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Desigualdades raciais no desenvolvimento na primeira infância
Antes do ensino fundamental, a desigualdade já tem cor No Brasil, desigualdades educacionais costumam ser medidas somente a partir do ensino fundamental, mas começam a se formar muito antes. Já na primeira infância são observadas diferenças no desenvolvimento e nas oportunidades de aprendizagem das crianças, influenciadas por características sociodemográficas, como raça/cor. A primeira infância é a fase de maior desenvolvimento da vida e é fortemente influenciada pelo ambiente, pelas relações e pelas oportunidades que a criança vivencia. O racismo estrutural pode restringir o acesso a direitos e oportunidades e afetar as experiências, as relações e o bem-estar das crianças desde muito cedo. O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), lançado no Brasil em maio de 2026, traz novas evidências para entender como essas desigualdades se manifestam. Neste Mês da Consciência Negra, o boletim IELS em Foco apresenta uma análise inédita dos resultados do estudo por raça/cor e nível socioeconômico, contribuindo para o debate sobre os desafios para a equidade desde a primeira infância.
Realização
Coalizão IELS
Parceria técnica
O QUE É O IELS? O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), avaliou crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola em três dimensões: aprendizagens fundamentais, funções executivas e habilidades socioemocionais. Amostra brasileira Foram avaliadas 2.598 crianças em três estados — Ceará, Pará e São Paulo —, assim distribuídas: 58,1% pardas (1.339) 34% brancas (784) 6,4% pretas (148) 1% amarelas (24) 0,3% indígenas (8) *295 crianças sem informação de raça/cor
Acesse o relatório completo
Desigualdades nas medidas diretas de desenvolvimento O IELS avaliou diretamente as crianças em sete domínios de aprendizagem e desenvolvimento. Os resultados evidenciam que as desigualdades por raça/cor já aparecem na pré-escola, mas variam em magnitude conforme o domínio avaliado.
Dimensões Aprendizagens fundamentais
Funções executivas
Habilidades socioemocionais
Diferença de brancas x pretas
Média nacional
Brancas
Pardas
Pretas
Literacia emergente
502
507
500
490
17
Numeracia emergente
456
463
447
423
40
Memória de trabalho
468
471
463
462
9
Controle inibitório
453
462
451
452
10
Flexibilidade mental
473
480
470
462
18
Identificação de emoções
491
494
491
493
1
Atribuição de emoções
501
505
499
491
14
Domínios
A média internacional é de 500 pontos | Fonte: Relatório nacional do IELS
Estatisticamente significativa
Uma diferença é considerada estatisticamente significativa quando há forte evidência de que não ocorreu por acaso (probabilidade inferior a 5%). Na comparação entre crianças brancas e pretas, apenas numeracia emergente e memória de trabalho apresentam diferenças estatisticamente significativas, com médias mais altas entre as brancas. Nos demais domínios, os dados não permitem afirmar que há diferença entre esses grupos — o que não significa que seus resultados sejam iguais.
Aprendizagens fundamentais
Numeracia emergente apresenta a maior distância entre crianças brancas e pretas nas medidas analisadas — 40 pontos. A diferença é estatisticamente significativa e aponta para desigualdades em habilidades como contar, comparar quantidades e reconhecer padrões. Em literacia, a diferença (17 pontos) não é estatisticamente significativa.
Funções executivas
A flexibilidade mental — que é a capacidade de alternar entre regras e ações, ajustando as respostas conforme instruções de uma tarefa — apresenta a maior diferença entre as médias de crianças brancas e pretas (18 pontos). Também há diferenças nas medidas de memória de trabalho (9 pontos) e controle inibitório (10 pontos), que se relacionam, respectivamente, à capacidade de armazenar e manipular informações e à regulação de impulsos.
Habilidades socioemocionais
Na atribuição de emoções, medida relacionada à empatia, a média das crianças brancas supera a das crianças pretas em 14 pontos. Já na identificação de emoções, os resultados dos três grupos raciais são muito semelhantes.
Em parte dos domínios, é possível observar diferenças relevantes entre as médias de crianças pardas e pretas. Isso reforça a importância de medir separadamente os dois grupos para descrever melhor as desigualdades.
Quando raça/cor e nível socioeconômico se combinam As desigualdades ficam ainda mais evidentes quando são comparados dois grupos em situações opostas:
Crianças brancas ou amarelas de famílias com NSE alto
Crianças pretas, pardas ou indígenas (PPI) de famílias com nível socioeconômico (NSE) baixo
DESIGUALDADES NO DESENVOLVIMENTO AOS 5 ANOS
Médias em sete medidas diretas do IELS para dois perfis específicos de crianças PPI — NSE baixo
600 500 400
477
532
500 416
437
477
Brancas/amarelas — NSE alto
449
488
441
496
458
480
485 500
300 200 100 0
a ci ra nte e t Li rge e em
ia ac e er ent m g Nu er em
e le ad tal tro rio d i n l ó bi en Co ibit xi m e n i Fl
PPI: pretas, pardas e indígenas
ão de aç ões ia lho r c ó ba ifi ç nt mo em tra e M Id de e NSE: nível socioeconômico
A comparação combina diferenças de raça/cor e NSE; não isola o efeito de cada dimensão.
Numeracia
Aqui está a maior diferença entre os dois grupos (84 pontos), com médias mais altas entre crianças brancas ou amarelas de NSE alto sobre as pretas, pardas e indígenas de NSE baixo.
Funções executivas
A diferença entre as médias dos dois grupos chega a 55 pontos em memória de trabalho, 40 em controle inibitório e 39 em flexibilidade mental.
ão iç es u õ rib oç At em de
Fonte: Dados do IELS
Literacia
A comparação também mostra diferença (55 pontos) no desenvolvimento de habilidades relacionadas à linguagem, como a capacidade de entender narrativas curtas, palavras e sons.
Habilidades socioemocionais
Embora menores do que as observadas nas aprendizagens fundamentais, os contrastes também aparecem na identificação (22 pontos) e na atribuição de emoções (15 pontos).
Por que as desigualdades aparecem tão cedo? O IELS mostra que as desigualdades raciais observadas no ensino fundamental já estão presentes aos 5 anos e que a combinação de fatores sociodemográficos acentua essas diferenças. Crianças em maior situação de vulnerabilidade — especialmente meninos, pretos, pardos e indígenas e de famílias de nível socioeconômico baixo — apresentam pontuações menores. Nenhuma criança nasce com menos capacidade de aprender por sua cor ou raça. O que muda é o que a vida oferece a ela. Para compreender esse cenário, é preciso analisar como as condições de vida, as oportunidades de aprendizagem e o acesso a políticas públicas se articulam desde a gestação. As desigualdades históricas e o racismo marcam a trajetória das crianças já nos primeiros anos: afetam o acesso aos serviços, o acolhimento nas instituições e as experiências cotidianas, com efeitos sobre o sentimento de pertencimento, a valorização da identidade e o desenvolvimento. A primeira infância é, portanto, um período estratégico para enfrentar essas desigualdades antes que se aprofundem. Políticas universais são essenciais, mas só promovem equidade quando dão atenção especial às crianças mais vulnerabilizadas. Os marcos legais recentes apontam nessa direção. A Política Nacional Integrada da Primeira Infância tem entre suas diretrizes a redução das desigualdades a partir da priorização das crianças em situação de vulnerabilidade. A Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações ÉtnicoRaciais e Educação Escolar Quilombola prevê ações para superar as desigualdades étnico-raciais desde a educação infantil. Já o novo Plano Nacional de Educação prevê monitorar o acesso e a permanência de crianças negras, indígenas e quilombolas na educação infantil e articular estratégias na pré-escola para reduzir as desigualdades de aprendizagem por raça/cor no ensino fundamental.
CAMINHOS PARA AS POLÍTICAS PÚBLICAS ANTIRRACISTAS Monitorar por raça/cor – Desagregar os dados de crianças brancas, pretas e pardas
e usá-los para planejar e acompanhar a implementação e os resultados das políticas públicas e o acesso aos serviços, corrigindo rotas ao longo do processo.
Combinar políticas universais e focalizadas – Priorizar crianças em situação
de pobreza multidimensional e grupos racialmente vulnerabilizados, com atenção especial a territórios vulneráveis, quilombolas e indígenas.
Qualificar a oferta para quem mais precisa – Investir na formação continuada de
professores que atendem crianças em contextos de maior vulnerabilidade, que são as que mais se beneficiam de práticas pedagógicas de qualidade.
Ampliar as oportunidades de aprendizagem em numeracia – Fortalecer a formação dos profissionais para ampliar oportunidades de aprendizagem por meio da brincadeira e da integração entre os campos de experiência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Fortalecer a intersetorialidade – Integrar e qualificar a educação, a saúde e a assistência
social para enfrentar desde cedo as desigualdades que podem se acumular na vida das crianças.
SAIBA MAIS
Racismo, Educação Infantil e Desenvolvimento na Primeira Infância (Núcleo Ciência pela Infância, 2021)
Panorama da Primeira Infância: O impacto do racismo (Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 2025)