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REPORTAGEM

DOMINGO 5.7.2009 JORNAL ABC

O mundo que vive no rastro da sucata

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, em inglês) estima que aproximadamente três quartos dos computadores vendidos no país estão estocados em despensas. Situação semelhante ocorre na Europa, Austrália e Japão. Quando jogadas fora, as máquinas acabam em aterros ou em incineradoras ou, mais recentemente, são exportadas para a Ásia e África. Lá, segundo a ONG Greenpeace, a legislação ambiental é frouxa e o reaproveitamento ocorre à revelia das autoridades, inclusive com uso de mão de obra infantil. Os e-resíduos são rotineira-

mente exportados pelos países desenvolvidos, muitas vezes, violando tratados internacionais. No Reino Unido, pelo menos 23 mil toneladas de e-lixo foram transferidas clandestinamente em 2003 para o Extremo Oriente. Nos EUA, estima-se que até 80% dos resíduos recolhidos estão sendo exportados. E detalhe: legalmente, uma vez que os norte-americanos não ratificaram a Convenção de Basiléia, que entre outras coisas, proíbe desde 1992 o transporte de resíduos perigosos para países sem capacidade de tratá-los. Bruno Rebelle/Greenpeace

Natalie Behring/Greenpeace

Prakash Hatvalne/Greenpeace

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Quando a tecnologia fica obsoleta, é hora

A invasão

Gabriel Guedes

No ano passado o Brasil vendeu 11,8 milhões de computadores desktops, conforme levantamento da consultoria IDC. As vendas, 10,6% maiores em relação a 2007, indicam que grandes corporações, pequenas empresas e usuários domésticos estão cada vez mais trocando as velhas máquinas por aquelas com tecnologia de ponta. Isso tudo em um País sem legislação que defina o destino final para equipamentos defasados. Assim, grande parte dos computadores de hoje deverá estar em aterros amanhã, dividindo espaço com toneladas de monitores aposentados, tocadores de MP3 e celulares. É o elixo (e-waste, em inglês). Segundo o coordenador do curso de Gestão Ambiental da Unisinos, Claudio Senna Venzke, se descartado sem controle, o e-lixo não só leva milhares de anos para se decompor, como também é um problema de saúde pública. “Tudo por conta das substâncias tóxicas utilizadas em sua fabricação, que contaminam o solo e a água e causam doenças como câncer”, relaciona. O destino dos e-resíduos está nas mãos do Congresso Nacional, que desde 2007 discute um projeto de lei que institui a Política Nacional para Resíduos Sólidos. Atualmente a proposta

está tramitando na Câmara dos Deputados e não tem data para ser votada. A ausência de regras específicas, e que estavam amparadas no projeto de lei, atualmente impede a fiscalização por órgãos como a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Sem isso não há como exigir licença ambiental de empresas que manuseiam o e-lixo.

Gabriel Guedes/GES-Especial

RECICLAGEM Mesmo assim, em Novo Hamburgo os empresários Marcos Palma e Jeferson Messa (foto ao lado) apostam desde 2008 no recolhimento da e-sucata. “Começamos com um prédio de 35 metros e agora estamos em outro com 300. Temos conseguido remeter até dois carregamentos por mês”, frisa Palma. Isso porque a empresa trabalha apenas com o encaminhamento do e-lixo para reciclagem em São Paulo. “O Estado não conta ainda com este serviço. Como garantia, o dono recebe um certificado que atesta o processamento correto do produto”, assegura Messa. A empresa hamburguense compra a sucata tecnológica a R$ 0,15 por quilo. A exceção são os monitores, que precisam do pagamento de 7 reais para o descarte. “É o componente mais complicado de reciclar, por causa dos metais pesados”, justifica Palma.

Uma solução que deve refletir em inovação Em meio ao lixão tecnológico da província chinesa de Cantão, menina acha teclado de iMac, da Apple, enquanto mulheres procuram componentes para derreter e poder extrair metais pesados. Na Índia, homem vive em meio a uma oficina de reciclagem de resíduos eletrônicos

A principal solução para o e-lixo no Brasil esbarra na burocracia. Para o coordenador do curso de Gestão Ambiental da Unisinos, Claudio Senna Venzke, somente a lei obrigará fabricantes a alterar uma série de componentes visando à diminuição dos impactos ambientais. “Já deveria começar a ter uma discussão sobre o assunto”, alerta. Venzke acredita que uma solução deve surgir no futuro pró-

ximo. “Agora é que se está começando a discutir o problema. O que existe, por enquanto, é algo em relação a alguns produtos tóxicos e a lâmpadas fosforescentes e baterias. Mas ainda falta uma legislação para eletrônicos”, destaca. Produtos como pilhas e baterias, lembra o coordenador, só começaram a ter tratamento diferenciado com a existência da legislação que obrigou o destino

correto ao fim da vida útil. “Antes os fabricantes colocavam qualquer componente. Agora já há pilhas sem cádmio e sem chumbo, o que é uma evolução benéfica à natureza”, compara. Para Venzke, a solução para equipamentos obsoletos passa pela extensão da vida útil, com a atualização do máximo de componentes. “E usar computadores velhos para inclusão digital não é solução definitiva”, conclui.


REPORTAGEM

DOMINGO 5.7.2009 JORNAL ABC

do e-Lixo

de descartá-la. Assim surge o lixo eletrônico

Hardware usado ganha vida na educação de jovens

Gabriel Guedes/GES-Especial

QUALIFICAÇÃO: jovens de Ivoti e Estância Velha aprendem eletrônica Em um exemplo de como reaproveitar o hardware descartado, adolescentes de Ivoti e Estância Velha têm aulas de Manutenção de Computadores usando peças velhas. A iniciativa integra o projeto Tecnologias a Serviço da Comunidade, desenvolvido pelo Instituto de Educação Ivoti (IEI) e atende a alunos de escolas da rede pública de ambos os municípios. O projeto, que teve a primeira edição em 2003, cultiva outras boas ideias, como a adoção do software livre nos computadores

que são montados com as partes doadas pela comunidade. “Aqui desmitificamos a novidade e tiramos aquela ideia de que o velho não presta mais. Queremos que se sintam capazes de reinventar”, explica um dos coordenadores do curso, o professor de hardware e robótica Vanderlei Kriesang. Aos 20 alunos do curso, a conscientização sobre a reciclagem começa a dar resultados. “É uma coisa que estamos recuperando, salvando estas peças”, conta o estudante Renan Noetzold Conferi, 16 anos.

Ações de TI Verde para diminuir impactos Entende-se por TI Verde o conjunto de ações da Tecnologia da Informação (TI) que contenham no seu DNA práticas ecologicamente corretas. Neste sentido, a ONG Greenpeace tem monitorado trimestralmente o desempenho global das grandes empresas de TI em relação ao meio ambiente. Com uma unidade sediada no Estado, em Eldorado do Sul, a fabricante de computadores Dell é uma das companhias que tem atu-

ado para diminuir os impactos de seus produtos na natureza. “Nossa meta é diminuir a necessidade dos recursos providos pelo meio ambiente”, esclarece o diretor geral da divisão brasileira, Raimundo Peixoto. A Dell, conforme o diretor, tem utilizado o mínimo de metais pesados nos equipamentos produzidos. Além disso, nas trocas de computadores, tem atuado na recepção das máquinas dos clientes,

mesmo que sejam de outras marcas. “Numa empresa, por exemplo, computadores com três anos de uso têm ainda utilidade”, demonstra. Uma das iniciativas da corporação é o programa Cidadão Digital. Segundo Peixoto, desde 2006 foram doados 1.682 computadores usados no Estado e em São Paulo, beneficiando 6 mil alunos de escolas técnicas de informática.

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ENTREVISTA/DEPUTADO FERNANDO MARRONI

Uma política de resíduos sólidos pela metade

Integrando a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável na Câmara, o deputado federal Fernando Marroni (PT-RS) defende uma nova política de resíduos sólidos. Para o parlamentar de Pelotas, a legislação, que hoje prevê apenas o destino de embalagens tóxicas, precisa amparar o lixo eletrônico. Mas para aprovar a nova proposta será preciso vencer a resistência contrária do setor de eletroeletrônicos. “Há também uma grande pressão dos fabricantes para que isso não se transforme em lei.” O senhor não acha que esO que é debatido sobre isso tá na hora do País ter uma na comissão em que o senhor legislação que ampare o des- participa? carte de componentes eleMarroni - A grande distrônicos, como equipamen- cussão gira em torno do PL tos de informática e celulares 1991/2007. velhos? Fernando Marroni - Já há Já houve proposições do seum projeto de lei tramitando nhor sobre o tema? no Congresso. É o PL Marroni - Não. Não 1991/2007, que institenho nenhuma propotui a Política Naciosição sobre a questão. nal de Resíduos Sólidos e está sob análise Na prática, o que de um grupo de trapode ser feito enbalho coordenado pequanto o País aguarlo deputado Arnaldo da uma medida defiJardim (PPS-SP). Mas Deputado Marroni nitiva? ele retirou do texto do Marroni - Há várias projeto o tema da reciclagem iniciativas nesse sentido, como dos equipamentos eletrônicos a da Polícia Federal, que tem e de informática e restringiu a transformado caça-níqueis apreabrangência da lei às embala- endidos em computadores simgens, como as de agrotóxicos, ples para serem utilizados em por exemplo. O trabalho, ago- escolas de áreas de baixa renda. ra, é para que esse tema volte à O grande problema dos resídudiscussão com um voto em se- os sólidos de equipamentos eleparado na Comissão de Meio trônicos é não terem valor para Ambiente e Desenvolvimento a indústria e o que não tem vaSustentável para reconstituir o lor não desperta o interesse nem projeto original. mesmo dos catadores. Existe hoje uma política para os Resíduos Sólidos? Marroni - Existe uma política de reciclagem, que diz ser do fabricante a responsabilidade pelo destino final dos resíduos. Mas há também uma grande pressão dos fabricantes para que isso não se transforme em lei. Há programas de separação de lixo e de suporte para reciclagem, mas isso depende de iniciativas dos governos municipais. Mas há recursos federais para bancar isso.

O senhor acredita no potencial de transformação social que a reciclagem possa provocar em famílias de baixa renda? Marroni - Acredito e muito. Hoje a reciclagem é uma realidade de trabalho para milhões de famílias de catadores, que cada vez mais se organizam e conseguem sobreviver da renda desta atividade e se transformaram em trabalhadores que fazem um grande serviço ambiental para o País. Arte Diogo Fatturi/GES


A invasão do E-Lixo