

Mineração
Organização
Eraldo Peres
Rota da
Romaria Kalunga Quilombo Vão de Almas, Cavalcante - GO
Divino Espírito Santo
Mineração
1a edição Brasília, 2025 Editora
Rota da
Romaria Kalunga Quilombo Vão de Almas, Cavalcante - GO
Divino Espírito Santo
Copyright 2025 by Eraldo Peres
[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
EraldoPeres
Texto e pesquisa de conteúdo
ClovisBritto
Texto e coordenação de pesquisa
AngélicaMadeira
Pesquisa e produção executiva
CarolPeres
Preparação de texto e revisão
TeresaMello
Projeto gráfico e direção de arte
JoãoCampello
Ilustrações, legendas e referências
GeovanaPeres
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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra
Roteiros para o Brasil
Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF
Destino: Quilombo Vão de Almas, Cavalcante - GO
• Período: 2022
• Cultura: Romaria do Divino Espírito Santo, comunidade Kalunga
• Produção: Photo Agência
Registro
• Objetivo: documentação fotográfica e etnográfica da Romaria Kalunga do Divino Espírito Santo.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.
Equipe
• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres
• Assistente de fotografia: Alan Santos
Notas
• Vão de Almas – Quilombo Kalunga em área remota da Chapada dos Veadeiros
• Romaria – Mistura de fé, caminhada e celebração.
• Coroa e estandarte – Símbolos do Divino conduzidos pelos romeiros
• Cantos e rezas – Expressões de devoção e pertencimento
• Peregrinação – Viagem espiritual e coletiva pelos caminhos da ancestralidade
• Resistência – Fé e tradição como formas de afirmação quilombola
• Registro – Importância do reconhecimento do patrimônio imaterial afro-brasileiro
• Comunidade – Reunião dos Kalungas de diferentes regiões em torno da fé e da identidade cultural
Entrevistas
• Vandeli Matos – Imperador do Divino Espírito Santo.
• Irene Francisca, a Tuta das Flores – A continuidade da fé




Festa Kalunga do Divino Espírito Santo Fé e tradição entre as montanhas
Os quilombolas são herdeiros de uma história de resistência, de fuga e de criação de um mundo próprio, onde a fé e a tradição se entrelaçam como raízes profundas na terra.
Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
Em agosto de 2022, segui pelas estradas de terra batida do norte de Goiás, rumo ao Quilombo Vão de Almas, onde a festa Kalunga do Império do Divino Espírito Santo e a Romaria de Nossa Senhora da Abadia transformam a paisagem em um grande território de fé e celebração. Kalunga, na língua banto, significa sagrado, proteção, lugar de encontro entre vivos e ancestrais. Foi com essa força espiritual que, no século XVIII, africanos escravizados fugiram e encontraram refúgio entre as montanhas e os vales da Chapada dos Veadeiros, onde ergueram as comunidades, distantes do domínio colonial.
A estrada serpenteia entre serras e morros, e a travessia do Rio das Almas, que, em tempos de cheia exige paciência e cuidado, antecipa o isolamento e a resistência que marcam a trajetória dos Kalunga. Quando enfim se chega ao quilombo, a poeira dá lugar a uma nova paisagem: diante da Igreja de Nossa Senhora da Abadia, um povoado efêmero se ergue, formado por barracas de argila e palha de buriti, onde famílias, anciãos, jovens e crianças se reúnem para dias de festa e tradição.
“Tentamos manter como sempre foi”, diz Irene Francisca, conhecida como Tuta das Flores, uma das guardiãs das decorações da festa. Aos 55 anos, ela orienta as meninas na
Eraldo Peres
preparação dos enfeites: “Quando nascemos, essa festa já existia. Essa forma de decorar com flores foi passada para nós por nossas mães e avós”.
Ao cair da noite, as chamas das candeias tremulam ao vento, iluminando o caminho da procissão noturna, que antecede o grande dia da coroação. Presas em bastões, as luzes das lamparinas balançam como estrelas vivas, guiando os devotos em silêncio respeitoso. Pelas ruas de terra, cânticos ecoam na escuridão da mata, misturando-se ao farfalhar das folhas e ao som distante dos tambores. As sombras dos quilombolas projetam-se nas paredes de barro das casas, como se as memórias dos antepassados caminhassem com eles.
No dia seguinte, chega o grande momento da coroação do Imperador, e a festa atinge seu ápice. Anjinhos de branco seguem em cortejo, enquanto reis e capitães do Império conduzem as bandeiras sagradas com veneração. O dia avança ao ritmo dos tambores e cânticos, preenchendo o ar com a força da tradição. Nas casas, os batizados reúnem famílias em celebração, e as mesas, adornadas com toalhas de cores vibrantes e balões coloridos, se enchem de comidas típicas, bolos e bebidas em um gesto de partilha e bênção.
As mulheres negras do quilombo, com cabelos trançados e óculos exuberantes, caminham com a altivez de quem carrega no corpo e no olhar a memória dos ancestrais. Os homens, firmes e respeitosos, conduzem os rituais, garantindo que a herança cultural permaneça viva para os mais jovens.
No Vão de Almas, o tempo não apaga, fortalece. O Festival Kalunga não é apenas um evento religioso, mas um reencontro com as raízes de um povo que transformou fuga em liberdade e fé em perseverança.
E quando a poeira da festa se assenta, fica a certeza de que, enquanto houver candeias acesas, o espírito Kalunga seguirá iluminando a história que os séculos não puderam apagar.

Capela de Nossa Senhora da Abadia na vila de festejos Kalunga, no Quilombo Vão de Almas, Cavalcante (GO)

Festejos Kalunga
Entre o reinado e o império no Vão de Almas Clovis Britto
Viva o capitão do mastro,
Viva o dono da festa,
Viva todos os que estão na função
Ora viva Nossa Senhora d’Abadia
Cântico dos festejos Kalunga (Ribeiro, 2021)
Em meio à violência do sistema colonial, africanos e afrobrasileiros construíram estratégias de luta contra à escravidão, formando quilombos. Beatriz Nascimento (2021) reconhece que kilombo é uma instituição africana, remetendo a um termo angolano que possui, como significados, a formação social dos guerreiros imbangala [grupo étnico de Angola]; território ou campo de guerra; e casa sagrada onde ocorriam rituais de iniciação.
No caso brasileiro, Nascimento (2021) destaca que o quilombo, em seu sentido histórico, é um espaço de resistência organizada dos negros nos séculos de dominação escravista e fator de identidade étnica e social, “um local onde a liberdade era praticada, onde os laços étnicos e ancestrais eram revigorados” (p. 105). A autora informa que, no final do século XIX, houve uma alteração do significado: de instituição para símbolo de força, instrumento ideológico contra as diferentes opressões. Trata-se, assim, de um sistema social alternativo de bases comunitárias, forma de resistência cultural.
No interior brasileiro, a religiosidade contribuiu para o enraizamento da população atraída pela densidade das lavras e para a transformação das provisórias rancharias em ocupações definitivas em diversas regiões mineradoras, desde o período colonial: “(...) significativamente, os grandes quilombos do século XVIII se estabeleceram na região de economia da
mineração” (Nascimento, 2021, p. 102). Argumento similar ao de Cristina de Cássia Moraes (2012), quando sublinhou, por exemplo, o modo como os milhares de arrivistas no sertão de Goiás se aglutinaram em decorrência do sentimento religioso e da busca pelo sagrado no século XVIII: “Aspectos que uniam a todos e que contribuíram para que estas pessoas se irmanassem, organizando-se em sociedade e fixando-se em locais que lhes eram completamente adversos” (p. 16).
O Estado de Goiás surgiu da mineração do ouro. Embora tenha durado pouco mais de meio século, Luis Palacin (1979) destaca que essa atividade econômica impactou as práticas culturais e, por meio delas, contribuiu para nortear os caminhos da fé. A região não era mais do que um grande garimpo com leis próprias e sem estrutura judiciária que pudesse garantir a paz. Nesse contexto, a mineração estimulou o tráfico de pessoas escravizadas para os sertões goianos, de diversos grupos etnolinguísticos de origem banto e sudaneses oriundos dos atuais Congo, Angola e Moçambique, conforme analisou Cristina Moraes (2007).
Africanos e afro-brasileiros construíram quilombos em Goiás, oriundos do período colonial e imperial, a exemplo das localidades do Ambrósio, do Arraial das Três Barras, do Bom Sucesso, do Arraial de Jaraguá, do Pilar, do Muquém, do Cedro, do Mesquita e da Comunidade Kalunga, investigados por Martiniano Silva (2008). Além disso, muitos remanescentes de quilombos são originários de concentrações rurais e urbanas ao longo do século XX. De acordo com a Fundação Cultural Palmares, existem atualmente 58 comunidades certificadas no Estado de Goiás, englobando os aldeamentos contemporâneos.
Segundo Rodrigo Vilela e Neio Campos (2014), os quilombos são tanto aqueles que se formaram nos períodos colonial e imperial brasileiros, quanto os resultados da mobilização das populações negras rurais ou urbanas do Brasil contemporâneo: “Os aquilombados de outrora e os quilombolas do Brasil atual sempre tiveram a natureza como aliada no processo de formação das suas comunidades, as condições geográficas favoreceram o estabelecimento e a estabilidade do quilombo, o que dificultou sua identificação” (p. 48).
Um dos maiores territórios brasileiros é o Kalunga, nos municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, ao norte da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Criado no século XVIII, durante o ciclo do ouro, é composto por aproximadamente 1.600 famílias distribuídas em 39 comunidades.
Existe uma imbricada relação dos povos tradicionais com a região, entendida como sagrado, o que pode ser evidenciado no significado da palavra Kalunga. Embora seja um termo polissêmico e muito comum entre os africanos, de acordo com Mari Baiocchi (1999), possui origem banto e, para os Kalungas, significa um lugar sagrado e ainda uma planta que nunca seca, a Simaba ferrugínea.
A comunidade Kalunga “tornou-se pioneira na luta pelo reconhecimento institucional e pelo direito à propriedade
territorial” (Marinho, 2017, p. 355). De acordo com Thais Marinho (2017), desde 1982 a luta das lideranças locais, com a antropóloga Mari Baiocchi, culminou com o reconhecimento pelo estado de Goiás por meio da Lei Estadual nº 11.409/91, que conferiu o título de Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, fato “que deu início à longa caminhada em busca do reconhecimento e dos benefícios garantidos por lei” (p. 355).
Ações que resultaram no direito aos títulos de terra, na inserção nas políticas públicas federais e na patrimonialização: “(...) A organização territorial particular Kalunga, especialmente a partir da casa, da roça, do gado, do povoado e dos espaços sagrados, é o próprio fundamento para o reconhecimento e para o direito ao território, uma vez que é essa dinâmica que orienta a etnicidade e a sustentabilidade do grupo, bem como suas expressões culturais, para além de uma associação a cor, raça ou descendência africana, vistos como únicos requisitos da autenticidade” (p. 356).
A partir da constatação de Thaís Marinho (2017), de que entre o povo Kalunga é possível identificar três espaços sociais – a casa e a roça, correspondendo à família nuclear; o povoado ou localidades, significando o núcleo familiar ou região de parentesco; e os espaços sagrados, como cemitérios, pátios e capelas para festas e rituais religiosos –, é possível visualizar o modo como estabeleceram práticas devocionais em diferentes regiões. São os festejos celebrados nos agrupamentos denominados Vão de Almas
(Reinado de Nossa Senhora da Abadia e Império do Divino), em Teresina de Goiás e no Vão do Moleque (Festejo de Nossa Senhora do Livramento), em Cavalcante.
É significativo o fato de o ritual no Vão de Almas condensar duas festas na semana do dia 15 de agosto – data consagrada a Nossa Senhora da Abadia: a celebração da santa e, também, as comemorações do Império do Divino Espírito Santo. Portanto, ali, o Império do Divino é cultuado em data diferente do calendário católico. Enquanto o oficial remete ao dia de Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa, naquela localidade aproveita-se o ritual de agosto, tornando-se uma festa de festas: “Esses festejos simbolizam o fechamento de um ciclo, acaba a seca e se iniciam as chuvas, consequentemente, o plantio. É o momento de realizar negócios com os de fora e também rever parentes de regiões distantes e/ou que migraram para as cidades” (Marinho, 2008, p. 72).
No Vão de Almas, os devotos seguem uma liturgia própria, que mescla romaria, procissão e folia. Os moradores se deslocam para o local, promovendo uma mudança temporária para as proximidades da capela. Entre ela e a casa do festeiro ocorre o Império do Divino, com a presença do imperador, do alferes com a bandeira e do alferes com a espada, com os príncipes e anjos, separados em um quadrado de proteção [varões enfeitados com papel crepom]. Cânticos, orações e ladainhas
marcam a celebração com o levantamento do mastro e procissões ao som da sanfona.
Durante a romaria, nos cortejos são usadas velas de cera, com rei e rainha coroados: “O início das festividades da Romaria de Nossa Senhora da Abadia é marcado por reza, missa na igreja, levantamento do mastro ao lado da igreja, impérios do Divino;,crianças vestidas de anjo, folia, procissão, e o povo devoto acompanhado por banda de música e centenas de candeias [luminária feita de pavio de algodão misturado à cera de abelhas] que iluminam as noites” (Rosa, 2013, p. 33).
Entre o reinado de Nossa Senhora D’Abadia e o império do Divino Espírito Santo, a comunidade Kalunga do Vão de Almas realiza festejos singulares em prol dos plantios e das colheitas, da valorização das referências culturais e do culto à liberdade. Ao sintetizarem um conjunto de festas (procissões, folias, reinados, impérios) em uma romaria – culto nômade marcado por deslocamento e construção de uma vila provisória em torno da capela –, os quilombolas dilatam o espaço sagrado que reforça seus vínculos ancestrais.
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.

Chegada de romeiros aos festejos Kalunga





Amanhecer na vila em frente à Capela de Nossa Senhora da Abadia







Jovens no Rio das Almas, que corta a vila das celebrações











Sons automotivos animam os arraiais na vila



Preparação de decoração para o Império do Divino Espírito Santo





Romeiros participam da procissão das lamparinas de cera

Irene Francisca, a Tuta das Flores

Imperador Vandeli Matos, Divino Espírito Santo

Imperador Adonildes da Cunha, Nossa Senhora de Abadia

Rainha Nilda dos Santos, Nossa Senhora de Abadia

Família segue para comemoração após batizado na capela



Império de Nossa Senhora de Abadia




Família comemora batizado




Referências culturais

Cortejo ilumina a noite na procissão à luz de velas
No Quilombo Kalunga Vão de Almas, localizado na região da antiga
Rota da Mineração em Goiás, a Romaria do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora da Abadia são vividas como ritos de fé e resistência que reforçam os laços da comunidade com a ancestralidade e o território. Realizada tradicionalmente em agosto, a celebração mobiliza famílias inteiras em torno de práticas que integram espiritualidade, partilha e memória coletiva.
As festividades guardam elementos herdados da tradição portuguesa — como o levantamento do mastro, as bandeiras, a coroa e o estandarte do Divino — mas é profundamente marcada pelo modo de ser quilombola. As caminhadas, os cânticos, as procissões e os momentos de devoção revelam uma religiosidade vivida no cotidiano da comunidade e reinterpretada a partir de suas vivências. A romaria é também tempo de reencontro: os filhos e filhas do quilombo que vivem fora retornam para renovar votos e fortalecer vínculos com a própria origem.
Mais do que uma festa religiosa, a Romaria Kalunga do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora da Abadia são expressões de um território de cultura viva, onde fé, tradição oral, solidariedade e resistência se entrelaçam. Em diálogo com outras celebrações da Rota da Mineração — como as realizadas em Minas Gerais e nas cidades de Goiás —, a romaria do Vão de Almas reafirma o protagonismo das comunidades quilombolas na preservação do patrimônio imaterial brasileiro.
Arte e cultura
Vem, ó Divino Esprito Consoladô descei lá do céu
Pra dá riquezas do voss’amô
Ó, vem, descei lá do céu
pra dá riqueza do voss’amô.
Hino do Divino, cantado na festividade Kalunga

Rainha de ouro, de ouro só.
Esse rei é de ouro, de ouro só.
Ô sala de vadiar, varanda.
Ô sala de vadiar, varanda.
Estrofe de uma cantiga de sussa [dança tradicional do povo Kalungas] cantada por mulheres
Filmes
• CaminhosdoDivino, de Zeca Pires
https://www.youtube.com/watch?v=Iy8XKEn-Lls
• EmNomedoDivino, de Carlos Brandão Lucas
https://www.youtube.com/watch?v=ENB9BMrTmpw
• FestadoDivinoemDiamantina, documentário da TV
Assembleia de Minas Gerais
• ODivinoeoDiamante, curta-metragem de André Amparo
• RomariadoVãodoMoleque, de Rosa Maria Berardo
Livros
• AsFestasdoDivinonoBrasil, de Lélia Pereira da Silva Nunes
• EspíritoSantodosHomens:EstudosobreaFesta Popular, de Maria Isaura Pereira de Queiroz
• FestadoDivinoEspíritoSanto:umOlharEtnográfico sobreaFéeaCulturaPopular, de José Cláudio Souza Alves
• OCultodoDivinoEspíritoSantoemGoiás, de Isabela Perrota
• OEspíritoSantoeaTradiçãoCulturaldeMinas
Gerais, de Beatriz Cerqueira
• PatrimônioImaterialeFestadoDivinoem
Diamantina, de Carlos Rodrigues Brandão
Músicas
• BandeiradoDivino, com Ivan Lins
• CortejodoDivino, com Pereira da Viola
• DivinoEspíritoSanto, com Expresso Rural, de Daniel Lucena e Paulo Back
• EspíritoSanto, com Milton Nascimento
• FestadoDivino, com Almir Sater
• FestadoDivino, com Elomar Figueira Mello
• HinodoDivinoEspíritoSanto, tradicional de Minas Gerais


Mestra Irene Francisca, a Tuta das Flores, é guardiã na comunidade Kalunga, onde ensina a criar enfeites para a festa do Divino e a romaria de N. Sra da Abadia

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica


Glossário

Alferes – Figura cerimonial que carrega a bandeira ou a espada do Império durante as celebrações do Divino Espírito Santo e representa liderança e devoção no cortejo.
Anjinhos – Crianças vestidas de branco, simbolizando a pureza e os mensageiros celestiais, que acompanham as procissões e as coroações.
Bandeira do Divino – Estandarte sagrado conduzido nas procissões, carregando as cores, os símbolos e a imagem do Divino Espírito Santo nas romarias do povo Kalunga.
Barracas de palha de buriti – Estruturas provisórias construídas para acolher famílias e devotos ao redor da capela durante a festa.
Candeias – Luminárias feitas com pavio de algodão e cera de abelha usadas nas procissões noturnas, criando um ambiente de luz e devoção.
Capitão do Império – Líder comunitário que coordena os rituais do Império do Divino e garante a continuidade das tradições e dos saberes ancestrais.
Capitão do mastro – Responsável pelo levantamento do mastro, um dos momentos centrais da festa e que representa a força coletiva e a ligação com o sagrado.
Casa do festeiro – Local onde se concentram os preparativos e os rituais familiares, um espaço de partilha, acolhimento e reunião.
Divino Espírito Santo – Figura central das celebrações, representa a presença do Espírito Santo entre os devotos e simboliza fé, união e renovação.
Folia – Conjunto de cânticos e orações entoados durante as caminhadas e as procissões, expressando religiosidade e pertencimento comunitário.
Imperador do Divino – Personagem central das festividades, coroado para representar a comunidade e zelar pelos rituais do Império do Divino Espírito Santo.
Império do Divino – Conjunto de rituais, símbolos e personagens que compõem a festa, incluindo a coroação do imperador, o levantamento do mastro e as procissões.
Kalunga – Palavra de origem banto, que significa lugar sagrado ou planta que nunca seca e dá nome à comunidade quilombola.
Ladainha – Sequência de orações cantadas ou recitadas, pedindo bênçãos e proteção, realizadas antes e durante os cortejos.
Mastro – Tronco ornamentado que representa a conexão entre a terra e o divino e marca o início das celebrações.
Nossa Senhora da Abadia – Santa celebrada no Vão de Almas (GO), cuja festa coincide com os rituais do Divino Espírito Santo e simboliza proteção e fertilidade.
Quilombo Kalunga – Maior território quilombola do Brasil Central, formado no século XVIII por descendentes de africanos fugidos das minas, onde tradições, saberes e rituais encontram-se preservados.
Reinado de Nossa Senhora d’Abadia – Celebração que ocorre com a festa do Divino e reforça a devoção à santa protetora da comunidade e os laços religiosos locais.

Romaria – Deslocamento em direção ao local sagrado da festa, envolvendo longas caminhadas, paradas para oração e a construção de uma vila temporária para os dias de celebração.
Território sagrado – Espaço físico e simbólico onde se realizam os festejos e traduz os vínculos com a terra, os ancestrais e as práticas espirituais da comunidade.

bibliografia
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RIBEIRO, Joaquim de Sousa. Memórias do reinado de Nossa Senhora D’Abadia e do império do Divino Espírito Santo – Vão de Almas (Cavalcante-GO). Monografia (Licenciatura em Educação no Campo), Universidade Federal do Tocantins, Arraias, 2021.
ROSA, Wanderléia dos Santos. Rezas, rezadeiras e juventude na comunidade Vão De Almas, Cavalcante-GO. Monografia (Licenciatura em Educação do Campo), Universidade de Brasília, Planaltina, 2013.
SAMAIN, Etienne (Org.). O fotográfico. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Senac São Paulo, 2005.
SILVA, Martiniano J. Quilombos do Brasil Central: violência e resistência escrava (1719-1888). 2. ed. Goiânia: Kelps, 2008.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
VILELA, Rodrigo de Oliveira; CAMPOS, Neio Lúcio de Oliveira. Os quilombos contemporâneos e a proteção da biodiversidade: aproximação teórico-conceitual. Revista Eletrônica: TempoTécnica - Território, Brasília, v. 5, n. 2, 2014.
Agradecimentos
Agradecemos profundamente a toda a comunidade Kalunga do Quilombo Vão de Almas, guardiã de uma das mais ricas e vibrantes expressões de fé popular no Brasil. Nosso reconhecimento especial vai para Rafael dos Santos, que, além de agente de saúde e brincante, foi nosso guia incansável durante os dias intensos de romaria, abrindo caminhos e partilhando saberes.
Estendemos nosso agradecimento à sua irmã, Izidia dos Santos Rosa, que nos acolheu com generosidade em sua casa, oferecendo almoços e jantares que aqueceram corpo e alma, e à sua mãe, Dona Natalina dos Santos Rosa, mestra da cultura Kalunga que nos presenteou com histórias cheias da memória viva e ancestral do quilombo.
A cada rezadeira, festeiro, músico, jovem e ancião que cruzaram nosso caminho nessa jornada, deixamos nossa gratidão pelo acolhimento, pela confiança e pela oportunidade de registrar, com respeito e cuidado, a força da Romaria do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora da Abadia — testemunhos vibrantes da resistência e da identidade Kalunga.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi Divino Espírito Santo