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Na Telinha

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Pelo Mundo

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Personagens de seriados e seus automóveis

eu sempre fui fã do Batman. Puxando pela memória, os episódios passavam no domingo ao fim da tarde e eu ficava muito contrariado, caso houvesse uma festa de aniversário ou coisa assim, para me tirar de casa. Assistia os episódios em uma velha TV de marca Emerson, preto e branco (claro!), que meu avô havia deixado no meu quarto. Com seis ou sete anos de idade, em 1966, mal percebia eu que aquelas cenas eram pura sátira, que o herói era um comediante. Mas o Batmóvel era real. Um moleque da minha idade, vizinho, era fã do Speed Racer, fanático pelo Mach 5, e eu não conseguia convencê-lo de que o Batmóvel era melhor, só porque era real.

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o Batmóvel foi uma criação de George Barris, a partir de um Lincoln Futura de 1955

Esse foi o primeiro carro de personagem de que me lembro de ter conhecido, muitos outros vieram depois. Meu pai assistia Rota 66, um seriado de 1960, acho que mais por causa do Chevrolet Corvette do mesmo ano do que pelas fracas histórias. Mais antigo ainda era o seriado nacional Vigilante Rodoviário, de 1959, no qual o vigilante Carlos, da Polícia Rodoviária, perseguia os vilões em seu Simca Chambord do mesmo ano e os capturava só à base dos socos. Eu não gostava muito desse, apesar de nosso Simca brasileiro fazer parte da trama. Só assisti a reprise no início dos anos 70.

o sunbeam Tiger Mark i de 1965 apareceu nas duas primeiras temporadas de Get smart

Ainda dos anos 60, tinha Maxwell Smart, o Agente 86, que desfilava uma galeria de pequenos esportivos no início dos episódios, o Besouro Verde, com seu carrão preto dirigido por ninguém menos do que Bruce Lee, e a família Munster, com um carro de dar medo. Esse até merece uma história contada à parte. Os Monkees eram um grupo de rock fictício criado especialmente para o seriado de 1966 de mesmo nome, mas como eles se tornaram um sucesso na música, acabaram virando um conjunto real, com direito a hits e um carro especial, o Monkeemobile, feito a partir de um um Pontiac GTO modificado.

A maior parte dos carros de seriado que me lembro eram dos anos 60 e nenhum deles era, ainda, a estrela do show, como iria acontecer anos depois. Até então, eles eram apenas dirigidos pelos protagonistas, como no seriado O Santo (The Saint, de 1962). Nele, um Roger Moore ainda novinho, anos antes de se tornar o agente 007, corria atrás dos vilões em um belo Volvo P1800S.

Nos seriados familiares como A Feiticeira, de 1964, o marido da bruxinha dirigia um Chevrolet Camaro, enquanto que seu chefe, Larry Tate, dirigia um carro mais caro, um Chevrolet Corvette.

Também familiar, mas nem tanto – a protagonista exibia a sensualidade em trajes sumários –, o seriado Jeannie É Um Gênio, de 1965, optou pelos Pontiac, como o Bonneville e o GTO.

Em Hawai 5-0 (Hawaii Five-O, de 1968), o detetive McGarret dirigia um Mercury Park Lane do mesmo ano. Ele usou o carro por seis anos.

Em 1970, surgia “a família mais musical da TV”, a Partridge Family, conhecida por “Família Do-Ré-Mi”. Era mais ou menos legal e eu ficava imaginando ter um ônibus daqueles, com a típica pintura psicodélica, como tudo o que estava na moda, na época. Ainda não desisti da ideia.

Em 1971 surgiram muitos novos detetives na telinha, como o Canon e seu Lincoln Continental Mark IV, que tinha a tampa do porta-malas no formato do estepe, mais ou menos estilizando os kits continental muito usados nos anos 50.

o ônibus da Família do-ré-Mi, que tinha pintura psicodélica, era um Chevrolet de 1957

Um detetive bem famoso nos anos 70 foi Columbo, aquele que fazia até os inocentes confessarem um crime, de tão chato que ele era (mas isso não acontecia no seriado, era só uma das piadas da revista Mad, na edição em que satirizou o seriado). Vestindo um sobretudo velho e amarrotado, ele chegava nas cenas de crime dirigindo o seu também velho e acabado Peugeot 403 cabriolet 1960.

Outros detetives de ocasião, ainda em 1971, eram os amigos e rivais de Persuaders, dois playboys, cada um à sua maneira, que viviam tirando racha com seus carros. O lord inglês Brett Sinclair tinha um também inglês Aston Martin DBS e seu amigo americano tinha um Ferrari Dino 246 GT. O Aston Martin de Brett Sinclair fingia ser um V8, por estar equipado com as rodas desse modelo, mas, na verdade, era uma versão com motor de seis cilindros. A placa também não era BS1, de Brett Sinclair 1, como aparecia nas cenas, mas sim PPP6H. A placa real foi mostrada, sem querer, em um dos episódios, devido a um erro da produção.

Pulando para 1975, temos um verdadeiro ícone automotivo da TV, o Ford Gran Torino vermelho dos detetives Starsky & Hutch. Os produtores queriam um Chevrolet Camaro verde e branco para a série, mas como a General Motors não os atendeu, optaram pelo Ford.

Um outro ícone dos automóveis clássicos americanos, mas que não teve muita repercussão na telinha, foi o Ford Thunderbird 1957 do detetive Dan Tanna, do seriado Vega$ (assim mesmo, com o cifrão no lugar do S). Mais do que o carro, que eu gostava muito (preferia o 1955), eu achava o máximo o protagonista ter um telefone no carro, com o qual ele conversava enquanto dirigia. Hoje, sabemos que essa atitude é extremamente perigosa, além de ser ilegal.

Um seriado muito popular no final da década foi Os Gatões (The Dukes Of Hazzard, 1979), cujo maior feito foi mostrar as proezas dos irmãos Bo e Luke com o Dodge Charger 1969 de nome General Lee. Com esse carro, que tinha as portas soldadas (eles entravam pelas janelas) eles fugiam da polícia, no interior da Geórgia, faziam muitas acrobacias e até voavam, razão de terem sido destruídos cerca de 300 deles nas filmagens, que se estenderam até 1984. Esse é um daqueles seriados em que se pode dizer que o astro principal era mesmo um automóvel.

General Lee, o dodge Charger 1969 dos Gatões, se tornou uma celebridade

o detetive dan Tanna, de Vega$, tinha um telefone em seu Ford Thunderbird de 1957

Anos 80. Talvez a década dos seriados. Enlatados gringos, como diziam os defensores dos programas genuinamente brasileiros, pouco em voga na TV naquele época. Foi também quando surgiram as séries cujo protagonista não era uma pessoa, mas sim o carro. Muitos deles, como a Supermáquina, de 1982 (Knight Rider). O Pontiac Firebird Trans Am do mesmo ano tinha o nome de K.I.T.T. – Knight Industries Two Thousand –, e era o ator principal, falava, se movia por conta própria e tomava decisões. Após a série, todos queriam ter um Pontiac Trans Am igual, inclusive com a luz vermelha frontal.

O Ferrari 308 GTSi de 1984 não era o principal no seriado Magnum, mas era quase isso. Acho que todos suportavam as histórias mirabolantes mais para ver o carro. O primeiro ano da série foi 1980, quando foi utilizado um Ferrari 308 GTS 1978, caracterizado por não ter o espelho retrovisor direito e nem o spolier sobre o vigia traseiro.

As temporadas seguintes tiveram um Ferrari 308 GTSi 1980, já com o espelho direito. Foi só em 1984 que veio o GTSi desse ano, já com o novo motor Quattrovalvole, spoiler traseiro e mais alguns detalhes, como as grades pintadas de preto. A ideia inicial dos produtores era usar um Porsche 928, mas o pedido foi negado pelo fabricante.

o primeiro carro de Magnum era um Ferrari GTs de 1978, sem o espelho retrovisor direito

Em 1981 foi a vez de Duro na Queda (The Fall Guy), série que fez explodir a venda de pneus enormes para as picapes, que já eram a paixão dos norte-americanos. O dublê de proezas cinematográficas praticamente comprava um jogo desses pneus em cada episódio, que

Alguém lembra de Tempo Quente (Riptide, 1984)? Lembro vagamente, nunca assisti. Mas tinha um Chevy Corvette 1960 igual ao de Rota 66, só que levemente customizado, com rodas especiais e chamas pintadas nas laterais. Já era um uso vintage do modelo. A história de veteranos do Vietnam que viraram investigadores era rivalizada, na mesma época, pela série Esquadrão Classe A.

Essa série (A-Team, 1983), apesar de inverossímil, era muito divertida e cheia de ação, com jipes capotando e explodindo sem que os ocupantes se ferissem. O carro mais importante era um furgão GMC Vandura 1983, que pertencia a um dos personagens, o grandalhão BA Baracus.

o Chevrolet Corvette 1960 de Tempo Quente

o furgão GMC Vandura 1983 de a-Team

sonny Crockett e ricardo Tubbs e o Ferrari Testarrossa 1986, no seriado Miami Vice

Talvez o último seriado dos anos 80 a ter carros relevantes, Miami Vice, de 1984, contava a história de dois detetives da narcóticos sempre perseguindo criminosos. O carro mais usado para isso era o Ferrari Testarrosa 1986 branco de Sonny Crockett, já que o carro de Ricardo Tubbs era um transatlântico Cadillac Coupé DeVille conversível de 1964.

Mas a história por trás das câmeras era mais interessante: nas primeiras temporadas da série, Crockett tinha um Ferrari Daytona preto, com o qual fazia miséria nas ruas de Miami. Isso porque o carro era uma réplica, feita sobre um Corvette C3, novinho na época. A Ferrari não gostou disso e cedeu o testarrossa branco para as temporadas seguintes.

Para justificar a troca dos carros, em um dos episódios, quando Crockett fingia ser um comprador de armas, o vendedor, para mostrar a eficiência de seu canhão, explodiu e réplica. No final, todos felizes.

Anos 90, agora. O interesse pelas séries diminuiu, pelo menos para mim, mas parece ter aumentado a quantidade. Dessas, destaco a série inglesa Mr. Bean, cujo protagonista, Rowan Atkinson, certamente se inspirou no diretor francês Jacques Tati. Mr. Bean, muito engraçado, dirige um icônico Mini inglês, às vezes também fazendo parte da história. Jacques Tati também usou e abusou dos automóveis em seus filmes, dos anos 40 até início dos anos 70, mas os carros dos filmes de longa metragem serão comentados em outra ocasião.

Mr. Bean em seu Mini, em uma das cenas da série inglesa

Para finalizar, um seriado recente, de 2008: Breaking Bad. Os carros têm pouca importância nas histórias, mas um, em especial, me diz alguma coisa, justamente o que o principal personagem dirige. É um Pontiac Aztek, considerado um dos mais feios automóveis já produzidos, inclusive por mim. O interessante é que eu estive no seu lançamento, em 2001, em Detroit, e na hora não entendi como alguém poderia gostar dele. Feio ou não, o carro ficou famoso ao aparecer no seriado, este, por sua vez, altamente considerado pela crítica especializada. l

o protagonista de Breaking Bad e seu Pontiac aztek. depois disso o carro ficou famoso

Os carros esporte de Maxwell Smart

Na abertura dos episódios do seriado agente 86 (Get smart), o agente chegava em quatro carros esporte diferentes. o sunbeam Tiger vermelho foi usado nas duas primeiras temporadas, em 1965 e 1966, o Karmann Ghia azul nas duas seguintes, em 1967 e 1968, e o opel GT na quinta e última temporada, em 1969. No episódio piloto de 1965, em preto e branco, o carro era um Ferrari 250 Cabrio, de produção limitada

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