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PERFIL

DOMINGO 9.11.2008 JORNAL ABC

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A fotografia como no princípio auxiliava o pai dela – que registrou colegas do exército alemão A fotografia já não é mais em combate na Primeira Gueraquela de antigamente, quando a ra Mundial –, a revelar negativos palavra era grafada como ‘pho- em vidro. Juntos, seus pais abritographia’, mas o trabalho de ram um estúdio fotográfico nesuma família em Nova Petrópo- ta cidade do noroeste gaúcho. lis, na Serra, ainda é o de retraFoi vendo seu pai sempre fotar as pessoas de hoje como na tografando que começou a peépoca dos imigrantes alemães. gar gosto pela arte de ‘escrever E não é apenas a forma de es- com a luz’. Principalmente decrever que mudou com o passar pois que ganhou uma câmera, da dos anos. Os equipamentos não marca Bieka, aos 10 anos. Um são mais os mesmos, sequer os fascínio que permanece até hoje. termos. Palavras como digital, “Eu gastava toda a mesada com Photoshop, pixels, megabytes, fotografia. Enquanto meus amientre outras, de uns anos para cá gos brincavam, eu estava com fazem parte do vocabulário de máquina em mãos”, conta. DaGermano Schüür, considerado o niel parece ter replicado o filme pioneiro nas fotos à moda antiga do pai. Foi assistindo Germano Rio Grande do no que se aficionou Sul. Há 23 anos, em pelas fotos. “Vai se um estúdio montaaprendendo no diado dentro do Parque O estúdio de Germano a-dia”, completa Aldeia do Imigran- de Schüür se situa ele. “É engraçado te, famílias, amigos, dentro do Parque que eu estudei ArAldeia do Imigrante casais enamorados (Avenida Quinze de quitetura, que hoou crianças, por mi- Novembro, 1966), je é um ‘bico’ pra nutos, vivem uma em Nova Petrópolis, mim”, valoriza Dahistória onde car- que está aberto niel. Sua irmã, Saros de boi, chapéus diariamente das 8 bine é psicóloga de palha, óculos re- às 18 horas. Outras e divide seu temdondinhos, suspen- informações pelo site po entre trabalhos sórios, roupas de al- www.photographia. realizados na área godão, sombrinhas, com.br ou pelo (54) em Caxias do Sul e cachimbos e benga- 8402-6469. também a coordelas fazem parte de nação da produção um cenário repleto de nostalgia das fotos à moda antiga. e romantismo retratado com fidelidade pelo ‘photographo’. O FOLCLORE veterano da fotografia é o reEntretanto, quem o vê hoje manescente de uma família de com sua câmera Nikon D3 e profissionais do ramo. Seu avô uma relíquia, a Goldman, fabrie seu pai foram os precursores, cada em 1858 na Áustria, nem mas aos 63 anos de idade Ger- imagina que Germano é formamano já está encaminhando os do em Biologia pela Universifilhos Daniel, 29, e Sabine, 28, dade do Vale do Rio dos Sinos para que perpetuem o mesmo (Unisinos), em São Leopoldo, ofício praticado há mais de cem quando o curso ainda era denoanos pela família. minado História Natural. Até Filho do casal de imigran- 1985, a fotografia era apenas um tes alemães Nicklaas e Gertrud hobby. Mas foi quando já estaSchüür, que se estabeleceu no va morando em Caxias, alguns Brasil na década de 20, Germa- anos depois que se casou, que no nasceu em Cruz Alta, terra foi convidado pelo prefeito de também de Erico Verissimo, em Nova Petrópolis, na época, para 1945, e conviveu num ambien- trabalhar com ‘photographias’ te inspirador a esta profissão. no Festival do Folclore. E o que Seu pai era cenógrafo e aplica- era para ser algo sazonal, fez suva a fotografia em filmes mudos cesso e cresceu. De lá para cá, quando era solteiro, trabalhando o biólogo e professor incorponos Estados Unidos em produ- rou a fotografia ao seu currícuções clássicas da época, como O lo profissional. E segue preserGordo e o Magro, Os Três Pate- vando a história de uma paixão tas e Deanna Durbin. Sua mãe centenária.

Rodrigo Rodrigues/GES

Gabriel Guedes

SERVIÇO

GERAÇÕES: Daniel, com sua Canon 5D em mãos, e Germano, revivendo os cliques com sua Goldman, de 1858

O RETRATO Com um processo de envelhecimento que deixa as fotografias num tom sépia, uma vinheta oval e um prático guarda-roupa de época, germânico ou italiano, associado ao cenário real e a céu aberto da própria Aldeia do Imigrante, as fotos à moda antiga são capazes de confundir até os mais hábeis historiadores.

Uma sociedade que se esqueceu do papel Hoje as ‘photographias’ são feitas totalmente com tecnologia digital. Germano não sabe precisar em que ano tudo mudou, mas afirma que foi quando os insumos – como papel fotográfico, químicos para revelação e filmes, tudo para preto e branco – se tornaram mais caros e cada vez mais escassos. “Era uma dificuldade obter todo material para trabalhar”, salienta. “Hoje o laboratório do fotógrafo é o Photoshop”, acrescenta Daniel. O patriarca diz que foi curiosa essa transição para o digital. Ele atenta para a questão de que as pessoas não se preocupam com a impressão das fotos. “Elas estão na câmera, no celular e no computador. Mas não estão no papel. Tudo que há é um monte de informação virtualmen-

vistas por quase cem internautas num cenário de milhões de postagens em todo planeta, encantam pelo colorido, como uma de Termas de Gravatal, no sul de Santa Catarina, em que ele usou a tecnologia HDR (Renderização de Grande Alcance Dinâmico, em português), que é a mesclagem de quatro ou mais fotos do mesmo momento com diferentes valores de exposição. Algumas chamam

fo. “Às vezes tem gente que vem com a câmera em mãos, querendo apenas se fantasiar à moda antiga no estúdio. Aí explicamos que as fotos são feitas por nós”, recorda. Para contornar o status quo da fotografia, o negócio teve que achar novos motes. “Agora fazemos resgates históricos de empresas e famílias e até diários de viagem e transformamos em livros”, conta Germano, revelando a estratégia que o fazem perenes. Mas em meio a esta nova onda, ainda há exceções. “Tem famílias inteiras que vêm de São Paulo e Rio de Janeiro anualmente para fazer as fotos aqui”, exemplifica, afirmando que ainda há muitos que se dispõem a eternizar momentos no jeito mais simples, tradicional e, talvez, seguro: o papel. Fotos Germano Schüür/Divulgação

O MUNDO PELO PANORAMIO Um dos frutos do casamento da biologia com a fotografia na vida de Germano são as imagens com GPS (Sistema de Posicionamento Global, em português). As fotos dele, aquelas feitas nas horas livres, caíram na rede, no Panoramio.com. No site, que publica fotos georeferenciadas para se ver na web ou nos mapas do Google Earth, a produção do fotógrafo faz sucesso. As fotos, algumas já

te guardada, que vai se acumulando e se perdendo no tempo”, analisa Germano. No estúdio dos Schüür, as fotos dos clientes ficam guardadas, caso queiram que no futuro uma nova reprodução ou envio do arquivo em CD. Mas até eles admitem que já sofrem deste mal. “Tivemos mídias arquivadas há cinco anos que já estão deterioradas, em que o computador não conseguiu ler novamente os arquivos gravados nos discos (CD e DVD)”, preocupa-se Daniel, responsável pelo arquivamento das fotos antigas. Agora, para o profissional o mercado mudou. Segundo Germano, com a proliferação das câmeras digitais amadoras, as pessoas acharam fácil fazer fotos de qualquer momento, dispensando o trabalho do fotógra-

atenção pelo cenário peculiar, como um moinho europeu em Bagband, província de Niedersachsen, na Alemanha. Germano é professor no curso de Formação Específica em Fotografia e no de Biologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS). É no segundo que ele explica a técnica das fotos com GPS, na disciplina de Fotografia aplicada à Biologia.


A fotografia como no princípio