

Povos da Mata
10
Rota dos
Aldeia Tembé Tekohaw - PA Wyra’Uhaw
Ritual da Menina-Moça
Povos da Mata
1a edição Brasília, 2025
Aldeia Tembé Tekohaw - PA
Wyra’Uhaw
Ritual da Menina-Moça
Copyright 2025 by Eraldo Peres
[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
EraldoPeres
Texto e pesquisa de conteúdo
ClovisBritto
Texto e coordenação de pesquisa
AngélicaMadeira
Pesquisa e produção executiva
CarolPeres
Preparação de texto e revisão
TeresaMello
Projeto gráfico e direção de arte
JoãoCampello
Ilustrações, legendas e referências
GeovanaPeres
Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF
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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra
Roteiros para o Brasil
Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF
Destino: Aldeia Tembé Tekohaw - PA
• Período: 2023
• Cultura: Wyra’Uhaw – Ritual da Menina-Moça do povo Tembé
• Produção: Photo Agência
Registro
• Objetivo: documentação etnográfica do Wyra’Uhaw, ritual de passagem das jovens do povo Tembé, com foco na transmissão de saberes, fortalecimento da identidade cultural e valorização das práticas de resistência indígena.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de
Notas
• Aldeia Tembé Tekohaw – Território sagrado onde a tradição e a resistência indígena se expressam plenamente.
• Wyra’Uhaw – Ritual que marca a passagem das meninas à vida adulta e reafirma valores comunitários e espirituais do povo Tembé.
• Pinturas corporais e cantos tradicionais – Elementos centrais do ritual que conectam corpo, natureza e ancestralidade.
• Saberes e práticas – Alimentação tradicional, preparo de ornamentos e transmissão oral de ensinamentos sobre o papel social e espiritual das mulheres Tembé.
• Resistência – O ritual como expressão da permanência cultural e afirmação dos direitos territoriais e identitários do povo Tembé.
Equipe
• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres
• Assistente de fotografia: Raimundo Paccó
• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira
• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto
• Produção executiva: Carol Peres



• Moqueado – Prato tradicional preparado com carnes moqueadas e transformadas em farofa, servido durante o ritual, simbolizando partilha, união e continuidade dos
• Cacique Sérgio Tembé – Líder e guardião da cultura, compartilhou a importância do Wyra’Uhaw na preservação do conhecimento tradicional e na luta pela
• Professora Val Tembé – Educadora e uma das guardiãs dos ritos do Wyra’Uhaw, destacou o papel fundamental das mulheres na manutenção e na transmissão das tradições culturais e espirituais dos Tembé.

Wyra’Uhaw
O ritual da menina-moça dos Tembé
Eraldo Peres
A floresta não é apenas um território. Para os povos indígenas, é mãe e casa, sagrada e viva, onde os espíritos dos antigos ainda ensinam o caminho para o futuro.
Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
Minha jornada rumo à Terra Indígena Tenetehara, na aldeia Tekohaw, alto Rio Guamá, Pará, em 2023, começou antes mesmo de pisar no território. O caminho era desafiador: estradas estreitas, quase fechadas pela mata, nos obrigavam a reduzir a marcha, como se a floresta nos testasse antes de permitir a passagem. Na entrada, guerreiros Tembé nos aguardavam — corpos pintados, olhares firmes — prontos para nos conduzir à tenda comunitária, onde o cacique Sérgio Tembé nos receberia para apresentar os rituais.
A aldeia pulsava em preparação para o Wyra’Uhaw – o Ritual da Menina-Moça, um dos momentos mais sagrados para os Tembé. No centro do pátio, o som rítmico dos maracás marcava o compasso da ancestralidade. Jovens, mulheres e homens dançavam em círculo, os pés firmes na terra, reverenciando os espíritos ancestrais. Os cânticos subiam para o céu, misturando-se à fumaça dos cigarros preparados com calma e respeito pelos mais velhos. A floresta pulsava junto dos corpos em movimento, devolvendo ao povo o eco da própria história.
Os dias seguintes foram marcados por preparações meticulosas. As jovens eram cobertas com a tinta preta do
jenipapo, os cabelos, trançados com folhas e adornos, e penas brancas, cuidadosamente fixadas nos corpos. Os anciãos guiavam cada gesto, reforçando que aquele não era apenas um ritual, mas um laço inquebrantável entre gerações. Os meninos também acompanhavam os ensinamentos, aprendendo o peso e a responsabilidade do novo ciclo que as adolescentes iniciavam.
No grande dia, o moqueado, alimento tradicional assado sobre folhas, foi distribuído pelas jovens aos participantes, simbolizando a abundância e a partilha, como lembra a professora e guardiã das tradições Val Tembé. Já iniciadas, as meninas, agora mulheres, retornaram à dança, com passos marcando canções que a floresta parecia reconhecer. O círculo crescia, os maracás vibravam, os pés tocavam a terra com força e respeito. Ali, passado e presente se entrelaçam em um só ritmo, um só corpo, um só povo.
Na Aldeia Tekohaw, o tempo não corre como no mundo de fora. Aqui, a ancestralidade caminha ao lado dos vivos, e cada rito é um elo que mantém o povo unido à própria história. Ao amanhecer, enquanto a neblina cobria a floresta, percebi que o Wyra’Uhaw não era apenas uma celebração de passagem. Era um juramento silencioso entre passado, presente e futuro, garantindo que os ensinamentos da floresta jamais serão esquecidos.

Ritual Tembé durante amanhecer na aldeia Tekohaw (PA)


Festejos Wyra’Uhaw
Rituais de iniciação
Tembé Tenetehara Clovis Britto
Os nossos ancestrais não são só a geração que nos antecedeu agora, do nosso avô, do nosso bisavô. É uma grande corrente de seres que já passaram por aqui, que, no caso da nossa cultura, foram os continuadores de ritos, de práticas, da nossa tradição.
(...) Até hoje nós entendemos que estamos nesse mesmo contínuo de interação com a memória do nosso povo, com a memória da nossa cultura. Nós temos uma origem, sabemos de onde somos, amamos esse lugar, nós o reverenciamos
Ailton Krenak (2020, p. 28)
A citação em epígrafe resume a concepção de ancestralidade indígena defendida por Ailton Krenak (2020) como fruto de uma corrente de seres humanos e não humanos, em contínua interação, articulando passado, presente e futuro. O autor reconhece o bemviver como um modo de estar no mundo, de se conectar com a terra, em uma cosmovisão de respeito e de equilíbrio construída pela vida das pessoas e de todos os outros seres, incluindo os encantados. Desse modo, estamos subordinados “a uma ecologia planetária, nós também, nosso corpo, assim como todos os outros seres, ele está dentro dessa ecologia ou dessa vasta biosfera do planeta como um elemento de equilíbrio e regulador. (...) Ao mesmo tempo em que somos dentro desse organismo, nós podemos pensar junto com ele, ouvir dele, aprender com ele” (Krenak, 2020, p. 13).
As cosmologias indígenas são diversas e dinâmicas, concebem a natureza como um ser vivo com o qual estabelecem uma relação de reciprocidade, comunicando-se por meio dos sonhos, das práticas rituais e dos encantados – seres que não morreram e vivem no mundo do encante, nos termos de Raymundo Maués e Gisela Villacorta (2004). Ou, conforme destacou Mariana
Pettersen Soares (2013), “são considerados mortos que habitam o mundo dos encantados, localizado no mato, no ar ou no rio. Podem se comunicar com os vivos por meio de incorporações, de visagens e de sonhos”, vivendo em realidades outras “como no caso do mundo do encante, podendo, contudo, se fazerem presentes na vida dos vivos no contexto das práticas rituais” (p. 14). Portanto, é inegável que os diferentes povos indígenas estabelecem outras relações com o que definimos como patrimônio, a partir da valorização da ancestralidade, da corporeidade e da oralidade, por exemplo.
Um dos modos de operação dessas interações é por meio de rituais, cerimônias e práticas que mobilizam a interconexão entre os seres e o cosmos. Segundo Mariza Peirano (2003), “o ritual é um fenômeno especial da sociedade, que nos aponta e revela expressões e valores, mas expande, ilumina e ressalta o que já é comum a um determinado grupo” (p. 10). Para a autora, significa um “sistema cultural de comunicação simbólica, formado por sequências ordenadas e padronizadas de palavras e atos, em geral expressos por múltiplos meios. Estas sequências têm conteúdo e arranjos caracterizados por graus variados de formalidade (convencionalidade), estereotipia (rigidez), condensação (fusão) e redundância (repetição)” (Peirano, 2003, p. 11).
Os rituais marcam mudanças de estado social, formas de morrer e renascer simbolicamente, representam formas de iniciação que distinguem mudanças ou passagem – por isso também conhecidos como ritos de passagem – nas mais diversas sociedades, a exemplo do nascimento, do ingresso na vida adulta (ritos de puberdade), do casamento e da morte. Nesses termos, extrapolam a transição, tornando-se também rituais de formação.
Entre os povos indígenas no Brasil sobrevivem diferentes ritos de passagem que visam transmitir conhecimentos ancestrais, reforçam laços coletivos e modos singulares de viver e conceber o mundo, a exemplo de celebrações de períodos de caça, pesca, colheita, curas corporais e proteção contra maus espíritos, rituais de nascimento, luto e transição para a idade adulta. Neste último caso, são exemplares os rituais Hetohoky do povo Iny-Karajá e Hèrèrawo do povo Javaé, que celebram a passagem da infância para a vida adulta dos meninos; o ritual da Tucandeira dos SateréMawé, que marca a transição sexual dos rapazes e os prepara para serem guerreiros; e os rituais da Moça Nova dos Ticuna e da Menina-Moça dos Guajajara e Tembé, quedefinem a transformação da menina para a vida adulta após a primeira menstruação, a menarca.
É o caso do ritual da Menina-Moça entre os Tembé, ramo ocidental dos Tenetehara localizado no Pará, cuja ramificação oriental é conhecida como Guajajara, no Maranhão. Os Tembé Tenetehara ocupam a Terra Indígena (TI) Alto Turiaçu, a TI Turé-Mariquita e a TI Alto Rio Guamá, onde fica a Aldeia Tekohaw, uma das comunidades do sudeste paraense em plena Amazônia.
A festa da Menina-Moça, também conhecida como Wyra’Uhaw (na língua nativa) ou Festa do Moqueado, é um conjunto de festejos para marcar a passagem da infância para a idade adulta. Apesar da nomenclatura, trata-se de uma cerimônia de passagem para a puberdade, entre adolescentes de ambos os sexos, quando ocorre a primeira menstruação das meninas ou no momento em que os meninos começam a mudar de voz. As práticas representam mudança de responsabilidades no cotidiano da aldeia, além do fortalecimento da família extensa.
De acordo com Vanderlúcia Ponte e Maria José Aquino (2013) os festejos são marcados por três momentos: pintura corporal após isolamento na tocaia, preparo do mingau e a festa propriamente dita. As pesquisadoras destacam que tudo começa com os grafismos – pinturas corporais com o líquido do jenipapo visando proteção e fertilidade –, seguidos do isolamento das meninas em uma cabana, marcado por um conjunto de interdições. Depois, participam da festa do mingau, “ocasião em que as iniciantes ingerem a mandiocaba [mandioca da Amazônia de sabor adocicado], compartilhando-o com os presentes. (...) Ao mesmo tempo, existe um grande investimento na caça de animais de
pena colorida e de boa ingestão, da coleta de sementes e do jenipapo, além da confceção de ornamentos e instrumentos musicais” (p. 1). As autoras concluem que se trata de um processo xamanístico, marcado pela ingestão de caças, por cantos e danças, uso de plumagens e pinturas corporais visando a proteção dos encantados.
Na comemoração, as meninas se tornam mulheres por meio de práticas de iniciação, potencializando as relações com os espíritos karuwar (Zawar/onça e Zahy/lua) em seus corpos, “passando a desenvolver uma diversidade de saberes sobre plantas, cura, artesanato, maternidade, o que as tornam constituidoras de poder” (Ponte, 2022, p. 38).
Para Vanderlúcia Ponte (2022), os Tembé acreditam que o jenipapo é o espírito da lua e, por esse motivo, os corpos das meninas são corbertos por essa tintura e os grafismos também remetem a essa energia: “A pintura da lua é feita nas costas, no peito e nos membros superiores e inferiores. Sendo as duas mãos e os dois pés totalmente imersos ao sumo de jenipapo, de forma que eles fiquem completamente pretos. (...) Os desenhos da meia lua são pintados,
pois é o período em que ela está mudando de fase” (p. 42). Também está presente nos grafismos a pintura de Zawar. Na mitologia Tembé a onça foi quem ensinou a festa, “por isso, a pintura de Zawar é ornada no rosto das meninas-moças (...) posicionando o corpo da mulher em identificação/diferenciação perspectiva com a onça e suas potências [mobilizando] o atributo de coragem, bravura, força e rapidez” (p. 43-45).
O conceito de corpos-território pode contribuir para compreender a simbiose dos Tembé com as culturas não humanas, com a natureza e os encantados: “O território constitui o organismo físico, psicoemocional, mental e espiritual das mulheres, assim como as florestas, a fauna, a flora e as águas são mantidas pelos seus corpos. Ambos, corpo e território, vivem em profunda relação de codependência ecológica” (Coradin; Oliveira, 2024, p. 3). Imagem emblemática acionada pelo depoimento de Naldo Tembé, quando afirmou na pesquisa realizada pelo Iphan de Belém, sistematizada na obra Patrimônio Cultural TembéTenetehara: “Nosso principal patrimônio cultural é a terra. Não tem como vivermos nossa cultura sem a nossa terra!” (Neves; Cardoso, 2015, p. 11).
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.


Meninas em dança ritual na aldeia


Cacique Sérgio Tembé e família chegam para a cerimônia


Início das pinturas corporais com jenipapo, que significa a conexão espiritual com zahy (lua)



Tigela com tinta de jenipapo, que conecta os iniciados com os espíritos





Meninas tomam bebida à base de água e farinha

Cacique Sérgio Tembé fuma o tapiári, mistura de seiva e tabaco








Meninas e meninos se preparam para os rituais




Meninos com pinturas corporais afirmam a ligação com zawar (onça)



Mingau preparado com raízes e mandioca

Vestes e adornos para a cerimônia






Meninos com vestimentas e adornos cerimoniais no fim da Festa do Moqueado

Meninas com trajes especiais para a festa

Cacique Sérgio Tembé dirige os cantos da celebração

Meninas e meninos dançam no ritual de passagem

Meninas servem o moqueado







Pai e filhos após a Festa da Menina-Moça

Referências culturais



Wyra’Uhaw e o Moqueado: Tradição e Resistência do Povo Tembé
OWyra’Uhaw,conhecidocomooRitualdaMenina-Moça,éumadas maisimportantestradiçõesdopovoTembé,realizadonaAldeia Tekohaw,noPará.Esseritodepassagemmarcaatransiçãodas meninasparaavidaadultaereafirmavalorescomunitários,espirituais eidentitáriosdopovo.Duranteoritual,asjovenssãopreparadaspelas mulheresmaisvelhasdacomunidade,quetransmitemsaberes ancestraisrelacionadosaopapelsocialeespiritualdasindígenas Tembé,fortalecendolaçosfamiliaresecoletivos.
A celebração inclui práticas como pinturas corporais feitas com jenipapo e urucum, cantos tradicionais entoados pelos anciãos e danças que afirmam a relação entre o corpo, a natureza e os espíritos protetores. Cada gesto e cada ornamento carregam significados profundos, que orientam as meninas na nova etapa de vida. O Wyra’Uhaw reforça, assim, a resistência cultural do povo Tembé, garantindo que práticas e valores permaneçam vivos diante dos desafios impostos pelo mundo contemporâneo.
Integradaaesserito,afestadomoqueadodesempenhaumpapel central.Oalimento,preparadoapartirdecarnesmoqueadas transformadasemumafarofa,representaapartilhaeaunião comunitária.Servidonofinal,reúnetodososparticipantes— famílias,parentes,convidadoselideranças—emumfestejoque simbolizaaabundância,asolidariedadeeacontinuidadedos saberes.Maisdoqueumarefeição,éumgestocoletivoquesustenta apermanênciadopovoTembénoterritórioeaforçadastradições.
Arte e cultura
A igara da noite
A Lua trazia subindo o camatiã
E em seu brilho suave espargia
Pingos de prata nos cabelos da cunhã
É a hora, é o tempo
Da solidão, do confinamento
Da lunação, a vez primeira
O sangue Tikuna seu ventre molhou
Menina, moça, criança, mulher
Para a vida despertou
No som da flauta, a dança do bambu
As velhas mulheres, na pelação
Mascarados e as cuias de paju-arú
D'orune, mito, universo e criação
Caíram as gotas de pratas
Tiradas uma a uma
Pelos dedos hábeis das antigas
Cabeça nua, as mãos amigas
Acalmando o sofrimento e a dor
É o clã mutum a dançar
É a nova mulher, Tayná
É a festa da tradição, a beleza da cor
Música Tainá, a Festa da Moça Nova, do povo Munduruku
Filmes
• AsHiperMulheres, documentário de 2012, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro
• RitodaMenina-MoçaTembé, documentário da Secretaria de Turismo do Pará
• ToréVirtual, curta-metragem de Hugo Fulni-ô e Carol Berger, gravado no território Fulni-ô.
• Yãmiyhex:AsMulheres-Espírito, documentário de Sueli e Isael Maxakali
Livros
• AFestadaMenina-MoçaTejuviJuma-UruEuWau
Wau, artigo publicado pela agência de jornalismo
Amazônia Real (amazoniareal.com.br)
• AFestadaMoçaNova:RitualdeIniciaçãoFeminina dosÍndiosTicuna, de Edson Matarezio, lançado pela editora Humanitas/Fapesp
• CulturaPopulareRitosdePassagem, de Câmara
Cascudo
• DeAlmaseÁguaKunhãs, de Márcia Kambeba, livraria
Maracá
• MeninasdeTrançaeFlores:FestasdeIniciaçãona
CulturaBrasileira, de Eliana Alves Cruz
• SaberesdaFloresta, de Márcia Wayna Kambeba, livraria
Maracá

Músicas
• CantodaFormigaKaingang, disponível em Cantos da Floresta
• CantodeGuerraKaingang, disponível em Cantos da Floresta
• FestadaMoçaNova, no Boi Garantido, de Rosinaldo Carneiro, Rossy Carmo e Fernando Glicério
• ReluzenteGuerreira, da tribo Munduruku
• Tainá,aFestadaMoçaNova, da tribo Munduruku

Preparo do moqueado: carne de caça assada lentamente sobre a brasa, tradição do Ritual da Menina-Moça do povo Tembé

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica


Glossário

Cantilenas – Cantos durante o ritual, responsáveis por chamar e afastar os espíritos (karuwar). Executadas por pajés e cantores mais experientes, as cantorias guiam os rituais e potencializam as transformações espirituais dos participantes.
Capacete de penas – Ornamento usado pelas meninas-moças no encerramento do ritual, confeccionado com penas de arara, papagaio e mutum. Representa a ligação com os pássaros, a leveza, a proteção espiritual e a transmutação corporal.
Cosmopolítica – Conceito que expressa as relações entre humanos e não humanos, mundo social e mundo espiritual. No Wyra’Uhaw, manifesta-se na coexistência das meninas-moças com os espíritos, na alteridade e nas práticas para reforçar coesão comunitária e resistência cultural.
Festa do mingau – Segunda etapa do Wyra’Uhaw, na qual a jovem prepara e serve mingau aos convidados. Feito de mandiocaba, cará e macaxeira, é oferecido como parte do aprendizado doméstico e da preparação física: a vaporização vaginal com o mingau é uma prática terapêutica e de fortalecimento do corpo.
Festa do moqueado – Terceira e última fase do Wyra’Uhaw, marcada por preparo e partilha do moqueado: carne de caça defumada e transformada em farofa. Significa a comunhão e a permanência da tradição. É um banquete que celebra a nova condição da menina-moça.
Jenipapo – Fruto cujo sumo é utilizado na pintura corporal, simboliza a proteção espiritual e a ligação com Zahy, o espírito da lua. É fundamental na construção simbólica do corpo da meninamoça, tornando-a visível ou invisível diante das forças espirituais que atuam na cerimônia.
Kaê-Kaê – Dança em pares durante o ritual, evoca os movimentos da guariba (macaco), marca a interação com os espíritos, reforça a resistência física e a coesão social. É conduzida ao som de cantorias e do maracá.
Karuwar(s) – Espíritos que habitam o mundo sociocósmico Tembé. São agentes de força e transformação, capazes de afetar os corpos humanos, especialmente das mulheres em rituais de passagem. Entre eles, destacam-se: Zawar (onça), Zahy (lua) e o espírito de Verônica Tembé, antiga parteira e líder da aldeia.
Maracá – Instrumento usado por pajés e cantores, composto por uma cabaça com sementes. O som é considerado potente na mediação com os espíritos e revela-se fundamental nas cantorias e na condução do Wyra’Uhaw.
Moqueado – Alimento com carne de caça assada e defumada sobre jirau. Após dias de preparo, a carne é desfiada e misturada à farinha, formando uma farofa que é partilhada no encerramento do ritual. Representa remédio (puràg), proteção e fortalecimento espiritual.

Pajé – Conduz os rituais e é responsável pela mediação com os espíritos e pelo cuidado com os participantes. Atua no controle das karuwar, orienta as práticas e protege as meninas-moças no processo de transformação.
Pintura corporal – Grafismos elaborados com jenipapo e urucum, carregados de sentidos cosmológicos. As pinturas marcam a passagem da menina-moça e conectam o corpo ao mundo dos espíritos, especialmente Zahy (lua) e Zawar (onça).
Puràg – Termo Tembé para remédio. Refere-se tanto a práticas medicinais quanto a alimentos rituais que fortalecem o corpo e protegem contra influências espirituais negativas. O moqueado e o banho de jenipapo são exemplos de puràg.
Resguardo – Período em que a jovem permanece isolada, com alimentação restrita, assim como contato com o exterior. Dessa forma, protege-se de influências espirituais e fortalece o corpo para a nova fase. Essencial na cosmopolítica do corpo feminino Tembé.
Tocaia – A primeira fase do ritual é a reclusão da menina-moça após a menarca [menstruação], quando recebe orientações das mulheres mais velhas sobre cuidados corporais, espirituais e sociais. Representa um esconderijo, espaço de proteção e aprendizado.
Wyra’Uhaw – Ritual de passagem das meninas do povo Tembé, na aldeia Tekohaw (PA), que marca a transição da infância para a vida adulta. Estruturado em três momentos: tocaia, festa do mingau e festa do moqueado, integra saberes cosmológicos, espirituais e sociais.
Zahy – Espírito da lua, importante na cosmologia Tembé. Relacionado à fertilidade e ao ciclo da vida, é evocado na pintura corporal com jenipapo. Representa força, mistério e proteção, especialmente no Wyra’Uhaw.
Zawar – Espírito da onça, ser de força, bravura e agilidade. É transmitido às jovens por meio da pintura no rosto, o que lhes confere atributos essenciais à vida adulta. A onça é considerada ancestral e professora dos Tembé, tendo ensinado o ritual do moqueado.
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SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.
SOARES, Mariana Pettersen. Almas e encantados: uma cosmologia sobre o mundo dos mortos na região do baixo Amazonas. Tese (Doutorado em Antropologia), Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
Agradecimentos
Nossa profunda gratidão à comunidade Tembé da Aldeia Tekohaw, que nos acolheu com generosidade e sabedoria durante os dias de registro do Wyra’Uhaw – Ritual da Menina-Moça. Cada gesto, cada canto e cada ensinamento compartilhado enriqueceram de forma especial este trabalho.
Agradecemos ao cacique Sérgio Tembé, líder e guardião da cultura que, com firmeza e sensibilidade, compartilhou a importância do Wyra’Uhaw na preservação do conhecimento tradicional e na luta pela autonomia do povo Tembé. A palavra dele reafirma o compromisso da comunidade com a afirmação cultural e a proteção do território.
Nosso reconhecimento também à professora Val Tembé, uma das guardiãs dos ritos do Wyra’Uhaw, que destacou com clareza o papel fundamental das mulheres na manutenção e na transmissão das tradições culturais e espirituais do povo. A presença da educadora inspira e fortalece o legado vivo nas novas gerações.
Por fim, expressamos nosso agradecimento fraterno a todas as meninas, meninos, mães e famílias que se juntam para a realização deste ritual e festa. São eles que, com sua presença, afeto e participação ativa, sustentam a continuidade desta celebração ancestral, reafirmando os laços comunitários e a força da cultura Tembé.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi
Santo