REPORTAGEM
DOMINGO 25.10.2009 JORNAL ABC
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Indústria naval
Ele tira 200 caminhões Fotos Vinicius Carvalho/GES-Especial
Gabriel Guedes
O navio-tanque Guapuruvu, inaugurado este mês pela empresa Navegação Guarita para transporte de líquidos químicos, é um gigante de aço que reforça o ânimo da indústria naval gaúcha. Mas não apenas isso. Capaz de carregar de uma só vez 4,3 mil toneladas de carga, ele tem tamanho suficiente para a cada viagem fazer o serviço de 200 caminhões, com a vantagem de consumir menos combustível, diminuir a poluição e evitar mais buracos por causa do trânsito pesado nas rodovias. O projeto, 100% gaúcho, foi executado pelo Estaleiro Heromaio, subsidiária da Navegação Guarita. Mas a construção, que custou R$ 31,5 milhões, foi viabilizada por financiamento de 77% do valor pelo Fundo de Marinha Mercante (FMM), repassados por meio do BNDES e da CaixaRS, após três anos de negociação. Em 2006 eles já haviam construído o navio-tanque Guaratan. Conforme o diretor executivo da empresa, Werner Barreiro, esta é a oitava e maior embarcação própria da frota de 17 navios, incluindo nove fretados. “Desde 2001 estamos com estrangeiros fretados. Mas identificamos mercado com o crescimento da necessidade de um de nossos clientes”, justifica. O executivo conta que uma embarcação internacional custa caro. “São 15 mil dólares por dia de operação. A tripulação estrangeira ainda exige um prático a bordo, que custa R$ 50 mil por operação de manobra. O Guarapuvu irá substituir um dos fretados”, adianta. RUMO A RIO GRANDE De acordo com Barreiro, o navio foi construído por uma técnica desenvolvida pela própria empresa. “É um modelo pouco ortodoxo, em que as partes foram produzidas e adquiridas separadamente e a embarcação foi integrada num estaleiro, em Triunfo”, revela. Neste processo, uma empresa canoense produziu o casco com 1,2 mil toneladas de aço e dividiu em blocos de 25 toneladas, que foram transportadas de caminhão até Triunfo. O acabamento se deu no cais da empresa, junto ao Rio Gravataí, na capital. A embarcação emprega também características voltadas ao sistema Rio Jacuí-Guaíba-Lagoa dos Patos. “O projeto é feito para calados mais baixos”, frisa Werner. Uma viagem do Guapuruvu de Triunfo a Rio Grande, que será sua rota mais frequente, leva cerca de 20 horas. Na operação normal, é um dia de carga, mais um de viagem e o último para descarga.
PRONTA: atracada no Rio Gravataí, embarcação foi batizada no dia 13 no cais do porto de Porto Alegre
guapuruvu dissecado
TANQUES Nesta parte destacada em cor laranja, 12 tanques do Guapuruvu carregam cerca de 4,3 mil toneladas de carga líquida DIMENSÕES O Guapuruvu é um navio de pequeno porte. O comprimento é de 102,90 metros e a largura é de 15,50 metros (boca). O calado (profundidade para navegação) máximo é de 4,50 metros
Guarita Navegação/Divulgação
CABINE DE COMANDO É o setor onde estão situados os controles de navegação e propulsão, além de abrigar a infraestrutura necessária à manutenção dos 8 tripulantes
SALA DE MÁQUINAS Abaixo do convés estão os motores que movem as duas hélices e os lemes da embarcação DESEMPENHO Ele opera a uma velocidade de 9 nós (16,6 km/h) e consome combustível de tanque com até 43 mil litros de diesel marítimo, com autonomia de 1.800 milhas náuticas (3,3 mil km)
VALOR Custou R$ 31,5 milhões (77% financiados e 23% com recursos próprios)
Na onda verde do polo petroquímico
A escolha do nome Guapuruvu não foi feita ao acaso. Se trata de uma árvore nativa de grande porte da Mata Atlântica. Na costa paulista, serviu aos índios caiçaras para construção de embarcações, que eram esculpidas artesanalmente na tora. É símbolo da bela natureza que beira o Oceano Atlântico no Brasil. Para Werner Barreiro, é uma homenagem da empresa de respeito ao meio ambiente. Mas o sentido da existência do navio Guapuruvu está na indústria petroquímica gaúcha. Até o final de 2010, a Braskem, situada no Polo Petroquímico de Triunfo, colocará em operação sua planta industrial para fabricação de polietileno verde, matéria-prima para o plástico que virá do etanol. É aí que se encaixa o Guapuruvu. Segundo Barreiro, a embarcação transportará de Triunfo para Rio Grande derivado de petróleo beneficiado no polo e na volta trará o etanol que será utilizado na planta. “Desde 2001 vínhamos operando com navios estrangeiros, geralmente trazidos da Europa para atender à demanda desses mercados, até que se viabilizou a construção de navios adequados às nossas características”, justifica o diretor. O Guapuruvu foi desenvolvido para o calado de até 4,5 metros, predominante nas águas internas gaúchas. Mas há inúmeros sistemas de prevenção contra vazamentos da carga, como tanques de segurança e casco duplo. Os efluentes de esgoto da tripulação são tratados em uma estação compacta – importada da Alemanha. Depois do tratamento, a água é despejada limpa nos rios.
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das estradas
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Projeto aquece mercado O Guapuruvu é um projeto 100% gaúcho e foi executado pelo Estaleiro Heromaio, da Guarita Navegação, responsável pelas novas embarcações. A construção, que levou 18 meses, gerou cerca de 200 empregos diretos e 600 indiretos. O empreendimento não é o primeiro da companhia, que em 2006 entregou ao armador o navio Guaratan. E os impactos na economia são sempre significativos. Diversas empresas participaram da elaboração, algumas de locais distantes, como a Intecnial, de Erechim. Na região, a Cooperativa dos
Trabalhadores Metalúrgicos de Canoas (CTMC) e a Cordoaria São Leopoldo lucraram com o investimento. A CTMC fabricou blocos de 25 toneladas de aço para montagem do casco do navio. “Foi trabalho de mais de ano e que garantiu a contratação mesmo durante a crise econômica mundial”, ressalta a analista de Marketing da empresa, Aline Modrow da Silveira. A Cordoaria São Leopoldo produziu os cabos de ancoragem do navio. Procurada pela reportagem, a empresa não atendeu ao contato para comentar o empreendimento.
Estado tem 960 quilômetros de águas interiores navegáveis FORÇA: na sala de máquinas estão dois motores, totalizando 1,7 mil cavalos de potência, que movem o Guapuruvu
Grande, porém econômico Um caminhão truck, carregado, para percorrer os 311 quilômetros de distância entre Porto Alegre e Rio Grande consumiria mais de 200 litros de diesel. O Guapuruvu, equipado com dois grandes motores, gastaria cerca de 6 mil litros de diesel para os 315 quilômetros de hidrovia entre a capital e o Porto de Rio Grande. Qual modal é o mais econômico? O navio, porque em uma única
viagem ele carrega 4,3 mil toneladas de carga. O que seria viável por meio de 200 caminhões. Logo, se fossem feitas 200 viagens rodoviárias, seriam gastos mais de 40 mil litros de diesel, sem contar os prejuízos deixados no asfalto da BR-116 e BR-392: buracos e deformações. A economia vem também dos componentes. O diretor executivo da Guarita, Werner Barreiro,
diz que os equipamentos do Guapuruvu estão no último estágio de atualização. “Tivemos que importar muita coisa. Mas é o que há de mais moderno em navegação.” Entre o que há de inovador, estão os dois motores de propulsão da Caterpillar. Além de grandes – um homem chega a ficar pequeno perto de uma das unidades –, são extremamente potentes e controlados eletronicamente.
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O Rio Grande do Sul tem um mercado promissor para a indústria naval. Mas para expandir depende do incentivo ao uso de hidrovias, formada por rios, lagos e lagoas navegáveis do Estado. Segundo dados da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH), a extensão desta rede é de 960 quilômetros. Contudo, apenas uma parte, cerca de 500 quilômetros, são explorados comercialmente. É pelo complexo Lagoa dos Patos-Guaíba e pelos Rios Jacuí, Taquari, Caí, Sinos, Gravataí e São Gonçalo, em Pelotas, que está a principal área de desenvolvimento da navegação interior. O Rio
Uruguai, na fronteira oeste, tem potencial, mas não é aproveitado. No Jacuí está situado o Porto de Cachoeira do Sul e no Taquari, o Porto de Estrela. Em Porto Alegre, o porto tem a maior movimentação de cargas depois de Rio Grande. Em Canoas, nos Rios Gravataí e do Sinos, uma dezena de terminais portuários privados é responsável pelo trânsito de mercadorias, como derivados de petróleo e fertilizantes. Em Triunfo, há um terminal exclusivo do Polo Petroquímico. Em Nova Santa Rita, no Rio Caí, se situa outro terminal privado, para transporte de clínquer.
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O NAVIO EM DETALHES 1 - O Guapuruvu conta com uma completa cozinha. 2 - A tripulação dispõe de camarotes equipados com beliche, roupeiro e escrivaninha. 3 - O navio tem uma sala de reuniões com tevê e cafeteira. 4 - Painel com botões de controle da embarcação. 5 - O casco foi construído por empresa canoense e montado por uma outra, de Erechim. 6 - Os cabos de atracação foram fornecidos por empresa de São Leopoldo.