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ESPORTE

DOMINGO 23.3.2008 JORNAL ABC

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Mais graça no motocross gaúcho

Rivelino Meireles/GES-Especial

Gabriel Guedes

O motocross é um esporte radical. Há quem o considere até arriscado demais, com aqueles saltos e manobras sobre duas rodas onde lama, terra, gasolina e graxa predominam. É um verdadeiro contraste com o universo feminino e, por isso, não haveria espaço para elas. Mas a piloto Mariana Fritsch, de Campo Bom, põe em xeque essa tese. Sem deixar de lado a beleza e a sensibilidade, ela esbanja força e garra dentro das pistas. Com 25 anos de idade e pilotando há três, a jovem é uma das pioneiras da modalidade no Vale do Sinos. Mesmo com a breve experiência, Mariana já tem dois títulos gaúchos – um deles da recém-criada categoria feminina – e dois regionais. Também é a precursora da invasão feminina nas pistas. Com tantas delas, a Federação Gaúcha de Motociclismo criou uma categoria para as corajosas garotas que não abrem mão do batom nem mesmo em meio ao pó. Apesar do ambiente masculino, a piloto garante nunca ter sido discriminada. “Sempre me respeitaram e trataram bem. Apesar do aspecto nada delicado das pistas, nunca houve preconceito algum. Sempre acharam que eu era um diferencial”, relata Mari, como é carinhosamente chama-

da por amigos e fãs. Hoje, chegam a competir simultaneamente 12 mulheres por categoria em cada etapa. Algumas, segundo a atleta, encaram a lama ou a poeira com motocicletas rosas e com temas femininos. “É o fim daquela coisa de que mulher tem que ter Biz (moto de pequeno porte da Honda), como muitos homens dizem por aí.” Quando começou a encarar as pistas, Mariana competia com os homens. Chegou até a disputar provas com o marido, o também piloto de motocross Felipe Machado, 27. “A família dele, principalmente o pai do Felipe, sempre teve este contato com o motocross. Com o tempo fui gostando, mas só não andava pela falta de moto.” Em 2005, com a aquisição de uma de 85 cilindradas, literalmente seu sonho foi acelerado. O motocross veio de surpresa na vida de Mari. Aos 17 anos, ela não sabia pilotar. Daí a preocupação dos pais. “No começo eles não gostavam. Hoje, a minha família acompanha e incentiva bastante. Meu pai, principalmente, sempre que pode assiste às provas”, conta. As amigas, então, ficaram arrepiadas. “diziam tu é louca guria!”, recorda. “Com o tempo todos foram enxergando que motocross não é feito de irresponsabilidade. Tem que saber pilotar.” Fotos Castor Becker Júnior/GES-Especial

BELA FERA: a campo-bonense Mariana Fritsch anda fazendo sucesso nas pistas do Rio Grande do Sul

O DESEMPENHO Até agora, Mariana Fritsch já disputou cerca de 40 provas desde 2005, quando começou a se aventurar nas pistas A piloto subiu ao pódio, pa-

ra onde sempre vão os cinco primeiros colocados, em 27 corridas

Na temporada 2008, ela esteve no pódio nas três provas que disputou.

Até agora, Mari chegou em primeiro lugar 19 vezes

Em Torres, aliás, ficou em primeiro lugar

Talento para fazer qualquer marmanjo babar Até dezembro de 2006, Mariana Fritsch era a única mulher da região a participar de provas do motocross e supercross country. Em 2007, já com um patrocinador, passou a competir na categoria feminina do Campeonato Gaúcho de Motocross, Enduro Cross e Caman Honda, além de encarar a categoria MX3, com

pilotos masculinos com mais de 35 anos de idade. Recentemente, com apoio da Feevale, por meio do programa Bolsa-Atleta, Mari foi destaque na abertura do Campeonato Regional de Motocross. A esportista, única mulher na competição, conquistou o quarto lugar na categoria 85 cilindradas, na pro-

va disputada em Ivoti. A corrida reuniu cerca de 140 pilotos. No dia 16, na primeira etapa do Campeonato Gaúcho, no Parque da Oktoberfest, em Maratá, no Vale do Caí, Mari sofreu uma queda leve e, numa prova de superação, conseguiu terminar em terceiro lugar. Resultado bastante comemorado.

MUITO ESFORÇO FORA DA PISTA

DIA DE TREINAMENTO: pista em Campo Bom garante performances

Antes de começar uma prova, Mari não faz nenhum ritual para atrair sorte. Mas como uma exemplar aluna do curso de Educação Física da Feevale, trabalha um aquecimento para evitar lesões musculares. O extremo entre controle, força, resistência e reflexo raramente é observado em um piloto camuflado sobre uma proteção corporal quase igualada a dos antigos cavaleiros medievais. Entre uma prova e outra, ela treina numa pista na beira da RS239, em Campo Bom. Para complementar, faz sessões de natação e musculação. “É um esporte que exige e muito dos braços, mas como as provas ocorrem seguidamente, quase não dá tempo para estes treinos complementares.” Em alguns finais de semana, se anda mais de 500 quilômetros para disputar uma das etapas do Gaúcho de Motocross.

SÓ NA PISTA: fora dela, Mariana adota a cautela e prefere ir de carro

MOTO NA RUA, NEM PENSAR Mariana não gosta da idéia de andar de moto nas ruas. Ela nem tem carteira de habilitação na categoria A (para motos). “Quando tenho alguma volta para fazer em Campo Bom, por exemplo, vou de carro. É muito perigoso andar sobre duas rodas nas ruas”, revela. “Meu interesse é só pelo esporte mesmo.” Entretanto, ao contrário do que se pensa, o motocross exi-

ge habilidade, técnica e perícia. “É um verdadeiro duelo contra a moto. Ela faz força, ela tenta te jogar para fora”, descreve a atleta, nenhuma queda grave ou fratura na carreira. O segredo, pontua, é ter consciência e tranqüilidade, usar equipamentos de segurança e conhecer sua moto. “Isso me dá mais confiança porque quem ganha nem sempre é o que acelera mais”, aponta.

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