Um ano, doze meses, quarenta e cinco aniversários. Assim aconteceu em 2025, e é o resultado dessas deambulações pelos acervos dos arquitetos residentes no Centro de Documentação da Fundação Marques da Silva que aqui se dá a conhecer, de novo como Suplemento ao Relatório de Atividades e Gestão, de novo “arrumadas” mês a mês e de acordo com a cronologia de cada história individual. Não se procure um fio condutor no olhar que sustenta cada entrada. A sua fundamentação reside no todo e não na parte, ainda que esta dele seja inseparável. Ou talvez mesmo por isso, porque a sua razão de ser assenta no facto de todos serem matéria integrante desse corpo maior que é o Arquivo da Fundação Marques da Silva. O sentido de cada pequena narrativa é circunstancial, mas cumpre sempre uma vontade transversal a todos estes arquitetos (ou figuras a eles intimamente ligadas) que doaram ou depositaram nesta casa o que resulta dos seus percursos profissionais: a de que cada um tenha, pelo menos no dia em que se assinala o seu nascimento, o direito a tornar-se protagonista, numa espécie de afirmação de coexistência democrática neste lugar que lhes é comum. PAULA
Mas outros são os objetivos que guiam estas breves histórias a desafiar o esquecimento. Com elas e através delas procura-se desvelar a diversidade que um arquivo preserva, do desenho à peça escrita, da fotografia às maquetes; divulgar investigações em curso ou abordar temáticas que possam desencadear outros gestos, novas investigações; abrir espaço para as várias dimensões da arquitetura que neste arquivo estão documentadas, do exercício da sua prática ao ensino, da teoria à escrita e divulgação; ou, por fim, mas não de somenos, perceber como se podem intersectar as vidas e as obras de todos estes arquitetos. No fundo, são revisitações do arquivo que querem mostrar como os documentos podem ter voz quando convocados para um reencontro com um cenário de vida, que querem ajudar a trazer um olhar mais próximo sobre o ofício do arquiteto enquanto construtor dos espaços que habitamos, das nossas cidades. E fazê-lo com recurso a uma linguagem acessível e aberta a todos.
Uma boa leitura, boas viagens!
ABRUNHOSA
ACERVOS FUNDAÇÃO
MARQUES DA SILVA
JANEIRO
O PONTO DE PARTIDA PARA A MORADIA DE ALFARIM
Uma parte preponderante do percurso do arquiteto Anselmo Vaz desenha-se no quadro do planeamento urbano, muito em função da sua passagem pelos gabinetes de urbanização dos Municípios de Sintra e de Lisboa. Mas este arquiteto, formado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1964, nunca abandonou a prática do projeto que cedo iniciou no atelier de Viana de Lima. Aqui permaneceu entre 1964 e 1967, período interrompido por uma estadia em Paris, cidade aonde chega, em 1965, com uma carta de recomendação dirigida a André Wogensky. Até 1966, vivencia na capital francesa um conjunto de experiências que aprofundam a sua formação: colabora no atelier de Robert Auzelle e Ivan Jankovic, no contexto de um projeto de urbanizações residenciais; no atelier do arquiteto argelino Louis Miquel, tempo em que apoia o desenvolvimento de projetos para conjuntos de habitações económicas e para uma igreja; e no atelier de Roland Simounet, na altura em que este estava a projetar uma universidade em Madagáscar. Após o regresso ao Porto e ao atelier de Viana de Lima, ainda passará pelo atelier de Octávio Lixa Filgueiras, pelo de Cassiano Barbosa e pelo de José Cleto Sampaio, seguindo logo no início da década seguinte para Lisboa. Aí, entre 1972 e 1977, será colaborador do atelier de Francisco Conceição Silva. No ano seguinte, ao ingressar nos quadros da Câmara de Sintra, dará então início à carreira de arquiteto autárquico.
O facto de nunca ter chegado a realizar o CODA condicionou, porém, a sua autonomização em termos projetuais, ainda que tal não colocasse em causa o reconhecimento da qualidade da sua prática. Esse impedimento acabará por diluir-se em 1974, com o reconhecimento do Diploma da Escola. Ao longo da sua vida ativa manteve sempre, e em paralelo com a atividade municipal, a prática enquanto arquiteto liberal. O esquisso aqui partilhado é disso prova. Refere-se a um projeto de 1992, em resposta a um programa de uma moradia para uma família, com r/c, 1.º piso e cave, a implantar num terreno com um desnível em Alfarim (Sesimbra). O projeto foi construído, com pequenos desvios à ideia original que este mesmo desenho registou, dele se constituindo o ponto de partida.
EGAS JOSÉ VIEIRA (N. 1962) | 04.01
O CENTRO CULTURAL DE AMORA
Da autoria do arquiteto Egas José Vieira, o futuro Centro Cultural de Amora, no Seixal, já designado Centro Cultural José Saramago, vai ocupar um quarteirão incompleto definido pela Rua Gomes Freire de Andrade, Avenida da Liberdade/Rua Cipriano Dourado, Rua Santa Rita Pintor, Rua Almada Negreiros e Avenida Marcos Portugal na Amora. Ou seja, irá finalmente preencher e unificar um terreno quase vazio, resultante de diversas operações urbanísticas que nunca chegaram a ser concluídas.
O projeto, que começou a ser desenhado em 2020 e se encontra agora em avançada fase de execução, prevê a construção de um edifício constituído por três blocos, paralelamente afastado da rua e com uma imagem dominada pela horizontalidade do conjunto, onde se congregam quatro valências: uma Sala de Espetáculos polivalente, de modo a conseguir albergar espetáculos tão variados como Teatro, Cinema, Dança, Música e conferências; um Espaço Expositivo destinado a exibir obras de artistas locais e internacionais; o CAMAJ (Centro de Apoio do Movimento Associativo de Juventude), um espaço para desenvolver projetos comunitários; e, finalmente, o Polo da Amora da Biblioteca Municipal do Seixal, a proporcionar o acesso a recursos educacionais e literários para todas as idades. É a resposta às linhas programáticas definidas pela Câmara Municipal do Seixal por parte de um atelier experiente – Manuel Graça Dias + Egas José Vieira arquitectos/Contemporânea Lda – que continua a manter uma identidade própria e reconhecível, como este desenho permite constatar.
Entre 2025/26 o novo Centro Cultural ficará concluído. No momento em que finalmente se abrir à comunidade, tanto pela sua arquitetura quanto pelo seu intrínseco sentido de urbanidade, trará uma nova centralidade para Amora e uma nova dinâmica cultural que se estenderá a todo o Município do Seixal. Com a sua construção, afinal, se está a fazer cidade.
MANUEL MARQUES DE AGUIAR (1927-2015)
O DESENHO E A FOTOGRAFIA COMO PROLONGAMENTO DO OLHAR
É impossível ficar-se indiferente a este rosto que tão enigmaticamente nos interpela, à negritude solitária deste vulto de mulher, sublinhada pela brancura decadente das paredes que a cercam. Passaram 63 anos sobre o momento em que Manuel Marques de Aguiar assim a fotografou. Será que este arquiteto terá sentido também o apelo de a desenhar, já que, para si, o desenho era sempre um prolongamento natural e instintivo do seu olhar? Sabemos que Marques de Aguiar desenhava compulsivamente, fosse para fixar ideias, desenvolver projetos ou muito simplesmente captar a fugacidade dos instantes que iam preenchendo o seu quotidiano. O desenho era muito mais do que um instrumento necessário ao ofício, era uma forma intrínseca de pensar e de comunicar o que via, um prolongamento do que lhe era dado viver. Não é assim surpresa que os seus desenhos, em grande parte guardados na Fundação Marques da Silva, tenham sido ponto de partida para exposições e vários outros projetos.
Mas, como esta fotografia bem demonstra, a sensibilidade do seu modo de ver não se estendia apenas à mão que desenhava. O seu jeito próprio de observar lugares e gentes estendia-se também à mão que fotografava o seu quotidiano ou os lugares que percorria, ele que desenvolveu um extenso e importante trabalho na área do planeamento e para quem a leitura do território era a chave primordial de trabalho. E são muitos os negativos e positivos que ficaram das muitas paisagens por onde passou, seja em viagens de trabalho, para estudo ou de lazer (quase sempre em família), registos dos seus espaços de vida e do país urbano e rural do seu tempo. Neles se torna percetível essa aptidão para fixar imagens e ambientes, a mestria para encontrar enquadramentos que acresciam perspetivas de leitura ao que elegia como foco do seu interesse, mesmo perante um momento fugaz, como naquele preciso instante, na Nazaré, como nesta fotografia tirada entre abril e maio de 1961, durante a viagem de lua-de-mel, com uma das máquinas que sempre o acompanhavam.
A AMPLIAÇÃO/RENOVAÇÃO DO HOTEL “BOA-VISTA”
Diz-nos Domingos Tavares, no seu mais recente livro Cidade de Pedra, que, no Porto, “os chalés de praia vieram só no final do século [XIX], quando as práticas balneares se generalizaram entre a aristocracia portuense. Foi então que as avenidas marginais da frente do mar transformaram a aldeia de pescadores da Cantareira e o monte do farol da Senhora da Luz num novo complexo urbano que integrou a população da Foz Velha e se começou a estender até às portas de Matosinhos”. Aliás, foi por essa altura que entrou em funcionamento o popularizado “americano”, logo seguido de uma rede de carros elétricos, uma “verdadeira revolução no sistema de transportes urbanos” que assegurava também ligações regulares para as praias da Foz. Ora é no contexto desta dinâmica urbana que irá impor-se o Hotel da Boa-Vista, como um dos pontos de referência para acolhimento de veraneantes, um edifício implantado numa rua central da freguesia de S. João da Foz, entre o mar e a esplanada do Castelo, originalmente pertencente a Manuel Guedes da Silva da Fonseca. Ainda que fundado nos anos 30 do século XIX, durante as décadas subsequentes passaria a ser um dos lugares mais frequentados pelos banhistas, facto a que não era alheio a existência de um restaurante e de mesas de bilhar no seu interior.
O tempo trouxe-lhe novos proprietários e várias intervenções estruturais para requalificação. Já na década de oitenta do século XX, Domingos Pinto de Faria foi chamado a intervir neste icónico lugar, tendo em vista a sua ampliação e renovação. Coube assim a este arquiteto, que iniciou o seu percurso profissional na Câmara Municipal do Porto, ainda na década de 50, junto de Auzelle, e que viria entre muitas outras obras a projetar para a Diocese do Porto o Seminário do Vilar, reabilitar o espaço, respeitando a história que nele se encerra e reconhece, mas dotando-o de condições de qualidade e conforto exigíveis para os nossos dias. E assim foi, o Hotel continua, ainda hoje, a sobressair nesta paisagem urbana, seja pela elegância das suas linhas, seja pela localização privilegiada. Na Fundação Marques da Silva preserva-se, no arquivo deste arquiteto, memória deste projeto, um exercício de respeito pela sucessiva evolução das linhas que distinguem e individualizam a arquitetura deste Hotel, de sensibilidade para com a sua história e em sintonia com a identidade e natureza desta parcela da cidade a que pertence.
CARLOS CARVALHO DIAS (1929-2024) |
A PASSAGEM PELO GOVERNO DE MACAU E A COLABORAÇÃO COM A FUNDAÇÃO ORIENTE
“Um plano é um projeto, uma perspectiva, um desígnio – um desejo, se quisermos. Director é aquele que dirige, que orienta, que administra. É um guia, um mentor. Para que a perspectiva ou o desejo sejam consequentes e não caiam no âmbito da utopia pura, importa que se alicercem em dados concretos, inquéritos válidos, projecções sérias. Para que a direcção se processe com eficiência, tem de se fundamentar [...] em bases de apoio suficientemente sólidas, num plano correcto, realista e exequível. O que não exclui que seja ambicioso. [...] O Plano tem de ser vivo, de não estagnar, de evoluir, de crescer, de se adaptar. Mas também de se impor. [...] Esperamos poder começar a implementá-lo com determinação, acertando-o ou actualizando-o desde já, naquilo que haja que acertar ou actualizar.”
A concluir este texto publicado em outubro de 1986, num desdobrável de apresentação do Plano Diretor de Macau, Carlos Carvalho Dias, na qualidade de então Secretário-Adjunto para o Equipamento Social do Governo local, manifestava ainda o seu regozijo pelo facto de Macau poder contar com o que considerava ser um importante instrumento de trabalho para a organização do seu território. A conclusão e aplicação de um Plano Diretor – que, após os contributos de Fernando Távora, Álvaro Siza e Manuel Vicente, viria agora a ser liderado pela AsiaConsult, Lda e a Consulplano, Lda. – tinha sido uma das suas batalhas, como seria também a apresentação da candidatura de Macau a Património Cultural Mundial.
Uma parte importante do percurso de Carlos Carvalho Dias, iniciado ainda na década de 50, com a sua participação na equipa do Inquérito à Arquitetura Regional Portuguesa, conduzida por Octávio Lixa Filgueiras, passou pela defesa do património e pelo planeamento urbano: seja através de uma ação direta, enquanto arquiteto; seja enquanto membro ativo e dinamizador de instituições, como é o caso da ISOCARP (International Society of City and Regional Planners), da qual foi um dos fundadores e onde exerceu funções de Vice-Presidente no triénio 1982/84; seja enquanto consultor junto de várias autarquias e outras entidades, com é o caso da Fundação Oriente; ou através do exercício de funções governativas, caso de Macau, para onde se deslocou a convite do Governador Joaquim Pinto Machado. Um interesse e uma ação que em muito ultrapassa, como vemos, o espaço de Portugal continental, para se estender, em particular durante as décadas de 80 e 90, a geografias mais distantes, o espaço asiático onde se assinalava a presença portuguesa.
Por isso não é surpreendente que, no arquivo deste arquiteto, doado à Fundação Marques da Silva, se encontrem vários dossiers relativos à sua passagem por Macau e à colaboração estabelecida com a Fundação Oriente: ininterrupta desde a sua fundação, em 1988, até 1998, altura em que a instituição, já consolidada, completa os seus quadros e Carlos Carvalho Dias, entretanto regressado a Portugal, decide manter-se a residir e a operar na cidade do Porto. Aqui se encontram várias pastas a documentar alguns dos muitos e variados pareceres que ao longo destes anos foi emitindo. Citem-se alguns: sobre obras em curso em vários edifícios; sobre a organização de uma exposição das obras de Manuel Vicente em Lisboa; sobre a possibilidade de a Fundação apoiar a remodelação do Teatro D. Maria II; ou sobre o acompanhamento do estudo de viabilidade da Casa Garden, onde se viria a instalar, anos mais tarde, a Delegação em Macau, desta Fundação; até mesmo sobre roteiros para apoio à rodagem de documentários televisivos e cinematográficos; bem como um estudo por si realizado em outubro de 1988 sobre o património arquitetónico de Macau, com a evolução do território desde o século XVI (período em que os portugueses aí se começam a estabelecer) e a seleção de dez casos específicos de património a preservar. A soberania de Macau foi transferida para a China a 20 de dezembro de 1999. O centro histórico de Macau veio a ser incluído na lista de Património Mundial da Humanidade em 2005.
O Templo da Barra, fotografia de um elemento do Património classificado inserido no desdobrável sobre o Plano Diretor do Território de Macau.
DAVID MOREIRA DA SILVA (1909-2002) | 28.01
DAS GRANDES LINHAS AO PEQUENO GESTO: OS PROJETOS PARA A CIDADE DE AVEIRO, DO ANTEPLANO À CALÇADA DA AVENIDA DR. LOURENÇO PEIXINHO
Quando, em 1945, David Moreira da Silva celebra um contrato com o Município de Aveiro, assumindo funções de consultadoria e tendo por encargo traçar um Anteplano de Urbanização para a cidade, tinha já atrás de si uma real experiência de terreno (intensa no tempo e geograficamente alargada) enquanto arquiteto, mas sobretudo enquanto urbanista.
Em 1939 tinha concluído, em Paris, a sua formação, numa e noutra área de especialização. E logo no ano seguinte, regressado a Portugal, começara a desenvolver aquele que viria a ser um extenso trabalho de planeamento urbano, a princípio em colaboração com De Gröer, para Coimbra e Luanda, mas logo assumindo a autoria de Anteplanos/Planos para Moledo do Minho, Águeda, Termas do Gerez, Monte Real, Funchal (parciais), Paredes e Matosinhos. Aveiro, em cujo plano trabalhará até 1960, vem então a inserir-se neste “acontecer” de projetos, a que se seguirão ainda Barcelos, Amares, Elvas, Valongo, Guimarães, Chaves, Vizela, S. Jacinto e Cacia-Sarrazola. Um exercício de reflexão e planificação do espaço urbano que adquire uma dimensão preponderante no conjunto da obra desenvolvida em atelier por David Moreira da Silva e Maria José Marques da Silva (sua mulher e sócia desde 1943) até aos primeiros anos da década de 60 e que extravasa para o campo da docência, já que, entre 1945 e 1961, David Moreira da Silva será docente da cadeira de Projetos e Obras de Urbanização na Escola Superior de Belas Artes do Porto.
Para Aveiro, David Moreira da Silva apresenta um primeiro Anteplano ainda em 1947, que terá pelo menos dois aditamentos (1952 e 1960), e todo um conjunto de projetos que, ao longo do tempo, enquadrados pelo vínculo que mantém com a autarquia, representam soluções arquitetónicas e urbanísticas em sintonia com as grandes linhas orientadoras por si defendidas para ordenamento e expansão urbana da cidade. Aveiro, descrita como “agradável, prometedora e muito próspera”, a “capital de um dos distritos administrativos mais importantes e florescentes do país”, então a celebrar o 2.º centenário da sua elevação à categoria de cidade, será também um dos temas que, enquanto professor, David Moreira da Silva vai lançar na Escola, em 1959. Pedia então, naquele que era um cruzamento corrente entre a vida do atelier e a formação dos alunos, um “Anteplano parcial de urbanização e expansão duma capital de distrito”. Assim como, no ano anterior, tinha lançado igualmente como tema para um Concurso de Emulação, um “Anteplano de urbanização de Cacia-Sarrazola”, freguesia situada nas proximidades de Aveiro, neste caso concreto, aproveitando a oportunidade de a Escola se fazer representar no Concurso Internacional a promover pela U.I.A.
No arquivo da Fundação Marques da Silva são muitos os registos que documentam os vários momentos e projetos que têm por objeto Aveiro, desde os referidos Anteplanos a casos específicos como sejam, a título de exemplo, a urbanização do Bairro do Dr. Álvaro Sampaio, a Fonte luminosa para a Praça Marquês de Pombal, o Pórtico para a Feira de Março ou os monumentos a Gustavo Ferreira Pinto Basto e ao Dr. Lourenço Peixinho (com busto esculpido por Sousa Caldas), cujo nome, pela importância da obra que deixara impressa na cidade, seria atribuído à Avenida Central.
Um Anteplano é sempre uma reflexão a larga escala sobre a leitura de uma realidade existente, tendo em vista a antecipação de possibilidades de uma evolução futura. Assim foi com os Anteplanos destes arquitetos, cujo principal objetivo era desenvolver propostas que potenciassem a evolução urbana de Aveiro. Em 1958, David Moreira da Silva rescinde o contrato com o Município e o Anteplano de 60 acabou por ser definitivamente abandonado, cabendo à equipa liderada por Auzelle traçar aquele que viria a ser o futuro Plano Director. Mas, para além da execução da Ponte-praça, para além das intenções e propostas de zonamento expressas nos Anteplanos de David Moreira da Silva e de Maria José Marques da Silva, restam, ainda hoje, marcas visíveis do contributo destes arquitetos para a vida da cidade. É que mesmo sem o saber, quem percorre a calçada da Av. Dr. Lourenço Peixinho tem sob os seus pés as decorações pensadas por esta dupla de arquitetos, em 1951, também elas documentadas em arquivo. Um pequeno gesto que subtilmente atravessou a passagem do tempo e continua a marcar o ritmo de quem percorre a cidade dos nossos dias.
FEVEREIRO
ALEXANDRE ALVES COSTA (N. 1939) | 02.02
A VOCAÇÃO DA ESCRITA
Dez anos antes de Alexandre Alves Costa nascer, instava Rilke a um jovem aspirante a poeta, Franz Xaver Kappus, a procurar no mais profundo de si mesmo a resposta a uma sentida necessidade de escrita. Um apelo que, a ser intrínseco e vital, passaria a ser definidor de uma vida, tornada sinal e testemunho desse ímpeto. Alexandre Alves Costa perseguiu, como sabemos, o objetivo de ser arquiteto. Seguindo a sugestão da madrinha Laura para optar pela Arquitetura, por ser “um bocadinho de arte, outro bocadinho de ciência e outro bocadinho de teoria”, ingressou na Escola Superior de Belas Artes do Porto, um “mundo dentro do mundo, espaço de liberdade, das aventuras possíveis ou da multiplicação dos desejos conscientes”. Tornou-se arquiteto, professor, investigador, uma figura de intervenção cultural e política amplamente conhecida e reconhecida. Mas ao longo de todo este trajeto, num desdobramento natural e complementar dessa sua condição primeira de ser arquiteto, lado a lado com a urgência e a sedução pela leitura, também a escrita se foi impondo como uma sua vocação. O díptico Argumentos, que a recente publicação do segundo volume – Argumentos 2: em convergência – vem agora concluir, disso é testemunha. Num texto inserido nesta sua mais recente coletânea, em que se desafia a “provar inviamente que Siza não é um homem do Renascimento”, Alves Costa termina com a narrativa de uma emotiva visita à Escultura Aberta de Siza, para se encontrar consigo próprio. Mas quando se ouve ou se lê a produção escrita deste arquiteto torna-se igualmente percetível que, tal como o desenho, o projeto e a construção, também a palavra é um território que habita, um lugar de reflexão, de pensamento e de ação, um espaço de encontro consigo próprio, por onde irrompe uma vontade de poesia e um contínuo gesto de encontro com o outro. Argumentos 2: em convergência foi lançado no dia 12 de fevereiro, entre amigos, com apresentação de José Manuel Pureza e Pedro Levi Bismarck.
A PROCURA DA SOLUÇÃO JUSTA
Corria o ano de 1981 quando António Teixeira Guerra aceita a encomenda de um projeto para construção de uma residência particular “numa extensa área com cerca de 20 hectares, essencialmente constituída por matas e zonas ajardinadas, integrada na herdade denominada Quinta da Princesa e que desde sempre se destinou ao uso particular e à residência dos seus proprietários.”
Diga-se que a Quinta da Princesa (Seixal) era, à época, propriedade da Sociedade Agrícola Quinta da Princesa e que a moradia se destinava a residência de fim de semana de Sebastião Lancastre. Estava previsto ficar situada “junto do núcleo central da Quinta, que consiste num conjunto de diversas épocas muito harmonioso e que tem sido habilmente aproveitado e ampliado de modo a formar um complexo residencial familiar de índole tradicional extremamente requintado”. De facto, as origens da Quinta distavam no tempo, já que, segundo Rui Mendes, remontam a meados do século XIV, sendo que a designação que a distingue surgirá no século XVIII com a passagem da sua tutela para as mãos de Dona Maria Francisca Benedita de Bragança, (1746-1829), filha do Rei D. José I e Princesa da Beira. A criação da Sociedade Agrícola acontece já em pleno século XX, em 1942, quando a Quinta é adquirida em leilão pela família Ribeiro Ferreira.
António Teixeira Guerra confrontava-se assim com um lugar de importante valor paisagístico e histórico. Na sua memória descritiva, o arquiteto é claro no seu propósito: “na obra nova importava, pois, ter em conta além da necessidade de satisfazer um programa funcional bem-adaptado ao tempo e às necessidades presentes, a de criar formas que assegurassem a desejável continuidade na inovação.”
No estudo feito por Marta Garcia sobre a Quinta da Vela, na sua dissertação de Mestrado na FAUP, é, contudo, referido um testemunho deixado por Sebastião Lancastre a propósito de Teixeira Guerra: “desloca-se até Corroios, no Seixal, e fica a acampar no terreno da futura casa durante cerca de uma semana”. E, acrescenta, “o arquiteto queria conhecer o lugar, perceber as suas valências e de que modo respondia aquele território específico à natureza envolvente. Esta submersão (quase como um batismo do lugar) no sítio onde vai intervir, é, para ele, essencial. A interpretação do lugar surge como um método patente, e como um manifesto, que define a sua arquitetura.”
Mas quanto à sua abordagem ao projeto é interessante observar um conjunto de esquissos pertencentes ao processo desta obra, arquivado na Fundação Marques da Silva. Através deles torna-se visível essa procura da solução justa para o problema que tinha de enfrentar. Neles se revelam as várias soluções, em particular para a fachada, assim como a importância do desenho enquanto instrumento mediador da evolução do seu pensamento. E se a volumetria do espaço a construir parece ter sido encontrada e fixada logo num primeiro momento, percebe-se como se vai questionando sobre as múltiplas variantes que poderia explorar, numa tentativa de articular a originalidade que pretende imprimir ao projeto, com o programa e com o sítio. E torna-se também evidente como o desenho responde à vontade expressa na memória descritiva “criar, pela disposição de muros envolventes e da própria casa, uma zona íntima e abrigada em forma de pátio para a qual a habitação se pudesse abrir livremente”. A casa apresentava-se assim “aberta para o olival contíguo” e de “costas para a via de acesso”. Por isso definiu “duas fachadas principais de expressão fortemente divergente, uma voltada para essa via, essencialmente fechada, de carácter austero, a outra voltada para o pátio, aberta e aprazível.”
Dos primeiros esquissos ao projeto de execução jogam-se assim múltiplas possibilidades até ao momento em que a linguagem construtiva se impõe. Ainda que, desde o início, pareça haver uma clara opção por uma horizontalidade pontualmente rasgada por elementos que, na sua verticalidade, sublinham uma nova identidade para o lugar. Esta singular expressão arquitetónica, esta procura de originalidade nas formas, é um traço distintivo de Teixeira Guerra, um arquiteto consciente da sua temporalidade, mas ousado e inquieto na procura da sua individualidade.
BARTOLOMEU COSTA CABRAL (1929-2024) |
A “CASA DA FELICIDADE”
Em outubro de 2002, houve festa no Bloco das Águas Livres. Os seus inquilinos celebravam então, após 50 anos de arrendamento, a compra do edifício à companhia seguradora Fidelidade. Um gesto pleno de significado. Juntos, tinham conseguido sobrepor-se a investidores, nacionais e estrangeiros, interessados na sua aquisição. E partilhando um sentido de comunidade e de “amor a um sítio de habitar”, tinham conquistado o direito de aí permanecerem. Havia, assim, motivo para festejar, mas havia também o reconhecimento da excecionalidade do lugar e o agradecimento aos arquitetos que, entre 1953 e 1956, definiram o programa e elaboraram e executaram o projeto: Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu Costa Cabral. Por isso os elegeram patronos da associação de condóminos, por isso eles foram os convidados especiais desse dia.
O Bloco das Águas Livres foi o primeiro projeto de Bartolomeu Costa Cabral. Com ele, disse, “aprendeu a fazer arquitetura” e firmou uma amizade que perduraria ao longo dos anos, tanto com Teotónio Pereira, que o aceita como seu principal e durante muito tempo único colaborador para este projeto, assim como com Manuel Tainha, então a colaborar com a autarquia de Lisboa e autor do desenho urbano que se estabelece como ponto de partida para o Bloco. Fizeram-se cerca de mil desenhos, experimentaram-se novos materiais e técnicas de construção inovadoras; envolveram-se artistas plásticos e arquitetos paisagistas; procurou-se inspiração em Le Corbusier e na sua Unidade de Habitação, denominada por Candilis “a casa da felicidade”. Bartolomeu Costa Cabral – que viria a conhecer pessoalmente Candilis quando este, tendo formado sociedade com Woods e Josic, o aceita para um breve estágio no seu atelier em Paris, durante o mês de agosto de 1962 (nessa altura, Costa Cabral acaba por integrar a viagem de estudo do atelier a Le Mirail [Toulouse] e aproveita então para visitar o Bloco de Corbusier onde pernoita) –, via na prática da Arquitetura a possibilidade de “criar ambientes de beleza e harmonia que ajudariam a dar sentido à vida”. O Bloco das Águas Livres tornou-se, e continua a ser, um exemplo vivo da aplicação desse princípio.
“A importância da Arquitetura” foi o título dado a um breve texto onde, a pretexto da homenagem feita aos autores deste projeto, Bartolomeu Costa Cabral dá o seu testemunho sobre o que o fez tornar-se arquiteto e sobre o que foi o desenvolvimento da ideia e da construção do Bloco das Águas Livres. Um texto hoje arquivado na Fundação Marques da Silva e que em dia de aniversário se partilha, já que sobre ele se baseia este destaque. Até abril de 2024, com 95 anos celebrados, Bartolomeu Costa Cabral continuou a projetar, sempre guiado por um sentido ético de missão e de responsabilidade social. Defendia que a qualidade da arquitetura podia contribuir para a felicidade. Juntamente com Rui Mendes regressara ao Bloco das Águas Livres, encontrando-se a rever algumas das suas componentes. Este é também uma das 16 obras documentadas e fotografadas para o livro/exposição Paisagens Construídas.
MARÇO
ALFREDO MATOS FERREIRA (1928-2015) | 01.03
FILMAR NASONI NO PORTO
O interesse de Alfredo Matos Ferreira pelas filmagens ganhou um particular impulso quando, em 1968, adquiriu uma câmara de filmar Paillard. As primeiras experiências aconteceram em Trás-os-Montes, nesse território que sempre viu como um bastião de um saber ancestral, como expressão de uma sábia, intrínseca e identitária ligação do homem à terra. Tinham um carácter etnográfico e visavam fixar uma tradição que o tempo iria inexoravelmente transformar. É disso exemplo o documentário de 68, que o próprio viria a reeditar em 2004, sobre a produção do Centeio e que a Fundação Marques da Silva, alguns anos mais tarde, já em 2017, viria a projetar em Urros, durante uma emocionada e participativa assembleia, reunida para uma apresentação do livro Memória.
Mas essa vontade de prolongar o seu olhar através da câmara de filmar viria também a fixar outros tempos mais convulsos e efémeros, como foi o tempo da Revolução de Abril. O tempo do SAAL, vivido intensamente, e que Matos Ferreira deixaria documentado em apontamentos vários. Datam desta altura os documentários feitos nas ruas do Porto do 1.º de maio de 74 e de 75 e que também a Fundação Marques da Silva foi publicando.
Em entrevista dada em 2012 a Sergio Fernandez, Madalena Pinto da Silva, José Miguel Rodrigues e Luís Urbano, no contexto do projeto Ruptura Silenciosa, Alfredo Matos Ferreira referiu, contudo, alguns dados importantes para compreender a ausência de registos posteriores ao 25 de Abril, para além dos já mencionados – ainda que tivesse continuado a investir em equipamentos (refere ter comprado novas máquinas de 16mm e ter mandado fazer uma dolly e cerca de 50m de carris); assim como a ausência de filmagens sobre arquitetura. Se por um lado, os “novos ventos e quadro político” trazem outras orientações e urgências, por outro, e cito, considerava que “qualquer obra de arquitectura, por ser coisa estática, é difícil de filmar. A não ser que seja uma peça espantosa, com enfiamentos marcados em que podemos fazer travellings e dar uma certa dinâmica.”
Ainda assim, este arquiteto, grande amigo de Henrique Alves Costa, confidenciou ter equacionado filmar as obras de Nasoni no Porto, num projeto que envolveu igualmente Fernando Távora para definição conjunta do guião e dos melhores ângulos a captar sobre os Clérigos, o Palácio do Freixo, a Sé e a Igreja da Rua da Flores. Efetivamente, no acervo doado à Fundação Marques da Silva encontram-se arquivadas duas pastas com apontamentos que documentam o trabalho preparatório das filmagens, documentação que a família ampliou durante o ano passado com a entrega de uma bobine do que foi feito, permitindo assim reunir todos os elementos produzidos em torno dessa ideia de filme, recentemente alvo de uma primeira apresentação pública por parte de Luís Martinho Urbano durante o Colóquio Siza-Barroco.
A consulta dessas duas pastas permite perceber o grau de desenvolvimento do projeto: a constituição de uma equipa e a dimensão da investigação feita em torno de Nasoni, da sua biografia, dos lugares que percorreu antes de se fixar no Porto e de obras que o devem ter influenciado, bem como a listagem da obra construída e de outros materiais complementares a associar às filmagens locais. E permite até equacionar o contexto que despoleta o projeto, já que em 1973 se celebrava o bicentenário da sua morte com múltiplas iniciativas promovidas pela Comissão que José Carlos Loureiro integrava, enquanto vereador, e que decidira atribuir a Robert Smith, reconhecido especialista do Barroco e de Nasoni (e um dos autores consultados para elaboração do filme), a medalha de mérito da cidade. Aliás, em sintonia com Loureiro, que com esse gesto simbólico visava defender o carácter urbano e estético que a obra de Nasoni imprimira ao Porto e alertar para a progressiva degradação a que se estava assistir na zona central da cidade, também o filme gizado por Matos Ferreira, Távora e Alves Costa transportaria um olhar crítico sobre o presente: o guião a seguir, centrado na Torre dos Clérigos, ponto de partida e de chegada do filme, fazia questão de mostrar a “destruição do ambiente em que foram concebidas as obras de Nasoni e o corte com novos arruamentos de enfiamentos essenciais.”
O projeto, apesar da pormenorização alcançada, não sobreviveu ao período revolucionário. É, portanto, um inconseguimento. Mas não deixa de ser, pelos registos preservados, um documento revelador de uma forma de pensar e refletir sobre arquitetura, de como arquitetos interpretam a obra de um outro arquiteto e a cidade onde vivem e exercem a prática do ofício, sobre a necessidade de a leitura de um tempo presente ter de conter o tempo longo da história. Este é um exercício do que pode ser comunicar arquitetura e de como o cinema poderia ser um aliado capaz de lhe acrescentar sentido.
Alfredo Matos Ferreira, arquiteto e professor, foi amante das artes náuticas, do cinema e da fotografia, e chegou mesmo a ponderar uma carreira na área da Química.
LUIZ BOTELHO DIAS (1929-2007)
QUANDO A VIDA E O OFÍCIO SE CRUZAM
Será percetível apenas a muito poucos a identidade do vulto que se encontra à direita, nesta fotografia, a observar a paisagem que ao seu olhar se oferece. Conte-se então a história que a desvenda. Corria o ano de 1959 e dois amigos arquitetos, passado que fora o Inquérito e aguçada a curiosidade, com a leitura dos livros de Orlando Ribeiro, por terras que tinham ficado por explorar, decidiram conhecer as “brandas” do Soajo, essas habitações temporárias ligadas ao antigo sistema de transumância. Um era o fotografado e o dono do carro em que para aí seguiram, Luiz Botelho Dias, o outro o fotógrafo e um dos participantes na equipa da Zona 1, António Menéres.
A amizade entre estes dois arquitetos começou na infância de ambos, nas praias de Leça, onde as famílias iam a banhos. Uma meninice comum, que se encontra, por exemplo, relembrada na dedicatória do livro Crónicas contra o Esquecimento, de António Menéres, datada de 2006 e que hoje é parte do acervo bibliográfico de Luiz Botelho Dias doado à Fundação Marques da Silva. Uma amizade reforçada pela escolha de uma via profissional comum, a da arquitetura, e que assim se foi enraizando ao longo dos anos. E num tempo em que esse destino comum era o de grupo contido de profissionais, que não só se conheciam, como partilhavam e muitas vezes trocavam impressões entre si sobre os projetos que cada um tinha em mãos, não é surpreendente o facto de nos depararmos em arquivo com registos que documentam esse ambiente convivial. São disso exemplo as fotografias da sala 32 e depois da sala 35, ou do atelier da Rua Duque de Terceira, onde junto a Luiz Botelho Dias encontramos também Alfredo Matos Ferreira, Joaquim Sampaio, Alberto Neves e Álvaro Siza. Mas outras parcerias houve igualmente documentadas, como é o caso de Manuel Marques de Aguiar, com quem Botelho Dias partilhava o interesse pelas orlas marítimas do Porto e de Matosinhos, com quem chegou a estabelecer sociedade e cujos acervos se voltaram a reunir na Fundação Marques da Silva.
O que é menos conhecido é que Luiz Botelho Dias foi sobrinho de um outro arquiteto, Homero Ferreira Dias, antigo aluno e colaborador de José Marques da Silva, e que, por via destes laços, sempre se manteve próximo do casal que viria a criar as bases para a atual Fundação, Maria José Marques da Silva e David Moreira da Silva, sendo visita das Casas do Marquês.
Ou que no acervo deste arquiteto se encontra o modelo para um dos candeeiros da Casa de Chá da Boa Nova, porque este acompanhou então o projeto, da mesma forma que viria a cruzar-se com Álvaro Siza ao participar no Plano Parcial de Leça da Palmeira.
O património documental da Fundação Marques da Silva é muito mais do que um mero somatório de acervos. Representa, sim, múltiplas possibilidades de leitura que, cruzando caminhos, nos desenham contextos e revelam teias de encontros importantes para a compreensão dos seus percursos enquanto arquitetos. Luiz Botelho Dias é um exemplo paradigmático desses cruzamentos, desses “vasos comunicantes”, isto é, destas convergências desenhadas entre a vida e o ofício.
ADALBERTO DIAS (N. 1953) | 26.03
DESENHAR UMA CASA DA JUSTIÇA
Oficialmente inaugurado em 2003, o Tribunal Judicial de São João da Madeira começou a ser projetado em 1978, cinco anos após ter sido criada a Comarca, mas antes ainda da conquista do estatuto de cidade pelos são-joanenses, em maio de 1984. Um tempo longo – projetual e construtivo – marcado por sucessivas ampliações ao programa inicial e pela instabilidade política dos anos que se seguiram à Revolução de Abril, com os consequentes reflexos na governação nacional, local e no funcionamento dos próprios Tribunais. No entanto, duas coordenadas houve que se mantiveram inalteradas desde o momento inicial: um mesmo lugar de implantação e a vontade de materializar um edifício-símbolo, não de poder e de repressão, mas representativo de um conceito de justiça e de liberdade.
Disposto sobre um terreno de pendente acentuada, o edifício ergue-se numa continuidade dialogante com o exterior, com o espaço público, e tanto as suas dimensões, a sua forma, quanto os materiais, a organização e variação dos seus espaços interiores ou o consciente jogo de luz e cor que o percorre e distingue, concorrem para lhe conferir uma presença serena, onde se materializa esse desejado sentido mais profundo para a sua arquitetura.
Adalberto Dias cumpriu o que lhe foi pedido. “Havia que manter a tradição: o respeito pela instituição, pela função de justiça, e de ser um edifício referente”, havia que responder a uma série de indicações quanto a áreas e articulações funcionais, mas no desenho deste Tribunal não perseguiu a ideia de um Palácio e sim a de uma Casa destinada a servir a soberania do povo, a promover a tranquilidade, a reflexão, a confiança entre as partes que nele interagem. Um importante edifício público que, ao questionar a natureza monumental associada ao seu papel institucional, nas palavras de Elena Mucelli, alcança “uma imagem benigna, com soluções espaciais de extrema riqueza e sensibilidade.” Ou, como disse Francesco Saverio Fera, “sem nunca perder o sentido da própria natureza coletiva.”
A WRIGHTIANA CASA CUNHA DE FREITAS EM ANO DE CENTENÁRIO OU A PROCURA CONSTANTE DE UM MODO PRÓPRIO E MODERNO DE FAZER ARQUITECTURA
Em junho de 1962, é publicado o n.º 75 da revista Arquitectura, então dirigida por Rui Mendes Paula, com Nuno Portas como um dos membros da sua comissão diretiva, e com Octávio Lixa Filgueiras, Arnaldo Araújo, Manuel Marques de Aguiar e José Forjaz responsáveis pela redação para o Norte. Na capa, trazia uma das últimas obras do arquiteto Maurício de Vasconcellos, projetada em colaboração com Luís Alçada Baptista, a habitação Franchi, no Restelo. E isto porque se tratava de mais um número dedicado ao conjunto da obra de um autor, neste caso, Maurício de Vasconcellos. Apesar de ter apenas 37 anos, conquistara direito de presença nesta revista pelo facto de a sua obra ser significativa do momento que então se atravessava em Portugal, por expressar, de forma mais ou menos consciente ou consequente, uma vontade de “renovar a temática e a linguagem arquitectónicas apressadamente cristalizadas como modernas (e isto com ou sem continuità).”
Numa nota preambular, Maurício de Vasconcellos faz questão de salvaguardar que “não pretende analisar, no sentido autocrítico, os trabalhos apresentados, nem delinear uma teorização, sequer definir uma atitude”, mas sim evidenciar aquele aspecto “que mais evidentemente se manifestou como merecedor de ser um dia parte integrante de uma regulamentação, de uma orientação normativa profissional.” Aliás, “da primeira palavra surgida entre o arquitecto e o cliente ao evoluir da obra, já pronta e acabada, quanto obstáculo, quanta desilusão, quanta incompreensão e injustiça.” Por sua vez, a direção da revista sublinhava que esta escolha editorial, não deveria ser interpretada como um gesto de emulação, mas inserida na necessidade sentida de dar a““entender e avaliar as personalidades de alguns autores tomando em conta a sua cronologia e as vicissitudes da actividade profissional no nosso País.”
Maurício de Vasconcellos, depois de frequentar o Liceu Camões e de uma breve passagem pelo curso de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico, em 1943, ingressa na ESBAL. Em 1950, concluída a primeira etapa da sua formação, filho de pai natural de Belém do Pará, viaja até ao Brasil. O que era inicialmente um plano de férias, logo se transforma numa experiência formativa com um forte impacto na sua futura abordagem projetual, pois ser-lhe-á dada a possibilidade de colaborar com os arquitetos Sérgio Bernardes, no Rio de Janeiro, e com Vilanova Artigas, em São Paulo. Em 1951 regressa a Portugal e passa pelo atelier de Ruy Athouguia e Formosinho Sanchez durante o período em que estes projetam o Bairro das Estacas, em Alvalade, projeto que virá a ser premiado na Bienal de São Paulo. O percurso, enquanto profissional independente, já tinha, porém, sido iniciado com o projeto para uma habitação, em 1949. Entretanto, regressa à ESBAL. Obtém o diploma em 1955 e cria atelier próprio em Lisboa, na Praça do Areeiro. Em 1956, vai participar na Exposição de Arquitectura Portuguesa em Londres, com o seu trabalho a suscitar interesse nas revistas da especialidade. Entre 1965 e 1968, trabalha em sociedade com o arquiteto Conceição Silva, mas 1968 inicia um novo produtivo ciclo profissional ao formar sociedade com Luiz Alçada Baptista, o GPA, Grupo de Planeamento e Arquitectura que terá em Bartolomeu Costa Cabral um dos seus mais relevantes colaboradores. Uma produção intensa que permitirá o desenho de obra em grande escala, desde grandes equipamentos públicos, como a Sede para a Sociedade Portuguesa de Autores e hotéis a edifícios universitários e aerogares.
Mas regressemos a 1962 e à revista Arquitectura onde são apresentadas – através de fotografias do construído, reproduções de peças desenhadas, notas ou excertos de memórias descritivas dos respetivos projetos – as seguintes obras deste autor: a Habitação Rangel de Lima (Lisboa, 1951-52), o concurso para o Pavilhão de Bruxelas (1955), a habitação C. Correia (Paço de Arcos, 1955), a Sociedade Portuguesa de Automóveis (Lisboa, 1956), o Soprocine Avis (Lisboa, 1956), a Secção e Posto da Guarda Fiscal de Vimioso (1959), a Sociedade Portuguesa de Automóveis (Lisboa, 1960), a sede para a British European Airways (Lisboa, 1960-61), e, com grande destaque e uma belíssima reportagem fotográfica de Mário Novais, a Habitação Cunha de Freitas (Cascais, 1958-60).
Em 2019, foi oficialmente assinada a doação do acervo de Maurício de Vasconcellos, tal como a do acervo de Luiz Alçada Baptista e do GPA, à Fundação Marques da Silva, e aqui se vieram juntar ao acervo de Bartolomeu Costa Cabral. Uma documentação importante para o conhecimento do percurso individual de cada um destes arquitetos, mas também para o entendimento da forma como se intersectam e complementam, já disponível, aliás, para consulta e investigação. E aí podemos encontrar os registos que nos devolvem, entre a sua imensa produção, o processo de projeto para a Habitação Cunha de Freitas, num total de 11 pastas com várias centenas de desenhos, acompanhada de dois dossiers com documentos escritos.
Esta moradia, encomendada por Isabel Vasconcelos Cunha de Freitas situa-se em Cascais, na Avenida Brasil, numa zona residencial contígua ao Parque Palmela. E logo se percebe como a morfologia invulgar do terreno (a nascente-poente tem uma pendente de 7m) é habilmente integrada no projeto, que aproveita os desníveis para garantir um íntimo contacto interior-exterior a todos os pisos. igualmente uma casa abrigada dos ventos dominantes e que valoriza a panorâmica que se oferece a sul e a poente. A observação dos desenhos revela muito claramente como ao longo do projeto existe uma permanente preocupação em humanizar a arquitetura, em moldar o construído à função, em ajustar cuidadosamente a medida certa de cada espaço à escala de quem a vai habitar. Nota-se igualmente a grande atenção dada a cada detalhe construtivo – na revista, também as folhas de pormenor foram publicadas –, assim como uma meticulosa escolha dos materiais a utilizar, com recurso, para além do betão armado, ciclópico e descofrado, à pedra castanha da região, à madeira de tola e de pinho, e à tijoleira quadrada envernizada.
Refere Patrícia Rocha, na sua prova final de licenciatura em Arquitetura, entregue na FAUP em 2008, As Casas Desenhadas pelo Arquitecto Maurício de Vasconcellos entre 1950 e 1970, sob orientação de José Manuel Soares, que este é um projeto importante por definir um momento experimental e de transição que conduzirá este arquiteto à afirmação de uma linguagem marcante em períodos posteriores. E revela também que o atual proprietário, Vasco Fraga, comprou a casa porque tinha algo de Frank Lloyd Wright. De facto, é inevitável não pensar na Casa da Cascata quando se observa esta casa, porém, Maurício de Vasconcellos demonstrou ser capaz de ir para além das suas referências, de trabalhar na sua circunstância e sobre a singularidade daquele lugar. Ela é sim, um testemunho dessa procura de um caminho diferente, de novos modos de fazer arquitetura, ajustados à época que então vivia, aos sonhos do cliente e uma expressão do seu autor.
ABRIL
JOSÉ MANUEL SOARES (N. 1953) | 04.04
UM MODO PRÓPRIO DE DAR A ENTENDER O PROJETO
São visitas de estudantes de arquitetura a arquiteturas de tempos diversos, aquelas que estas fotografias revelam: ao Pavilhão de Ténis de Fernando Távora, em Leça; à Escola Superior de Educação de Setúbal, projetada por Álvaro Siza; e ao Claustro Gótico do Cemitério do Convento de Cristo em Tomar, traçado por Fernão Gonçalves. A primeira realizou-se em 2009, a segunda em 2010, a terceira em 2018. Mas poderiam ser muitos outros os exemplos destas aulas de projeto, em que José Manuel Soares apresentava aos seus alunos casos concretos de estudo, de observação no próprio lugar, para depois regressar, com renovado entusiasmo à sala de aulas e aí continuar esse permanente questionamento das ideias e do sentido das formas que sustentam um projeto.
Ensinar arquitetura não é fácil, como tão bem lembrava Luiz Martínez Santa-Maria no seu texto Sólo hay una porta, no una respuesta: apuntes sobre el alumno, el profesor y el maestro. Mas esse foi sempre um caminho desejado e percorrido por José Manuel Soares, arquiteto formado na Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde, enquanto estudante, atravessou os anos convulsos, mas de grande compromisso social e político, que levaram ou resultaram da Revolução de Abril. Apesar de manter sempre uma intensa atividade de atelier, nunca abdicou desse espaço de intervenção que considerava ser um lugar privilegiado de intersecção e de saudável contaminação entre o “ser arquiteto” e o “ser professor”, se é que a distinção para si se colocava. É que projetar não se aprende apenas projetando. As primeiras experiências datam de 1980, quando aceita ser Assistente na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Angola. Assim que regressa a Portugal, regressa também à “sua” escola, agora Faculdade e, em 1984, começa por ser Assistente de Alfredo Matos Ferreira. Sê-lo-á depois de Sergio Fernandez, até que acaba por assumir a regência da cadeira de Projeto do 1.º ano do Curso de Arquitetura. E ao longo dos anos foi marcando geração após geração de estudantes que nele encontraram o conhecimento e a sensibilidade, a proximidade e a permanente disponibilidade, condições necessárias à construção de um espaço pessoal e emancipatório. Ou seja, alguém capaz de um gesto de acolhimento do outro, capaz de estabelecer uma relação de confiança e de verdadeira aprendizagem, trabalhando com a dúvida e o erro, mas numa atitude sempre aberta à descoberta e não limitadora da criatividade, sabendo contrapor à liberdade a responsabilidade e exigência éticas quanto ao que significa ser ou vir a ser arquiteto. E este é um contributo essencial para consolidar uma escola, para sedimentar raízes, para assegurar uma prática consciente da arquitetura. José Manuel Soares, doutorou-se em 2013 com a tese A contribuição do Desenho na procura do essencial. Manteve-se professor, comprometido e inspirador, até 2021, ano em que deu oficialmente por concluída esta dimensão da sua vida.
GERMANO DE CASTRO (1913-1992) | 11.04
OS POSTOS CLÍNICOS: UMA EXPERIÊNCIA DE MODERNIDADE
As honras de capa do n.º 62 da revista Arquitectura, publicada em setembro de 1958, recaíram no Centro Médico-Social de Negrelos do arquiteto Germano de Castro, que aí surge representado numa fotografia da fachada norte do edifício. O destaque vem acompanhado, no interior, de um extenso artigo – a contemplar um texto crítico do editor, Rui Mendes Paula, uma reportagem fotográfica, excertos da memória descritiva e a reprodução de alguns desenhos do projeto –, e isto num número onde constam projetos para 4 pousadas da autoria de Manuel Tainha, João Andresen, Francisco Blasco e Teotónio Pereira. Confidenciará, largos anos depois, Nuno Portas ao neto de Germano de Castro, também ele Germano e também ele arquiteto, que tinha gostado muito da escolha do xisto e da curva da estrada. Esta opinião do diretor da revista na altura terá sido seguramente partilhada pelo autor das notas ao defender que esta opção do projeto denuncia uma intuição paisagística no seu desenvolvimento; assim como, numa referência aos materiais, considera poder falar-se aqui de uma experiência “no quadro de uma linguagem nova”. Um comentário final, a rematar o artigo dedicado a este Centro para a Federação das Caixas de Previdência, iniciado em 1955, ano em que o Inquérito vai para o terreno, reforça o carácter distintivo desta obra no contexto das restantes que, para o mesmo fim, a Federação se encontrava a realizar. E acrescenta: “Com efeito, a confiança dada ao arquitecto autor do projecto, sobretudo na Delegação Norte, permitiu a criação de uma obra original, que alia a adequação aos fins requeridos uma visão arquitectónica moderna, não isenta de respeito pela tradição local.”
As encomendas das Caixas de Previdência, e em particular a partir da instituição da Federação das Caixas de Previdência, foram essenciais para sustentar muita da inovadora arquitetura que se fez em Portugal, ao longo das décadas 50 e 60, designadamente no campo da habitação económica. Mas também foram fundamentais para dotar o país de uma rede de infraestruturas capaz de prestar cuidados de saúde adequados à população, caso da construção de Postos Clínicos. Olhando em perspetiva o acervo documental de Germano de Castro doado à Fundação Marques da Silva, percebe-se como, do ponto de vista do seu percurso, enquanto arquiteto, conseguiu de facto criar com esta(s) instituições essa relação de confiança apontada na revista e que se estende desde 1950 até meados da década seguinte. Só em Postos Clínicos encontram-se documentados, para além do de Negrelos, mais 4 projetos: para Santo Tirso (1955); para Vizela (1960); para Beja, o único não construído (1961); e para Vila do Conde (1964). Sendo de notar a individualidade projetual de cada um, mas também a migração de ideias quando a considerava relevante, como é o caso da utilização do azulejo, identitária do Posto de Santo Tirso, mas que vai reaparecer no de Vila do Conde.
Não se pense, contudo, que esta “especialização” no desenho de Postos Clínicos será exclusiva no que se refere a esta relação cliente-arquiteto, pois logo em 1950 Germano de Castro projetara a Sede da Caixa de Previdência do Pessoal da Indústria Têxtil do Porto, num gesto modernista, de influência “Corbu via Brasil”, como dirá Nuno Portas e ainda hoje reconhecível a quem passe pela rua Miguel Bombarda; seguido ainda pelo Bairro que construirá, no ano seguinte, para esta mesma Caixa, em Matosinhos. Afinal, um conjunto de obras a constituir prova da sua sólida competência profissional e operacionalidade na resposta a diferentes circunstâncias dentro de um contexto e de um tempo marcado por ímpetos de transição, seja de sistemas ou modelos, político-sociais e arquitetónicos.
MANUEL GRAÇA DIAS (1953-2019) | 11.04
A REMOTA PROXIMIDADE DE MACAU
Manuel Graça Dias conheceu Manuel Vicente quando este foi seu professor, na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Lagoa Henriques ou António Quadros tinham sido importantes ao longo do seu percurso de formação, mas foi quando se cruzou com Manuel Vicente que se reconectou com a Arquitetura. Com Manuel Vicente, dirá mais tarde, “sentiu que podia ser ele próprio”, que era possível, afinal, reunir na Arquitetura todo o seu gosto pelas coisas do mundo ou, parafraseando Borges, que a Arquitetura podia ser uma forma de felicidade. E, o que era válido para os dois, se havia uma crença firme nas possibilidades do desenho para recriar lugares onde a memória era matéria de presente, se tudo podia ser palco para a encenação da vida, como não convocar tantos outros estímulos vindos da fotografia, do cinema, da literatura ou da música para falar de arquitetura. Tudo tinha a ver com tudo e até o pop e o vulgar, como pouco depois Graça Dias defenderia, juntamente com Manuel Vicente e Helena Resende, podia ser glorioso.
Foi um encontro decisivo para ambos, pelo muito que partilhavam, desde logo a paixão pela observação da cidade, de como as pessoas viviam, no fascínio por situações novas, numa forma exuberante de estar. Concluído o curso, em 1977, Manuel Graça Dias partiu para Macau e foi no Atelier de Manuel Vicente, no contacto com essa urbanidade distante e tão inesperadamente cosmopolita, que se tornou arquiteto. Uma experiência determinante e o princípio de uma relação de cumplicidade e compreensão mútua que justificaria muitos outros encontros entre ambos ao longo das suas vidas, em Macau, então território português, ou no continente, sempre com essa paixão, que não descurava a importância da escrita ou da imagem para pensar e exercitar a capacidade de desenho. É do ano em que chega a Macau, 1978, o projeto para dois edifícios de habitação na Avenida Adolfo Loureiro, um dos que se encontra arquivado no acervo doado à Fundação Marques da Silva relativo a essa permanência em Macau (Graça Dias fica em Macau, de forma intermitente, até 1981, regressando depois definitivamente para Portugal, onde continua o seu percurso de arquiteto liberal, registando alguns períodos de colaboração com João Vieira Caldas, antes de fundar o seu atelier Contemporânea, em 1990, com aquele que considerou o seu melhor aluno, Egas José Vieira). A memória descritiva é em tudo invulgar, da forma ao conteúdo. Abre com um poema de João Miguel Fernandes, “vê como a paisagem muda (...) aparentemente nada mudou mas na verdade tudo mudou (...) varreu-se-me a memória do teu rosto sob a pressa das mãos / e no entanto quantas vezes digo / tu não suportas alteração (...)”.” E o tom poético invade o texto que descreve o projeto, onde, a começar com “nós vimos o local” se passa a discorrer entre inserção e memória. Um texto entrecortado por fotografias e desenhos de Manuel Graça Dias, onde surge quase como uma legenda, que diz o que encontraram através do desenho, o que acharam na rua (“a sombra dos detalhes”, os “coroamentos”, “as janelas”), que “na adolfo loureiro algo falará com vocábulos de hoje a memória do local.”
Ao escrever sobre o Orfanato Helena Liang e sobre o bloco de habitação social Fai Chi Kei para o catálogo da exposição Arquitectura Portuguesa do Século XX, as duas obras de Manuel Vicente aí assinaladas, Manuel Graça Dias não deixará de ver neles a possibilidade do desenho urbano, o trabalho da luz e da cor, e uma síntese entre a vontade do novo e a adequação, ideias que também perpassam, afinal, nas duas obras de sua autoria, em parceria com Egas José Vieira, igualmente publicadas no catálogo, o Pavilhão de Portugal na Exposição de Sevilha de 1992 e a Sede da AAP, Banhos de São Paulo.
No documentário de Rosa Coutinho Cabral, Arrivederci Macau, de 2013, percebe-se o valor da transmissibilidade, agora biunívoca entre Manuel Vicente e Manuel Graça Dias, a presença de uma cumplicidade que, na rememoração e no regresso a um território comum, deixa entrever a proximidade dessa experiência distante. A apropriação do que ali foi vivido tornou-se condição identitária, estímulo para a criação individual e base de um entendimento intrínseco e duradouro entre estes dois arquitetos e da(s) sua(s) arquitetura(s).
MANUEL TELES (1936-2012) | 16.04
CLUBE DE TÉNIS DO PORTO: O DESEJO DE UMA ARQUITETURA DE QUALIDADE
Quando percorremos o arquivo documental de Manuel Teles, encontra-se na documentação doada à Fundação Marques da Silva, um conjunto de peças desenhadas relativas ao projeto para a nova sede do Oporto Cricket and Lawn Tennis, na Rua do Campo Alegre, datado de janeiro de 1964, vindas do atelier de João Andresen. Tinha então Manuel Teles 27 anos de idade e preparava a apresentação para o seu CODA (Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquiteto), Conjunto de habitações rurais, Federação das Caixas de Previdência, Casa do Povo de Pegarinhos, na Escola Superior de Belas Artes do Porto, que viria a defender em dezembro desse mesmo ano.
A estranheza que a presença destes documentos no acervo de Manuel Teles poderia causar a um primeiro olhar, começa a diluir-se se equacionarmos duas informações que a podem contextualizar. É com João Andresen que Manuel Teles inicia a sua atividade profissional enquanto arquiteto, pelo que terá acompanhado a realização, ou mesmo participado, no desenvolvimento deste projeto para o Oporto Cricket and Lawn Tennis, que também lhe interessaria enquanto praticante da modalidade. Um gosto que manterá ao longo da vida, pois, ainda que não tendo conseguido assistir em Wimbledon a um torneio, sempre manteve a prática constante deste desporto. Num breve parêntesis, diga-se que, embora o Ténis, em Portugal, tenha começado em Cascais (em 1879, apenas cinco anos depois do Major inglês Walter Clopton Wingfield o ter inventado), o Porto rapidamente aderiu à sua prática, com a fundação em 1898, na Foz do Douro, do Grupo Lawn-Tennis de Carreiros, que contava entre os seus fundadores, Gustavo Andresen. Refira-se igualmente que o palmarés então alcançado e o grande número de aficionados nesta cidade, não deixaria de ser alheio à forte presença de uma comunidade inglesa.
Mas quando o assunto é Ténis, encontramos outros registos que documentam o momento em que, vinte anos depois, em 1984, o próprio Manuel Teles, por oferecer garantias de fazer uma arquitetura de qualidade, recebe o encargo de projetar a construção de uma Escola de “Ténnis”. Tratava-se de construir campos de ténis que sustentariam o funcionamento de uma escola de aprendizagem, num terreno localizado entre a Pasteleira e a Av. Gomes da Costa, junto às urbanizações da Nova Gaia e da William Graham. Porém, com a concessão dos terrenos a suscitar contestação, acabaria por se tornar improcedente e o projeto fica “ultrapassado”. Nesse mesmo ano, em abril, é convidado a projetar para o Clube de Ténis do Porto (fundado em 1969 e do qual Manuel Teles era associado) uma Gelataria nos terrenos das suas instalações, na Rua Damião de Góis, onde ainda hoje permanece. O projeto fez-se, com o arquiteto a estudar todas as valências necessárias ao funcionamento de um espaço destinado à venda de gelados, e todas as formalidades foram cumpridas. A memória descritiva vem a ser entregue em maio seguinte, desconhecendo-se as razões pelas quais acabaria por ser igualmente arquivado.
Dez anos passados, em 1994, Manuel Teles volta a ser chamado para desenvolver um projeto para o Clube de Ténis do Porto: a construção das novas instalações, em terreno localizado a sul da área onde se encontrava situado o Clube, na Rua Damião de Góis. Um projeto ambicioso, financiado pelos sócios e colaboradores do Clube, que então, segundo registos do seu presidente, o Eng.º Mário Borges Coelho, contava com o apoio da CMP, da Federação Portuguesa de Ténis e da Associação de Ténis do Porto. Estas novas valências permitiriam construir 2 novos pavilhões cobertos, destinados a cumprir os regulamentos necessários à realização de Torneios Internacionais; volumetrias de relação entre os dois pavilhões, para jogadores, juízes, imprensa, posto médico, etc.; e um edifício de 3 pisos com funções múltiplas, desde cafetaria, restaurante panorâmico, visionamento de filmes, etc. Estava ainda previsto um estacionamento subterrâneo com dois pisos. A obra avança em setembro desse mesmo ano, sendo deitada abaixo a popularmente conhecida “bolha” (dois courts protegidos por um insuflável) e também o “handy” (que abrigava o mais antigo recinto coberto do Norte do País, inaugurado em 1971, nas instalações da Rua Fábrica de Salgueiros e depois transferido para Damião de Góis). Devido a diferendos com a CMP na concessão do direito de utilização do terreno, que chegam mesmo a suscitar o interesse da imprensa de então, a obra ficará, mais uma vez, por realizar.
Estes registos, apesar de testemunharem uma sequência de ideias, planos e projetos não concluídos, ou seja, privados da sua realização plena pela construção, não deixam de ser exemplares dos contratempos e contrariedades que os ateliers tinham de enfrentar, ontem como hoje. Quando o projeto das novas instalações para o Clube é abandonado, Manuel Teles, então professor da FAUP, tinha há muito um trabalho consolidado enquanto arquiteto e enquanto urbanista, dividindo-se entre a prática projetual e a consultoria junto de vários municípios. Refira-se, por exemplo, que o último dos projetos registados no seu acervo, em 2003, é o do reordenamento dos espaços exteriores envolventes do Hospital Distrital de Barcelos, cidade onde existem várias obras e planos de sua autoria, entre as quais o Plano de Pormenor de Salvaguarda e Reabilitação do Centro Histórico e o Plano das frentes fluviais.
BERNARDO FERRÃO (1913-1982)
UM ENGENHEIRO COM PAIXÃO PELA ARTE QUE TAMBÉM FAZ PARTE DA FUNDAÇÃO MARQUES DA SILVA
Bernardo Ferrão, engenheiro de formação e de profissão, manteve e alimentou ao longo da sua vida uma intensa paixão pelas artes decorativas, campo da história da arte onde deixou um importante contributo, fruto das suas investigações. A sua obra Imaginária Indo-Portuguesa Setecentista, ou o Mobiliário Português. Dos Primórdios ao Maneirismo continuam a ser referências nesta área, assim como os estudos desenvolvidos sobre a iconografia do Bom Pastor, entre outros. Em 2017, a documentação relativa a esta dimensão de historiador, notas e testemunhos do seu trabalho de pesquisa científica e museológica, foi doada aos Amigos do MNSR. Concluída a sua inventariação e tratamento técnico, com a ajuda da Fundação Marques da Silva, em 2022, foi digitalmente disponibilizada para consulta online.
Mas agora, um outro passo foi dado que permitirá dar a conhecer a formação primeira de Bernardo Ferrão com o acolhimento, na Fundação Marques da Silva, de um conjunto documental relativo à sua obra de engenharia. Gesto ainda mais relevante quando assim permite que a sua memória profissional seja consultável no mesmo espaço onde se encontra o acervo de Fernando Távora, de quem Bernardo era o irmão mais velho e com quem chegou a colaborar, por exemplo, na reabilitação da Casa da Rua da Senhora da Luz ou no bloco da Foz do Douro, e que aqui podemos ver, à esquerda, nesta fotografia tirada durante uma viagem que os dois irmãos fizeram pela Europa, em 1948, juntamente com o engenheiro Torcato Álvares Ribeiro, amigo de Bernardo.
Bernardo Ferrão iniciou os seus estudos no Colégio de Jesuítas de La Guardia, na Galiza, vindo depois para o Porto, para frequentar o curso de Engenharia Civil, que concluiu em 1938. Foi funcionário da Direção Hidráulica do Porto até 1948, ano em que abandona o serviço público para colaborar na empresa de construção civil A Edificadora, fundada por Bernardino Ribeiro da Silva que morre inesperadamente nesse mesmo ano. O filho, o médico Fernando Ribeiro da Silva, cumprindo a indicação deixada pelo pai, procura então o apoio de Bernardo Ferrão para assegurar a gestão da empresa que, em 1956, passará formalmente a ser uma sociedade formada entre ambos, sob a designação de Ribeiro da Silva, Lda. Será, aliás, Bernardo Ferrão a sugerir o nome de Fernando Távora para projetar o que virá a ser a Casa de Ofir, construída num terreno oferecido pelo Professor Alfredo da Rocha Pereira à sua filha Idalina, casada com Fernando Ribeiro da Silva. Refira-se que, entre muitos outros, Bernardo Ferrão foi o autor do projeto da estrada marginal do rio Douro, a montante da ponte Luís I, do muro de suporte da marginal do mesmo rio, a montante da ponte da Arrábida, e do Túnel urbano da Ribeira, assim como um dos precursores na utilização de pavimentos betuminosos no país. A documentação, agora parte do património da Fundação Marques da Silva, regista a sua autoria/colaboração, enquanto engenheiro, em várias dezenas de projetos, entre os quais a Piscina de Leça. O acervo, doado pela família Ribeiro da Silva, encontra-se em fase de tratamento e ficará, em breve, disponível para consulta. Bernardo Ferrão nasceu a 17 de abril de 1913, em Guimarães, no ancestral solar da família, a Casa do Costeado, atualmente propriedade da Câmara Municipal de Guimarães.
SERGIO FERNANDEZ (1937-2026) | 25.04
CONSTRUIR COM E PARA A COMUNIDADE, A ESCOLA PRÉ-PRIMÁRIA DE MOLEDO DO MINHO
A 22 de março passado, Sergio Fernandez veio à Fundação Marques da Silva, instituição à qual doou o seu acervo profissional, falar da Vill´Alcina, numa conversa moderada por Valdemar Cruz. E, mais uma vez, pelo interesse gerado e pela participação do público presente se tornou evidente como é consensual a consciência da importância desta pequena casa de férias, já um clássico da arquitetura portuguesa do século XX e um claro exemplo de como não é a escala a definir a qualidade de um projeto. Mas, ao longo da referida conversa, Sergio Fernandez foi partilhando alguns factos e peripécias que rodearam esse tempo do fazer do projeto e da construção da Casa. Pequenas histórias, mais íntimas e pessoais, que, omissas das grandes análises críticas, nos deixam entrever os bastidores do processo e nos revelam o seu lado mais humano e individualizador. Assim foi, quando contou um dos encontros que seriam determinantes para a qualidade construtiva da Casa, a contratação de Manuel Guardão, antigo construtor de iates que, perante a quebra das vendas destas embarcações de recreio, decidiu imprimir novo rumo ao negócio e, aproveitando o seu conhecimento e mestria no trabalho com a madeira, decidiu montar uma pequena empresa de construção. O contacto com Manuel Guardão não foi, contudo, resultado do acaso. Tinha sido ele a assegurar a construção da Casa Alves Costa, de Álvaro Siza, em Moledo, assim como virá a ser chamado a construir a Casa do Dr. Marques Guedes, que o próprio Alves Costa em colaboração com Camilo Cortesão, projeta por aqueles anos. Criou-se assim, a partir de então e ao longo do tempo, uma relação de confiança e de amizade entre Manuel Guardão, senhor de um saber passado de geração em geração, e estes arquitetos que procuraram nesta região o seu refúgio às pressões citadinas.
Anos mais tarde, em 1989, numa altura em que Manuel Guardão vem a assumir a presidência da Junta de Moledo, será a vez de este recorrer aos “seus” arquitetos. Tratava-se de dar corpo a uma vontade da comunidade, a construção de uma Escola Pré-Primária para um horizonte de 50 crianças. Seria, de novo, responder ao desafio de fazer o melhor possível, com a maior simplicidade e com poucos meios, já que a escola seria erguida a partir de donativos da comunidade local. Por essa altura, Sergio Fernandez e Alexandre Alves Costa tinham formado o Atelier 15, mas estavam sobretudo focados na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde não só exerciam funções pedagógicas como diretivas. Ainda assim, sentiram que não podiam recusar este projeto para um lugar que consideravam também seu e lá nasceu esta Escola, desenvolvida a partir de 3 corpos, dois para albergar as crianças e um para recreio coberto, articulando duas plataformas e uma escada larga, a pensar na possibilidade de esta funcionar como um pequeno anfiteatro ao ar livre.
Vale a pena citar o texto publicado no livro do Atelier 15: “Esta foi uma obra limite no duro confronto com o real ou na apaixonante busca de eficácia através do desenho [...] orçamento parco [...] desesperantes erros ou defeitos de construção foram dando origem à gratificante convicção de que o projeto se ia sustentando e, talvez misteriosamente, melhorando aos nossos olhos.” O que é um facto é que a Escola Pré-Primária de Moledo do Minho, inserida numa paisagem de exceção, ainda hoje se encontra ao serviço das famílias que vivem na região. Por ela têm passado várias gerações de crianças e também nela se grava a intervenção de outra geração de arquitetos, pois mais recentemente, a construção de um pequeno pavilhão anexo foi encomendada pelo mesmo Senhor Manuel Guardão ao casal Ana Alves Costa e Pedro Martins. Sim, a pequena escala tem a sua importância, tal como muitas vezes a pequena história ajuda a desvendar o sentido e existência do que é construído.
ANTÓNIO MENÉRES (N. 1930) | 26.04
O POSTO PARA OS PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES, A OBRA DE UM ENTÃO “JOVEM ARQUITETO CHEIO DE ILUSÕES”
“Obra de um jovem arquiteto de 30 anos, cheio de ilusões.” Foi assim que António Menéres se referiu ao projeto que em 1962 começou a elaborar para a então designada Corporação de Pilotos da Barra do Douro e Porto Artificial de Leixões, quando veio à Fundação Marques da Silva, em março passado, entregar 4 rolos com 36 desenhos pertencentes a este processo de obra, datados entre 1962 e 1965, para associar à documentação anteriormente doada. E foi entusiasmado que recordou algumas peripécias, já que, dada a sua paixão desde sempre pela fotografia, ele próprio foi fotografando a construção do edifício, chegando a subir à cabine do operador de uma grua para encontrar os melhores ângulos sobre o terreno e sobre a obra.
A remodelação e adaptação do Forte de Leça da Palmeira – vulgo Castelo de Matosinhos ou Forte de Nossa Senhora das Neves – para acolhimento da Capitania do Porto de Leixões, foi tomada em 1960, altura em que este exemplar de arquitetura militar seiscentista há muito perdera a sua função inicial, passando apenas a ser utilizado para funções administrativas (Alfândega e, posteriormente, Secretaria do Porto de Leixões). Em paralelo com a encomenda do novo edifício ao arquiteto António Menéres, foi pedido igualmente um projeto de arquitetura paisagista da envolvente a Ilídio de Araújo, que viria a ser posteriormente executado, e tomada a decisão de demolição da torre e de outras construções descaracterizadoras do conjunto.
Ao falar sobre o projeto, propriamente dito, António Menéres fez questão de sublinhar que, nessa época, a Comissão Administrativa da Corporação dos Pilotos, era presidida pelo piloto-mor José Fernandes Tato, figura de quem se tornou amigo e que muito o ajudaria na organização do programa. E como foi então pensada esta Capitania? Num edifício de 4 pisos, ao nível do r/chão, ficava o átrio de distribuição para a zona de serviço do pessoal menor, garagem com capacidade para 4 automóveis, elevador e escada de acesso ao piso superior e, no exterior a sul do corpo principal, um outro corpo destinado às instalações de apoio às reparações de motores, incluindo oficina com banca de trabalho e depósito de óleos, tintas e palamenta diversa, com acesso a partir do pequeno largo localizado a sul deste conjunto e confrontante com a pequena Capela de Santa Catarina. No 1º andar, situavam-se os gabinetes do Piloto-mor, do Sota Piloto-mor (na altura, um primo do arquiteto Viana de Lima), dos Cabos-Piloto, um quarto de cama para utilização do graduado em serviço, com instalações sanitárias anexas, vestiário, bem como secretaria, arquivo e sala de reuniões. Os 2.º e 3.º andares destinavam-se a quartos de duas camas e a uma zona social, com sala de jogos e de leitura, pequeno refeitório, e apoio de um pequeno bar. Sendo que o 3.º piso tinha sido criado, fundamentalmente, para permitir maior altura e consequentemente melhor visibilidade para o mar e para as áreas das docas do próprio porto de Leixões, assim como espaço para um segundo arquivo, o designado “arquivo morto”. Por fim, o 4.º piso era a zona de vigia, equipada com uma varanda aberta a poente e com o respetivo mastro de sinais.
Com a convivialidade que lhe é característica, António Menéres manifestou não só o orgulho sentido pela duradoura amizade desenvolvida com o Presidente, como também com o autor do projeto de betão armado, o Engenheiro Manuel Coimbra de Sousa. Quanto à qualidade da construção do edifício dos “Pilotos”, a prova é dada pelo tempo. Passados mais de sessenta anos, ainda se mantém em pleno funcionamento, estando agora sob a alçada da APDL, por decisão ministerial.
E se hoje, em dia de aniversário do seu autor, publicamos algumas das fotografias por si tiradas, também partilhamos uma aguarela deste edifício que António Menéres particularmente estima por ter sido oferecida por um seu antigo colaborador, arquiteto, Guilherme Lima de Sousa. Uma prenda chegada do Rio de Janeiro, como reconhecimento dos três anos em que frequentara, no Porto, o seu gabinete de arquitetura.
MAIO
JOSÉ FORJAZ (1936-2024) | 10.05
ENTRE O CÉU E A TERRA: O PANTEÃO PARA KATEMBE
“Pena é que se não perceba o que o herói tem de misterioso. Até para si próprio.” Esta enigmática frase sobre o Monumento aos Heróis de Moçambique, pensado em parceria por José Forjaz e António Quadros para celebrar “20 anos de heroísmo” e “uma causa em que se acredita”, pode ler-se num pequeno texto de apresentação da obra, publicado no catálogo da exposição antológica José Forjaz. Ideias e Projectos (Casa da Cerca, 2010).
O monumento, desenhado em forma de estrela, inaugurado em Maputo a 3 de fevereiro de 1977, demorou apenas um mês a ser construído. Tinha na sua base uma ideia simples e perseguia mais uma dimensão “universal do que simbólica.” Mas, num país tornado independente, marcado por um passado de luta e resistência, tornava-se urgente não só materializar uma forma de receber condignamente a memória dos seus heróis, como de afirmar a convergência de todos na construção e instituição de um património identitário. Trabalhou-se, assim, ininterruptamente para o erguer. Durante o dia, António Quadros acompanhava as obras e, durante a noite, era José Forjaz, no tempo que se seguia aos trabalhos de preparação das diretivas para o sector das obras públicas e habitação, planeamento territorial e política das aldeias comunais a apresentar no 3.º Congresso da FRELIMO. Apesar de não ver cumprida a vontade expressa dos seus autores de o cercar de um “ambiente de floresta”, o Monumento, que permanece isolado e dominante no centro da Praça dos Heróis, continua a responder a esse desígnio inicial e é aí que, ainda hoje, continuam a dirigir-se as altas entidades, nacionais ou estrangeiras, para prestar culto e homenagem a todos os que lutaram pela independência do país.
Só que este “Panteão”, este abrigo funerário dos heróis da pátria, respondeu aos apelos de um tempo convulso e de transição, não sendo por isso de estranhar que, anos mais tarde, mais de duas décadas depois, tenha sido pedida, pelo Presidente da Assembleia, a José Forjaz (António Quadros falecera entretanto em Lisboa, em 1993) a conceção de um novo e definitivo Panteão, agora a situar na margem sul de Maputo, em Katembe, e “por forma a ser visto da cidade, no seu horizonte longínquo.” Para este outro tempo, do país e do arquiteto, José Forjaz, não deixou de retomar o conceito de cripta modelada no terreno, a criar e coroar uma colina artificial. Decidiu, contudo, abandonar a configuração da primeira construção e adotar uma nova forma geométrica – o círculo, forma associada à perfeição, à eternidade e à plenitude. E também aquela que mais diretamente se inscreve num intuito primeiro e mais universalista destes espaços arquitetónicos. A circularidade do espaço interior, a envolver um espelho de água, para o qual se inclinariam as pedras tumulares, aberta para o céu por um gigantesco óculo que seria atravessado por uma cortina de luz, convoca imagens ressonantes que nos conduzem até Roma, mas também o que resulta de uma síntese de outras rememorações: do Japão ao Egipto e até da América Latina, referências que o próprio arquiteto fez questão de revelar.
Com a sua laje flutuante tratada como uma cobertura vegetal, o monumento, forjado pela força dos elementos, seria mais do que um tributo às figuras históricas da nação que ali passariam a descansar. Poderia sim, constituir-se um hino à maturidade e capacidade de realização de um país, e, sobretudo, à vida, num sentido inclusivo, maior do que aquele que lhe advém de uma visão particularizada da escala e da condição humana. Há um gesto quase paradoxal em que a cripta se agarra à terra para poder “flutuar” e ascender (e como não imaginar o efeito acústico produzido pelo vento que fizesse ressoar o elemento vertical que o situa e o liberta!). Sente-se nesta proposta um desejo de transcendência e talvez aí resida o insondável, essa condição de mistério que José Forjaz perseguia e que acreditava poder permanecer, até para aqueles a quem se destinava, por desvendar. Na documentação guardada em arquivo na Fundação Marques da Silva, onde está o acervo deste arquiteto, estão ausentes as razões que impediram que este projeto, onde se respira pacificação, serenidade, e onde há poesia, se viesse a materializar. Sobrevive a ideia e a representação do que poderia ter sido.
JUNHO
LUIZ ALÇADA BAPTISTA (1924-2008) | 09.06
A CASA NA SOALHEIRA: O ENTENDIMENTO POR VEZES DIFÍCIL ENTRE ARQUITECTO E CLIENTE OU A DISTÂNCIA QUE PODE EXISTIR ENTRE O PROGRAMA DESEJADO E A REALIDADE
A 31 de dezembro de 1955, Luiz Alçada Baptista defendia na ESBAP o seu CODA: uma habitação na Serra da Estrela. Um exercício projetual antecipador das modelares Casas da Serra, que se inicia com uma elucidativa citação de Richard Neutra, “não são os progressos técnicos, mas o próprio homem, a medida de todas as coisas.” Uma epígrafe, portanto, a sublinhar essa vontade de contribuir para uma arquitetura mais integrada no meio ambiente, capaz de servir e refletir a escala dos homens.
Este arquiteto de 31 anos, nascido na Covilhã, encontrava-se por esta altura ainda profissionalmente ligado ao Porto, onde tinha em mãos o projeto para a Escola Clara de Resende, mas colaborava, desde o ano anterior, com a Comissão das Construções Hospitalares do Ministério das Obras Públicas. Um vínculo que manteria até 1971 e de onde resultaram, entre outros, os projetos para hospitais do Gavião, da Mealhada, ou da Cruz Vermelha, em Lisboa. A colaboração terminará, muito provavelmente devido ao crescente volume de trabalhos que o GPA, Gabinete de Planeamento e Arquitectura que fundara com Maurício de Vasconcellos em 1968, começara a angariar. No seu percurso sobressaem obras transformadoras e de grande impacto no território, caso dos aeroportos e dos grandes equipamentos hospitalares, fabris ou escolares, mas, como diria Ruy Belo “oh as casas, as casas, as casas...”.
E lá as encontramos quando percorremos os registos que compõem o acervo deste arquiteto, doado à Fundação Marques da Silva. É o caso da Casa na Soalheira (a situar no sopé sul da Serra da Gardunha), projetada entre 1956/57, em resposta a uma encomenda do engenheiro Maurício Vieira de Brito e da sua mulher Rita Rolão Preto. Refira-se que Vieira de Brito, natural de Angola, a viver na Rua Augusta, em Lisboa (viria a assumir a Presidência do Sport Lisboa e Benfica em 1957), desejava por então construir uma habitação na Beira, mais propriamente na terra de onde provinham as suas raízes familiares e na qual acabará por ficar conhecido como figura benemérita. Mas, quanto ao projeto, o que se pode aferir da consulta das memórias descritivas de 1956 e de 57, assinadas por Luiz Alçada Baptista, já definitivamente sedeado na capital, é que estas denotam uma clara concordância com os princípios metodológicos expressos no seu CODA: “projectar uma construção sóbria, honesta, concordante com o meio ambiente, produto das novas correntes estéticas e modernas técnicas da arte de construir.” A restante documentação, porém, acaba por revelar a ocorrência de inesperados percalços que vão conduzir ao abandono da primeira proposta de arquitetura, ainda que desenhada, ao que tudo indica, em consonância com o programa idealizado por quem a iria habitar. A onerosidade da sua construção, porém, vai obrigar Luiz Alçada Baptista a ter de defender o seu trabalho e os princípios éticos que o regulam. Um confronto entre cliente e arquiteto, e que este encara com determinação. Perante a ausência do capital necessário aos trabalhos de construção e face aos desentendimentos sobre a natureza do que estava em curso demonstrada pelo casal encomendador, revê o projeto, salvaguarda a sua equipa técnica e disponibiliza-se a prescindir de honorários, desde que lhe seja concedida a possibilidade de fiscalizar a construção da casa: “o meu Amigo compreenderá que eu pretendo que ela fique a meu gosto e que eu tome inteira responsabilidade dela.”
Os três dossiers arquivados sobre a Casa na Soalheira não incluem qualquer nota que comprove que esta chegou a ser erguida, mas são claros quanto à dificuldade que tantas vezes se interpõe entre um programa sonhado e o que a realidade impõe como possível.
BERNARDO JOSÉ FERRÃO (1945-2004) |
UM ARQUITETO APRESENTA-SE
O acervo do arquiteto Bernardo José Ferrão, um dos mais recentes a dar entrada na Fundação Marques da Silva, é composto por 13324 peças desenhadas, 1964 registos fotográficos e 14 metros lineares de peças escritas. Documentação que, tornando-se ponto de partida para futuras investigações, vai seguramente proporcionar um outro conhecimento sobre a obra e sobre o seu autor, sobre a dimensão do seu contributo, inserido num quadro mais alargado de relações, para a prática disciplinar da arquitetura. Nada como começar pelo princípio e por reunir informação sobre este arquiteto cuja singularidade, longe de se atenuar, se reforça e acrescenta neste território em expansão que é o da Fundação Marques da Silva.
Para quem, por curiosidade, percorre as avenidas digitais à procura de dados sobre Bernardo José Ferrão, rapidamente poderá ficar a saber que nasceu no Porto e se formou em Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes desta cidade (1962-1972), onde veio a ser professor. E também que começou a trabalhar, ainda estudante e assim que concluído o curso, com Fernando Távora, tendo mesmo, em entrevista concedida a Nuno Lacerda Lopes, admitido que este arquiteto, de quem era sobrinho e que tinha igualmente sido seu professor, fora a sua primeira grande referência. Havia, contudo, um caminho em formação e em busca de uma identidade. Sobrevieram a este estágio as suas próprias inquietações e a procura de outras colaborações, fontes e modelos, passando a exercer individualmente a atividade profissional de arquiteto em 1987. Continuando a pesquisar, ficamos a saber que projetou de tudo um pouco, tendo obtido múltiplos prémios e menções honrosas em concursos de arquitetura, com vários projetos publicados em revistas da especialidade, nacionais e internacionais. Cite-se Nuno Portas, em “Bernardo Ferrão em Esposende”, um texto datado de 2008 (quatro anos após a morte de Bernardo Ferrão) recentemente entregue na Fundação, onde Portas lhe reconhece o mérito e a excelência no trabalho desenvolvido para aquela cidade, situada junto à foz do rio Cávado: “um dos exemplos mais interessantes e conseguidos de conjugação de instrumentos de planeamento e projecto – de visão de conjunto e de desenho urbano – habilmente conduzidos em sobreposição e não em sequência, num período de meia dúzia de anos (79 a 85).” Na consulta sobre este arquiteto, o seu nome surge ainda, e de forma quase imediata, associada a notícias sobre uma outra sua dimensão, a de autor. Publicou, entre vários escritos, a dissertação elaborada em 1985 para o concurso de habilitação a Professor Agregado da ESBAP, um ensaio exemplar e que no seu apenas aparente historicismo, tinha como objetivo maior “contribuir para a necessária refundamentação da actual prática disciplinar”: Projeto e Transformação Ubana no Porto no Tempo dos Almadas – 1758-1813: um contributo para o estudo da cidade pombalina (Edições da FAUP, Porto, 1989).
Arquiteto – Professor – Autor. Mas o que nos diz sobre si, o próprio Bernardo José Ferrão? É que entre os documentos doados, lá podemos encontrar um Curriculum Vitae, datado de 1993, expressamente composto para integrar o processo concursal ao lugar de Professor Associado da FAUP. Trata-se, claro, da resposta a uma formalidade ditada pelo concurso, circunstância que não o secundariza necessariamente. Vejamos. Ainda que revele o que decorre de uma abordagem que se pretende rigorosa e objetiva sobre um percurso de vida, o alinhamento e organização dos dados que o enformam, a sua hierarquização e destaque, exprimem sempre uma escolha pessoal, sem intermediários. O que podemos então acrescentar ao que foi sendo aqui referido, com a leitura das linhas – e das entrelinhas – deste CV que, diga-se, ajudou Bernardo José Ferrão a alcançar o objetivo pretendido?
Desde logo, ao identificar-se, este arquiteto, na altura com 48 anos, deixa transparecer a importância das raízes, seja pela linhagem familiar em que se insere (Bernardo José foi o filho mais velho do engenheiro civil Bernardo Ferrão, irmão mais velho de Fernando Távora, e de Isabel Maria Peixoto de Villas-Boas de Q. Montenegro), seja pelas que se encontrava a construir, fruto do seu casamento com Maria do Rosário de Mello Ulrich Ferreira, mãe dos seus cinco filhos. Segue-se a apresentação do percurso formativo. Aqui, sublinhe-se o facto de ter sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1963 e 69; a pormenorização com que descreve a sua passagem pelo serviço militar, onde, enquanto Tenente Miliciano de Engenharia chega a integrar a Comissão Administrativa Militar, com funções nos pelouros de Urbanização, Obras e Habitação, na Câmara Municipal do Porto (1975); bem como o espaço que atribui à descrição do guião subjacente a visitas de estudo ao estrangeiro (Paris, Dinamarca, Suécia e Finlândia). E percebe-se. Estes foram os seus primeiros contactos in loco com a arquitetura de Le Corbusier, Jacobsen, Utzon, Jorgen Bo, Asplund, Sven Markelius ou Alvar Aalto.
Mas o foco, neste documento, recai naturalmente sobre a sua atividade, concluída a sua formação, estruturada em 4 grandes núcleos: prática docente; prática profissional; divulgação arquitetónica; investigação e desenvolvimento. E se este não é o contexto para aprofundar tudo o que aí se encontra enunciado, talvez se possam destacar algumas ideias gerais. Em primeiro lugar, o envolvimento com a Escola e a entrega à função docente, plasmada nas múltiplas funções que foi exercendo desde 1975, ano em que é convidado a lecionar no Curso de Arquitectura da ESBAP. Aí se constata a participação em vários corpos consultivos, em Júris de graduação e pós-graduação, e a longa lista de atividades exercidas, desde orientação e supervisão pedagógica, a atividades consideradas de desenvolvimento curricular. E tudo isto, em paralelo com uma intensa prática profissional enquanto arquiteto. Nesta secção, desde as colaborações em projetos do atelier do Arquiteto Fernando Távora, em 1965, aos anos de sociedade com Fernando Távora, Alfredo Matos Ferreira, Francisco Barata e Jorge Barros (1975-78), à sociedade exclusiva com Francisco Barata (1978-87) e desde o início do trabalho autoral individual desenvolvido em 1987 até à época do documento, em 1993, contam-se 86 projetos de arquitetura e planeamento, aos quais acresce um conjunto de trabalhos de consultadoria. Já no que se refere à informação contida nos dois últimos núcleos, divulgação arquitetónica e investigação e desenvolvimento, torna-se percetível o alargado horizonte de interesses que o move e o leva a participar em encontros, conferências, orientar visitas, organizar exposições de Arquitetura e Desenho, e a escrever, sobre Arquitetura e alguns dos seus atores, sobre a Cidade, sobre Reabilitação Urbana e sobre Património.
O acervo de Bernardo José Ferrão aí está, pronto a ser estudado, em si mesmo e pela rede de relações que desencadeia e nele ressoam, muitas delas hoje parte integrante dos acervos presentes na Fundação Marques da Silva. E para finalizar este destaque, a publicar em dia de aniversário, uma nota final sobre a imagem que abre o seu Curriculum de 1993, não uma fotografia do próprio, mas um desenho que revela o modo como mãos amigas e cúmplices o viam, as de Álvaro Siza.
JOÃO QUEIROZ (1892-1982) | 23.06
O PROJETO PARA O DR. JAIME DOS SANTOS RODRIGUES
A encomenda para a construção de um edifício de habitação e serviços no ângulo formado pela Rua Nossa Senhora de Fátima e a Praça Mouzinho de Albuquerque, vulgo, Rotunda da Boavista, é recebida por João Marcelino Queiroz durante a década de 1950. Fora-lhe entregue pelo Dr. Jaime dos Santos Rodrigues, proprietário do terreno, numa altura em que este arquiteto/militar, diplomado em 1926 pela EBAP, contava com 30 anos de experiência profissional e num momento em que o sector ocidental da cidade, em particular a Rotunda da Boavista e as suas áreas periféricas, apresentava uma grande dinâmica construtiva. Com novas necessidades de habitação, o período que se situa entre fim da Segunda Guerra e o início dos anos sessenta, será, aliás, aquele em que a cidade começa a acolher, nas palavras de José Fernando Gonçalves, “propostas de renovação mais consistentemente modernas, no sentido tipológico, formal e urbano.”
Nos anos 50, a Praça Mouzinho de Albuquerque, ponto de confluência de 8 vias, com o eixo principal a ser estabelecido pela ligação entre a Praça da República e essa “boa vista” sobre o mar, era já um espaço urbano consolidado, cujo sucesso, como refere Domingos Tavares, atraía interesses e funções concordantes com uma cidade “mais elegante, mais europeia, mais rica, mais culta”. Contudo, só em 1952 viu ser inaugurado, na sua inteireza, o seu elemento mais icónico e estruturador: o Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, que José Marques da Silva, em conjunto com o escultor Alves de Sousa, projetara em 1909. A sua volumetria fora pensada para se adequar a essa dimensão e nova escala urbana, mas a concretização desse desígnio, arrastada no tempo por circunstâncias várias, caberia já ao casal de arquitetos Maria José e David Moreira da Silva que, por sua vez, estava a concluir a construção do projeto para o edifício Trabalho e Reforma (1949-1953), na Rua Nossa Senhora de Fátima, uma sua afluente, a mesma onde, passado muito pouco tempo, vai erguer-se o Parnaso (1954-58), de José Carlos Loureiro. E refira-se ainda, a título de exemplo desse sentido transformador, que o dia de inauguração do Monumento, 27 de maio, na presença do Presidente da República de então, Francisco Craveiro Lopes, será também o da inauguração do Mercado do Bom-Sucesso do Atelier ARS, os principais autores da moderna Igreja de Nossa Senhora de Fátima, também ela situada na Rua Nossa Senhora de Fátima, iniciada na década de 30 por José Emílio da Silva Moreira. Além disso, em 1956, sairia vencedor do concurso municipal para planeamento do remate da Rua Júlio Dinis, o projeto de Agostinho Ricca e Benjamim do Carmo, dando lugar à construção do, ainda hoje, marcante conjunto de habitação e comércio que se vai articular com o recém-construído Mercado.
Por aqueles anos, em 1951, o Grupo ODAM apresentara no Ateneu do Porto uma exposição que se constituiu um marco na afirmação da modernidade, enquanto que, no ano seguinte, seria a vez de a ESBAP promover uma grande exposição de homenagem a José Marques da Silva, onde se apresentavam igualmente obras de muitos dos seus discípulos. Não encontramos o nome de João Queiroz na lista dos participantes em nenhuma destas duas iniciativas, mas é claro, para quem percorre o acervo doado à Fundação Marques da Silva – com desenhos relativos a 84 projetos de arquitetura, uma biblioteca com mais de cem títulos e outra documentação diversa, entre fotografias e material publicitário – que este arquiteto, eclético e heterodoxo, que trabalhava isoladamente no seu atelier da Rua de Santa Catarina, desenhando ele próprio todas as peças do projeto, estava atento ao seu tempo. Atitude que também se reflete na matrícula que acabará por fazer na cadeira de Urbanologia, em 1945.
Regressemos, porém, ao edifício de gaveto, um dos projetos documentados no acervo de João Queiroz, que acompanha o ponto de confluência da Rua Nossa Senhora de Fátima com a Praça e onde se encontra instalado, ao nível do rés-do-chão, um posto dos CTT. Ainda que não existam, para além das peças desenhadas, elementos que nos permitam identificar o contexto da encomenda ou as condições eventualmente apontadas pelo cliente, ao que tudo indica, um médico, este projeto adquire uma importância suplementar, não só por testemunhar a segurança técnica do seu autor, mas por indiciar o tanto que ainda há para descobrir sobre o que foi o trabalho desenvolvido por este arquiteto e sobre o seu contributo para o processo de transformação urbana da cidade ao longo do século XX. A modelação que imprime a esta obra, entre a tradição e a inovação, acompanha a morfologia do terreno e responde a um desejo de qualificação arquitetónica, numa perspetiva que simultaneamente considera a presença urbana e a função a cumprir. Nele podemos encontrar a procura de um compromisso entre função e estética, sendo claro o diálogo com o espaço envolvente e o recurso a materiais de qualidade, subtilmente conjugados de forma a criar composições que atribuem uma identidade própria ao conjunto e, sobretudo, como as fotografias deixam perceber, se oferecem discretamente aos seus moradores, desde 1959.
A Praça foi atravessando sucessivas fases de mudança, impressas na grande variedade formal que nela se encontra. Afirmando-se como centro financeiro e comercial, acolheu, nos anos 70, o Shopping Brasília, financiado por Narciso Ferreira, com projeto de Márcio de Freitas. Será a origem da sua fortuna, obtida no Brasil a inspirar o nome deste equipamento, o primeiro no norte do país com escadas rolantes e que, à época, veio introduzir uma nova forma de comércio na cidade. Já no início de novo século, será mais um feito arquitetónico a marcar um novo movimento revitalizador da Rotunda, a Casa da Música, de Rem Koolhaas, a reforçar a articulação com a Avenida da Boavista e com outros equipamentos culturais como é o caso da Fundação de Serralves, onde se cruzam Marques da Silva e Álvaro Siza.
João Marcelino Queiroz projetou, maioritariamente no Porto, obras que se vão estendendo por toda a geografia da cidade, desde o Cineteatro Olímpia, o Jardim de Inverno do Café Majestic, lojas comerciais em Santa Catarina, o Cinema Trindade à Casa dos Arcos na Rua António Aroso, intervenções em edifícios públicos e privados. Agora, quando passar pela Rotunda da Boavista, poderá reconhecer mais um dos seus projetos.
ÁLVARO
SIZA (N. 1933) | 25.06
CELEBRAR A VIDA E A AMIZADE EM DIA DE ANIVERSÁRIO
Deste duelo, entre o que poderia ser um personagem saído d´ Os Sete Magníficos e o protagonista do filme, Tarzan, o Magnífico, dois “magníficos” êxitos da 7.ª arte de 1960, reza a história que não se registaram vítimas. Mas o bem-humorado momento em que Fernando Távora e Álvaro Siza assumem a identidade das figuras pintadas no painel ficou para a posteridade. Estes cenários temáticos, transportados por fotógrafos de rua, juntamente com a respetiva máquina de tripé e um eficaz processo de revelação quase instantânea, que consistia na utilização de dois baldes com o líquido próprio, um para a revelação, e o outro para a fixação da imagem, costumavam ser presença constante e muito procurada no Senhor de Matosinhos ou nas Fontainhas, no Porto, durante as festas Sanjoaninas. Nem Távora nem Siza lhes resistiram, nesse 24 de junho de 1961. Um tinha ainda 37 anos, o outro estava bem perto de celebrar os 28. Por essa altura, Távora já tinha viajado até aos EUA e ao Japão, Siza, antigo discípulo e colaborador, ainda que tivesse de aguardar por 1965 para obter o Diploma de Arquiteto, conquistara a autoria do projeto para o Salão de Chá da Boa Nova. A cumplicidade e reconhecimento mútuo que a fotografia documenta será tão só reforçada com o passar dos anos. Como o próprio Siza escreve, no texto que abre o Diário de “bordo” publicado em 2012, havia em Távora um “prazer de viver” e o “culto da relação entre o eu e o outro”, que ele, afinal, partilhava. Em dia de aniversário, é com esta divertida memória, uma celebração da vida e da amizade, que a Fundação Marques da Silva dá os parabéns ao Arquiteto Álvaro Siza.
JULHO
ANTÓNIO CARDOSO (1932-2021) | 21.07
UMA VONTADE DE ENSINAR
O mundo de – e para – António Cardoso era um lugar de permanente descoberta e inspiração. Perante os muitos interesses que o moviam nunca deixou de ceder a uma imperiosa vontade de os explorar o mais intensa e plenamente possível, procurando conhecer, reconhecer, sentir, experimentar tudo o que estava ao seu alcance. Mas transversal a todos esses domínios, onde invariavelmente se distinguiu, foi também o entusiasmo pela partilha. O seu olhar procurava sempre o olhar do outro, fosse para trocar impressões, dialogar, comunicar ou ensinar no mais puro e generoso sentido do termo. Fê-lo ao longo de toda a sua vida profissional: primeiro, na década de 1950, como professor dos mais pequenos; depois, talvez sensibilizado por essa sua condição de amarantino e por acreditar na necessidade de um ensino que a todos chegasse, já nos anos da Revolução, assumiu as funções de realizador da Televisão Educativa e da Telescola/ITE; o apelo para a passagem para o ensino superior surgiu igualmente por esta altura, quando recebe o convite dirigido por indicação de Flávio Gonçalves para lecionar no Curso de Pintura, Escultura e Arte Gráfica na FBAUP; na década seguinte, deu-se a inevitável mudança para os quadros da Faculdade de Letras da UP, como professor do Curso de História, Variante de Arte, onde permaneceu até à sua jubilação em 2002.
Mas, como se pode intuir, para quem era detentor de uma extrovertida personalidade, esta dimensão, esta “vontade de ensinar”, não se esgotou no cumprimento estrito das funções de um professor de carreira. Era-lhe intrínseca uma disponibilidade e capacidade para contagiar os outros ao falar sobre o que o fascinava, misturando uma grande erudição com um peculiar sentido de humor e uma aptidão inata para “contar” histórias. E por isso foi sendo procurado para lecionar cursos livres, dar conferências, guiar visitas. Nem sol nem chuva o intimidavam, pois mesmo em condições adversas mostrava-se sempre capaz de seduzir quem o ouvia e acompanhava (a fotografia anexa é de uma visita guiada ao Museu Municipal Amadeo de Souza Cardoso, do qual foi Diretor, programada em novembro de 2014 no contexto do projeto Alcino Soutinho: Realismo Confortável). Foi pintor, investigador, museólogo, crítico de arte, colecionador e um especialista em património cultural, sobretudo em temáticas ligadas à Arte, à Arquitetura e a Amarante. E foi sempre um pedagogo, amável e atento, um educador que encarava a memória como forma de compreender as pessoas e os acontecimentos, como um “recurso contra a morte e a rasura”. Não é assim difícil de compreender a razão pela qual várias gerações de alunos se reuniram, ainda em 2014, para o homenagear, no MNSR, com a exposição
António Cardoso: Em paralelo – Arte, Memórias, Referências e Contextos. Como muitos foram os que voltaram a estar presentes na homenagem póstuma, em 2022, que esta Fundação lhe organizou em Isto não é só um quadro: António Cardoso para além da evidência.
António Cardoso foi, nas palavras de Leonor Soares, um “encadeador de tempos”.
AGOSTO
OCTÁVIO LIXA FILGUEIRAS (1922-1996) | 16.08
UM ARQUITETO EM TRÁS-OS-MONTES, ENTRE A EXPERIÊNCIA DO INQUÉRITO E A EXPERIÊNCIA DO CINEMA
Os arquivos são lugares onde o espanto acontece. O de Octávio Lixa Filgueiras não é exceção. E vem isto a propósito de no acervo deste arquiteto existir um exemplar da revista Guérin, título bem conhecido de quem é aficionado do mundo automobilístico e muito popular em Portugal até 1973, mas surpreendente se associado a Lixa Filgueiras que, como é sabido, tinha um particular fascínio por outros veículos, tendo-se tornado mesmo um especialista, reconhecido a nível internacional, nos domínios da etnologia e arqueologia naval. Ora nada como questionar essa imprevisibilidade e procurar a razão pela qual teria sido cuidadosamente guardado este fascículo de 1969. Basta, afinal, folheá-lo, pois no seu interior encontra-se um artigo de António Reis, “Trás-os-Montes”, onde consta a seguinte dedicatória: “Para o Fil – com todo o afecto e a profunda admiração do A. Reis. Lx. 2/11/72”. Percebe-se assim que ali se firma, não só a amizade que unia estes dois homens, como a partilha de um interesse comum pela paisagem transmontana. Não se trata, contudo, de um testemunho isolado e adquire até um significado maior por ajudar a preencher a linha do tempo que conduzirá, anos mais tarde, ao convite lançado a Octávio Lixa Filgueiras para colaborar em duas produções cinematográficas da autoria da dupla que este cineasta forma com Margarida Cordeiro: Trás-os-Montes (1976) e Ana (1982). Note-se que o discurso poético e filosófico molda tanto o artigo, como a abordagem fílmica de António Reis e Margarida Cordeiro, tom que estará em sintonia com a sensibilidade de Lixa Filgueiras, ele próprio autor de um livro de poesia, publicado no final da década de 1940 (Requiem às Glórias do Mundo e Outros Poemas). Só que a centralidade desta questão reside mesmo no tema, nesse apelo comum por Trás-os-Montes. Curiosamente, nem Octávio Lixa Filgueiras nem António Reis tinham sequer origens transmontanas. Serão então as circunstâncias dos seus percursos de vida e a rede de relações, na qual se cruzam e que ambos passam a frequentar, a deixar entender esta aproximação a esse território distante, a longevidade desta amizade e as parcerias que se iriam seguir. No caso de Lixa Filgueiras, é recuando aos anos do Inquérito à Arquitectura Popular que podemos formular uma primeira hipótese de resposta.
Se nada pode ser encontrado no acervo doado à Fundação Marques da Silva sobre a forma e o contexto em que decorre a participação de Octávio Lixa Filgueiras nos dois filmes mencionados, o mesmo não acontece no que ao Inquérito se refere, pois coube a Octávio Lixa Filgueiras coordenar a chamada Zona II, com Arnaldo Araújo e Carlos Carvalho Dias, como estagiários, a mapear o terreno. E é este último que nos diz, no seu livro de “memórias”, para além do que se depreende da consulta da documentação arquivada, que Lixa Filgueiras “conhecia razoavelmente Trás-os Montes, mercê da sua atividade profissional na Direcção dos Edifícios do Norte, e o Arnaldo tinha algumas raízes familiares naquela fértil zona do Vale da Vilariça.” Confidencia também que os três se conheciam bem, se identificavam em muitos aspectos e “eram reais amigos”. Refira-se ainda que os três irão integrar a equipa que prepara a representação portuguesa no CIAM X, em Dubrovnik, em 1956, já que o trabalho apresentado assenta no estudo desenvolvido na Zona II (Trás-os-Montes e Alto Douro), mais concretamente na área de intervenção hoje integrada no Parque Natural de Montezinho.
Os acervos de Octávio Lixa Filgueiras e de Carlos Carvalho Dias confirmam que é nos anos 50 que o interesse por Trás-os-Montes começa a ser alimentado e deixam pistas para o facto de este se ter perpetuado no tempo. Datada de 1961, encontramos uma fotografia que, mais uma vez e a um primeiro olhar, parece estar deslocada face à restante documentação que a acompanha, por entre registos do Inquérito e cartas enviadas pelos estagiários ao “chefe”. Sabemos agora que terá, muito provavelmente, a autoria do próprio Lixa Filgueiras e que nela estão fotografados António Menéres (que se teria juntado ao grupo por se encontrar nas redondezas, quiçá, na Quinta do Romeu, propriedade da família), Arnaldo Araújo e, a filmar, ao centro António Quadros. Estas andanças por Trás-os-Montes eram, nas palavras de António Menéres, uma realidade, sendo Arnaldo Araújo o guia escolhido para mostrar a Lúcio Costa a região, no decurso de uma das suas vindas a Portugal.
E quanto a António Reis? Natural de Vila Nova de Gaia, tem como um dos seus primeiros trabalhos a colaboração como assistente de realização em Acto de Primavera, de Manoel de Oliveira, filme rodado numa aldeia transmontana, em 1963. O facto de Margarida Cordeiro ser natural de Brunhozinho (Mogadouro) terá também contribuído para esse deslumbramento por Trás-os-Montes, mas de onde vem o cruzamento entre cinema e arquitetura? Francisco Gomes e Raquel Alves vão responder a essa pergunta no artigo “Arquitetura popular, lugares e paisagens no universo cinematográfico de António Reis e Margarida Cordeiro”, pois aí nos apresentam o contexto e as circunstâncias que levam todo um conjunto de investigadores, arquitetos e cineastas a procurar Trás-os-Montes como território de conhecimento e criação multidisciplinar, assim como o sentido da colaboração e complementaridade de interesses que vai ter lugar entre os membros deste círculo de amigos, formatado pelas tertúlias em cafés portuenses e pelo Cineclube: um “ambiente cultural, rico e diversificado, que não era restrito aos três cursos das Belas-Artes do Porto [...] de posicionamentos comuns políticos de crítica ao Estado Novo”. Foi neste meio que se encontraram Octávio Lixa Filgueiras e António Reis e é aqui que se encontra o sentido da participação deste arquiteto, professor na ESBAP, nos dois filmes da dupla de cineastas. Tal como o filho de António Ramalho Eanes, este arquiteto foi chamado a representar um personagem, enquanto “ajudava na seleção dos enquadramentos. Indicava aqueles que considerava mais importantes e estava constantemente a chamar-nos a atenção para os muros de pedra, e as formas arquitetónicas tradicionais da região”. No filme Ana coube-lhe mesmo interpretar o papel de um homem de cultura, professor, investigador, dimensões que em tudo expressavam a sua realidade, pois é desse tempo a descoberta de um construtor de jangadas de odres, em Miranda do Douro, cuja construção de uma réplica, posteriormente entregue ao Museu da Marinha, fez questão de acompanhar. E diga-se, ainda, a título de curiosidade, que nesse mesmo filme, dirigindo-se a Arnaldo Araújo, a interpretar igualmente um papel secundário, esclarece-o sobre um artigo científico que “a sua personagem” escrevera sobre as origens das embarcações.
Em jeito de conclusão, estes autores afirmam que, durante o Inquérito, “as posturas ética e antropológica da equipa constituída por Octávio Lixa Filgueiras, Arnaldo Araújo e Carlos Carvalho Dias – de onde ressalta sobretudo uma atitude de empatia humana, antítese de aproximação tecno-burocrática ao objeto de estudo – foram fatores decisivos para estimular o interesse cinematográfico pela região”; que as amizades que se estabeleceram, e onde deve ser mencionado o nome de Manuel Ferreira, formaram as bases para uma colaboração entre arquitetos e cineastas; e que estes “trabalharam em conjunto para dar a conhecer ao mundo uma visão poética da região de Trás-os-Montes e das suas gentes”, mas uma “visão erudita respeitosa das tradições locais e da autenticidade.”
Octávio Lixa Filgueiras, arquiteto de formação, tem o cinema inscrito nos múltiplos domínios que retiveram o seu interesse. Nasceu no Porto, mas Trás-os-Montes nunca deixou de ser um dos seus lugares de eleição.
FERNANDO TÁVORA (1923-2005) |
FAZER DE CADA EDIFÍCIO UM CORPO VIVO
Um dos primeiros projetos de Fernando Távora, desenvolvido entre 1948 e 1949, ainda tirocinante de Arquitetura e no contexto da sua integração no Gabinete de Urbanização da Câmara Municipal do Porto, é o Plano de Urbanização da zona do Campo Alegre. Não chegou a realizar-se, mas nunca dele se arrependeu, mesmo reconhecendo-lhe “um certo ar esquemático e frio a que se acrescentava a inexperiência da matéria”. Procurava desde então que “a solução tivesse um grande sentido cívico, uma grande expressão de presença”. E quando mais tarde revisita as memórias descritivas de muitos dos seus projetos, para selecionar textos que fariam parte de vários projetos expositivos, fez questão de sempre incluir este Plano que tinha na sua base uma ideia de modernidade onde se fundia uma ideia de monumento, desenvolvida “como parte de um todo a que necessariamente tem de pertencer” e para “significar qualquer coisa que seja útil e viva, sentida...”.
No decurso da sua vida profissional, sobre e a partir da sua mesa de trabalho, que ao longo do tempo foi habitando diferentes espaços, Fernando Távora escreveu, desenhou, projetou, observou, redefiniu lugares e influenciou de forma inquestionável várias gerações de arquitetos. Muitos anos mais tarde, em 1993, afirmava com a maturidade de um percurso validado, que “a arquitectura é, primeiramente, um acto de inteligência. E requer, depois, uma clara consciência social.” Isto na certeza de que do edifício à cidade, para um espaço vazio ou sobre preexistências, se tratava sempre de arquitetura; e que o desenho e o tempo eram fatores estruturantes do processo de conceção. José Bernardo Távora, o filho com quem trabalhou e de quem se tornou sócio, refere, em “Um homem de paixões: 1923-2005-2023”, que é nos seus primeiros projetos que “define claramente as bases para o seu futuro, com a leveza e a diversidade na unidade dos vários espaços e volumes [...], o atrevimento da estrutura [...] o domínio claro de todas as proporções e escalas e a relação dos edifícios e espaços públicos com a envolvente e com a paisagem”. E apetece revisitar textos iniciais de Fernando Távora, como O Problema da Casa Portuguesa publicado em 1947, pouco antes de iniciar o Plano para a zona do Campo Alegre, onde com apenas 24 anos afirmava já que “em toda a boa Arquitectura existe uma lógica dominante, uma profunda razão em todas as suas partes, uma íntima e constante força que unifica e prende em si todas as formas, fazendo de cada edifício um corpo vivo, um organismo com alma e linguagem próprias.”
Passada a celebração do seu centenário, 20 anos após a sua morte, continua a ser pertinente regressar à lucidez de pensamento deste arquiteto, ao fundamento do muito que projetou, incluindo o que ficou por realizar. Este homem mediterrânico, do Sul, nascido no norte de Portugal e moldado pelo granito do Porto nunca perdeu a vontade de intervir, contrapondo-lhe sempre uma inesgotável procura de perceber e justificar as coisas, da pequena à grande escala, “de tal modo que o conhecer se tornou o ser”. Sem recusar um certo humor, sem recusar uma imanente humanidade, um sentido de pertença. O seu pensamento livre, a sua modernidade permanente, os muitos projetos de investigação que em torno de si continuam a multiplicar-se, mesmo além-fronteiras, testemunham a “intemporalidade temporal” de Fernando Távora e constituem prova de que, afinal, alcançou com alguns dos seus projetos um dos seus primeiros desígnios: fazer edifícios que são “um corpo vivo”.
IMAGEM
Plano de Urbanização da Zona do Campo Alegre, perspetiva do conjunto, sul, 1948. Fundação Marques da Silva, Arquivo Fernando Távora.
SETEMBRO
MARIA JOSÉ MARQUES DA SILVA (1914-1996) |
IMAGINAR UM PORTÃO QUE NÃO ESCONDE, MAS CONVIDA A ENTRAR
Comecemos por falar de portões, dessa peça definidora de um limiar e que, sendo um elemento de arquitetura com uma função muito específica, transporta sempre um código e uma simbologia que se impõem a quem por eles passa e mais atentamente os observa. Surgem-nos muitas vezes com pormenores decorativos associados ao gosto do tempo que os viu nascer ou a revelar a identidade de quem os mandou construir; podem ser opacos, mas também oferecer diferentes graus de visibilidade que ajudam a diluir a transição entre um “exterior” e um “interior”, por vezes, intencionalmente secundarizando uma função de proteção da intimidade em detrimento de uma generosa perspetiva partilhada entre a esfera pública e a privada, que tanto pode espicaçar a curiosidade sobre o que protegem a quem está do lado de fora, como também deixar que o olhar se cruze no sentido oposto, por parte de quem se encontra do lado de dentro; encontram-se acoplados a edifícios ou inseridos em muros ou no alinhamento de um gradeamento, mas são sempre peças que rematam, com maior ou menor apuro estético, uma propriedade, e nunca deixam de ser condicionadoras e/ou ordenadoras de um acesso, já que as suas portas apenas se abrem àqueles a quem, do seu interior, se permite que os atravessem, de acordo com critérios ou rituais ditados por quem os comanda; o lugar de implantação, a sua forma, dimensão, material de construção, ornamentos, forma de funcionamento e/ou abandono transportam consigo a memória das circunstâncias do projeto que os justifica e a história do tempo que vão atravessando.
Longe de serem elementos secundários de um projeto, alguns portões há que, no universo da Fundação, assumem um destaque particular, desde logo, os elegantes portões oitocentistas que ladeiam o Palacete Lopes Martins e cuja autoria do desenho se desconhece. Há muito deixaram de ser os guardiões contidos de uma casa de família para tranquilamente passarem a receber os visitantes das exposições que se apresentam na Fundação Marques da Silva. Continuam, porém, mesmo quando se encontram encerrados, a afirmar a sua presença altaneira, sem temer o confronto entre os jardins que defendem e o jardim da praça pública, conscientes de que quem passa, não deixa de espreitar para o que deixam entrever. E poderíamos, também, mencionar a Casa de Serralves, onde mais dois portões surgem como traços identitários do lugar: a rematar o parque, o grande portão da Avenida Marechal Gomes da Costa, desenhado por Marques da Silva; a demarcar a entrada principal para a casa pela rua de Serralves, o portão desenhado por Maria José Marques da Silva e David Moreira da Silva. Porém, aqueles que assumem a centralidade desta breve nota e explicam a razão de ser das imagens hoje publicadas situam-se exatamente em contraponto aos da Fundação Marques da Silva, no lado oposto da Praça Marquês de Pombal.
A Igreja da Nossa Senhora da Conceição, conhecida pelos portuenses simplesmente como a Igreja do Marquês, é uma obra posterior, tanto ao Palacete Lopes Martins, quanto à Casa-Atelier José Marques da Silva, tendo sido projetada a partir de 1937 pelo arquiteto e monge beneditino Dom Paul Bellot (1876-1944) e inaugurada em 1947. Não sem antes ter sido dada a Marques da Silva a possibilidade de se pronunciar sobre o projeto, ele próprio um distinto arquiteto habitante da Praça, na qualidade de membro da Comissão Municipal de Arte e de Arqueologia e da qual seria o relator. O foco, contudo, não está no pai, mas sim na filha, também ela arquiteta, Maria José Marques da Silva, casada e sócia de David Moreira da Silva. Será ela, como a documentação em arquivo regista, em dezembro de 1951, a assinar o termo de responsabilidade pela “segurança e direcção das obras de arranjo e vedação do Adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição”. No processo de projeto é referida a demolição da Capela de S. Joaquim, cuja memória se encontra inscrita nas empenas dos prédios a norte, mas, sobretudo, todas
as intervenções projetadas por este casal para o arranjo do “terreiro que separa o escadório da Igreja do alinhamento dos prédios que dão para a Praça do Marquês de Pombal”, aliás, acompanhadas por esta altura pelo projeto do Patronato dos Pobrezinhos, igualmente assinado por Maria José e David Moreira da Silva e que virá a ser construído nas traseiras da Igreja. Mas é aqui que regressamos à questão dos portões e ao simbolismo que lhes pode estar associado, pois é no contexto destes “arranjos” que serão desenhados os portões desta Igreja. Num espaço por definição aberto a todos, não é difícil compreender a opção dos arquitetos por uma estrutura visualmente leve, não obstante os materiais utilizados, do ferro forjado e os motivos litúrgicos a bronze. A sua presença equivale, afinal, a uma moldura que reforça e direciona o olhar para o espaço central, neste caso o espaço sagrado. Não tendo por missão encerrar ou triar o acesso, mas sim aproximar do olhar a igreja que se encontra a alguma distância da via pública, estes portões funcionam como um convite a que a ela se dirijam, a que dela se aproximem, num gradual afastamento da urbanidade que a cerca, da vida comum de todos os dias. Ainda assim, a sua passagem, pela dimensão e transparência que os caracteriza, quase ritualística pelo confronto entre a arquitetura do edifício e a realidade espiritual que através dela se apresenta aos crentes, não ignora, contudo, outras funcionalidades de carácter mais prático e mundano, já que os portões secundários organizam a circulação das viaturas que podem percorrer as duas faixas laterais de rodagem e aceder aos locais posteriores à Igreja, onde se prestam outros serviços de apoio à comunidade. Tudo indica que estas obras se tenham estendido até 1953.
As esculturas previstas para os nichos laterais não chegaram a concretizar-se, mas as obras seguiram o projeto. E refira-se, a título de curiosidade que, numa das peças desenhadas, datadas desse mesmo ano de 1953, se encontra o seguinte comentário manuscrito a lápis: “o arranjo deste adro deveu-se à generosidade dos benfeitores, D. Sílvia Ferreira e Delfim Ferreira”, importantes clientes que entre outras obras e para além do Palácio do Comércio, encomendaram a estes arquitetos o já referido portão da Casa de Serralves.
Maria José Marques da Silva nasceu a 7 de setembro de 1914, na Casa-Atelier projetada pelo seu pai, e viveu por várias décadas da sua vida também no contíguo Palacete Lopes Martins. Quantas vezes o seu olhar não se deteve nesta Igreja que viu nascer e que ajudou a dignificar, atravessando orgulhosamente os seus portões...
JOSÉ DA CRUZ LIMA (1910-1983) |
UMA CASA PARA A RUA TRISTÃO DA CUNHA
À imagem de Lisboa, que em 1948 atribui o nome de Tristão da Cunha à rua 7 do projeto de urbanização da Encosta da Ajuda e Belém, também no Porto vai surgir uma rua homónima, na freguesia de Lordelo do Ouro. Com a toponímia a fixar o nome deste cavaleiro do conselho d´El-Rei D. Manuel I, primo de Afonso de Albuquerque e comandante da frota que, em 1506, viria a descobrir e a dar o nome ao arquipélago mais remoto a sul do Oceano Atlântico, esta rua portuense vai ganhar significado urbano a partir de meados do século XX, sobretudo com as moradias de carácter modernista que aí começam a ser construídas, sendo as mais conhecidas a Casa Rocha Gonçalves, projetada por Viana de Lima, e a Casa Carrapatoso, da dupla Arménio Losa e Cassiano Barbosa. Mas muitos outros nomes aqui vieram a estar representados, como José Carlos Loureiro, Francisco Pereira da Costa ou José da Cruz Lima, o autor da Casa Libéria Barbosa, situada no gaveto com a rua D. Francisco de Almeida, também ela com o nome de um outro explorador e militar português, aquele que viria a assumir o cargo de primeiro Vice-Rei da Índia, exatamente por impossibilidade de Tristão da Cunha, na altura (1505) acometido de uma cegueira temporária.
Situado o local de implantação desta Casa projetada por José da Cruz Lima, acrescente-se agora que o seu processo é parte dos mais de cem projetos de sua autoria, documentados no arquivo da Fundação Marques da Silva. Nele se podem encontrar 77 desenhos – esquissos (44) e desenhos relativos ao projeto final, incluindo desenhos de pormenor (33) – e duas pastas com documentação escrita onde se guarda informação que permite validar a sua autoria, seja do projeto e da fiscalização, seja do projeto de saneamento, assim como definir as balizas cronológicas que se situam entre 1956, data de início, e 1960. A Casa, apesar de ter sofrido alterações significativas, ainda se encontra lá, a rematar a ligação entre as duas ruas, existindo mesmo uma fotografia de Teófilo Rego, pertencente ao espólio da Fundação Manuel Leão, que nos permite recuar no tempo e confrontar, à época, o projetado com o construído.
A Casa Libéria Barbosa não será a obra mais significativa deste arquiteto de origem angolana, que cedo acabaria por se fixar na cidade do Porto, onde veio a formar-se em Arquitetura, a estagiar com Januário Godinho e a obter o diploma em 1945. Projetou de tudo um pouco, desde habitação a equipamentos culturais e de serviço, no Porto, mas também noutras geografias a norte, em particular em Ovar. Contudo, este trabalho é bem exemplar do seu pragmatismo e da importância do desenho na forma como ia desenvolvendo as suas ideias projetuais, bem patente nos muitos esquissos que deixou e hoje se preservam nesta Fundação. A Casa, com garagem incluída, surge por encomenda do casal José e Libéria Barbosa, sócios da Organização de Fomento Cooperativo, SCARL, o que levará José da Cruz Lima a pedir a sua inscrição no “Registo de Técnicos Autores de Projectos” desta Organização, a 25 de junho de 1956. Porém, dois anos depois é Libéria Pinheiro Pêgo Barbosa, na condição de viúva, a assumir integralmente o papel de cliente. A confiança manteve-se e deve ter sido reconfortante para este arquiteto receber o cartão manuscrito que a viúva lhe envia “agradecendo todas as suas atenções e cuidados na obra que se concluiu com agrado para todos...”
FERNANDO LANHAS (1923-2012) | 16.09
DOIS PROJETOS PARA UM MESMO LUGAR, A RUA ANTÓNIO NOBRE
Em agosto de 1963, António Carlos Gaifen Pires apresenta um requerimento à CMP que tem por finalidade obter autorização para substituir a intenção de construir dois edifícios (já licenciados em 1962) na rua António Nobre por um só. E, logo em janeiro do ano seguinte, recebe um orçamento para construção das “águas do telhado e esteira de tijolo armado, de conformidade com o croquis apresentado pelo Ex.mo Senhor Arquitecto Fernando Lanhas”, assinado por José Moreira da Silva (pai de David Moreira da Silva), em representação da Cooperativa dos Pedreiros, que reencaminha para o arquiteto, acrescentando ainda no envelope: “urgente”. De facto, em arquivo, na Fundação Marques da Silva, encontramos desenhos para este mesmo cliente, ambos de autoria de Fernando Lanhas, com soluções muito distintas. E sucedem-se também os desenhos com especificações para o serralheiro, o pedreiro, notas sobre obras de trolha e estucador, os cálculos para betão armado …. assinados por Fernando Lanhas e/ou pelo engenheiro Manuel Dias Lopes, a comprovar da sua urgência e da sua construção.
O destino a dar aos dois lotes de terreno da Rua António Nobre, uma zona classificada pela CMP como “estritamente residencial”, foi tudo menos linear, encontrando-se elementos que permitem datar pedidos de construção que remontam à década de 50 e envolvem outros interlocutores, como o engenheiro civil Armando Paupério.
Mas o que de mais interessante nos revelam os desenhos arquivados nesta Fundação, são as várias ideias e sentidos que os percorrem, bem distintos quando se confronta o momento direcionado à construção de um edifício de habitação coletiva com a opção final, onde se estabiliza a singular moradia que ainda hoje é visível a partir da via pública. Existindo ainda registos, datados entre 1976 e 1977, a documentar a encomenda feita por Maria Augusta Pires e Maria de la Salete Gaifen Pires Ramos (familiares de António Gaifen Pires) a Fernando Lanhas, na qualidade de proprietárias e moradoras na rua António Nobre, para a construção de um muro de vedação.
A personalidade e a produção poliédrica de Fernando Lanhas alcançam um largo horizonte de interesses que tem vindo a captar múltiplos olhares, mas muito ainda há a descobrir sobre a sua arquitetura e sobre a versatilidade dos seus projetos. Como, por exemplo, esta moradia, onde apenas uma investigação mais profunda poderia explicar soluções tão diferenciadas para um mesmo lugar num curto espaço de tempo, a analisar não somente do ponto de vista das hesitações e desejos de um cliente, mas sobretudo a enquadrar a resposta do arquiteto. Os documentos aqui estão, a aguardar quem os continue a questionar.
NUNO PORTAS (1934-2025) | 23.09
A CASA DE VILA VIÇOSA
Vila Viçosa foi seguramente uma das constantes da vida de Nuno Portas. Aí nasceu, naquela que era a casa de família e onde viveu os seus “verdes anos”; aí sempre regressaria para, como diria David Mourão-Ferreira, “abrir uma janela e acender o cachimbo / para deixar no mundo uma herança de futuro”, e tantos foram os lugares que essa sua permanente vontade de mundo o levou a percorrer e a habitar; aí por fim repousa a memória do homem, num sereno voltar às origens.
Mas Vila Viçosa foi mais do que um lugar de pertença, foi também um espaço de descoberta do sentido do seu ser arquiteto, de entrega e de exercício da profissão. E enquanto território de estudo e de projeto, um há que sobressai pelo muito que em si representa: a Casa Dr. Francisco Barata dos Santos, projetada entre 1959-63, no atelier de Nuno Teotónio Pereira. Sobre ela dirá Nuno Portas, muitos anos depois, já em pleno século XXI (RTP, Entre Nós, 2005), que foi a prova de que a arquitectura podia ser profundamente moderna, mas adaptar-se quase mimeticamente a um ambiente histórico como era o de Vila Viçosa, um dos mais originais, na sua opinião. Era uma casa enraizada, pela integração no sítio, numa comunidade, dirigida a uma família específica, pois descobrir o ambiente daquela casa significara também antecipar o modo como pessoas, reais e concretas, nela iriam viver.
Na altura, no Atelier da Rua da Alegria, cada projeto constituía uma oportunidade de experimentação, a beneficiar do que se ia aprendendo no anterior para se transformar em novo campo de ensaio e análise. A Casa ou Moradia de Vila Viçosa, como ficou conhecida, beneficiária da experiência da Casa na Praia das Maçãs, será reflexo dessa atitude, dessa visão laboratorial, crítica e contextual da arquitetura. Afirmando a sua modernidade, esta casa-manifesto conquistou, logo em 1963, honras de capa na Revista Arquitectura e prontificou-se ao debate. É, desde 2017, monumento de interesse público.
Nuno Portas foi uma pessoa plural, um sábio pensador com uma invulgar capacidade para ler o seu tempo e antecipar futuros. Começou por querer ser pintor, deixou-se seduzir pelo cinema, decidiu ser arquiteto. Procurou as invariantes da arquitetura. Sobreveio a paixão pelas cidades que o conduziria ao planeamento, às políticas de habitação e de ordenamento urbano. Gostaria de ser conhecido como um “arruador” em clara ressonância com esse termo que, no séc. XVI, definia a arte de bem fazer ruas. São elas, afinal, os espaços que permanecem nesse tecido que conforma as cidades, os vazios por onde se circula, esse chão coletivo. Tinha 25 anos de idade quando começou a trabalhar, com Nuno Teotónio Pereira, no projeto para o Dr. Francisco Barata dos Santos; décadas mais tarde foi o primeiro a defender a elevação da sua bem-amada Vila Viçosa a Património Mundial. Entre as muitas distinções que recebeu ao longo da sua vida, conta-se, em 2012, a Medalha de Mérito Cultural atribuída por este Município. Porém, a sua curiosidade, o seu entusiasmo, traduziu-se num percurso e num legado por demais extenso para conhecer fronteiras.
LEGENDA DAS IMAGENS
Desenho de estudo para a casa e fotografia da casa em construção (D.R.); fotografia de Vila Viçosa, feita a partir do Castelo, com a casa em primeiro plano e, em fundo, o Palácio Ducal e Convento dos Agostinhos (obra maneirista do séc. XVIII), publicada na revista Arquitetura 79.
OUTUBRO
JOSÉ LUIZ PORTO (1883-1965)
DAS ARTES DECORATIVAS À ARQUITETURA
Ainda há pouco tempo, os visitantes da exposição Fragrância e Forma: Design e Cultura do Perfume puderam confrontar-se com a incontestável importância do design, a começar pelo desenho dos frascos, no mundo da perfumaria. Ora, o que poucos saberão é que também o arquiteto José Luiz Porto, no início do seu percurso profissional, explorou esta vertente artística, a par da ilustração, da publicidade e, até, do desenho de figurinos para o teatro e a dança. Surpreendente? Não tanto se considerarmos que a formação académica daquele que virá a ser o autor de projetos como o edifício Emporium, o Hotel D. João I ou a Casa para Manoel de Oliveira, no Porto; o Hotel da Beira, em Moçambique; a sede para a Casa do Douro, na Régua; ou, em Caminha, a Casa Ananias Torres; se faz no domínio das Artes Decorativas.
Quando, em 1907, aos 24 anos, depois de frequentar, em Lisboa, a Escola Industrial Marquês de Pombal, José Luiz Porto parte para a Suíça como bolseiro do Estado, tem como objetivo ingressar na École des Arts Industriels, em Genève. Completa o curso de Pintura Decorativa em 1913, contrai casamento com a também artista Juliette Matthey-de-L´Etang e apresenta-se como “artiste peintre”. Será provavelmente a Guerra, entre outras possíveis circunstâncias, a ditar a mudança para Paris e a sua transição profissional. Durante a década de 20, os anos do apogeu da Art Déco, vai permanecer na capital francesa. Vive na Rue Vaugirard e na Rue Sebastien Mercier. São desta época alguns dos trabalhos ligados à indústria do luxo e da moda que nos chegam, mas também os primeiros trabalhos de arquitetura, prova de que aqui estará a adquirir outras competências. Algo que se traduz na alteração da sua assinatura como “architect décorateur”. Por essa altura, casa-se em segundas núpcias com Berthe Augustine Métrairie, que o acompanhará na decisão de regressar a Portugal, em 1933. Sobrevivendo-lhe, será ela a tomar a decisão de entregar o seu acervo a um dos seus alunos, o arquiteto Abílio Mourão que, por sua vez, o doará à Fundação Marques da Silva. A documentação em arquivo dá nota da sua primeira fase artística, mas é sobretudo o testemunho dessa vocação de descoberta mais tardia e da opção por um novo rumo, no seu país e na arquitetura, uma decisão determinada com a conquista do primeiro prémio no Concurso para o Estádio Distrital do Porto, projeto que desenvolve ao serviço dos Engenheiros Reunidos, dos primeiros a firmar o primado definitivo da Arquitetura na sua vida, mesmo que não tenha chegado a concretizar-se em obra.
José Luiz Porto nasceu a 10 de outubro de 1883 em Vilar de Mouros, terra que, em particular sob a ação de Paulo Bento, tem igualmente contribuído para a preservação da sua memória e da sua obra.
FILIPE OLIVEIRA DIAS (1963-2014) |
UM TEATRO PARA VILA REAL
Primeiro foi o concurso – público e internacional para a conceção do Teatro Municipal de Vila Real. Depois, em março de 2000, veio o anúncio do vencedor, atribuído ao projeto proposto pelo arquiteto Filipe Oliveira Dias. No que toca a teatros, havia já a experiência adquirida por este arquiteto com o projeto do Teatro Helena Sá e Costa (1996-1999), em pleno funcionamento, mas também com o projeto para o Teatro Marti, em Havana (1999), que não viria a ser construído, e o projeto para a requalificação da arquitetura e os sistemas de palco, no contexto da reabilitação do Cine-Teatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo (integrado na proposta vencedora do 1.º prémio do URBATELIER, em 1999).
No anúncio de um novo século, contudo, o Teatro para Vila Real não se apresentava como uma obra isolada, pois Filipe Oliveira Dias acabaria por sair igualmente vencedor do concurso para a conceção e construção do Teatro Municipal de Bragança, um e outro enquadrados no plano de criação de uma rede nacional de teatros e cineteatros que, desde 1997, o então ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho começara a lançar com a perspetiva de aumentar a oferta cultural em todo o país, dotando, neste caso concreto, o território transmontano com os equipamentos necessários à sua integração nos circuitos de itinerância das grandes produções nacionais e internacionais.
O Teatro de Vila Real construiu-se entre 2000 e 2004. Tirando partido das condições naturais do lugar onde se encontra localizado estabelece a ligação entre a cota alta (Alameda de Grasse) e a cota baixa (Parque do Corgo) da cidade. Com os seus dois volumes diferenciados, mas harmoniosamente articulados através de um acesso comum, responde a um programa que abrange um Grande Auditório (com capacidade para 500 lugares), um Pequeno Auditório (145 lugares), um Auditório Exterior (700 lugares), um Café-Concerto (com esplanada), uma Sala de Exposições, uma Galeria-Bar e, para além das áreas técnicas, duas salas de ensaios. Neste mesmo edifício, onde se destaca a fluidez dos seus planos curvos, está ainda instalado o Museu do Som e da Imagem. Nele se congregam “formas poéticas de arquitectura contemporânea e avançada tecnologia, mantendo agradável escala humana.”
Inaugurado em 2004, pelo então primeiro ministro Durão Barroso, pretendia marcar o início de uma revolução cultural para a região. Desde então e até hoje, com uma programação regular, este Teatro é um testemunho evidente de como uma arquitetura versátil, inovadora e funcional cumpre um claro sentido de serviço à comunidade, e não somente em termos culturais, enquanto polo dinamizador ligado ao mundo, mas pela requalificação da área urbana em que foi implantado. Prova ainda a capacidade do seu arquiteto para gerir programas complexos, que não somente, e praticamente em simultâneo, assegura o projeto e construção do Teatro Municipal de Bragança, como se lança em novos desafios no que toca ao desenho deste tipo de equipamentos culturais: ainda em 2001, conquista o 1.º prémio em concurso internacional de conceção para o Teatro-Auditório da ESART, o Instituto Politécnico de Castelo Branco; e em 2002, obtém o 1.º prémio em concurso internacional para o Centro de Artes da Covilhã.
JOSÉ MARQUES DA SILVA (1869-1947) | 18.10
A LIGAÇÃO À ORDEM DA TRINDADE
Existe, ainda hoje, no quotidiano do Porto, um vasto património artístico e arquitetónico que procede da ação direta das ordens religiosas que ao longo dos séculos aqui se foram instalando. Contar a sua história é também contar a história da forma como o tecido urbano da cidade se foi desenvolvendo e moldando, já que este legado, entre o que é visível ou sobreviveu de ciclos de transformação, reconstrução e/ou expansão urbanística, nele se mantém impresso.
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, também José Marques da Silva veio a ser chamado a intervir neste processo, em contextos diferenciados e logo no princípio da sua carreira profissional. É o caso da Confraria do Santíssimo Sacramento de Cedofeita, para quem, em 1894, executa o levantamento da Igreja do Convento de S. Bento da Ave-Maria e inicia, a partir do ano seguinte, o projeto de construção de uma igreja própria – que permaneceria inacabada, sendo agora uma presença fantasmática desse grande templo justificado pela demolição da Igreja conventual de S. Bento, sobre cujo terreno, como sabemos, José Marques da Silva projetará a Gare Central, atual Estação S. Bento. Foram várias, também, as obras assinadas por José Marques da Silva para a Irmandade da Lapa, seja na Igreja, com particular destaque para a impressiva Sala dos Retratos, seja no Hospital e respetivo cemitério, onde, aliás, se encontra sepultado, juntamente com os restantes membros da sua família direta e da família Lopes Martins (todos eles membros da Irmandade), para quem projetou jazigos e uma capela sepulcral. E, em causa própria, foi sobre uma parcela adquirida ao Município no terreno de um outro extinto e demolido convento feminino, o das Carmelitas, que, em 1905, no dealbar de um novo século, fez construir um edifício de rendimento, que viria a habitar e que utilizaria como paradigma de um outro tipo de fachadas para a cidade, o Edifício das 4 Estações, agora pertencente à Fundação Marques da Silva.
Mas a natureza das suas ligações à Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade adquire outros cambiantes, uma vez que para além de um vínculo profissional direto, ao receber encomendas já na qualidade de “arquitecto diplomado pelo governo francês”, com ela se cruza parte da sua história pessoal e familiar.
José Marques da Silva, nascido na rua de Costa Cabral, é o mais velho dos 10 filhos do casal Maria Rosa Marques e Bernardo Marques da Silva. A sua primeira infância e juventude acabou por ser fortemente marcada pela profissão do pai, um “pedreiro lavrista” cujo sucesso permite tornar-se um industrial de obras de mármore. Irmão da Ordem, Bernardo Marques da Silva acabará por arrendar a esta instituição, na rua da Trindade, o espaço onde irá montar a sua oficina, espaço esse frequentado pelo filho que, num testemunho recolhido por António Cardoso, dirá mais tarde: “Comecei por ser artista de cinzel, continuei como artista do lápis…”. Mas é exatamente na Escola Primária e no Lyceu da Ordem da Trindade, estabelecido na cidade desde a década de 50 do século XIX, que Marques da Silva vai, entre os 7 e os 13 anos (1876-1882), fazer a instrução primária e completar os estudos secundários, frequentando as disciplinas de Desenho, Matemática e Francês, necessárias à admissão à Academia Portuense, onde viria a prosseguir os seus estudos em Arquitetura, antes de seguir para Paris, em 1889.
Por volta de 1900, José Marques da Silva, que teria acompanhado a construção do Hospital dos Trinitários do Porto, em terreno anexo à Igreja projetada por Carlos Amarante em 1804 e aberta ao culto apenas em 1841, é já um arquiteto preponderante na cidade. Para além da Estação Central, tinha várias obras em curso, no Porto e em Guimarães, obtivera uma medalha de prata na Exposição Universal de Paris e iniciara as funções de professor de Desenho e Modelação na Escola Industrial e Comercial do Porto. Será por então que este distinto antigo aluno assumirá o encargo de projetar a Tribuna e o retábulo-mor da Igreja da Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade. Trabalho que se prolongará até 1903, deixando o seu nome inscrito na lista de arquitetos e artistas que edificaram e moldaram um edifício classificado, desde 2021, monumento de interesse público.
É todo este percurso da passagem de Marques da Silva pela Ordem da Trindade que se encontra desde ontem em destaque na exposição temporária MARQUES DA SILVA DA FORMAÇÃO À CRIAÇÃO. Uma iniciativa da Experience Trindade, organizada a partir de um trabalho de pesquisa de Catarina Fernandes e que conta com o apoio da Fundação Marques da Silva. Patente ao público até ao final do mês de fevereiro de 2026, devolve-nos um olhar inédito sobre um período menos conhecido da vida de Marques da Silva e promete desvendar “várias peripécias, um vislumbre dos bastidores do universo educativo e produtivo portuense, propondo uma reflexão crítica sobre a arte de “bem construir”, a dignidade da profissão, o papel da encomenda e o contexto que molda a obra arquitetónica.”
FERNÃO SIMÕES DE CARVALHO (N. 1929) | 27.10
OS PROJETOS PARA A IRCRISTUR
No final da década de setenta, Fernão Simões de Carvalho decidiu regressar definitivamente a Portugal. Na realidade, nunca deixara quebrar a sua ligação com o país onde, desde 1974, iniciara o projeto de construção daquela que virá a ser a sua icónica casa-atelier, em Queijas (Oeiras), verdadeira síntese e expressão de um modo muito próprio de fazer arquitetura. Para trás ficavam as experiências – determinantes – que vivera em França, em Angola e no Brasil. Soubera estar alinhado com as grandes correntes internacionais, entre as muitas obras de arquitetura e de planeamento urbano desenvolvidas, ainda que sempre fiel a uma matriz de formação corbusiana e assente na defesa da “verdade dos materiais”. E seriam estes, aliás, os eixos estruturantes de uma prática coerente e reconhecida, desde logo pelo domínio técnico da grande escala e pelo rigor construtivo. Simões de Carvalho inicia então, por essa altura, funções pedagógicas na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (futura FA/UTL) e conquista a confiança dos novos clientes que então o procuram, tanto públicos como privados. São destes anos, projetos como a Moradia do Restelo que obterá uma Menção Honrosa do Prémio Valmor (1978), o Edifício de Serviços do Ministério da Agricultura (Lisboa, 1980-83), a nova Clínica Psiquiátrica de S. José das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus (Telheiras, 1983-1995), o Hotel Continental (Lisboa, 1985-87) ou, já um pouco mais tarde, as novas instalações da Administração do Porto de Lisboa (Lisboa, 1989).
Mas é também no início dos anos 80, que Fernão Simões de Carvalho vai cruzar-se com José Cristovão, um self-made man natural de Tomar que, entre Portugal e Angola, conseguira montar um poderoso grupo empresarial, a IRCRISTUR – Empresa Internacional de Comércio e Turismo. Proprietário de várias unidades hoteleiras, João Cristovão encontra em Simões de Carvalho o arquiteto capaz de dar forma aos seus sonhos expansionistas, adjudicando-lhe, em 1981, a encomenda de um anteprojeto para uma unidade hoteleira em Cascais, em terreno situado ao lado do Hotel Estoril Sol. Realizado em colaboração com os arquitetos Miguel Sequeira e Eunice Salavessa, a sua proposta vai desenvolver-se em torno da ideia de um edifício piramidal, uma espécie de cidade vertical, aberta para um pátio interior, dominado por uma ampla piscina e em ligação com espaços comerciais. Envolvido num longo processo de licenciamento, nunca chegará a ser construído. O Grupo de João Cristovão apenas em 1998 conseguirá obter uma autorização de construção para aquele lugar, mas já sem a participação de Simões de Carvalho. Quando em 2005, mais de vinte anos passados e de novo envolvido em polémica, o Hotel Miragem é inaugurado, apenas se podem encontrar neste volume reminiscências muito adulteradas da ideia originalmente apresentada no anteprojeto.
Só que este não foi o único projeto de Simões de Carvalho para o Grupo de João Cristovão. Logo no ano seguinte, o dono do Hotel dos Templários convida-o a apresentar um projeto para um Centro de Congressos + Aparthotel, em Tomar. Projeto esse onde vão, de novo, colaborar os arquitetos Miguel Sequeira e Eunice Salavessa e que, mais uma vez, não sairá do papel. Persiste, contudo, nos desenhos arquivados na Fundação Marques da Silva, ainda que sem outros registos que permitam explicar os motivos pelos quais não se chegou a materializar. Porém, seja eles imputáveis a questões do foro legal, por dificuldade de licenciamento, ou devido a circunstâncias inerentes ao próprio Grupo, o que é percetível, da
consulta desses desenhos, é o grau de detalhe a que chega o projeto. Assim como se percebe igualmente que as soluções propostas resultam de uma depurada análise da topografia distintiva do terreno para implantação e da vontade de integrar a memória histórica e paisagística do lugar, não faltando sequer a identificação das espécies arbóreas a manter.
Prova da confiança conquistada junto do cliente, é o facto de a IRCRISTUR, ainda em 1982, entregar a Fernão Simões de Carvalho uma terceira encomenda: um Parque Residencial, a construir em Cascais, nos lotes contíguos ao hotel, mas mais afastados da linha de mar, e no qual irá colaborar, mais uma vez, Eunice Salavessa. Um projeto que Inês Lima Rodrigues considera inédito e pouco comum no percurso deste arquiteto e onde encontra, no conjunto das 8 moradias projetadas, uma espécie de manifesto à pós-modernidade, com referências que vão de Le Corbusier a Louis Kahn, de Wright a Rietveld e Venturi. Indo de encontro ao adágio popular, também este projeto ficará por concretizar. .
Em 1983, encontra-se ainda assinalado um Projecto de Execução da Remodelação do Restaurante Panorâmico de Monsanto, em Lisboa, para a Ircristur, do Grupo José Cristóvão, mas não documentado em arquivo. Não se consegue datar o momento em que, definitivamente, a ligação contratual terminará. Contudo, apesar da não tradução destes trabalhos em obra, o que deles resulta representa agora um testemunho da evolução do pensamento projetual de Fernão Simões de Carvalho, num momento particularmente ativo do seu atelier em Lisboa, assim como é um bom paradigma da complexidade inerente a uma profissão onde, tantas vezes, a vontade de fazer e a garantia da confiança entre arquiteto e cliente, não são suficientes para transformar o projeto numa realidade.
ALCINO SOUTINHO (1930-2013) |
NOTAS SOBRE O PASSADO, A PENSAR NO FUTURO DO BAIRRO DA MACEDA
O topónimo “Maceda” tem uma proveniência que o conduz aos tempos de César, mais propriamente, encontra as suas raízes na expressão “mala matiana”, que mais não significa do que as “maçãs de Mácio” e que ainda hoje distingue uma certa qualidade de maçãs. O longo caminho percorrido pelo termo até à incorporação no português não é, contudo, o tema central desta nota, mas sim a área urbana do Porto que passou a ser conhecida por esta designação: Maceda, uma zona periférica rural da zona oriental da cidade, onde muito provavelmente se podiam encontrar terrenos com macieiras. Mas diz-nos, por outro lado, Eugénio da Cunha Freitas, sobre a toponímia portuense, que “Maceda”, em Campanhã, dava o nome a uma calçada, um largo, uma rua e uma travessa, “no lugar onde havia uma aldeia deste nome”, documentada desde o século XVI, embora com toda a probabilidade a ele anterior. O facto é que, em meados do século XX, aí foi ganhando forma um bairro, no terreno de uma antiga quinta, conhecido como o Bairro do Acácio. As condições de vida eram de grande precariedade, encontrando-se registos de pedidos de acesso a casas camarárias datados de 1955. Com o tempo, a habitabilidade do conjunto foi-se degradando ainda mais.
No contexto da Revolução de Abril de 74, forma-se neste Bairro uma ativa Comissão de Moradores, a primeira a mobilizar-se nesta zona da cidade, que toma, entre outras, a iniciativa de reivindicar ao próprio General Spínola o provimento de condições básicas de salubridade (água, saneamento e instalações sanitárias) e, em fevereiro de 1975, ao Primeiro-Ministro, Brigadeiro Vasco Gonçalves, a declaração de utilidade pública do bairro. Após contacto com alguns membros das Brigadas Técnicas (os estudantes de arquitetura Manuel Mendes, Marta Oliveira e Pedro Cabral), os moradores reafirmam a vontade de contribuir para o processo de construção de novas casas, dispondo-se a fazer um fundo destinado a esse fim. Porém, na reunião decorrida entre a Comissão e o Arquiteto Nuno Portas, enquanto Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, nas Belas Artes, constata-se a grande pobreza de recursos dos moradores para o fazerem efetivamente, facto que não impedirá que o bairro seja integrado na área de ação do programa SAAL, no território de intervenção identificado por Operação Maceda. Segundo dados recolhidos na tese de doutoramento de Ana Catarina Costa, aí se encontravam então 52 habitações, onde residiam 189 pessoas.
É em agosto desse ano que Alcino Soutinho, pela sua experiência de trabalho na área da habitação económica para a Federação das Caixas de Previdência, vai ser convidado a chefiar esta Brigada Técnica, sendo que virá igualmente a assumir a função de arquiteto chefe das brigadas para a Operação de Justino Teixeira e para a zona de Serralves. No caso do Bairro do Acácio, como os estudantes de arquitetura ligados a esta unidade operacional já tinham procedido ao levantamento do bairro e já tinham realizado um inquérito aos moradores, o trabalho de projeto avançou de forma célere. Na documentação em arquivo na Fundação Marques da Silva (peças desenhadas; dossiers com documentação escrita, com correspondência, fichas individuais, relatórios; publicações da Associação de Moradores; recolhas fotográficas; cartazes e recortes de imprensa da época) é possível acompanhar
o seu desenvolvimento. Cingindo-se ao perímetro do Bairro foi tomada a decisão de recuperar a parte mais antiga, correspondente aos volumes construídos em pedra, sendo as restantes habitações para demolir. Previa-se a instalação de um equipamento coletivo e a construção de casas novas duplex em banda, agrupadas em 9 blocos. Estes, ficariam dispostos de modo a aproveitar uma boa exposição solar, concentrando entradas e traseiras frente a frente. Os arruamentos potenciariam ainda o contacto entre vizinhos nos espaços de entrada das casas, em detrimento dos acessos nas traseiras, onde se situavam os pátios. Porém, a construção acabou por se limitar aos terrenos mais imediatamente disponíveis, com apenas 6 dos 9 blocos iniciais previstos, num total de 33 fogos, a serem materializados.
Serão os próprios elementos da Brigada a questionarem-se sobre o alcance da operação. Num dos relatórios apresentados pela brigada sublinhavam que “a primeira necessidade que os moradores sentiram após o 25 de Abril, foi quebrar o isolamento em que viviam, foi importante a visita de pessoas de fora do bairro e a divulgação das condições de vida nos jornais, assim como a publicação de um jornal de bairro (publicação suspensa).” Mas consideravam que a Operação tinha sido “prejudicada por não se ter avançado num ponto de vista global.”
As novas casas foram efetivamente entregues aos seus destinatários e habitadas. Com o passar dos anos, os moradores apropriaram-se dos espaços, introduzindo transformações, como o encerramento de pátios para expansão de área habitável ou o revestimento das fachadas exteriores com azulejos, ao sabor aleatório de um gosto e necessidades individuais que, inevitavelmente, acabaram por transformar o Bairro e desvirtuar a essência do projeto original.
A Câmara do Porto, no âmbito da Domus Social, no entanto, em 2016, voltou a equacionar a conclusão da obra e retomou o processo de construção dos restantes 3 blocos, adjudicando a coordenação desta segunda fase, traduzida em 15 novos fogos, à Arquiteta Andrea Soutinho (filha de Alcino Soutinho, falecido em 2013). Estava em causa, promover, por um lado, a requalificação e revitalização urbana e ambiental do bairro em si, em consonância com o carácter e identidade do lugar, tal como pensado no pós-25 de Abril, e, por outro, a integração do conjunto habitacional e do seu espaço público com o tecido urbano envolvente. Em 2019, avançou-se para a empreitada de construção das novas casas, entretanto já construídas. Perante a necessidade constatada de infraestruturar o espaço público, foi contratado um projeto de arranjos exteriores em 2023, ano em que foi cedido o direito de superfície para construção de habitação para os associados. Têm sido várias as adversidades a ditar o atraso deste conjunto de intervenções, mas estará próximo o momento em que poderão instalar-se novos moradores neste bairro e aberto o caminho para finalizar a qualificação do espaço coletivo, concretizando-se também as áreas ajardinadas de recreio e de lazer pensadas por Alcino Soutinho e pela sua equipa, e que ficaram por realizar, mas agora ajustadas a um novo tempo e a novas realidades.
RUI GOES FERREIRA
O SANTUÁRIO PARA O PICO DO GALO OU A IMPORTÂNCIA DE UM ARQUIVO
Quando deixamos o olhar percorrer o conjunto de desenhos de Rui Goes Ferreira arquivado na Fundação Marques da Silva, neles sobressai, como uma constante do método de trabalho do seu autor, a presença da cor. Mais exatamente, a utilização de papel autocolante colorido como forma de obter diferentes sombreados no processo de cópia da peça desenhada e, consequentemente, a conferir uma maior clareza à leitura do projeto, demarcando volumetrias e espacialidades ou identificando distintas opções matéricas. As peças desenhadas que documentam o projeto para o Bairro Residencial na rua de Santa Luzia, no Funchal, são disso exemplares.
Desenvolvido entre 1967-68, em resposta a uma encomenda de Manuel Franco, o Bairro Residencial é coincidente com o momento de elaboração e discussão do Plano Diretor para a cidade do Funchal, coordenado por José Rafael Botelho, que aliás, seria tema central, no ano seguinte, no Colóquio de Urbanismo que reuniu na Madeira nomes como Auzelle e Nuno Teotónio Pereira, e onde o próprio Goes Ferreira teve uma participação ativa. O projeto surge também numa altura expansionista da cidade e de adensamento do seu tecido urbano, refletido em novas edificações que, preenchendo espaços vazios e frentes de arruamentos, iam denunciando a modernidade dos novos tempos.
Quando Rui Goes Ferreira assume o encargo de desenhar este Bloco residencial – inicialmente a contemplar 3 moradias de dois pisos e garagem, e, numa segunda fase, para responder a um pedido de maior rentabilidade por parte do cliente, ampliado para 6 –, acumulara já uma significativa experiência no desenho de habitação, individual e coletiva, realizado para a Federação das Caixas de Previdência. Quanto ao lugar de implantação, teria de contar com a presença, por um lado, da Igreja setecentista de Santa Luzia e do seu jardim; por outro, com a pressentida proximidade da frente de mar. É, portanto, a considerar a vontade do cliente, a paisagem, a tradição e a necessária contemporaneidade que se vai desenhando o novo empreendimento.
Refere Madalena Vidigal, autora do Mapa de Arquitectura de Rui Goes Ferreira na Madeira que “Plasticamente concretizou o conjunto segundo uma articulação de corpos em íntima conjugação topográfica e volumétrica. A orientação oblíqua dada a cada um dos corpos do edifício interessa ao agrupamento na medida em que permitiu colocar os fogos em boas condições de privacidade, orientando-os melhor e afastando-os salutarmente da rua sem, contudo, destruir nenhuma diretriz sensível da arte urbana. [...] Utilizaram-se processos e materiais usuais na construção local predominando exteriormente os rebocos brancos, caixilharias de madeira e proteção de vãos e varandas em persianas tipo “tapa sol madeirense” de cor verde-escura.”
Só nas suas imediações, Rui Goes Ferreira assina, no que toca a habitação, o projeto para um conjunto na rua Cidade do Cabo, o Conjunto do Grémio dos Industriais de Bordados da Ilha da Madeira (GIBIM) e o Bloco Sardinha e Matos. O Bloco Residencial Santa Luzia será posteriormente alterado, com o acrescento de um terceiro piso, mas ainda hoje ali permanece reconhecível nas suas linhas estruturantes.
A REQUALIFICAÇÃO EXEMPLAR DO PÁTEO DE SÃO MIGUEL
Numa leitura retrospetiva do percurso de Francisco Barata Fernandes – enquanto arquiteto, enquanto professor, enquanto investigador – sobressai o interesse transversal e constante pela história da arquitetura, pela história das cidades, nunca per si, mas sempre em íntima ligação com o que decorre da sua formação e dimensão de arquiteto: a intervenção no edificado histórico. Francisco Barata Fernandes não perseguia o objetivo do historiador, mas pretendia sim estudar as transformações ocorridas ao longo do tempo sobre o património arquitetónico na procura de respostas às questões levantadas pela ação projetual. E por isso dizia, numa entrevista dada a Andrea Ugolini, que, ao ser chamado a intervir sobre uma construção antiga, lhe interessavam os acontecimentos históricos e sociais que a enquadravam. Mais ainda, tentava compreender e analisar “as acções que marcaram e modificaram o edifício, conservando ou alterando substancialmente (de modo mais ou menos involuntário) a forma, a tipologia e muitas vezes os materiais”, tendo presente que estudar a história não significava uma ocasião para repetir o que desta tinha compreendido, mas o pretexto para “continuar-inovando”. Significava procurar “compreender se hoje esse edifício ainda preserva a sua firmitas e, assim, uma sua identidade”, cabendo depois ao projeto, através do desenho e sem perda da memória do lugar, gerir a transformação que permitiria devolvê-lo à comunidade para se tornar parte integrante da vida quotidiana, para ser sentido, usado e vivido com o respeito devido pelo que faz parte da história.
Assim aconteceu com a intervenção realizada no Páteo de São Miguel, em Évora, entre 2010 e 2013, para a Fundação Eugénio de Almeida, um caso exemplar da coerência deste posicionamento, desta procura de encontro com o fio da tradição, com um projeto de requalificação que assenta num olhar atento e consciente à dimensão diacrónica de uma arquitetura que o tempo foi transformando, para a fazer evoluir através da atualização dos programas construtivos e funcionais.
Perde-se no tempo a história do Páteo de São Miguel, um conjunto urbano edificado em pleno centro histórico da cidade de Évora. Começou por ser alcácer mourisco. Conquistada a cidade, por D. Afonso Henriques, foi entregue à Ordem de S. Bento de Calatrava (futura Ordem de Avis), regressando no século XIII à posse da Coroa. Tornou-se então pousada dos reis da 1.ª Dinastia, servindo ainda como base militar ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira. A construção da muralha ditou a perda irreversível da função defensiva do velho castelo, que assim iniciou uma nova vida enquanto Paço Real. No século XV tornou-se residência dos capitães-mor da cidade, a família dos Castro das 13 Arruelas, mais tarde agraciados com o título de Condes de Basto. A passagem desta família pelo Paço deixou impressas grandes transformações na arquitetura do antigo edifício militar, seja na configuração das fachadas, seja na decoração dos espaços nobres interiores. A esse período áureo sucederam-se tempos mais sombrios, pois a adesão à causa filipina levaria, com a restauração da independência, em 1640, à fuga dos Condes para Espanha. Abandonado, o Paço entrou numa gradual e crescente ruína, não obstante a sua posterior classificação como monumento nacional. A situação alterou-se com a entrada em cena de Vasco Maria Eugénio de Almeida e a sua vontade de o habitar, ocupando juntamente os restantes edifícios que lhe eram adjacentes. Em 1957 torna-se seu proprietário, levando a cabo uma extensa campanha de restauro orientada pelo arquiteto Rui Couto, tendo
em vista a recuperação do complexo edificado e nela incluindo a recuperação do horto quinhentista. Em 1963, este visionário empreendedor, que acreditava que a salvaguarda do património era um importante motor de regeneração urbana e de desenvolvimento da cidade, estabelece as bases da Fundação Eugénio de Almeida, adotando o Páteo de São Miguel como sede da nova instituição e polo central da sua ação cultural. Será no contexto da Fundação que o atelier de Francisco Barata Fernandes será chamado a intervir, para requalificação deste lugar de memória. Cabia-lhe desenvolver um projeto integrado de musealização do conjunto, que possibilitaria ainda a abertura de novos espaços e equipamentos culturais à cidade, com particular incidência no Palácio dos Condes, na Ermida de São Miguel e na Biblioteca e Arquivo Eugénio de Almeida, um projeto que tinha como condição estruturante respeitar a identidade daquele complexo e reforçar a sua ligação à comunidade. A intervenção, sem alterar as funções existentes no momento da encomenda, consolidou a conexão entre o castelo e a cota baixa da Universidade, remodelando o pátio, dotado de novos acessos, para poder acolher eventos coletivos, e deixando que a fachada do Palácio pudesse ser lida como um palimpsesto das sucessivas intervenções. Algumas adições introduzidas nos anos 50/60 foram removidas e substituídas por apontamentos arquitetónicos que não só recuperaram a relação com a paisagem envolvente, como destacaram a monumentalidade dos edifícios que o rodeiam.
Como Francisco Barata Fernandes fazia questão de dizer, este não foi um restauro, mas sim uma reabilitação, uma requalificação atenta e consciente. O que dela resulta está agora visível e disponível enquanto património arquitetónico reforçado nos seus valores figurativos e espaciais, fiel à essência das suas formas, que contam uma história por onde passam as ações individuais, mas também a história de Évora e do país, um organismo dinâmico e vivo.
FRANCISCO
O CINETEATRO VALE FORMOSO E A PROMESSA DE UM REGRESSO
São cerca de 90, os projetos da autoria de Francisco Granja documentados em arquivo na Fundação Marques da Silva, mas quando se refere o seu nome é imediata e inevitável a sua associação ao Cineteatro Vale Formoso. Aquele que é o projeto mais conhecido deste arquiteto foi, aliás, o centro da notícia publicada para assinalar a passagem de mais um ano sobre o seu nascimento, em 2023. Contudo, é a ele que regressamos em 2025, já que este foi o ano em que finalmente foi invertido o ciclo de abandono e degradação a que se encontrava votado este Cineteatro, há cerca de três décadas. A 13 de setembro passado, com o Vale Formoso de portas abertas à cidade e com a promessa de que serão respeitadas as suas formas originais (construtivas e funcionais), o novo proprietário, a produtora UAU, deu a conhecer o projeto de requalificação que aí pretende empreender, da autoria do consórcio de arquitetos Metrourbe e Arsuna.
A história deste icónico teatro, situado na Rua de São Dinis, freguesia de Paranhos, no Porto, remonta aos anos 40, quando por iniciativa de Arnaldo Pato e Alberto Simões Carneiro se inicia a sua construção, pensada de raiz enquanto espaço adaptado simultaneamente a Teatro e a Cinema. Com as suas linhas modernistas, contemplava, no seu interior, uma sala com 1076 lugares sentados, um foyer com duplo pé-direito, amplas zonas de circulação e elegantes escadarias, salão de festas, zonas de estar, um bar com acesso a um “parque de recreios” e as necessárias áreas de serviço. Foi inaugurado com um Porto de Honra a 30 de dezembro de 1948, seguindo-se a estreia da película Uma Vida para Dois, do cineasta Armando de Miranda. A programação seguida assegurou-lhe grande popularidade até meados dos anos 70, a ele afluindo público que muitas vezes excedia aquele para o qual tinha sido pensado, onde se incluíam as freguesias vizinhas de Bonfim, Nossa Senhora da Conceição, Carvalhido e Lapa. Depois, à imagem do que veio a acontecer com muitas outras casas deste tipo, entrou num lento declínio. Já na década de 90, fica sob a gestão da IURD, que aí permaneceu até 2010. Em 2022, “fundamentada na sua autenticidade e exemplaridade, de artefacto arquitetónico de época que mantém a sua matriz projetual, e pela memória coletiva que transporta nas suas volumetrias”, é classificado Património de Interesse Municipal, conjuntamente com um grupo de moradias delimitado pela Rua de S. Dinis, Rua do Capitão Pombeiro e Rua de Cunha Júnior.
A enchente de pessoas que se seguiu ao convite da UAU para uma última visita ao espaço antes do edifício entrar em obras, no referido dia 13 de setembro, entre curiosos e aqueles que nostalgicamente iam recordando memórias passadas naquele lugar, é significativa do interesse que o Vale Formoso continua a suscitar, não obstante as contrariedades sofridas, e prova também da importância da sua revitalização enquanto casa de espetáculos. A intenção é que assim se volte a apresentar no próximo ano e cá estaremos para o anunciar.
RAÚL HESTNES FERREIRA (1931-2018)
A CRECHE DA AVENIDA DOS REDONDOS, EM FERNÃO FERRO
A quem passar pela Avenida dos Redondos, em Fernão Ferro, no Seixal, é impossível não se deter perante a subtil singularidade das formas que distinguem o n.º 104, onde se ostenta o letreiro que nos diz tratar-se da creche Bebé a Bordo. Já para quem estiver mais familiarizado com a Arquitetura de Raúl Hestnes Ferreira, logo será possível aperceber-se das ressonâncias que a inscrevem no conjunto da sua obra, mesmo se a sua escala é bem mais contida face à natureza dos projetos que este arquiteto vinha desenvolvendo por essa altura. Conhecida em atelier simplesmente como Creche dos Redondos, trata-se de uma obra de maturidade, desenvolvida que foi entre 2010 e 2013. E até se torna possível divisar, nos contornos e reentrâncias das fachadas deste edifício centrado em si mesmo, um certo toque de humor no modo como foi desenhado, como os materiais foram sendo trabalhados, criando contrastes de cor e jogos de sombras que tornam mais leve a sua leitura e deixam adivinhar aquela que é a sua missão, acolher os mais pequenitos.
A documentação relativa a este projeto, preservada em arquivo na Fundação Marques da Silva, tem um carácter maioritariamente técnico, mas, em contrapartida, inclui uma ampla cobertura fotográfica, em formato digital, que vai percorrendo passo a passo a evolução do processo. E não falta sequer o registo do almoço em que o cliente, o Senhor Carlos Pinto, da Sociedade Imobiliária Casa das Varandas, contrata os serviços do Arquiteto Raúl Hestnes Ferreira que, em atelier, virá a ter como colaboradores próximos os arquitetos Luís Castanheira e Ana Maria. Através dessa pormenorizada reportagem, podemos acompanhar a terraplanagem do lugar de implantação, os problemas surgidos com a escavação e, depois, a montagem do esqueleto e o seu gradual revestimento, o aparecimento do mobiliário ajustado ao tamanho dos seus futuros habitantes, a instalação de equipamentos lúdicos no jardim... Percebe-se também a presença continuada de Hestnes Ferreira no estaleiro, onde será ele próprio o autor de muitas destas fotografias. Uma presença confirmadora do cuidadoso acompanhamento que foi fazendo de todo o processo de construção, onde manteve, dir-seia, um modo afetuoso de assegurar a justa resposta à funcionalidade pretendida. Ele, que foi autor de tantos equipamentos escolares, desde a Escola Secundária de Benfica, que herdou o nome do seu pai, José Gomes Ferreira, aos diversos projetos para o ISCTE, coube-lhe também a ele imaginar um espaço para os mais novos, nele aplicando a experiência de largos anos.
Com a obra praticamente concluída, caberia a Luís Pavão, o seu fotógrafo de eleição, ser chamado para realizar as fotografias finais de apresentação da nova creche, por dentro e por fora, com a perspetiva segura de quem há muito aprendera a compreender e conhecer a obra de Raul Hestnes Ferreira, obra que Alexandre Alves Costa considera ser “intransmissível na sua artisticidade”.
DEZEMBRO
JOSÉ CARLOS LOUREIRO (1924-2022) |
OS PRIMEIROS ANOS DE UM JOVEM ARQUITECTO
Comecemos pelo número, que é redondo. Hoje, José Carlos Loureiro faria 100 anos e este tem sido o ano em que o tempo longo que foi o da sua vida, a entrega à profissão que desde muito cedo escolheu, as centenas de projetos que individualmente ou em sociedade desenvolveu, justificaram a proposição de um amplo conjunto de iniciativas. Não somente para refazer a extensa linha cronológica da sua obra de arquitetura, que a recente incorporação de mais um importante núcleo documental na Fundação Marques da Silva permitiu, mas para, a partir dela e na sua invulgar dimensão e diversidade, identificar as idiossincrasias de um autor e as constantes que distinguem uma prática guiada por “ideais de modernidade, urbanidade e solidez”. Loureiro 100 tem como objetivo refletir e debater uma obra “simultaneamente afirmativa, generosa e democrática”, que continua a marcar “a paisagem construída de várias cidades portuguesas”.
As exposições que agora podem ser visitadas na Fundação Marques da Silva, Arquitecturas de Representação, ou no Lugar do Desenho – Fundação Júlio Resende, Casas para Todos, ambas com curadoria de Luís Martinho Urbano e Joaquim Vieira de Magalhães, são parte integrante e estruturante desse programa, que ainda está longe de se esgotar. Mas, neste dia de aniversário, deixamos o ponto de chegada para revisitar e destacar aquele que foi o ponto de partida, o momento em que um jovem com uma notória aptidão para o desenho, nascido na Covilhã, ainda que a viver em Oliveira do Hospital, terra de origem da família, decidiu vir para o Porto, a conselho de um amigo do seu pai, para se tornar arquiteto.
José Carlos Loureiro começou a frequentar a Escola de Belas Artes do Porto em 1941. Ao longo do curso foi-se distinguindo, desde logo ao completar o 4.º ano de frequência obrigatória, em 1946, já no pós-Guerra, quando conquista o Prémio Carlos Ramos por ter obtido a nota mais alta na cadeira de Arquitetura (18 valores). O encontro com Carlos Ramos, “o querido Mestre”, demonstrou-se providencial. Por um lado, pela solidez dos ensinamentos recebidos, por outro, pela forma como este acreditou no potencial de um jovem estudante ansioso por fazer obra. Foi a sua confiança que lhe abriu as portas para o mundo real da arquitetura, ainda que, na altura, a sua aprendizagem se estendesse ao atelier dos arquitetos Fernando Tudela e Fernando Barbosa, que acompanhasse os movimentos vanguardistas, sendo um dos 33 fundadores da ODAM, e que, calcorreando diariamente, a pé ou de bicicleta, aquela que considerava a mais bela estrada dos arredores do Porto, a par da margem sul do rio Douro, alimentasse o sonho de aí vir a desenhar e construir uma casa, a sua.
Acontece que Carlos Ramos, na qualidade de Vogal da Comissão de Construções Hospitalares, ao ser chamado a pronunciar-se sobre a viabilidade de um terreno para construção de um Hospital em Oliveira do Hospital, possibilitada pela doação de um conterrâneo, Aurélio Diniz, sugeriu o nome de José Carlos Loureiro, convencendo os promotores de que tudo tinham para levar em frente a obra: um bom terreno para construir e um arquiteto perfeitamente capaz para o projetar. Com esta validação, foram vencidas as relutâncias iniciais dos encomendadores e José Carlos Loureiro, aos 22 anos de idade, ganha a oportunidade de desenhar e assinar um primeiro projeto. Com este trabalho conseguirá pagar as quotas em atraso na Cooperativa O Problema da Habitação, sendo mesmo os seus primeiros clientes a avançar com o empréstimo necessário para dar início à construção da sonhada casa.
Num olhar retrospetivo sobre a sua vida, José Carlos Loureiro dirá que teve sorte, mas o facto é que não dececionou as expectativas de quem nele confiou. Em 1950 realizou a prova final do Curso de Arquitetura com 19 valores. Passados 2 anos, Carlos Ramos, de novo ele, estará na base de mais um inesperado e improvável convite, o de projetar as novas instalações do Palácio de Cristal, assumindo a responsabilidade pela atribuição do projeto a um então jovem e desconhecido arquiteto recém-diplomado. O tempo deu-lhe razão, como sabemos. O novo Pavilhão recebeu nesse mesmo ano uma menção honrosa em Helsínquia e foi apresentado na Bienal de S. Paulo. E quanto a José Carlos Loureiro, deixara já de ser apenas um promissor talento para passar a ser uma certeza enquanto Arquiteto com futuro.
O Hospital, também ele se tornou projeto construído, embora sem cumprir na sua plenitude o desejo de quem primeiro o imaginou, embora tenha continuado, mesmo assim, a ser alterado muito para além da sua vontade. No entanto, foi campo privilegiado de experiência e formação prática, uma prova superada, preponderante para lançar a carreira de sucesso que com ele se anunciou.
ALFREDO LEAL MACHADO (1904-1954)
A GRADUAL RECONSTITUIÇÃO DE UM PERCURSO
É escassa, a documentação reunida na Fundação Marques da Silva sobre a obra e o percurso de Alfredo Leal Machado, ainda que não deixe de nos indicar caminhos de leitura sobre o período de formação, sobre a sua rede de relações e sobre alguns dos lugares por onde passou e para os quais projetou. Uma morte prematura e trágica, num acidente rodoviário aos 50 anos, uma carreira ligada a instituições públicas, municipais e regionais, poderão ajudar a entender o pouco que a família conseguiu reunir e doar à Fundação Marques da Silva. Mas, pouco a pouco, novos dados vão sendo recolhidos, ajudando a completar este seu registo biográfico e, sobretudo, profissional.
Em Arquivo encontra-se documentado um projeto para a Escola de Regentes Agrícolas, em Coimbra, cidade onde terá sido vereador entre 1942-45 e trabalhado com Bissaya Barreto. Sabemos, porém, que lhe coube assinar o projeto para um conjunto de parques infantis: Casa da Criança Rainha D. Leonor (Castanheira de Pêra, 1939), o segundo projetista para a Casa da Criança D. Filipa de Vilhena (St. António dos Olivais, 1940), e o autor da Casa da Criança D. Joaquina Barreto Rosa (Arganil, 1944). E que terá sido, em 1940, chamado a apresentar, com Artur Pimentel, um projeto para construção do edifício da Central Térmica do Hospital Universitário de Coimbra.
Leal Machado projetou várias sedes do poder municipal. Na Fundação encontra-se documentado o projeto para os Paços de Concelho de Porto de Mós, mas podemos acrescentar que foi o autor dos Paços do Concelho de Espinho e também, na década de 30, o arquiteto responsável do edifício municipal em Arganil, região para a qual projeta ainda uma Casa do Povo e duas escolas primárias. E é na qualidade de arquiteto da Delegação Norte da Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (DENN) que, para a Escola de Belas Artes do Porto, em parceria com Manuel Lima Fernandes de Sá, projeta em 1951 o Pavilhão de Arquitetura inaugurado nos jardins do antigo Palacete Braguinha, em 1954, o ano do fatídico acidente. Já enquanto antigo aluno de José Marques da Silva na Escola de Belas Artes do Porto, Leal Machado participou na exposição de homenagem ao antigo professor e diretor realizada em 1953, apresentando quatro obras construídas, que a consulta do respetivo catálogo identifica: os interiores do Restaurante Abadia, no Porto; o Sanatório D. Manuel II, em Vila Nova de Gaia; e o Edifício das Obras Públicas e a Fábrica Triunfo, em Coimbra.
A leitura do artigo de João Alves da Cunha, “Igreja de São José, Coimbra: história da sua construção”, publicado em 2019 na revista Lusitania Sacra, que nos situa de novo em Coimbra, acrescenta agora mais um dado: Alfredo Leal Machado foi um dos arquitetos inscritos na história da construção da Igreja de S. José do Calhabé. Corria o ano de 1939 quando a Comissão do Culto Católico da freguesia de S. João tomou a decisão de promover a construção de uma nova igreja, ainda que a anterior tivesse sido benzida 7 anos antes. António Leal Machado, em dezembro do ano seguinte, vai apresentar um primeiro estudo para a futura igreja. De acordo com o autor do artigo, Leal Machado segue a localização determinada por De Gröer e propõe uma arquitetura de linhas sóbrias e harmoniosas, situando, à direita da fachada, uma torre de 30 metros, numa solução justificada
pelo facto de se situar num vale. E diz-nos que, na memória descrita, Leal Machado faz questão de ressalvar que “dentro desta simplicidade [a igreja] terá motivos enriquecidos, como seja o pórtico da entrada, todo em baixo relevos, com motivos alegóricos à vida de S. José; nas janelas e frestas, vitrais; altares e púlpitos com baixos relevos, decorados com motivos à vida do Santo que o mesmo altar representa; tanto na nave, como no transepto, como na capela-mor levará paneaux de azulejos decorativos e pinturas alegóricas.” Seriam chamados artistas portugueses para executar estes elementos decorativos, ainda que nenhum nome tenha sido antecipado. Por sua vez, a planta seguiria a forma da Cruz Latina, com uma grande nave central e duas laterais com três capelas cada, a que se juntavam mais dois altares no topo do transepto. D. António Antunes, bispo da Diocese, submeterá o estudo à apreciação da Comissão de Revisão da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que, enquanto esboceto, receberá um parecer positivo, sendo considerado em condições “de poder servir de base a um projeto da obra que se pretende realizar”. Essa aprovação seria contrariada, contudo, pelas restantes repartições oficiais consultadas e acabou por não avançar. Em seu lugar, seria contratado o arquiteto Januário Godinho, que desde logo colocará em causa a própria localização da igreja. Também ele verá a sua proposta ser considerada improcedente. Após várias polémicas, será, por fim, a Álvaro da Fonseca, ao tempo funcionário da Direção Geral dos Serviços de Urbanização, que caberá traçar as linhas da igreja construída e inaugurada a 19 de março de 1962.
Passo a passo, entre projetos conseguidos e projetos malogrados, vai-se, assim, reconstituindo a linha do tempo de Alfredo Leal Machado, arquiteto nascido em Modelos, Penafiel.
MANUEL BOTELHO (1939-2025) | 29.12
AS FRONTEIRAS DO SILÊNCIO
Está ainda próximo o momento em que a voz de Manuel Botelho se silenciou, a lembrar a fugaz linha de tempo que vai ditando essa condição comum a toda a vida humana. Mas, neste que é o primeiro aniversário celebrado na memória, recuperamos a voz que dele permanece, a da escrita, a do projeto, aquela que sempre procurou na substância das coisas, nas palavras, na Arquitetura, a dimensão do simbólico, a perceção do que vai para além do temporal e do visível, a linguagem do universal, uma ideia de transcendência.
E Manuel Botelho deixou-nos um texto de uma conferência proferida na Livraria Almedina, em abril de 2005, a convite dos organizadores do ciclo Olhares à Descoberta, Rui Morais e Castro e Juan Cabello Arribas, onde reflete exatamente sobre estas questões, sobre “a poética da arquitetura”. Cita Santo Agostinho, Heidegger, Sophia, Louis Kahn, Benedetto Croce, Alberti, Kant, Descartes, Campanella não para mostrar a erudição que o distinguia e lhe era já natural, mas para partilhar os caminhos de um pensamento que o conduzia ao sentido desse aspeto poético, pois, para si, a Arquitectura era “construção e descoberta dum mundo novo, construção e descoberta duma pátria nova, construção e descoberta duma nova porta do ser.” Uma dimensão que a situava nas fronteiras do silêncio. E por isso afirmava: “Acredito em Kahn quando falava desse encontro da luz com o silêncio que traz a Arquitetura à vida.”
E porque de Arquitetura falava e porque era intrinsecamente Arquiteto, rematou esse texto/conferência com imagens do projeto que então se encontrava a desenvolver: uma casa, no vale do Douro, em frente à cidade da Régua, para o Dr. Paulo Pires. Um projeto onde mais do que pensar em formas se confrontou com “a corporeidade, corporeidade humana e corporeidade do mundo, que se encontram numa pertença recíproca.” Queria sentir “as vísceras da terra”, porque a “terra, o céu, o ar e a luz [eram] importantes e fundamentais na arquitetura, não apenas como materiais ou vetores essenciais do espaço, mas como elementos espoletadores de novos sentidos ou transfigurações do mesmo.” E porque havia que ter sempre presente que “fazer Arquitetura é construir lugares onde a vida se faz presente.”
SOBRE A FOTOGRAFIA
Casa de Natividade Amorim, em Arouca, reabilitada por Manuel Bo telho. A fotografia foi tirada em 2010, por António Neves, durante uma visita de estudo com estudantes da FAUP a casas desenhadas por este arquiteto e professor. Está visível um caixilho de madeira, de fabrico artesanal, por ele desenhado, numa reinterpretação de soluções praticadas na arquitetura vern acular, da qual o edifício se pode considerar um exemplo.
SOBRE OS DESENHOS
Da amplitude da paisagem (perfil), aos estudos de pormenor para uma pala rebatível de sombreamento dos quartos orientados a poente da casa para o Dr. Paulo Pires. Fundação Marques da Silva, Arquivo Manuel Botelho.