Waldir Ribeiro do Val
COMO CONHECI SCHMIDT Como foi que nos conhecemos? Através do poeta parnasiano Raimundo Corrêa, já falecido à época. Foi a biografia deste que nos aproximou. Eu tinha preparado a 5ª edição das poesias para a Livraria São José. Schmidt foi convidado pela Editora Aguilar para falar sobre o soneto “Mal Secreto” do poeta Raimundo. Procurou nessa livraria se tinha algum livro e, surpreso, encontrou o meu. Pesquisou quem eu era. Foi por aí que Schmidt me convidou. Queria conversar comigo e, já no dia seguinte, começamos a trabalhar diariamente, lá na biblioteca escritório de sua residência, em Copacabana, bairro nobre da zona sul do Rio de Janeiro, na Rua Paula Freitas, nº 20. Ao tentar reviver a personalidade admirável que foi o poeta e memorialista Augusto Frederico Schmidt, cumpro o desejo do próprio escritor que conheci bem e de perto, e que, através de um simples telefonema e convite para trabalhar com ele, fez do autor deste livro seu secretário literário e fiel colaborador. Sobre alguns fatos que ele participou, e estando eu presente, ele dizia: “está anotando isso para a minha biografia?”. Schmidt foi um poeta admirável e, infelizmente, esquecido pela geração atual. E foi justamente por isso que estou lançando esta biografia dele! Waldir do Val
Vida e Poesia de
Augusto Frederico Schmidt
Waldir Ribeiro do Val
Vida e Poesia de
Augusto Frederico Schmidt
Copyright © 2020, Eliane Georgette Peyrot E-mail: elypeyrot@yahoo.fr
Texto de acordo com as novas regras da língua portuguesa. 1ª Edição, 2020. Produção editorial: Casa Lauand (manoel@lauand.com.br) Capa e projeto gráfico: Gabriela Guenther
Agradecemos a Elaine Batista, da Unesp, pelo envio das fotos.
O Poema da quarta capa foi tirado do livro Eu Te Direi as Grandes Palavras, 2ª Edição, 1977, pag. 128.
“Vale ressaltar que esta obra aborda, principalmente, o início da vida literária de Schmidt, vivenciada com promissores poetas, escritores e jornalistas, com os quais ele desenvolveu um rico círculo de amizades que deu origem ao seu sucesso.” – Tania Ignatiuk Alves
Sumário A Família Schmidt 7 O Primogênito 8 Infância em Copacabana 9 Viagem à Europa 10 Regresso ao Brasil 11 O Primeiro Poema 12 A Doença de Annita 13 Ajudante de Caixeiro 17 Recomeçando em São Paulo 19 Negócios no Paraná 21 Em Nova Iguaçu 22 Na Livraria Católica 28 Schmidt Editor 32 O Casamento 40 Schmidt Esportista 41 O Conferencista 44 Schmidt Sempre Presente 48 Schmidt Poeta 52 Rui Barbosa, Defensor do Homem 56 Schmidt Traduzido 58 Homenagem da Revista Acadêmica 58 Uma das Muitas Entrevistas 62
Morte na Família 63 A Morte da Avó 65 Jornalista-Polemista 65 Schmidt e Juscelino Kubitschek 69 Schmidt Jornalista 71 Relações Internacionais: Operação Pan-americana (OPA) 74 A Última Entrevista 75 Ataque e Defesa 75 Nasceu no Rio de Janeiro, sempre foi gordo e sempre usou óculos 76 Exuberância & Borboleta 76 O Adeus ao Poeta 77 O Poeta 83 Homenagem na Academia Brasileira de Letras 84 Uma Visão de Schmidt – por Pedro Dantas 85 Poemas Quase Esquecidos 91 O Descobrimento do Brasil 91 Suma 103 Canto da Aurora 118
Breve Fortuna Crítica 122 Em Defesa da Literatura 125 Bibliografia de Augusto Frederico Schmidt 133 Pérolas Poéticas Schmidtianas 139
A Família Schmidt Frederico Augusto Schmidt, o futuro avô do poeta Augusto Frederico Schmidt, nasceu e foi batizado na freguesia de Santa Rita, filho de Jorge Schmidt e Matilde Porfiria de Souza. Era negociante no Rio de Janeiro, onde tinha duas grandes lojas de tecidos importados: uma na Rua da Alfândega, 68, outra na Rua Riachuelo, 97. Era casado, desde 1869, com Maria Antônia de Araújo, nascida em 1850, que veio a falecer em 9 de junho de 1892. O negociante recebera o título de Visconde de Schmidt por decreto de 16 de janeiro de 1891, de Dom Carlos I, Rei de Portugal. O casal tinha dois filhos, Jorge e Gustavo, e para eles foi dada uma educação primorosa. Jorge, o primogênito, era jornalista, fundara várias revistas e publicava, com boa receptividade, a revista Careta. Gustavo estudara na Inglaterra, e se vangloriava disso. Seguindo a tradição da família, Gustavo também era negociante. Ele tinha duas lojas: Ao Primeiro Barateiro, na Avenida Central (que depois se chamaria Avenida Rio Branco), num prédio bem perto da Rua do Ouvidor, conhecido pelo apelido de “Ferro de Engomar”, pela semelhança com os ferros de passar roupa de outrora; e outra, O Paraíso das Crianças, loja de roupas infantis, na Rua dos Ourives (depois denominada Miguel Couto). A escrita das lojas de tecidos de Frederico Augusto Schmidt era feita por um guarda-livros, denominação dada aos que cuidavam da escrituração das casas de comércio. Nesse tempo, exercia essa função nos negócios da família Schmidt o Sr. João de Azevedo, natural de Pernambuco, que residira em Salvador, e ali casara com a gaúcha, 7
da cidade de Rio Grande, Francisca Outubrina Teles de Menezes. O casal tinha uma única filha, Annita, que nascera em Salvador. A jovem Annita raramente acompanhava o pai nas suas andanças de guarda-livros. Mas, certo dia, resolveu esperá-lo nas redondezas da loja do Sr. Schmidt. Morena atraente, não tardou ser vista com interesse pelo filho mais novo da família Schmidt, Gustavo, que se dirigiu a ela, puxando conversa. Passaram um bom tempo conversando enquanto o guarda-livros não aparecia, e marcaram novo encontro. O namoro seria rápido, pois, em pouco tempo, ficariam noivos. O casamento de Gustavo e Annita não demorou a ocorrer. Realizou-se em uma cerimônia simples: o juiz de paz e seu escrivão compareceram ao local determinado, a residência do noivo, à Rua Marquês de Olinda, número 2, em Botafogo. Ali se encontravam as testemunhas, sendo Jorge Schmidt o representante da família do noivo. No religioso, a mãe da noiva estava tão elegante que o celebrante, Padre Vals, derreteu-se em elogios a ela. E até exagerou. Não pegou nada bem o enorme entusiasmo do sacerdote, comentaria a avó com o neto, muitos anos depois. Uma viagem a Paris foi o presente de casamento de Gustavo a sua jovem esposa. Além dos passeios, das visitas, o marido levou-a a um renomado estúdio fotográfico. Sua bela fotografia seria apreciada pela família, e, posteriormente, pelos filhos.
O Primogênito Era um menino, o primeiro fruto do casamento do casal Annita e Gustavo. Viera à luz em casa da tia de Annita, Isolina Serrano, e seu marido Aureliano Augusto de Souza Serrano, major na guerra do Paraguai, residentes à Rua Marquês de Abrantes, número 14. O menino seria batizado como Augusto Frederico, em homenagem ao nome de seu avô. O casal teria ainda duas filhas, Madalena e Annita.
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Infância em Copacabana A primeira residência da família situava-se na então denominada Rua Nossa Senhora de Copacabana. A casa, alugada, ficava um pouco no alto, à direita de quem ia do centro da cidade. Nela se subia por um elevador. Era uma casa grande demais para a pequena família. Gustavo alugou depois uma casa situada também na Rua Nossa Senhora de Copacabana, número 1023, cujo quintal se estendia até a Avenida Beira-Mar, pouco antes aberta. A antiga casa em que haviam morado foi alugada para um colégio, de tão espaçosa que era. Augusto Frederico, ainda bem criança, e depois as irmãs, costumavam ir à praia, quase deserta, sempre acompanhados pela mãe e suas tias-avós. Copacabana era ainda um vasto e inóspito areal, onde havia pitangueiras, goiabeiras e outras árvores. As casas baixas davam a ideia de uma pequena cidade do interior. Ali, bem próximas, na Rua Hilário de Gouveia, destacavam-se duas casas gêmeas: numa residia uma tia de sua mãe, viúva, que o menino Augusto iria sempre chamar de tia Tetéia; a outra ela alugava, completando o que precisava para suas despesas. Gostava de receber visitas e detestava o Carnaval. Apesar disso, num Carnaval em que o menino Augusto não podia sair, pois estava com febre, sua tia Tetéia arranjou-lhe uma roupinha carnavalesca, e com ele brincava dentro de casa. Na residência em Copacabana, o futuro poeta muito brincou e se distraiu, juntamente com suas irmãs. Foi lá que teve sua primeira paixão infantil, como também suas primeiras dores de amor e desilusões. Ainda menino, ajudava a tia, levando a algumas padarias próximas os doces que ela preparava para pôr à venda. À noite, certos dias, acompanhava a mãe e a tia nas visitas que faziam à igrejinha de Copacabana, então existente onde depois se instalaria o Forte de Copacabana. Quando sua tia morreu, a família encontrou, sob seu travesseiro, a fantasia de carnaval do sobrinho-neto tão querido. 9
Viagem à Europa Annita não se encontrava bem de saúde. Tentara uma estação de águas, sem resultado. Gustavo também se sentia doente. Tomou a decisão de tentarem um tratamento na Suíça. Estava esperançoso de que ele e Annita ficariam curados, se fizessem uma temporada num sanatório daquele país. Gustavo anunciou na revista Careta, de seu irmão, a venda, com descontos, dos artigos de suas lojas: “Ao Primeiro Barateiro. Este importante estabelecimento da Avenida Central, tendo ultimado seu balanço anual, está vendendo, a preços extraordinariamente reduzidos, seu considerável stock de fazendas, armarinho e confecção. Aproveitem a ocasião excepcional.” Pouco depois seguiu com a família – Annita, os três filhos, mais a avó das crianças e a babá Francisca –, num navio que fazia parada em Salvador. Do navio tomaram um caíque para os levar ao porto, pois desejavam visitar um casal muito amigo da família de Annita, do tempo de sua residência em Salvador. Foi uma festa reverem Annita, casada, com filhos. Muito conversaram, lancharam, e se assustaram com o tempo que passava depressa, aflitos com o navio que deveria estar pronto para partir. A viagem foi preocupante. Época de guerra, o navio viajava com as luzes apagadas, pois havia receio de ser atingido por torpedos. Ouviam conversas sobre isso. Navios brasileiros já haviam sido afundados. Felizmente, a viagem terminou sem acidentes. Mas numa estação de trem, em Paris, as crianças e os demais viajantes viram com espanto Gustavo cair na plataforma, um fio de sangue saindo-lhe da boca. Na viagem para a Suíça, Augusto e as irmãs puderam apreciar a paisagem, tão diferente da que estavam acostumados no Brasil. A mãe e a avó internaram-se num sanatório em Territet, na comuna de Montreux, e os filhos seguiram, com o pai e a babá, para se matricularem no Colégio Champ-Soleil, em Lausanne. As crianças e a babá 10
Francisca se hospedariam na pensão da família Abrams, próxima do colégio. Gustavo internou-se também no sanatório em Territet. Deve ter sido difícil, certamente, o início dessa primeira etapa da vida de estudantes das três crianças. A dificuldade de entender e falar a língua francesa, que aos poucos foi diminuindo, e que serviria no futuro a Augusto para ler livros de autores franceses, e depois, quando adulto, para conversar com vários deles. Mas ali, no Champ-Soleil, Augusto era de certo modo descriminado pela sua inicial dificuldade com a língua francesa. O menino muitas vezes se isolava, ausente das brincadeiras dos outros alunos. Às vésperas do Natal, uma professora levava as crianças a uma pequena floresta para colherem galhos de arbustos, que iriam servir para montarem árvores de Natal. Aos domingos, o pai ia buscar os filhos para um passeio. Procurava distraí-los, ora caminhando com eles, às vezes levando-os a um passeio de barco, e uma vez levando-os a um circo, onde se divertiram com os palhaços e os animais. Certa vez o pai mostrou-se mais atencioso do que de costume. Almoçou com os filhos, comprou chocolates de várias marcas, até que, já quase noite, deixou-os perto da casa dos Abrams. Despediu-se de maneira um pouco diferente. Parecia triste. Dias depois, as crianças receberiam a terrível notícia: o pai havia morrido em Territet, ao lado de Lausanne, em 7 de junho de 1913. No colégio, o pequeno Augusto foi colocado de pé e lhe puseram no uniforme um “fumo”, sinal de luto. Iniciava-se ali outra vida, uma vida de dificuldades, uma vida de pobreza.
Regresso ao Brasil Foi complicada a volta ao Brasil. Primeiro, as dificuldades da travessia da Suíça e da França a Portugal. Depois, a busca por um navio que os trouxessem de volta. Tudo isso foi conseguido pelo es-
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forço de duas mulheres: a avó e a mãe das crianças. Que falta lhes fazia o chefe da família... Ninguém imaginaria que ele fosse o primeiro a falecer, sepultado num cemitério desconhecido, talvez até como indigente! A viagem transcorreu sem problemas, mas com as preocupações que uma viagem durante a guerra acarretava. Chegando ao Rio de Janeiro, dirigiram-se à residência dos avós das crianças, em Vila Isabel. A casa era modesta, tinha um quintal, em que entravam cachorros em busca de alguma sobra de comida. A presença deles tornou-se a alegria das crianças e a preocupação do avô. Uma cachorra, especialmente, era a favorita das crianças. Meiga, olhava-as com olhos suplicantes. O avô a enxotava, Augusto e as irmãs lhe imploravam que a deixasse ficar, eles cuidariam dela, era tão mansa, tão meiga. O avô comoveu-se com a insistência dos netos e deixou-a ficar, sob a condição de que eles cuidassem dela. As crianças deram-lhe o nome de Zurica.
O Primeiro Poema A casa tornara-se pequena com a presença dos que haviam chegado. Além disso, a rua estava mais barulhenta, principalmente à noite, com maior freguesia no bar próximo. O avô às vezes chegava tarde, depois da meia-noite. Costumava ir a um centro espírita, onde pretendia falar com os mortos. Annita resolveu procurar outra residência, e ela foi encontrada não muito longe dali: uma casa geminada, onde, na outra residência, também moravam crianças. A mudança transcorreu tranquila. Mesa, cadeiras, armários, tudo se acomodava na carroça puxada a burro. A cachorra ia na boleia, contente, parecia a sentinela da viagem. Pouco depois da chegada ao novo pouso, verificou-se que não havia lugar para ela, e foi necessário levá-la de volta. Várias tentativas foram feitas, em vão. Apesar da
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distância, ela teimava em voltar. As crianças suplicavam ao avô que a deixasse ficar na casa dele, mas o avô se mostrava surdo aos pedidos dos netos. Augusto não compreendia a dureza do avô. Após muitos anos, quando o avô e a avó já haviam morrido, remexendo os papéis velhos da avó, Augusto encontrou o poema que escrevera vários anos antes, ainda menino, descrevendo sua tristeza pela ausência da cachorra. Era o seu primeiro poema, o início de sua grande viagem pelos caminhos da poesia. Muito mais tarde, já adulto, ofereceria o original desse primeiro poema a seu amigo Alceu Amoroso Lima, que o guardou como peça poética curiosa do então poeta iniciante: “Não sei porque a gente começou a chamar ela de Zurica. / E ela ficou assim chamada. Todo mundo dizia que era feia, que era muito suja, / Mas a gente gostava dela / Era mansa e mancava / Todo mundo dizia: Passa, feia! / A gente a achava até bonitinha…” E o poema “Zurica” estendia-se por duas páginas manuscritas do iniciante poeta Augusto Frederico Schmidt.
A Doença de Annita Annita precisava continuar seu tratamento. Passou algum tempo em Campos de Jordão. Mas era preciso alugar uma casa em local apropriado, mais em conta, e ela foi encontrada em Petrópolis. Relações antigas de família propiciaram o aluguel. O jornalista Carlos Maul, em artigo no Jornal do Commercio, depois da morte do poeta, relembraria esse tempo, de 1910 a 1914, quando “teve a oportunidade de acariciar um garotinho gorducho e simpático, que se chamava Augusto, numa casa modesta da Rua Mosela, num cimo de morro, ao lado de sua mãe enferma, em busca de clima de montanha”. O menino Augusto estava na idade de ir à escola. A família conseguiu sua matrícula como interno no Colégio Diocesano de São José, então no Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Mas ele não se
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adaptava ao colégio, aos colegas, vivia isolado na hora do recreio. Aguardava, ansioso, os sábados, dia em que sua tia Tetéia ia visitá-lo, levando-lhe doces. Ela nunca faltava. Era, na época, a única alegria do menino. Fez ali no São José sua primeira comunhão. Sentia-se tocado pelo sacramento, e, adulto, em uma entrevista, iria declarar, naturalmente exagerando, que o acontecimento mais importante de sua vida fora sua primeira comunhão. Foram tentados outros colégios. No São Bento, no centro do Rio de Janeiro, não se adaptava aos horários, à piscina, onde os mais atletas davam “caldos” nos novatos. Um dia um primo seu, recém -matriculado, mostrou-se na piscina um corajoso nadador, salvando o nome da família Schmidt. Para o menino Augusto, a hora dos estudos era monótona. Como faria para suportar a leitura nem sempre agradável das lições? Seu primo apresentou-lhe uma solução: escavar as páginas de um livro grosso, e ali colocar um romance ou outro livro. O estratagema deu certo. Augusto agora lia com prazer as páginas de romances ou de poesias, como se estivesse estudando as lições. Mas não durou muito sua alegria. Ao encarregado de fiscalizar os estudos pareceu estranha a mudança de comportamento do aluno, e, chegando perto dele, sorrateiramente, descobriu a manobra, levando-o ao padre diretor. No São Bento foi colega de vários jovens que, quando adultos, seriam reconhecidos artistas, como Noel Rosa, Paschoal Carlos Magno, Djalma Maia e tantos outros. Um episódio que mais o tocou nessa época foi a chegada de Rui Barbosa ao cais quase abaixo do colégio. Quando adulto, já um escritor conhecido, Augusto recordaria esse episódio de sua vida de menino estudante, em sua conferência sobre o grande vulto, na Casa de Rui Barbosa. Além do São Bento, frequentou por algum tempo, no Rio de Janeiro, o Liceu Francês, então situado na Rua do Catete, não longe da sua residência (morava com a avó na Rua Ypiranga). Esteve também por algum tempo interno num colégio da Tijuca, o Instituto 14
Beltrão. Ali, aos domingos, admirava a figura do então bem jovem poeta Heitor Beltrão, sempre elegante. Foi aluno também, por pouco tempo, do Colégio Sílvio Leite. Um episódio que ficou marcado em sua vida, embora ele não o tenha relembrado em suas memórias, foi o que ocorreu no dia 19 de junho de 1924, na Academia Brasileira de Letras. Os jornais noticiavam com frequência que o escritor Graça Aranha iria proferir na Academia uma palestra sobre o “Espírito Moderno”, que iria contra a Academia. Muitos anos depois, o escritor Jaime Adour da Câmara publicaria na revista Fon-Fon (janeiro de 1958) suas observações sobre aquele dia: “Nunca esquecerei aquela tarde de junho. Tenho diante de mim a figura de Coelho Neto, que se agigantou na tribuna ao responder ao escritor de Estética da Vida. As suas palavras saiam encachoeiradas; a sua voz vibrante, metálica, encheu a sala com um eco estranho, a conclamar seus pares para a defesa dos postulados acadêmicos. Osório Duque Estrada tentou falar, sendo impedido pelos amigos exaltados de Graça Aranha. Após a refrega, os dois oradores foram carregados pelos elementos mais hábeis dos dois grupos. Recordo-me de Augusto Frederico Schmidt e Tristão de Atayde a carregar Graça Aranha, a se debater surpreso com a homenagem.” Mas o colégio em que o jovem Augusto mais aproveitou as aulas foi no Instituto “O Granbery”, de Juiz de Fora. Viajou de trem acompanhado pelo amigo da família, João Betencourt. Na viagem, sentou-se ao lado de um senhor que ele conhecia de fotografias em jornais. Tratava-se do poeta e deputado mineiro Augusto de Lima. O futuro estudante do Granbery perguntou-lhe: “O Senhor não é o poeta Augusto de Lima? Eu o conheço de fotografias.” E ele indagou-lhe: – E você, o que quer ser na vida? – Quero ser poeta, como o senhor –, respondeu o menino. – Poeta não é profissão –, retrucou o deputado. – Mas eu quero mesmo é ser poeta –, reafirmou o adolescente Augusto. 15
Ao chegarem a Juiz de Fora, procuraram um hotel não distante do colégio. Mais tarde, subiram pela Rua Halfeld e chegaram ao Granbery para efetuarem a matrícula. No Colégio Americano Granbery, o menino Augusto Frederico estudou as matérias do curso ginasial. E participou do grêmio em que os alunos discursavam e recitavam poesias. Tornou-se vice-presidente da Sociedade de Alunos. Algum tempo depois, o colégio recebeu um novo reitor, um norte-americano, mais conhecido como Mister Moore. Era um homem simpático, amigo dos alunos, que o respeitavam e admiravam. Morava com a esposa numa casa em frente ao colégio. Com o casal residiam duas alunas, e, por uma delas, Augusto acabou se apaixonando. À noite, no dormitório que dava para a rua, o adolescente postava-se à janela, tentando ver, um instante que fosse, a menina por quem se apaixonara. Nunca, porém, conseguiu vê-la nessas horas noturnas. Um dia, num encontro no recreio, contou a ela sobre sua admiração e esperou dela uma palavra. Ela logo o desiludiu: “Se você não fosse poeta talvez eu namorasse você. Mas poeta parece que está sempre chorando... se lastimando...” Foi duro o golpe. Mas daria razão a ela por preferir os mais fortes, os que jogavam futebol, os mais atletas. Cursou o Colégio Americano Granbery até a quinta série, quase sempre com notas altas. Seus colegas do segundo ano, em 1920, eram: Dulce Palmer, Wanda Murgel, Dulce Silva, Yolanda Palmer, Adolpho Macedo, Elvindo Siqueira, Cleveland Braga de Araújo, Affonso Romano Filho, Rubens Costa, Jurandir Bandeira, Henrique Meurer, Arsênio Rezende, Adelardo Forini, Elpídio Cherein, William Lee, Durval Almeida, José P. Costa, Ortiz Sarmento, José S. Barros, Osmar Bidoni, Uotar Castro, Geraldo Jorge Walonsky, Ernesto Carvalho, Glória Rangel, Maria Retto, José Carlos, João T. Almeida, João Duque, Mário A. Pereira, David Almeida, Bolívar Barboza, Humberto Dottori, Mário Aranha e Armênio Rangel.
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(Muitos anos depois, quando Schmidt apresentava nos Estados Unidos, diante do microfone, detalhes sobre a chamada Operação Pan-Americana, avistou na plateia um senhor de cabelos grisalhos, bem idoso, que o poeta-embaixador percebeu logo que se tratava do antigo diretor do Granbery, Mister Moore. Ele, então, anuncia que na plateia se encontrava o reitor que conhecera quando criança, num colégio no Brasil. E, depois de seu discurso, pôde abraçar o antigo diretor que ali o encontrara como importante personagem.) Augusto pretendia estudar no Colégio Pedro II. Teria de prestar exames e, para isso, obteve a ajuda de sua mãe, que repetia com ele os acidentes geográficos dos estados do Brasil. No dia do exame estava nervoso. A uma questão sobre os limites do Brasil não respondeu satisfatoriamente. Não havia estudado bem ou teria esquecido? Não importava mais, pois fora reprovado no exame e, assim, as portas do Pedro II se fecharam para ele.
Ajudante de Caixeiro Conhecendo as dificuldades da família, podia ajudar se arranjasse um emprego. Não tardou consegui-lo como ajudante de caixeiro na loja Barbosa Freitas, situada na Avenida Rio Branco, quase em frente à antiga loja de seu pai. O trabalho era cansativo, fazer puxadas das peças de tecidos solicitadas pelos caixeiros, o que era dificultado por ele ser bem gordo. Não estava satisfeito com esse trabalho. Um amigo de seu avô prometeu ajudar. Conhecia um comerciante português que tinha loja na Rua da Quitanda. A firma chamava-se Costa Pereira e Companhia Limitada. Foi admitido como auxiliar. Entrava no trabalho às 7 horas e saía às 19 horas. Almoçava muitas vezes na casa de sua tia, onde nascera, às vezes numa pensão da Rua da Quitanda. Ali se encontrava algumas vezes com um rapaz do qual se tornara amigo. Era um jovem poeta, publicava
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poemas em um ou dois pequenos jornais, assinando Marques Rebello como seu pseudônimo literário. Passaram a se encontrar algumas vezes num boteco da Tijuca para conversar sobre poesia. Com esse amigo, que se chamava Eddy Dias da Cruz, aprendeu algumas noções da técnica de poesia. Passaram, ambos, a publicar poemas no Beira-Mar, pequeno jornal vendido no Leme e em Copacabana, ou na Revista Souza-Cruz, versos que o poeta Augusto, quando já famoso, declarava serem “incríveis e grotescos, alguns pretensiosos e alambicados ao mesmo tempo…” Alguns poemas escritos aos 18 anos: “Meu romântico noturno”; “Ânsia estéril”, este publicado com ilustração assinada por Ilberino dos Santos. Dessa maneira, o jovem poeta idealiza publicar um livro denominado Mística Oferenda. Por essa época morava com a mãe e a avó no Largo do Humaitá. Ao descer do bonde via a luz da sala acesa e se tranquilizava. Sua mãe, apesar de doente, estaria esperando por ele. Uma noite, porém, em que chegara mais tarde, encontrou a mãe agonizando. Correu para a igreja de São Bento, onde conseguiu um padre para dar a extrema-unção a sua mãe. Era agora órfão de pai e mãe. A avó Francisca seria, daí em diante, sua avó e mãe, com quem moraria em pequenas residências no bairro do Catete. Seu trabalho na Casa Costa Pereira o aborrecia. Chegava sempre com um livro na mão, o que não era bem-visto pelos patrões e pelos outros empregados. De vez em quando lhe mandavam entregar alguma compra, e ele se demorava um pouco, entrando na Livraria Garnier, na Rua do Ouvidor. Seu trabalho era, além de entregar encomendas, ajudar na loja. Às vezes ao chinês que confeccionava leques, às vezes fazendo “puxadas”, deslocando os tecidos nas prateleiras, e delas tirando o pó. Um dia um caixeiro mandou que arrumasse a caixa de botões e, propositalmente, espalhou-os no chão. Mandou que Augusto os recolhesse. Recusou-se e, por isso, ele chamou o gerente. Continuou recusando-se a recolher os botões, que o empregado deixara de propósito cair no chão. Foi despedido. Resolveu não mais trabalhar. 18
Quase todo dia ia à cidade encontrar-se com pessoas, na maioria das vezes mais idosas que ele – artistas, pintores, que gostavam de papear. O encontro geralmente era nas mesinhas do Café Gaúcho, na Rua Rodrigo Silva, próximo à Rua São José. Voltava para casa tarde, mas aquele ambiente artístico lhe fazia bem. Por essa época conheceria ali alguns escritores dos quais se tornaria amigo. Todos bem mais idosos do que ele. Um deles passou a ser um quase companheiro. Encontravam-se no final da tarde, quando o amigo, funcionário público, voltava de Niterói. Era o escritor Cornélio Penna, que seria seu amigo para sempre.
Recomeçando em São Paulo O jovem Augusto Frederico Schmidt ouvira falar do progresso de São Paulo; quem sabe encontraria na capital paulista um bom emprego? Decidiu, então, tentar a vida paulistana. Ali chegando, ao tomar um bonde, leu a seguinte frase: “São Paulo é o maior centro industrial da América Latina”. Saiu à procura de um emprego. Não era fácil, porém. Muitas outras pessoas iam para São Paulo em busca de emprego. Afinal encontrou uma chance numa firma vendedora de álcool e cachaça. O comércio da capital já estava abastecido. Decidiu viajar para a praça de Santos. Na viagem de trem sentou-se ao lado de um rapaz, também viajante, conhecedor da praça santista. Augusto lhe disse o que iria fazer e que produtos representava. O rapaz deulhe algumas informações, alguns endereços. Era uma boa ajuda. Não estava sendo fácil para o inexperiente vendedor colocar na nova praça os produtos que oferecia: a caninha mineira e o álcool. Nos endereços que recebera conseguiu algumas vendas. Dizia para o dono da loja: “Não quero que compre uma grande quantidade, mas apenas um pouco do produto, para meus patrões verem que me esforcei. No fim, havia vendido uma boa quantidade das mercadorias.
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Voltando a São Paulo procurou um lugar para morar. Encontrou -o quase no centro da cidade. Ali conheceu um rapaz interessado em literatura, entusiasmado pela política, confessando-se comunista. Alguns anos depois esse rapaz viraria jornalista, e o jovem vendedor sempre se lembraria dele. Augusto interessava-se pelos livros. Gostava de visitar livrarias. As principais, em São Paulo, estavam no centro da cidade: a Garreaux e a Gazeaux. Ele examinava todas as estantes, como a procurar determinada obra. Brito Broca, em seu livro de memórias, citou que estava numa das livrarias quando viu um rapaz gordo, moreno, examinando os livros nas vitrinas. Quando ele se afastou, o futuro memorialista perguntou ao caixeiro: “Quem é esse rapaz que olha todos os livros?” O caixeiro informou que ele vinha quase todos os dias à livraria: “É um poeta do Rio de Janeiro, chama-se Augusto Schmidt”. Um dia, Augusto acompanhou seu colega de pensão a uma tipografia e lá encontrou, acabado de imprimir, o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, antes mesmo de o autor vê-lo impresso. Uma tarde, Augusto foi visitar a redação do Correio Paulistano e dias depois encontrou na rua um dos seus jornalistas, o também jovem Victor de Azevedo. Conversaram sobre poetas franceses e Schmidt logo declamou, com uma pronúncia corretíssima: “Les sanglots longs / Des violons / De 1’automne / Blessent mon coeur / D’une langueur / Monotone”. Em seguida, Schmidt passou a criticar a “estreiteza provinciana de São Paulo, onde a literatura madorrava sem novos valores”. O jornalista teve uma ideia, e arriscou: “Você fala de novos valores. Pois eu ando ajudando um jovem escritor a rever as provas de seu romance, O Estrangeiro. Trata-se, justamente, de um novo valor, você conhece o Plínio Salgado?” Schmidt disse que não conhecia. “Mas então vamos até a pensão em que ele mora, vou para lá continuar o meu trabalho”, disse-lhe o rapaz. A distância não era muita, a noite avançava. Foram a pé, os dois eram jovens. À esquerda de quem segue pela Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, subiram uma escada e alcançaram, depois de um corredor, os apo20
sentos do escritor. Feitas as apresentações, Schmidt foi logo dizendo que desejava conhecer alguns capítulos do livro O Estrangeiro. Plínio Salgado, com voz clara, passou a contar a história de um russo, um tipo de anarquista que fugira da cadeira da morte e viera para o Brasil. Schmidt encontrara o novo valor que estava procurando, de quem, mais tarde, como editor, publicaria alguns livros.
Negócios no Paraná Certamente o jovem Schmidt ouvira em São Paulo notícias do desenvolvimento do Paraná, no negócio de madeiras. Resolveu fazer uma tentativa. Deixou São Paulo e dirigiu-se ao Alto Paraná. Enviou poemas ao jornal Beira-Mar e escreveu a seu amigo, tão mais velho do que ele, o romancista Cornélio Penna, enviando-lhe alguns postais com mensagens amigas: A Cornélio Penna: Velho ingrato. Aqui estou – até não sei quando, na Princesa dos Campos, como é conhecida Ponta Grossa. Longe da civilização, da Avenida Central, parece que se respira melhor. Nem os jornais de São Paulo leio. Nada! Como vai a literatura nacional? Os meninos daqui, estão aí! Dê um grande abraço nesse admirável Aníbal Machado e receba outro, insuportável e querido. Teu, Schmidt. E em outro bilhete: Penna. Olha essa fotografia do Paraná, é uma terra assombrosa. Tem as pedras de Vila Velha... Quando vier a São Paulo me telefone para Cidade 2401. E lembre-me aos amigos e me abrace, – Schmidt.
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Envia um postal, no qual escreve: Para o seu amigo e admirador Cornélio de Oliveira Penna, Tartarin Schmidt. Em outro postal: Penna: o literato Schmidt anda por esta terra envergonhado com sua literatura. Esta vida daqui é batuta.
Em Nova Iguaçu Aprimorando-se no negócio de madeiras, o jovem Augusto Frederico voltou ao Rio de Janeiro com ideias de alguns negócios. Acabou conseguindo um emprego como gerente numa serraria em Nova Iguaçu – Serraria Cocozza. A serraria preparava caixas de madeira para o comércio de laranjas, na época o produto de maior importância do município. Laranjas eram exportadas para muitas cidades, principalmente as do sul do país e também para o exterior. Em São Paulo, caminhões circulavam pelos subúrbios anunciando: “Olha a laranja! Laranja pera do Rio”. Na verdade, esse “Rio”, de onde vinham as laranjas, era o município de Nova Iguassú (como o nome era grafado na época; somente após o Acordo Ortográfico de 1945 ela passou a se chamar Iguaçu). Entre os exportadores, o número um era a firma Goodwin, Cocozza & Cia. Ltda, que mandava as frutas para a Argentina e outros países. Schmidt trabalhava na serraria Cocozza, mas não deixava de ler os jornais do Rio de Janeiro. Não perdia os rodapés literários de Tristão de Athayde em O Jornal. Um dia, em abril de 1928, decidiu enviar uma carta ao articulista, que na verdade era o escritor Alceu Amoroso Lima, figura de projeção nos meios culturais do Rio de Janeiro. A partir dessa carta, surgiu uma intensa troca de correspondências entre os dois, que durou por toda a vida. A respeito da serenidade dos que creem (e Alceu lhe confessara tê-la adquirido depois de muito tempo de luta), Schmidt, aos 22 anos, abria-se com o escri-
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tor, ainda por ele chamado pelo pseudônimo literário de Tristão de Athayde: “Meu caminho é bem diverso do seu. Sou um sujeito que vive em transição continua. Passageiro das conduções mais absurdamente desiguais. Hoje convencido da Verdade. Acreditando ser senhor de mim mesmo e de um roteiro que faço e desfaço. Amanhã outro sujeito, absolutamente outro. Um dia levado pela oração, eu ajoelho diante de um altar e diante do padre. Dia seguinte agnóstico, cinzento, alheado. Descrente de tudo. Antegozando com volúpia o nada. E vivo assim até quando Deus quiser. O coração me chama para a Igreja. O coração, ele mesmo, me afasta da igreja.” Mais adiante, diz estar, no momento, certo do que quer. Duvida, porém: “Estarei mesmo?” Lia muitos livros franceses. Na mesma carta informa a Alceu que acabara de ler o romance Destins, de François Mauriac, publicado em 1928. Sobre o romancista, dá sua opinião de leitor: “Mauriac é um dos escritores de que mais gosto. Grande de verdade, sem literatura”, acrescenta. E informa ter escrito um estudo sobre ele que publicou “num jornal católico que ninguém lê”. Já publicara em jornais artigos de crítica. Sobre o “admirabilíssimo Chesterton” publicara um artigo na Gazeta de Notícias. Sobre o silêncio que vinha mantendo a “gente inteligentíssima” que faz a “Estética” diz a Tristão de Athayde: “Nem imagina você, também, como eu sinto desejo de silenciar diante da invencível incompreensão nacional. Mas há alguma coisa que não me deixa parar quieto, uma precisão de dizer: Gosto, Não Gosto. Penso assim e assado. Abelhudamente”. Em carta de 18 de abril de 1928, Schmidt elogia A Bagaceira de José Américo de Almeida, que acabara de ler. Diz ele: “Nós, os Modernos (perdoe o ridículo de quem não possui outro meio de se qualificar) queremos antes de tudo liberdade total de personalidade. E liberdade de forma absoluta.” Em carta de 7 de maio de 1928 diz a Alceu: “Acabei de ler a Vida de Jean Racine, do nosso Mauriac. Mauriac acostumou a gente mal. Escrevendo a vida dos ingleses, fez
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romances tão bonitos que a gente se acostuma a querer somente romance. Mauriac fez um estudo sério, sóbrio, severo. O problema da fé em Racine é bem curioso”. O jovem Schmidt diz a Alceu que leu parte do romance ainda inédito de Jackson de Figueiredo. “Como é extraordinário! Eu sempre duvidei da literatura do Jackson, mesmo quando o pensador político culminava para mim, e achava as amizades literárias dele horrendas. Mas o tal romance será um caso sério. Pela primeira vez, aqui no Brasil, se entra em contato com uma alma. Não posso precisar como, me lembra um pouco de Reiner Maria Rilke, mas bem brasileiro, bem sergipano. Foi a falta de modernismo o que mais me encantou no livro de Jackson”. Como seria esse rapaz tão jovem, mas grande conhecedor de autores franceses?, perguntaria a si mesmo, Tristão de Athayde. E diante dessa curiosidade resolveu ir a Nova Iguaçu para conhecê-lo. Estabeleceu-se entre os dois, a partir daí, uma amizade que perdurou por toda a vida. Em 9 de maio de 1928, Schmidt escreve a Alceu: “Achei Daniel -Rops extraordinário”. Em 20 de agosto, estava lendo Vasco, emprestado por Alceu Amoroso Lima. E havia lido os livros de Stefan Zweig em tradução francesa. Estava interessado numa revista belga que vira na mão de Jackson de Figueiredo, na Livraria Católica. Dois anos antes, pretendia estudar filosofia, fazer um curso sério. Não conseguiu. Publicara então, em 1928, seu pequeno primeiro livro Canto do Brasileiro Augusto Frederico Schmidt, de apenas 20 páginas. Achava que Mário de Andrade, em artigo escrito sobre seu livro, dissera dele uma dura verdade: não tinha coragem para fazer uma organização. Invejava um sujeito organizado. “Tenho grande desejo de me definir, quando sou a própria indefinição”, escreveu. Em carta de abril de 1928, declara a Alceu: “No fundo, continuo o poeta de sempre, irreconciliável com a realidade.” Lamenta: “A poesia acabou em mim.” Sobre Mário de Andrade, escreve: “Admiro muito o Mário de Andrade, não obstante fazer uma restrição no que 24
chamo namoro com o diletantismo. Acho que este Andrade é um dos casos mais sérios do Brasil”. Sobre o Canto do Brasileiro Augusto Frederico Schmidt, o crítico e humanista João Ribeiro referendou a primeira publicação em livro do jovem autor. Seu artigo “Canto do Brasileiro” foi publicado no Jornal do Brasil, onde mantinha coluna de crítica, em 25 de julho de 1928. Em carta de 24 de abril de 1928, diz a Alceu: “Aqui em Nova Iguassú, ando afogando toda a minha literatura no comércio de caixas de pinho do Paraná e materiais para construção”. Sobre o problema social, comenta: “Há muito que eu já conhecia a posição de Chesterton diante do complexo problema social, a coisa mais séria que precisa ser estudada, hoje em dia, pelos homens que procuram ser realistas de verdade.” Tinha grande simpatia por Drieu La Rochelle, suspenso diante de tudo, sabendo o que não serve. Em 24 de maio de 1928, diz a Alceu: “Sou uma alma perfeitamente frívola. Não mereço absolutamente sua atenção, e lhe digo isto por amor próprio. Sou bastante orgulhoso para não deixar que me julguem uma coisa, quando sou outra. Minha sede do sobrenatural existe. É impossível negar. Sou um atormentado pelo mistério que está do outro lado. Na outra margem” [...] “Quando estou descuidado, entregue às coisas mais materiais deste mundo, no meu comércio, ou na minha literatice, o que vem a dar na mesma, uma grande angústia se apossa de mim.” Informa a Alceu: “Ando em dúvida de publicar meus versos Poemas ao Portador. Já entreguei três vezes para editar – três vezes me arrependi em tempo. E uma coisa tão outra do que se está fazendo.” Em carta de 7 de junho de 1928, informa: “Quando principiei a pensar, logo no princípio, a ideia da transitoriedade se apossou de mim” [...] “Estou completamente desiludido da arte e de literatura. Não gosto de mais nada, com sinceridade.” Pouco depois, em carta de 13 de junho de 1928, diz: “Eu só vou agora aos domingos à cidade. Pretendemos, Pinheiro e eu, e um ou dois outros, publicar um jornalzinho. Ando à procura de um título”. 25
Em carta de 25 de julho de 1928, informa: “Agora, enfim, sei que toda a razão está com você. O catolicismo é a única realidade humana que existe. O resto nada é, nada vale. Sou um péssimo católico, mas sou um católico”. Informa a Alceu: “Vou publicar uma revista ou jornal com o nome de Letras Brasileiras. Título único, sem querer dizer nada”. Acrescenta: “Terei de lutar com muitas dificuldades, pois estou cada vez mais preso em Nova Iguassú. Tenho apenas aqui algumas horas, de noite, livres”. Em 11 de agosto de 1928 escreve a Alceu: “Recebi seu artigo ‘Caminhos’. Era exatamente o que eu esperava. Tenho algumas dificuldades a remover para imprimir ao jornalzinho uma feição inédita ainda no Brasil. A dificuldade de elementos é tamanha. Não posso pagar a colaboração, porque o jornal já é um dispêndio regular. E me vexo de insistir muito. Este número saiu bom, creio. O Jackson respondeu ao nosso inquérito de forma impressionante. Tem mais alguns artigos e poemas notáveis de diversos nomes. É uma cartada. Tenho medo de me desiludir completamente”. Alternava o entusiasmo e o desânimo. Com Letras Brasileiras fazia contato com muitos escritores, conseguia apoio de amigos, para manter o pequeno jornal literário. Mas logo depois, por qualquer motivo, ou sem motivo algum, caía num desânimo profundo. Estava dividido entre a fé e a dúvida. Nesses dias de desânimo andava nas horas noturnas pelas pobres ruas de Nova Iguaçu, à toa, sem destino. Esse desânimo o impedia de escrever. Sentia a necessidade de se aproximar dos sacramentos. Necessitava de Deus cada vez mais. Convencia-se da verdade católica – a razão e a lógica do catolicismo –, mas lhe faltava a fé. A Alceu Amoroso Lima pedia para o jornal Letras algumas notas sobre literatura francesa. O inquérito iniciado no primeiro número deveria ter prosseguimento, e era mesmo seu intento reuni-lo num livro para que a posteridade conhecesse o pensamento de sua geração. Enquanto isso, Schmidt escrevia artigos literários. Sobre Macunaíma, de Mário de Andrade, escreve um artigo que pretende pu26
blicar na Gazeta de Notícias. Mário fizera restrições a sua plaquete Canto do Brasileiro Augusto Frederico Schmidt, e ele queria responder ao poeta paulista. Desistiu, porém, da ideia, ao mostrar o artigo a Manuel Bandeira, que o aconselhou a não o publicar. Em 1928 participou da fundação da revista Pelo Brasil. No primeiro número publicou um artigo de Jackson de Figueiredo, que lhe pareceu notável. O plano de Pelo Brasil era de uma revista de cultura, como uma tribuna para falar a todo o país. De repente, perdeu o entusiasmo. Escreve a Alceu: “Ontem fui ao cemitério. Senti uma vontade enorme de morrer, de ficar ali também, de não voltar para a luta do mundo. Vontade enorme. De noite, em casa, fiz um poema. E tudo passou”. Tinha amigos e fazia também inimigos. Comenta em carta a Alceu: “A gente às vezes fere as pessoas sem saber, e eu muito mais que todos os outros. Ando apavorado com os inimigos que vou fazendo sem querer.” Às vezes tinha febre de escrever, uma necessidade de externar tudo o que sentia em forma de poemas, artigos, contos, crítica. Reclamava dos que consideravam romântica a sua poesia. Sentia-se profeta. Andava com planos de fazer poesia social. “Cantar a grande vida das cidades modernas, o sofrimento dos humildes, a loucura das máquinas, a opressão do materialismo”. “Cantar com doçura, com simplicidade, com eloquência, de alma limpa”. Mas às vezes desconfiava do valor de sua poesia. Por essa época fez parte da redação da revista Notícias Literárias, quinzenário de informação e crítica, bibliografia e ensino. Era o redator-chefe, sendo Jayme Ovalle o redator-secretário. A direção e administração da revista era feita por Djalma Cavalcanti, que também era o proprietário do veículo.
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Na Livraria Católica Talvez por interferência de Alceu Amoroso Lima, o jovem Augusto Frederico Schmidt deixava Nova Iguaçu e ia trabalhar como auxiliar, e depois gerente, da Livraria Católica, que fora fundada pelo escritor Jackson de Figueiredo, proprietário da livraria. Ali iria conhecer vários escritores que entravam para ver as novidades, com muitos livros importados da França, e para conversar com os escritores amigos e com o próprio fundador da livraria, também um dos fundadores da Liga Católica. Entre os que frequentavam a Livraria Católica um poeta se destacava: o parnasiano Alberto de Oliveira, autor de vários livros de poesia, e figura muito querida nos meios acadêmicos. Sobre ele, Schmidt iria escrever um depoimento de admiração, publicado na Revista do Brasil, terceira fase, de dezembro de 1938. Jackson de Figueiredo gostava de passear à noite, pelas imediações do final da Avenida Rio Branco, ouvindo as ondas se quebrarem junto à Avenida Beira-mar. Uma noite foram ao cinema, Jackson e seu jovem assistente, Augusto Frederico Schmidt, e, ao terminar o filme, fizeram o itinerário da Avenida Beira-Mar. Conversaram muito. Jackson de Figueiredo gostava de papear. No dia seguinte, um domingo, Jackson foi com seu filho ainda criança à praia da Barra da Tijuca. Adorava nadar. As ondas nesse dia estavam mais violentas do que de costume, e Jackson, embora grande nadador, não conseguia se livrar delas. Seu filho e várias outras pessoas assistiram à terrível luta do escritor com as ondas. Até que, sentindo não poder mais continuar a lutar, faltando-lhe forças, entregou-se ao mar. Falecia tragicamente, em 4 de novembro de 1928, o escritor nordestino fundador da revista A Ordem e dono da Livraria Católica. Seu corpo só apareceria dias depois. O jovem Augusto Frederico Schmidt assume, então, a gerência da Livraria Católica. Conhece, cada vez mais, romancistas e poetas que passavam pela livraria para ver os livros novos, para comprar e con28
versar. Um desses fregueses era o poeta Manuel Bandeira. Certo dia, olhando uma revista francesa, Bandeira e Augusto leram a história de uma jovem menina que havia morrido e ficaram impressionados com a reportagem. Nessa época, a revista A Ordem solicita ao poeta Schmidt um depoimento sobre seu ex-patrão Jackson de Figueiredo. Escreve ele: “Como me é difícil, quase impossível, descrever as impressões que trago do meu encontro, na vida, com Jackson, o homem que foi um dos mais discutidos, e, seguramente, o menos compreendido na minha geração! E o que é mais angustioso nessa quase impossibilidade de falar do morto querido é a certeza de que toda a dificuldade se origina do meu desconhecimento, da minha própria incompreensão do que foi Jackson – da falta de explicação de certos gestos, estranhos direi, e reveladores por certo de realidades íntimas do homem extraordinário que ainda hoje comovidos choramos. Ainda na véspera de sua morte, na última noite que Jackson viveu, fomos juntos a um cinema, e em seguida passeamos longamente conversando. E Jackson, mais uma vez, me disse das suas lutas e dos seus sofrimentos.” Após alguns meses, ficou resolvido que a livraria seria fechada. Os sócios teriam de ser remunerados. Schmidt teve alguma dificuldade para cumprir esse compromisso. Mas não deixou de fazê-lo, com enorme sacrifício. Por essa época, Schmidt já conhecia uma figura de grande valor, o compositor e poeta bissexto Jayme Ovalle. Uma tarde, como de costume, os dois se encontraram no bar Brahma, na Galeria Cruzeiro. Ovalle disse que inventara uma classificação curiosa para poetas e outros personagens culturais e políticas, a que denominara “a nova gnomonia”. Estavam conversando quando chega o poeta Manuel Bandeira, bem conhecido de ambos. Ovalle explica ao poeta o significado do que inventara e Manuel Bandeira achou aquilo curioso. Então Bandeira, pondo a mão sobre o ombro de Schmidt, lhe disse:
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“Vamos fazer um soneto a quatro mãos, você e eu?” E assim fizeram o soneto, que nenhum deles publicou em livro, tendo sido apenas publicado à época no jornal Dom Casmurro: SONETO A QUATRO MÃOS E de súbito n’alma incompreendida Esta mágoa, esta pena, esta agonia; Nos olhos ressequidos a sombria Fonte de pranto, quente e irreprimida. O espírito deserto a impressentida Misteriosa presença que não via; A consciência do mal que não sabia, Aparecida, desaparecida... Até bem pouco, era uma imagem baça. Agora, neste instante de certeza, Surgindo claro, como nunca o vi! E nesse olhar tocado pela graça Do céu, não sei que angélica pureza – Pureza que não tenho, que perdi. Manuel Bandeira / Augusto Frederico Schmidt
Sobre a curiosa classificação de Ovalle, Manuel Bandeira escreveria um artigo, depois incluído no seu livro Flauta de Papel. E muitos anos depois, quando Manuel Bandeira já era alvo de grandes homenagens, Schmidt escreveria artigos em tributo ao poeta: “Algumas palavras sobre Manuel Bandeira”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 1936; “Manuel Bandeira”, Lanterna Verde, Rio de Janeiro, 1938; “Uma festa no Pedro II”, Diário Carioca, 1940; e “Soneto a Manuel Bandeira”, Diário Carioca, 1946. 30
Manuel Bandeira também prestaria sua homenagem. Na segunda edição do livro Lyra dos Cinquent’Anos, em 1944, havia um soneto em louvor de Augusto Frederico Schmidt, o único que escreveu à sua maneira, isto é, em versos livres, sem rimas. Outro frequentador da Livraria Católica era o poeta Alberto de Oliveira. O jovem Schmidt se afeiçoou a ele, indo, inclusive, visitá-lo em sua residência, em Niterói, para ouvi-lo declamar seus sonetos. A amizade do poeta Schmidt com o compositor Jayme Ovalle durou muitos anos – e deu origem a um futuro parentesco entre eles. Certo dia, Ovalle ia visitar sua sobrinha no Colégio Sacré Coeur, em Copacabana, e convidou Schmidt a acompanhá-lo. Foi assim que o poeta conheceu aquela ainda quase adolescente Yedda, que seria sua namorada, depois noiva e esposa. Não fora fácil, porém, conquistar a jovem, então moradora com os pais em Paquetá. Ela era filha do Tenente-Coronel Caio Lemos. O poeta enviava-lhe cartas, escrevia-lhe poesias, e, aos poucos, foi conquistando o coração da jovem. A diferença de idade era grande. Schmidt ia às vezes com Ovalle a Paquetá. Sonhava com a jovem pela qual se apaixonara. Telefonava, nem sempre encontrando o seu amor. Mandava-lhe cartas, ele próprio parecia um adolescente: “Sonhar contigo apenas. Esperar o calor da tua alma para que a minha se aqueça, enfim. Esperar que a bondade desponte nos teus olhos como a aurora no fim da estrada da noite.” Terminava assim: “Da tristeza do poeta nasceu, subitamente, a música da tua lembrança.” Em outra escreveu: “Yedda, já estraguei 5 folhas de papel procurando lhe escrever. Não houve meio de conseguir prender no papel o meu sentimento por você. E muito obrigado por toda a luz que você me dá.” A jovem Yedda também escrevia poemas. Pediu ao namorado que os retocasse. Schmidt respondeu-lhe: “Não retoquei os seus poemas. Bem o quis fazer, mas me pareceu um sacrilégio. Li-os mil vezes. Amei até os erros de máquina que eles contêm. Conheço as três pequenas folhas de papel como não conheço nada tão bem. Você é 31
poesia, é toda a poesia. Não imaginava tanto! Não queria tanto!” Em outra carta, em que envia novos poemas, escreveu: “Continuo sempre na mesma desesperança. Não me acredite feliz nem sossegado. De resto, toda a minha glória é você. Todo o meu desejo de comunicação se resume em você ler o que eu escrevo. Sinto que amanhã tudo não será mais. Não tenho nenhuma confiança em meus méritos... e muita nos seus.” Comenta que está escrevendo um prefácio para o romance de estreia de um moço cheio de esperança. (Certamente para o livro de estreia de Jorge Amado.) Envia a Yedda um livro de seu amigo Tristão da Cunha. E lhe informa: “É aquele homem grisalho, de monóculo e de polainas, muito meu amigo, que passeia todas as tardes quase, com este seu poeta.” Escreve em outra carta: “Ontem achei você tão bonita, e tão longe, que tive pena de mim! Mas é muito justo que eu tenha pena de mim. Você é que nada tem com isto”. E termina: “Você é toda a poesia que há em mim. Toda a graça que existe no mundo é você.” As dificuldades são grandes. Tem coragem de informar: “Tudo está como que desabando sobre a cabeça desprevenida do poeta e seu amigo! Não tenho mais um instante meu de repouso, e as minhas preocupações menos materiais fugiram todas. A vida me pesa, minha amiga! Estou com inveja de você porque passeia de manhã, se entedia de tarde e dorme sob o sorriso das estrelas. Eu estou cansado. Desesperado. Há uns momentos na vida da gente que dão vontade de acabar com tudo.”
Schmidt Editor Tendo-se desembaraçado dos compromissos da Livraria Católica, Augusto Frederico Schmidt estabeleceu-se como Schmidt Editor ali bem próximo da extinta livraria, na Rua Rodrigo Silva, número 11, segundo andar, telefone 2-3016. O prédio ficava perto da Igre-
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ja Nossa Senhora do Parto. Foi nesse primeiro endereço que, pelo seu auxiliar Rômulo de Castro, escreveu ao poeta Jorge de Lima, informando-lhe que havia iniciado o trabalho de uma editora, perguntando-lhe se conhecia em Alagoas um poeta ou romancista que desejaria publicar um livro. Naturalmente pensava no próprio Jorge de Lima, que depois residiria no Rio de Janeiro, escritor de sucesso, que até mesmo seria vereador no Rio de Janeiro. Iniciando um novo negócio, o jovem Schmidt resolveu procurar um médico para saber como estava sua saúde. O médico escolhido foi o Dr. José Geraldo Vieira, que atendia de graça os escritores. Conheciam-se também de vista, por serem fregueses do mesmo barbeiro, ali próximo da Livraria Católica. Conversando com o médico sobre a nova editora, soube que ele tinha um romance inédito, mas que não deseja publicar naquele momento. O médico mostrou os originais ao novo editor, que praticamente apoderou-se deles, para, em seguida, transformar o manuscrito em livro, cujo título era A Mulher que Fugiu de Sodoma. A obra, de 1931, obteve grande sucesso, tornando-se o best-seller de Schmidt Editor. Em carta a Alceu Amoroso Lima, Schmidt afirma sobre o livro de Tristão de Athayde: “Como você sabe, sou candidato disputando de qualquer maneira o Problema da Burguezia.” E acrescenta: “Sou candidato violentamente. Já se fundaram diversas editoras, de amigos nossos literatos como eu. Não me farão mal, porém. Ontem tive duas grandes emoções: a conferência do Coulet e o novo livro da Rachel de Queiroz. O padre é formidável. Oração assim não conheço igual. O livro é verdadeiramente assombroso de força, de concentração, de profundidade. A menina não é realmente o que parece; antes melhor, melhor mesmo.” Pouco tempo depois, precisando de um lugar maior, térreo, para abrigar a Livraria Schmidt e a Schmidt Editor, encontrou-o não muito longe dali, na Travessa do Ouvidor, nessa época denominada Rua Sachet. Ali iam encontrá-lo os antigos frequentadores da Livraria
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Católica, e também os futuros autores, esperando a publicação de seus originais. Um futuro depoimento do consagrado romancista Jorge Amado focalizaria bem a livraria e a editora: “A Livraria Schmidt, apenas fundada, transformou-se num centro importante da vida intelectual carioca. E Schmidt Editor foi a editora inicial (e principal) de uma série de escritores inéditos, publicando seus livros de estreia.” E Jorge Amado cita alguns dos primeiros livros do novo editor: Brasil Errado, de Martins de Almeida; Machiavel e o Brasil, de Octávio de Faria; Os Corumbas, de Amando Fontes; e muitos outros, sendo A Mulher que Fugiu de Sodoma, romance de José Geraldo Vieira, o primeiro best-seller da nova editora. Mas o primeiro livro lançado pela editora de Augusto Frederico Schmidt foi Oscarina, de Marques Rebello, pseudônimo de Eddy Dias da Cruz, amigo de longa data. A obra estampava a data de 1931. No Boletim de Ariel, número 1, de outubro de 1931, o crítico Agrippino Grieco, sob as iniciais A.G., publica suas impressões sobre o livro: “Não era esse o livro que todos devíamos esperar do Sr. Marques Rebello. Quase sempre ácido em pessoa, o autor surge-nos aí, contraditoriamente, com uma série de contos em que reencontramos uma piedade, uma ternura pelos simples, que acreditávamos ter perdido de todo depois da morte de Lima Barreto. Parecendo, em pessoa, um negador profissional, o estreante de Oscarina mostra-se, escrevendo, um amigo do Rio velho, do Rio pobre, do subúrbio, do arrabalde desdenhado pelos cronistas mundanos e pelos autores de novelas cor-de-rosa. Gosta da gente sem hierarquia e não se incomoda muito com as marquesas e os príncipes dos novelistas à Paulo Setúbal. Nem se dá à rendosa indústria da retórica e não confecciona personagens que exorbitem de nossa mediocridade quotidiana, mediocridade que às vezes pretende ser ateniense ou florentina, mas nem por isso é menos medíocre. Mas indiscutível é que, com este despretensioso volume de 193 páginas, ele, o estreante de vinte e poucos anos, tomou lugar entre os bons ‘contadores’ de sua geração, 34
e não haverá injúria para ninguém se, d’ora em diante, lhe lembrarmos o nome sempre que trouxermos à baila os nomes de Ribeiro Couto, Afonso Schmidt e Alcântara Machado.” O segundo livro de Schmidt Editor foi Machiavel e o Brasil, de Octávio de Faria, também em 1931. O autor defende Maquiavel da acusação de ser “maquiavélico”. Uma resenha é publicada sem assinatura, também no número 1 do Boletim de Ariel, provavelmente de Agrippino Grieco: “Um livro de estreia deve ser, segundo o pensamento oficial, um livro polido, sem ângulos, sem ataques positivos, capaz de deixar dúvidas no crítico se a orientação do autor é comunista ou não, liberal ou antiliberal, materialista ou espiritualista. Nunca, portanto, um livro como este. Tal como está escrito é quase uma cartada. E oferecer o coração – e não ‘as extremidades do corpo’ – à faca dos críticos.” Agrippino Grieco, já em seu livro Evolução da Prosa Brasileira, escreveu: “Nenhuma estreia mais brilhante do que a do Sr. Octávio de Faria no Machiavel e o Brasil. O livro ousa afirmar que é como ‘ato de coragem’ que gostaria de ser considerado. Não visa mais do que dizer as coisas como elas lhe parecem ser, como muitos pensaram mas não ousaram dizer, senão em particular – sem indagar de mais nada.” O terceiro livro de Schmidt Editor foi A Mulher que Fugiu de Sodoma, do médico José Geraldo Vieira, também em 1931. O Boletim de Ariel, vol. 3, de dezembro de 1931, publicou um artigo sobre o livro. Em 1931, Schmidt editou vários livros: de Jorge Amado, O Paiz do Carnaval; de Cândido Motta Filho, Alberto Torres e o Thema da Nossa Geração, com prefácio de Plínio Salgado; de Carlos Dante de Moraes, Viagens Interiores (ensaio); de Agrippino Grieco, Vivos e Mortos; de Caio de Mello Franco, O Inconfidente Claudio Manoel da Costa; de Virgílio de Mello Franco, Outubro, 1930, com prefácio de Oswaldo Aranha; de Alceu Amoroso Lima, Ensaios Pedagógicos; de Godofredo Filho (Godofredo Rebello de Figueiredo Filho), Poema de Ouro Preto; de Tristão de Athayde, Preparação à Sociologia, 2ª edição; de Leonidio Ribeiro, Questões Médico-Legais; do Padre Leo35
nel Franca, Ensino Religioso e Ensino Leigo; e do próprio Augusto Frederico Schmidt, Desapparição da Amada. Em 1932, de Francisco Martins de Almeida, Brasil Errado; de Rui Ribeiro Couto, Espírito de São Paulo; de Benjamim de Oliveira Filho, M.M.D.C.; de Rachel de Queiroz, João Miguel; de Virginio Santa Rosa, A Desordem; de Alcindo Sodré, A Gênese da Desordem; de Virgínio Santa Rosa, O Sentido do Tenentismo; de Carlos Lébeis, No País dos Quadratins (literatura infantil); de Jonathas Serrano, Escola Nova; de Renato Almeida, Velocidade; de Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima), Problema da Burguezia. Em 1933, de Graciliano Ramos, Cahetés (com linda capa ilustrada por Tomás Santa Rosa); de Gilberto Freire, Casa Grande & Senzala (apenas a primeira edição foi de Maia e Schmidt Ltda.); de Afonso Arinos de Melo Franco, Introdução à Realidade Brasileira; do Coronel Estêvão Leitão de Carvalho (que depois virou General e Marechal), Na Revolução de 1930: a atitude do oitavo RI, guarnição de Passo Fundo; de Plínio Salgado, Psychologia da Revolução e O Que É o Integralismo; de Lúcia Miguel Pereira, o romance Maria Luiza; de Amando Fontes, Os Corumbas; de Vinicius de Moraes, O Caminho Para a Distância; de Ribeiro Couto, Club das Esposas Enganadas. Note-se que a publicação do romance de Graciliano Ramos estava prevista para 1930, mas o romancista resolveu “escoimá-lo de erros que continha”, atrasando sua publicação. Na primeira orelha de Cahetés anunciava-se a publicação dos seguintes livros: O Paiz do Carnaval, 2ª edição; A Mulher que Fugiu de Sodoma, 3ª edição; Catolicismo e Protestantismo, do Padre Leonel Franca; Amores da Velha Guarda, de Alcebíades Delamare; Na Revolução de 1930, do Cel. Estêvão Leitão de Carvalho. Na segunda orelha, algumas edições: Versos para Mim, de Pedro Martins Pereira; A Visão, de Ovídio da Cunha. Os Corumbas, de Amando Fontes; e A Verdade Contra Freud, de Almir de Andrade. Em 1934, de Lúcio Cardoso, Maleita; de Mário Peixoto, O Inútil de Cada Um; de Annibal Fernandes, Pernambuco no Tempo do 36
Vice-Rei: Cousas e fatos do governo revolucionário de Pernambuco a partir de 6 de outubro de 1930; do Visconde de Carnaxide, Patriotismo, Cultura, Unidade; e de Belmiro de Medeiros Silva, À Margem da Constituinte. Em 1935, de Plínio Salgado, A Doutrina do Sigma, 2ª edição; de Olbiano de Mello, Concepção do Estado Integralista; de Oswaldo Gouvêa, Brasil Integral; de Olímpio Mourão Filho, Do Liberalismo ao Integralismo; de Gustavo Barroso, O Integralismo em Marcha; de Phocion Serpa, Calouro!; de Ribeiro Couto, Conversa Inocente; de Telmo Vergara, Figueira-Velha; de Tristão da Cunha, Cousas do Tempo, 2ª edição; de Plínio Salgado, O Que É o Integralismo; de Virgínio Santa Rosa, Paisagens do Brasil; de Arnaldo Damasceno Vieira, Imortalidade. Em 1936 saía, de Gilberto Freyre, a segunda edição de Casa Grande & Senzala; de Antônio Augusto de Lima Júnior, Soledade e Histórias e Lendas; de Octavio Tavares, Do Amazonas à Guanabara: Aspectos do Brasil; e de Miguel Reale, Atualidades Brasileiras. Em 1937, de Luis Martins, A Terra Come Tudo; de E. Mallet de Lima, Caminhos Perdidos (romance); de Adonias Filho, Renascimento do Homem (ensaio); de Tasso da Silveira, 30 Espíritos-Fontes; de Miguel Reale, Atualidades Brasileiras, 2ª edição; de Plínio Salgado, nova edição de A Doutrina do Sigma. Em 1938, de Gilberto Freyre, a terceira edição de Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal; de Sylvio Rodrigues, E a Peça Continua; de D. Martins de Oliveira, Caboclo D’Água; de Tenório d’Albuquerque, Desperta, Brasil!; de Gastão Penalva, Corpo e Alma do Passado. Em 1939, de Almir de Andrade, Aspectos da Cultura Brasileira; de Heitor Marçal, Estrela Perdida no Fundo da Noite; de Álvaro Penafiel, Geração Decisiva; de Lauro Palhano, Paracoéra; de Osvaldo Paixão, Salazar e Salazarismo. E, em 1939, Augusto Frederico decidiu encerrar as atividades da livraria Schmidt e da Schmidt Editor, pois se associara a empresas de 37
maior rendimento, dirigidas por amigos seus, industriais de valor. O catálogo e as instalações de seus negócios foram absorvidos por Zélio Valverde, um jovem editor nascido em 1921 e que havia aberto sua editora em 1937. Na fusão das empresas, Schmidt também continuou sócio do negócio. Ele, no entanto, não deixaria a literatura: escreveria para vários jornais, inicialmente, e mais tarde publicaria seus artigos no Correio da Manhã, por vários anos. Depois passou a publicar, duas ou três vezes na semana, artigos sobre suas memórias e textos políticos no jornal O Globo, tornando-se muito amigo de Roberto Marinho, diretor do jornal. Naquela época, Augusto Frederico Schmidt residia, com Yedda, na Rua Paula Freitas, 20, apartamento 801, cobertura, em Copacabana. E para veraneio, seu endereço era a Rua Coronel Veiga, em Petrópolis. Mais tarde iria adquirir um apartamento em Paris, onde Yedda passaria várias temporadas. Em Paris, ela fez amizade com uma jovem jornalista francesa, que lhe ajudava como amiga, conselheira e auxiliar – Eliane Peyrot – e essa amizade se estendeu por toda a vida. Eliane foi, inclusive, nomeada herdeira após o falecimento de Yedda e passou a cuidar da Fundação Yedda & Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro, que havia sido fundada por Yedda para perpetuar o trabalho artístico da família e do poeta Augusto Frederico Schmidt. O livro publicado por Schmidt Editor que obteve maior número de artigos na imprensa foi O Paiz do Carnaval, romance de Jorge Amado. O próprio autor declarou que a primeira edição se esgotara pelo fato de ele ter enviado quase toda a tiragem de mil exemplares a escritores e a jornais, recebendo um notável retorno em cartas e resenhas vindas de todo o país. O primeiro artigo sobre O Paiz do Carnaval foi escrito por Octávio de Faria, uma espécie de padrinho do livro, que havia levado os originais do romance para a Schmidt Editor. Esse artigo foi publicado em A Razão, de São Paulo. O segundo artigo sobre o livro foi escrito por Luís da Câmara Cascudo. 38
Outro livro de grande vendagem foi Outubro, 1930, de Virgílio de Mello Franco. A tiragem seria de dez mil exemplares, publicados em quatro edições de 2.500 exemplares. Era o livro da revolução. Trazia uma “Carta Prefácio” de Oswaldo Aranha, que assim se referia ao autor, seu antigo colega de faculdade: “Foste uma espécie de Ariel da revolução. Estiveste em toda parte, agiste em todas as horas, animaste os vacilantes, reconfortaste os fracos, articulaste os fortes, ligando-nos a todos e em todos os transes. Ninguém te excedeu moral e materialmente, na hora da conspiração. Foste a providência na crise e a paciência nos momentos de ansiedade.” Um depoimento importante sobre Schmidt Editor foi feito por Octávio de Faria para o LP Canto do Brasileiro Augusto Frederico Schmidt, um documento para a história, disco de poemas lidos pelo próprio poeta, pelo conjunto vocal Jograis de São Paulo e pelos atores Fernanda Montenegro e João Villaret. O LP foi lançado em 1967 pelo selo Festa, do jornalista e produtor artístico Irineu Garcia, em convênio com a “Sociedade dos Amigos de Augusto Frederico Schmidt”, instituição fundada em 1966 e, infelizmente, de vida curta. Escreveu Octávio de Faria: “Apesar de tudo – do imenso anedotário que à sua volta se formou, da incoercível gratidão de todos aqueles a quem seu ímpeto editorial revelou ou projetou decisivamente –, não é geralmente apreciado no seu justo valor o Editor Schmidt, isto é, Augusto Frederico Schmidt enquanto editor. Talvez porque outros aspectos de sua personalidade – o poeta, o prosador, o político, o economista, o negociante – tenham sido nele muito mais brilhantes, não se deu nunca atenção suficiente do papel que o editor Schmidt desempenhou na nossa meia década literária 1930-1935. Foi ele, no entanto, um editor de extraordinária importância nas nossas letras, um José Olympio a seu modo. “Talvez eu pareça, a muitos, suspeito para falar de Schmidt como editor, pois fui um dos primeiros que ele editou – num extraordinário impulso de simpatia e com um entusiasmo que, no julgar de 39
alguns, beirou os limites do espalhafato. Mas, independentemente do meu pequeno caso particular, quantos grandes nomes da nossa literatura não revelou ele – e, quase sempre dos de mais indiscutível qualidade. Ao sabor da memória, vou lembrando um Lúcio Cardoso, um Jorge Amado, um Amando Fontes, um Gilberto Freyre, um Marques Rebello e tantos outros. Certo, não durou muito tempo o impulso editorial schmidtiano. Cedo foi atraído pelo que podemos chamar ‘os seus outros destinos’. Mas não se pode esquecer o que o editor Schmidt representou para a nossa literatura. É em nome dela (e acidentalmente no meu próprio) que quero deixar aqui o agradecimento – mais esse agradecimento cultural – a Augusto Frederico Schmidt pelo muito que fez, em sua tão brilhante e tão curta existência, em benefício de nossas letras.”
O Casamento Aos 28 de novembro de 1936, nesta cidade do Rio de Janeiro, na casa da Rua Dom Geraldo número 5, morro de São Bento, na presença do juiz da segunda pretoria cível, receberam-se em matrimônio sob o regime de comunhão de bens, Augusto Frederico Schmidt e Yedda Ovalle Lemos, que passará a assinar Yedda Lemos Schmidt. Ele nascido nesta capital federal, em 18 de abril de 1906, filho de Gustavo Schmidt e Anita de Azevedo Schmidt, residente à Rua Cândido Mendes, 21. Ela nascida nesta capital federal, em 2 de abril de 1912, filha de Caio Lustosa de Lemos e Sra. Ovalle de Lemos, residentes à Rua Djalma Ulrich, número 115. Foram testemunhas: Francisco Campos, Constança Fontainha, Philomena Menezes de Miranda, E. Solano Cunha, Magdalena Nabuco, G. Gomes de Souza. O casamento religioso realizou-se no Mosteiro de São Bento. O casal iria morar em Copacabana, no último andar da Rua Almirante Gonçalves, esquina com a Avenida Atlântica, quase ao lado
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do restaurante Alcazar, ponto de encontro de jornalistas e escritores. Otto Lara Resende, em seu livro de memórias, O Príncipe e o Sabiá, lembra o dia em que conheceu Pablo Neruda, que do Alcazar subiu ao apartamento do Schmidt e, com a ajuda dos escritores amigos, devastou a adega schmidtiana. Outro depoimento curioso é de Drault Ernanny, publicado em seu livro de memórias, de 1988, Meninos, Eu Vi... E Agora Posso Contar: “Eu era, então, muito amigo de Afonso Pena Júnior, e levei-o a conhecer o general Canrobert Pereira da Costa na casa do poeta Augusto Frederico Schmidt, em Copacabana. Fez-se grande confraternização sob as vistas do Schmidt, político amador e grande empresário. A conversa prosseguiu animada, e veio à baila o tema das candidaturas. Cada qual apontava no outro mais qualidades para o cargo de chefe da nação. Depois de longas conversas, o próprio general Canrobert e Afonso Pena Júnior, dando um balanço na situação, viram que não tinham cacife para as respectivas candidaturas. Schmidt e eu a tudo assistíamos com divertida curiosidade. Nessa tarde, os dois desceram pelo elevador do prédio onde morava o poeta, ao lado do Alcazar, sobraçando, cada um, uma boa garrafa da adega do anfitrião.”
Schmidt Esportista Tal como seu pai, Augusto Frederico Schmidt era torcedor do Botafogo. Inicialmente foi presidente do Clube de Regatas Botafogo. Tinha conhecimento de que seu pai, ao lado dos poetas Olavo Bilac e Guimarães Passos, assistira ao batismo do esguio e elegante yole “Salamina” no remo, realizado por Bilac em 28 de abril de 1910. Em 8 de janeiro de 1941, Schmidt tomou posse como presidente do Clube de Regatas Botafogo. O Correio da Manhã de 10 de janeiro de 1941 noticiou: “Revestiu-se de um brilho invulgar a posse 41
do novo presidente do Clube de Regatas Botafogo, nome bastante conhecido nos meios literários e industriais do país. A reunião foi presidida pelo ministro Gustavo Capanema, achando-se presentes, entre outros elementos de destaque social, os Srs. Luiz Aranha, Lourival Fontes, Macedo Soares, os presidentes do Flamengo, Fluminense, Vasco, etc., além de numerosas famílias. Os discursos trocados entre o novo dirigente do ‘vovô do esporte náutico’ e os demais presentes foram bastante expressivos para o futuro do pavilhão da Estrela Solitária.” Schmidt presidia o Clube de Regatas Botafogo, e um triste acontecimento fez com que o Botafogo Futebol Clube e o Clube de Regatas Botafogo se tornassem um só – o Botafogo de Futebol e Regatas. Acontecia uma partida de basquete entre os dois clubes. Em certo momento, um dos atletas do Regatas sentiu-se mal e morreu durante o jogo. Consternação em ambos os clubes. Quando o corpo do atleta estava sendo conduzido ao cemitério, ao parar o cortejo fúnebre junto à sede do Botafogo, Schmidt discursou e declarou que a partir daquele momento não haveria dois clubes Botafogo, mas somente o Botafogo de Futebol e Regatas. O poeta tornou-se vice-presidente do clube e, posteriormente, seu presidente. Não perdia uma partida sequer do time de futebol da Estrela Solitária. Como presidente do “Glorioso”, Schmidt prestou homenagem a Olavo Bilac, torcedor do Botafogo, já então falecido, inaugurando, no dia 13 de julho de 1942, a fotografia do poeta na sede do clube, na presença de altas autoridades civis e militares. A festa do Clube da Estrela Solitária contou com a presença do Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, que paraninfou o batismo de um barco outrigger a quatro remos, denominado “Via Láctea”, como homenagem a Olavo Bilac. Schmidt discursou e Yedda, sua esposa, descerrou a imagem fotográfica do poeta que presidira várias assembleias gerais do Clube de Regatas Botafogo. O batismo da nova embarcação foi efetuado pela Sra. Yedda Lemos Schmidt e pelo General Eurico Gaspar Dutra, que pronunciou um discurso de agra42
decimento pela homenagem que recebeu do veterano clube náutico. Como presidente do Clube de Regatas Botafogo, o poeta Augusto Frederico Schmidt encerrou a cerimônia, agradecendo a presença dos participantes e visitantes. Em 1º de maio de 1946, Mário Filho publicou um texto sobre o Schmidt esportista: “Augusto Frederico Schmidt estava cansado. Também não era para menos. A tribuna do Botafogo, cheia de gente, não cabia mais um alfinete lá dentro e ele torcendo. Enquanto torcia desfez o laço da gravata, abriu o colarinho para poder respirar direito. Quase que ele não encontrara lugar na tribuna de honra. E o Bebiano dera ordem, mandara passar uma corda em duas cadeiras, uma para o Schmidt, outra para o Paulo Bittencourt, que não veio. Augusto Frederico Schmidt demorara-se no vestiário. A conversa dele foi com o Heleno (de Freitas). Heleno devia fazer isso, fazer aquilo. Augusto Frederico Schmidt não tinha pretensões de ser um Ondino Vieira. Junto de Heleno ele se tornava paternal. Sim, era uma coisa assim de pai a filho. Augusto Frederico Schmidt, mais velho, mais experiente, conhecendo a vida, aconselhava a Heleno: ‘Não grite com os companheiros, Heleno’. Heleno prometia não gritar, não gritara, andava para cima e para baixo do campo, merecia uma recompensa.” Continua o jornalista Mário Filho, em suas páginas de memórias, sobre a atuação de Schmidt como esportista: “Oswaldo, o goleiro do Botafogo, engoliu um gol. Ficou parado no meio do gol, nem se mexeu. A bola entrou, gol contra o Botafogo. Eu estava na tribuna de honra, perto de Augusto Frederico Schmidt. Nunca vi o Schmidt perder a cabeça daquela maneira. Levantou-se, começou a dar gritos, a apontar para o gol do Botafogo, Oswaldo ainda não se mexera, parecendo que não havia acontecido nada. ‘É o falso calmo – o Schmidt quase que estourou os pulmões – E o falso calmo, é o boboca!’ A bola foi para o centro do campo, deram nova partida, o Schmidt continuava gritando, o dedo acusador apontado para o Oswaldo: ‘E o falso calmo, é o boboca!’ Só sentou-se muito tempo depois. O san43
gue subira-se todo para a cabeça. O Oswaldo estava tão calmo que as bolas entravam e ele nem se mexia. ‘Um dia eu não aguento, um dia eu arrebento.’ ‘Calma, Schmidt, calma!’ ‘Quem pode ficar calmo com um Oswaldo no gol?’.”
O Conferencista Uma das mais destacadas atividades culturais de Augusto Frederico Schmidt, principalmente em sua maturidade, foi a de conferencista. Várias vezes ocupou a tribuna para discorrer sobre autores, principalmente franceses, dos quais era um constante leitor. Sobre esses autores escrevia também em jornais e revistas. Em 30 de julho de 1935, por exemplo, Schmidt leria sua conferência sobre Léon Bloy, no salão da Escola Nacional de Belas Artes. Em 7 de novembro de 1941, apresentou na Associação Brasileira de Imprensa uma palestra sobre a atualidade de Victor Hugo, patrocinada pela Associação da Cultura Franco-Brasileira. Foi memorável sua conferência sobre Luiz de Camões e a Pátria, da qual transcrevemos pequeno trecho. Disse ele: “É fora de dúvida que o Poeta dos Lusíadas deve, em primeiro lugar, ser contemplado como a encarnação do amor à pátria. O sentimento de pátria é, em Camões, uma das mais comoventes e poderosas faces do seu gênio.” Conta-nos ele, num dos seus incomparáveis sonetos, tratando de um herói desaparecido, mas sem dúvida lembrado de si mesmo tal como na boca do Vasco da Gama – põe também estas outras palavras irmãs –, como uma nota calorosa entremeando uma fria e admirável descrição da Europa: “Esta é a ditosa pátria minha / À qual se o céu me dá que eu sem perigo / Torne com esta empresa já acabada / Acabe-se esta luz ali comigo. Sempre que sobre a pátria se manifesta Camões, é impossível sentir-lhe coisa diversa desse tom, que bem demonstra que o coração nosso está com o pensamento, 44
tão misturado, como o sal o está com as águas do mar. É nesse sentimento da pátria que o Poeta é singularmente exemplar. Elevou-se sobre o povo, imortalizou-se entre os de sua raça, etc.” A palestra foi publicada em plaquete. Ainda sobre Camões, Augusto Frederico Schmidt pronunciou um discurso na Academia Brasileira de Letras, em 23 de maio de 1943. É uma palestra de 14 páginas, das quais são reproduzidos aqui alguns trechos: “Vivemos uma hora de angústia, uma hora de suprema indecisão, sentimos a mais estranha inquietação que já foi dada a uma geração experimentar. Os inimigos do homem estão em toda parte e há nesse tão cruelmente visado ser humano uma perplexidade, uma incompreensão que muitas vezes o não deixa lutar, porque ele termina por não saber ao que pertence, porque ele parece ter esquecido de onde é, e o que deve preservar e defender. […] Camões, a cujo estudo aqui nos vamos dedicando, em tão variadas sessões do maior interesse, resume bem, exprime e configura pela sua personalidade numerosa, o que deve, agora mais do que nunca, ser, excepcionalmente, caloroso e presente em nosso coração e em nosso espírito. Através do Poeta podemos resumir coisas presentes e tratar e sentir o que neste instante nos interessa acima de tudo porque é nosso destino e nossa vida. E por isso que eu cuido não errar muito, nem muito me distanciar do plano desde curso, procurando, mais de perto e menos eruditamente, no contemplar o nosso poeta, trazê-lo do fundo do seu túmulo e do alto da sua glória, para perto de nós, para esta Babilônia onde sentados choramos as lembranças de Sião, para a proximidade da nossa angústia e da nossa inquietação, como um exemplo, como lição eloquente, como a indicação de um caminho que é o caminho da libertação e da vitória pela poesia, como o insubstituível modelo do que precisamos para que não nos falte ânimo indispensável para este momento de provação em que as formas da história estão tão desmensuradas com a nossa humana fragilidade.” 45
Camões e a Pátria “É fora de dúvida que o poeta dos Lusíadas deve, em primeiro lugar, ser contemplado como a encarnação do amor à pátria. O sentimento de pátria é, em Camões, uma das mais comoventes e poderosas faces do seu gênio. Esta é a ditosa pátria minha / A qual se o céu me dá que eu sem perigo / torne com esta empresa já acabada, / Acabe-se esta luz ali comigo. Sempre que sobre a pátria se manifesta Camões, é impossível sentir-lhe coisa diversa desse tom, que bem demonstra que o coração nisso está com o pensamento, tão misturado como o sal o está com as águas do mar. É esse sentimento da pátria que o Poeta é singularmente exemplar. Elevou-se sobre seu povo, imortalizou-se entre os da sua raça, sagrou-se como o maior entre os nascidos na terra materna, porque fez, do seu gênio e da sua voz, instrumentos de exaltação, de glorificação e de enobrecimento desse povo, dessa raça e desse paterno ninho, que nele teve pregoeiro incomparável. Camões deu a Portugal a sua legenda. Deu-lhe, pois, o elemento indispensável à resistência, a substância idealista, o indefinido, o sonho, a exaltação, o fogo, esse fogo interior que não deixa o frio dominar as paisagens e os seres, que não permite que as nações morram congeladas de desânimo, de tédio, de anemia, da indiferença de ser ou não ser. Escrito e publicado Os Lusíadas, desaparecido o poeta, ou melhor, apartada do mundo a alma que habitou esta prisão terrestre e escura, Camões principiou a crescer e viver vida gloriosa e nova, a realizar a sua estranha viagem póstuma que teria como resultado final o sair ele do seu túmulo sem nome para a consagração, para o monumento nacional, onde, adormecidos, esperam a ressureição que está na promessa, os que foram os mais altos e nobres pelo nascimento e pelos feitos, os reis, soldados ilustres e navegantes.”
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Palestra sobre Péguy Convidado a falar sobre Péguy, em 1934, disse o poeta Schmidt: “Convidado há três dias apenas para vos falar nesta sessão, não me foi possível recusar. Falar sobre Péguy é para mim muito mais do que um exercício literário – é alguma coisa que se assemelha a um dever. E aqui estou para cumpri-lo. “Não é possível, talvez, aos que ainda não se debruçaram sobre a sua grande alma, a compreensão disto: Péguy não é um autor, Péguy não é, para quem o conhece, para quem tomou contato com o seu espírito, através dos seus livros e dos livros com depoimentos sobre ele, não é apenas um poeta, um pensador político, uma figura de intelectual. Péguy é uma alma, um tipo representativo da nobreza e da lealdade da inteligência; um tipo autêntico de clérigo, um guia para a viagem na inquietação, um santo! Péguy foi um santo. Há mesmo um livro sobre a sua santidade. Foi um santo, não ainda na força definidora da palavra da Igreja, mas santo para nós, na nossa concepção ele o foi. A força do seu heroísmo, a sua capacidade de crer, de animar, de afirmar; os seus silêncios diante do céu, os seus passeios pela madrugada, a sua capacidade de indignação, não hão que negar, são atributos da santidade. “Ao vos falar neste momento, meus amigos, sobre este Péguy, morto há vinte anos como soldado da grande guerra, ao vos falar deste que desceu à terra, que desapareceu há vinte anos, e que conheço só através dos livros, tenho uma emoção idêntica à que me causaria o estar aqui evocando a figura de um irmão e de um amigo, porque para os que têm força de amar e compreender, Péguy é um irmão e um amigo. “Nestas rápidas palavras, nestes poucos minutos eu quero fixar bem a minha impressão de Charles Péguy, com o intuito de fazê-lo tão amado por vós, como ele o é por mim. “Péguy veio do socialismo aos braços da Igreja do Cristo, com uma dignidade admirável. Marchou através das ideias e dos sentimentos
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com uma lógica e uma pureza tão grandes que jamais foi menos cristão durante um só momento de sua vida. Cristão ele foi sempre, desde o tempo de Cour Rose, evocada pelos irmãos Tharaud, quando ele procurava redimir o mundo pelo ideal da revolução social.”
Schmidt Sempre Presente Augusto Frederico Schmidt fez parte da Comissão Promotora da sessão comemorativa do aniversário da Lei do Ventre Livre, realizada no salão nobre da Escola de Belas Artes, sob a presidência do Conde de Afonso Celso. Nota interessante foi a presença da irmã sobrevivente do poeta Castro Alves, que, embora idosa, declamou o poema O Navio Negreiro do poeta, segundo o jornal A Manhã, de 27 de setembro de 1929. O mesmo jornal, em 2 de outubro de 1929, noticiou a homenagem à declamadora Eugênia Álvaro Moreyra, com a presença de grande número de intelectuais, entre eles Pontes de Miranda, Edmundo da Luz Pinto, Tristão da Cunha, Olegário Mariano, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Felipe de Oliveira, Murilo Mendes e Peregrino Júnior. O Diário Carioca, de 29 de abril 1930, noticia o almoço oferecido ao escritor Peregrino Júnior por sua formatura em Medicina e pela publicação do seu livro Pussanga: Episódios e Paisagens da Amazônia. A homenagem aconteceu no Clube Bandeirantes, no Rio de Janeiro. O escritor foi saudado por José Maria Filho. Estavam presentes os senadores Lauro Sodré, Gilberto Amado, José Augusto, Souza Castro, o deputado Rafael Fernandes, os jornalistas Paulo Filho e Figueiredo Pimentel, os escritores Oswaldo Orico, Ronald de Carvalho, Anderson Magalhães, Augusto Frederico Schmidt, Álvaro Moreyra, Renato Almeida, Raul Machado, Waldemar Berardinelli, Cornélio Penna, Berilo Neves e vários outros. 48
Em 11 de março de 1933, o Diário Carioca publica reportagem sobre os funerais, em 10 de março, do poeta Felippe de Oliveira, falecido em Paris em desastre de automóvel. O corpo foi velado na igreja da Candelária, na qual, às 10h, foi celebrada uma missa. A urna foi então segurada pelas alças pelo Ministro Oswaldo Aranha e pelo coronel Gregório da Fonseca, secretário do chefe do governo provisório de Getúlio Vargas. Na capela mortuária falou em nome da Fundação Graça Aranha o senhor Renato Almeida. Usaram também da palavra o professor Júlio Novais e o poeta Augusto Frederico Schmidt. Pouco tempo depois, na inauguração de uma rua em São Paulo com o nome de Felippe de Oliveira, foi o Schmidt quem discursou em nome dos amigos do poeta recém-falecido. Augusto Frederico Schmidt esteve sempre presente a todas as homenagens a escritores, no Rio de Janeiro. Em 1934, foram prestadas homenagens a Agrippino Grieco, expoente da crítica literária no Brasil, com um banquete e uma sessão solene na ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Escritores, em grande número, foram promotores dessa manifestação, entre os quais Ronald de Carvalho, Gastão Cruls, Joaquim Ribeiro, Augusto Frederico Schmidt, Pereira da Silva, Murilo Araújo, Dante Costa, Jorge Amado e vários outros. Quando a Companhia Teatral de Louis Jouvet se apresentou no Rio de Janeiro, em julho de 1939, para um recital poético, onde foram ouvidos poemas de várias figuras da literatura francesa de diferentes épocas, o discurso de apresentação foi feito por Augusto Frederico Schmidt, que enalteceu a França e a língua francesa, frisando o gesto nobre de Louis Jouvet, que dedicou a renda do espetáculo ao túmulo de Castro Alves. A conferência de Augusto Frederico Schmidt sobre Machado de Assis, em sessão solene no Liceu Literário Português, em 29 de julho de 1939, foi um grande sucesso. A conferência foi publicada no Jornal do Commércio, em 13 de agosto de 1939, e no Mensário do Jornal do Commércio, de agosto de 1939, tomo VII, volume VII, páginas 505-520. 49
O jornal Dom Casmurro, uma semana depois, apresentava esta resenha: “Um dia da semana passada o conhecido escritor Augusto Frederico Schmidt proferiu uma conferência no Liceu Literário Português, que marcou um grande acontecimento social e literário. Analisando numa prosa viva e brilhante a figura e a obra do autor de Quincas Borba, Augusto F. Schmidt deu a conhecer ao público imenso que o ouvia, um dos mais originais comentários jamais escritos ou falados sobre a personalidade do maior romancista brasileiro. A plateia, aristocrática e composta das mais expressivas figuras das letras, da política e da sociedade carioca, que ocupava todo o salão da associação portuguesa, soube apreciar com entusiasmo aquela festa da inteligência, aplaudindo demoradamente o consagrado poeta de Pássaro Cego.” Nas homenagens prestadas ao poeta Jorge de Lima, também vereador no Rio de Janeiro, pelo seu falecimento, o poeta Augusto Frederico Schmidt foi um dos mais eloquentes oradores. Em suas colaborações para jornais, Schmidt várias vezes publicou artigos sobre escritores. Por exemplo, o ensaio que escreveu para o hebdomadário Dom Casmurro sobre Álvares de Azevedo, que tomou cinco colunas dessa publicação, em 3 de janeiro de 1942: “Manuel Antônio Álvares de Azevedo, em Macário e Noite na Taverna, deixa entrever que dimensão e poderoso interesse alcançaria sua obra literária, se o poeta não tivesse desaparecido aos vinte anos e meio de idade, depois de ter espantado colegas e professores, com suas múltiplas capacidades e o esplendor da sua natureza irresistivelmente atraída para os abismos e as angústias do homem. “Álvares de Azevedo, que não foi senão um estudante, mas que estranha palpitação de forças contrárias, que intensidade existencial, que perspectiva de uma grande coisa humana, e que voos nos prometeu esse pássaro, imobilizado pela morte imprecisa da adolescência! Como sua presença teria sido dominante na literatura brasileira, se mesmo o que ele não pôde ser, pela miséria do tempo que lhe coube viver, permanece em nossas letras como perda irreparável; se 50
os seus ensaios, as suas tentativas, os traços de sua viagem, tão cedo interrompida constituem, assim, um dos patrimônios mais preciosos de nossa literatura. Entre todos os poetas e prosadores da nossa chamada fase romântica, esse quase menino, Álvares de Azevedo, foi o ser mais autêntico, o que mais se integrou na atmosfera do seu mundo, o mais intimamente ligado a esse ‘estado de espírito’, o romantismo, que sendo um movimento eterno, mais alternado da alma humana (o movimento que a impele para si mesma), estava precisamente dando o colorido do tempo em que viveu o nosso poeta. O romantismo é um estado de espírito que afirma o primado irrecorrível do homem, com as suas necessidades passionais, com o seu inconformismo e seu desespero sobre o mundo lógico, o mundo clássico, o mundo existindo em função de ritmo, e da necessidade das sociedades e do mundo. O ideal romântico na alma humana é o mais gratuito, o mais desordenado, o que tende para a liberdade, o que dispensa as forças virgens – as do bem e as do mal. O ideal clássico, ao contrário, procura a unidade e a economia de todas as riquezas para uma determinada aplicação em que se resume a beleza, as virtudes harmoniosas e os ritmos perenes do ser humano. “Álvares de Azevedo era integralmente um romântico, um ser que se afirmava a si mesmo, antes de afirmar o mundo. Os vinte anos que viveu foram todos gastos intensamente, febrilmente, sem pausas. As disciplinas mais diversas o seduziram, e a sua irresistível vocação literária não prejudicou, muito ao contrário, o gosto pelos estudos áridos”. Notável conferência de Augusto Frederico Schmidt foi proferida na Universidade Católica, no Rio de Janeiro, em dezembro de 1959, sob o título: “Cícero – Pai do Ocidente”. Reproduzimos apenas uma pequena amostra da conferência: “Cícero conserva-se, dois mil anos depois que as intrigas e virulências da política lhe fizeram rolar a cabeça, um homem que bem compreendemos, muito próximo de nós pelas semelhanças que 51
apresenta com o homem de hoje. A ele podemos chamar ‘Pai do Ocidente’ – conforme foi dito de Virgílio. A maneira de sentir os problemas e as reações ciceronianas são, precisamente, as que costumamos qualificar de próprias do espírito ocidental. “Falando desse advogado, desse político nascido 106 anos antes do advento de Cristo, sinto-me perfeitamente à vontade, como se estivesse tratando de uma figura de ontem, não cristalizada ainda pela rigidez do julgamento histórico, não marcada ainda e transformada pela legenda. “Cícero está vivo e, como vivo, submetido a toda sorte de julgamentos, de contradições, de desentendimentos. Em poucas criaturas humanas, como nele, o dom da palavra e da expressão literária foi tão realmente uma defesa contra a morte. Seus discursos, sua correspondência, seus comentários, suas obras, enfim, oferecem-nos mais do que um conjunto impressionante do poder de um espírito da arte de argumentar, de discutir, de sentir problemas, de expor e examinar razões – mais do que tudo isso – a revelação da presença na terra desse milagre que é o homem. Morto há dois mil anos, continua a seguir-nos, a intervir, a produzir catilinárias e verrinas. Foi injustiçado, mal compreendido, desafiou e foi desafiado. Nada lembra nele o modelar virtuoso, o impecável, o correto, o cidadão sem faltas, o fariseu. Mas que fonte pública de sabedoria! Sem o querer e, quase sempre sem o saber, o estamos repetindo, nas expressões, nas frases, nos pensamentos.”
Schmidt Poeta Jornalista, memorialista, articulista, ensaísta, negociante, orador, etc., nenhuma de suas qualidades lhe era melhor vista que sua condição de poeta. Sua obra poética foi reunida em muitos livros, a partir do primeiro, Canto do Brasileiro Augusto Frederico Sch52
midt, seguido de Cantos do Liberto Augusto Frederico Schmidt. Sua obra poética é extensa. Publicou muitos livros de poesia e escreveu diversos poemas que foram reproduzidos em jornais e revistas – e que permanecem inéditos em livros. Suas crônicas de memória são sempre mescladas de poesia. Publicou muitos sonetos, mas também grandes poemas, muitos deles esquecidos em revistas e jornais, não publicados em livro, como este “Poema de Natal”, reproduzido na revista A Ordem, de janeiro de 1938: Na hora da adulação ao terrível Senhor do Império, / Na hora da frouxidão e da sombra, / Na hora da última queda, da descida ao chão de um povo que foi o escolhido; de um povo que teve um dia Moisés como condutor, / De um povo que teve Salomão e David. / De um povo que inspirou a poesia oleosa e trigueira do Cântico dos Cânticos / Com a sua Rosa Vermelha, e os seus ciprestes balançados pelos ventos, / Foi, pois, na hora em que Judá se prostrava diante dos pés do César / Na hora em que a poesia descera sobre a antiga nobreza / Sobre a raça altiva e dilacerada. / Foi na hora da Morte / Que o Menino chorou pela primeira vez com o seu pequeno corpo castigado pelo frio deste mundo / E então, Roma foi vencida / E o sinal da Cruz surgiu diante das tropas guerreiras, / E Roma, plácida e sólida como um pomar na primavera, / E Roma madura no seu espírito / E harmoniosa nas suas formas, e a grande Roma que deu em Virgílio a medida, da sua harmonia e da sua clara maturidade. / E Roma, a Fecunda, campo de trigo sob os azuis céus abertos / E Roma, a sólida, somente se prolongou pela eternidade com a sua influência decisiva e renovadora / E adquiriu as substâncias indispensáveis à vida, no mundo que ia nascer e que é o nosso mundo. / Isto só porque recebeu e guardou as palavras, a máscara piedosa e magnífica e o sangue / Do Menino que nasceu em Belém! Natal! Natal! Natal!… / Cantai, Anjos, a Glória do Natal / Cantai, vozes em coro o Menino transido / Cantai, estrelas nos céus noturnos. / Cantai, corações, em que a esperança revive e sempre se renova, / Cantai, ó almas ainda intocadas / Cantai, vozes mater-
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nas, vozes fecundas e enternecidas / das criaturas que transmitiram a Criação / E repetiram o sacrifício de Maria. / Cantai, santos e pobres, I Cantai para acordar o mundo. / Cantai para lembrar ao mundo o Acontecimento / Cantai, dentro da funda Noite, para defender a inocência, / Cantai sobre os campos de batalha, / Sobre os ódios e as divisões destes tempos, / Cantai para que se avivem e inquietem as memórias, / Cantai em defesa das crianças que estão nascendo nesta hora, / Em todas as partes do mundo. Que a mensagem de Natal seja, nessa hora amarga, / Que a poesia de Natal seja, neste instante de agonia e de tristeza, Transmitida com um heroísmo até aqui não conhecido, / Que a mensagem de Natal, que a música do Nascimento do Redentor chegue até onde domina o silêncio áspero dos Estados dos novos Césares / Que a mensagem do Natal, que a música do Nascimento redentor chegue até onde domina o silêncio áspero dos Estados dos novos Césares, que a mensagem do Natal chegue até onde o Cristo é negado à infância, / Até onde a Face do Cristo é escondida às crianças, / Às crianças que O procuram, no entanto, sem saber sequer que O procuram / E que reconheceriam facilmente se O encontrassem, / Porque se sentiriam compreendidas e amparadas, / Com a simples ação da sua presença incomparável. Natal! Natal! Passos perdidos na neve / Passos nas matas, nas cidades, nos campos em flor, / Sinos cantando o Natal! O Natal dos deserdados / O Natal dos solitários / O Natal dos que estão lutando nas trincheiras / O Natal dos que não aprenderam o nome do Cristo / O Natal dos que não têm esperanças / O Natal de todos os filhos destes tempos inquietos / O Natal sem bênçãos e o Natal sem alegrias / O Natal humílimo, e o Natal da Hora da Agonia. Descei – ó! Poesia impossível e intraduzível do Natal / Sobre a avidez e a insensibilidade desta hora incerta / Descei, ó! imagem nua do Cristo recém-nascido do ventre imaculado / Descei, ó! espírito puríssimo do Natal, / Descei, sobre os nossos corações e sobre as nossas tristes cabeças, / Descei como o sol quando desce sobre a terra, / Descei para dar-nos o Coração do Cristo, o Coração acolhedor e insubstituível do Cristo, / Sem o qual o Mundo é escuro e
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sem nenhum sentido, / Sem o qual a vida é a própria Morte, / Sem o qual não há esperança, nem alegria. Amém!
Em entrevista ao jornal literário Dom Casmurro, o escritor Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima) encerrou dizendo: “A poesia proporciona grandes mensagens do coração e da inteligência. Aí temos o amargo sentimento de Carlos Drummond de Andrade, a ideia profunda de Vinícius de Moraes, e sobretudo a mais extraordinária de todas, aquela que é tão grandiosa que chega a ser épica, a que representa uma espécie de neorromantismo, a do maior poeta brasileiro de hoje, Augusto Frederico Schmidt – o que pôs em seus versos toda a tremenda angústia e sofrimento do mundo em que vivemos.” Como era um escritor colaborador de jornais, ele, costumeiramente, era convidado a escrever participações em livros de outros autores. Assim, o poeta Schmidt foi convidado a redigir o prefácio de uma nova edição do livro de Eduardo Prado, A Ilusão Americana. Schmidt registrou em um trecho: “Da leitura desse grande panfleto do Brasil (o que já é uma viagem ao passado) trago a impressão de ter estado em contato com uma força nova, com alguma coisa de vivo, de sadio e de harmonioso na própria exaltação.” Por essa época, o poeta Schmidt também era convidado para quase todos os eventos ocorridos no Rio de Janeiro. Em 1942, a colônia espanhola do Rio de Janeiro ofereceu dois aviões para a Campanha Nacional de Aviação (para dotar os aeroclubes de aparelhos para instrução). Discursaram na ocasião: o escritor Augusto Frederico Schmidt, o jurista Justo de Morais e o embaixador da Espanha, Fernandes Cuesta. Quando o romancista Graciliano Ramos completou 50 anos, foilhe oferecido um banquete, sendo juntamente oferecido ao escritor um grande prêmio em dinheiro. Como seu primeiro editor, Augusto Frederico Schmidt foi o escolhido para o discurso de apresentação do prêmio e da saudação a Graciliano. Disse o poeta, com certa ver55
ve: “Pediram a um homem gordo que saudasse no seu cinquentenário a um homem seco. Pediram a um homem que tem pecado às vezes por falar, a um homem capaz de longos silêncios, o quanto esse homem é admirado e querido. Pediram-me que traduzisse, meu caro Graciliano Ramos, a nossa compreensão pela sua figura e pela sua obra, a você que tem sido tão duramente incompreendido. Pediram-me que falasse em nome de muitos a um homem solitário e que a vida provou, não raro, amargamente. E aqui estou eu, extremamente comovido, consciente de que não posso errar nessa missão que a mim conferiram. É que esta noite não se repetirá, é uma noite única para sua vida, é uma noite em que devemos tratar a você, que é um ser tão prevenido e mesmo tão desconfiado, a convicção de que sua existência, que você considera tão melancolicamente, é uma existência que se realizou plenamente, é uma existência de um homem que trabalha, que se afirmou, que sonha crescer sozinho graças a sua força, graças a sua natureza cheia de dignidade.”
Rui Barbosa, Defensor do Homem Uma das palestras mais destacadas de Augusto Frederico Schmidt foi realizada na Casa de Rui Barbosa, a 11 de agosto de 1939. É um longo discurso que ocupa 18 páginas da revista posteriormente publicada, e de que reproduzimos apenas algumas linhas. Disse então o poeta: “Ninguém terá no Brasil conhecido glória tão alta e plena como Rui Barbosa. Todo o país, desde a proclamação da República até o fim do governo Epitácio Pessoa, como que viveu assistindo o espetáculo da pregação e da atividade política e jurídica do leader do liberalismo, do professor da justiça, do homem intemerato que afrontou e desafiou situações, que nunca desfaleceu, advogando todas as causas do seu país e algumas das grandes causas universais. 56
“Morto, porém, Rui Barbosa, o mundo de que ele fora pelas suas ideias e atitudes, figura tão representativa e exponencial, como que acabou de súbito também, e a sua glória começou a ser solapada pela dúvida. O olhar diferente dos que nasciam sob a inspiração dos novos tempos principiou a despir aos nossos olhos o herói, das suas roupagens ideais, e a entrar no exame impiedoso da grande figura, procurando diminuí-la, limitá-la, e mesmo expulsá-la para o reino das sombras, onde descansam os que brilharam apenas na sua hora, os que não traziam o destino da grande duração e as qualidades que marcam os homens para sempre na memória dos povos.” E o poeta Schmidt finaliza a sua palestra: “Rui Barbosa pode ter sido um excessivo e um prolixo, pode terse deixado embalar, por vezes, pela música do seu próprio verbo, mas não foi um demagogo e não falou por falar. Ele era, de resto, um homem de ordem. Digam o que disserem os seus julgadores apressados, toda a sua vida respira esse desejo do método, da aplicação voluntária e de trabalho. Toda a sua personalidade, mesmo contemplada agora de longe, numa hora em que não lhe é propícia, nós a sentimos penetrada de uma grande sinceridade. Ele era o sacerdote de uma ideia sagrada, à qual não traiu jamais, a ideia de defender o homem. E enquanto o homem precisar de defesa, e isto será sempre, enquanto o mundo não for um equilíbrio perfeito e impossível, enquanto fracos e fortes estiverem uns diante dos outros, a figura de Rui Barbosa terá que ser olhada com o respeito que merecem e reclamam os heroicos, os autênticos, os servidores da Pátria, os que não mentiram à sua missão e ao seu destino.” Schmidt escreveu e publicou muitas páginas sobre vultos da literatura francesa, dos quais foi um constante leitor. O escritor Agrippino Grieco, em seu livro Evolução da Prosa Brasileira, observa: “Augusto Frederico Schmidt, de quem ainda não foram esquecidos os estudos sobre Rosamond Lehmann e Alain Fournier.”
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Schmidt Traduzido A poesia de Augusto Frederico Schmidt alcançou vários países. Alguns exemplos: a revista Segnacolo, do Centro Internazionale Artístico Cinematográfico, ano 2, número 1, de Bolonha, na Itália, publicou, com tradução e nota de Ruggero Jacobbi: “Com Augusto Frederico Schmidt a poesia brasileira torna à grande temática universal do período romântico.” Segundo Jacobbi, Schmidt é considerado por alguns críticos o poeta mais tipicamente “brasileiro” do nosso tempo. Depois de apresentar vários sonetos e poemas traduzidos, o artigo cita uma bibliografia italiana de Augusto Frederico Schmidt daquela época: G. Alessandrini, “Un poeta brasiliano”, Giornale dell’Isola, 24/10/1951; Nunzio Cossu, “Un poeta brasiliano”; PA. Jannini, Le piu belle pagine delia leteratura brasiliana, ed. Nuova Accademia, Milano, 1960; G.C. Rossi, “Coscienza poética nel Brasile d’oggi”, Idea, nº 11, aprile, 1949; Raffaele Spinelli, Croce Del Sud, Ed. Roca, Milano, 1954. Traduções: A. F. Schmidt, Poesie, trad. de Mercedes La Valle, Ed. Danesi, Roma, 1ª ed. 1952; 2ª ed. 1953; G. Ungartti, Poesie Brasiliana, presentazione e versioni di G.U.; R. Jaccobi, Lirici Brasiliani, Ed. Silva, Milano, 1960.
Homenagem da Revista Acadêmica A prestigiosa Revista Acadêmica, publicada no Rio de Janeiro, tendo como editores e colaboradores Murilo Miranda, Moacir Werneck de Castro e Carlos Lacerda, publicou no número 53, de fevereiro de 1941, vários depoimentos sobre a poesia de Augusto Frederico Schmidt.
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Manuel Bandeira escreveu: “Fui dos primeiros a pressentir no balbuciar do adolescente Augusto Frederico Schmidt a força de sua futura poesia. O poeta pagou pontualmente e com enormes juros a nossa letra de crédito quando publicou o Canto do Brasileiro, o Navio Perdido e o Pássaro Cego. A propósito desse último livro escrevi algumas linhas em que procurei definir o que havia de novo, de pessoal e definitivo em seu estro. Saudei-o como a voz necessária que vinha quebrar os clichês gastos do modernismo da primeira hora; que, aproveitando-lhe as lições sabia superá-lo. Defendi-o contra os que lamentavam a recorrência dos grandes temas de sua poesia, os presságios, as ausências, a morte. Adverti-o contra os perigos do paralelismo e do refrão. “Schmidt é hoje um mestre e toda uma corrente da nossa poesia deriva dessa fonte extraordinária da inspiração que adquiriu o seu maior volume no Canto da Noite e na Estrela Solitária. Continuo a reclamar dele alguma vigilância no paralelismo e nos refrãos. Mas não será mesquinharia chicana? Fala-se muito hoje em roman-fleuve. Há também os poetas-rios. Schmidt é poeta-rio. Há que aceitá -lo com a sua massa, às vezes um pouco turva, de sentimentos, de ideias, de imagens. É uma torrente avassaladora que tem beirais e remansos, onde desabam trechos da ribanceira com as suas árvores e criações, e mais longe se debruçam galhos tranquilos de ingazeiros e se refletem as nuvens da manhã. Façamos como a folha que cai na torrente e se deixa levar: essa torrente conduz a Deus.” Na mesma revista, outros escritores fizeram elogios ao poeta Schmidt. Octavio de Faria escreveu: “Na série de homenagens que lhe estão sendo prestadas neste ano de 1940, há um possível perigo para o poeta Augusto Frederico Schmidt, para o seu futuro poético – e, portanto, para a nossa literatura. E que a consagração leva geralmente o artista à satisfação, ao esforço moderado e tranquilo, à insensível repetição de si mesmo. Por maior que já seja, Augusto Frederico Schmidt não é um poeta cuja obra já esteja terminada. Dele ainda há mesmo tanto a esperar, em futuro próximo ou remoto, que não 59
é sem sombra de receio que se deva olhar uma consagração tão inânime, tão total como a que acaba de receber do que há de melhor no nosso atual meio literário. Confiemos, porém, integralmente no poeta Augusto Frederico Schmidt, que acaba de nos dar, com a publicação de Estrela Solitária, uma prova tão eloquente, tão viva, da espantosa riqueza de sua natureza poética, que confundia assim, e de modo tão decisivo, os que julgavam esgotada a sua mensagem lírica com o esplendor do Canto da Noite. A vocação poética em Augusto Frederico Schmidt é mais forte que tudo, e não serão meia dúzia de aplausos, ou o entusiasmo de seus admiradores que o irão corromper e inutilizar. Deus o protegendo da Academia, dos louvores, e incensações oficiais, nada haverá a recear. A sua obra, em plena maturidade ontem, terá amanhã um esplendor ainda maior, caminhando serenamente para a glória que merece.” Santiago Dantas, Luís Martins, Clóvis Ramalhete, Roberto Alvim Corrêa, Jorge de Lima, Gustavo Capanema, Peregrino Júnior, Afonso Arinos de Melo Franco, Martinho Nobre de Melo, Mário de Andrade e Lucio Cardoso escreveram também, na mesma revista, homenagens a Augusto Frederico Schmidt. Carlos Drummond de Andrade, após várias considerações sobre a poesia de Schmidt, afirma: “Há em sua poesia um tamanho desdém de agradar, uma renúncia tão voluntária ao difícil e ao raro, uma comunicação tão terra a terra com as coisas, que os elementos banais, repetidos e enervantes de que se serve acabam se impondo ao leitor como indicações primárias de uma profunda e substancial poesia, recriadora de vocábulos, imagens, associações misteriosas e estranhos apelos. As palavras ficam sendo para o poeta elementos de uma própria distribuição lírica, isto é, que é o seu segredo. Já não interessa apenas às almas simples, e salva Schmidt do puro verbalismo e da declamação retórica. E então sentimo-nos obrigados a corrigir a impressão de um Schmidt fora do tempo, a que suas luas e flores mortas nos induziam ao primeiro exame. Esse poeta rege contra o tempo, mas com ele se 60
articula por milhões de filamentos nervosos, por um dom de infinita comiseração por tudo que é sofrimento e injustiça, e pelo próprio reconhecimento de sua fragilidade em face dos problemas maciços, esmagadores, que o tempo nos propõe. “Cantar! Cantar! Cantar! Para não ficar louco! A voz patética parece sair de um abrigo subterrâneo.” Carlos Drummond de Andrade. Jorge de Lima escreveu: “Jamais acorri com tanto afã em homenagear um poeta, como nesse justo movimento de apreço ao Augusto Frederico Schmidt. Temos mesmo ânsia de proclamar a glória de uma pessoa excepcional, neste instante desequilibrado do mundo em que os episódios sangrentos da humanidade europeia prendem, pela sua selvageria, a atenção do gênero humano estarrecido. O Brasil glorifica um dos seus grandes poetas e felizmente não glorificamos nenhuma guerra, nem louvamos ou incitamos nenhum povo guerreiro. “Os poetas brasileiros voltam-se para o seu clima sem se sentirem obrigados a tratar de assuntos que a sua índole repele. Uma vez Maritain escreveu que serait devenue La guerre deTroje sens Homere? Ah! como são livres os poetas do meu país!” Gustavo Capanema assim se expressou: “Grande, admirável poeta, não és como os cientistas sem critério, os filósofos sem dimensões. Não assistes na praça dos impostores. Nem a tua categoria é a dos poetas superficiais. Tu pertences ao número dos que percebem, dos que entendem, dos que adivinham, dos que pressentem e preveem, dos que anunciam as secretas, as misteriosas coisas da alma humana, dos espaços e das épocas, da duração e do infinito. Os poetas, os poetas superficiais, continua Zarathustra, ‘perturbam suas águas, para fazê-las mais profundas? Assim fazem também os cientistas que não alcançam a verdade, e os filósofos que não atingem o mistério. Tu não, tu que conseguiste o entendimento com o distante e o sobrenatural. O grande rio da tua poesia é claro e luminoso. Mas não se lhe vi a profundidade, que é insondável como a morte, a morte que se mistura nas tuas águas’.” 61
Uma das Muitas Entrevistas Ao publicar Fonte Invisível, o poeta foi entrevistado pelo jornalista José Cezar Borba. Logo no início o entrevistador perguntou se tantas atividades do escritor não prejudicariam a sua poesia. Augusto Frederico Schmidt declarou: “Nada do que tenho feito conseguiu impedir o acontecimento poético – e é notório que eu mesmo tenho feito tudo para que essa poesia não se realize. Tenho levado a minha vida para tais caminhos, tenho-me consumido em preocupações tão diversas, que não sei como não fiz se extinguir essa fonte invisível, que jorra apesar de tudo”. Com estas palavras, escreveu o entrevistador, Augusto Frederico Schmidt iniciou a nossa conversa a propósito da publicação recente de mais um livro de poemas. Lembramos juntos que desde a saída do Mar Desconhecido, no começo de 1942, mais de sete anos transcorreram, até que, novamente, em fins de 1949, ele recolhia em Fonte Invisível a corrente ininterrupta dos versos que continuou escrevendo, aqui e no exterior, sobre o mar de Copacabana, do alto dos arranha-céus de Nova York, em meio ao outono europeu, sob a neve suíça, na primavera parisiense, na Suécia, em Roma, na Inglaterra, em pleno oceano, perto do céu na travessia aérea e, ainda, no seu escritório comercial da Rua da Quitanda, jorrou sete anos por toda parte a fonte invisível do poeta. Haveria influência das viagens em sua poesia? O poeta responde: “Se há uma coisa imóvel no homem móvel que eu sou – é a minha poesia. Perdi muita substância nos nossos encontros com a vida. Adquiri uma experiência incomparavelmente maior, mas na verdade continuo a errar em torno das mesmas ideias e sensações que me fizeram um dia, de repente, numa serraria de Nova Iguaçu, na adolescência, escrever os meus toscos poemas com o mesmo lápis e o mesmo papel que serviam para apontamentos de assuntos de comércio.” Nem todos têm a fortuna de vê-lo, distintamente, em preocupações assim diametralmente opostas. Pode-se dizer que todos o veem 62
em sua dualidade espantosa de criador de riqueza e de beleza, em sua vitalidade pessoal que está longe de se esgotar. Fazemos uma pausa e Augusto Frederico Schmidt diz: “Procuro sempre me aproximar das leis da poesia. Se não o consegui foi a despeito do meu maior e mais vivo desejo. Lembro sempre de uma frase de Péguy, que, traduzida, é mais ou menos assim: ‘Quando todos esperavam que eu continuasse prisioneiro dos versos livres, retornei à liberdade da poesia com seu metro e suas rimas’.” Sem render-se à rigidez das formas clássicas, ele as valoriza aproveitando-as, e aproveitando-as com fidelidade ao seu espírito. Há no poeta uma completa humildade diante da própria glória: “Em todas as minhas atividades, a poesia é a coisa mais importante de minha vida. Poderia chamá-la uma atividade? Procurei em toda a minha vida fugir da poesia. Mas ela é o meu lado verdadeiro, o mais fiel a mim mesmo, e por isso, talvez, fugia dela. Nada dá melhor testemunho do que sou do que estes livros de poesia que caem de mim involuntariamente. “Eu sou poeta há muito mais de vinte anos, em verdade nunca senti como agora, neste momento, a necessidade e também a grande dignidade da poesia. Ao mesmo tempo verifico que cada vez mais se restringe o círculo de interesse e as comunicações que a poesia necessita.”
Morte na Família Tetéia (Filomena Abrilina de Meneses Miranda), era tia-avó de Augusto Frederico Schmidt. Por ocasião de seu falecimento, Schmidt, inconsolável, publicou as páginas talvez mais tocantes, mais poéticas entre todas as que escreveu, sob o título “Desaparição de Tetéia”: “Foi preciso que a morte selasse os seus pobres ouvidos, para que em mim, e como uma seiva inesperada, tivessem surgido e brotado todas as palavras que ela merecia ter ouvido, as palavras que pode63
riam resumir o mundo que conquistara e fundara no meu coração, no meu espírito, no meu ser; as palavras que lhe trariam o sinal e a certeza de que as suas canseiras, de que o seu esforço despercebido não fora estéril e vão. [...] Hoje não é mais um ser! É uma fonte de poesia, uma perene fonte de poesia. Sinto correr em mim a sua poesia, poderosamente. Sinto que me vem dela todo um mundo tocado de graça, leve e puro, um mundo de poesia. Suas palavras mais apagadas, suas histórias mais pobres, seus gestos, os traços de suas ações, tudo o que me ficou na memória repentinamente exata e fiel, está impregnado, úmido, saturado de poesia. Ela é um sopro da própria poesia que já desertava de mim, e que vive um alento novo e desconhecido. Vejo-a na realidade da poesia que já desertava de mim, e que vive um alento humilde e desconhecido. Vejo-a na realidade da poesia, na minúscula realidade da poesia, na minuciosa realidade da poesia – tal como foi, precisamente como foi, e não transfigurada e irreconhecível. É ela mesma, Tetéia, curvada sobre o meu berço, espreitando e vigiando o meu sono; [...] é ela mesma consolando-me nas visitas nos mornos internatos de antigamente [...] não é um ser que imagino agora, vestido, fantasiado, falsificado pela saudade, mas um ser recuperado pela poesia. [...] A que perdoava tudo, a que não viu o homem de hoje inseguro e tantas vezes, quase sempre reprovável; a que só via a criança de sempre, já se foi, já não está mais, já se aquietou no seu túmulo, os olhos azuis fechados para o mundo, os cabelos brancos, as pequenas mãos, a boca de onde saíam as canções ingênuas de adormecer, tudo fechado também e para sempre e nunca mais, fechado no túmulo. Agora é hora de ser julgado, de ser examinado, de ser medido duramente e exatamente, sem perdão, porque a que perdoava se foi, a que era incondicional, a que amava até a injustiça se foi e, com ela, o que restava, o que insistia, o que lutava da velha infância, da infância que está dormindo no seu sono, que está sepultada na sua sepultura, que desapareceu com a sua desaparição, que se apagou tal como a sua voz se apagou para sempre e para nunca mais.” 64
A Morte da Avó Alguns anos depois, quando a avó faleceu, aos 90 anos, Schmidt escreveu, referindo-se ao esquife da avó: “A morte a libertara de suas raízes, lhe dera a paz perfeita, fizera cessar seus sofrimentos. Quem ali estava era mesmo a minha velha companheira de anos e dias amargos, a cujo lado vivi as horas da pobreza, que me protegeu na orfandade, com quem morei num pequeno quarto de pensão humilde na mocidade desprotegida. Esse ser para quem jamais deixei de ser o mesmo menino inquieto e às vezes absurdamente triste de outrora e que ela até o fim julgou desprotegido e desarmado para a vida.”
Jornalista-Polemista Nos últimos anos de vida, o poeta, mais dedicado ao jornalismo, publicava primeiro no Correio da Manhã e depois no jornal O Globo, duas ou três vezes na semana, artigos na maioria políticos, onde dizia duras verdades. Escreveu, por exemplo: [...] “O que a hora exige são providências, atos, a organização da resistência, o espírito agressivo como um pálio aberto. Mas, ora direis, ouvir estrelas. [...] Os interessados dormem. [...] E enquanto a ausência é produzida pelo sono, crescem as impossibilidades de nos governarmos na defesa de alguma coisa de importante e de sério. Renunciamos ao nosso país e vemos raiar uma coisa abertamente insignificante, que um dia foi o Brasil-País-do-Futuro.” No artigo “O Vale da Incompreensão”, afirma: “O que falta ao nosso mundo político é grandeza. Não há nenhum sinal de grandeza nos atos, nas palavras, nos gestos dos que lutam e se disputam, nos que se agitam na atividade política. Ninguém renuncia a coisa alguma. E onde não há disposição à renúncia não há grandeza. Assistindo a batalha pelo poder, a luta pelos cargos, quem olha acima 65
dessas competições se surpreende de ser possível tamanha ousadia e tão grande inconsciência do perigo. … A vida política, os métodos políticos, a crescente dissociação, já denunciada reiteradamente, entre o interesse eleitoral e o interesse público geram a presente crise, como já haviam gerado crises precedentes, como hão de gerar outras, se o país suportar tão constantes e agudos sobressaltos, tanta imperícia e uma tão constante privação de critérios justos por parte de seus dirigentes.” Em “O Caso Brasil” o articulista Schmidt diz: “Não, não valeu a pena viver até aqui para testemunhar o que se está fazendo com este país, para assistir às maldades, aos castigos, às mutilações que em nome de coisa alguma se estão infligindo ao Brasil. Ninguém ignora que navegamos, do ponto de vista econômico, num mar de desespero; ninguém ignora que o nosso crédito externo está por terra; ninguém ignora que uma tenebrosa política chamada de ‘independência’ revelou ao estrangeiro a realidade de nossa falta de critério, de objetividade, a desordem íntima em que se contorce o Brasil, a falta de serenidade, de competência, de sensibilidade para com o interesse nacional, tristes atributos dos homens que ocupam os lugares na vida pública brasileira; ninguém ignora até que ponto a ruína domina parte considerável da juventude das escolas; ninguém ignora o descalabro do ponto de vista moral, técnico e administrativo em que vivemos; e apesar desse conhecimento de toda a verdade, não vejo no horizonte uma reação à altura dos desacertos.” Augusto Frederico Schmidt era também chamado para outras atividades não literárias. Foi ele o presidente da Comissão de Indústrias de Alimentação do Conselho do Desenvolvimento Industrial, e uma de suas providências foi contratar a empresa norte-americana Klein & Saks para realizar um estudo sobre o problema alimentar no Brasil. Em artigo que publicou em O Globo, escreveu: “Ao contrário do que me acusam os empreiteiros da miséria, os caçadores de votos, os maus intencionados, não sou um reacionário. Desdenho, isso sim, 66
a demagogia, e creio saber distinguir, depois de longa experiência e continuada meditação, os que desejam realmente o bem do povo dos que só usam o povo para conseguir votos, a fim de tornar cativo o poder político, origem de outros poderes. Que lucram os pobres com a pobreza do país? Na verdade, são condenados a não terem nenhuma esperança, porque em país pobre não há esperança para ninguém. [...] Deus sabe como sou sensível às angústias dos que não têm nada e a cujos padecimentos ninguém mais do que eu desejo pôr paradeiro. Sei, porém, que o Brasil está ocupado pela ignorância, pela má-fé, pela mesquinharia política, e que as medidas oriundas desse trio são simplesmente negativas, destruidoras, e só fazem agravar o mal da pobreza.” Em artigo denominado “O Meu Crime”, publicou em O Globo: “Como demonstração de resignada paciência, resumirei mais uma vez o que penso sobre o momento brasileiro, recapitulando certas críticas que por dever de consciência me venho sentindo obrigado a fazer, diante das mais que evidentes demonstrações de desequilíbrio, da falta de seriedade, de desorientação dos que estão conduzindo este país. Ao contrário dos que me acusam os empreiteiros da miséria, os caçadores de votos, os mal-intencionados, não sou um reacionário. Desdenho, isso sim, a demagogia, e creio saber distinguir, depois de longa experiência e continuada meditação, os que desejam realmente o bem do povo dos que só usam o povo para conseguir votos, a fim de tornar cativo o poder político, origem de outros poderes. Sei que não há, e nunca houve, justiça social em nenhum país pobre do mundo. O país pobre só oferece o espetáculo da degradação, da injustiça continuada. Sei, também, que todos esses gritos, esse combate dos verdadeiros espoliadores muitas vezes imaginários, essas leis pretensamente em favor dos pobres só aumentam as dificuldades do país e o acorrentam cada vez mais a essa trágica decadência das coisas que murcham na juventude, que se fanam quando deviam começar a frutificar. Que lucram os pobres com a pobreza do país? Na verdade, são condenados a não terem nenhuma 67
esperança, porque em país pobre não há esperança para ninguém. [...] Deus sabe como sou sensível às angústias dos que não têm nada e a cujos padecimentos ninguém, mais do que eu, deseja pôr paradeiro. Sei, porém, que o Brasil está ocupado pela ignorância, pela má-fé, pela mesquinharia política, e que as medidas oriundas desse trio são simplesmente negativas, destruidoras, e só fazem agravar o mal da pobreza.” Escreve também: “Em princípio, o carreirista pode pensar de uma maneira, e agir de outra; com o passar do tempo, porém, identifica-se com tudo aquilo que beneficia a carreira. [...] O ideal carreirista – contrário ao ideal de cavalaria – é invencível na fidelidade aos seus propósitos. O carreirista, como o cavaleiro andante, é duro no serviço, na presença. Este serve a um ideal, a uma causa; aquele, a si mesmo e às suas terrenas intenções; é ávido, atento, mas não ambicioso. Querendo muitas coisas, quer pouco, contenta-se com o brilho, com as falsas palpitações do que é perecível. O cavaleiro andante – o quixotismo – é essencialmente ambicioso, sua cobiça voltada para um outro horizonte, maior e mais difícil. O carreirismo quer o sucesso, a notoriedade, a fama; o quixotismo almeja a glória – que pode não ser mesmo deste mundo, pois é ‘sol dos mortos’, na definição de La Rochefoucauld.” E finaliza: “Deus ama os ambiciosos e se revê nos Cavaleiros do Absoluto; o carreirista serve não raro ao demônio e é ignorado pelo Criador do Universo. Uma nação dominada pelo carreirismo está em viagem para a desagregação e para a morte.”
Nota do Autor: A maioria dos artigos políticos de Augusto Frederico Schmidt publicados pelo jornal O Globo foi reunida no livro Prelúdio à Revolução publicado em 1961. O título da obra foi sugerido pelo então senador Antônio Carlos Magalhães, que visitava o poeta quando o livro se encontrava em provas. 68
Schmidt e Juscelino Kubitschek O então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira, tinha certamente sua inclinação para a poesia. Sabia que os restos mortais de um dos maiores poetas brasileiros, o mineiro Alphonsus de Guimaraens, repousavam num túmulo humilde do cemitério de Mariana. Decidiu mandar construir um túmulo digno para onde seriam removidos os restos mortais do grande bardo. E convidou o poeta Augusto Frederico Schmidt para pronunciar o discurso de apresentação do novo túmulo. Schmidt publicara no jornal Dom Casmurro um belo artigo sobre o poeta mineiro, talvez por isso tenha sido escolhido para saudar Guimaraens em seu novo túmulo. O discurso de Schmidt foi uma peça oratória das mais belas e dignas. Alguns escritores consideraram esse discurso a melhor peça literária do poeta. Quando Juscelino Kubitschek tornou-se presidente da República, transferindo-se para o palácio do Catete, teve em Augusto Frederico Schmidt um precioso colaborador. Uma das decisões do novo presidente foi a de resolver definitivamente a remoção da capital do Brasil para o Planalto Central, havia tantos anos projetada, mas quase totalmente esquecida. A construção de Brasília, a nova capital, durou muito tempo, porém menos do que podiam prever os engenheiros e os futuros funcionários do governo. No dia da inauguração de Brasília, estava presente como convidado de honra o poeta Schmidt, que escrevera parte do discurso de inauguração pronunciado pelo Presidente Juscelino Kubitschek. Um grande projeto de Schmidt, acolhido por JK, foi a denominada Operação Pan-Americana, em 1958, movimento que envolveria todos os países da América Latina. À instância de Schmidt, e com sua total colaboração, esse projeto realizou-se com o apoio de todos os países do continente. A denominada Operação Pan-Americana pretendia ser uma espécie de Plano Marshall. Augusto Frederico 69
Schmidt foi a alma desse projeto apoiado por todas as nações da América Latina. À admiração mútua do político mineiro e do escritor carioca seguiu-se uma amizade que iria ser confirmada continuamente desde antes da eleição de Kubitschek para presidente da República. Augusto Frederico Schmidt passou a escrever vários discursos do presidente Juscelino, tendo-lhe proposto criar um movimento de alcance continental, que se chamaria Operação Pan-Americana. O presidente Kubitschek aceitou a ideia, que constituiu um grande movimento continental. Além disso, Juscelino decidiu levar a efeito a antiga, e nunca levada a sério, construção da capital do país em terras do Planalto Central. Foram os dois marcos mais notáveis da administração Kubitschek: a mudança da capital do país para a cidade de Brasília, e a Operação Pan-Americana, esta idealizada e implementada pelo poeta Schmidt. O romancista Autran Dourado, também da equipe do Presidente Juscelino, escreveu que Schmidt seria a maior figura do governo Kubitschek, mesmo não exercendo função pública, a não ser quase no final, quando foi embaixador temporário da ONU. Autran Dourado escreveu em seu livro de memórias Gaiola Dourada: Tempos de JK e Schmidt: “O Schmidt seria um belo exemplo de homem político que nunca exerceu cargo público, exceto sua missão à ONU, mas influenciou bastante o governo de JK. Era o ghost writer preferido de JK, que a ele confiava os discursos realmente importantes, nos quais desejava dizer alguma coisa. O presidente não carecia de dizer o que queria, o poeta era de um faro e de uma visão impressionantes sobre o Brasil. Depois de escrito o discurso, JK dizia: ‘É incrível, Schmidt, era isso mesmo que eu queria dizer’.” Outra afirmação de Autran Dourado: “É preciso que se diga, e disso dou testemunho: metade da grandeza do governo JK se deve a Schmidt, e eu lhe faço agora justiça.” Mas nem tudo eram flores na atividade comercial de Augusto Frederico Schmidt. Em dado momento, teve de enfrentar um inquérito parlamentar que investigou as atividades da Orquima, 70
indústria que o poeta dirigia no Brasil. Teve ele de depor perante a Comissão. Vários repórteres cercavam a mesa dos debates. Relembraria o jornalista e escritor Ascendino Leite, em um dos seus livros de memórias: “No bando de repórteres que cercava a mesa de debates, coube-me ficar à frente do poeta, e acompanhar-lhe, desse ponto, as declarações que fazia, entre magoado e transtornado, porém lúcido. A partir de determinado instante, percebi que ele não arredava o olhar da minha direção. Parecia haver-me escolhido testemunha do seu massacre, ele pobre vítima, acossado por leões e chacais endemoniados.” Sem dispor de grande capital, o poeta Schmidt participava como membro de vários empreendimentos. Foi ele, por exemplo, o introdutor no Brasil dos supermercados com autosserviço, que ele conhecia bem em suas visitas aos Estados Unidos da América. Foi, dessa forma, que inaugurou na Rua Siqueira Campos, no dia 12 de agosto de 1956, a primeira unidade do Disco. Entre as empresas que Augusto Frederico Schmidt tinha participação acionário ou atuava como diretor, podemos mencionar a Mercedes-Benz, da qual era vice-presidente no Brasil; a já citada indústria Orquima, da qual era presidente; os supermercados Disco, onde ele operava como vice-presidente; e a Companhia de Seguros Meridional, da qual era vice-presidente.
Schmidt Jornalista Desde a mocidade, Augusto Frederico Schmidt colaborou em jornais, com artigos, poesias, entrevistas. Na maturidade escreveu principalmente para o Correio da Manhã, em sua fase áurea, e a seguir para O Globo, no qual publicava dois a três artigos por semana. Abordava todos os assuntos e, mais tarde, nos últimos dez anos de sua vida, principalmente assuntos políticos. Ele mesmo escreveu: 71
“Não querendo ser político e não o sendo como militante profissional, de uns anos para cá, no entanto, não tenho feito nada com tanta continuidade como política.” E acrescentou: “Conheço, bem de perto e de maneira bastante íntima, de muitos homens políticos as flutuações, os interesses, para saber que estamos no fim dessa espécie de vida política que se pratica no Brasil. Não é possível resistir, uma democracia, com o contingente já considerável de inadequados e nocivos elementos que são eleitos para o Congresso, ou indicados para ocupar funções públicas. Não necessito dizer que existem exceções – mas a regra é muito desanimadora. Aos nossos políticos, ressalvada uma minoria, não move qualquer interesse nacional. Sei que me ofereço a possibilidade de prejudicar minha obra literária e me exponho à incompreensão e ao ódio. Mas a verdade é que ambiciono em vão ausentar-me e fazer ouvidos de mercador a toda sorte de solicitações – e a que, no entanto, não resisto – e me empenho e luto. Luto por uma causa que me parece perdida. A causa de um Brasil raciocinando e agindo de acordo com os seus mais urgentes e legítimos interesses. A causa da união nacional para o objetivo de recuperar o País, de salvar, pela criação de riqueza e pelo trabalho, os desamparados e miseráveis que habitam principalmente as nossas regiões subdesenvolvidas. A causa de um grande Brasil. Mas sendo um dever essa luta, já não mais confio na vitória do senso comum, pela menos neste tempo. [...] Na política domina a transação, o compromisso, a pequena ambição, e, salvo um ou outro caso excepcional – não se verifica nenhum sopro de vitalidade e de ideal. [...] Um vento mau parece ter secado as almas e lhes arrancado qualquer sentido de bem coletivo. Raros os que projetam as suas ações em termos condizentes com a importância desde País e com um espírito de continuidade.” E finalizou: “A política externa tornou-se o quaradouro das frases feitas. Bate-se dia e noite a afirmação da independência, do arremedo da independência; anuncia-se que são as massas que orientam e definem o nosso comportamento no mundo – e para isso con72
traria-se e renega-se o que o próprio povo brasileiro tem de mais intransferível e nobilitante: o senso das proporções, a sobriedade, o comedimento.” Sobre o Rio de Janeiro, depois da transferência do governo central para Brasília, escreveu: “Vivemos aqui nesta Cidade uma hora de grandes privações. Não me refiro apenas à falta de gás, à insuficiência no suprimento da eletricidade e outras deficiências e as tristezas resultantes da crise em que estamos mergulhados. O Rio continua sendo a Capital da República. É o centro doloroso desta grande Nação que envelhece. Aqui temos a impressão de que se está esboroando, se transformando numa ruína, exausta antes de haver produzido o que deveria produzir. Aqui sente-se em toda a sua plenitude os malefícios decorrentes do fato de ter o País caído em mãos impróprias, sob o domínio de loucos que infelizmente não encontram limitações, fronteiras e contenções aos seus desvarios. Aqui penamos; aqui nos desiludimos todos os dias e de tal forma que a esperança na sobrevivência de nosso País é agora um fio d’água esguio correndo num leito duro, áspero, imenso. Aqui vemos por terra a imagem de uma grande Nação poderosa, forte, criteriosa, equilibrada com que tanto sonhamos, que foi configurada pelos nossos melhores e mais viris propósitos criadores. Aqui vemos rolar, levadas pelo vento da insânia, as torres que erguemos com uma grande boa vontade. Aqui pulsa e sofre o coração do Brasil que foi uma coisa boa, generosa, humana, cheia de equilíbrio. “Esta cidade já não é mais a capital oficial do País, mas continua sendo a capital do povo brasileiro, quer queiram, quer não. E a capital política, embora as Câmaras (alta e baixa) estejam em Brasília, de onde nos vêm, diluídos e distantes, amortecidos e mudados, os ecos das agitações parlamentares. Aqui funcionou o Brasil; aqui encontrou a sua síntese, o seu centro de gravidade, esse complexo que é o nosso País unificado e íntegro. Aqui, ainda hoje, está a capital brasileira, sensível, viva, martirizada, crivada de setas como o seu próprio 73
padroeiro. Nas ruas, nas casas, nos locais de encontro concentra-se a mais politizada das populações brasileiras. Aqui se sente, em profundidade, o desabar das terras que os nossos maiores constituíram em Nação.”
Relações Internacionais: Operação Pan-Americana (OPA) A partir de 20 de junho de 1958, mais uma sigla passou a ocupar as colunas dos jornais e a ser utilizada em documentos de Estado: OPA. Fato de maior importância, o grande mérito da Operação Pan-Americana foi ter dado relevo, nunca dantes observado, nos pronunciamentos dos estadistas do Hemisfério. Os postulados da Operação Pan-Americana constituíram munição habitual para os discursos de política interna e externa nas 21 Repúblicas Americanas. O ano de 1959 marcou nova etapa da Operação, com a reunião do “Comitê dos 21” em Buenos Aires. Nessa assembleia, o Brasil foi representado, como em Washington, por uma delegação chefiada por Augusto Frederico Schmidt. O Comitê discutiu os projetos do Grupo de Trabalho e aprovou 35 projetos de resolução, mais tarde ratificados pelo Conselho da Organização dos Estados Americanos. O governo militar que se instalou no Brasil resolveu, com ou sem razão, perseguir Juscelino Kubitschek. O ex-presidente refugiou-se em Paris. Deu ensejo a que seu amigo e colaborador Schmidt escrevesse um artigo a seu favor. Ao conhecer o belo gesto do poeta, o ex-presidente enviou-lhe o seguinte radiograma: “Só hoje li seu último artigo. Sinto cada palavra que em minha defesa brota sua generosa inspiração. Será amanhã como na affaire Dreyfus expressão clamor popular sentido restauração justiça. Stop. Mais do que simples agradecimento envio-lhe felicitações pelo destemor bravura sua nobre atitude, Abraços, Juscelino Kubitschek.” 74
A Última Entrevista A revista O Cruzeiro, de 20 de fevereiro de 1960, publicou longa entrevista de José Amádio com o poeta Augusto Frederico Schmidt, sob o título de “Ninguém Conhece Ninguém”. Ilustra a entrevista a figura do poeta Schmidt acariciando o galo branco no poleiro, com a cauda branca descendo até o chão.
Ataque e Defesa “Augusto Frederico Schmidt é um homem estranho. Dizem que nunca se saberá ao certo quando está representando ou sendo sincero. Mas ele sabe. Consideram-no um ator perfeito. Verdade, verdade, preocupam-se mais do que deviam com o político, com o homem de negócios, e menos com o poeta, que talvez seja seu lado mais autêntico. Estão sempre querendo julgar seus atos, seus rompantes, suas tendências. E quem somos nós para julgar? Todo aquele que consegue sacudir de si o pó da mediocridade, todo aquele que consegue o milagre de despertar a consciência, – é malhado sem dó nem piedade. Eu, que sou um bom rapaz, não estou aqui para atacá-lo nem para defendê-lo (mesmo porque isso ele sabe fazer muito bem), mas para mostrar o seu ‘outro lado’. “Ele é o autêntico homem que faz notícia. Creio que suas realidades e seus recolhimentos interessarão ao quase sempre respeitável público. Quanto mais cartaz, mais interesse. E cartaz é coisa que não lhe falta. Talvez seja ele o cidadão carioca que tenha conseguido reunir o maior número de inimigos gratuitos. Parece que alguns jornalistas, quando estão sem assunto, resolvem o problema inventando histórias sobre o poeta. Mentiras, intrigas, boatos tolos – eis os caminhos preferidos. Como não há lei que ponha jornalista mentiroso na cadeia, forma-se a onda. E parte do público banha-se nela.” 75
Nasceu no Rio de Janeiro, sempre foi gordo e sempre usou óculos Tem a voz cheia, da qual consegue as entonações que deseja. É surpreendentemente grave e terno quando se refere à poesia. Fica, então, simpático e com cara boa de ser olhada. Com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade forma a trinca dos principais da poesia brasileira. No entanto, não se sabe por quais exóticas razões, a crítica quase emudece diante dos seus livros, todos bons. Dão-lhe publicidade política, publicidade comercial, mas quando se trata de falar em seus livros, os rapazes ficam mais quietos do que busto de praça. Seu último livro, Babilônia nasceu cercado por um fosso de silêncio. São os mistérios da literatura pátria.
Exuberância & Borboleta Schmidt é exuberante e triste ao mesmo tempo. Certa vez, passeava de automóvel com alguns amigos (João Conde e João Alberto, se não me engano), quando gritou para o motorista: “Pare, Pare! Pare!”. Abriu a porta, correu em direção a um bando de molecotes, deulhes alguns trocados e voltou com as mãos em concha, prendendo algo com muito cuidado. Depois, estendeu os braços para o céu, num gesto amplo, e libertou o segredo que intrigava os amigos. Era uma borboleta. Não parecia bem de saúde Augusto Frederico Schmidt. Ainda na manhã do dia 8 de fevereiro de 1965, foi visitá-lo em seu escritório da Orquima, na Avenida Presidente Vargas, uma filha de seu amigo, o poeta Alphonsus de Guimaraens Filho, que, ao regressar para casa, comentou com o pai que parecia estar o Schmidt bem doente. 76
À tarde, como fazia ultimamente, Schmidt desceu pelo elevador e visitou uma livraria ali próxima, na Rua Miguel Couto, quase esquina com a Sete de Setembro. Ali já o esperava seu motorista Osmar. O poeta examinou alguns livros, mas não comprou nenhum. Foram os dois, Schmidt e Osmar, tomar a Mercedes do Schmidt, este esperando na calçada, quando conversou uns minutos com o escritor e amigo Autran Dourado, enquanto Osmar retirava o carro da garagem. Seguiram, Schmidt e seu motorista, fazendo o itinerário que os levaria a Copacabana. O poeta já não se sentia bem, e pediu ao motorista que o levasse ao apartamento de seu amigo, o industrial paulista Júlio Barbero, ali bem perto, pois sabia que lá encontraria a governanta da residência. Seria mais seguro. Até poderia ir para casa, mas talvez Yedda pudesse não estar lá. Sentiu vontade de comer morangos gelados e pediu para o motorista ir comprá-los. Osmar não os encontrou, então comprou algumas frutas-do-conde. Ao chegar ao apartamento onde deixara o patrão, este estava muito pálido e, logo em seguida, faleceu. A notícia de sua morte foi uma surpresa, mas de certo modo já era esperada, pois o poeta era desleixado quanto ao uso dos medicamentos receitados pelos médicos. Schmidt faleceu no dia 8 de fevereiro de 1965, e seria sepultado no dia seguinte, no Cemitério de São João Batista, no mesmo jazigo em que tinham sido sepultadas sua mãe, sua tia e sua avó.
O Adeus ao Poeta Do Presidente da República ao mais humilde homem do povo, o Brasil chorou a morte do escritor Augusto Frederico Schmidt, tão conhecido e admirado pela publicação de suas poesias, bem como por suas páginas de prosa, publicadas inicialmente em vários jornais do Rio de Janeiro, sendo ele depois articulista do Correio da Manhã, e posteriormente colaborador assíduo do jornal O Globo. Seus arti77
gos, abrangendo todos os assuntos, da política à poesia, eram lidos com interesse por todas as camadas de leitores. Seus livros de poesia eram conhecidos de todos os que se interessavam pela poesia. O corpo do poeta foi inicialmente, já à noite, levado para o cemitério de São João Batista. Mas pouco depois, por sugestão do reitor Pedro Calmon, foi conduzido para a capela da reitoria da Universidade do Brasil, onde permaneceu em câmara ardente. O presidente Castelo Branco pela manhã compareceu à Reitoria, sentando-se ao lado da viúva Yedda Schmidt e da mãe dela, Sra. Praxedes Ovalle Lemos. O embaixador Lincoln Gordan esteve na capela da Reitoria, apresentando condolências à família, e também enviou à viúva o seguinte telegrama: “Foi com grande tristeza que recebi a notícia do falecimento do eminente amigo Embaixador Augusto Frederico Schmidt. Compartilhando o pesar da Pátria Brasileira, ante o prematuro desaparecimento do seu ilustre filho, rogo que aceite, em meu nome, e em nome dos demais membros desta missão, nossas mui sinceras condolências.” O presidente da Academia Brasileira de Letras, o acadêmico Austregésilo de Athayde, declarou ao repórter de O Globo: “Todos os homens de sensibilidade e pensamento do Brasil sentem-se terrivelmente afetados com o desaparecimento de Augusto Frederico Schmidt. Ele era uma figura de excepcional relevo em nossa vida literária, política, social, econômica e diplomática. Possuía uma energia inesgotável, posta ao serviço da nacionalidade. Era um homem de ação, com os olhos voltados para a grandeza do Brasil.” Várias personalidades se manifestaram sobre a vida e a morte de Augusto Frederico Schmidt, com palavras que foram reproduzidas pelo O Globo, na edição do dia seguinte. No final da manhã, o corpo de Schmidt foi conduzido ao Cemitério de São João Batista, já então com grande número de coroas, e coberto com a bandeira do Botafogo, time do qual ele era presidente. Vários oradores se fizeram ouvir antes da descida do caixão ao túmulo, onde, desde tantos anos, repousavam os restos mortais de 78
sua mãe, de sua tia e de sua avó. Entre os principais oradores destacou-se o professor Sobral Pinto, que falou em nome dos amigos do morto. Discursou em seguida um jovem estudante de Direito, Francisco Parente. Em seguida, discursou o barbeiro do poeta, Geraldo Fedulo de Queiroz, cujas palavras simples e eloquentes comoveram a todos. Usaram, depois, da palavra, o ex-deputado Barreto Pinto, o representante da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Israel, e o Sr. Sérgio Darcy, vice-presidente do Botafogo de Futebol e Regatas. O caixão de Augusto Frederico Schmidt foi, desde o início, coberto com a bandeira alvinegra. Transcrevemos aqui os discursos do estudante Francisco Parente e o do professor Sobral Pinto.
Francisco Parente: Adeus ao Poeta Schmidt Poeta, as harmonias do mundo, de repente, sofrem a brusca queda de seu pranto; o coro se empobrece e se dissolve. Silenciou a sua voz mais grave, calou-se o grande arauto do inaudito. Fecha-se a sombra por sobre a luz mais densa, que nos prenunciara a luz mais clara, do tempo futuro. Aqueles olhos de perplexidade antiga e as mãos, que modelaram no escuro as flores, estão mortos. Em alguma esquina desta terra, nas campinas, no meio da cidade, brota, mais intensa, a “Fonte Invisível”, tecendo o seu último poema. […] Que o poeta está morto / e esse poema é um poema / nascido de uma força perdida / a última lágrima indiferente / que desceu de olhos sem vida, a luz que veio caminhando pelo espaço originário / de uma fonte morta.
Quanto te amamos. Talvez mais, talvez menos, mas te amamos muito. Os moços bem cedo te reconheceram, poeta, e te agradeceram. Deste-lhes o grave som de violoncelos e os delicados acordes de 79
alaúde, num tempo em que a poesia era estridente e cortante, como as máquinas. E a máquina jamais te sufocou – tinhas a estrela. E tua voz ressoava antigas falas. E teu sentimento tinha raízes na eternidade. Teu tempo era o tempo do sonho. Teu tempo era também a lembrança. E era vida. Deste-nos, na tua medida apocalíptica de tua poesia, a medida exata do patético do mundo que já conhecemos florindo em átomos. O cristão, o poeta Augusto Frederico Schmidt repousa. Repousa aquela “alma sensível, tão ferida pelo destino, pelo sonho e o amor”. Tão melhor fora silenciar como pediras. Tão melhor fora fazer soar teu canto, que te embalasse menino, quando adormeces. Toda tua poética se desenvolve à procura do sono.
O Discurso de Sobral Pinto Este foi o discurso de despedida lido pelo advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto, grande defensor dos direitos humanos: Os que têm fome e sede de justiça assistem, entre lágrimas, a sua volta à terra e à sua ascensão ao céu. Emudeceu para sempre a voz que sem cessar clamava, forte e indomável, contra a mediocridade na administração, a vulgaridade na vida pública, a covardia no perigo e a violência no governo. A justiça na política, como expressão da virtude que condecora os justos e flagela os facciosos, perdeu o atleta gigantesco que, nas lutas cívicas da nacionalidade, nunca se omitiu nem desertou, para defender, nelas, o bem comum da Pátria, superior às ambições egoístas, aos interesses espúrios e à hipocrisia disfarçada em moralidade. A inteligência, que invariavelmente teve em você um dos seus admiradores mais nobres, sente, nesta hora dolorosa, que não poderá contar mais com o seu entusiasta servidor, empenhado em descobrir, desinteressadamente, valores vigorosos, mas tímidos e modestos, que não tinham ânimo para buscar as oportunidades, de que estavam carecidos, para transformarem em belezas realizadas as imagens, brilhantes e fecundas, que permaneciam, ainda, escondidas no espírito criador desses artistas, que a si próprios desconheciam. 80
A amizade, total e sem inveja, cobre-se, neste instante, de pesado luto, ao ver tombar, inerte e imóvel, a sua mais fiel sentinela, pronta a combater pelo amigo incompreendido ou injustiçado. Afogados em lágrimas estão os seus amigos, os seus admiradores e os que a desgraça e a perseguição desrespeitaram e feriram. Muda está a voz que os defendia contra a injustiça e a maldade. Mais do que todos, porém, chora e lamenta a sua partida para as paragens do infinito, que você cantou em versos imortais, a Pátria angustiada, cuja grandeza você focalizou com acentos de lucidez empolgante, e por cujo desenvolvimento, adequado e necessário, ninguém, tanto como você, lutou desmedidamente e com tamanha bravura, enfrentando, altivo mas generoso, incompreensões e hostilidades, que lhe faziam sangrar o coração sensível e sofrer o ânimo varonil. Deus, bom e justo, já perdoou as suas fraquezas de boêmio irrequieto, para só levar em conta os seus excepcionais serviços aos amigos, aos admiradores e ao País, prestados, dentro de um clima de amor, entusiasmo e fidelidade exemplar, aos valores morais que constituem o cerne e a força da civilização brasileira. Por tudo isto, você terá recebido, no seio da Eternidade, o prêmio a que fez jus, pelo muito que amou e sofreu na sua peregrinação por esta terra áspera e bravia, e pela sua convivência tempestuosa, varonil e generosa com os homens que, nela, nem sempre o compreenderam e pouparam. Descansa em paz, no seio de Deus, querido e inolvidável amigo. O discurso de improviso do barbeiro do poeta, Geraldo Fedulo de Queiroz, foi emocionante. Disse ele que haviam combinado que quem morresse primeiro receberia um discurso de despedida do outro – e por isso tinha de despedir-se de Schmidt. Sua eloquência diante do poeta morto e sua simplicidade muito comoveram os presentes. No dia seguinte, 9 de fevereiro de 1965, o falecimento de Augusto Frederico Schmidt era noticiado com destaque nos jornais do Rio de Janeiro, com o título: “Emoção e Saudade no Adeus a Schmidt”. 81
Ao alto, a foto da presença do presidente do Brasil, Castelo Branco, quando visitou pela manhã o corpo de seu amigo poeta. O falecimento de Augusto Frederico Schmidt foi notícia em todos os jornais do país, e também em Portugal, Estados Unidos e Inglaterra. No Brasil, todos os principais veículos publicaram reportagens sobre seu passamento em página inteira. A manchete de O Globo dizia: “Emoção e Saudade no Adeus a Schmidt”. No Jornal do Brasil, as seis colunas: “Schmidt foi enterrado ao entardecer com as flores da ‘Estrela Solitária’”. No Correio da Manhã, jornal no qual, durante anos, Schmidt publicara seus artigos antes de sua mudança para O Globo, a notícia de sua morte foi escrita pelo poeta Walmir Ayala. Aqui reproduzimos alguns trechos: Morreu Augusto Frederico Schmidt, este delirante da comunicação. Todo o seu depoimento, ultimamente, repousava sobre esta indagação – somos realmente incomunicáveis? Toda a sua poesia foi a codificação deste esforço de estar entre as criaturas, no entanto, dir-se -ia que poucos como ele tanto se desgastaram nos labores do mundo. Sua vida era nacionalmente importante – sua palavra tinha um peso imediato, sua interferência, sua mordacidade, sua recusa, tudo previa uma atuação. Era um homem público, era um homem poderoso, era um homem de ação, e foi reduzido pela morte à condição mais alta, a que almejou na febre do seu desespero insone, à condição de poeta. Tinha o complexo do rejeitado, as novas gerações tinham-se exagerado o injustificado escrúpulo com ele. Julgavam-no materialmente imortal. Aí está, já não é nada, restou o alto exemplo de uma poesia que queria clamar no deserto e era capaz de comover as pedras: Estou pensando em todos os órfãos do amor. Estou vivendo agora a contemplação das suas vidas, Estou vivendo as suas tardes e as suas noites. Sei bem que Deus os acolherá e eles ficarão saciados.
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Toda a trajetória de Schmidt teve esta dualidade. A solidão de um lado e Deus do outro. E não se trata de inventar sobre o fantasma. Quem o visse, no pesado arrastar de um corpo lucidíssimo, veria sempre a dura carnalidade dos imperadores traídos. Era o que nos fazia muitas vezes calar e pensar duas vezes sobre a natureza dúbia do poder. Mas Deus estava com ele, nesse conluio amoroso que supera todo o abandono, era sobre o peito de Cristo que Schmidt chorava as verdadeiras lágrimas, e repousava. Com força agarrou-se a esta rocha e gemeu poesia. Um dia disse num excesso: Cantar – claro cantar – para não ficar louco. Ver a voz se formar num milagre, e se erguer Até o céu azul, o céu azul. O céu azul, azul. Cantar! Encher o abismo, encher o escuro e o frio, De som, de voz, de ritmo, de música. Encher esta loucura atroz, que é vazio sem termo. Cantar a Vida, que é e não é; Cantar o Amor, que é e não é, E a volúpia de carnes róseas a descer sobre lábios frementes! Oh! Ter perdido o ritmo – e dizer a poesia em bloco, Em coágulos, violenta!
O Poeta Como poeta era um vaticinador de si mesmo, de uma espécie de condenação a que se condenava. Estava frequentemente despedindo-se. Resistia com a poesia, isolava-se nela. Seu último poema de seu último livro diz: Chegará o dia do último poema E o último poema sairá para o tempo tranquilo e natural, Sem nenhuma melancolia, como se fosse o primeiro Nascido do Espírito Inquieto. 83
Foi um homem intenso, teve da vida propriamente tudo, inclusive o desespero, e em toda a sua poesia messiânica revelou sempre o desejo de ser simples e feliz.
Homenagem na Academia Brasileira de Letras Em sua sessão solene de abertura dos trabalhos, de 1965, a Academia Brasileira de Letras homenageou o poeta Augusto Frederico Schmidt, tendo discursado os acadêmicos Afonso Arinos, Manuel Bandeira, Levi Carneiro, Raimundo Magalhães Júnior, Aurélio Buarque de Holanda e Pedro Calmon. Iniciando a série de discursos em homenagem à memória de Augusto Frederico Schmidt, o acadêmico Afonso Arinos enalteceu sua figura como homem público, diplomata e literato. Schmidt, ele disse, foi o maior dos nossos poetas desarrumados e, por isso mesmo, tornou-se notável. Seus temas, quase sempre desordenados, traduziam, invariavelmente, grandes mensagens. O acadêmico Manuel Bandeira fez uma apreciação mais detalhada da poesia de Augusto Frederico Schmidt, classificando-o como um dos maiores poetas dos últimos tempos. A seguir, falaram Levi Carneiro, Raimundo Magalhães Júnior, Aurélio Buarque de Holanda e Pedro Calmon, demorando-se estes dois últimos em mais detalhadas apreciações sobre a vida e a obra do poeta. Mesmo nos poucos poemas dos quais Manuel Bandeira diz gostar menos – afirmou Aurélio Buarque de Holanda –, Schmidt apresentou imagens de grandeza e fulgurações admiráveis. São exatamente essas dispersões de traços soltos que o fazem o maior de nossos poetas. De seu sentimento poético com brasileirismo nasceu uma nova era da nossa poesia.
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Uma Visão de Schmidt por Pedro Dantas No artigo em que revelou o choque causado pela morte de Augusto Frederico Schmidt, que lhe telefonara no próprio dia que seria o último de sua vida, o professor Eugênio Gudin fez a surpreendente confissão de que, a bem dizer, não conhecia o poeta que foi aquele amigo, cujas ideias sobre problemas econômicos tantas vezes havia tentado submeter (em vão), à disciplina racional da teoria econômica. Schmidt nunca poderia aceitá-los, em seu íntimo. Não o poderia pela força mesma do tipo de conhecimento que era o seu, exatamente de natureza poética e irredutível a outros termos. Foi com o dom profético de uma poesia de inspiração, por vezes apocalíptica e irredutível a outros termos, que Schmidt escandalizou os meios literários, aí por volta de 1934/1935, pela afirmação categórica de que estava morrendo a poesia. Manuel Bandeira registrou num verso a reação geral, de horror e de súplica, ante a simples alusão à hipótese catastrófica: “Nossa, a poesia morrendo…” O verso tinha também uma implícita refutação, levemente irônica, de poeta em alto momento lírico. Qual teria sido o fundo do pensamento schmidtiano, ao formular o temerário prejulgamento? Qual seria, a seus olhos, o verdadeiro alcance do desolado prognóstico desenganador? A impressão dominante foi a de uma condenação restrita do momento literário, em período de incerteza e desorientação. O próprio poeta nunca abandonou a poesia, nem foi por ela abandonado. Manteve-se fiel a seu culto – reafirmava-o ainda pouco antes de morrer. Confiava-lhe o melhor de si mesmo. Era a sua melhor forma de realização. O seu refúgio e a sua defesa. A defesa da sua personalidade e da sua vida. No perecimento de uma força que sentia tão poderosa em si mesmo e sabia com tanta segurança reconhecer onde a encontrasse. De uma
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força na qual confiava e confiaria até o fim. Ter-se-ia limitado, efetivamente, à condenação de um momento histórico da poesia, para melhor defender sua perenidade. Muito se discutiu a sentença condenatória sumariamente proferida por quem tinha sido – e não havia muito – um renovador da lírica brasileira, trazendo-lhe uma voz diferente, desde as primeiras notas. Não era o produto de uma frustração, partindo de quem se sabia em plena realização vitoriosa, não apenas no plano do êxito, mas no plano permanente da criação de um clima, de um ritmo, de uma linguagem conforme a visão poética que trazia consigo. Nunca, entretanto, o poeta admirável que era Augusto Frederico Schmidt fora tão autenticamente visionário. Contra sua tendência mais irresistível e sua convicção mais profunda, ele nos transmitiu a imagem de uma alucinação, apenas para alarmar. Quis emprestarlhe o sentido restrito de um breve combate. Era, porém, uma antecipação, não menos profética por ser involuntária e visar muito aquém do que em verdade atingia. *** A amizade de Manuel Bandeira com Augusto Frederico Schmidt, e mesmo sua admiração pelo poeta, propiciou a Bandeira escrever algumas poesias referindo-se ao poeta que ele conhecera quase adolescente. Transcrevemos aqui alguns poemas de Manuel Bandeira inspirados pela presença de Schmidt: POEMA DESENTRANHADO DE UMA PROSA DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT A luz da tua poesia é triste mas pura. A solidão é o grande sinal do teu destino. O pitoresco, as cores vivas, o mistério e calor dos outros seres te interessam realmente
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Mas tu estás apartado de tudo isso, porque vives na companhia dos teus desaparecidos, Dos que brincaram e cantaram um dia à luz das fogueiras de São João E hoje estão para sempre dormindo profundamente. Da poesia feita como quem ama e quem morre. Caminhaste para uma poesia de quem vive e recebe a tristeza Naturalmente – Como o céu escuro recebe a companhia das primeiras estrelas.
Mais um de Manuel Bandeira, escrito no dia 10 de setembro de 1940: SONETO EM LOUVOR DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT Nos teus poemas de cadências bíblicas Recolheste os sons das coisas mais efêmeras: O vento que enternece as praias desertas, O desfolhar das rosas cansadas de viver, As vozes mais longínquas da infância, Os risos emudecidos das amadas mortas: Matilde, Esmeralda, a misteriosa Luciana, E Josefina, complicado ser que é mulher e é também o Brasil. A tudo que é transitório soubeste Dar, com a tua grave melancolia, A densidade do eterno. Mais de uma vez fizeste aos homens advertências terríveis. Mas tua glória maior é ser aquele Que soube falar a Deus nos ritmos de sua palavra.
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Este foi incluído no livro Mafuá do Malungo: Jogos Onomásticos e outros Versos de Circunstância, de Manuel Bandeira, editado pela primeira vez por João Cabral de Melo Neto, em 1948, através de sua editora O Livro Inconsútil, em tiragem de apenas 110 exemplares: SONETO PLAGIADO DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT E de súbito n’alma incompreendida Esta mágoa, esta pena, esta agonia; Nos olhos ressequidos a sombria Fonte de pranto, quente e irreprimida. No espírito deserto a impressentida Misteriosa presença que não via; A consciência do mal que não sabia, Aparecida, desaparecida… Até bem pouco, era uma imagem baça. Agora, neste instante de certeza, Surgindo claro, como nunca o vi! E nesse olhar tocado pela graça Do céu, não sei que angélica pureza – Pureza que não tenho, que perdi.
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E, para finalizar, mais um poema de Manuel Bandeira homenageando seu amigo poeta: A Maneira de… … Augusto Frederico Schmidt I Daqui a trezentos anos Não existirei mais. Outros amarão e serão amados, Outros terão livrarias católicas, Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais: Não existirei mais. Seja, não importa, Senhor! Sou um pobre gordo, Mas sei que eles também não serão felizes. Eu sim, o serei então. Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos, Não existir mais.
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II Há muito o meu coração está seco, Há muito a tristeza do abandono, A desolação das coisas práticas Entrou em mim, me diminuindo. Porém de repente será talvez a contemplação De um céu noturno como mais belo não vi, Com estrelas de um brilho incrível, De uma pureza incalculável, incrível. A poesia voltará de novo ao meu coração Como a chuva caindo na terra queimada, Como o sol clareando a tristeza das cidades, Das casas, dos quintais, dos tristes e dos doentes. A poesia voltará de novo, única solução para mim, Única solução para o peso dos meus desenganos, Depois de todas as soluções terem falhado: O amor, os seguros, a água, a borracha. A poesia voltará de novo, consoladora e boa, Com uma frescura de mãos santas de virgem, Com uma bondade de heroísmos terríveis, Com uma violência de convicções inabaláveis. Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente. Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto, A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido. A poesia cairá em mim como um raio.
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Poemas Quase Esquecidos Grande número de poemas de Augusto Frederico Schmidt não foi publicado em livros do poeta, tendo esses poemas ficados quase esquecidos em jornais e revistas. Outros, depois da morte do poeta, foram reproduzidos em revistas, como o admirável poema “Suma”, que em centenas de versos define o que é a poesia. Esse poema foi publicado pela revista Poesia Para Todos, em maio de 2001, ocupando quatro páginas da publicação. No mesmo número da revista foi publicado o poema “Canto da Aurora”, também inédito em livro.
Poemas de Augusto Frederico Schmidt Inéditos em Livro O DESCOBRIMENTO DO BRASIL I Dia de festa, ilustre dia antigo! Andam no ar esperanças e alegrias. E as morenas mulheres portuguesas, Com os seus mais belos trajes de passeio, Têm nos olhos tanto sol ardente, E nos negros cabelos tantas flores! Dia da Pátria, em que a Fortuna, errante, De súbito fixou o olhar ditoso Sobre o reino, de El-Rei o Venturoso. Dia em que vão partir, rumo das Índias, Pelas novas estradas lusitanas, As naus da grande frota cabralina, Dia em que Portugal se sente forte E capaz de altos e feitos valerosos. 91
II E vieram com El-Rei à despedida, Da Corte, os mais altivos dignatários E a turba, de Lisboa, entusiasmada Os seguia, cantando de contente. E em chegando à Ermida em que do Infante D. Henrique a lembrança se guardava, Todos pararam para ouvir a missa, Que em despedida aos nautas se cantava. E celebrou, o Santo Sacrifício, O sábio Diogo Ortiz, bispo de Ceuta, Nos segredos dos mares mui versado, E ouviam-no, atentos e piedosos, El-Rei, Cabral, e mais os da nobreza, Como também os rudos marinheiros.
III Com as mantilhas escuras escondendo Os rostos, pelas lágrimas saudosas Revoltos e doridos, as mulheres Dos que iam partir, aos Céus e à Virgem Pela preservação dos seus rogavam. Nos ares, em que a doce Primavera Principiava a sorrir, florindo a terra, Nesses ares translúcidos e puros, As gaivotas em voos misteriosos Ias cruzes nos céus traçando a esmo. Finda a missa, formou-se a longa fila, Para levar Cabral aonde embarcava. Iam na frente o Bispo e os seus acólitos, Que as sagradas relíquias conduziam.
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IV E após via-se o Rei, a quem Pedrálvares Ladeava, e os outros capitães vinham seguindo, E homens da Corte, e os freires e soldados E mais os tripulantes descobertos. Na orla da água as mãos de El-Rei beijaram, Os valentes e fortes marinheiros, E nos bateis entraram resolutos Enquanto, em coro, a voz do povo ardente Para os mares do Céu um canto erguia. Nas treze naus as Cruzes da Esperança, Essas cruzes de Cristo, portuguesas, Sangravam. E enfim a tarde veio. E na praia, com os ventos, lamentosos, Das mulheres os gritos se perdiam.
V E toda a noite a frota, se aprestando, No Restelo ficou, da Aurora à espera, Como um bando de pássaros inquietos, Sobre as águas revoltas mal pousando. E veio pela noite um vento errante, E chorou e clamou, triste e incessante, Aos corações trazendo um grande medo, Medo de alma, que os ânimos não dobra. Perto, no Sacro Promontório, a sombra Do Infante e Sábio adeus ia acenando Aos marinheiros, que nas amuradas À terra-mãe, sentidos, contemplavam. Até que a Aurora veio, e abrindo os lábios Os céus de róseas cores foi semeando, E na boca da Aurora as naus partiam Do Samorim os reinos demandando. 93
VI Enfim em pleno mar, e aos elementos Entregues, lá se vão, correndo a mesma Sorte, que deu, a alguns, glórias e lustre, E a outros morte triste e duras penas. Longos dias, sem fins, água e mais água, E céus sem termo, calmos ou soturnos, Os assistiam nessa grande viagem, À procura de terras fabulosas. As riquezas há muito prometidas, A algumas almas iam dando forças, Noutras, porém, intrépidas e puras, Era a fome cristã, do salvamento De tantos seres ímpios e sem culpa, Que para o Cristo conquistar deviam.
VII Nos desertos atlânticos, perdidas, As naus de El-Rei caminham, já cansadas. Quando súbito, às águas ramos verdes E ervas vão aflorando estranhamente. Entreolham-se os homens da equipagem, Ante a surpresa de sinais tão certos De que uma terra, dantes não sabida, Os espera, talvez, não muito longe. Que mundo será esse misterioso Que em breve surgirá das verdes águas? – Perguntam-se os marujos, surpreendidos. É a véspera da grande descoberta, Que os nomes tornará altos e ilustres, De Pedrávares Cabral, de Coelho e Dias.
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VIII Foi na hora tranquila, quando Vésper Principiou a surgir nos céus rasgados, Que os marinheiros viram grande monte, E terra chã com bastos arvoredos. Antes, surgiram, como mensageiros, Do novo mundo, inquietas e agitadas, Umas aves nomeadas fura-buchos, Primeiros seres da brasília terra. Estava-se na Páscoa, e assim, chamado Pascoal foi logo o monte batizado, Pois crista era a gente que aportava Àquela terra, tão mal vista ainda E aonde um novo império cresceria, Que a fé e o idioma luso guardaria.
IX Que silêncio assombrado vem da noite, Dessa primeira noite brasileira! É um silêncio fecundo e inominado, Cheio de vozes e de assombramento. À distância de seis léguas da costa Fundeadas estão as lusas naves, Que adormeceram, dos cansaços rudes, E das palpitações da descoberta. Nos céus noturnos, como sementeiras, As estrelas são tantas e tão grandes Como em mundo nenhum já foram vistas. Que riquezas, que fúlgidos tesouros Não se encontram nos céus dessas paragens, Que ninguém poderá dar nome certo!
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X E feitas as sondagens, vieram logo, Os capitães, à nau do comandante, Nos tão frágeis esquifes, impelidos Pelas pás, vigorosas e seguras. Vieram prestes e ansiosos, à procura Do Capitão de todos, o prudente E seguro Pedrálvares Cabral. E com ele, em conversas demoradas, Conjecturaram sobre o estranho achado, E qual nome, que chamar deviam, À terra, virgem da cristã presença, Que a sorrir se ofertava, verde e nova, Terra sólida e firme e não miragem De navegantes e de sonhadores.
XI Eram homens vividos, esses nautas, Que em torno ao nobre chefe se reuniam. Homens queimados pelos sóis atlânticos, Homens, alguns, do Gama companheiros. Ali estavam: Pacheco, a alma secreta Da aventura que dera em descoberta, E o galhofeiro e simples Diogo Dias, E Coelho, que nas índias estivera, E o domador do cabo Tormentoso, Esse Bartolomeu Dias famoso, De tão grande saber, tão valoroso, E ali, Pero Escolar e Frei Henrique E mais frades, que se iam para as índias, E que a rezar de pronto se puseram.
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XII Mas não era só terra, o que encontraram, Pois movia-se, além na grande praia, Dando sinais de espanto e de inocência, Seres humanos, de bizarro jeito. E para vê-los e saber que raça Era aquela, desceu Nicolau Coelho, Homem já pela índia experimentado, E foi com ele o Dias, tormentoso. Era um sábado, antes da Pascoela, E a baía nos olhos mal cabia, De tão grande e tranquila formosura. Um vento de intertrópico trazia Para os lusos narizes o perfume Da misteriosa selva brasileira.
XIII E o sábio Nicolau encontrou gente Desnuda e simples, a correr na areia, De tímidos e ousados dando mostras, Ao mesmo tempo cautos e inocentes; Gente espantada e a correr, temendo Os homens brancos e de estranhas vestes, Cujos intuitos ainda não sabia, E que falavam por sinais estranhos. Que não eram nem negros africanos E nem filhos das índias tão remotas, Do arguto Nicolau o laudo foi: Era gente da terra brasileira, Frutos do novo mundo americano, Cujo aurora cristã nos céus raiava.
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XIV Terra de Vera Cruz, Cabral dissera, A olhar, do mar, o mundo descoberto; Terra de Vera Cruz, ao Lenho Santo Entregue e para sempre dedicada. Terra de Vera Cruz, e assim louvavam Ao Deus de amor, naquelas invias terras. E a semente da Fé, que tudo move, Mergulhavam no chão pra que subisse. Terra de Vera Cruz, e à Cruz sagrada, O nome para sempre deveria, E à sombra da Cruz, grande e pujante, Uma nova nação se tornaria. E acharam que era bom esse batismo, Frades e marinheiros reunidos.
XV A emoção de tão grandes aventuras Teve seu esplendor quando levaram, Para a terra encantada que nascia, Os sacros instrumentos do Mistério. Frei Henrique de Coimbra, que o futuro, De bispo e inquisidor conheceria Na terra virginal, na orla da selva Que homens civilizados nunca viram, Aos céus ergueu, no Santo Sacrifício, O pão, em Corpo e Sangue transformado, Do Cordeiro de Deus, do Filho Amado, Do que tendo criado toda a terra Era o autor desse mundo brasileiro, Que ninguém até então vira ou soubera.
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XVI Céus de abril, céus serenos, luminosos, Do mês das flores e dos passarinhos, Quando as árvores estão cheias de ninhos E de frutos maduros perfumosos. Céus de abril, quão estranha e poderosa, Poesia não guardais, céus brasileiros, Daquela cena simples e gloriosa, De fidalgos e rudos marinheiros, Perdidos em paragens tão remotas, Em terra não sabida e que nas rotas Não figurava, e por ninguém falada, E reunidos à misteriosa gente, Encontrada a vagar, nua e inocente. O mistério da Missa partilhavam.
XVII Davam a esses rústicos desnudos, Os lusos e ásperos soldados, Às batalhas do mar, há tanto, afeitos, O que de mais sagrado se continha Na santa Religião de Jesus Cristo, E cm troca recebiam, deslumbrados, Da virgem natureza dadivosa, Toda se abrindo em fartas florações, E dos céus de um azul tão cru e forte, E das águas e flores perfumosas, Uma lição fecunda e proveitosa. E ante a magia e os altos sortilégios Da paisagem soberba e soberana, A poesia nas almas penetrava.
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XVIII Finda a missa, subindo à alta cadeira, Para isso de bordo transportada, Aos atentos ouvintes, Frei Henrique Fez seu sermão de graças e alegrias. Falou aos companheiros de jornada, Cheio de fé e ardente patriotismo, Acentuando que a terra em que se achava Parte não era de África ou das Índias. Era terra que Deus aos lusos dava, Compensando do reino o pouco espaço, Para a ambição grandíloqua da Raça. Era terra sem traços de outra gente, Senão dos pobres seres que ali estavam, Terra nova, no Atlântico guardada.
XIX E cortaram depois, penosamente, Para marcar dos lusos a conquista, Um pesado madeiro longo e rijo, E com ele uma grande cruz fizeram. Era a primeira vez que a terra nova Dava para uma cruz matéria sua; Era a primeira vez que o Brasil via Ir nascendo, das rudes mãos humanas, Esse Sinal de altíssima nobreza, Sinal de redenção, de dor e opróbrio, Transformado em bandeira de conquista. Benditas pois as simples mãos primeiras Que o lenho brasílico tiraram O primeiro e selvagem Santo Lenho.
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XX E alçaram, nos ares luminosos, Como um símbolo augusto e soberano, A cruz da redenção, o Santo Lenho, Sinal do Sacrifício e do Martírio. E os ventos do Brasil, claros e puros, A Cruz do Salvador, braços abertos, Se alteou, como bandeira da esperança. Era um mundo pagão, ignoto mundo, Que a lusitana gente conquistava, Para a Fé, para o Rei, para a Fortuna Da pequena nação, grande nos mares, Para a raça criadora e resoluta, Que os mistérios atlânticos domara.
XXI Resolveram mandar ao luso reino, Com as novas de tão grande descoberta, Uma nau dessa frota lusíada, Que em seguida às índias rumaria. Escolheram a nau que abastecia Às outras, e entre as unidades repartiram Todos os necessários mantimentos. A essa nau, Gaspar de Lemos comandava. Nela seguiu a carta descritiva Desse Vaz de Caminha, tão famoso, Que dava a Dom Manuel, o Venturoso, Notícia minuciosa da ocorrência E pedia pra Lisboa a transferência De um genro que na África se achava.
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XXII Essa carta de Pero Vaz Caminha, Que em linguagem singela foi traçada, Traduzia a emoção dos navegantes, Ante o mundo que súbito surgia. Documento de ingênua fantasia Mas de muita verdade iluminado, Fala dos habitantes que, desnudos, Erravam pela terra livremente, Sem vergonha, mostrando o que se esconde, Deslumbrados com o brilho dos colares De contas e com outras bugigangas. Confiados às vezes, e singelos, Capazes de brincar com a própria morte – Seres com a natureza misturados.
Transcrito de ATLÂNTICO, Revista Luso-Brasileira, nº 1, Lisboa/Rio de Janeiro, Primavera de 1942.
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SUMA
I Poesia é a Virgem Por entre as árvores. Poesia é a asa Contra o vento. Poesia é o remorso Florindo em lágrimas. Poesia é a voz que cantou E se perdeu na poeira. Poesia é o sorriso Da mártir. Poesia é o presente Da pobre Morta. Poesia é o que ilumina Os caminhos do tempo. Poesia é o que revelou O sempre incompreendido. Poesia é o olhar de amor Úmido da humilde verdade. Poesia é a lembrança das tranças Da que foi o Amor e morreu. Poesia é o sentimento Que emergiu da música. Poesia é a mão que se abriu No fundo da terra. Poesia é o desejo modesto e irrealizado, É a noiva impossível. Poesia é a fuga e o encontro, É o último e o primeiro olhar. Poesia é o ninho velho E vazio.
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Poesia é a Adormecida E os seus pés brancos. Poesia é o túmulo, É o sono no túmulo, Poesia é o túmulo!
II Poesia é Josefina Dormindo. Poesia é Josefina Em viagem. Poesia é Josefina Trabalhando. Poesia é Josefina Cantando. Poesia é Josefina Descalça. Poesia é o lenço e São os cabelos Da velha Josefina Na aurora. Poesia é a morte heroica. Poesia é a morte de fome. Poesia é a morte de frio. Poesia é a bandeira ao vento. Poesia é a música de guerra. Poesia é o silêncio dos pequenos cemitérios. Poesia é a graça esquiva e inocente. Poesia é Josefina. A dançarina exausta. Poesia são as mãos molhadas de lágrimas. Poesia é a flor nos cabelos. Poesia é a primeira namorada.
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Poesia é a mulher que não reverei. Poesia é a praia onde o mar suspira cansado. Poesia é o fogo do teu corpo. Poesia é o frio do teu corpo. Poesia é o teu corpo fecundo. Poesia é o teu corpo incendiado. Poesia é o porto. Poesia é a bruma. Poesia é o porão. É a velha mala. Poesia são os nomes imaginários E as terras longínquas. Poesia é o baile E a música, O corpo leve dançando E a Morte Esperando. Poesia é a morte de cachos, São os cachos da morta, São os cachos castanhos Da que morreu. Poesia é o coração rasgado, É o último beijo, São as janelas Com tinhorões. Poesia é o que está escorrendo Pelo silêncio. Poesia é o fruto da árvore! Poesia é Josefina na vala comum. Poesia são as velas acesas E o corpo da criança. Poesia é a morte natural, É a graça natural, É a flor se abrindo. São os perfumes subindo aos céus.
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Poesia são as vozes rezando, São as desprezadas, As torturadas, E a voz que cantou, É a voz que fugiu. Poesia é a Noite. Poesia é a mão da Noite Dançando, É a noite cega Sem estrelas. É a Noite! É a nau da noite, É o mar noturno, São os peixes na treva, São os bancos de coral, São as flores dos abismos. São os pássaros do mar! Poesia são os ninhos do mar, São as árvores do mar, São os infantes dos abismos Caminhando em massas, Movendo-se cegos Pelos espaços longos. São os infantes reais. Poesia é o mar, A onda clara, No claro dia, A onda escura Na escura noite. Poesia é o grito Do errante pássaro. E a espuma, Flor mal se abrindo. Poesia é o mar, E o corpo jovem
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Ao mar descendo. Poesia é o mar, Rosa das águas, Rosa dos ventos, Rosa da aurora, Rosa noturna, Estrela nua, Estrela fria, Descendo ao mar. Poesia é o moinho d’água. Poesia é o canteiro. Poesia é o trigal Poesia são as raparigas, Todas as raparigas: As dos campos, de mãos fortes, De lábios frescos; As das usinas, desesperadas E tristes; As do amor, vadias e esplêndidas – As raparigas nascidas para o amor Flores nos cabelos, Rostos tranquilos, Olhares de sombra, Mãos macias, Mãos molhadas, Mãos tão quentes! Poesia são as raparigas: As fecundas, as infecundas, As doces e cariciosas, As pérfidas dissimuladas, Esquivas e fatais. Poesia é o campo, É o sossego pousado Nas árvores, nas cercas dos caminhos.
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Poesia é a lua. Poesia é o regato, É a fonte, é o rio, É o ruído do mar. Poesia é o caminho Sem termo. Poesia é o soluço, E a voz do sino, E a voz do galo Ferindo a noite, Cantando o dia. Poesia é a valsa. As trepadeiras, A rede, E o corpo moreno e morno. Poesia é a voz misteriosa Da desgraçada, E a voz rouca Da amorosa, E o sorriso fugidio Da amada do pântano. Poesia é o abandono Da que nasceu para a tristeza do amor Poesia é a lanterna acesa Na noite esquecida, E a chuva caindo, E o silêncio no quarto, Poesia é a viajante, Os pés da viajante, Seus olhos serenos E o seu sortilégio. Poesia é o que vi E os outros não viram, E se vai perder. Poesia é o soluço Que os outros não ouviram, Que só eu ouvi.
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III Poesia é o silêncio Das coisas finais, É a lágrima última, É a última imagem Que os olhos guardaram. Poesia é o silêncio Dos que compreenderam Que é inútil clamar. Poesia é o silêncio. Das ruas estreitas Dos bairros longínquos. Poesia é o silêncio Do túmulo novo. Da rosa já velha. Poesia é o passado, O presente e o futuro, Unidos, guardados, Libertos da morte. Poesia é o perfume Que vem da experiência, Que sobe da vida, Que vem do que foi. Poesia é o que sobe À incerta memória, E sobe ainda vivo Do grande mistério Do fundo do Sono. Poesia é a vida Do que já morreu. Poesia é o encontro Do eterno no efêmero. Poesia é a estrada Que leva ao passado,
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Ao que se fechou, Ao que se escondeu, A árvore antiga, À flor quase murcha, Ao parque deserto Outrora povoado De sonhos de amor. Poesia é a partida, O adeus soluçante, Os últimos tempos Os traços finais, E o vulto gracioso, Um adeus acenando. Poesia é o delírio, A sobra angustiada, Os lábios gelados, O beijo final, O sangue escorrendo. Poesia é a música Que volta ao passado. Poesia é a neve, É o bicho ferido. E o olhar humano Brilhando entre lágrimas. Poesia é a sonâmbula De longos cabelos. Poesia é a tristeza Dos sonhos que foram E formas tiveram, E foram mulheres, E amadas e amantes. Poesia é a renúncia, É a sombra do claustro, É a Musa sorrindo Na alta janela.
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IV Poesia é a pobreza, É a triste pobreza, Os quartos escuros, Os vagos misteres, As mãos sem beleza, Os rostos marcados P’las duras fadigas. Poesia é a pobreza, Os pobres desejos Jamais satisfeitos. Poesia é a pobreza Das noivas sem dote, As crianças sem pão. Os lares sem lume E a morte sem eco, As grandes tragédias. Poesia é a pobreza, O que foi desejo Tormento e esperança, E nunca chegou. E porque não veio Em canto é lembrado. Poesia é a pobreza, É nua pobreza. Poesia é a alegria Dos bandos errantes, As ceias nos lares O fogo a aquecer, Poesia é o suspiro Que d’alma se evola, E vai à procura Do além, do infinito, Do incerto, do vago.
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Poesia é o galo Cantando sozinho Na noite sem lua.
V Poesia é o lírio entreaberto, É o orvalho, é rosicler, É aurora, é o leve vento, É a criança quase mulher. É o sonho, é o perfume, é o cheiro Que vem dos campos do mar, Onde as sementes germinam. Sementes que os ventos trazem Nas asas, das longas viagens, E espalham pelo infinito Das águas móveis e verdes. Poesia é o incêndio lavrando Nas cidades assaltadas, É Natalia, a fugitiva, Pelos campos, perseguida Como um bicho real ferido Que busca o escuro refúgio. E Natalia, ruiva e clara, Num trigal adormecida; São os seus olhos fechados Sobre as tristezas do mundo, Sobre as tragédias da vida. Poesia é o pastor sonhando Sob as árvores tranquilas; Sonhando que o tempo é eterno, Que a mocidade não passa, E o inverno não chega nunca; Sonhando que a vida é mansa
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Como o regato que corre E dessedenta o rebanho; Sonhando o amor, transparente Como um céu de primavera, Sem uma nuvem sequer. Poesia é o noturno seio, São as estrelas luzindo, São os adeuses pungindo. E o vulto, da noiva morta, Debruçada na janela. É a lembrança de Esteia Que se perdeu, que fugiu, Que se foi de madrugada, Pelos círios alumiada, Para o noivado da morte, No fundo da escura terra! Poesia é o Poeta dormindo Na humildade do seu túmulo, Num cemitério da aldeia; É o poeta das moreninhas, Que passam pelas estradas, Com flores nos samburás; E o poeta no cemitério, Embalado pelas ondas, Pelo eterno cantochão, Do verde mar brasileiro, Do mar encrespado e triste. Poesia é a pátria perdida, Onde nem o pensamento, Como um pássaro cansado, Pode um momento pousar.
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E a pátria devastada, É a terra calcinada, E o deserto onde foi Outrora um jardim feliz, Com roseiras e violetas. É a pátria em sangue lavada, Triste, morta e amaldiçoada. Poesia é o grito, é o comando É o domínio, é a imposição, É a vitória da força, É a beleza da ação, É a alegria da vida, Sem melancolias vãs. É a liberdade sonhada, É a clareza, é redenção, É o fruto que vem sorrindo Depois da luta soturna Pelas raízes travada. Poesia é o vento do largo. Soprando, cantando e rindo, Soluçando e conclamando Na sua guerra amorosa Com as águas do grande mar. É o peito largo ao vento No seio do mar profundo, No móvel seio do mar, Arrepios provocando De mistura com gemidos. Poesia é a breve alegria, É o que se foi e passou. É o tempo, a doçura, a glória, É tudo o que veio um dia E sobre nós mal passou,
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Que veio por um momento Que veio mas não durou Deixando maior tormento, Porque é bem que se provou, Canto um dia e, após, lamento. Poesia é a inquieta esperança, É um breve sinal na treva, Um luzir, um grito, um eco. É a borboleta encantada, E tudo o que dança e canta, E tudo o que chora e ri. É a campanha dormindo, É a cidade acordando Nas luzes da madrugada, No fogo de antemanhã,
VI Poesia é o castelo, O lago sombrio, Os ágeis e esbeltos Corcéis galopando. Poesia é a varanda, As plantas escuras E o corpo moreno Na rede sonhando. Poesia é Maria, E Maio, é a doçura Dos cantos crescendo Nos céus estrelados.
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Poesia é a Igreja No escuro perdida, E as vozes ingênuas Cantando e rezando. Poesia é a beleza Com a flor nos cabelos, Na triste miséria Surgindo súbito. Poesia é a experiência, É a luz que não brilha, É a leve presença Do que não se espera. Poesia e a Princesa Cantando e embalando O berço vazio, Nas sombras da tarde. Poesia é a esperança Nos dias melhores, E as almas no frio Sonhando com o sol. Poesia é a aventura, A tarde de caça, Os sons das trombetas, Tropéis, correrias. Poesia é a gloriosa Lembrança de outrora, Dos tempos heroicos De morte e de amor.
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Poesia é o orgulho Dos que já se foram, Do sangue ilustrado Da fama e da honra. Poesia é a renúncia Das coisas do mundo, É a alma vencendo As vãs seduções. Poesia é a estrada Fecunda, a alta luz, A luz que floresce, Que salva e que eleva. Poesia é o gesto fecundo Que as almas vai enlaçando, Gesto eterno e imperceptível Como um sopro. Poesia é o que existe e vibra Nos domínios mais tranquilos Da morte e do desespero, E neles reina e respira. Poesia é o Anjo, é a criança, É a Rosa, é a triste Espanhola. De negros cabelos soltos Nos balcões de antigamente. É a silente Ismênia presa Nos espinheiros do Amor, Com as carnes róseas sangrando E os olhos pasmos de dor.
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Poesia é a Donzela Musa, Nos jardins, na solidão. E a voz que se evola e acorda Acentos de compaixão. É a Prisioneira, a Enjeitada Que nos pede proteção. É esta lira quebrada, Partida, a triste, no chão!
CANTO DA AURORA! Vem Aurora, luz tranquila da primitiva manhã, luz macia e invencível Vem Aurora, jovem luz do dia próximo Vem Aurora, e liberta o mundo desta enorme noite Desta noite de tédio, desta noite sem sono. Vem Aurora – vem branca luz da Aurora, Vem ainda úmida dos orvalhos, E liberta os nossos olhos destas sombras Que impedem a contemplação da vida, dos rios, dos vergéis, das montanhas, das cores que vibram, dos cantos que o véu noturno emudece. Vem Aurora, desabrocha, e como a flor nascida e plena Dispersa nos ares os seus secretos perfumes Vem Aurora e aclara esta noite sem estrelas, Com a tua luz cheia de encanto e de inocência. Vem Aurora, e que as tuas mãos frescas e leves Expulsem os noturnos terrores, os invencíveis terrores.
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Vem aurora e as flores sorrirão à tua beleza perfeita Vem Aurora e os berços receberão a tua peregrina visita, E as coisas feias, que se arrastam no seio da noite Fugirão para fora do mundo, para os perdidos abismos Para os Abismos que estão dominando estas horas terríveis. Vem Aurora, nupcial e serena Com o teu sorriso tranquilo Com as tuas flores de púrpura Nos cabelos, que o astro Titânico Tingiu do ouro mais puro. Vem Aurora dos vergéis, Vem Aurora dos rios Vem Aurora dos frutos Vem Aurora do esquecido sono E traz-nos a renovação da nossa ingênua alegria, Do desejo de cantar e viver. Vem Aurora e triunfa para sempre Desta noite de tédio e agonia. Vem Aurora e descobriremos de novo o Amor que pousou sobre as nossas mãos, um breve instante E que o terror noturno Extinguiu e perdeu. Vem Aurora, e cantaremos em teu louvor A glória de termos renascido A glória e a alegria deste mundo Libertado do seu negro temos. Vem Aurora, e convida aos que estavam prisioneiros das trevas, A caminhar sobre a terra incompreendida e fecunda Vem Aurora e revela aos que estavam prisioneiros do terror A amar as terra virginal e fecunda.
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Vem Aurora e desnuda a beleza intacta das coisas Que o assombramento noturno escondera no seu espesso véu. Vem Aurora e revela a doçura da vida Aos que se acostumaram ao seio destruidor da Noite Mãe das pérfidas loucuras, mãe das tristezas sem consolo. Vem Aurora e traz ao homem perdido a revelação Da glória pura. Da perfeita bondade Do heroísmo fecundo. Vem Aurora, nós te esperamos. Os nossos olhares anseiam pela tua aparição Os nossos olhares procuram na densa noite a glória das tuas formas etéreas Os teus seios virginais apontando Os teus braços realizando os gestos perfeitos, Os teus pés caminhando, do horizonte ignorado – e trazendo a vida. À escura e morta face do mar. Vem Aurora, os nossos ouvidos anseiam pela tua música incomparável. Os nossos ouvidos procuram descobrir no desmaiado silêncio, O ruído do teu carro de glória, o ruído dos teus corcéis espumando de uma vida plena, de uma vida plena e jovem de força e alegria!
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Vem Aurora Que ainda nos ignorados céus invisíveis aos nossos fracos olhares És uma estrela adormecida e ingênua Em que Deus vai despertar Para esta aventura e para esta viagem Vem Aurora, dos céus indizíveis. Vem Aurora Já estamos sentido a brisa que te anuncia, Essa brisa macia como as rosas. Já estamos sentindo o vento brando que te anuncia. O Anjo do dia já está agitando as suas asas poderosas Nos céus ermos, parados, no céus dominados pela treva. Vem Aurora, noiva do mundo Novo Esperança do nosso desespero Porto da nossa angústia de náufragos! Vem – oh! Vem Aurora de um dia Novo!
Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) foi poeta, articulista e memorialista.
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Breve Fortuna Crítica Quando Augusto Frederico Schmidt publicou o livro de poemas Pássaro Cego, este teve uma acolhida admirável. Manuel Bandeira escreveu esta apreciação, que seria reproduzida em seu livro Crônicas da Província do Brasil. “Já estava faltando um poeta que reagisse contra os processos e o estado de espírito da geração modernista. Alguém para quebrar os clichês gastos. E verdade que havia os continuadores dos parnasianos e simbolistas. Esses, porém, não reagiam: repetiam apenas. Era preciso um poeta que tivesse passado pela experiência moderna, que a tivesse assimilado e, portanto, embora diferenciando-se dela, afastando-se dela, soubesse aproveitar-lhe as lições. E o que entre nós se dá agora pela primeira vez com a afirmação poética de Augusto Frederico Schmidt. “O seu livro de poemas, Pássaro Cego, retoma o fio partido da tradição romântica brasileira. Verseja com a mesma abundância descuidada. No amor é um poeta das sinhás. Na morte, é o poeta das inadaptações agressivas e amargas da puberdade. Como os românticos, mistura à sintaxe mole dos brasileiros uma licença prosódica portuguesa de gosto bem duvidoso e diz: ‘Pela felicidade que jamais virá.’ Mas à inadaptação romântica dos nossos Casimiros de Abreu, ele apresenta um elemento de intensa dramaticidade que vem dos séculos bíblicos da sua raça. “As suas apóstrofes suscitam ambientes de apreensão, como se estivéssemos na véspera de calamidades irreparáveis. E é propriamente em tom sinistro que assegura a Augusto Frederico Schmidt uma qualidade nova em nossa poesia. “Schmidt descobriu, ou lhe disseram, que ele tinha o segredo do refrão em língua portuguesa. De fato assim é, Augusto Frederico Schmidt reparou no efeito encantatório das repetições uma qualidade saborosa, e essa sem perigo, deste magnífico poeta é o seu jeito
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de pegar o poema já pelo meio: ‘Lembrou-se de outras noites de repente’, ‘No céu o mesmo luar...’ De resto, Schmidt é um dos poucos poetas que sabem falar a Deus com tranquila dignidade.” * * * Do mesmo modo que a aparência romântica, é também ilusória a significação católica do poeta. Os que o consideram um poeta católico incidem no erro de amalgamarem, em uma só composição, suas duas feições ou atividades distintas do seu espírito, que coexistem, mas são independentes uma da outra. Trata-se de um católico que também é poeta, sem que nele a poesia seja função do catolicismo. No Sr. Augusto Frederico Schmidt oração e poesia não passam de uma coincidência. O conhecimento que se tenha das convicções religiosas do poeta, aliado à afirmação acidental e quase sempre indireta dessas convicções, no correr dos versos, é que podem induzir a erro nesse ponto. Mas para emprestar caráter religioso, católico, em um poeta, ou melhor a uma obra poética, não é necessário nem suficiente que o autor afirme de passagem a sua crença e espalhe alguns vocativos pelos poemas. Ninguém ainda se lembrou de chamar de poeta católico o Sr. Manuel Bandeira, que, entretanto, se dirige frequentemente aos santos. Dos três traços mais insistentemente assinalados pela crítica no retrato literário do Sr. Augusto Frederico Schmidt, só o último, portanto, só o judaísmo, corresponde, a meu ver, a realidade interior do poeta. E o que mais se repete, é o que mais impressiona, é o que domina toda a sua poesia. E é o que nos fornecerá a chave de grande número de poemas que seriam dificilmente compreensíveis se quiséssemos afastar essa solução e resolvê-los numa outra fórmula. E esse traço que nos revela a significação geral da obra do poeta, na qual não se saberia descobrir outra constante. Foi o próprio poeta, aliás, que se encarregou de nos fornecer essa chave. A evocação do velho Goldschmidt, seu bisavô, de súbito se esclarece uma porção 123
de mistérios e compreende-se o segredo de uma inquietação que de outro modo não passaria de um simples motivo de literatura. Versos e versos angustiados sem causa visível e a própria marcha do pensamento tomaram um ar de evidência a essa nova luz. Ah! Era isso, pensávamos. E agora, quando o poeta nos fala de sua estranha ansiedade na sua linguagem atormentada e obscura, já se sabe: lá está o velho Goldschmidt fazendo das suas. Eis aí o segredo do aparente fundo romântico da obra poética do Sr. Augusto Frederico Schmidt, eis aí o que o impeliu a preferir as formas românticas que se adaptam melhor do que quaisquer outras à expressão das lamentações e profecias desse aluado. Fala de uma raça pela voz. Eis porque se perdeu o navio e o pássaro cegou. Talvez mesmo não fosse absurdo supor que há um pouco de tudo isso no catolicismo do Sr. Augusto Frederico Schmidt e que o velho Goldschmidt é que o conduza a Jesus. Texto publicado na revista A Ordem, em abril de 1931. * * * O empresário Drault Ernanny, em seu livro de memórias Meninos, eu vi… E Agora Posso Contar, como escrevi anteriormente, narra episódio pitoresco referente a candidaturas à presidência da República em 1950. Vários nomes eram mencionados, e “o atropelo dos candidatos só favorecia o velho caudilho do PTB” (Getúlio). Também nas memórias de Drault Ernanny um capítulo inteiro narra a construção da Refinaria de Manguinhos. E na festa de inauguração, Peixoto de Castro afirmou que Drault Ernanny lhe prestou uma generosa homenagem, e fez questão de dizer que Ernanny e Augusto Frederico Schmidt o tinham convencido a presidir a refinaria pelo simples dever de servir ao Brasil. E no discurso de Drault Ernanny é relembrado o esforço de figuras de destaque na construção da refinaria, entre outros o Presidente Getúlio Vargas, o marechal 124
Eurico Gaspar Dutra, os generais Goes Monteiro, Canrobert Pereira da Costa, Juarez Távora, o coronel Juracy Magalhães, o Professor San Thiago Dantas, sem esquecer do apoio decisivo de Orlando Dantas, Paulo Bittencourt, Augusto Frederico Schmidt e Elmano Cardim.
Em Defesa da Literatura Em 7 de outubro de 1961, na página 2 de O Globo, Schmidt publicou este artigo: Devo ao meu amigo e colaborador Waldir Ribeiro do Val algumas palavras – a propósito de seu Evro de exemplar seriedade, em que focaliza a figura de Raimundo Correia, e sobre o Anuário da Literatura Brasileira, cujo segundo número acaba de ser entregue ao público. Em companhia de Sílvio Castro (figura de estudioso dotada de agudo espírito crítico), Waldir do Val sustenta em condições heroicas a luta Eterária. O Anuário é um exemplo de tenacidade, de escrupuloso julgamento, de atenção para com as letras. Futuramente, quem tratar deste momento da Ada brasileira (um Brito Broca de amanhã), examinando-o do ponto de vista da produção Eterária – que é sempre o documento menos precário de uma época –, terá no Anuário um repositório de informações o mais completo possível. Com minúcia que reflete a consciência profissional de seus diretores, não há artigo de jornal ou de revista que interesse às letras brasileiras que não esteja registrado no volume com as necessárias indicações. Sílvio Castro e Waldir Ribeiro do Val se esforçam e logram com êxito o seu objetivo de se colocarem acima ou no desconhecimento de grupos, partidos, círculos de elogio mútuo que sempre existiram em nossas letras, e que sempre denunciaram a nossa condição de país grande e insuficientemente desenvolvido.
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No artigo de abertura do Anuário, quem o redigiu observa que o escritor brasileiro deixou o seu isolamento e passou, nos dias presentes, a atuar em todos os campos e atividades de nossa existência nacional. A época do puro individualismo literário se foi; cessou a condenação absurda do escritor a uma não participação em outra espécie de atividade que não fosse a de assistir, contemplar e descrever a vida que os outros vivem. Hoje, verifica-se que cada um dos homens que sustentam a presença da literatura em nossa terra pode agir onde quiser, sem ter de suportar as críticas azedas ou o murmúrio dos ressentimentos configurados numa pura maledicência. Mas, ao mesmo tempo em que se amplia o seu âmbito de atividade – pondera o articulista do Anuário –, é indispensável que se caracterize o aspecto profissional do escritor. O escritor, concordo, deve trazer para os diversos planos em que emprega a sua atuação, a marca de sua vocação, o sinal de sua dignidade. * * * O aparecimento desse verdadeiro e honesto balanço de nossa literatura no ano de 1960, que é o Anuário, convida a algumas reflexões [...] Reconheço que há uma crise, mas não posso dizer se é de fato uma anemia, uma pobreza de escritores, ou se eles estão publicando obras de valor e estas não chegam ao nosso conhecimento pelo inconstituído em que vivemos. O Anuário, dirigido por Waldir Ribeiro do Val e Sílvio Castro torna-se bastante importante para o efeito de elucidar-nos, de dar-nos conta do que se está fazendo, para inventariar as realizações culturais brasileiras. * * * Passo em revista de preferência alguns poetas de 1960 – na mostra que o Anuário nos oferece. Alguns desses moços não os conhecia sequer de nome, não posso dizer o mesmo, porém, de ou126
tros que figuram nesta seleção de Ribeiro do Val e Sílvio Castro, tais como Afonso Félix, Fernando Mendes Viana, Marly de Oliveira e Stela Leonardos. O que observo é que todos esses poetas das mais novas camadas adquiriram concisão, comedimento, guardam-se de qualquer espécie de inflação de palavras. A poesia que circula nos veios desses poemas percorre zonas quase cristalizadas, não flui em artérias inchadas e flácidas como as de alguns de nossos poetas românticos e pós-românticos. Há um gosto neoclássico em muitos dos poetas novos. Espero que de repente um grande tipo qualquer se revele como um tufão, rompendo tudo. Já existem certos sinais disso – mas por enquanto os novos poetas revelam qualidade excelente e uma posição isenta diante da poesia. Estamos já fora do perigo da poesia política, que a vaga comunista de uns quinze anos atrás quis impor e contra a qual me insurgi eu próprio, debaixo de muitos insultos, vaias e maldições. Dava-se então ao trabalho de lutar por razões literárias; depois, perdi-me em outros caminhos. Perdi-me é bem o termo, pois não sei como desembaraçar-me de tantas e tão vãs intervenções na vida pública. * * * Fui escrevendo estas linhas e esqueci de pronunciar-me a respeito do estudo que Waldir Ribeiro do Val publicou sobre Raimundo Correia. Num próximo recuo literário que me assaltar direi o que penso desse livro sério completo e elucidativo.
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Nota Final Augusto Frederico Schmidt e sua esposa Yedda Schmidt continuam vivos na lembrança de seus admiradores, pela criação da Fundação YEDDA & AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT. Realização da grande amiga de Yedda e de Augusto, a jornalista Eliane Georgette Peyrot, que, sendo a única herdeira testamentária do casal, vem mantendo a lembrança de ambos através da Fundação. Para conhecer melhor o trabalho acesse: www.fundacaoschmidt.org.br
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Bibliografia de Augusto Frederico Schmidt As principais obras de Augusto Frederico Schmidt, publicadas a partir de 1928, em 1ª edição, são as seguintes: Canto do Brasileiro Augusto Frederico Schmidt, Edição do Autor, 1928; Cantos do Liberto, Edição do Autor via Annuario do Brasil, 1928; Navio Perdido, Edição do Autor via Graphica Ypiranga, 1929; Pássaro Cego, Edição do Autor via Graphica Ypiranga, 1930; Desapparição da Amada, Schmidt Editor, 1931; Canto da Noite, Companhia Editora Nacional, 1934; O Cântico dos Cânticos (Atribuído a Salomão), tradução de Augusto Frederico Schmidt, Livraria José Olympio, 1938; Estrella Solitária, Livraria José Olympio, 1940; Mar Desconhecido, Livraria José Olympio, 1942; Ruy Barbosa: defensor do homem, separata de conferência na Casa Ruy Barbosa, Imprensa Nacional, 1942; Poesias Escolhidas, Americ, 1946; O Galo Branco: memórias, diários, confissões, Livraria José Olympio, 1948; Fonte Invisível, Livraria José Olympio, 1949; Mensagem aos Poetas Novos, Pocai, 1950; Paisagens e Seres, Livros de Portugal, 1950; Ladainha do Mar, ilustrações de Farnese, tiragem de 70 exemplares, Edições Hipocampo, 1951;
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Poesie, versão em italiano de Mercedes La Valle, Editora Danesi, Roma, 1951; Morelli, Prensa Gótica de Sylvio da Cunha, tiragem de 100 exemplares, 1953; Os Reis, Gráfica das Artes, 1953; Poesias Completas, Livraria José Olympio, 1956; Discurso aos Jovens Brasileiros, Livraria José Olympio, 1956; 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, MEC, 1957; Aurora Lívida, Simões, 1958; Babilônia, Livraria São José, 1959; As Florestas, Livraria José Olympio, 1959; A Casa Vai Descendo o Rio, ilustrações de Adir Botelho, separata dos Cadernos Brasileiros, 1962; Antologia Poética, seleção de Waldir Ribeiro do Val, serigrafias de Frank Schaeffer, Editora Leitura, 1962; Nova Antologia Poética, seleção de Rubem Braga, Editora do Autor, 1964; O Caminho do Frio, Livraria José Olympio, 1964; Antologia de Prosa, Letras e Artes, 1964; Sonetos, Rio Gráfica, 1965; Prelúdio à Revolução (artigos de jornal), Edições do Val, 1965 Ciclo da Moura: poemas inéditos, gravuras de Cícero Dias, Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, 1966; Eu Te Direi as Grandes Palavras, Companhia José Aguilar Editora, 1975; Seleta em Prosa e Verso, Livraria José Olympio, 1975; Cartas de Sempre, Instituto Estadual do Livro, 1981; Poemas de Amor, Global Editora, 1988;
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Poesia Completa 1928–1965, Topbooks, 1995; As Florestas: páginas de memórias, Topbooks, 1997; Antologia de Prosa, Topbooks, 2000; Antologia Política, Topbooks, 2002; Um Século de Poesia, seleção e organização de Leticia Mey e Euda Alvim, Editora Globo, 2005; Saudades de Mim Mesmo: Uma antologia de prosa, seleção e organização de Leticia Mey e Euda Alvim, Editora Globo, 2006.
Em memória de Augusto Frederico Schmidt: Em homenagem ao poeta foram publicados os livros Quem contará as pequenas histórias?, biografia romanceada de Augusto Frederico Schmidt escrita por Leticia Mey e Euda Alvim, publicado pela Editora Globo em 2005; e Augusto Frederico Schmidt, escrito por Jon M. Tolman, editado pelas Edições Quiron Limitada em 1976, em convênio com o Instituto Nacional do Livro.
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Pérolas Poéticas Schmidtianas “Fui dos primeiros a pressentir no balbuciar do adolescente Augusto F Schmidt a força de sua futura poesia. O poeta pagou pontualmente e com enormes juros a nossa letra de crédito quando publicou o Canto do Brasileiro, o Navio Perdido e o Pássaro Cego.” Trecho publicado e escrito por Manuel Bandeira Revista Acadêmica, número 53, fevereiro de 1941
ZURICA “Todo mundo dizia que era feia, que era muito suja Mas a gente gostava dela Era mansa e mancava Todo mundo dizia: Passa, feia! A gente a achava até bonitinha...” Augusto Frederico Schmidt Original do primeiro poema oferecido ao seu amigo Alceu Amoroso Lima do poeta iniciante
“Se você não fosse poeta, talvez eu namorasse você. Mas poeta parece que está sempre chorando... se lastimando...” Frase de uma admiradora do adolescente Augusto Frederico Schmidt
“Ontem fui ao cemitério. Senti uma vontade enorme de morrer, de ficar ali também, de não voltar para a luta do mundo. Vontade enorme. De noite, em casa, fiz um poema. E tudo passou” Trecho de carta escrito por Augusto F Schmidt para Alceu Amoroso Lima /1928
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“A gente às vezes fere as pessoas sem saber, e eu muito mais que todos os outros. Ando apavorado com os inimigos que vou fazendo sem querer” Trecho de carta escrito por Augusto F Schmidt para Alceu Amoroso Lima /1928
SONETO A QUATRO MÃOS E de súbito n’alma incompreendida Esta mágoa, esta pena, esta agonia... Nos olhos ressequidos a sombria Fonte de pranto, quente e irreprimida... O espírito deserto e impressentida Misteriosa presença que não via A consciência do mal que não sabia, Aparecida, desaparecida. Até bem pouco era uma imagem baça Agora, neste instante de certeza, Surgindo claro, como nunca o vi” E em seu olhar, tocado pela graça Do céu, não sei que angélica pureza, Pureza que não tenho, que perdi. Manuel Bandeira/Augusto Frederico Schmidt Soneto publicado no jornal Dom Casmurro, feito a quatro mãos, não publicado em livro
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“Ontem achei você tão bonita e tão longe, que tive pena de mim! Mas é muito justo que eu tenha pena de mim. Você é que nada tem com isto” Você é toda a poesia que há em mim. Toda a graça que existe no mundo é você.” Trecho de carta do adolescente Augusto F Schmidt para sua futura esposa Yedda
“Yedda, já estraguei 5 folhas de papel procurando lhe escrever. Não houve meio de conseguir prender no papel o meu sentimento por você. E muito obrigado por toda a luz que você me dá.” Trecho de carta do adolescente Augusto F Schmidt para sua futura esposa Yedda
“Não retoquei os seus poemas. Bem o quis fazer, mas me pareceu um sacrilégio. Li-os mil vezes. Amei até os erros de máquina que eles contem. Conheço as três pequenas folhas de papel como não conheço nada tão bem. Você é poesia, é toda a poesia. Não imaginava tanto! Não queria tanto!” Trecho de carta do adolescente Augusto F Schmidt para sua futura esposa Yedda
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“Eu sou poeta há muito mais de vinte anos, em verdade nunca senti como agora, neste momento, a necessidade e também a grande dignidade da poesia. Ao mesmo tempo verifico que cada vez mais se restringe o círculo de interesse e as comunicações que a poesia necessita.” Trecho da entrevista de Augusto F Schmidt ao jornalista José Cezar Borba no lançamento de Fonte Invisível
No artigo “O Vale da Incompreensão”, Augusto F Schmidt afirma: “O que falta ao nosso mundo político é grandeza. Não há nenhum sinal de grandeza nos atos, nas palavras, nos gestos dos que lutam e se disputam, nos que se agitam na atividade política. Ninguém renuncia a coisa alguma”. Trecho de artigo escrito por Augusto F Schmidt
“Ao contrário do que me acusam os empreiteiros da miséria, os caçadores de votos, os maus intencionados, não sou um reacionário. Desdenho, isso sim, a demagogia, e creio saber distinguir, depois de longa experiência e continuada meditação, os que desejam realmente o bem do povo dos que só usam o povo para conseguir votos, a fim de tornar cativo o poder político, origem de outros poderes.” Trecho de artigo publicado no O Globo escrito por Augusto F Schmidt
“É preciso que se diga, e disso dou testemunho: metade da grandeza do governo JK se deve a Schmidt, e eu lhe faço agora justiça.” Afirmação de Autran Dourado
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“Schmidt era o ghost writer preferido de JK, que a ele confiava os discursos realmente importantes, nos quais desejava dizer alguma coisa. O presidente não carecia de dizer, o poeta era de um faro e de uma visão impressionante sobre o Brasil. Depois de escrito o discurso JK dizia: “é incrível Schmidt, era isso mesmo que eu queria dizer” Trecho do livro Tempo de JK de Autran Dourado
Nasceu no Rio de Janeiro, sempre foi gordo e sempre usou óculos. Tem a voz cheia, da qual consegue as entonações que deseja. É surpreendentemente grave e terno quando se refere à poesia. Fica, então, simpático e com cara boa de ser olhada. Com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade forma a trinca dos principais da poesia brasileira. No entanto, não se sabe por quais exóticas razões, a crítica quase emudece diante dos seus livros, todos bons. Dão-lhe publicidade política, publicidade comercial, mas quando se trata de falar em seus livros, os rapazes ficam mais quietos do que busto de praça. Seu último livro, Babilônia, nasceu cercado por um fosso de silêncio. São os mistérios da literatura pátria. Trecho do livro Vida e Poesia de Waldir Ribeiro do Val
“O mar é o grande cenário de minha infância e juventude... É o confidente de minhas tristezas.” Frase de Augusto F Schmidt sempre que se sentia triste
“A Livraria Schmidt, apenas fundada, transformou-se num centro importante da vida intelectual carioca.” Um futuro depoimento do consagrado romancista Jorge Amado
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Este livro foi digitado em programa Word e paginado em InDesign, nas fontes Minion e Caecilia, concluindo-se os trabalhos editoriais em abril de 2020.
Waldir Ribeiro do Val nasceu em 1928 em Ariranha, SP, mas tem suas raízes culturais no Espírito Santo, para onde foi ainda criança. Estudou em Castelo e em Vitória, tendo sido membro da Academia Capixaba dos Novos. Jornalista, colaborou intensamente em A Gazeta, de Vitória. Mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro em 1953 e foi redator do jornal O Globo e do Serviço de Divulgação e Relações Culturais dos EUA. Foi assessor do Programa de Tradução de Livros do Consulado-Geral dos EUA (RJ). Foi também editor e tradutor, além de secretário literário do poeta Augusto Frederico Schmidt. Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito e, em 1977, conquistou o título de livre-docente em Comunicação pela UFRJ. Publicou anteriormente Orvalho (1949), Cântaros Vazios (1952), Raimundo Correia Estudante (1955), Vida e Obra de Raimundo Correia (1960), Anuário da Literatura Brasileira (1961-62), Geografia de Machado de Assis (1977), Itinerário Poético de Raimundo Correia e outros temas (2011) e Poemas do Adolescente Aprendiz 1940-1946 (2013).
O Poeta Fecha as Janelas Vou acender as luzes. Vou fechar as janelas. Quero ficar só com os meus poetas. Quero sentir o meu espírito e o meu coração Úmidos do sangue e das lágrimas dos meus poetas. Quero sentir a palpitação dos meus poetas, O que neles está vivo, depois de há muito apagados os seus traços. Quero os meus poetas! As vozes eternas que fixaram tristezas e angústias efêmeras. Só existe poesia. Só existe o sangue do espírito Só existem lágrimas invisíveis, lágrimas noturnas, Lágrimas de renúncia. O mundo é um sonho. Só os meus poetas existem. Vou acender as luzes. Vou fechar as janelas. Não quero mais ouvir a voz do mar. Não quero sentir o mundo, Com as suas guerras, as suas injustiças O seu sinistro rumor. Não quero olhar uma flor, Nem árvores, campos, rios e estrelas. Quero toda a natureza longe de mim. Que as minhas janelas fechadas me isolem do mundo! Augusto Frederico Schmidt ISBN 978-65-81737-03-0