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Aconteceu justo no primeiro dia em que meu pai me deixou voltar sozinho pra casa. Eu saí no horário certo e pelo caminho certo, seguindo os quarteirões quadrados, mas a noite parece que chegou mais cedo naquele dia. Até aí tudo bem, eu sabia bem o caminho – e os postes e prédios me iluminavam. Mas de repente: BUM (só que não fez esse barulho)! Tudo ficou escuro. E quieto. E não foi só a luz da minha rua que acabou. Foi da cidade inteira.

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Aconteceu justo no primeiro dia em que meu pai me deixou voltar sozinho pra casa. Eu saí no horário certo e pelo caminho certo, seguindo os quarteirões quadrados, mas a noite parece que chegou mais cedo naquele dia. Até aí tudo bem, eu sabia bem o caminho – e os postes e prédios me iluminavam. Mas de repente: BUM (só que não fez esse barulho)! Tudo ficou escuro. E quieto. E não foi só a luz da minha rua que acabou. Foi da cidade inteira.

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Apagão geral! Tudo bem, eu estava perto de casa. Meus olhos logo se acostumaram ao escuro. E eu ia chegar rapidinho...

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Não fosse pelos meus pés que não viram a garrafa que chutei que fez um barulhão e pelo cachorro que se assustou e não gostou do barulho, e que saiu correndo atrás de mim querendo me assustar latindo como cachorro louco, e a corrida que dei, justo pro lado errado... que ia me levar... pro Beco Escuro.

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Apagão geral! Tudo bem, eu estava perto de casa. Meus olhos logo se acostumaram ao escuro. E eu ia chegar rapidinho...

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Não fosse pelos meus pés que não viram a garrafa que chutei que fez um barulhão e pelo cachorro que se assustou e não gostou do barulho, e que saiu correndo atrás de mim querendo me assustar latindo como cachorro louco, e a corrida que dei, justo pro lado errado... que ia me levar... pro Beco Escuro.

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O cachorro parou de correr e latir – ou só de latir; então, na dúvida, meus olhos continuaram a correr sem ver pra onde estavam me levando. Subi, desci e até esqueci que o plano era seguir pelo plano (aconteça o que acontecer, disse minha mãe, não vá pelo morro pra não se perder). Quando parei, estava livre do cachorro louco que dá susto e se assusta com barulhos na escuridão, mas percebi também que eu estava totalmente perdido. No meio de um morro. E agora, pra cima ou pra baixo? Pelo escuro ou pelo mais escuro?

Eu conhecia o “Beco Escuro” só de nome. Não era muito longe de casa. Mas todo o mundo tinha medo de ir lá. Principalmente eu. Era isolado e escuro. Alguns diziam pra não ir lá porque tinha ladrões e pessoas más. Outros diziam que só tinha casas abandonadas. Outros, que havia espíritos e luzes estranhas. Na dúvida, ninguém (que eu conhecia) ia lá, porque... afinal de contas: era isolado e escuro. Bom, aquele dia estava tudo escuro. Então, não fazia diferença. Ou melhor, não fazia diferença pra mim, que, além de não ver nada, estava perdido. Aí, pensei assim: o jeito é perguntar a alguém “onde estou” e “como faço pra voltar pra casa”...

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O cachorro parou de correr e latir – ou só de latir; então, na dúvida, meus olhos continuaram a correr sem ver pra onde estavam me levando. Subi, desci e até esqueci que o plano era seguir pelo plano (aconteça o que acontecer, disse minha mãe, não vá pelo morro pra não se perder). Quando parei, estava livre do cachorro louco que dá susto e se assusta com barulhos na escuridão, mas percebi também que eu estava totalmente perdido. No meio de um morro. E agora, pra cima ou pra baixo? Pelo escuro ou pelo mais escuro?

Eu conhecia o “Beco Escuro” só de nome. Não era muito longe de casa. Mas todo o mundo tinha medo de ir lá. Principalmente eu. Era isolado e escuro. Alguns diziam pra não ir lá porque tinha ladrões e pessoas más. Outros diziam que só tinha casas abandonadas. Outros, que havia espíritos e luzes estranhas. Na dúvida, ninguém (que eu conhecia) ia lá, porque... afinal de contas: era isolado e escuro. Bom, aquele dia estava tudo escuro. Então, não fazia diferença. Ou melhor, não fazia diferença pra mim, que, além de não ver nada, estava perdido. Aí, pensei assim: o jeito é perguntar a alguém “onde estou” e “como faço pra voltar pra casa”...

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Só que não tinha ninguém na rua. Eu já disse que o beco escuro era isolado? E escuro... Mesmo assim, fui entrando na escuridão, até então perdido e sem saber aonde ia, mas cheio de coragem. Eu tinha que achar logo o caminho de casa senão nunca mais me deixariam voltar sozinho. Comecei a achar estranho não aparecer ninguém na rua. E ninguém com vela ou celular para iluminar dentro das casas. Depois achei normal, já que o apagão tinha acabado de acontecer e as pessoas podiam estar sem fósforo para acender as velas ou sem bateria para ligar os celulares. Continuei andando. Ouvi uns barulhos esquisitos e aí comecei a ficar com medo...

N

hecati! Pisei num negócio escorregadio e melado. Andei mais rápido e... ploft! Chiclete mascado, lesma amassada, ou miojo vomitado: que nojo! Enquanto andava (escorregando), os sons esquisitos pareciam me acompanhar: uns vindo de perto, outros vindo de longe. Uma mistura de risada humana, miado felino e grunhido iuh, miuh, miuh, uh, uh... uh, uh! Piada não era. Talvez um piado. monstruoso:

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Só que não tinha ninguém na rua. Eu já disse que o beco escuro era isolado? E escuro... Mesmo assim, fui entrando na escuridão, até então perdido e sem saber aonde ia, mas cheio de coragem. Eu tinha que achar logo o caminho de casa senão nunca mais me deixariam voltar sozinho. Comecei a achar estranho não aparecer ninguém na rua. E ninguém com vela ou celular para iluminar dentro das casas. Depois achei normal, já que o apagão tinha acabado de acontecer e as pessoas podiam estar sem fósforo para acender as velas ou sem bateria para ligar os celulares. Continuei andando. Ouvi uns barulhos esquisitos e aí comecei a ficar com medo...

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hecati! Pisei num negócio escorregadio e melado. Andei mais rápido e... ploft! Chiclete mascado, lesma amassada, ou miojo vomitado: que nojo! Enquanto andava (escorregando), os sons esquisitos pareciam me acompanhar: uns vindo de perto, outros vindo de longe. Uma mistura de risada humana, miado felino e grunhido iuh, miuh, miuh, uh, uh... uh, uh! Piada não era. Talvez um piado. monstruoso:

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Parei. Pra tentar ver melhor. Ver não, ouvir melhor: – Uh, uh! Fiquei P E- T R I - F I - C A - DO quando ouvi que o piado vinha cada vez de mais perto:

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– UH,

UH!

Acelerei o passo, quase correndo, e os barulhos iam aumentando, piados, mais risadas, latidos e grunhidos grudando em mim: – Gree, greee! – Uh, Uh! – Rom, rom... – Uh, uh! – Au, au! Miau, au, uh, uh, grrrmiauh, grrrmiauuuuh! Comecei a correr e vi de relance um bicho esquisito virando rápido o pescoço na minha direção. Passei correndo e o bicho saiu voando. Era bem maior que os passarinhos que eu via de dia. Flap, flap, flap... As unhas das patas de possíveis cachorros assustados assustadores roçavam no chão vindo na minha direção... Scrapt, scrapt, scrapt...

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Parei. Pra tentar ver melhor. Ver não, ouvir melhor: – Uh, uh! Fiquei P E- T R I - F I - C A - DO quando ouvi que o piado vinha cada vez de mais perto:

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– UH,

UH!

Acelerei o passo, quase correndo, e os barulhos iam aumentando, piados, mais risadas, latidos e grunhidos grudando em mim: – Gree, greee! – Uh, Uh! – Rom, rom... – Uh, uh! – Au, au! Miau, au, uh, uh, grrrmiauh, grrrmiauuuuh! Comecei a correr e vi de relance um bicho esquisito virando rápido o pescoço na minha direção. Passei correndo e o bicho saiu voando. Era bem maior que os passarinhos que eu via de dia. Flap, flap, flap... As unhas das patas de possíveis cachorros assustados assustadores roçavam no chão vindo na minha direção... Scrapt, scrapt, scrapt...

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O mistério amarelo da noite  

por Fabio Lisboa

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