

Costa Atlântica
Organização
Rota da
Rainha do Mar Festa de Yemanjá Salvador -BA
Costa Atlântica
1a edição Brasília, 2025 Editora
Rota da
Rainha do Mar Festa de Yemanjá
Copyright 2025 by Eraldo Peres
[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
EraldoPeres
Texto e pesquisa de conteúdo
ClovisBritto
Texto e coordenação de pesquisa
AngélicaMadeira
Pesquisa e produção executiva
CarolPeres
Preparação de texto e revisão
TeresaMello
Projeto gráfico e direção de arte
JoãoCampello
Ilustrações, legendas e referências
GeovanaPeres
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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra
Roteiros para o Brasil
Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF.
Destino: Salvador e Ilha de Itaparica - BA.
• Período: 2015 e 2018.
• Cultura: Festa de Yemanjá no Rio Vermelho e em Amoreiras.
• Produção: Photo Agência.
Registro
• Objetivo: documentação etnográfica da Festa de Yemanjá e suas celebrações.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.
Equipe
• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres
• Produção e entrevistas: Shirley Fernandes
• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira
• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto
• Produção executiva: Carol Peres
Notas
• Rio Vermelho – Local da maior celebração de Yemanjá em Salvador.
• Ilha de Itaparica – Festa na Praia de Amoreiras, com ritos próprios e cortejos religiosos à Yemanjá.
• Terreiro Ilê Axé Odé Mirim – Comandado até 2017 pela yalorixá Mãe Aíce de Oxóssi, é o espaço de preparação dos presentes e das oferendas que seguem em cortejo até a Praia do Rio Vermelho.
• Mãe Aíce de Oxóssi – Liderança espiritual que compartilhou sua visão sobre a festividade.
• Ilê Axé Babá Ominguian – Terreiro localizado na Ilha de Itaparica, de onde parte o cortejo com as oferendas a Yemanjá em direção à Praia de Amoreiras, unindo a força espiritual da comunidade à ancestralidade das águas.
• Atabaques e cânticos – Expressão sonora da fé e da ancestralidade afro-brasileira.
• Travessia dos barcos – Oferendas levadas ao alto-mar, conectando fé e natureza.
• Memória e resistência – Festa como símbolo da diáspora africana e da preservação cultural.
Entrevistas
• Mãe Aíce de Oxóssi – “Yemanjá é a mãe da Bahia e do Brasil.”
• Devotos e pescadores – Relatos sobre fé, pedidos e agradecimentos à Rainha do Mar.





Festa de Yemanjá
O chamado das águas e dos ancestrais
Eraldo Peres
A cultura afro-brasileira resistiu porque sobreviveu nos corpos, nos cânticos e nas festas. Nos terreiros, nos cortejos e nas oferendas ao mar, vive a alma de um Brasil que não se dobra. Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
Nos anos de 2015 e 2018, estive em Salvador, na Praia do Rio Vermelho, e na Ilha de Itaparica, na Praia de Amoreiras, para acompanhar a Festa de Yemanjá, celebração que transforma o dia 2 de fevereiro em um grande ritual de fé, cor e música. Na véspera da festa, fui ao Terreiro Ilê Axé Odé Mirim, no Engenho Velho da Federação, onde Mãe Aíce de Oxóssi, entre flores, perfumes e espelhos, me disse: “Yemanjá é a mãe da Bahia e do Brasil”. Suas palavras ecoavam a devoção que atravessa gerações e resiste ao tempo, sempre presente nas oferendas cuidadosamente preparadas.
Desde a madrugada, milhares de pessoas chegam à praia, trazendo flores, presentes e cartas com pedidos e agradecimentos. O som das ondas se mistura ao dos atabaques, e a saudação “Odoyá!” reflete como um chamado ancestral, repetido com devoção por aqueles que ali estão para honrar a divindade.
Com os primeiros raios do sol, as flores começam a ser lançadas ao mar. Os centros religiosos se reúnem em torno dos tambores sagrados, entoando cânticos, enquanto mães e filhos de santo incorporam a energia da orixá. As oferendas são organizadas em barcos que partem para alto-mar, conduzindo as dádivas para Yemanjá em uma travessia que parece costurar o mundo dos homens ao domínio das águas.
Mas, para muitos, essa oferenda não é apenas um pedido ou um agradecimento à Rainha do Mar. É também um ato de memória e resistência, um elo com os ancestrais africanos que, durante a diáspora, cruzaram o Atlântico em navios negreiros, trazendo consigo crenças e tradições. As flores que tocam o mar são também saudades, súplicas e afirmações de um povo que sobreviveu, resistiu e transformou a sua dor em fé.
Na tarde do dia 2, atravessamos a Baía de Todos-os-Santos rumo à Ilha de Itaparica, onde a festa continua. No Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, um dos mais tradicionais da ilha, o cortejo segue até a Praia de Amoreiras. Senhoras baianas, vestidas de azul e branco, caminham com graça e firmeza, equilibrando balaios cheios de presentes sobre a cabeça. Jovens iniciados acompanham em silêncio, observando e aprendendo os gestos e os segredos da tradição.
O vento carrega os cânticos, e o cortejo, em ritmo sereno e firme, avança até a água. As mãos femininas entregam as oferendas ao mar, algumas com gestos delicados, outras com o peso de quem deposita ali não apenas presentes, mas histórias e esperanças. A imagem do mar acolhendo os balaios é de uma beleza que silencia até os que assistem de longe.
A Festa de Yemanjá não é apenas uma homenagem à orixá. É um testemunho da força da cultura afro-brasileira.
É resistência, devoção e continuidade. Enquanto houver quem cante, quem dance e quem entregue flores ao mar, Yemanjá seguirá recebendo seus filhos, e seu nome continuará a ser chamado pelas ondas.

Oferendas na Casa de Yemanjá, na Praia do Rio Vermelho, Salvador (BA)


Odoyá, Yemanjá!
O axé do Atlântico Negro
Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra saudar Yemanjá.
Dorival Caymmi
O axé é a força vital presente nos elementos da natureza. Esse princípio gerador e sagrado é o que manteria o equilíbrio entre o mundo invisível (Orum) e o visível (Aiye). Acredita-se, assim, que ele é permanentemente conquistado, restaurado e transmitido. Uma das formas de manutenção dessa circularidade da energia sagrada consiste na realização de um conjunto de rituais para as divindades africanas.
Essa concepção africana de sagrado se manifesta de diferentes maneiras e, com a diáspora decorrente da escravização, esse conjunto disperso se reinventou em diversas partes do mundo, materializando-se em crenças aglutinadas sobre a denominação de candomblé, xangô, batuque (variações do culto aos orixás, divindades da cultura iorubá ou nagô). Todavia, não somente os orixás foram trazidos pelos africanos no contexto das violências coloniais. Também vieram os inquices [entidades dos povos bantos] e os voduns – dos povos da língua fom, do antigo Daomé, conhecidos como jejes no Brasil. Esses cultos ainda foram traduzidos e geraram outras religiões e religiosidades no Atlântico Negro, a exemplo da umbanda no Brasil, da santeria em Cuba e do vodu no Haiti.
A expressão Atlântico Negro consiste na metáfora empregada por Paul Gilroy (2001) para se referir às
Clovis Britto
estruturas transnacionais surgidas na modernidade e que geraram um sistema de comunicações marcado por fluxos e trocas culturais. As populações negras durante a diáspora africana, por meio dessa rede, criaram uma cultura pautada em trânsitos. Dessa forma, o mar consiste em imagem representativa de deslocamentos, misturas, contaminações e diluições.
Essas reflexões são significativas quando percebemos a importância da manutenção do culto às divindades africanas no Atlântico: “Uma espécie de instituição de resistência cultural, primeiramente dos africanos, e depois dos afro-descendentes, resistência à escravidão e aos mecanismos de dominação da sociedade branca e cristã que marginalizou os negros e os mestiços mesmo após a abolição da escravatura. Eram religiões de preservação do patrimônio étnico” (Prandi, 2004, p. 223). Isso pode ser exemplificado pela presença do culto à Yemanjá em diversos territórios: em Cuba, na República Dominicana, em Trinidad e Tobago, no Uruguai e disseminado em todo o Brasil.
No caso brasileiro, em virtude da importância que o mar adquiriu nesse processo, talvez isso explique de algum modo a prevalência das entidades africanas relacionadas às águas em nosso imaginário: sejam os orixás Yemanjá, Oxum e Nanã, seja a inquice Ndanda Lunda ou Dandalunda, ou os voduns Sayo e Tchahe.
Metamorfoseados nas sereias do paganismo europeu e nas iaras ameríndias, essas divindades africanas femininas traduzem a intrínseca relação com as águas, enquanto fonte de vida, de fertilidade, de renascimento.
Uma das narrativas comuns entre os adeptos das religiões de matriz africana é que quando Oxóssi deixou Yemanjá em busca de liberdade, ela teria chorado tanto que suas lágrimas e ela própria se metamorfosearam no mar: “Se na África seu culto está centrado nas águas doces, no Brasil, Yemanjá se torna a divindade do mar, das águas salgadas, é a protetora dos pescadores” (Aguiar, 2014, p. 1163). Conforme apresentou Pierre Verger (2012), na África, Yemanjá (Yemoja) é a protetora das águas doces e salgadas, e seu principal templo fica em Abeokuta, cidade na Nigéria. Reconhecida como divindade do Rio Ogum e mãe de todos os orixás, não por acaso, a nomenclatura Yeyé omo ejá pode ser traduzida como mãe cujos filhos são peixes.
O rio deságua no mar, o que sugere uma explicação para a elaboração em terras brasileiras, tornando-se a Rainha do Mar (também conhecida como Dona Janaína, Ynaê, Mãe d’Água, Sereia, Mucunã, Marabô, Princesa de Alocá) e abrindo espaço para Oxum reinar nas águas doces. Da mesma forma trata-se de uma interessante estratégia simbólica. Enquanto na Nigéria, ela é cultuada como a divindade do Rio Ogum, no Brasil sofreu um processo de dilatação, tornando-se presente em todas as águas salgadas e associada a maternidade, fertilidade, criação e continuidade da vida. Apesar desse deslocamento é saudada pela expressão Odoyá, mãe do rio ou mãe das águas. Na Bahia, é uma das divindades mais populares, provavelmente pela centralidade que ocupa na tradição iorubá e por agregar na diáspora esse conjunto de devoções relacionadas à vida marítima, tão caro aos habitantes das regiões costeiras.
Nessas rotas transatlânticas, Salvador, na Bahia, primeira capital do Brasil, consiste em um dos principais espaços que abrigaram os cultos de africanos e, posteriormente, de afrobrasileiros. Fundada como São Salvador da Bahia de Todos os Santos, expressa na nomenclatura os trânsitos entre essas
inúmeras divindades trazidas através do Atlântico. Das expressões do catolicismo oficial passando pelos diferentes cultos africanos e diversas culturas indígenas, consiste em um dos espaços privilegiados da Costa Atlântica para se perceber os deslocamentos no Atlântico Negro.
Uma das principais celebrações em homenagem à Yemanjá ocorre no dia 2 de fevereiro, na Praia do Rio Vermelho, em Salvador. Além dos terreiros, a enseada do Rio Vermelho se tornou em um dos espaços centrais de expressão devocional à Rainha do Mar. Nesse aspecto, não é sem motivos que as águas salgadas têm como referência um rio (Vermelho), e a própria nomenclatura denota esse trânsito pelas desembocaduras.
Segundo Edilece Couto (2004), trata-se de uma reelaboração da antiga festa de Sant’Ana, ocorrida naquela localidade, quando os pescadores ofereciam presentes a Yemanjá. Apesar de Sant’Ana ser sincretizada com Nanã (a mais antiga divindade das águas), os rituais no mês de fevereiro sempre foram associados à Yemanjá: “Nanã é o orixá das águas paradas. Os habitantes do arrabalde têm por ela um respeito distante. É natural que, vivendo próximos ao mar e tendo a pescaria como atividade principal, tivessem a necessidade de cultuar Yemanjá” (p. 147). Nesse sentido, acredita-se que o mito fundador da festividade tenha ocorrido em 1924, quando um grupo de pescadores ofereceu um presente a Mãe d’Água em busca de êxito em sua atividade, sob a orientação da yalorixá Júlia Bogum: “Um balaio grande, uma talha de barro, flores e fitas nas cores do orixá: branca e azul” (p. 149). Na década de 1930, teria ocorrido a separação da festa de Sant’Ana, que tinha missa no dia da entrega do presente, e assumiram o protagonismo de Yemanjá, construindo uma nova identidade com o culto africano: “A data de 2 de fevereiro para a oferenda à Rainha do Mar só foi oficializada no final da década de 1950, quando
o presente passou a ser denominado Festa de Yemanjá. Esse é também o dia no qual os católicos festejam Nossa Senhora das Candeias” (p. 151).
Ao longo de vinte anos, a parte religiosa da festa foi coordenada pela yalorixá Aíce de Oxóssi, do terreiro Ilê Axé Odé Mirim, no Engenho Velho da Federação. Seguindo os preceitos do candomblé, além dos rituais para Yemanjá, na madrugada do dia 2 de fevereiro são depositados os presentes para Oxum, no Dique do Tororó. Para adentrar no mar, pede-se licença a esse orixá, prática seguida por diversos outros terreiros. É uma forma de reencontrar algumas das primeiras devoções a Yemanjá que ocorriam no Dique e também de ampliar a celebração para todas as entidades das águas doces, salgadas ou pantanosas.
Entre pedidos, agradecimentos e presentes, ao som de atabaques e cânticos, a celebração em Salvador se tornou uma das principais festas públicas em homenagem a uma entidade africana. A alfazema (lavanda), as flores e os demais presentes são levados por uma multidão de pessoas que os depositam diretamente no mar ou nos balaios que seguirão nas embarcações com o presente oferecido pela colônia de pescadores. A expectativa é que o orixá os aceite e eles, portanto, sejam submersos.
O ritual ocorre em diversas cidades brasileiras e em distintas datas. O das praias do Rio de Janeiro (RJ), no dia 31 de dezembro, por exemplo, foi registrado como patrimônio imaterial municipal em 2011. A que é celebrada no dia 7 de dezembro, na Praia do Cruzeiro, em Belém (PA), foi decretada patrimônio imaterial do Estado do Pará, em 2014. As festas de Yemanjá celebradas em 15 de agosto nas praias do Futuro e de Iracema, em Fortaleza (CE), foram reconhecidas como patrimônio estadual. Também foram classificadas como patrimônio imaterial as festas de João Pessoa (PB), de Belo Horizonte (MG) e de Brasília (DF). Em 2020, a festa do dia 2 de fevereiro, em Salvador, foi inscrita no livro de registro especial dos eventos e celebrações como patrimônio municipal de Salvador.
Ao celebrar a mãe de todas as cabeças e dos orixás, por extensão, reverenciam-se as múltiplas religiosidades afrobrasileiras e o seu direito à liberdade de expressão. Trata-se de uma festa na costa brasileira que aponta para o outro lado do Atlântico, onde as oferendas são encaminhadas para que refaçam a travessia, estreitando o oceano para reencontrar as raízes africanas e religar ao sagrado.
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.

Devotos reunidos em ritual de fé e oferendas a Yemanjá














Dança ritual durante as celebrações para Yemanjá




















Preparativos para cortejo de Yemanjá na Praia de Amoreiras, Ilha de Itaparica (BA)







Cortejo de Yemanjá na Praia de Amoreiras






Referências culturais

Arte e cultura



A Festa de Yemanjá é uma celebração religiosa e cultural realizada anualmente no dia 2 de fevereiro em Salvador e na Ilha de Itaparica, na Bahia. A festividade tem origem na tradição afro-brasileira e homenageia Yemanjá, a orixá das águas e mãe dos peixes. Os devotos trazem oferendas, como flores e perfumes, lançando-as ao mar para pedir proteção e bênçãos.
Saudaçãoemyorùbá
Ê Nijé, Nilé Lodô (Quem é a grande senhora dos mares ?)
Yemanjá Ô (Iemanjá ô)
Akota Pê Lê Dê (É a ela que nós pedimos)
Iyá Orô Mi Ô (Mãe cujos filhos são peixes)

Yalorixá Mãe Aíce de Oxóssi (in memoriam) em seu terreiro Ilê Axé Odé Mirim, foi responsável por mais de 20 anos pela preparação do presente de Yemanjá, na festa do Rio Vermelho, em Salvador.

Filmes
• Barravento (1962), de Glauber Rocha
Sinopse: O filme retrata uma comunidade de pescadores na Bahia e a relação entre os cultos afro-brasileiros e as dificuldades da vida. https://www.youtube.com/watch? v=x7t8wj2e9zk
• JardimdasFolhasSagradas (2011), de Pola Ribeiro
Sinopse: Um homem de origem africana descobre sua conexão com o candomblé e a relação com os orixás. https://www.youtube.com/watch?v=4L1Jh8Jc9K8
• OCantodoMar (1953), de Alberto Cavalcanti
Sinopse: Retrata a vida dos pescadores nordestinos e sua relação com o mar e a fé em Yemanjá.
Livros
• ARainhadoMar:IemanjánaLiteraturaBrasileira, de José Jorge de Carvalho
• CandombléeUmbanda:CaminhosdaDevoção Brasileira, de Reginaldo Prandi
• IemanjáeaFormaçãodaCulturaBrasileira, de Vagner Gonçalves da Silva
• MarMorto, de Jorge Amado
• Orixás:DeusesIorubásnaÁfricaenoNovoMundo, de Pierre Verger
Músicas
• DoisdeFevereiro, com Dorival Caymmi https://www. youtube.com/watch?v=Ug9ExS4g5h4
• IemanjáRainhadoMar, com Maria Bethânia (compositor: Pedro Amorim e Sophia De Mello Breyner) https://www.youtube.com/watch?v=ENHgds3czHg
• OMarSerenou, com Clara Nunes (compositor: Candeia) https://www.youtube.com/watch?v=7zCbx6KvQR8

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica


Glossário

Atabaque – Tambor utilizado nos rituais afro-brasileiros, fundamental para marcar o ritmo das celebrações e invocar os orixás.
Baía de Todos-os-Santos – Maior baía do Brasil e importante cenário da Festa de Yemanjá, onde oferendas são levadas ao mar como parte dos rituais da celebração.
Balaio – Cesto trançado que carrega as oferendas destinadas à Yemanjá, contendo flores, perfumes, espelhos e outros presentes.
Cortejo – Procissão festiva que conduz as oferendas ao mar, reunindo devotos, músicos e participantes vestidos de azul e branco em homenagem à orixá.
Ilê Axé Odé Mirim – Terreiro localizado no Engenho Velho da Federação, onde ocorrem preparativos para a Festa de Yemanjá, com organização de oferendas e rituais.
Ilê Axé Opô Afonjá – Importante terreiro na Ilha de Itaparica (BA), onde devotos realizam homenagens à Yemanjá e seguem em cortejo até a Praia de Amoreiras.
Mãe Aíce de Oxóssi – Yalorixá do Ilê Axé Odé Mirim, responsável por organizar rituais e enfatizar a importância de Yemanjá como mãe espiritual da Bahia e do Brasil. Falecida em 2017.
Odoyá! – Saudação à Yemanjá que significa mãe das águas e expressa respeito e devoção à Rainha do Mar.
Oferenda – Presente simbólico entregue ao mar em agradecimento ou súplica à Yemanjá, reforçando o elo entre os devotos e a orixá.
Orixá – Associada à maternidade e ao mar, Yemanjá é uma das mais veneradas divindades do candomblé e das religiões afrobrasileiras.
Praia do Rio Vermelho – Local em Salvador onde ocorre a principal celebração da Festa de Yemanjá, atraindo milhares de fiéis e visitantes.
Praia de Amoreiras – Local na Ilha de Itaparica onde a celebração continua, com cortejos e oferendas entregues ao mar em um ambiente de devoção e tradição.
Rainha do Mar – Título dado à Yemanjá, representando sua força, sua proteção e seu poder sobre as águas.
Terreiro – Espaço sagrado das religiões afro-brasileiras, onde são realizados rituais, celebrações e cultos dedicados aos orixás.
Travessia – Ato de conduzir as oferendas pelo mar, simbolizando a ligação entre o mundo material e o espiritual, além de remeter à memória da diáspora africana.
Yemanjá – Orixá das águas, protetora dos pescadores e das famílias, reverenciada no dia 2 de fevereiro com grandes celebrações e oferendas ao mar.
bibliografia

AGUIAR, Janaína Couto Teixeira Maia. No caminho das águas têm presentes no rio, tem festa no mar: o hibridismo cultural nas festas Iemanjá e Oxum em Salvador e Aracaju. Diálogos, Maringá, v. 18, n. 3, 2014.
ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional II: danças, recreação e música. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. (Coleção Raízes). Fotografias do autor; desenhos de Oswaldo Stomi, Osny Azevedo, do autor e de outras fontes.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 10. ed. ilustrada. São Paulo: Global, 2001.
COLLIER, John. Antropologia visual: a fotografia como método de pesquisa. Tradução de Iara Ferraz e Solange Martins Couceiro. São Paulo: EPU; Ed. da Universidade de São Paulo, 1973.
COUTO, Edilece Souza. Tempo de festas: homenagem a Santa Bárbara, N. S. da Conceição e Sant’Ana em Salvador. 2004. Tese (Doutorado em História) – Universidade Estadual Paulista, 2004.
GILROY, Paul. O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo; Rio de Janeiro: 34; Universidade Cândido Mendes – Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.
GONÇALVES, José Reginaldo Santos; CONTINS, Márcia. Entre o Divino e os homens: a arte nas festas do Divino Espírito Santo. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 14, n. 29, jan./jun. 2008.
KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
KRAUSS, Rosalind. O fotográfico. Tradução de Anne Marie Davée. Paris: Editions Macula, 1990.
PRANDI, Reginaldo. O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 52, 2004.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SAMAIN, Etiene (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
VERGER, Pierre. Notas sobre o culto aos orixás e voduns. 2. ed. São Paulo: Editora da USP, 2012.

Agradecimentos
Agradecemos a todos que contribuíram para a documentação e a realização deste caderno dedicado à Festa de Yemanjá, em Salvador e na Ilha de Itaparica (BA). Nossa gratidão, in memoriam, à Mãe Aíce de Oxóssi, do Terreiro Ilê Axé Odé Mirim, cuja sabedoria e dedicação foram essenciais para compreendermos os rituais e a devoção à Rainha do Mar – e aos integrantes dos terreiros e centros religiosos que generosamente compartilharam seus saberes, cânticos e histórias, permitindo-nos registrar com respeito essa celebração ancestral.
Reconhecemos também a importância dos pescadores, das baianas e dos devotos que, com fé e tradição, mantêm viva essa manifestação cultural. Agradecemos ainda às comunidades do Rio Vermelho e da Ilha de Itaparica, que nos acolheram e possibilitaram um olhar mais profundo sobre essa experiência de resistência e pertencimento. Que as águas continuem levando os pedidos e os agradecimentos para Yemanjá, conectando gerações e reafirmando a força das religiões afro-brasileiras.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE) em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi