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Rota dos
Festejos de São João Céu do Mapiá - AM Santo Daime
1a edição Brasília, 2025 Editora
Rota dos
Céu do Mapiá - AM Santo Daime
Festejos de São João
Copyright 2025 by Eraldo Peres
[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
EraldoPeres
Texto e pesquisa de conteúdo
ClovisBritto
Texto e coordenação de pesquisa
AngélicaMadeira
Pesquisa e produção executiva
CarolPeres
Preparação de texto e revisão
TeresaMello
Projeto gráfico e direção de arte
JoãoCampello
Ilustrações, legendas e referências
GeovanaPeres
Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF
CEP: 72.006-345
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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF
Destino: Vila Céu do Mapiá, Pauini -AM
• Período: 2016
• Cultura: Festejos de São João e rituais da Doutrina de Santo Daime
• Produção: Photo Agência
Registro
• Objetivo: documentação etnográfica dos festejos juninos na Vila Céu do Mapiá, com foco na expressão ritual do Santo Daime, fortalecimento da identidade comunitária e valorização das práticas espirituais amazônicas.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular,
• Vila Céu do Mapiá – Comunidade fundada por Padrinho Sebastião e Madrinha Rita, onde a espiritualidade e o modo de vida daimista se integram à Floresta Amazônica.
• Festejos de São João – Celebração que articula o ciclo junino com os rituais do Santo Daime e reforça os vínculos comunitários e espirituais da Vila Céu do Mapiá.
• Hinários e rituais – Cânticos tradicionais executados coletivamente em homenagem a São João, acompanhados do uso ritual da ayahuasca (Daime). Promovem conexão espiritual e fortalecimento dos laços comunitários.
• Saberes e práticas – Cultivo e preparo da ayahuasca, organização dos festejos, partilha de alimentos típicos e transmissão dos ensinamentos espirituais e históricos da doutrina.
• Preparo e uso do chá do Daime – Bebida preparada a partir do jagube e da chacrona, utilizada nos rituais como elemento central de concentração espiritual e cura.




Santo Daime
A jornada pela floresta e o canto dos hinários
Eraldo Peres
Na solidão da floresta, onde a mata se fecha e os rios se estendem como estradas líquidas, nasceram saberes e espiritualidades que moldaram um Brasil profundo, místico e mestiço.
Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
A jornada para o Céu do Mapiá, em 2016, começou ainda na escuridão da madrugada. Deixei Rio Branco rumo a Boca do Acre, cruzando mais de dez horas de estrada enquanto a lua prateava os caminhos desabitados. Ao amanhecer, às margens do Rio Purus, vi o sol nascer no horizonte, encontrando o brilho da lua que ainda resistia no céu. Era como se o dia e a noite se cumprimentassem, refletidos na imensidão da floresta.
O tempo na Amazônia se mede pelo correr das águas. Foram mais de doze horas de navegação, primeiro pelas correntes largas do Purus, depois pela serpenteante trilha do Igarapé do Mapiá, onde o barco rabeta [com motor de rabeta, mais leve e acoplado no barco] cortava a vegetação cerrada, e as árvores se debruçavam sobre a canoa, criando um túnel verde de sombras e reflexos. O único som além do motor era o canto distante dos pássaros, como se anunciassem nossa chegada a um tempo fora do tempo, onde a floresta sussurra seus mistérios e convida à escuta.
Ao chegar à comunidade, entre as casas de madeira pintadas em tons de verde, azul e lilás, fui recebido pela presença marcante de Madrinha Gecila Teixeira de Souza, que nos hospedou com atenção e nos conduziu pelos caminhos e segredos da Vila Céu do Mapiá. Também tivemos a
oportunidade de estar com Madrinha Rita Gregório, que, aos 91 anos, nos acolheu com um sorriso sereno e um olhar que guardava memórias dos tempos iniciais do Mapiá. Ela falou sobre a trajetória de fé que a levou até ali, ao lado do marido, Padrinho Sebastião, um dos fundadores da comunidade. As palavras dela ecoavam como cânticos antigos, narrando uma história de resistência, espiritualidade e transformação.
No Céu do Mapiá, a festa de São João começa dias antes em uma preparação que vai além dos altares e dos hinários. Pelas trilhas da floresta, as mulheres vão buscar a chacrona, colhendo com respeito as folhas que compõem o Daime. Enquanto isso, os homens se reúnem na bateção do cipó, golpeando o jagube com ritmo e devoção, preparando-o para ser cozido e transformado no chá sagrado. O som seco da madeira ressoa na mata como um cântico ancestral, um chamado espiritual que se materializa na própria floresta.
Nesse mesmo período, tivemos a oportunidade de conviver com Padrinho Alfredo Gregório de Melo, que, aos 66 anos, carrega a liderança espiritual seguindo os passos dos pais, Padrinho Sebastião e Madrinha Rita, com quem fundou a Vila Céu do Mapiá. Em depoimento, Padrinho Alfredo compartilhou reflexões sobre a continuidade da doutrina, a força dos rituais e o papel vital da vivência espiritual que mantém coesa e fortalecida a comunidade.
À noite, os hinários começam, e os maracás marcam o compasso das canções que atravessam gerações. Ali, a fé não é estática – ela dança nos corpos, ressoa nos cânticos, pulsa
no coração da mata. O chá do Santo Daime, preparado com a chacrona e o jagube, não é apenas uma bebida sagrada, mas um portal para o autoconhecimento e a conexão com o universo invisível.
Nos intervalos dos hinários, o povo se reúne ao redor da fogueira. O fogo crepita como um guardião da noite, enquanto histórias são contadas, e o tempo se dissolve no calor do encontro. Ali compreendi que o Céu do Mapiá não é apenas um centro espiritual, mas um território de
resistência cultural e ecológica, onde fé, música e floresta se entrelaçam em um só corpo.
Naquela noite, sob um céu forrado de estrelas, vi o tempo se dobrar sobre si mesmo. O passado dos povos da floresta, o presente dos daimistas e um futuro ainda incerto se encontravam ali, no brilho do fogo e no compasso dos maracás. O Daime não é apenas um chá sagrado, mas um chamado para enxergar além dos olhos, ouvir além dos ouvidos e sentir além do corpo.


Do igarapé ao Céu do Mapiá
Medicina do astral que o poder superior mandou pra nos guiar Aya, aya, ayahuasca (...) Sol, lua, estrela o mistério da floresta.
Hinário Novo Amanhecer
A Amazônia foi inventada, sob a visão dos nativos e sob a visão de cronistas, viajantes e ficcionistas (Gondim, 2007). O mar de águas doces e a exótica floresta, marcada pela exploração extrativista dos seringueiros desde o século XIX com o chamado Ciclo da Borracha, também despertou o interesse de um de nossos maiores escritores: Euclides da Cunha (1866/1909). Para ele, a floresta seria um outro sertão e, após ser nomeado chefe da Comissão Brasileira para Reconhecimento do Alto Purus, em 1904, projetou elaborar um livro relatando experiências na região, assim como fez em Canudos. A obra, que não chegou a ser escrita, foi intitulada Um Paraíso Perdido. Noventa anos depois, a editora José Olympio reuniu ensaios, estudos e pronunciamentos de Cunha sobre o local em um volume com o título original. (Cunha, 1994).
Em um desses documentos enviados para Luis Cruls, em 1903, ano em que o Brasil adquiriu da Bolívia as terras que seriam transformadas no Território Federal do Acre, Euclides da Cunha desabafou: “Alimento, há dias, o sonho de uma viagem ao Acre”. E, após conhecer a região, ainda marcado pelo determinismo geográfico e pelo evolucionismo, afirmou que ali encontrara em exemplo de uma seleção telúrica, ou seja, uma seleção pautada na “interiorização de elementos culturais e paisagísticos, concorrendo
Clovis Britto
para a existência de uma simbiose entre o homem e a terra. (Fernandes, 1992, p. 171-172).
Essa simbiose representa uma imagem extremamente pertinente para traduzir as expressões culturais surgidas através da manipulação e ingestão ritual de plantas-mestre na Amazônia, destacadamente a Banisteriapsis caapi. Richard Spruce a descobriu em 1857 após contato com a ayahuasca em uma expedição à localidade dos Záparo na Amazônia. Todavia, somente em 1927 que pesquisadores franceses confirmaram que ayahuasca, caapi e yagé seriam denominações diferentes para referir-se a mesma planta, que teria forte ação psicoativa (Groisman, 1991).
Aayahuasca(doquíchuaaya,quesignificaespírito,ewaska,cipó)éo nomedadotantoaovegetalquantoàbebida,resultanteda combinaçãodocipócomoutrasplantas,especialmenteaPsychotria viridiseaDiplopteryscabrerana.Éumcháutilizadomilenarmente pelosgruposnativosnaAmazônia,destacadamente emcontextos ritualísticosespecíficos:“Elementomuitorecorrentenouniverso cosmológicodestesgruposéaexistêncianestasplantasdeum espírito-mâe,quedeterminaocarátersagradoequeasfazproduziro contatocomseresquehabitamestadimensãoinvisível.Porisso,são consideradasplantas-mestre(p.56).
No Brasil, somente o uso religioso da ayahuasca é considerado legítimo pelo Estado. No início do século XX, essa planta também começou a ser consumida ritualmente por não indígenas na invenção de práticas religiosas que possuem em comum a manipulação da ayahuasca em periferias urbanas amazônicas. Nelas, entre os sistemas fluviais e a cultura extrativista, ingere-se a “floresta” para promover a conexão com
o sagrado. Trata-se do Santo Daime, da Barquinha e da União do Vegetal, com várias fragmentações internas, três religiões fundadas por nordestinos que migraram para a Amazônia com o intuito de trabalhar como seringueiros.
Segundo Sandra Goulart (2004), a relação entre “as religiões ayahuasqueiras e a cultura seringueira cabocla da Amazônia se dá num nível profundo, expressa na mitologia, nos seus rituais e no seu conjunto moral”, resultante do contato entre os caucheiros [seringueiros] e grupos indígenas e populações ribeirinhas bastante influenciadas por uma evangelização cristã” (p. 12). Surge, assim, a confluência de tipos de xamanismo e vegetalismo com o catolicismo popular, o kardecismo, os cultos afro-brasileiros e as tendências esotéricas.
O Santo Daime é a mais antiga dessas religiões. Criada no início da década de 1930, na periferia de Rio Branco (AC), por Raimundo Irineu Sena (1892-1971) conhecido como Mestre Irineu (Juramidam), que descendia de uma família de negros maranhenses relacionada ao Tambor de Mina. Em 1912, ele migrou para trabalhar no extrativismo da borracha no Acre e, a partir daí, teve contato com ayahuasqueiros peruanos, praticantes do xamanismo. Em uma dessas experiências com a planta-mestre, entrou no êxtase de miração [estado visionário provocado pela bebida]. Ele realizou retiros na mata marcados pela ingestão ritual das plantas, até se deparar com o que acreditava ser a aparição da Rainha da Floresta ou Virgem da Conceição. A partir desse momento, nomeou a bebida de Daime, fruto do verbo reincidente nas orações recebidas: “dai-me força”, “dai-me luz”, “dai-me amor”, configurando a doutrina sob influências do astral.
Marcadaporhinosqueosadeptosacreditamreceberdoplanoastral eporbailadoscomfardasespeciais,osfiéisexecutammovimentação sincronizadasobosritmosdavalsa,damarchaedamazurca, marcadospelacadênciadomaracá.Ocantodehinárioscostumaser extenso,entredezequinzehoras.Nessasocasiões,oDaimeé ingeridováriasvezescomoumacionadordosagrado.
Dança e festa são meios privilegiados de comunicação com o mundo espiritual, conforme ocorre com rituais do catolicismo popular. Talvez, por isso, sejam evidenciadas algumas aproximações do Santo Daime com tradições populares, a exemplo de São Gonçalo, na análise das letras e da melodia dos hinos, do bailado e, especialmente, das vestimentas. Sandra Goulart (2004) destaca que no Daime existem dois tipos de fardamentos, um branco, utilizado na execução dos hinários oficiais – para os homens, calça, blusa de manga comprida e paletó brancos, gravata preta, e uma estrela de seis pontas, estrela de Salomão, no peito direito; e para as mulheres, saia e blusa de mangas compridas brancas, um saiote verde pregueado, faixa verde atravessada em diagonal, fitas coloridas que pendem do ombro, uma coroa de lantejoulas na cabeça, no lado direito do peito a estrela de Salomão e do esquerdo uma rosa bordada para as mulheres e uma palma para as moças – e um fardamento azul, mais simplificado, para rituais de concentração e hinários não oficiais.
Acosmologiaapresentaaproximaçõescomouniversokardecistae oshináriosdemarcamtrânsitosreelaboradosdocatolicismopopular apartirdeumreinadoeimpérionaflorestaeascitaçõesaJesusea VirgemMaria.Umadasconfiguraçõesmaisrepresentativasno contextodaimistaéareinvençãoelaboradapeloseringueiro
SebastiãoMotadeMelo,oPadrinhoSebastião,apartirdacriaçãodo CentroEcléticodaFluenteLuzUniversal,oficializadoem1978. Foram,assim,agregadosaoDaimeelementosdomovimentoNova Eraeoutrospsicoativos,alémdefusõesreligiosasemsua configuração,aexemplodoUmbandaime.Essaliderança carismáticafoiresponsávelpelaconformaçãodaDoutrinada Floresta,cujaspalestras,preleçõeseconversasinformaisencontramsesistematizadasepublicadascomotítuloOEvangelhosegundo SebastiãoMota,organizadoporAlexAlverga(1998).
No início da década de 1980, os adeptos se instalaram no Igarapé Mapiá, município de Pauini (AM), dando origem à Comunidade Céu do Mapiá no interior da Floresta Nacional do Purus. Representa um dos principais centros irradiadores do uso de plantas psicoativas para a expansão da consciência e experiência mística. A abertura da religião para a inserção de elementos de outras matrizes possibilitou a invenção de novas práticas inspiradas por xamanismo, pajelança, curandeirismo, vegetalismo, catolicismo popular, kardecismo e, mais recentemente, o círculo esotérico e a umbanda.
No Céu do Mapiá, existe um calendário ritualístico ou calendário dos trabalhos, com ritos oficiais em datas especiais com hinários distintos, a exemplo do Dia de Reis, da Semana Santa e dos festejos juninos. Nos juninos, ocorre a Festa das Grandes Fogueiras, que reúne mutirões para corte, transporte e montagem de fogueiras e a
realização de trabalhos espirituais, sendo a Festa de São João um dos destaques.
Embora seja importante considerar os efeitos psicotrópicos no emprego da ayahuasca, a Resolução n. 1/2010 do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) libera o consumo ritual do chá: “O uso ritualístico religioso, há muito reconhecido como prática legítima, constitui-se em manifestação cultural indissociável da identidade das populações tradicionais da Amazônia e de parte da população urbana no país”.
Nesse contexto, desde 2008 tem sido discutida a possibilidade do registro do uso ritual da ayahuasca como patrimônio imaterial brasileiro, deslocando o debate do campo da Justiça para os da cultura e do ambiente. O inventário nacional de referências culturais foi realizado e debates estão em curso: “No tocante à ayahuasca, a patrimonialização movimenta interesses, por vezes divergentes, de grupos diversos, desde religiões institucionalizadas até terapeutas e pesquisadores, passando também por povos indígenas que utilizam a bebida considerada sagrada” (Assis; Rodrigues, 2017, p. 66).
O fato é que em meio aos usos rituais encontra-se um telurismo singular, que constantemente inventa a Amazônia, na internalização concreta e metafórica dos mistérios de uma floresta de crenças difundidas pelos cantos do Brasil e do mundo.
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.









































Consagração com o chá








Referências culturais


Dai-me amor, dai-me fé, dai-me cura
ADoutrinadoSantoDaimereúneelementosespirituais,musicaise culturaisquesurgiramnaFlorestaAmazônica,seexpandindopara váriasregiõesdoBrasil.Amúsica,oshinárioseoritualdepreparação dabebidasacramentalsãoospilaresdapráticareligiosa.
Desdeosprimórdios,quandoMestreIrineurecebeuoprimeirohino–Deustesalve,óLuaBranca–dasmãosdaRainhadaFloresta,os ensinamentosforamtransmitidospormeiodamúsica,considerada nãoapenasumaformapedagógica,mastambémumavibraçãoque conduzaoestadodeconsciênciaespiritual.
OverbodaroriginouapalavraDaime,presentenassúplicasdoshinos: dai-meamor,dai-mefé,dai-mecura.Assim,oritualéformadopela bebidasagrada,peloscantosepelapráticacomunitáriaemcelebrações deféetransformação.
Aayahuasca,tambémconhecidacomohoasca,daime,santodaimeou vegetal,éumabebidaproduzidaapartirdocozimentodocipójagube (Banisteriopsiscaapi)edafolhachacrona(Psychotriaviridis).Conhecida comoFolhaRainha,éreverenciadapelosseguidoresdadoutrinacomo mediadoradocontatoespiritual.
Ofeitiodabebidaéummomentocoletivo,ondeasmulherescuidam dasfolhaseoshomenspreparamocipó.Todooprocessoé acompanhadoporhinos,oraçõeseingestãodoDaime.Opreparo envolveraspagem,bateçãodocipó,limpezadasfolhasecozimentoem grandesfornalhas.Cadaetapaérealizadadeformacomunitária, marcandomomentosdedevoçãoecomunhãoespiritual.
Deus te salve ó lua branca
Da luz tão prateada
Tu sois minha protetora
De Deus tu sois estimada
Ó mãe divina do coração
Lá nas alturas onde estás
Minha mãe lá no céu
Dai-me o perdão.
Trecho do hinário Lua Branca, de Mestre Irineu
Filmes
• AyaFilmFestival-WorldAyahuascaFilmFestival http://www.ayaconference.com/index.php/ayafilm-festival/? lang=pt-br
• OsGuardiõesdaFloresta, de Sérgio W. Bernardes https://www.youtube.com/watch?v=s4FaoGCVVPc
• PlantaMadre, de Gianfranco Quattrini
• SantoDaime–OImpériodaFloresta, de André Sampaio
• Takiwasi:HouseofHealing, de Ricardo D’Aguiar e Christopher Zahlten
Livros
• AÁrvoredaVida:EstudosobreoSantoDaime, de Edward MacRae
• Hoasca,aReligiãodoSentir, de Herivelton Moreira
• OGuiadaFloresta, de Alex Polari
• OLivrodasMirações–ViagemaoSantoDaime, de Alex Polari
• SantoDaime:CulturaAmazônicaeTranscendência, de Luiz Eduardo Soares
• ChaveirinhodoCéu, tradicional no hinário de Padrinho Sebastião
• DaimeMeuDaime, tradicional no hinário de Padrinho
Alfredo
EstrelaBrilhante, do hinário de Madrinha Rita
• LuaBranca, tradicional no hinário de Mestre Irineu
• SolNascente, tradicional no hinário de Padrinho Alex Polari


Madrinha Rita (Rita Gregório de Melo), matriarca da Comunidade do Santo Daime e esposa de Padrinho Sebastião. Ao lado do marido, é uma das principais fundadoras da Vila Céu do Mapiá.


O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica



Ayahuasca – Bebida sacramental preparada com o cipó jagube (Banisteriopsis caapi) e a folha chacrona (Psychotria viridis). Utilizada nos rituais do Santo Daime, promove estados ampliados de consciência e conexão espiritual.
Chacrona – Planta amazônica também chamada de Folha Rainha, é considerada mediadora do contato espiritual pelos praticantes da doutrina.
Daime – Termo que nomeia a bebida e faz referência ao verbo dar, presente nas súplicas dos hinos: “dai-me força”, “dai-me amor”, “dai-me luz”. Símbolo da busca espiritual e da prática ritualística coletiva.
Feitio – Ritual de preparo da ayahuasca, envolve a raspagem, a bateção do cipó jagube, a limpeza das folhas de chacrona e o cozimento da mistura. Cada etapa é acompanhada por cânticos, orações e momentos de comunhão espiritual.
Festejos de São João – Celebração marcante no Céu do Mapiá que integra elementos da tradição junina brasileira com rituais da Doutrina do Santo Daime. Envolve cortejo, montagem de fogueiras, hinários específicos e confraternização espiritual e identitária.
Hinário – Conjunto de hinos recebidos pelos mestres e praticantes da doutrina, transmitidos como mensagens espirituais. Executados coletivamente durante os rituais, organizam a experiência mística e fortalecem os laços comunitários.
Jagube – Cipó amazônico (Banisteriopsis caapi) considerado planta-mestre, base da preparação do chá de ayahuasca. O cozimento com a chacrona resulta na bebida utilizada nos rituais.
Madrinha Rita – Rita Gregório de Melo, matriarca da Comunidade do Santo Daime e esposa de Padrinho Sebastião. Figura central na fundação do Céu do Mapiá, tem trajetária marcada por resistência, espiritualidade e preservação dos saberes tradicionais da doutrina.
Miração – Estado visionário induzido pela ingestão da ayahuasca, caracterizado por experiências espirituais, autoconhecimento e conexão com dimensões simbólicas e ancestrais.

Padrinho Irineu – Raimundo Irineu Serra (1892-1971), conhecido como Mestre Irineu, fundador da Doutrina do Santo Daime. Migrante maranhense, estabeleceu-se no Acre, onde, a partir de experiências com a ayahuasca, estruturou a prática ritualística e o sistema de hinários que deram origem à doutrina.
Padrinho Sebastião – Sebastião Mota de Melo (1920-1990), seringueiro e líder espiritual que, a partir da década de 1970, consolidou a doutrina na Floresta Amazônica e fundou, ao lado da esposa, Madrinha Rita, a Comunidade do Céu do Mapiá.
Pajelança – Prática tradicional de cura e espiritualidade entre povos indígenas da Amazônia, que influencia o ritual e a cosmologia das doutrinas ayahuasqueiras.
Vila Céu do Mapiá – Comunidade fundada no início da década de 1980 no município de Pauini (AM), considerada o principal centro de irradiação da Doutrina do Santo Daime. Reúne espiritualidade, resistência cultural e práticas comunitárias na Floresta Nacional do Purus.
bibliografia
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CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustr. São Paulo: Global, 2001.
COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz; Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.
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KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
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SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Hucitec; Senac São Paulo, 2005.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
Registramos nossos sinceros agradecimentos a todas as pessoas que, com generosidade e abertura, nos acolheram na Vila Céu do Mapiá e contribuíram para a realização deste trabalho.
Um agradecimento especial à Madrinha Gecila, que nos apresentou os segredos da vila, guiando-nos por caminhos e histórias que compõem a vida cotidiana e espiritual da comunidade.
Nosso profundo reconhecimento à Madrinha Rita Gregório, que nos acolheu com um sorriso sereno e um olhar que guardava memórias dos tempos iniciais do Mapiá. As palavras dela sobre a trajetória de fé que a levou até ali, ao lado do marido, Padrinho Sebastião, um dos fundadores da comunidade, ecoaram como cânticos antigos, narrando uma história de resistência, espiritualidade e transformação.
Estendemos nosso agradecimento ao Padrinho Alfredo Gregório de Melo, que carrega a liderança espiritual da localidade, seguindo os passos dos pais: Padrinho Sebastião e Madrinha Rita. Ele compartilhou valiosas reflexões sobre a continuidade da doutrina, a força dos rituais e o papel vital da vivência espiritual que mantém coesa e fortalecida o povoado.
Por fim, agradecemos a todas as pessoas, às crianças e aos jovens, a todas as madrinhas e padrinhos que compõem a comunidade do Céu do Mapiá pelo acolhimento, pela confiança e pela partilha de saberes que tornaram possível a realização deste registro.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.
