

Povos da Mata
11
Organização
Eraldo Peres
Rota dos
Celebração do Santo Preto
Bragança - PA Marujada
Povos da Mata 11
Rota dos
Celebração do Santo Preto
Bragança - PA
Copyright 2025 by Eraldo Peres
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
Eraldo Peres
Texto e pesquisa de conteúdo
Clovis Britto
Texto e coordenação de pesquisa
Angélica Madeira
Pesquisa e produção executiva
Carol Peres
Preparação de texto e revisão
Teresa Mello
Projeto gráfico e direção de arte
João Campello
Ilustrações, legendas e referências
Geovana Peres
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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra
Roteiros para o Brasil
Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF
Destino: Bragança - PA
• Período: 2016
• Cultura: Marujada de São Benedito – Celebração afrobrasileira em louvor ao Santo Preto
• Produção: Photo Agência
Registro
• Objetivo: documentação etnográfica da marujada de Bragança, com foco nas práticas culturais, religiosas e artísticas em torno da Festa de São Benedito.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.
Equipe
• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres
• Assistente de fotografia: Raimundo Paccó
• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira
• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto
• Produção executiva: Carol Peres
Notas
• Bragança – Capital da marujada e guardiã das tradições afro-religiosas do Pará.
• São Benedito – Santo de devoção e símbolo de resistência cultural afro-brasileira.
• Marujada – Dança de origem afro-indígena, marcada por coreografias náuticas e trajes luxuosos.
• Mulheres marujas – Protagonistas na condução da festa e da tradição.
• Promesseiros – Fiéis que pagam promessas durante a festa e reforçam os laços de fé e pertencimento.
• Partilha – Almoços comunitários e distribuição de alimentos como parte essencial da devoção.
• Patrimônio – A marujada é reconhecida como patrimônio imaterial paraense, símbolo de resistência e continuidade das tradições afro-amazônicas.
Entrevistas
• Capitoa Maria de Jesus – Representa a liderança feminina na marujada e o papel essencial das mulheres na condução das festas de São Benedito.
• Capitão José Batista – Cultiva memórias vivas da tradição, relatos sobre a história e a preservação da
• Dário Benedito – Devoto, professor e pesquisador que conduziu a equipe pelo universo simbólico e histórico da




Marujada
O canto e a dança do santo preto
A festa popular é o palco em que os brasileiros se encontram, se reconhecem e reafirmam sua identidade. É no batuque, na dança e na devoção que a alma mestiça do Brasil se revela.
Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
Cheguei a Bragança, no Pará, no Natal de 2016, quando a cidade já pulsava no ritmo intenso da marujada. As ruas estavam tomadas pelo som das rabecas e dos tambores de São Benedito e pelas cores vibrantes dos trajes azuis e vermelhos das marujas. Era impossível não sentir a força ancestral que emanava daquela celebração.
A devoção a São Benedito, o Santo Preto, mobiliza não apenas os fiéis, mas toda a cidade, reunindo brincantes e devotos em uma festa que atravessa séculos. Dentro das casas, as mulheres preparavam os vestidos sobre as camas, ao lado de altares familiares dedicados ao santo — muitos também mesclando símbolos das religiões afro-brasileiras, o que reflete a pluralidade da fé.
Ali, entre mastros enfeitados e passos marcados no chão batido, era claro que a marujada não pertence só ao catolicismo. Nos batuques e no transe das danças, pulsam ecos de outro universo espiritual. São Benedito, protetor dos negros escravizados e libertos, compartilha espaço com os orixás e outras entidades, num sincretismo profundo que reforça a ancestralidade afro-brasileira.
Uma das cenas mais marcantes foi a chegada dos fiéis ao porto. Chapéus enfeitados com penas e fitas brilhavam ao
Eraldo Peres
vento, criando um espetáculo de fé e beleza, onde o som das águas e dos tambores pareciam dialogar.
Na véspera do Natal, a procissão tomou as ruas. Vestidos rodados criavam ondas coloridas entre os devotos. As famílias se reuniam para registrar o momento em fotos, enquanto os cortejos seguiam pelas ruas, partindo da casa da capitoa, como é carinhosamente chamada a líder do grupo. A cada passo, os chapéus adornados refletiam a luz do entardecer, e o som das rabecas e tambores preenchia o ar quente da Amazônia.
Nesse contexto de tradição e resistência, conheci Dona Maria de Jesus, que, com 59 anos, exerce o ofício de capitoa e afirma: “São as mulheres que comandam a marujada; os homens são só os seguidores. É a capitoa que dá as ordens, para que nada aconteça fora dos costumes.”
No barracão, a cerimônia atingia o ponto mais alto. Homens de chapéu de palha e camisa branca batiam os pés no chão com força, enquanto as marujas giravam em sincronia, levantando as saias em movimentos ondulados. O som das rabecas e dos tambores marcava o ritmo ancestral da festa e reafirmava a presença e resistência dessa cultura.
Entre os momentos de destaque, estava a tradicional Corrida da Aliança — uma emocionante cavalhada em que cavaleiros exibiam destreza ao tentar pegar uma aliança suspensa em um arco durante a competição, símbolo de bravura e fé.
Tive também a oportunidade de conversar com o Capitão José Batista, que falou emocionado: “Acompanhar a procissão é uma forma de agradecimento e de pagar promessas pelos milagres recebidos”. E completou: “Tenho o cuidado de manter a tradição da marujada e de trazer os jovens para o nosso lado, para que possamos renovar nossa tradição para o futuro”.
Outro encontro importante foi com o devoto, professor e pesquisador Dário Benedito. Com conhecimento profundo e generosidade, ele nos guiou pelos complexos caminhos dessa tradição centenária e revelou camadas ocultas de história e devoção.
A marujada não é apenas um festejo. É um elo vivo entre passado e presente, um ritual de fé e resistência, um símbolo da união entre os que foram arrancados da terra natal e os que já habitavam essa Amazônia profunda. Enquanto houver quem dance, quem toque e quem acredite, São Benedito continuará a ser celebrado, e o canto dos marujos seguirá ecoando pelos ventos da regão, renovando a certeza de que tradição é o que o tempo não apaga, mas fortalece.

Dança da roda no barracão da marujada em Bragança (PA)

Viva São Benedito!
Os compassos da marujada amazônica
Vou fazer uma canção em louvor ao santo preto Canta, povo bragantino: bendito, oh! Bendito. Quando chegar dezembro
Qual é o santo que está no andor?
É São Benedito com Nosso Senhor.
Arraial do Pavulagem
“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Essa frase emblemática utilizada pelo general romano Pompeu, difundida pelos poetas Petrarca e Fernando Pessoa, traduz a importância do mar no imaginário daqueles que tiveram a trajetória associada ao universo marítimo, a exemplo das navegações portuguesas e do tráfico de pessoas escravizadas. Esses deslocamentos foram celebrados por obras como Os Lusíadas, de Luís de Camões, O Navio Negreiro, de Castro Alves, e diversas composições que reúnem um fabulário composto de cenas líricas e trágicas sobre o tema das travessias (Madeira, 2005). Entre essas expressões, se destaca um conjunto de manifestações culturais populares inspirado nessa profusão de textos e sons, folguedos marcados por danças e encenações conhecidas como Cheganças de Marujos, também chamadas de marujadas, cheganças ou fandangos.
As expansões marítimas, os traumas dos naufrágios e do tráfico intercontinental contribuíram para alimentar esse imaginário, somados às performances que os marujos realizavam em alto-mar, durante as travessias. De acordo com Josias Pires (2004), as Cheganças de Marujos provavelmente foram gestadas na memória daqueles navegantes ou, pelo menos, “nasceram como um desdobramento do teatro embarcado. Era tão pungente e extraordinária a experiência das longas travessias pelo oceano que os amantes da música e das danças dramáticas trouxeram dos
Clovis Britto
fatos e experiências das navegações um farto material para elaborar os folguedos” (p. 77). O autor também sublinha o impacto das viagens transatlânticas no pensamento das populações africanas forçadas a vir para o Brasil escravocrata e a importância dos afro-brasileiros na difusão desses folguedos. Para tanto, reconhece como heranças dessas viagens o fato de muitas marujadas terem São Benedito por padroeiro, historicamente com o culto associado às populações negras; a presença do personagem marujo em manifestações elaboradas por africanos e descendentes (a exemplo das estrofes cantadas por congos e congadas); e a deferência ao marujo em alguns candomblés de caboclo e da nação Angola [espécie de mensageiro que viveu entre índígenas e negros e transita entre os mortais e os encantados].
Essas manifestações estão presentes em diversas regiões brasileiras, existindo também em algumas localidades entrecortadas por águas doces, a exemplo da região amazônica: “A cultura popular amazônica se evidencia com uma identidade singular, por reunir uma multiplicidade cultural expressiva. Os sujeitos amazônicos se constituem a partir de uma realidade ligada à floresta e aos rios, com um modus vivendi e traços culturais singulares, distintos dos aspectos culturais do ser urbano” (Carvalho, 2010, p. 49).
As instituições responsáveis pela difusão da marujada em terras brasileiras foram, salvo algumas exceções, as Irmandades dos Homens Pretos fundadas nos séculos XVIII e XIX, associações religiosas compostas por africanos e descendentes que difundiram os cultos a São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário. Isso é exemplar em Bragança (PA), município do nordeste paraense que conjuga praias, ilhas oceânicas e rios. Conforme
destacou Gisele Carvalho (2010), é uma das cidades mais antigas da região, com colonização por franceses, espanhóis e portugueses e um dos principais espaços de recepção de africanos escravizados no século XVIII e XIX. Atestam esse fato a existência da Igreja de São Benedito, a criação da Irmandade do Glorioso São Benedito de Bragança no século XVIII e a secular realização da marujada: “Mais especificamente no dia 3 de setembro de 1798, a pedido de 14 escravos, os senhores permitiram que fosse organizada a Irmandade da Marujada de São Benedito de Bragança. Em gratidão à graça alcançada, os escravos saíram às ruas dançando em frente às casas dos seus senhores” (Carvalho, 2010, p. 79). Essas evoluções coreográficas, em virtude do ex-voto pela criação da irmandade, resultaram na marujada.
O mito fundador do festejo diz respeito à promessa dos escravizados pela criação da Irmandade de São Benedito. Todavia, consiste em estratégia de resistência utilizada para escamotear um conjunto de expressões culturais africanas em meio ao culto do santo negro católico: “O culto ao santo, a imagem de São Benedito, revestido de Cristianismo, era uma forma de manter e perdurar rituais. (…) Com a introdução das danças, do ritmo dos tambores, das indumentárias, aflora uma sequência de memórias que permaneciam enterradas nos terreiros africanos e que ressurgem silenciosamente” (Alencar, 2014, p. 23).
Na verdade, é nesse encontro de diferentes compassos que reside uma das riquezas da marujada em meio à floresta. Da peregrinação de promesseiros ao longo do ano em busca de recursos para a festividade do santo protetor, revivendo a prática de esmolar, tão cara aos negros no Brasil Colônia, passando por inserções na celebração – procissão fluvial, missas, arraial, alvorada, levantamento de mastro, cavalhada etc. –, o marco das festas em louvor a São Benedito consiste na marujada. A esmolação é realizada por três comitivas (camponês, coloneiro e praiano) que percorrem a região de abril a dezembro a fim de obter recursos para a celebração que ocorre entre 18 e 31 de dezembro.
A marujada de Bragança tem como singularidade o protagonismo feminino. Conforme destacaram Ester Correa e Edna Alencar (2015), existe uma ordem hierárquica no folguedo: a capitoa, responsável pela organização e que possui cargo vitalício, geralmente a maruja mais idosa; a vice-capitoa, segunda na linha de comando; a cabeça de linha, que inicia a dança de roda; as marujas, que exercem papel central na execução das danças; e os marujos, acompanhantes na bailado ou tocadores dos instrumentos: tambores, pandeiros, cuíca, viola, cavaquinho, violino e rabeca.
As coreografias evocam o movimento do mar, realizadas com os pés descalços a representar os escravizados penitentes. As marujas
utilizam blusa branca rendada, saia vermelha rodada, fita vermelha a tiracolo e um chapéu com plumas de aves e fitas coloridas. Os marujos vestem calça e camisa brancas, chapéu de palha revestido com fita vermelha com flor vermelha em uma das abas. No Natal, no lugar do vermelho, marujas e marujos adotam o azul-celeste em homenagem ao nascimento de Jesus.
A marujada de Bragança foi classificada como Patrimônio Imaterial do Pará, por meio da Lei Estadual nº 7.330/2009, e, em 2024, as de São Benedito, na região bragantina (Augusto Correa, Bragança, Capanema, Primavera, Quatipuru e Tracuateua) e em Ananindeua, receberam o registro de Patrimônio Imaterial Brasileiro. Em Bragança é composta por um conjunto de danças fruto de readaptações “que vem do além-mar, seja do rico salão europeu (a mazurca, a valsa, o xote e a contradança), seja dos terreiros de chão batido da África: o retumbão, a roda, o chorado” (Alencar, 2014, p. 87). Segundo Gisele Carvalho (2010), a roda anuncia o início e o fim do folguedo, retomando o mito de origem de solicitar permissão para a realização. É dançada somente pelas marujas. O retumbão é a mais marcante, com ritmo e compasso similar ao lundum. O chorado é uma variação do retumbão, porém, mais suave. A mazurca, a valsa e o xote, incorporados posteriormente, representam a reelaboração de danças de origem polonesa, austríaca e alemã difundidas pelos portugueses.
Essa mescla de influências, apesar de evocar características de bailados europeus e africanos, contribuiu para o surgimento de expressões culturais singulares, mantidas em torno da devoção a São Benedito: “Na Amazônia paraense, esse modo de vida está ligado a presença dos rios, dos igarapés, das praias etc. e do imaginário a eles relacionado, como os seres encantados, as lendas etc. Assim como as ‘práticas culturais caboclas’, que resultam de um hibridismo entre os saberes” (Correia, 2017, p. 36). O movimento das ondas – entre as caravelas lusitanas e os navios negreiros – propiciou essa reinvenção em terra firme, em meio aos povos indígenas na Floresta Amazônica. Em Bragança, as mulheres assumiram o timão, cujo leme é o santo siciliano com ancestralidade na Etiópia. Santo que é celebrado de modo singular pelos povos das matas e que navega em procissão pelo Rio Caeté, nos compassos das devotas marujas.
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.



Casal se prepara para os festejos


Família no Porto de Bragança


Marujos seguem pelo Rio Caeté



Embarque na comunidade ribeirinha do Rio Caeté







Vania Ramos e a filha Ana Beatriz fazem orações no altar de casa

Clara Padilha Gomes se prepara para a festa


Sabrina Correia Aviz e a estátua de São Benedito






João Gomes com a família


Fogos durante a alvorada para saudar a marujada


Capitão José Batista


Tradicionais chapéus das marujas feitos com fitas e penas de pato


Capitoa Maria de Jesus (ao centro) lidera o cortejo


Cortejo em frente à Igreja de São Benedito









Cavaleiros prontos para a disputa das alianças



Procissão de São Benedito

Referências culturais

Devoção a São Benedito e danças populares
AMarujadadeSãoBeneditoéumamanifestaçãoculturalereligiosa queintegraatradiçãodaRotadaMineração,comraízesprofundasna formaçãosocialeespiritualdascomunidadesbrasileiras.Realizadahá 218anosemBragança,noPará,afestamisturaelementosdedevoção popular,música,dançaememóriacoletiva.
Em2009,amarujadabragantinafoireconhecidacomopatrimônio culturaleartísticodoEstadodoPará(LeiEstadualn.º7.330,de17de novembrode2009),consolidandoaimportânciaparaapreservação daidentidaderegional.AfestacelebraSãoBenedito,osantoprotetor,e apresentatradiçõescomoaconfecçãodevestidosparaaimagemdo MeninoJesus,práticatransmitidacomopagamentodepromessas.
OTeatroeMuseudaMarujada,noantigoCinemaOlímpia,guarda instrumentosmusicaishistóricosevestimentasutilizadasnas apresentações.Adançaderetumbão,oxote,amazurcaeochoradosão algunsdosritmostradicionaisdafesta,fortalecendooeloentrefée culturapopular.
Arte e cultura
Vou fazer uma canção em louvor ao santo preto Canta, povo bragantino: bendito, oh! bendito. Quando chegar dezembro
Qual é o santo que está no andor?
É São Benedito com Nosso Senhor.
Marujada de São Benedito em louvor ao protetor vem vestindo azul ou vermelho-carmim na festa no barracão, dança xote, mazurca e chorado nos duzentos anos de louvação mas fico mesmo encantado quando dança retumbão.
Trecho da música Marujada de São Benedito, do grupo Arraial do Pavulagem
Filmes
• Documentário Benedito do Povo, de Adison César Ferreira e Kelves Raniery
• Ficca, Festival Internacional de Cinema do Caeté http://ficcafestival.blogspot.com.br/
• Tons Bicentenário, de San Marcelo Livros
• Academia Bragantina de Letras (ABL) www.academiabragantinadeletras.org
• As Histórias de São Benedito – Memória Religiosa e Afetiva da Amazônia Tocantina, de Salomão Larêdo http://slaredo.blogspot.com.br
• Os Tambores da Esperança: um Estudo sobre Cultura, Religião, Simbolismo e Ritual na Festa de São Benedito da Cidade de Bragança, de Dedival Brandão da Silva
• Marujada: Tradição e Fé em Bragança, de Antônio Carlos Vilaça
Músicas
• Festa do Santo Preto, com grupo Flor do Pará
• Louvação a São Benedito, com Pinduca
• Marujada de São Benedito, com grupo Arraial do Pavulagem
• Retumbão de São Benedito, com Mestre Vieira


Roupa tradicional da maruja: chapéu de fitas, blusa branca e saia vermelha prontos para a celebrar São Benedito

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica


Glossário

Barracão – Espaço comunitário onde ocorrem as celebrações da Marujada, incluindo os rituais de dança, música e devoção a São Benedito. É o local de encontro e de reafirmação dos laços coletivos.
Capitoa – Liderança feminina da marujada, responsável por organizar e conduzir o grupo. O cargo é vitalício e tradicionalmente ocupado pela maruja mais experiente, símbolo da centralidade das mulheres na festa.
Cavalhada (Corrida da Aliança) – Prova de destreza e tradição que integra a celebração da marujada, em que cavaleiros tentam pegar uma aliança suspensa em um arco durante a cavalgada. Representando bravura, habilidade e devoção.
Cheganças de marujos (marujadas) – Folguedos populares com danças e encenações que remetem ao universo marítimo, ao imaginário das travessias atlânticas e às experiências de povos africanos e europeus no Brasil.
Esmolação – Peregrinação de marujos e marujas para arrecadação de donativos com objetivo de financiar a festa. Em Bragança, três comitivas – de camponeses, de coloneiros e de praianos – percorrem a região de abril a dezembro.
Maruja – Mulher integrante da marujada, responsável pela execução das danças e pelo protagonismo nas celebrações. Utiliza traje típico: blusa branca rendada, saia rodada vermelha ou azul, fita e chapéu enfeitado com plumas e fitas coloridas.
Marujo – Homem que participa da marujada, geralmente como acompanhante das marujas ou como músico, tocando instrumentos tradicionais como rabeca, tambor, cuíca e cavaquinho.
Mazurca, valsa e xote – Danças de salão europeias incorporadas à marujada, adaptadas às coreografias locais e mescladas com elementos afro-brasileiros e indígenas, formando repertório híbrido e singular.
Procissão fluvial – Cortejo pelo Rio Caeté formado por embarcações com fiéis e a imagem de São Benedito, que simboliza a integração entre religiosidade e a natureza amazônica.
Rabeca – Instrumento de cordas friccionadas, é importante na musicalidade da marujada e confere sonoridade única aos ritmos e às danças.
Retumbão – Dança mais marcante da marujada, de ritmo forte e compasso semelhante ao lundum. Evoca as matrizes africanas presentes na tradição.
Roda – Coreografia que marca o início e o fim da marujada, realizada apenas pelas marujas. Simboliza a circularidade do tempo, das memórias e da resistência cultural.
São Benedito – Santo católico, de origem etíope e ancestralidade africana, cultuado como protetor dos negros e padroeiro das Irmandades dos Homens Pretos. No ritual, a devoção a ele é central e articulada com elementos das religiões afro-brasileiras.
Sincretismo – Mistura e articulação entre elementos do catolicismo e das religiões afro-brasileiras, que caracteriza a espiritualidade vivida na marujada e evidencia a ancestralidade afro-amazônica.
Tradição oral – Principal forma de transmissão dos saberes da marujada, perpetuada por ao longo de gerações, especialmente entre mulheres, que ensinam danças, músicas e rituais e garantem a continuidade da cultura.

Trajes – Vestimentas típicas e simbólicas: marujas vestem blusas rendadas, saias coloridas e chapéus com penas e fitas; marujos, camisas e calças brancas, com chapéus de palha enfeitados. No Natal, predominam as cores azul-celeste, em homenagem ao nascimento de Jesus.

bibliografia
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ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional II: danças, recreação e música. Fotografias do autor; desenhos de Oswaldo Storni, Osny Azevedo, do autor e de outras fontes. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. (Coleção Raízes).
CARVALHO, Gisele Maria de Oliveira. A festa do santo preto: tradição e percepção da marujada bragantina. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável), Universidade de Brasília, 2010.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2001.
COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz e Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.
CORREA, Ester Paixão. Pérolas do Caeté: a dança das marujas de São Benedito de Bragança-PA. Dissertação (Mestrado em Antropologia), Universidade Federal do Pará, Belém, 2017.
CORREA, Ester Paixão; ALENCAR, Edna Ferreira. Rito e devoção entre as mulheres marujas na Festa de São Benedito, Bragança-PA. V Reunião Equatorial de Antropologia e XIV Reunião de Antropólogos do Norte e Nordeste, Maceió, 2015.
KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
KRAUSS, Rosalind. O fotográfico. Tradução de Anne Marie Davée. Paris: Editions Macula, 1990.
MADEIRA, Angélica. Livro dos naufrágios: ensaio sobre a história trágico-marítima. Brasília: Editora da UnB, 2005.
PIRES, Josias. Dramas do mar: memórias das grandes navegações marítimas nas cheganças de marujos ou marujadas. Revista da Bahia, Salvador, v. 1, p. 73-80, 2004.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
Agradecimentos
Agradecemos, com sincera admiração e respeito, à comunidade de Bragança, no Pará, que nos acolheu com generosidade e abriu as portas para que pudéssemos acompanhar de perto a marujada –celebração que traduz a força, a fé e a resistência de um povo.
Nosso especial reconhecimento à capitoa Maria de Jesus, pela liderança firme e sensível, e pelo testemunho sobre o papel essencial das mulheres na condução das festas de São Benedito. A dedicação inspira novas gerações e mantém viva a tradição.
Ao capitão José Batista, guardião das memórias e das práticas que sustentam o ritual em Bragança, agradecemos pelos relatos e pela partilha generosa de sua história, que reforçam a importância da preservação desse patrimônio cultural.
E ao devoto, professor e pesquisador Dário Benedito, nossa gratidão por ter nos conduzido, com conhecimento e delicadeza, pelos caminhos simbólicos e históricos da tradição centenária, ampliando nossa compreensão sobre a riqueza e a complexidade desse universo cultural.
Este caderno é fruto do encontro com todos que, com fé, dança e canto, mantêm a marujada como um rito vivo de identidade e pertencimento.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, Eraldo Peres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi
Santo