, para celebrar os 100 meses ininterruptos de liderança absoluta de audiência na Grande Porto Alegre, relembrei um episódio marcante para mim, por ter visto uma crítica ser transformada em uma vaia pessoal. Desde já, esclareço que não sou contra críticas. Pelo contrário, acredito que também cumprem o papel de ajudar pessoas e empresas a evoluírem.

Nos anos 1980, durante uma longa greve do magistério, eu estava numa reunião no Palácio Piratini, quando claramente o então governador Pedro Simon – que respeito e admiro muito – manifestou desconforto com a cobertura jornalística que a Rádio Gaúcha e outros veículos da RBS vinham fazendo do movimento. Na saída, um dos manifestantes gritou no

megafone: “Olha lá, o Sirotsky da RBS!”. Imediatamente, uma vaia retumbou na Praça da Matriz. De volta à RBS, compartilhei o que tinha ocorrido com o comitê editorial à época, e concluímos que a relevância dos fatos justificava a dimensão da nossa cobertura.

Na mesma linha, quando o Grêmio disputou o Mundial de Clubes, em Tóquio, a RBS fez uma das maiores coberturas esportivas até então. Nem todo mundo gostou: disseram que foi dado grande destaque porque os acionistas da empresa eram torcedores do Grêmio. Pois bem. Quando chegou a vez de o Internacional ir ao Japão disputar o Mundial, houve igualmente uma grande mobilização do esporte da RBS. Uma parte do público considerou aquela cobertura exagerada e de maior proporção do que a realizada para o Grêmio. Todos nós sabemos o significado que Grêmio e Internacional têm para nós, gaúchos...

Durante o seu governo, Jair Bolsonaro recusou pedidos de entrevista dos veículos da RBS. Recentemente, o ex-presidente esteve em Porto Alegre e aceitou conceder uma entrevista para a Rádio Gaúcha. Parte do público criticou a RBS por considerar demasiado espaço para Bolsonaro. Dias depois, o presidente Lula falou ao microfone da Gaúcha. Muitos ouvintes enviaram críticas, insatisfeitos com o grande espaço dado ao atual presidente.

Receber críticas e elogios é natural no nosso dia a dia, e os encaramos como oportunidade de reflexão e aprimoramento. No entanto, também é verdade que, com serenidade e respeito, não devemos nos submeter a pressões apaixonadas, seja de qual público for.

Jamais me esqueci daquela vaia, porque ela é um lembrete de que o compromisso maior do jornalismo profissional é com os fatos e sua relevância, levados ao público com qualidade, independência e pluralidade. É impossível agradar a todo mundo o tempo todo. Afirmo com segurança que manter esse compromisso define a preferência do público, como mostra a sólida audiência da Rádio Gaúcha que celebramos nos últimos dias.

NELSON P. SIROTSKY Publisher e membro do Conselho Editorial da RBS

Confortável na zona de desconforto

Há algumas semanas, aprofundei-me na história do queniano Eliud Kipchoge, considerado o maior maratonista de todos os tempos. Eu queria citá-lo em um seminário para lideranças, no qual falaria sobre feitos extraordinários que nos proporcionam realizar sonhos e superar marcas, mas nos exigem na mesma proporção.

Eliud é bicampeão olímpico (Rio 2016 e Tóquio 2020), campeão mundial em longas distâncias e vencedor das maratonas de Londres, Chicago, Berlim e Tóquio. Em Berlim, ele não apenas venceu as maratonas de 2018 e 2022, mas estabeleceu novos recordes mundiais: na primeira, completou os 42,195 quilômetros em 2h1min39s e, na segunda, superou a si mesmo, completando a prova em 2h1min9s. Em 2019, em uma prova não oficial realizada em Viena, na Áustria, Eliud superou o que até então era considerado o limite humano para maratonas e se tornou o primeiro homem a completar o percurso em menos de duas horas: 1h59min40s.

Ao pesquisar sobre ele, percebi que, quando fala de si, Eliud valoriza menos as marcas alcançadas e dá mais ênfase

Por si só, a rotina das redações é não ter rotina, pois os fatos não fazem agendamento prévio.

à jornada. Ele demonstra orgulho e gratidão pelo caminho. Costuma falar sobre os fatores de sucesso que o trouxeram até aqui: autodisciplina, pensamento positivo, consistência, acreditar em si mesmo e, o que mais me chamou atenção, estar confortável na zona de desconforto: “aceitar a mudança e habituar-se a ela”.

O que me faz pensar que poucas atividades se conectam de maneira tão forte com esse tema como o jornalismo. Por si só, a rotina das redações é não ter rotina, pois os fatos não fazem agendamento prévio. Mas me refiro às intensas mudanças geradas pela transformação digital, pelos novos hábitos e interesses dos públicos e, mais recentemente, pela inteligência artificial (IA). Os jornalistas, acreditem, estão em constante zona de desconforto, e, assim como Eliud, muitos se sentindo confortáveis, estimulados e dispostos a pagar o preço de viver essa revolução.

Esse brilho no olho nasce da crença de que estamos vivendo um tempo em que nos é possível superar o limite humano também no jornalismo profissional: a união de forças entre a velocidade e a capacidade da IA generativa (sim, é incrível, mas ainda depende de nós para receber os inputs) com a nossa potência criativa, nosso talento, nossa empatia e nossa capacidade de construir o futuro. Minha visão é de que vem aí um jornalismo ainda melhor, o que também é uma ótima notícia para todos nós.

Mudou o contexto, não nossa posição

Num país democrático e de imprensa livre, é esperada a alternância de diferentes matizes no poder, e, ao mesmo tempo, se pressupõe que o jornalismo siga independente – para mostrar bons e nem tão bons feitos de governos, sem importar o partido de plantão no poder. Uma das mais relevantes missões da imprensa é ser watchdog, como dizem os norte- americanos, cães de guarda de governos, ou seja, tentar alertar quando malfeitos ocorrem ou mesmo tentar evitar os problemas.

Nos últimos meses, com a troca de linha política no Planalto, percebo que as reações de diferentes públicos em relação aos veículos da RBS mudaram, como já vimos muitas vezes ao longo de variados governos e quase 70 anos de empresa. Avaliamos isso como algo

natural e que reforça nossa busca permanente por equilíbrio, pluralidade e independência no trabalho das redações.

Quando Bolsonaro ocupava o Planalto, seus seguidores enviavam críticas à RBS por dois motivos: porque não estaríamos mostrando os grandes feitos do então presidente com o destaque que gostariam e porque, se havia uma matéria sobre algo não tão favorável, nosso jornalismo era rotulado de “do contra”. Já os opositores àquele governo achavam o contrário. Se uma reportagem dava luz a algo positivo, tínhamos “aderido”. Agora mudou o cenário em Brasília. Lula ocupa o Planalto. E tudo se inverteu. Quem apoia Lula gostaria de mais matérias positivas e nenhuma crítica. Os bolsonaristas avaliam que estamos dando “colher de chá”, se uma matéria com algo bom é revelada. E assim por diante.

Nas últimas semanas, ouvimos no programa Atualidade, da Rádio Gaúcha, tanto o ex-presidente Bolsonaro quanto o atual presidente Lula. Os jornalistas na bancada do estúdio fizeram perguntas respeitosas, mas às vezes duras a ambos. E registramos, no WhatsApp da rádio e em outras manifestações, tudo o que descrevi acima.

Não torcemos para A ou B. Não somos o veículo de comunicação deste ou daquele governante. Nosso partido é a imprensa independente, que tem liberdade para mostrar o que precisa ser mostrado, inclusive tudo o que de bom acontece, em nome de todo o nosso público. E isso significa ouvir todas as vozes, praticar a pluralidade, permitir que em nossos programas de rádio, páginas de jornal, programas de TV e nos conteúdos digitais, as diferentes visões debatam e discutam os temas importantes para a sociedade. Aliás, tentamos sempre uma cobertura equilibrada, em uma visão de olhar para a frente.

As críticas e percepções que havia em relação a nosso posicionamento mudaram: porque mudou o contexto, não porque mudou nossa postura de praticar o jornalismo profissional.

CLAUDIO TOIGO FILHO CEO do Grupo RBS e membro do Conselho Editorial da RBS

Robôs produtores de conteúdo

Desde o início de agosto, o Grupo RBS publica conteúdo em GZH criado por um software desenvolvido para escrever matérias. Como assim? Já explico.

Existem tarefas repetitivas numa redação, que poderiam ser comparadas a apertar parafusos numa fábrica de carros. Exemplos: pegar a previsão do tempo para Porto Alegre junto a nosso fornecedor dessas informações, que no caso é a agência Climatempo, uma das mais renomadas do país nesse tipo de dado, e escrever uma nota a respeito disso. Você já pode imaginar o modelo: Porto Alegre terá amanhã entre 15 e 19 graus, céu ensolarado, vento norte fraco e tal. Todo dia a mesma coisa, mudam os dados. Até agora, um ser humano fazia isso.

A partir de agora, um robô pegará os dados da Climatempo, colocará num modelo previsto por um jornalista e disponibilizará para uma pessoa da Redação revisar e publicar.

Por que isso é importante? Porque tarefas repetitivas, assim como numa indústria de carros, podem ser feitas com inteligência artificial, para que seres humanos utilizem seus cérebros para tarefas mais complexas ou relevantes, como produzir uma reportagem sobre o aquecimento global ou soluções para os problemas da educação no Rio Grande do

Esse movimento é um primeiro passo para compreendermos as limitações e as possibilidades da inteligência artificial.

Sul. Sem deixar de prestar serviço com as matérias diárias de previsão do tempo – que, por sinal, agora vai abranger 65 cidades brasileiras. Ao automatizar algumas funções de repetição, como a previsão do tempo ou o horóscopo do dia (conteúdo muito valorizado e de alta leitura), estaremos liberando jornalistas para apurarem e escreverem ainda mais sobre temas de alto impacto e contribuição para nossos leitores.

Alguns cuidados, nesse contexto, devem ser tomados por redações que adotam os bots, ou robôs. O primeiro: o conteúdo sempre deve passar pelo crivo de um editor para revisão. O segundo: somente matérias sobre certos assuntos podem ser produzidas automaticamente, como previsão do tempo, horóscopo, resultado de loterias, informações de serviço como datas de pagamentos do INSS... ou seja, notas sobre dados repetitivos gerados por fontes altamente confiáveis. Esse movimento é um primeiro passo para compreendermos as limitações e as possibilidades da inteligência artificial e, com responsabilidade, incorporarmos essa ferramenta para fazer melhor jornalismo.

Alguém poderá dizer que estamos adotando a IA para tirar a função de jornalistas, mas não se trata disso, estamos valorizando o jornalismo profissional ao permitir que repórteres e editores dediquem mais tempo para produzir conteúdo ainda mais qualificado, ouvindo mais fontes, escrevendo reportagens ainda mais completas e investindo seu tempo não em tarefas repetitivas, mas em atividades que exigem criatividade e raciocínio.

Advogado e empresário

O ganhador do prêmio Nobel Amartya Sen escreveu o famoso livro Desenvolvimento como Liberdade, que trata da importância desse direito em todas as suas facetas como meio para que as pessoas alcancem os mais elevados níveis de desenvolvimento humano.

Segundo esse filósofo e economista, a negação substancial das liberdades, como a liberdade econômica, por exemplo, impede as pessoas de saciarem a própria fome, reduz a geração de empregos e limita o crescimento da renda. Negar a liberdade política limita a participação social, reduz o acesso aos serviços essenciais e prejudica a qualidade das políticas públicas.

Nessa linha, é importante ressaltar a importância da liberdade de imprensa como parte essencial do desenvolvimento. A liberdade de imprensa é um direito inalienável, que deriva dos direitos humanos de liberdade de expressão e de acesso à informação, bem como dos princípios da dignidade humana e da autodeterminação dos povos.

A liberdade de imprensa é, ao mesmo tempo, causa e consequência do desenvolvimento. De um lado, com liberdade de imprensa é possível que jornalistas e veículos denunciem desvios, identifiquem desperdícios, critiquem decisões equivocadas, deem destaque para boas iniciativas, debatam políticas públicas e avaliem resultados alcançados. Tudo isso contribui para o desenvolvimento das nações.

Por outro lado, seguindo a hierarquia de necessidades de Abraham Maslow, que define cinco categorias de necessidades humanas (fisiológicas, segurança, afeto, estima e autorrealização), a imprensa livre também é consequência do desenvolvimento.

Ultrapassadas as necessidades fisiológicas, a imprensa livre passa a ser uma demanda crescente das pessoas. A imprensa independente é um seguro contra retrocessos civilizacionais, criando condições para que as pessoas busquem sua realização pessoal, sem perseguições e abusos do Estado.

Países autoritários, que não convivem com uma imprensa livre, acabam limitando o desenvolvimento de suas instituições, das políticas públicas e, principalmente, do seu povo.

A liberdade de imprensa, portanto, além de ser um direito moralmente correto, é meio necessário para que possamos viver em um país melhor e mais desenvolvido. Se queremos ter melhores políticas públicas, instituições democráticas mais inclusivas e uma democracia mais representativa, precisamos defender a liberdade de expressão e de imprensa sempre.

A empresa de mídia

O que é uma empresa de mídia? É uma empresa cuja atividade principal é levar ao público informações, análises e opiniões em torno dos fatos do momento ou do passado, no caso de efemérides ou datas históricas. É uma organização que também presta serviços por meio de informações importantes e úteis para a vida, para o trabalho e para a convivência em comum. Como resultado dessa atividade, fiscaliza os poderes e os serviços públicos. E inspira o lazer, as artes e a cultura. Para cumprir essa missão, contrata, treina e mantém profissionais com habilidades e competências em todas essas tarefas, remunerando-os adequadamente em toda a cadeia produtiva do negócio – da captação e da edição à impressão de exemplares, à distribuição física e digital e às áreas administrativas e de tecnologia, além de investir em equipamentos e ferramentas de trabalho. Adicionalmente, acolhe em suas colunas vozes, análises e opiniões vindas de vários setores. Algumas, como esta RBS, mantêm um conselho editorial para ajudar nas discussões e reflexões estratégicas.

Uma empresa de mídia se responsabiliza por tudo o que publica. Por esse motivo, cultiva métodos de trabalho e processos de checagem. Mesmo assim, pode

Uma empresa de mídia se responsabiliza por tudo o que publica. Por esse motivo, cultiva métodos de trabalho e processos de checagem

errar, portanto também cultiva o hábito (e a cultura) de publicar correções tão logo detectado algum equívoco. Ainda assim, pode se ver na situação de ter que se defender, por isso tem em seu orçamento um departamento jurídico. (Caso extremo, o tabloide inglês The Sun, que vendia nos anos 2000 mais de 4 milhões de exemplares por dia nas bancas de Londres, praticamente uma rede social impressa, tinha um dos maiores orçamentos para contenciosos jurídicos entre os jornais do mundo todo.)

Alguém leu “negócio” nas linhas acima?

Sim, exceção feita aos novos (e bem-vindos) modelos de sociedades sem fins lucrativos, que arrecadam doações, uma empresa de mídia nutre uma lógica empresarial para custear, manter, lucrar e com isso desenvolver e investir em mais e melhores produtos e processos. Assim, atrai a atenção de empresas e instituições que, interessadas na audiência e na credibilidade construída por meio do portfólio midiático, se interessam em ali propagar anúncios, propósitos, causas, projetos especiais e eventos.

Nesse contexto todo, nada mais justo do que uma empresa de mídia ser remunerada pelo conteúdo que produz quando este é utilizado por plataformas de difusão e distribuição. Mas isso pode ser assunto para uma outra coluna.

RICARDO GANDOUR
Jornalista e membro do Conselho Editorial da RBS

EXPEDIENTE :

Design editorial

Carolina Fillmann por Design de Maria

Revisão

Renato Deitos

Impressão

Gráfica Odisséia

Este livro foi editorado nas fontes Cormorant Garamond e Gilroy.

Impresso no papel Pólen

90g/m 2 e Cartão 300g/m 2 na Gráfica Odisséia.

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