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Introdução ao estudo da Patologia

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Patologia Geral

Introdução ao estudo da Patologia

"A Patologia é o fundamento científico de toda a Medicina".

- Prof. Dr. Stanley Robbins.

Conceitos fundamentais

Saúde:

Estado sustentado de funcionamento equilibrado do organismo, nas esferas física e psíquica, caracterizado pela aptidão para o autocuidado e experiência de bem-estar pessoal e social preponderante.

Doença:

Estado de desequilíbrio funcional – temporário, intermitente ou permanente – caracterizado por graus variáveis de incapacidade, sofrimento e mortalidade.

A doença subtrai a saúde e encurta a vida; entender os fenômenos patológicos ─ por que e como adoecemos ─ é, portanto, imprescindível na Medicina, cujo objetivo primordial é propiciar a todos uma vida melhor e mais longa.

Conceitos fundamentais

Patologia (gr. pathos, sofrimento/doença):

Estudo das alterações estruturais e funcionais que desviam o organismo da normalidade e perturbam seu equilíbrio (homeostase), bem como dos mecanismos subjacentes e suas causas.

Etiopatologia (gr. aitia, causa):

Estudo dos agentes, intrínsecos e/ou extrínsecos, causadores da doença (responsáveis por desencadear os processos mórbidos).

Patogenologia (gr. genos, origem):

Estudo dos mecanismos (especialmente em nível molecular) pelos quais os agentes etiopáticos causam a doença (não raramente, os agentes causais são conhecidos, mas os mecanismos da doença, não ─ e vice-versa).

Morfopatologia (gr. morpho, forma):

Estudo das alterações estruturais (morfopáticas) que caracterizam a doença (padrão-ouro do diagnóstico na medicina).

Fisiopatologia (gr. physis, natureza):

Estudo das repercussões funcionais (fisiopáticas) impostas pela doença, da esfera celular à sistêmica.

Conceitos fundamentais

A Patologia nos convida a pensar cientificamente, abordando as doenças de maneira sistemática e metódica, em termos de causas, mecanismos e efeitos.

Ao propiciar a compreensão das causas, mecanismos e alterações morfofisiológicas das doenças, a Patologia embasa a interpretação das suas manifestações clínicas e incidência, alicerçando seu diagnóstico, orientando sua terapêutica e subsidiando as estratégias para sua prevenção.

Conceitos fundamentais

Patologia: a pedra fundamental da medicina

Terapêutica

Diagnóstico

Epidemiologia Semiologia Patologia

Morfologia Fisiologia

A Patologia explica a epidemiologia e a semiologia e dá sentido ao estudo da morfologia e fisiologia na medicina.

Principais marcos históricos

Na Antiguidade (4000 AEC à 476 EC):

- prepondera a visão da doença como um fenômeno sobrenatural;

- 600-400: filósofos pré-socráticos inauguram a era do pensamento racional; a interpretação da doença como produto de influências sobrenaturais aos poucos obsolesce;

- 400-300: Hipócrates interpreta a doença como consequência de desequilíbrios dos fluidos corporais ou humores.

A interferência divina era tipicamente considerada a causa (e a cura) das doenças na era pré-hipocrática (Nergal, deus sumério da doença e morte; Jvarasura, deus hindu da febre; Asclépio, deus grego da cura).

Principais marcos históricos

Na Antiguidade (4000 AEC à 476 EC)

Doenças "frias e úmidas"; indiferença, frieza.

Doenças "frias e secas"; desânimo, tristeza.

Os quatro humores da medicina hipocrática: flegmático, sanguíneo, colérico e melancólico.

Doenças "quentes e úmidas"; euforia, hiperatividade.

Doenças "quentes e secas"; irritabilidade, beligerância.

Principais marcos históricos

Na Antiguidade (4000 AEC à 476 EC):

- 300-200: Herófilo conduz as primeiras dissecções humanas (historicamente proibidas), realizadas na recém-fundada escola de anatomia de Alexandria; as teorias hipocráticas sofrem críticas;

- 100-200: Claudius Galeno, apesar de não ter dissecado corpos humanos, compõe obras (fundamentadas nas teorias hipocráticas) que se tornam referência para o estudo da medicina durante 14 séculos.

“Herófilo, a primeira dissecção”, escultura em pedra à entrada da Nouvelle Faculté de Médecine, em Paris. À direita, Claudius Galeno.

Breve histórico da patologia

Na Idade Média (476 à 1453):

- a dissecção humana volta a ser amplamente proibida (Igreja Católica); a repressão à exploração científica do corpo legaria às ciências médicas séculos de estagnação.

Na Idade Moderna (1453 à 1789):

- a Renascença marca a retomada gradual do racionalismo grego;

- 1450-1550: a dissecção acadêmica volta a ser praticada e a ciência da anatomia floresce nas mãos de ícones como Leonardo da Vinci e Andreas Vesalius.

O retorno à prática da dissecção humana seria determinante para os subsequentes avanços da patologia (Vesalius conduzindo uma aula no anfiteatro da Universidade de Pádua; perspectiva atual à direita).

Prof. Fabricio Jacobsen

Breve histórico da patologia

Na Idade Moderna (1453 à 1789):

- 1628: William Harvey desvenda a circulação sanguínea, pondo em cheque a já desgastada teoria dos humores;

- 1660-1720: Marcello Malpighi e Anton van Leeuwenhoek inauguram a anatomia microscópica.

Harvey (à esquerda) supervisiona uma dissecção humana; à direita, típico microscópio do início do séc. XVIII.

Breve histórico da patologia

Na Idade Moderna (1453 à 1789): - 1760: Giovanni Morgagni inaugura a "Patologia Anatômica" com sua obra Sobre os sítios e causas das doenças, baseado na necrópsia de mais de 600 indivíduos; - 1790: Matthew Baillie publica o tratado Anatomia Mórbida, também baseado em necrópsias, sistematizando e ampliando os conceitos introduzidos por Morgagni.

Para Morgagni, as doenças localizavam-se em órgãos específicos (contrariando a teoria humoral) e suas manifestações clínicas associavam-se a alterações na sua anatomia.

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XIX):

- 1800: François Bichat, executor de centenas de necrópsias, publica seu Tratado das Membranas e associa a doença a alterações dos tecidos que compõem um órgão;

- 1842: Karl Rokitansky funda o primeiro instituto de patologia (Viena) e elabora novas classificações das doenças, baseado em dados de mais de 30 mil necrópsias;

- 1858: Rudolf Virchow, ao microscópio, amplia o alcance da patologia anatômica e reconhece a célula como sítio de origem dos fenômenos patológicos.

Virchow em sua sala de estudos no hospital Charité (Berlim) e a capa de sua obra Patologia Celular.
Prof. Fabricio Jacobsen

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XIX):

- 1865: Claude Bernard, autor de Medicina Experimental, correlaciona a patologia anatômica à fisiologia, especulando sobre o significado das alterações morfológicas das doenças;

- 1865-1890: Louis Pasteur, Robert Koch e Joseph Lister implicam microrganismos como agentes causais de doenças, pavimentando o fim das teorias miasmáticas (então muito populares), vigentes desde tempos galênicos.

“Sem fisiologia, sem patologia”, defendia Claude Bernard, pioneiro da medicina experimental (retratado à esquerda); Pasteur (à direita), outro importante cientista experimental.

Prof. Fabricio Jacobsen

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XIX)

Os miasmas ou “vapores nocivos” foram fortemente implicados como causadores de doenças até a segunda metade do séc. XIX.

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XIX):

- 1887: Virchow realiza uma das primeiras tentativas de diagnóstico histopatológico in vivo (recebida com descrédito).

Até o final do séc. XIX, a patologia permaneceu como uma ciência predominantemente acadêmica e praticamente restrita ao exame post mortem (necrópsia).

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XX): - o advento de técnicas aprimoradas de fixação e preparação histológicas favoreceu a introdução gradual da biópsia como ferramenta diagnóstica na prática médica.

A biópsia consiste no exame macro e (especialmente) microscópico de um órgão ou fragmento de um órgão doente obtido de um indivíduo vivo, para fins diagnósticos.

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XX):

- 1906: fundada (Washington DC) a International Academy of Pathology (IAP), a fim de promover reuniões científicas e integrar patologistas de todo o mundo; - 1922: fundada a American Society of Clinical Pathology (ASCP), com o objetivo de promover a importância do patologista na assistência ao paciente; - 1954: fundada (Curitiba) a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP).

Emblemas oficiais da IAP (www.iapcentral.org), ASCP (www.ascp.org) e SBP (www.sbp.org.br).

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XX):

- 1953: primeira edição do Surgical Pathology, de Lauren Ackerman, que solidifica o papel do patologista no processo do diagnóstico in vivo;

- 1957: primeira edição do Textbook of Pathology, de Stanley Robbins, que celebra a patologia como uma ciência médica fisiomorfológica essencial à prática clínica.

O texto de Ackerman tornou-se uma importante fonte de consulta para patologistas e médicos residentes; Robbins consagrou-se como uma referência para o ensino dos fundamentos da patologia nas escolas de medicina.

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XX):

- 1953: a descoberta da estrutura do DNA abre caminho à Patologia Molecular; - 1983: primeira doença (Huntington) geneticamente mapeada; - 1990: inaugurado o Projeto Genoma Humano.

Os descobridores da estrutura da molécula de DNA, James Watson e Francis Crick; à direita, mapa circular dos genes até o momento implicados nas doenças humanas.

Breve histórico da patologia

Na Idade Contemporânea (séc. XX-XXI): - novas tecnologias (microscopia eletrônica, imunoistoquímica, citometria de fluxo, hibridização in situ, reação em cadeia da polimerase [PCR]) estendem o alcance da patologia aos domínios ultraestrutural e molecular.

A patologia contemporânea é uma ciência vasta e sofisticada.

A patologia enquanto especialidade médica

Patologia "Cirúrgica" (Anatômica)

Patologia assistencial

Citopatologia (de órgãos e fluidos)

Patologia "Clínica"

A patologia enquanto especialidade médica

Patologia clínica

A patologia clínica encarrega-se em especial da mensuração dos componentes dos fluidos corporais e de sua análise frente aos parâmetros fisiológicos, interpretando-os à luz do contexto clínico.

A patologia enquanto especialidade médica

Patologia anatômica: padrão-ouro no diagnóstico das doenças

A patologia nasceu como uma ciência morfológica e, apesar de sua gradual evolução até o âmbito molecular, permanece tendo a morfologia como fundamento e como principal recurso diagnóstico.

A patologia enquanto especialidade médica

Patologia anatômica: o exame macroscópico

Dissecção anatomopatológica de um segmento de intestino grosso comprometido por tumor maligno em estágio avançado.

A patologia enquanto especialidade médica

Patologia anatômica: o exame macroscópico

Dissecção anatomopatológica da gordura pericólica para o estudo dos linfonodos regionais.

A patologia enquanto especialidade médica

Patologia anatômica: o exame microscópico

Cortes histológicos de parede intestinal infiltrada por tumor maligno (à esquerda) e linfonodos pericólicos (à direita), corados com hematoxilina-eosina, após fixação em formaldeído e inclusão em parafina.

A patologia enquanto especialidade médica

Patologia anatômica: o exame microscópico

A imuno-histoquímica permite o refinamento diagnóstico em casos cujos achados morfopatológicos são inespecíficos.

A patologia enquanto especialidade médica

O laudo anatomopatológico

Prof. Fabricio Jacobsen

"O patologista está interessado não apenas no reconhecimento das alterações estruturais, mas também no seu significado – nos efeitos destas alterações sobre o funcionamento da célula e dos tecidos e, em última instância, nos seus efeitos sobre o paciente".

- Prof. Dr. S. Robbins (1915-2003).

Referências bibliográficas

Gerais:

1. Kumar V, Abbas A, Aster J. Robbins & Cotran: Pathologic basis of disease. 9th ed. Elsevier; 2016.

2. O'Dowd G, Bell S, Wright S. Wheather's Pathology: A text, atlas and review of histopathology. 9th ed. Elsevier; 2020.

3. Klatt E. Robbins & Cotran: Atlas of pathology. 3rd ed. Elsevier; 2015.

4. Buja L, Krueger G. Netter's Illustrated human pathology. 2nd ed. Elsevier; 2011.

5. Goldblum J, et al. Rosai & Ackerman's Surgical pathology. 11th ed. Elsevier; 2017.

Específicas:

1. Margota, R. História ilustrada da medicina. Manole; 1994.

2. Porter R. The Cambridge Illustrated history of medicine. Cambridge University Press; 2001.

Referências bibliográficas

Complementares:

1. Sociedade Brasileira de Anatomia. Terminologia Anatômica. Manole; 2001.

2. Federative International Committee on Anatomical Terminology. Terminologia Histologica. LWW; 2008.

3. Ovalle WK, Nahirney PC. Netter: Bases da histologia. Elsevier; 2008.

4. Ross MH, Pawlina W. Histologia texto e atlas. 6ª ed. Guanabara Koogan; 2012.

5. Mills S. Histology for pathologists. 4th ed. LWW; 2012.

6. Alberts B, et al. Biologia molecular da célula. 6ª ed. Artmed; 2017.

7. Standring S. Gray's Anatomia: a base anatômica da prática clínica. 40ª ed. Elsevier; 2011.

8. Schunke M, Schulte E, Schumacher U. Prometheus: Atlas de anatomia. Guanabara Koogan; 2007.

9. Netter FH. Atlas de anatomia humana. 7ª ed. Elsevier; 2018.

10.Jansen JT, Netter FH. Netter's Clinical anatomy. 4nd ed. Elsevier; 2019.

11.Moore KL, Persaud PVN. Embriologia clínica. 10ª ed. Elsevier; 2016.

12.Boron W, Boulpaep E. Medical Physiology. 3rd ed. Elsevier; 2017.

13.Coico R, Sunshine G. Immunology. 7th ed. Wiley Blackwell; 2015.

14.Porto C, Porto A. Semiologia médica. 8ª ed. Guanabara Koogan; 2019.

15.Longo DL, Fauci AS, Kasper DL, et al. Medicina interna de Harrison. 18ª ed. Artmed; 2013.

Leitura suplementar

Archives of Pathology & Laboratory Medicine:

East African American Journal:

Sugestão de leitura extracurricular

As Dez Maiores Descobertas da Medicina (Meyer Friedman e Gerald Friedland)

"[Vesalius] acreditava fervorosamente que para uma pessoa conhecer o corpo humano, ela precisava dissecá-lo".

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