

Costa Atlântica
Organização
Eraldo Peres
Rota da
Maracatu Rural
Dança dos Canaviais
Nazaré da Mata - PE
Costa Atlântica
1a edição Brasília, 2025 Editora
Rota da
Maracatu Rural
Dança dos Canaviais
Nazaré da Mata - PE
Copyright 2025 by Eraldo Peres
[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida por qualquer meio – eletrônico, mecânico, fotocópia, gravação ou qualquer outro – sem autorização prévia dos detentores dos direitos autorais.
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
EraldoPeres
Texto e pesquisa de conteúdo
ClovisBritto
Texto e coordenação de pesquisa
AngélicaMadeira
Pesquisa e produção executiva
CarolPeres
Preparação de texto e revisão
TeresaMello
Projeto gráfico e direção de arte
JoãoCampello
Ilustrações, legendas e referências
GeovanaPeres
Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF
CEP: 72.006-345
Tel: (61) 99932-7158
Instagram - @photoagenciadf
YouTube - @PhotoAgencia www.photoagencia.com.br
Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra
Roteiros para o Brasil
Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF.
Destino: Nazaré da Mata - PE.
• Período: 2016 e 2017.
• Cultura: Maracatu rural – Dança dos canaviais
• Produção: Photo Agência.
Registro
• Objetivo: documentação etnográfica do maracatu rural em Nazaré da Mata, incluindo rituais, musicalidade e personagens.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.
Equipe
• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres
• Produção e entrevistas: Shirley Fernandes
• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira
• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto
• Produção executiva: Carol Peres
Notas
• Nazaré da Mata – Coração do maracatu rural, onde tradição e resistência se encontram.
• Carnaval – Período de efervescência cultural, com desfiles vibrantes e música intensa.
• Caboclos de lança – Brincantes emblemáticos com trajes pesados e movimentos vigorosos.
• Mulheres no maracatu – Crescente participação feminina na tradição.
• Loas e batuques – Cantos e percussões que narram a história e a identidade do maracatu.
• Resistência – A cultura como ato de afirmação e pertencimento.
• Preservação – A documentação é uma das formas de manter a memória viva.
• Futuro – O desafio da continuidade e transmissão do saber às novas gerações.
• Maracatu Cambinda Brasileira – Uma das mais antigas nações de maracatu rural, com mais de um século de história, mantendo viva a tradição de batuques e loas nos canaviais de Pernambuco.
Entrevistas
• Mestre Anderson Miguel – Jovem mestre do Maracatu Cambinda Brasileira, conduzindo a tradição com força e inovação.
• Mestre Barachinha (Manuel Carlos) – Um dos mais importantes mestres do maracatu rural da Zona da Mata Pernambucana.
• Mestre João Paulo – Mestre do Maracatu Leão Misterioso, conhecido como o Papa do Maracatu.




Maracatu Rural
O canto da mata e a dança da terra
O Brasil que se fez na casa-grande e na senzala misturou gentes e almas de muitos mundos. No choque entre a negritude escravizada e o colonizador opressor, nasceu uma cultura nova, mestiça, vibrante e criadora.
Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
O som da mata chega antes mesmo que se possa ver quem o faz. No calor úmido do canavial de Nazaré da Mata, em Pernambuco, os primeiros acordes da gaitada dos gonguês, taróis e caixas rompem o silêncio da manhã. São como trovões tropicais que anunciam a chegada do maracatu rural, manifestação que une dança, canto e ritualidade, reverberando a força de uma ancestralidade que nunca se apagou.
Nos carnavais de 2016 e 2017, acompanhei não só o cortejo vibrante que toma as ruas, mas também os pulsantes ensaios que antecedem a grande festa. Na sede rural do centenário Maracatu Cambinda Brasileira, assisti à preparação de uma tradição que carrega o peso dos engenhos, dos canaviais e da resistência negra da Zona da Mata. Os brincantes afinavam os tambores, ajustavam as vestes e repetiam, como um mantra, as melodias que atravessam gerações.
Foi ali, entre as batidas dos tambores e os versos improvisados, que encontrei jovens mestres do maracatu rural que, apesar da pouca idade, já assumiram a responsabilidade de conduzir o baque e entoar as loas. Entre eles, Anderson Miguel, que, com 19 anos, erguia a voz à frente do Cambinda, cantando toadas carregadas de história, conduzindo o ritmo com a firmeza de quem traz no peito o chamado da mata e a lembrança dos mais velhos.
Eraldo Peres
Quando chega o dia da grande celebração, as cores brilham em tons metálicos, e os espelhos bordados nos chapéus refletem o mundo ao redor, criando uma espécie de universo próprio. No meio do cortejo, entre um baque e outro, o caboclo de lança salta, gira e avança, empunhando sua lança como um guerreiro de tempos antigos. E talvez seja. Seu canto, profundo e vigoroso, ressoa como um grito de identidade e pertencimento.
No maracatu rural, cada movimento carrega o peso da história e a leveza da dança. No batuque dos tambores, ainda se escuta o eco das senzalas e das matas que serviram de abrigo aos que fugiram da escravidão. É a ancestralidade negra e indígena na forma mais vibrante, transbordando vida, resistência e espiritualidade.
O que vi em Nazaré da Mata foi muito mais do que um desfile carnavalesco. Vi um Brasil profundo, que dança e canta sua origem com a altivez de quem sabe que sobreviveu e ressignificou o destino. Vi homens e mulheres que, ao vestir roupas bordadas e carregar lanças coloridas, tornam-se griôs do presente, narradores de uma história que o tempo não apagou e o batuque mantém viva.
O maracatu rural é celebração, rito e afirmação. Sua força não está apenas no ritmo frenético, na música ou na coreografia, mas na certeza de que a cultura de um povo resiste, enquanto houver quem cante, dance e toque os tambores.

Sede do Maracatu Cambinda Brasileira no Engenho do Cumbe, em Nazaré da Mata (PE)


Okê, caboclo!
O baque solto na Mata Atlântica Clovis
Britto
Batuqueiro, que baque é esse?
É o baque de nossa alteza (...)
Maracatu (...)
Olha o céu, olha para o mar
Verde mar de navegar, verde mar. Capiba
“Sem açúcar não se compreende o homem do Nordeste”, afirmou Gilberto Freyre (2004) ao analisar o legado dos engenhos e do ciclo da cana-de-açúcar nordestino, especialmente em Pernambuco, e reconstruir os impactos da economia açucareira na formação de uma cultura escravista, latifundiária e patriarcal: “Esse Nordeste de terra gorda e de ar oleoso é o Nordeste da cana-de-açúcar. Das casas grandes dos engenhos. (...). Dos mucambos de palha de coqueiro ou de coberta de capim-açu. (...) Primeira mulher portuguesa criando menino e fazendo doce em terra americana; do Palmares do Zumbi – uma república inteira de mucambos” (p. 46).
No litoral pernambucano, a região conhecida como Zona da Mata, em referência à Mata Atlântica, entre os séculos XVII e XIX cedeu lugar para a monocultura canavieira, transformando a área em um grande entreposto cultural. Ao mesmo tempo em que a cana promoveu o encontro entre os senhores de engenho, os negros escravizados trazidos da costa africana e os indígenas contribuíram para o surgimento de um conjunto de expressões culturais que, do litoral, adentrou a floresta tropical. Da mescla fragmentária de diversos folguedos e do hibridismo afro-indígena (com elementos da [cabocla] Jurema, da umbanda, do toré, do candomblé de caboclo e do catolicismo popular), o maracatu consiste em uma das manifestações locais mais representativas.
É controversa a origem da palavra. Para alguns estudiosos consiste em variação linguística do norte de Angola, maracatucá, que significa “vamos debandar”; outros destacam a palavra maracatumba, de origem bantu; e ainda há os que defendem uma origem ameríndia, catu em tupi (bom) e mara (guerra), denotando um cortejo real festivo e guerreiro (Sena, 2012). Trata-se de um folguedo na forma de um cortejo real, composto por dança, música e recitação de versos, apresentado durante o Carnaval e a Páscoa. Ao longo do ano, os folgazões (nome dado aos brincantes) realizam ensaios de terno e esquentas, conhecidos como sambadas.
O que singulariza os grupos de maracatu é o baque ou ritmo, ou seja, a sonoridade resultante do conjunto percussivo. Nesse sentido, observa-se a proeminência de dois tipos bem demarcados. O maracatu tradicional, nação ou baque virado, surgido na região metropolitana de Recife, no período escravocrata, visando ritmar o canto e a dança das loas [toadas que demarcam um diálogo entre o solista e o coro], deriva das coroações dos reis do Congo e, portanto, possui forte herança africana. Nele, encontra-se mais de uma zabumba. Já o maracatu de baque solto, de orquestra ou rural surgiu no início do século XX entre os canavieiros da Zona da Mata pernambucana, com herança afro-indígena. O toque solto é realizado apenas com uma zabumba, instrumentos de sopro e mais quatro de percussão: “Diferente do maracatu de baque virado, o maracatu rural ou de baque solto não descende exclusivamente da instituição dos reis do Congo. É um resultado da fusão de manifestações populares –cambindas, bumba meu boi, cavalo-marinho e coroação de reis negros” (Amorim; Benjamin, 2002, p. 109).
O maracatu de baque solto ou rural é visualmente reconhecido “pelo caboclo de lança, personagem viril que, empunhando lança pontiaguda, se movimenta com ruidosos chocalhos às costas, flutuante cabeleira e vistoso figurino multicolorido. O emblemático caboclo de lança é, seguramente, a figura que mais se destaca” (Amorim, 2013, p. 19). Entre o mestre de cabocaria e os líderes de cordões, os de lança realizam movimentos circulares. Em seguida, o cortejo é composto pelas figuras meladas, personagens pintados com graxa e que integram o enredo do folguedo: o Mateus, a Catirina, a burra, o caçador e o babau. Esse conjunto abre caminho para a realeza (rei, rainha, príncipe, princesa, conde, condessa, embaixador, vassalo, dama da boneca), que, por sua vez, é resguardada pelos caboclos de pena (tuxaua ou arreiamá), baianas, condutores de lampião e de pálio, músicos e mestres e encerrado com mais alguns caboclos.
O caboclo de lança se torna metáfora do folguedo-devoção. Representa a entidade das matas, divindade que converge múltiplas devoções, perpassando a jurema sagrada, o candomblé de caboclo, o toré, a linha de caboclos na umbanda e os encantados ameríndios. Os caboclos também são reconhecidos como guerreiros de Ogum e demarcam um espaço sagrado cujos devotos geralmente seguem um conjunto de preceitos, orientados por uma madrinha espiritual, a exemplo de banhos de limpeza (água, incenso, perfume, jurema branca e outras ervas), ingestão de azougue (mistura de limão, pólvora, aguardente e azeite doce), abstinência sexual, um cravo branco na boca ou no chapéu e firmação do terreiro onde ocorrerão as sambadas ou ensaios (Cf. Bonald Neto, 2013).
Segundo Katarina Real (1990), isso se complexifica quando observamos as interfaces afro-indígenas na construção dos indígenas africanos ou caboclos lanceiros africanos –guerreiros que portam uma lança pontiaguda envolta em
fitas; no chapéu (ou funil); uma vasta cabeleira colorida; surrão, gola e chocalhos –, que brincariam atuados, o que demarca uma das facetas religiosas da manifestação. Nesse aspecto, grande parte dos caboclos de pena (tuxauas) é composta por adeptos do catimbó e que se apresentariam em estado de transe.
Além dos caboclos, outro personagem que efetua o religare consiste na dama do paço, que porta a calunga, também conhecida como catita. É uma boneca que aciona o ritual e pode representar eguns [antepassados mortos] ou orixás e, para tanto, recebe um conjunto de obrigações antes do Carnaval. Consiste em uma das defesas do maracatu contra todas as malquerenças, espécie de totem que evoca e reinventa as ligações ancestrais com o Atlântico Negro.
Dos diversos grupos de baque solto na Zona da Mata pernambucana, os dois mais antigos e ainda em atividade são o Cambindinha, de Araçoiaba, criado em 1914, e o Cambinda Brasileira, de Nazaré da Mata, fundado em 1918. O município é considerado o berço dos maracatus rurais. Nesse aspecto, é importante recuperarmos o mito fundador do grupo Cambinda Brasileira, no Engenho Cumbe, relembrado pelos brincantes-devotos. Em virtude de um inverno rigoroso e de dificuldades alimentares, o rio do engenho transbordou e os pescadores tiveram as tarrafas cheias de cambindas, que se tornaria o alimento principal da comunidade. Assim, a narrativa justifica a criação do maracatu e do seu nome, espécie de ex-voto. (Vieira, 2011). Não deixa de ser curioso o nome do grupo evocar um peixe de água doce, a forma como eram conhecidos os escravizados africanos de etnia congo e uma das falanges da umbanda. Por sua vez, também recupera sonoramente a palavra Cabinda [cidade africana].
Da costa africana para a costa brasileira e adentrando a Zona da Mata, essas referências se reinventaram tornando-se uma
das principais marcas identitárias do povo pernambucano. Em 2014, o maracatu de baque solto, juntamente ao maracatu de baque virado e à brincadeira do cavalo-marinho, foi reconhecido como patrimônio imaterial nacional, registrado no livro das Formas de Expressão, com o intuito de
salvaguardar e promover essa manifestação. Trata-se de um modo de valorizar a prática secular, representada pela figura do caboclo da linha das matas e na Zona da Mata Atlântica, significativa metáfora dos múltiplos trânsitos ocorridos no universo simbólico brasileiro.
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.


Mestre Zé Rufino, do Maracatu Águia Misteriosa

Zé Estevão em sua casa no Engenho do Cumbe

Mestre Zé Rufino, do Maracatu Águia Misteriosa


Zé Bedeu, do Maracatu Cambinda Brasileira, durante ensaio no Engenho do Cumbe






Antônio Estevão, do Maracatu Cambinda Brasileira



Zé Estevão, do Maracatu Cambinda Brasileira, no Engenho do Cumbe

Mestres Anderson Miguel e João Paulo no Engenho do Cumbe





Caboclo de lança em canavial no Engenho do Cumbe








Mestre Anderson Miguel, do Maracatu Cambinda Brasileira




















Catedral Nossa Senhora da Conceição, em Nazaré da Mata (PE)
Referências culturais

Maracatu Cambinda Brasileira: mais de 100 anos de tradição
Fundado em 5 de janeiro de 1918, o Cambinda Brasileira é o maracatu rural mais antigo em atividade ininterrupta no país, de acordo com as memórias orais dos seus folgazões. Único a manter a sede na zona rural, no Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata, sua trajetória se confunde com a própria história do baque solto, surgida na Zona da Mata canavieira de Pernambuco. Sem registros escritos, quase tudo o que se conhece hoje sobre o brinquedo vem de integrantes mais antigos.
A história do Cambinda Brasileira começou na propriedade de Dona Rosinha, que permitia que os trabalhadores brincassem maracatu nos dias de folga. Na origem, o maracatu rural era uma brincadeira de trabalhadores da palha da cana durante a pausa do árduo trabalho diário.
Em 1918, as tarrafas cheias do peixe conhecido como cambinda acabou dando nome ao maracatu. Primeiro se chamou Cambinda Nova e depois Cambinda Amorosa até Dona Rosinha sugerir homenagear o país, mudando para Cambinda Brasileira.
O primeiro proprietário do maracatu foi Severino Lotero, trabalhador do engenho. “Entre todos os deslumbrantes folguedos que percorrem as ruas do Recife e os morros e córregos do subúrbio durante a época carnavalesca, um dos mais extraordinários é, sem dúvida, o maracatu rural, também denominado de maracatu de orquestra ou maracatu de baque solto. Devido a algumas de suas características, principalmente à presença de caboclos de lança e de pena, os
maracatus rurais são de vez em quando denominados de caboclinhos ou maracatus descaracterizados”, afirma a antropóloga norte-americana Katarina Real, no livro O Folclore no Carnaval do Recife.
Com a contribuição de Zé de Carro, presidente e mestre caboclo, aliada à dos três filhos do antigo líder, João Padre – João, Antônio e José Estevão da Silva – e dos demais componentes do grupo, o terreiro do Cumbe ainda é cenário das festividades do Cambinda Brasileira desde os primórdios daquele maracatu, sob o respaldo do forte aspecto religioso com status de segredo. “Brinquedo misterioso”, afirmou Zé de Carro.
Arte e cultura
Patrimôniocultural




O maracatu rural, tradição do interior de Pernambuco, é uma manifestação cultural popular que ocorre, principalmente, durante o Carnaval. Em 2014, a festa foi tombada como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Também conhecido como maracatu de baque solto, de orquestra, de trombone ou de baque singelo, ele é composto por dança, música, poesia e está associado ao ciclo canavieiro da Zona da Mata.
Os mais antigos maracatus foram criados em engenhos e têm como fundadores trabalhadores rurais, do canavial, cortadores de cana-de-açúcar, entre fins do século XIX e início do XX.
Par o pesquisador César Mendonça, da Fundação Joaquim Nabuco, o maracatu rural é uma brincadeira do negro liberto, pois seu surgimento coincide com o período da abolição.
Desde então, a tradição se mantém viva passando de pais para filhos, tendo como origem a cidade de Nazaré da Mata. Um dos grupos mais tradicionais com sede ali é o Cambinda Brasileira.
Portal Iphan - Registro do maracatu rural http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/505/

Filmes
• MaracatuRural-CambindaBrasileiro, no Canal Híbridus, Os Espíritos do Brasil http://hibridos.cc/po/rituals/maracatu-rural/
• Maracatus, na TV Brasil www.youtube.com/watch? v=JCbvHQAkAyI
• Maracatu,Maracatus, de Marcelo Gomes http:// portacurtas.org.br/filme/?name=maracatu_maracatus
• SoberanosdoCongo, de Raoni Moreno https://vimeo. com/164201622
Livros
• DesvendandooGrupodeMaracatu, de Márcio Coelho e Ana Favaretto
• LembrançasAfricanas–Maracatu, de Sonia Rosa
• MaracatuAtômico–Tradition,Modernity,and PostmodernityintheMangueMovementofRecife, Brazil, de Philip Galinsky
• MaracatuforDrumsetandPercussion–AGuideto theTraditionalBrazilian+CD, de Scott Kettner, Michele Nascimento e Aaron Shafer-Haiss
• Maracatu:presençadaÁfricanoCarnavaldoRecife, de Leonardo Dantas
• MaracatusdoRecife, de Guerra Peixe
Músicas
• APraieira, com Chico Science & Nação Zumbi
• CandeeiroEncantado, com Lenine (compositor: Lenine e Paulo Cesar Pinheiro)
• CoroaImperial, Maracatu Nação Pernambuco (compositor: Paulo Lopes e Sebastião Lopes)
• Maracatu, com Alceu Valença (compositor: Alceu Valença e Ascenso Ferreira)
• Maracatu, com Egberto Gismonti
• MaracatuAtômico, com Gilberto Gil (compositor: Nelson Jacobina e Jorge Mautner)
• MaracatuElegante, com Inezita Barroso (compositor: José Prates)
• MateusEmbaixador, com Antonio Nóbrega
• TrêsVendas, com Siba (compositor: Mestre Ambrósio)

Dona Biu, rezadeira e guardiã das tradições do Maracatu Cambinda Brasileira, em Nazaré da Mata (PE)

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica


Glossário

Baque solto – Ritmo característico do maracatu rural, marcado por um toque vigoroso e cadenciado, executado por instrumentos de percussão e metais.
Caboclo de lança – Figura emblemática do maracatu rural, caracterizada por roupas coloridas, chocalhos nas costas, lança decorada e grande cabeleira de fitas.
Cambinda Brasileira – Um dos maracatus rurais mais antigos em atividade, fundado em 1918 em Nazaré da Mata (PE), considerado referência na tradição do baque solto.
Canavial – Região de plantações de cana-de-açúcar da Zona da Mata pernambucana, cenário onde se desenvolveram o maracatu rural e seu universo simbólico.
Caixa – Instrumento de percussão de som seco e marcante, essencial para o ritmo do maracatu, tocado com baquetas sobre peles esticadas.
Calunga – Boneca ritualística carregada pela dama do paço, representando forças ancestrais e protegendo os grupos durante as apresentações.
Dama do paço – Personagem responsável por conduzir a calunga no cortejo, desempenhando um papel simbólico de ligação entre os ancestrais e os brincantes.
Engenho – Unidade produtora de açúcar onde escravizados africanos trabalhavam. Eram ambientes de resistência e de criação de expressões culturais, como o maracatu rural.
Gonguê – Instrumento de metal semelhante ao agogô, que produz sons agudos e metálicos, pontuando o ritmo no baque solto.
Loas – Versos cantados pelos mestres do maracatu, carregados de história e religiosidade, entoados em resposta ao coro dos brincantes.
Mata Atlântica – Bioma onde se encontra a Zona da Mata pernambucana, espaço que abriga o maracatu rural e as referências simbólicas ligadas à natureza e aos caboclos. Mestre de baque – Responsável pela condução do ritmo do maracatu, comandando os batuques e a interação entre os instrumentos percussivos.
Mestre de cabocaria – Figura responsável por orientar os caboclos de lança, garantindo a harmonia dos movimentos e a execução correta dos rituais.
Nazaré da Mata – Cidade considerada o berço do maracatu rural, reunindo os principais grupos e sendo palco das grandes celebrações carnavalescas.
Sambada – Encontros festivos onde os maracatus ensaiam e realizam apresentações ao longo do ano, reforçando laços comunitários e preservando a tradição.
Senzala – Espaço de confinamento de pessoas escravizadas nos engenhos coloniais, onde práticas culturais e espirituais afrobrasileiras foram preservadas.
Tarol – Tipo de tambor de afinação mais aguda, usado nas orquestras de maracatu rural para criar variações rítmicas sobre o baque principal.
Terno – Nome dado aos grupos de maracatu rural formados por músicos, caboclos de lança, dançarinos e personagens de cortejo.

Zona da Mata – Região litorânea de Pernambuco historicamente marcada pela monocultura da cana-de-açúcar e pela forte presença da cultura afro-indígena, berço do maracatu rural.
bibliografia

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional II: danças, recreação e música. Fotografias do autor; desenhos de Oswaldo Stomi, Osny Azevedo, do autor e de outras fontes. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. (Coleção Raízes).
AMORIM, Maria Alice (Org.). Dossiê maracatu baque solto: patrimônio cultural imaterial do Brasil. Recife: IPHAN, Governo do Estado de Pernambuco, 2013.
AMORIM, Maria Alice; BENJAMIN, Roberto. Carnaval: cortejos e improvisos. Recife: Fundarpe, 2002.
BONALD NETO, Olimpio. Caboclos de lança: azougados guerreiros de Ogum. In: AMORIM, Maria Alice (Org.). Dossiê maracatu baque solto: patrimônio cultural imaterial do Brasil. Recife: IPHAN, Governo do Estado de Pernambuco, 2013.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2001.
COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz e Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.
FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e paisagem do Nordeste do Brasil. 7. ed. São Paulo: Global Editora, 2004.
KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
KRAUSS, Rosalind. O fotográfico. Tradução de Anne Marie Davée. Paris: Editions Macula, 1990.
REAL, Katarina. O folclore no carnaval do Recife. 2. ed. Recife: Massangana, 1990.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SAMAIN, Etiene (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.
SENA, José Roberto Feitosa de. Maracatus rurais de Recife: entre a religiosidade popular e o espetáculo. 2012. Dissertação (Mestrado em Ciências das Religiões) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2012.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
VIEIRA, Sévia Sumaia. O caboco velho, antigo, sabe brincar. Vai respeitar!: a diversidade dos rituais espirituais na brincadeira do maracatu baque solto ∕ rural. Anais do V Colóquio de História, Recife, 2011.
Agradecimentos
Agradecemos a todos os mestres, brincantes e guardiões do maracatu rural de Nazaré da Mata (PE), cuja força e devoção mantêm viva essa tradição ancestral. Nosso reconhecimento especial ao centenário Maracatu Cambinda Brasileira, símbolo de resistência e referência na cultura do baque solto, e a todos os grupos que, com caboclos de lança, batuques e loas, perpetuam a manifestação cultural.
Nossa gratidão ao jovem mestre Anderson Miguel, ao mestre João Paulo e ao mestre Barachinha, cujas vozes e toques conduzem o ritmo e a tradição do maracatu rural. Agradecemos também ao produtor e pesquisador Elex Miguel, que, com o olhar atento, contribui para o estudo e a valorização dessa expressão cultural. Nosso reconhecimento aos irmãos Esteves e a todos os membros e brincantes do Cambinda Brasileira.
Manifestamos ainda nosso agradecimento aos moradores de Nazaré da Mata, que nos acolheram com generosidade e nos permitiram testemunhar a essência dessa cultura popular. Este registro é um tributo ao maracatu rural e à identidade de um povo que dança, canta e resiste, reafirmando a força de suas raízes. Que este trabalho contribua para a valorização e a preservação desse patrimônio imaterial.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE) em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá