Vaqueiro das Águas - Comitiva pantaneira

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Sertões

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Organização
Eraldo Peres
Rota dos
Comitiva Pantaneira Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS

Sertões

1a edição Brasília, 2025

Rota dos
Corumbá - MS

Copyright 2025 by Eraldo Peres

[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida por qualquer meio – eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro – sem autorização prévia dos detentores dos direitos autorais.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua

Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo

EraldoPeres

Texto e pesquisa de conteúdo

ClovisBritto

Texto e coordenação de pesquisa

AngélicaMadeira

Pesquisa e produção executiva

CarolPeres

Preparação de texto e revisão

TeresaMello

Projeto gráfico e direção de arte

JoãoCampello

Ilustrações, legendas e referências

GeovanaPeres

Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF

CEP: 72.006-345

Tel: (61) 99932-7158

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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra

Roteiros para o Brasil

Angélica Madeira

Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.

Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.

Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.

Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do

Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.

Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.

A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.

Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem

Rota

• Saída: Brasília - DF

Destino: Corumbá - MS

• Período: 2017

• Cultura: comitiva pantaneira e modos de vida dos vaqueiros do Pantanal

• Produção: Photo Agência

Registro

• Objetivo: documentação etnográfica da cultura pantaneira, com foco na tradição das comitivas, ritos, deslocamentos e trabalho com o gado.

• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.

Equipe

• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres

• Produção local: guia Quequé

• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira

• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto

• Produção executiva: Carol Peres

Notas

• Pantanal sul-mato-grossense – Terra alagável, de beleza e dureza extremas.

• Comitiva pantaneira – Deslocamento tradicional de gado formado por vaqueiros, cozinheiros, cavalos e cachorros.

• Lida no campo – Laçadas, travessias e acampamentos ribeirinhos.

• Cozinha pantaneira – Alimentação, convívio e descanso a céu aberto.

• Cantorias e causos – Tradição oral, memória e resistência.

• Vaqueiro das águas – Entre enchentes, alagados e veredas, a comitiva molda sua identidade em movimento.

• Preservação – Registro de um modo de vida que resiste ao tempo e às mudanças do território.

Entrevistas

• Renê de Almeida – Chefe de comitiva, vaqueiro e guardião da tradição itinerante.

Comitiva Pantaneira

A travessia das águas e do tempo Eraldo Peres

Os sertões e suas gentes criaram um Brasil rústico e andarilho, onde os vaqueiros, tropeiros e comitivas desenham caminhos e histórias sobre a terra alagada e poeirenta do interior.

Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro

Em maio de 2017, acompanhei uma comitiva pantaneira na travessia pelo Pantanal do Paiaguás e de Nhecolândia, partindo de Corumbá, Mato Grosso do Sul, rumo ao coração da maior planície alagável do mundo. O rio Taquari era nosso desafio, e a estrada, um labirinto de lama e água, se desdobrava em paisagens de alagados, campos abertos e céu sem fim. A jornada era tão imprevisível quanto a própria natureza do bioma, alternando tempestades e calmarias, sempre impondo sua grandiosidade.

Atravessar as águas do Pantanal em tempos de cheia é um ato de fé e resiliência. Seguimos com Quequé, nosso guia inseparável, um profundo conhecedor de cada vereda submersa. A bordo do carro que enfrentava os atoleiros, encharcado pela chuva que não dava trégua, os equipamentos fotográficos sofriam com a umidade, os pneus deslizavam na lama, mas o trabalho continuava, guiado pelo fascínio da comitiva e de sua tropa. Os vaqueiros, impassíveis, conduziam o gado com a destreza de quem aprendeu com a terra e a água.

No final do dia, quando os cavalos já estavam soltos e o fogo ardia no acampamento, vinha um dos momentos mais esperados: a roda de prosa da comitiva. Entre causos, risadas e histórias de estrada, passava de mão em mão a guampa de tereré: o mate gelado servido no tradicional recipiente de chifre

de boi. Mais do que uma bebida refrescante, era um elo entre aqueles homens que viviam sobre a sela e o pasto, um ritual que selava a camaradagem e mantinha viva a tradição pantaneira.

A noite era embalada pelo coaxar dos sapos e pelo vento carregando o cheiro de terra molhada. No amanhecer, o sol surgia vermelho entre as nuvens, refletindo-se nas águas espelhadas dos grandes lagos formados pelas chuvas. De repente, como se fizessem parte do espetáculo, as araras surgiam no céu, rasantes e barulhentas, até pousarem nos pastos onde descansavam os cavalos e as mulas. Ali, o Pantanal se revelava em sua plenitude, um palco onde natureza e homem coexistem em um balé de sobrevivência e tradição.

A comitiva não é apenas um deslocamento de gado, mas um ritual de passagem. Cada vaqueiro, cada boi, cada cavalo tem sua função nesse ciclo que se repete há séculos. Entre os desafios da estrada e os banhos forçados no Taquari, encontrei a alma desse Brasil errante, que se mantém vivo no lombo dos cavalos, no estrondo das boiadas e no calor das cozinhas, onde o cheiro de comida feita no fogão a lenha se mistura às histórias contadas ao redor do fogo.

No Pantanal, a estrada é feita de água, a poeira vira lama e o tempo se dobra sobre si mesmo. O que vi ali não foi apenas uma travessia, mas uma celebração da vida em estado bruto, onde homens, bichos e terra se misturam em um só ritmo, um só destino. E quando deixei aquele território, carreguei comigo a certeza de que os caminhos da comitiva não terminam – eles seguem, fluindo como os rios que nunca param de correr.

Renê de Almeida, chefe de comitiva, ao amanhecer às margens do Rio Taquari, Corumbá, (MS)

Murmúrios das águas

A comitiva pantaneira na costura dos lugares

Louvo as natências do homem do Pantanal.

Todos somos devedores destas águas. Somos todos começos de brejos e de rãs.

E a fala dos nossos vaqueiros carrega murmúrios destas águas.

Parece que a fala de nossos vaqueiros tem consoantes líquidas e carrega de umidez as suas palavras.

Penso que os homens deste lugar são a continuação destas águas.

Manoel de Barros

Comitiva é sinônimo de cortejo, séquito, préstito, acompanhamento. Consiste em um conjunto de deslocamentos que opera uma costura de lugares. Especificamente no Pantanal sul-mato-grossense, é lugar onde o regime das águas orienta o movimento da vida, opera agenciamentos entre homens, animais e águas. Talvez, por essa razão, o poeta Manoel de Barros tenha afirmado que os vaqueiros pantaneiros carregam de umidez as palavras.

É comum encontrar a definição do Pantanal como a maior planície inundável do mundo. Esse ecossistema abarca o Brasil, a Bolívia e o Paraguai, sendo a maior parte localizada nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Segundo destacaram Maria Olívia Leite e Sueli Ângelo Furlan (2010), a região está sujeita a um regime sazonal de águas, com precipitação média de 1.400 mm, variando entre 800 e 1.600 mm. O período de chuvas contempla os meses de outubro a abril, concentrando cerca de 70 a 80% da média anual. Sublinham ainda que a vegetação é influenciada pela floresta amazônica, Cerrado (predominante), chaco e floresta atlântica, o que resulta em um mosaico de fisionomias declarado Patrimônio Mundial Natural e Reserva da

Biosfera. É nesse ecossistema que os grupos itinerantes desenvolvem seus trânsitos.

De acordo com Eron Brum (2010), as comitivas pantaneiras existem há pelo menos duzentos anos, sendo herdeiras dos tropeiros e coincidindo com o início da pecuária como atividade embrionária na região. A escassez e a precariedade de estradas contribuíram para que o deslocamento das tropas constituísse em uma das principais atividades dos tropeiros/vaqueiros ao longo dos séculos XIX e início do XX. Brum informa que, apesar da abertura de vias e do transporte do gado, a prática de transporte continua como uma das principais estratégias de circulação de animais e produtos, especialmente no período das cheias, momento em que adquirem mais visibilidade no trânsito do gado para leilões, para embarque nas gaiolas boiadeiras [caminhões de transporte] ou para garantir pastagens e terrenos mais secos.

O agrupamento em marcha pode conduzir reses por centenas de quilômetros, operação que alcança semanas e/ou meses explorando locais para o manejo entre fazendas ou para compra/ venda: “[É] uma forma de manejo tradicional, como uma prática que está diretamente conectada ao ciclo das águas do Pantanal” (Leite, 2010, p. 30). Nômades como a própria geografia pantaneira, os vaqueiros se constroem no deslocamento: “(...) costumam acordar antes de o sol nascer. Desfazem o acampamento, retiram redes e mosquiteiros, que são guardados em seus dobros (malas). Encilham a tropa e então partem para apanhar o gado. Só irão parar quando estiverem no ponto de almoço e então, partem para nova jornada, que segue até o ponto onde irão pousar” (Leite; Furlan, 2010, p. 5).

Clovis Britto

Na verdade, mais do que uma circulação de animais e pessoas, a comitiva oportuniza uma transmissão de saberes e expressões em torno de um sertão profundo, marcado pela transição entre a seca e o murmúrio das águas: “(...) hábil condutor de boiadas; apto a desenvolver as atividades de rodeio, de doma, de carneada, de apartação; ágil no laço; valente na bagualegação e, sobretudo, caprichoso artesão, quando prepara o couro e fabrica suas tralhas de arreio” (Leite, 2010, p. 77-78). Os vaqueiros se mesclam com o espaço, construindo uma memória topográfica. Cordilheiras [áreas não alagadas], lagoas, baías e corixos evocam o Mato Grosso do Sul e todo um Brasil interior, um Brasil Central com seus campos, Cerrados e veredas que se expandem como válvulas coronárias a instituir uma hidrografia lírica.

Corixos são canais que ligam as águas de lagoas, baías e alagados com rios próximos, veios que se formam em épocas de chuvas e que deságuam em outros rios. Consistem em significativa figura de linguagem que metaforiza a passagem do tempo e que evoca o movimento empreendido pelos grupos de homens e animais. Os rios se tornam singulares na medida em que os agentes estabelecem diferentes formas de experienciálos e essas experiências no/com o movimento das águas impactam consideravelmente modos de vida, práticas, éticas,

lógicas e linguagens. Além disso, as comitivas agenciam águas perenes e temporárias, lagoas, brejos e campos baixos que escoam para os rios vizinhos. É por esse motivo que os boiadeiros conduzem as boiadas e, ambos, são conduzidos pela geografia instável que também se desloca. A tropa pantaneira se torna, ela própria, uma passagem.

Entre ponteiros, meeiros (culateiros ou culatreiros) e condutores, alcunhas dadas para os vaqueiros que ocupam funções específicas à frente (na guia), no meio e ao final dos grupos; o som do berrante e de cavalos, mulas, burros e petiços; os peões atravessam os sertões úmidos do oeste brasileiro orientando o gado, transmitindo conhecimentos e despertando memórias. Conforme sublinhou Carmo Bernardes (1995), “as comitivas possuem uma hierarquia, geralmente demarcada pelas figuras do condutor, também conhecido como comissário, seguido pelo capataz, pelo contador, o arribista, o ponteiro e o culatreiro, além do cozinheiro” (p. 46). Presença marcante nos pantanais de Paiaguás (nos municípios de Sonora, Coxim e Corumbá, no Mato Grosso do Sul) e de Nhecolândia (nos municípios de Rio Verde do Mato Grosso, Aquidauana e Corumbá, no Mato Grosso do Sul), uma das mais expressivas regiões criadoras de gado do país, os grupos percorrem um

mapa instável grafado na memória dos pantaneiros, conhecedores dos animais mais aptos, das melhores pastagens, dos mangueiros para pernoite, dos atalhos e dos perigos.

As comitivas são marcadas por um universo telúrico, pela interiorização dos elementos da paisagem de tal modo que não é possível separar os peões dos lugares onde realizam as travessias. Os vaqueiros desenvolvem habilidades que variam de técnicas de contagem de bois, de identificação do odor da rês parida e de percepção acurada para “pegadas, cheiros, sons, como a presença de cobras e onças, que podem assustar a tropa e a boiada. Um exemplo é a posição dos ovos de caramujo em determinada altura, que indica que o nível das águas não irá subir acima do local de postura” (Leite; Furlan, 2010, p. 9).

No mesmo aspecto, criam um conjunto de táticas para enfrentar as adversidades do deslocamento, na definição dos apetrechos (laços, peias, alforjes, redes, manoplas, guampas), das vestimentas (calça jeans, calça, cinto e botas de couro, guaica, faixa paraguaia, machete, camisa e chapéu) e na produção da alimentação (não por acaso desses movimentos resultaram o arroz carreteiro e o macarrão tropeiro, por exemplo).

Nos intervalos das travessias, surgem oportunidades para os causos, as músicas e as anedotas. Ao longo do percurso são produzidas memórias topográficas em torno de outras passagens, grupos e murmúrios das águas. Os vaqueiros se confundem com a paisagem, com os espaços que atravessam, se tornam um repositório de um saber pacientemente construído na itinerância, entre os ciclos da enchente, da cheia, da vazante e da seca. Conforme expresso na letra Comitiva Esperança, de autoria de Almir Sater e Paulo Simões: “Nossa viagem não é ligeira. Ninguém tem pressa de chegar. A nossa estrada é boiadeira. Não interessa onde vai dar. (...) Só voltamos vou confessar. É que as águas chegaram em janeiro. Deslocamos um barco ligeiro. Fomos pra Corumbá...”.

Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.

Amanhecer em curral às margens do Rio Taquari
Vaqueiro João de Assis
Cozinha pantaneira às margens do Rio Taquari
Cozinheiro da comitiva Odair Batista
Vaqueiro Antônio de Oliveira
Travessia no Rio Taquari
Vaqueiro João Aquino Pereira
Vaqueiro João Aquino Pereira
Vaqueiro Renan Lopes Nascimento
Guampa: cuia de chifre de boi feita para tomar tereré
Vaqueiro João Aquino Pereira

Referências culturais

Berrante, tereré e rodas de prosa encantam a comitiva do vaqueiro das águas

A comitiva pantaneira articula práticas herdadas dos antigos tropeiros com saberes próprios do território alagável do Pantanal.

Mais do que conduzir o gado, o vaqueiro das águas também pilota canoa, lê rastros, cozinha ao relento e mantém vivas tradições sonoras e espirituais.

Elementos como o uso do berrante, a relação com o cavalo pantaneiro, a cantoria noturna e os vínculos com povos indígenas da região integram um sistema cultural moldado pelas cheias e vazantes.

Essa prática reúne conhecimentos sobre o tempo, o território e a coletividade, expressos tanto nos gestos diários quanto na oralidade, nas canções e nos rituais de passagem.

Arte e cultura

O rio me ensinou a escutar o silêncio

Sou distraído com palavras

Mas não com águas.”

Manoel de Barros, em O Livro das Ignorãças (1993)

Guampa de chifre com bomba de metal é tradição no preparo do tereré, bebida gelada à base de erva-mate

Filmes

• ANaçãoquenãoesperouporDeus, de Lucia Murat

• 500Almas, de Joel Pizzini

• Pantanal, de Andrew Sala

• Planuras, de Maurício Copetti

Livros

• CancioneirodoPantanal, de Marly Teixeira Morettini e Sônia da Cunha Urt

• GentePantaneira–CrônicasdasuaHistória, de Abílio

Leite de Barros

• OqueéPantanal, de Albana Xavier Nogueira

• Pantanal:HomemeCultura, de Albana Xavier Nogueira

• ParaEncontraroAzulEuUsoPássaros, de Manoel de Barros

• PoemasRupestres, de Manoel de Barros

• RaízesdoPantanal, de Augusto César Proença

Músicas

• AdeusPantanal, de Itamar Assunção, com Tetê Espíndola

• CantigadoPantanal, de Petrúcio Maia, com Amelinha

• CirandaPantaneira, de Donizete Santos, com Divino e Donizete

• ContemplandooPantanal, de Patrícia e Adriana

• CoraçãoPantaneiro, de Nino, com Sérgio Reis

• JardimdoPantanal, de Ivo de Souza e Zé da Mata

• MagiadoPantanal, de Diego Muller, João Sampaio, Pedro Ortaça, com Pedro Ortaça

• NossaSenhoradoPantanal, de Alzira Espíndola e Orlando Antunes Batista, com Alzira Espíndola

• Pantanal, de Feio, com Yasmin Gontijo

• Pantanal, de Marcus Viana

• PantanalemSilêncio, de Aral Cardoso

• SinfoniaPantaneira, de Mário Maranhão e Sérgio Reis, com Sérgio Reis

• TremdoPantanal, de Paulo Simões e Geraldo Roça, com Almir Sater

• VentoBravo, de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, com Edu Lobo

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.

Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.

Linha do Tempo

Maracatu Rural

Nazaré da Mata - PE

Cultura Açoriana

Palhoça - SC

Festa de Yemanjá,

Salvador e Itaparica - BA

Pega de Boi no Mato

Serrita - PE

Tropeiros do Sul

Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas

Corumbá - MS

Festa do Carro de Boi

Vazante - MG

Congada

Catalão - GO

Festa do Carro de Boi

Vazante - MG

Maracatu Rural

Nazaré da Mata - PE

Congada

Catalão - GO

Marujada

Bragança - PA

Santo Daime

Céu do Mapiá - AM

Festa de Yemanjá,

Salvador e Itaparica - BA

Wyra’ Uhaw

Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo

Quilombo Vão de AlmasGO

dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração

da Costa Atlântica

Glossário

Arroz carreteiro – Prato típico dos acampamentos de comitivas, feito com arroz, carne seca ou de sol, preparado em fogo de chão.

Berrante – Instrumento de sopro feito geralmente de chifre de boi, utilizado para conduzir o gado e orientar os peões durante as travessias.

Bruaca – Bolsa feita de couro cru, utilizada pelos vaqueiros para transportar alimentos, utensílios e objetos pessoais durante a lida no campo e nas travessias do gado.

Comitiva pantaneira – Agrupamento tradicional de vaqueiros, cozinheiros, cavalos, bois e utensílios que realiza o transporte de gado pelo Pantanal, especialmente em tempos de cheia.

Condutor / Comissário – Responsável pela comitiva, aquele que define a rota, orienta os vaqueiros e organiza a travessia.

Corixo – Pequeno curso d’água que conecta lagoas, baías ou alagados a rios maiores, formando uma rede de veios vitais à dinâmica do Pantanal.

Culateiro / Culatreiro – Vaqueiro posicionado na parte final da comitiva, responsável por manter o gado agrupado.

Faca pantaneira – Lâmina longa e resistente, com cabo geralmente de madeira, usada pelo vaqueiro em tarefas diversas

Guaica – Faixa larga de couro usada na cintura por vaqueiros, onde são fixados objetos como facões e ferramentas.

Guampa de tereré – Recipiente feito geralmente de chifre de boi usado para servir o tereré, bebida gelada tradicional entre os pantaneiros.

Macarrão tropeiro – Preparação simples e nutritiva com macarrão, carne seca ou charque, consumida nos acampamentos durante as travessias.

Mangueiro – Espaço cercado utilizado para reunir e pernoitar o gado nas paradas da comitiva.

Meeiro – É o vaqueiro posicionado no meio da boiada, atuando como ponto de ligação entre a dianteira e o fundo da comitiva.

Pantanal – Maior planície alagável do mundo, localizado em sua maior parte nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. É o território natural da comitiva pantaneira e berço de uma rica cultura agropecuária.

Pantanal da Nhecolândia – Sub-região do Pantanal sul-matogrossense, conhecida pela presença de muitas lagoas de água salobra e pelas extensas áreas de pastagem nativ a. É um dos principais territórios das comitivas tradicionais.

Pantanal do Paiaguás – Sub-região pantaneira situada entre os rios Paraguai e Taquari, caracterizada por vastas áreas alagadas e campos abertos, importante corredor para a circulação de gado durante as cheias.

Pantaneiro – Vaqueiro tradicional do Pantanal, com saberes ligados à criação de gado, às cheias e vazantes dos rios e à lida em comitivas. Representa a identidade cultural forjada na convivência com o bioma.

Ponteiro – Vaqueiro que segue à frente da comitiva, responsável por guiar o trajeto do gado.

Rês – Termo regional para se referir a uma cabeça de gado.

Tereré – Bebida tradicional pantaneira feita com erva-mate e água fria, símbolo de confraternização e identidade entre os vaqueiros.

Tralhas – Conjunto de apetrechos e acessórios usados na lida do vaqueiro, como selas, peias, laços e alforjes.

Tropeada – Deslocamento do gado em grupo, conduzido por grandes extensões de terra.

bibliografia

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional II: danças, recreação e música. Fotografias do autor; desenhos de Oswaldo Storni, Osny Azevedo, do autor e de outras fontes. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. (Coleção Raízes).

BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: LeYa, 2013.

BERNARDES, Carmo. O gado e as larguezas dos Gerais. Estudos Avançados, São Paulo, v. 9, n. 23, jan./abr. 1995.

BRUM, Eron. Cenários do Pantanal: o gado, os peões e as comitivas. Albuquerque: Revista de História, Campo Grande, MS, v. 2, n. 3, p. 19-30, jan./jun. 2010.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2001.

COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz e Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

KRAUSS, Rosalind. O fotográfico. Tradução de Anne Marie Davée. Paris: Editions Macula, 1990.

LEITE, Maria Olívia Ferreira. Comitiva de boiadeiros no Pantanal sul-mato-grossense: modo de vida e leitura da paisagem. 2010. Dissertação (Mestrado em Ciência Ambiental) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

LEITE, Maria Olívia Ferreira; FURLAN, Sueli Ângelo. Comitiva de boiadeiros no Pantanal sul-mato-grossense: modo de vida e leitura da paisagem. Anais do VI Seminário Latino-Americano de Geografia Física e do II Seminário Ibero-Americano de Geografia Física, Universidade de Coimbra, Portugal, maio de 2010.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.

SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.

Agradecimentos

Nosso reconhecimento e gratidão a todas as comunidades pantaneiras que generosamente nos acolheram durante os dias de expedição, compartilhando saberes, caminhos e vivências. Agradecemos de modo especial ao vaqueiro Renê de Almeida, que nos conduziu com firmeza e hospitalidade em meio às águas e às veredas do Pantanal, abrindo as porteiras de sua comitiva para este registro.

Com saudade e respeito, dedicamos este caderno in memoriam ao nosso eterno guia Quequé, cuja presença firme e espírito generoso foram fundamentais para a realização desta etapa do projeto. Seu conhecimento dos caminhos e a relação profunda com a terra pantaneira deixaram marcas que permanecem em nossa memória e neste trabalho.

A todos os colaboradores, vaqueiros, cozinheiros, canoeiros, peões e famílias que tornaram possível esta imersão na cultura da comitiva pantaneira, nosso mais sincero agradecimento.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015

Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.

Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura

O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.

Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi
Santo

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