

Sertões
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Organização
Eraldo Peres
Rota dos
Alegrete - RS
Tropeiros do Sul
Semana Farroupilha
Sertões
Alegrete
Copyright 2025 by Eraldo Peres
[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
EraldoPeres
Texto e pesquisa de conteúdo
ClovisBritto
Texto e coordenação de pesquisa
AngélicaMadeira
Pesquisa e produção executiva
CarolPeres
Preparação de texto e revisão
TeresaMello
Projeto gráfico e direção de arte
JoãoCampello
Ilustrações, legendas e referências
GeovanaPeres
Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF
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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra
Roteiros para o Brasil
Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF
Destino: Alegrete - RS
• Período: 2015
• Cultura: tropeirismo e celebrações da Semana Farroupilha
• Produção: Photo Agência
Registro
• Objetivo: documentação etnográfica das tradições gaúchas e do tropeirismo.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.
Equipe
• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres
• Produção local: Igor Bado
• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira
• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto
• Produção executiva: Carol Peres
Notas
• Alegrete – Berço de tradições gaúchas.
• Fogo de chão – Tradição de assar carnes sobre brasas ou em espetos sobre o fogo.
• Cavalos crioulos – Predominante no Rio Grande do Sul, é um animal resistente e originário de raças ibéricas (andaluz e lusitano).
• Milongas e chamamés – Ritmos que embalam a identidade cultural.
• Pilcha e bombacha – Trajes que expressam orgulho e tradição.
• Semana Farroupilha – Celebração da história e dos valores do Rio Grande do Sul.
• Preservação – Registro essencial para a memória e a identidade cultural.
• Futuro – Continuidade da tradição tropeira e farroupilha.
Entrevistas




• Vanderlei Carvalho – O espírito do gaúcho na música e
• Carlos Brum – Guardião das tradições tropeiras e da memória da Estância Santa Izabel.

Festa Farroupilha
A tradição que cavalga o tempo
O gaúcho se fez na imensidão das coxilhas, senhor de seu destino e de sua história. Ele não se dobra ao tempo, pois carrega consigo a memória de um Brasil que nasceu cavalgando.
Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
Cheguei a Alegrete, no Rio Grande do Sul, nos dias que antecedem a Semana Farroupilha de 2015. Antes do grande desfile, percorri as estâncias centenárias da região, testemunhando a vida pulsante no campo e o ritmo do trabalho diário dos gaúchos. O sol nascia sobre as coxilhas [tipo de colina], iluminando um cenário que parecia intocado pelo tempo: imensos rebanhos de gado e ovelhas espalhados pela vastidão, cavaleiros conduzindo as tropas e a imponência dos casarões de pedra e madeira erguidos no século XIX.
O cavalo crioulo, robusto e ágil, era presença constante. Vi a destreza dos peões ao domá-lo, o manejo preciso com o gado e a paciência no trato das ovelhas. Tudo feito com a tranquilidade de quem aprendeu desde cedo a ler os sinais do campo e a respeitar o compasso da natureza. Na lida do dia a dia, a tradição não se conta, se vive.
As noites que antecedem o desfile eram marcadas pelas reuniões nos galpões e nas estâncias, onde o fogo de chão aquecia não só a carne do churrasco, mas também as histórias e os causos compartilhados pelos mais velhos. O mate passava de mão em mão, e a roda de tropeiros se formava ao redor da gaita, entoando milongas e chamamés, trazendo na melodia um tempo que nunca se rompeu.
Eraldo Peres
Foi ali que encontrei Vanderlei Carvalho (foto ao lado), um gaúcho típico, de fala firme e sorriso fácil. Entre um canto tradicionalista e outro, se apresentava com bom humor:
“Disponível para trabalhos leves”. Em uma mão, segurava o porongo [a cuia de chimarrão] e na outra, o inseparável cigarro de palha. Sua hospitalidade traduzia a essência do povo gaúcho, sempre pronto a compartilhar uma prosa e um mate quente.
Quando finalmente chegou o dia do grande desfile, Alegrete já pulsava em outro ritmo. O cheiro do churrasco de chão invadia o ar, e pelas ruas, famílias inteiras vestiam o pilcha [indumentário tradicional da cultura gauchesca] com orgulho. A cavalhada que abriu o cortejo parecia vir de outra época. Homens e mulheres de bombacha, lenço no pescoço e chapéu bem firme na cabeça montavam com altivez, carregando mais do que tradição: levavam um modo de vida que se recusava a desaparecer.
Nas praças e nos salões, as celebrações continuavam em bailes que varavam a noite. Os pares giravam ao som das danças tradicionais, enquanto o sapateado firme marcava o compasso. Nas canções, ecoava a bravura de um povo que não se curva, que vive a tradição em cada gesto, em cada olhar, em cada rédea firmemente segurada.
No meio da festa, compreendi que o gaúcho não é um personagem do passado. Ele está vivo em cada laço bem dado, em cada cavalo bem domado, em cada verso cantado ao redor do fogo. Ser gaúcho é carregar a história no peito e a tradição nas rédeas, conduzindo-as com firmeza para o futuro.

Tropeiros chegam à Estância Santa Izabel, em Alegrete (RS)


Tropeirismo no sul
A celebração do vaqueiro dos Pampas
Quem sou eu sem meu cavalo
O que será dele sem mim
Talvez dois seres perdidos
A vagar pelo capim
Quem sou eu sem meu cavalo
O que será dele sem mim
Porque quando morre um cavalo
Morre um pedaço de mim.
Os Monarcas
O vaqueiro é tão importante para o imaginário do sul da América do Sul, especialmente para o Brasil e suas fronteiras, que sua alcunha se tornou metáfora de todo um estado da Federação. A nomenclatura gaúcho, utilizada para se referir aos nascidos no Rio Grande do Sul, originalmente diz respeito às pessoas que possuíam ligação com a pecuária no bioma denominado Pampa. Desse modo, ele seria o vaqueiro dos Pampas, região de planícies, com vegetação rasteira e clima temperado, com verões quentes e invernos rigorosos, que abarca o sul do Rio Grande, o Uruguai e algumas províncias argentinas.
No caso brasileiro, o gaúcho desenvolveu uma cultura singular, resultante da colonização espanhola e portuguesa sobre os indígenas e dos trânsitos fronteirísticos com os países do Rio da Prata, adaptada ao trabalho nas estâncias: “(…) circunscrição dada das campinas do país, povoada de gado, cavalos e mulas e, em certas porções, partes de carneiros; tem ordinariamente a extensão de uma sesmaria, às vezes de duas, de três e mais; os animais multiplicam-se nelas na razão da quantidade inicial, da vastidão do território e da bondade dos pastos” (Dreys, 1990, p. 94).
Clovis Britto
Esses núcleos pastoris estão intrínsecos à formação e à configuração do extremo sul do país, em uma área conhecida como Campanha Gaúcha. Nos séculos XVII e XVIII, as missões sob o domínio da coroa espanhola – cujo objetivo era a catequese dos indígenas – tornaram alvo de constantes ataques de bandeirantes vicentistas e lagunistas e de paraguaios em busca de mão de obra. Com a expulsão das missões, a atividade pastoril herdou muito dos costumes implantados pelos jesuítas, que ali introduziram o gado livre. Somado a esse fator, os indígenas se tornaram exímios adestradores de cavalo e criadores de gado (Machado, 2000).
Sandra Pesavento (2014) destaca que os religiosos, ao migrarem para o Uruguai com os indígenas, deixaram o gado nas reduções [aldeamentos]. Esses rebanhos abandonados espalharam-se pelos Pampas, tornando-se bravios e formando uma grande reserva conhecida como Vacaria del Mar, fator gerador das bases econômicas da região: a preia [ação de prender] do gado xucro. Além da extração do couro, a localidade se destacou pela produção do charque e da erva-mate, que mobilizaram o trabalhador escravizado.
O gaúcho era o vaqueiro que vagueava pelos Pampas com o seu cavalo, atuando como peão de estância ou tropeiro (também conhecido como arrieiro e bruaqueiro), condutor de tropas de mulas, de cavalo e de gado. O tropeirismo se tornou uma atividade econômica e cultural no Centro-Sul do Brasil, marcada pela consolidação de rotas e de fluxos de pessoas, animais e materiais. Nesse contexto, floresceram dois grupos: “(…) o primeiro, tropeiros do sul, em que as mulas eram a mercadoria em si, e o segundo, tropeiros das estradas reais, que
utilizava as mulas para o transporte de minerais preciosos e bens de consumo” (Algatão, 2013, p. 1).
Entre os tropeiros do sul, o cavalo crioulo se tornou um dos principais símbolos. Originário das raças ibéricas – andaluz e lusitano –, foi levado por espanhóis e portugueses para os Pampas sul-americanos, onde se dispersaram e geraram manadas selvagens. Utilizados pelo povo Guarani e pelos colonizadores nas estâncias de gado, como meio de transporte dos peões, dos estancieiros e das tropas que cuidavam das fronteiras e propunham revoluções, contribuiu para o florescimento do que se convencionou designar uma cultura crioula.
Linguagens, culinária e vestuário foram criados em torno do galpão crioulo nas estâncias, cômodo das tralhas que se tornou espaço para tomar mate, fazer churrasco e realizar danças: “(...) é inegável que sem a presença das imensas pradarias que se tornaram próprias à cultura da pecuária, ou seja, à criação de bovinos, ovelhas e cavalos, o gaúcho, enquanto uma construção particular e singular da prática da cultura do vaqueiro, não teria existido” (Ferreira; Gonçalves, 2010, p. 134).
O vaqueiro gaúcho desenvolveu um traje específico para atividades campeiras, chamado de pilcha. A masculina é composta geralmente de botas (de couro, até o joelho); da bombacha (calça de cós largo, sem alças, com bolsos na lateral e com punho abotoado logo acima do tornozelo) ou chiripás (tecido sem costuras envolto entre as coxas e preso na cintura por uma cinta de couro ou tirador); faixa (tira de pano, utilizada na cintura para prender a bombacha); guaiaca (cinto largo de couro ou de camurça); poncho (espécie de capa de lã retangular, ovalada ou redonda, com abertura no centro onde se enfia a
cabeça); e o pala (poncho leve, geralmente de brim, seda ou vicunha, com franjas nas extremidades); lenço (atado ao pescoço, com diversos tipos de nós); camisa (padrão liso ou riscado discreto, gola abotoada na frente, com mangas curtas ou longas), camiseta de malha ou gola polo; chapéu (de feltro ou pelo de lebre, com abas e barbicacho de couro ou crina); esporas, faca e tirador. A pilcha feminina geralmente é composta por saia (até o pé) e blusa ou bata de mangas longas ou até o cotovelo feita com tecidos lisos; vestidos (inteiro e cortado na cintura, com ou sem babados, barra da saia até o pé, mangas longas ou até o cotovelo); saia de armação; sapatos, botinas ou bombachas, guaiaca, faixa, lenço e chapéu (com as mesmas características da masculina).
O mesmo ocorre com as peças para encilhar o cavalo, conhecidas como aperos ou preparos. Existem os aperos de cabeça (de couro e integram a cabeçada que sustenta o freio na boca do cavalo, com testeira, alça de medida e os meios) e os aperos de montaria (o baixeiro ou xergão, colocados diretamente no lombo do cavalo; sobre esse uma peça de couro que sustenta a sela; sela (geralmente o lombilho e, para as mulheres, o selim de gancho) segura pela cincha. Sobre a sela é colocado o pelego (pele de carneiro), coberto pela badana (pele macia), além das correias duplas que sustentam os estribos e o peitoral que cinge o peito do cavalo.
Segundo Sandra Pesavento (2014), soma-se a essas características de formação do gaúcho o impacto das lutas travadas em solo rio-grandense, a exemplo da Revolução Farroupilha (1835-1845), rebelião com ideias federativas e republicanas, sob a liderança de Bento Gonçalves e sustentada por estancieiros que mobilizavam seus peões. Defendiam a
independência política da República Rio-Grandense e a manutenção dos laços econômicos com o resto do país, através da continuidade do fornecimento do charque. Com o fim das lutas contra o Império, foi assinado um tratado de paz e o governo central concedeu uma série de benefícios aos estancieiros, aumentando o poderio regional dos pecuaristas sulinos – situação que entrou em declínio com a abolição da escravatura e contribuiu para a vinda de imigrantes estrangeiros para o Brasil no século XIX, responsáveis pela inserção de outros artigos, a exemplo do vinho, do milho e da fabricação da banha, e por atenuar a relativa estagnação que vivia a pecuária sulina.
No século XX, com o processo de industrialização do país, a figura do gaúcho equestre começou a perder força. Esse personagem ressurge, no entendimento de Ruben George Oliven (1991), como instrumento ideológico de sustentação de discursos que exaltavam a região. Surgem entidades pautadas na bandeira do tradicionalismo, associações que inspiraram a criação dos centros de tradições gaúchas fora das áreas pastoris (notoriamente em áreas de colonização alemã e italiana), reinventando a hegemonia da cultura gaúcha no sentido pampeano.
Segundo Oliven, a expansão do gauchismo teve como marcos a criação da Semana Farroupilha, entre 14 e 20 de setembro de cada ano (1964); a fundação do Movimento Tradicionalista Gaúcho (1966); a oficialização dos desfiles realizados em 20 de setembro (data do início da Revolução Farroupilha), em quase todas as cidades do estado; e no início da década de 1970, a criação de um galpão crioulo (que pode ser visualizado como inspiração para o acampamento farroupilha), com o intuito de recriar o ambiente das estâncias e de recepcionar os visitantes com churrasco, arroz
de carreteiro, chimarrão e apresentações de música nativista e de danças regionais – fatores que contribuíram para a fabricação de um culto às tradições gaúchas.
São institucionalizados os festejos farroupilhas, visando comemorar efemérides relacionadas ao movimento tradicionalista gaúcho e promover um reencontro com as expressões consideradas típicas dos vaqueiros dos Pampas. A Semana Farroupilha é realizada anualmente em diversas cidades do Rio Grande do Sul, a exemplo de Alegrete, Bagé, Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Passo Fundo, Piratini, Porto Alegre, Santa Cruz do Sul, Santana do Livramento, Santo Ângelo, Tapes e Vacaria.
Em Alegrete, na fronteira, os eventos da programação incluem cavalgadas, mateadas [reunião informal para tomar chimarrão], gincanas, encontro de benzedeiras e concursos, além do desfile temático em 19 de setembro e do desfile cívico no dia 20. O desfile é considerado o ápice da festividade com milhares de cavaleiros e amazonas, momento em que se reforçam determinados valores sob um ponto de vista pedagógico, reinventando o vaqueiro e suas práticas. Nele, gaúchos e gaúchas em seus cavalos reencontram um Pampa da memória e, indistintamente, se reencontram com o sentimento descrito por Érico Veríssimo no último volume de O tempo e o vento: “Se nós os gaúchos jogamos fora os nossos mitos, que é que sobra? (...) Sobra o Rio Grande, o Rio Grande autêntico”.
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.

Carlos Brum, Pedro Melchiades, Luiz Guilherme e Antônio Carlos tomam chimarrão em frente à casa principal da Estância Santa Izabel, em Alegrete (RS)





Jose Inacio de Andrade Freitas (à direita) e o peão Alcino Rodrigues de Campos no trabalho com as ovelhas na Cabanha Escondida


Peão Alcino Rodrigues no trabalho com as ovelhas na Cabanha Escondida




Luiz Guilherme (à esquerda) e Antônio Carlos tomam chimarrão na Estância Santa Izabel

Luiz Guilherme

O capataz Pedro Melchiades

Gerente da Estância Santa Izabel, Carlos Brum

Luiz Guilherme toma chimarrão na estância

Domador de cavalos Frederico dos Santos na Festa Farroupilha

Jose Newton Franca no desfile da festa




Leo Moura com roupas tradicionais gaúchas


Eli Escaleno canta com seus companheiros


Alessandra Fortes a cavalo com o pai, Admir Goncalves










Alzimar Bastos carrega a bandeira do Brasil

Desfile da Festa Farroupilha em Alegrete (RS)










Baile Farroupilha em Alegrete (RS)


Referências culturais


Chimarrão, bombacha e fogo de chão afirmam a identidade do povo gaúcho
A Festa Farroupilha, celebrada ao longo da Rota dos Sertões, articula memórias coletivas, práticas de resistência e modos de vida ligados à lida campeira. Os símbolos que compõem essa manifestação – como o chimarrão, os trajes de bombacha, a culinária de campanha e os cânticos de guerra – são resultado de influências indígenas, hispânicas e afro-brasileiras. O evento não apenas recorda os conflitos da Revolução Farroupilha, mas também atualiza formas de pertencimento e identidade coletiva entre os povos do sul do Brasil.
Espaços como os Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) organizam e preservam esses saberes, e o papel das mulheres, muitas vezes invisibilizadas nas narrativas históricas, é fundamental nas redes de apoio e luta. Assim como outras festas populares registradas nos cadernos da coleção Filhos da Terra, a Farroupilha condensa paisagem, tradição oral, religiosidade e práticas comunitárias em uma celebração que atravessa gerações.
Arte e cultura
RomancedoGaúcho
Sou dos campos o tropeiro, dos galpões o missioneiro, sou a alma do pampa aberto no silêncio do aguaceiro.
Trago a lança dos Farrapos com respeito e com braseiro.
Minha fala é de fronteira e meu canto, de cavaleiro.
Versos de Jayme Caetano Braun, mestre na arte do payador [tipo de trovador], aquele que canta a vida e a história em rimas improvisadas. O vaqueiro é como um guardião das tradições, habitando o território onde o real e o mítico se entrelaçam.
Boleadeiras de couro usadas por tropeiros e gaúchos para laçar o gado e conduzir a vida no Pampa

Filmes
• APaixãodeJacobina, de Fábio Barreto (2002)
• AnahydelasMisiones, de Sérgio Silva (1997)
• NettoPerdeSuaAlma, de Beto Souza e Tabajara Ruas (2001)
• OsSenhoresdaGuerra, de Tabajara Ruas (1978)
• OTempoeoVento, de Jayme Monjardim (2013), baseado na obra de Erico Verissimo
Livros
• ContosGauchescos, de João Simões Lopes Neto
• OGaúcho:DramadeFamíliaFarroupilha, de José de Alencar
• OTempoeoVento, de Erico Verissimo
• OsVarõesAssinalados, de Tabajara Ruas
• RomancedoGaúcho, de Jayme Caetano Braun

Músicas
• BatendoÁgua, de Luiz Marenco
• CantoAlegretense, de Os Fagundes
• MilongaAbaixodeMauTempo, de José Cláudio Machado
• TropadeOsso, de Luiz Carlos Borges
• Veterano, de Leopoldo Rassier

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica


Glossário

Alegrete – Município do Rio Grande do Sul, conhecido por sua forte tradição tropeira e por sediar um dos mais emblemáticos desfiles da Semana Farroupilha.
Bailes tradicionais – Festas realizadas durante a Semana Farroupilha, marcadas por danças típicas como a milonga, o vanerão e o chamamé, acompanhadas por música ao vivo com gaitas e violões.
Bombacha – Calça larga e folgada, presa nos tornozelos, usada tradicionalmente pelos gaúchos nas lidas do campo e em eventos culturais.
Cavalhada – Apresentação e desfile equestre realizado durante a Semana Farroupilha, no qual cavaleiros demonstram habilidades e reverenciam a cultura gaúcha.
Chimarrão – Bebida tradicional do sul do Brasil, feita com erva-mate e água quente, servida em cuia (porongo) e compartilhada em rodas de conversa como símbolo de hospitalidade e confraternização.
Churrasco de fogo de chão – Método tradicional gaúcho de preparo de churrasco, em que a carne é assada lentamente em espetos fincados no solo ao redor do fogo.
Coxilhas – Pequenas colinas e elevações características do relevo do Pampa gaúcho, que marcam a paisagem da região.
Estância – Grande propriedade rural dedicada à pecuária extensiva, onde se cria gado e se preservam tradições do campo.
Farroupilha – Termo associado à Revolução Farroupilha (18351845), movimento separatista ocorrido no Rio Grande do Sul contra o governo imperial. Também designa elementos da cultura tradicionalista gaúcha.
Galpão crioulo – Espaço de convivência dos gaúchos, presente nas estâncias e nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), onde se realizam churrascos, rodas de chimarrão e apresentações culturais.
Gaúcho – No contexto histórico e cultural, refere-se ao homem do campo, exímio cavaleiro e tropeiro do Pampa sul-americano e também designa os habitantes do Rio Grande do Sul.
Milonga – Gênero musical e dança típica do sul do Brasil, Argentina e Uruguai, de compasso lento e letras que exaltam a vida no campo e as tradições gaúchas.
Pilcha – Vestimenta tradicional dos gaúchos, composta por bombacha, camisa, lenço, guaiaca (cinto largo), botas e chapéu de aba larga.
Porongo – Cuia utilizada para tomar chimarrão, geralmente feita a partir do fruto seco do porongueiro.
Semana Farroupilha – Celebração tradicionalista realizada anualmente em diversas cidades do Rio Grande do Sul, com desfiles, cavalgadas, bailes, churrascos e homenagens à Revolução Farroupilha.

Tropeiro – Condutor de tropas de gado e mulas, responsável pelo transporte de mercadorias entre diferentes regiões do Brasil.
Tropa – Grupo de animais, especialmente mulas ou cavalos, conduzidos por tropeiros em longas jornadas.
bibliografia

ALGATÃO, Filipe Cordeiro de Souza. Os tropeiros no século XXI e o sentido contemporâneo dessa atividade. X Encontro Regional Sudeste de História Oral, Campinas, 2013.
ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional II: danças, recreação e música. Fotografias do autor; desenhos de Oswaldo Storni, Osny Azevedo, do autor e de outras fontes. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. (Coleção Raízes).
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2001.
COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz e Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.
DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da província de São Pedro do Sul (1839). Porto Alegre: Nova Dimensão, 1990.
FERREIRA, Letícia de Faria; GONÇALVES, Jussemar Weiss. Trabalho e memória na Campanha Gaúcha. In: COSTA, Benhur Pinós da; QUOOS, João Henrique; DICKEL, Mara Eliana Graeff (Orgs.). A sustentabilidade da região da Campanha-RS: práticas e teorias a respeito das relações entre ambiente, sociedade, cultura e políticas públicas. Santa Maria, RS: Universidade Federal de Santa Maria, 2010.
KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
KRAUSS, Rosalind. O fotográfico. Tradução de Anne Marie Davée. Paris: Editions Macula, 1990.
MACHADO, Orual Soria. O longo amanhecer do sul: um mosaico de histórias e fatos sobre a conquista e ocupação das terras riograndenses. Porto Alegre: Prefeitura de Porto Alegre, 2000.
OLIVEN, Ruben George. Em busca do tempo perdido: o movimento tradicionalista gaúcho. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 15, p. 40-52, 1991.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. 9. ed. Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 2014.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
Agradecimentos
Nossa gratidão a todos que tornaram possível a documentação da Semana Farroupilha em Alegrete, uma celebração que mantém viva a tradição dos tropeiros e dos gaúchos. Agradecemos imensamente ao jovem Igor Bado, cuja dedicação foi fundamental para a produção dos acontecimentos locais e a realização das entrevistas. A Carlos Brum, que nos recebeu com hospitalidade na Estância Santa Izabel, proporcionando um mergulho autêntico na vida campeira.
Registramos também nosso reconhecimento a Vanderlei Carvalho, figura emblemática da festa, sempre disponível para “trabalhos leves”, compartilhando sabedoria e bom humor entre um mate e outro. Nosso apreço se estende a todos: cavaleiros, músicos, cozinheiros de fogo de chão e famílias que participam e preservam essa tradição, garantindo que a história dos tropeiros continue a cavalgar no tempo.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi
Santo