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Catálogo António

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TÃO MUTANTES, QUE NELES CABEM TODOS... ANTÓNIO É UM MUnDO FEITO DE MILHÕES DE MUNDOS, TANTOS,

TÃO

VARIADOS

E

ESCULTURAS

Exposição de Esculturas

Figueira da Foz, 31 de Maio de 2025

António

não é só um grande retratista de pessoas e suas idiossincrasias.

António não é só um grande retratista de factos, situações e seus significados.

António não é só um grande observador de contextos e de tendências.

António não é só um analista de cinquenta anos de Portugal.

António não é só um decifrador de cinco décadas de universo.

António não é só um criador para um instante. António não é só um cruzamento de passado, presente e futuro.

António não é só um cartoonista, um humorista, um escrutinador de personalidades, instituições e épocas, um provocador contra a ignorância, a estupidez, o medo ou a distração.

António é um mundo feito de milhões de mundos, tantos, tão variados e tão mutantes, que neles cabem todos, uns os que foram e já não são e os que ainda não são mas serão.

Isso o torna, a Si e à sua obra, perenes e ajuda a tornar perenes alguns que, de outra forma, nunca o seriam.

Marcelo Rebelo de Sousa

Rir para não chorar

Tomo como exemplo o cartoon Pesadelo iraniano, de 2023, que num primeiro olhar é apenas uma caricatura do Ayatollah Ali Khamenei. Mas, olhando melhor, as suas barbas brancas revelam-se forcas, imagem aterradora, quando sabemos que na altura o regime fundamentalista estava a enforcar centenas de pessoas que apenas pediam liberdade (sobretudo para as mulheres). António fez aqui, aliás, uma variação sobre um tema recorrente, já que em 1979 caricaturou o líder espiritual da infeliz revolução islâmica iraniana, o Ayatollah Khomeini, com a sua pilosidade facial substituída por prisioneiros de olhos vendados na iminência do seu fuzilamento (As barbas de Khomeini), invocando o modo como então eram tratados no Irão os opositores, suspeitos ou reais. Perante a tragédia, o autor faz-nos sorrir. Mas presumo que nem a ele nem a nós, observadores do seu trabalho, pesa a consciência. O riso e a dor fazem parte da condição humana e andam quase sempre de mãos dadas. Ridendo castigat mores («corrige os costumes sorrindo»), gravaram os latinos em palavras escritas na pedra. Que é como quem diz: se se trata de melhorar o mundo, mais vale fazê-lo de sorriso nos lábios.

E eu vejo a criatividade de António como uma forma particular de denunciar os males do mundo no sentido de o melhorar. Se o faz provocando sorrisos, não importa, desde que a mensagem chegue aos destinatários. E sem dúvida que estamos perante um método de grande eficácia e inteligência para dar conta de injustiças, opressões e desequilíbrios, porque ninguém consegue ficar indiferente a estas imagens – e depois do riso é inevitável vir também a reflexão. É que os cartoons de António, que dispensam palavras e são de rápida apreensão, põem-nos a pensar.

E a pensar de modo crítico, que é o mais importante. Com efeito, se uma imagem vale por mil palavras, um cartoon de António vale por um ensaio inteiro. Quanto é que seria preciso escrever para explicar as situações que ele ilustra e sintetiza exemplarmente nas caricaturas dos ayatollahs – ou em muitos outros desenhos que aqui se publicam? Com uma vantagem acrescida: haverá sempre muito mais gente a olhar para os cartoons dele do que a ler os tais ensaios.

Tributário do grande David Levine (como se percebe no cartoon inicial desta secção, sobre Menachem Begin), António cedo desenvolveu o seu próprio estilo e a sua estética, fundando uma escola que é só dele e se conserva gloriosa no último meio século. Junta com brilho duas disciplinas do humor ilustrado: a caricatura e o cartoon propriamente dito. É claro que nem todos os seus trabalhos são denúncias: por vezes apenas retrata pessoas (a caricatura de Gorbachev com o mapa-múndi a confundir-se com as manchas na testa, de 1985, tornou-se clássica) ou

situações (com A vaca da economia, de 1992, também usando o globo terrestre), mas sempre através da hipérbole (indispensável no seu múnus) e sem nunca se poupar no talento. Com enorme verve e total independência (conhecendo-o há décadas, nunca soube como votou em eleições), sempre cumpriu uma das funções mais sagradas do cartoonismo: ser incómodo (coisa que alguns dos que por ele são visados confundem com ser desagradável, mas que nada tem que ver).

António já teve amargos de boca por causa do politicamente correto e da nova cultura do cancelamento, mas estou em crer que, para ele, isso são medalhas, porque percebeu ter atingido o objetivo, ao tocar num qualquer nervo. A sua ilustração O gueto de Varsóvia em Chatila, de 1982, evocando uma célebre fotografia relacionada com o Holocausto, onde, por respeito às vítimas de inomináveis perseguições e atentados aos direitos humanos, fossem judaicas ou palestinianas, só aplicou a caricatura a militares israelitas, causou a António não poucos dissabores, apesar de ter sido distinguida com o Grande Prémio do Salon International de Cartoon de Montréal, à época o mais importante certame em todo o mundo relacionado com a atividade. E afinal o que veio a passar-se na Faixa de Gaza em 2023/2024 (não desculpável por ter sido antecedido de um hediondo massacre perpetrado em Israel) veio demonstrar a presciência de António no tratamento de tão delicado assunto. Trata-se, para o cartoonista, de andar sobre brasas. Ainda acerca da mesma temática, a edição digital internacional do New York Times publicou em 2019 o cartoon de António Pax canina e depois apagou-o, embaraçados que ficaram os seus editores pela controvérsia à volta de um Netanyahu surgido como cão-guia, de estrela de David ao pescoço, a guiar um Trump cego (ou a não querer ver, que, como se sabe, é o pior dos cegos). Ao que parece, terá sido sacrilégio misturar o símbolo da religião judaica com a balbúrdia política do Médio Oriente. Mas não é o eterno conflito que nessa região se desenrola um produto, em larga medida, do confronto de dogmas religiosos?

Acima de tudo, em defesa da liberdade de expressão, é fundamental que deixem António continuar a ser António, irónico, sarcástico, mordaz e certeiro porque excessivo. Todos ficamos a ganhar.

Fernando Pessoa Pedras Encastradas Mármore preto e mármore branco
Altura: 78 cm

EANES

Escultura em bronze

Altura: 36 cm

EÇA DE QUEIRÓS

Escultura em bronze

Altura: 28 cm

Escultura em bronze

Altura: 39 cm

FERNANDO PESSOA

FREUD

Escultura em bronze

Altura: 31 cm

CHE GUEVARA

Escultura em bronze

Altura: 29 cm

Império dos Sentidos

Escultura em bronze

Altura: 16 cm

Escultura em bronze

Altura: 25 cm

MARCELO
SALVADOR DALI
Escultura em bronze
Altura: 35 cm

CAMÕES

Escultura em bronze

Altura: 32 cm

Escultura

Altura: 38 cm

PAIXÃO DO FUTEBOL
em bronze

Criança malvada

Um cartoon é, como a própria ideia de humor, uma contradição. O humor é uma espécie de loucura – mas comandada pela razão, parece mesmo uma agressão – mas dá vontade de rir. Um cartoon distorce – mas retrata fielmente, exagera muito –, mas acerta em cheio. E é, se me permitem a platitude, um desenho. E um desenho, digamos, infantil. Fulgurantemente infantil, até. Essa é a contradição maior: um cartoon é uma infantilidade perversa. Temos dificuldade em imaginar uma criança malvada. Há uma razão para as vermos com tanta frequência em filmes de terror: precisamente porque a ideia de infantilidade perversa é perturbadora. Onde esperamos ver inocência, encontramos malícia. Ora, o cartoonista é uma criança malvada. Consegue ser perverso com desenhos infantis. E sabe que, quanto mais infantil for o tom dos desenhos, maior a perversidade. Por isso, recorre a todos os estratagemas para os tornar mais infantis ainda. Por exemplo, um grande cartoonista que eu conheço assina os seus trabalhos como as crianças assinam os desenhos que fazem na escola: só com o nome próprio. Não é por acaso.

SEDE DE ÁGUA

Escultura em bronze
Altura: 38 cm

ENTREVISTA

1. Onde estava no 25 de Abril de 1974 e onde estava no 25 de abril de 2024?

No 25 de Abril de 1974 estava no Regimento de Infantaria 7, em Leiria. Tinha sido incorporado a 23 de abril e costumo até brincar com os meus amigos dizendo que fui o homem que fez a diferença: em dois dias, o regime acabou.

A 25 de abril de 2024, estava no meu ateliê, a trabalhar.

2. A sua primeira intervenção gráfica na imprensa nacional (no vespertino República) coincidiu com a primeira tentativa de golpe de Estado, a 16 de março, prévia ao 25 de Abril de 1974. Foi um bom augúrio ou uma coincidência?

As duas coisas. Foi uma coincidência porque eu não podia prever isso, mas o próprio desenho diz-nos que há uma opressão que vai crescendo até se tornar insustentável; e foi um bom augúrio pois, um mês e pouco depois, dá-se o 25 de Abril. Era um desenho premonitório.

3. Meio século de uma carreira plena de intervenções sobre a totalidade dos acontecimentos-chave do seu país e do mundo deixa-o satisfeito e confortado ou ainda mais incomodado e inquieto com o que se passa hoje, em Portugal e internacionalmente?

Deixa-me sempre inquieto. Não encontrámos antídoto para as coisas mais graves porque os fascismos estão aí e os autoritarismos também. Não estou assim tão feliz.

4. Entre os milhares de cartoons que desenhou ao longo destes anos, conseguiria escolher os dez que tiveram maior impacto na sua vida de criador e “comentador” do quotidiano?

É uma escolha difícil, mas vou tentar. Há sempre o desenho da primeira vez na imprensa, aquele da opressão. Depois há outro cartoon, alguns anos mais tarde, que foi Grande Prémio do Salão Internacional de Montreal em 1983, o “Gueto de Chatila”, que marcou a minha carreira. Depois, há três caricaturas que foram capa da revista do Expresso: as de Almada Negreiros, José Saramago e Eça de Queirós. O sexto é o do preservativo no nariz do Papa, um cartoon que era impossível fazer em Portugal e que a partir daí passou a ser possível. Temos ainda o do Netanyahu e do Trump, no New York Times, que desencadeou a decisão des -

te jornal de acabar com os cartoons na sua edição internacional. Depois, há um desenho que eu fiz para a exposição “500 Anos do Brasil”, em que o Infante D. Henrique aparece, desportivamente, a lançar caravelas. E recordo mais dois, recentes: “A Rota da Seda”, em que um Xi Jinping-bicho da seda aparece a comer a folha da amoreira que, por acaso, tem o formato do mapa da Europa; o outro é o abraço entre Xi Jinping e Putin, em que, devido à diferente envergadura de ambos e ao desequilíbrio entre Rússia e China, Xi por cima, abraça-se a si próprio e Putin está em baixo, abraçado às pernas do Xi.

5. Com um simples lápis, enfrentou alguns dos poderes fáticos em Portugal e no mundo, nomeadamente na religião (tanto a Igreja de Roma e os súbditos nacionais como os poderes judaicos no mundo) e na política (em Portugal e no forte bastião de Washington). Nestas “guerras”, o que mais o marcou? E quem é que reage frontalmente, apesar dos custos, ou quem lhe mina o trabalho sub-repticiamente?

O choque mais evidente foi com a Igreja Católica, com o cartoon Preservativo Papal. Houve também um processo por abuso de liberdade de imprensa, instaurado pelo então ministro da Justiça, Almeida Santos, sobre um desenho da série Kafarnaum. Nessa altura fazia cartoons com balões e pus o presidente Costa Gomes a afirmar que lhe era indiferente o resultado do golpe do 11 de Março, já que ganhava sempre, pois estava dos dois lados. A história não me desmentiu e o processo acabou por não ir a julgamento, tendo sido amnistiado. Aí, sofri a primeira investida do poder político. Tenho a sorte de estar há muitos anos no Expresso e mantenho uma relação forte com o jornal e os leitores. Tive sempre autonomia (o antigo diretor Augusto de Carvalho lembrava-me que o meu trabalho era assinado e que devia ter sempre presente que o peso da minha assinatura estava sempre em jogo). Acho que tenho utilizado essa liberdade de uma forma jornalisticamente equilibrada, não tendo havido ao longo destes quase 50 anos problemas significativos. Sobre a liberdade, aliás, recordo um episódio que me surpreendeu. Conheci, aqui em Lisboa, o grande desenhador David Levine, meu ídolo de juventude e por muitos considerado o melhor caricaturista da segunda metade do século XX, a quem ofereci um livro meu. Folheou-o cuidadosamente e, a certa altura, viu um desenho de um personagem enforcado num cachecol da seleção nacional e perguntou: “Quem é este?”. Eu respondi-lhe: “É o primeiro-ministro”. Admirado, questionou: “Isto passou? Foi publicado?”. E de seguida contou-me uma história de um desenho que fez sobre um senhor Wolfowitz, que passou do governo Bush para o Banco Mundial, com um escândalo que envolveu a namorada. No desenho, com a mestria que lhe é reconhecida, desenhou o Wolfowitz a partir da fisionomia de um lobo

– e foi censurado nos Estados Unidos. Há ainda um outro preço a pagar, que é o facto de eu não pertencer a nenhum partido, quando os partidos e os grupos privilegiam cada vez mais as suas clientelas e, assim, tudo se torna mais complicado. Mas também não quero ter nenhuma tutela.

6. Cartoonismo, escultura, desenho e cerâmica: um conjunto que cumpre um desígnio criativo ou é a necessidade de responder ao mercado num país pobre?

Senti que alguns desenhos mereciam uma segunda vida em volume e isso levou-me ao encontro da escultura e da cerâmica. Faço coisas que não vendo ou que vendo pouco. O mercado é pequeno, o país é pobre e tenho de viver com isso. Não estranho, fui criado neste banho de cultura.

7. Tenho a ideia de que é uma figura do cartoon internacional mais consensual, considerada e valorizada no contexto mundial, mas que, no plano nacional, é muitas vezes ignorada a sua imensa valia e a importância do seu trabalho. Tem também esta sensação?

Tenho dúvidas. Veja o mercado dos Estados Unidos, para onde durante muito tempo trabalhei e, de repente, o cartoon praticamente acabou na América. Sou reconhecido pelo que faço, pela minha atividade profissional, tenho participado em muitos salões, quer como concorrente quer como júri, e esse é o lado bom da história. Os meus pares reconhecem-me. Já em relação ao poder, tenho dúvidas, cá dentro e lá fora.

8. Ter um espaço semanal que já leva quase meio século no principal órgão da imprensa escrita de um país dá-lhe uma autoridade superior ou cria-lhe responsabilidades maiores, sabendo que muitos dos seus trabalhos vão ser justamente avaliados nos contextos da história do país, da Europa e do Mundo?

Ter esse espaço semanal responsabiliza-me imenso, mas eu aceito esse desafio. É uma coisa que me agrada e eu devo muito à relação que tenho com o público e com o Expresso. Como já referi, no Expresso ensinaram-me uma coisa importante: eu assino os desenhos e é o peso dessa assinatura que me responsabiliza. E isso institucionalizou-se. Eu sou responsável por tudo aquilo que faço. As pessoas podem discordar muito ou pouco, mas são sempre abordagens deontologicamente defensáveis. Eu não agrido por agredir, não digo mal por dizer.

9. As suas escolhas semanais para destacar os acontecimentos-chave implicam deixar de fora outros factos ocorridos no mesmo momento. Algumas dos seus “esquecimentos” acarretaram-lhe

consequências ou comentários?

Sim, sim, isso acontece sempre. Mas também houve uma situação ao contrário: fiz uma vez um cartoon a dizer “Esta semana não aconteceu nada” e assinei. Na escolha entre um assunto nacional e um assunto internacional, há sempre a tendência para a alternância entre as situações, nunca repetindo, mesmo que haja continuação. Tem de haver um equilíbrio no meio deste caldo que é o humor e a vida.

10. As suas investidas na escultura em bronze marcam alguns espaços públicos, nomeadamente em Vila Franca de Xira, Albufeira e Caldas da Rainha. Acompanhei a preparação e execução da estátua dedicada a Rafael Bordalo Pinheiro e à figura emblemática do português comum, Zé Povinho. Qual foi o prazer que lhe deu e dá a execução deste trabalho, que passou a ser emblemático, num local público de grande frequência? E como reage à forma como a mesma é tratada pelo público anónimo?

Em relação a esse trabalho, além de ter criado o conceito do monumento e ter dirigido a sua realização, tive a colaboração de dois escultores da terra, Carlos Constantino e José Carlos Almeida. Idealizei e maquetizei, mas foram eles que o modelaram e temos de partilhar esses créditos. Para mim, sabendo da adesão que a cidade das Caldas tem a Rafael Bordalo Pinheiro, foi um desafio e gostei de o realizar até pelas reações que provocou. As pessoas falam, brincam, conversam, sentam-se, fazem selfies, enfim, convivem com a escultura na rua pedonal e esta passou a fazer parte do quotidiano da cidade. Tudo isso me agrada, até porque estou a homenagear alguém de que gosto muito. Há outras coisas, porém, que correm menos bem com a escultura: precisa de ser regularmente limpa e de ser bem iluminada, pois à noite fica tristonha. Quanto à escultura de Álvaro Guerra, em Vila Franca de Xira, fui convidado a realizá-la pelo então presidente da Câmara, Alberto Mesquita. Hesitei muito, levei dois meses até aceitar o convite, pois nunca tinha feito nada naquela escala e ainda por cima na minha terra natal e sobre um amigo.

11. A estação de metro do Aeroporto de Lisboa, em que se projetam figuras emblemáticas do nosso país, constitui para si aquela consagração que desejava no contexto da sua obra gráfica?

Foi uma experiência muito boa. Em vez de consagração, gostava mais de usar a palavra ‘continuação’: continuação de intervenção artística. Este projeto foi também um desafio enorme porque nunca tinha feito nada daquele tipo, nem naquela técnica. Foi muito gratificante integrar a equipa que foi edificando a estação, conhecer a fábrica que operou os cortes

na pedra, os operários e, por fim, assistir à abertura da estação e ver as reações do público.

12. Os Figurões, criados para as Faianças Rafael Bordalo Pinheiro com figuras públicas de relevo, representam para si e para a sua obra de cartoonista um passo importante para a notoriedade internacional? Que figuras gostaria ainda de retratar?

Para a notoriedade internacional não, talvez para a nacional. Gostava de fazer outras figuras. Há tantas: Picasso, Dalí, Hemingway, Freud, Bordalo, Hitchcock, Siza, Chaplin, Eça, etc.. Gostava de fazer todas essas figuras, que povoam a nossa memória coletiva. Neste momento, aparentemente, o projeto arrefeceu (não quer dizer que tenha parado, mas arrefeceu) e não sei se tem continuidade ou não.

13. Muitos comparam-no, na cultura e na expressão artística portuguesa, ao Rafael Bordalo Pinheiro deste meio século em que vivemos. Sei que não gosta dessas associações, mas não acha que quem analisar este período da história do país (e do mundo) daqui a umas décadas poderá atribuir-lhe um papel semelhante na intervenção social e cultural ao que o mestre Bordalo desempenhou no seu tempo?

Eu não quero ir por aí. Tenho uma admiração enorme pelo Bordalo e não quero nada ser comparado com ele. Só quero ser comparado comigo próprio.

14. O António, dado o conhecimento que tem neste meio século de produção artística, tem percorrido o mundo para responder a convites de participação em júris internacionais. Que significado tem para si este complemento de atividade?

Sempre foi a minha preocupação divulgar e promover o cartoon. Ser membro de um júri permite participar na seleção das produções, participar na escolha dos prémios e mostrar a qualidade que o cartoon deve ter. É importante que a qualidade seja representada através dos prémios. É isto que eu tento fazer quando faço parte de um júri.

15. Além de cartoonista ao longo de mais de cerca de metade da sua carreira, tem-se dedicado igualmente à promoção do cartoon feito por outros colegas nacionais e estrangeiros, das cinco partes do mundo, nomeadamente na organização da Cartoon Xira e do World Press Cartoon (WPC), dois dos mais importantes certames, o primeiro a nível nacional e o segundo a nível global. Qual

o prazer que encontra nestas iniciativas e que resultados pensa ter obtido?

Uma parte da resposta já foi dada na questão anterior e a ideia principal é promover o cartoon. Os dois eventos têm tido um desenvolvimento desigual. A Cartoon Xira está estável, é apoiada pela autarquia da cidade onde nasci, já vamos em 25 anos, e eu até costumo dizer que não se metam connosco que já somos do século passado! Quanto ao WPC, não tem havido essa estabilidade, já tivemos de correr três cidades e agora não sei se vamos para a quarta. Foi considerado por muitos como o melhor salão de cartoon do mundo, que é algo que me dá um grande orgulho. É um salão que se distingue ao nível dos prémios, do catálogo e da qualidade da exposição e isso é reconhecido pelo público e pelos pares. Podíamos ter muito mais público e muito mais apoio da comunicação social porque estes cartoons vêm da comunicação social. As coisas podiam ter sido melhores, mas, em relação ao WPC, não sei qual será o futuro. Está em aberto a sua continuidade.

16. O que gostaria de ter feito e que ainda não fez? Ou concretizou até hoje todos os seus sonhos criativos?

Sei lá! Há tantas coisas que ficaram pelo caminho… Em Portugal, para se acertar um tiro, temos de dar 10. A Cartoon Xira e o WPC foram dois projetos, diferentes, que conseguiram impor-se e de que me orgulho muito.

O que gostaria de fazer mais? Gostaria de participar na criação de um Museu da Caricatura e de uma Casa-Museu do World Press Cartoon. Gostaria também de ter mais intervenções no espaço público com esculturas. Há peças que tenho feito em pequena escala e que tenho a ambição de as fazer em grande.

17. A interrupção do World Press Cartton, certame de características vincadas da valorização da caricatura e do cartoonismo no mundo, podemos associá-la também ao momento problemático que esta expressão tem hoje em alguns países e jornais de referência, que não resistem aos lobbies do pensamento único?

É verdade que sim, mas isso deveria ter uma consequência contrária. O que acontece é que a liberdade de imprensa está a ser posta em causa e esses ataques deviam ser uma boa razão para provocar uma reação. Não tem acontecido. Gostava de ver um WPC triunfal e ver o triunfo da liberdade de imprensa e dos cartoonistas, autênticos gladiadores. Alguns, no limite, perderam a vida, outros exilaram-se, outros estão presos ou foram censurados e outros perderam o emprego. Não é um panorama brilhante.

18. A crise crescente na imprensa escrita é uma ameaça para o cartoonismo ou acha que as novas oportunidades com a Internet lhe darão uma viabilidade mais forte?

A Internet é uma faca de dois gumes. Por exemplo, por um lado, em relação a eventos, tem um potencial enorme na divulgação da informação (o WPC deve muito à Internet na sua difusão mundial); mas, por outro lado, para o exercício da profissão, é um problema e uma ameaça, porque não há retorno, não se paga devidamente, e ninguém pode fazer uma carreira profissional dessa maneira.

19. Qual foi a pior reação que recebeu face a um cartoon publicado? Arrependeu-se alguma vez de ter feito os cartoons que levantaram polémica?

Sou um bocado inconsciente, não me arrependo. Aquele que até hoje foi mais polémico, o do Papa, com o andar dos anos, acho que não tirava ‘uma vírgula’ àquele desenho. Voltava a fazê-lo. Esse cartoon tem um mérito: fez aquilo que era ‘impossível’ fazer e depois abriu o caminho a que se possam fazer mais. Também quando comecei era impossível homenagear alguém que falecesse com uma caricatura – eu fi-lo com o Alexandre O’ Neil, quando ele morreu, e correu muito bem. Eu conhecia-o, gostava muito dele e fiz uma caricatura. Depois fiz outra do Lucas Pires que era alguém com quem mantinha uma relação pessoal interessante, gostava dele e achei que era uma perda grande. Homenageio-o também com uma caricatura e isso acabou por ser aceite. Foram coisas pequenas, mas que abriram caminhos que noutros países há muito que estavam abertos, como é o caso de França. Aqui foi preciso (re)construir, cartoon a cartoon, risco a risco, para conseguirmos conquistar a nossa liberdade de expressão. Mas nada é seguro, como se sabe.

20. É natural de Vila Franca de Xira, onde as tradições contam. Acha que esse facto definiu a sua trajetória pessoal e criativa?

Creio que conseguimos criar uma nova tradição em Vila Franca, que é a do cartoon, a partir da minha própria experiência e da Cartoon Xira com outros autores nacionais e convidados estrangeiros. Esta nova tradição tem convivido bem com a antiga, a tauromaquia, e organizei mesmo exposições de cartoon sobre temas tauromáquicos. Foi pena que ao passar pelas Caldas com o WPC não tivesse conseguido consolidar a tradição historicamente existente da caricatura.

21. “Santos ao pé da porta não fazem milagres”: acha que este ditado português se lhe aplica, pelo reconhecimento que tem tido na sua terra natal?

Na minha terra natal, comparando com o que se passa no resto do país em relação a mim, posso dizer que me tratam bem. É difícil ter a ambição de fazer grandes projetos, a minha cidade é pequena e os meios também são limitados. Mas é sempre possível fazer mais. Eu quero fazer mais.

22. Para terminar, que balanço faz o próprio António destes 50 anos?

No essencial, gostei destes 50 anos. Como em tudo, houve momentos altos e baixos, mas gostei. Sobrevivi e penso que sobrevivi bem. A olhar para esta sociedade e defendendo este regime político. Até me custa perceber alguns saudosistas do Estado Novo, algumas pessoas que se reivindicam de uma certa modernidade continuarem a defender aquele regime. Fui marcado pela guerra. Cheguei a estar mobilizado e acabei por não ir, mas desde os meus 9 anos que pairava sobre mim o fantasma da guerra. Tive amigos que foram feridos, um deles morreu. Era uma guerra em África, mas não era assim tão longínqua e as pessoas chegavam cá estropiadas. Portanto, tenho vivido bem com este regime. Como dizia Churchill, “é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros”. A minha exposição reúne trabalhos destes 50 anos, que foram um pouco à deriva dos acontecimentos. Critiquei o apartheid na África do Sul, a invasão do Iraque, os massacres no Líbano e a relação da China com o Tibet; também critiquei o fundamentalismo judaico e o conservadorismo de João Paulo II e de Ratzinger, a teocracia iraniana, o desmembramento da URSS e a queda do Muro, o terrorismo do Daesh e a invasão Ucrânia pela Rússia. Cá dentro, critiquei o extremismo do PREC, a ortodoxia do PCP, o ‘independentismo’ de Jardim, os negacionistas da covid-19, a chegada da troika, a corrupção, os casos Sócrates e os Donos Disto Tudo e um sem número de outros assuntos. Fui ao sabor dos acontecimentos, empurrado por uma grande liberdade. Estive à janela do país e do mundo, tentando introduzir um grão de areia na engrenagem dos acontecimentos.

Nota biográfica

António (António Moreira Antunes) nasceu em Vila Franca de Xira em 12 de abril de 1953. Tem o curso de Pintura da Escola Artística António Arroio, de Lisboa. Iniciou-se no cartoonismo em 16 de março de 1974 no jornal “República” e é colaborador permanente do semanário Expresso desde o final de 1974. Dos prémios recebidos destacam-se: Grande Prémio do XX International Salon of Cartoons (Montreal, Canadá, 1983); 1° Prémio de Cartoon Editorial do XXIII International Salon of Cartoons [Montreal, Canadá, 1986); Prémio Gazeta de Cartoon (Lisboa, Portugal, 1992); Grande Prémio de Honra do XV Festival du Dessin Humoristique (Anglet, França, 1993) Award of Excellence - Best Newspaper Design, SNDEstocolmo, Suécia (1995); Premio Internazionale Satira Politica (ex-æquo, Forte dei Marmi, Itália, 2002); Grande Prémio Stuart Carvalhais (Lisboa, Portugal, 2005); Prix Presse Internationale (Saint-Just-le-Martel, França, 2010); Prémio Gazeta de Mérito (Lisboa, Portugal, 2018]; Realizou exposições individuais em Portugal, Brasil, Alemanha, Espanha, França, Luxemburgo, Bélgica, China e Holanda. Integra as antologias: The 1970s, best political cartoons of the decade, McGraw-Hill, PaperBacks, New York; The Finest International Political Cartoons of our Time, Wittyworld Books, USA, 1992; The Finest International olitical Cartoons of our Time II, Wittyworld Books, USA, 1993; The Finest International olitical Cartoons of our Time II, Wittyworld Books, USA, 1994; Cartoonometer, Wittyworld Books, USA, 1994; C’est Fôte à Bruxelles! (Centre Wallonie-Bruxelles, Paris, France-2010); Autor de “Figuras de Lisboa”, 50 caricaturas de personalidades relevantes da vida política, cultural e artística da cidade, realizadas em pedra encastrada, que constituem a animação plástica da Estação “Aeroporto” do Metro de Lisboa. É comissário do Cartoon Xira e director do World Press Cartoon. Condecorado em 2005, pelo presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, com a Ordem do Infante Dom Henrique, no grau de Grande-Oficial. Medalha de mérito Municipal de Valor Cultural - Dourada/2019 Camâra Municiapal de Vila Franca de Xira; Condecorado em 2023, pelo presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, com a Ordem da Liberdade, no grau de Comendador.

O

humor é uma espécie

de loucura – mas comandada pela razão, parece mesmo uma agressão –

mas dá vontade de rir.

Organização

Galeria o Rastro

Produção

Galeria o Rastro

Design

Jaime Serpa Ficha técnica

Tiragem

100 exemplares

Impressão e acabamento

DEPOSITO LEGAL N.:

Tipografia Priscos - Braga

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