

Mineração
Organização
Eraldo Peres
Rota da
Louvor a Nossa Senhora do Rosário
Catalão - GO Congada
Mineração
1a edição Brasília, 2025 Editora
Louvor a Nossa Senhora do Rosário
Catalão - GO
Congada
Rota da
Copyright 2025 by Eraldo Peres
[2025] Todos os direitos desta edição reservados à Photo Agência e a Eraldo Peres.
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor desde 2009.

Fotografia, texto e pesquisa de campo
EraldoPeres
Texto e pesquisa de conteúdo
ClovisBritto
Texto e coordenação de pesquisa
AngélicaMadeira
Pesquisa e produção executiva
CarolPeres
Preparação de texto e revisão
TeresaMello
Projeto gráfico e direção de arte
JoãoCampello
Ilustrações, legendas e referências
GeovanaPeres
Rua 4A Bloco 2 MD 15 - Sala 2, Vicente Pires, Brasília - DF
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Dedicamos esta publicação a todos os guardiões da cultura popular — mestres, brincantes, seguidores e realizadores — que, em seus territórios, com arte e resistência, transformam expressões ancestrais em um legado vivo. Que suas vozes, seus batuques e suas tradições continuem ecoando como a verdadeira riqueza do Brasil.

Filhos da Terra
Roteiros para o Brasil
Angélica Madeira
Os cadernos de viagem da coleção Filhos da Terra tornam acessível ao grande público o resultado de uma pesquisa que registra e interpreta, por meio de imagens, textos e música, festas e celebrações enraizadas em um Brasil profundo, o Brasil frequentado por uma parte do povo brasileiro e pouco conhecido pelas populações urbanas.
Baseada em uma abordagem clássica da sociologia da cultura, a das regiões culturais, a documentação fotográfica busca inserir cada festa no complexo ecológico que a cerca: a natureza, o trabalho, o estilo de vida, as crenças e a mistura de raças.
Os roteiros propostos – do sertão, da floresta, da Costa Atlântica e das minas – registram manifestações culturais, muitas delas em risco de desaparecimento, reveladoras tanto da persistência quanto da singularidade de cada uma dessas festas remanescentes do mundo rural tradicional. Os roteiros seguem os itinerários que marcaram o território, a terra brasilis, ao longo da história, itinerários percorridos por indígenas, africanos e europeus, povos portadores de costumes e tradições aqui mescladas desde o período colonial.
Inserindo-se em uma longa tradição que remonta pelo menos ao Romantismo – a busca de um retrato de corpo inteiro do
Brasil – essas rotas trazem uma cartografia do território de norte a sul, de leste a oeste, e mostram como essas festas ultrapassam as fronteiras geográficas e como são fortemente ancoradas na atividade econômica e na religiosidade mestiça, substrato de todas essas práticas lúdico-religiosas documentadas por Eraldo Peres. Elas também servem como substrato para identidades coletivas, quando o grupo, de certa forma, faz parar o tempo cronológico e instaura o tempo cíclico da festa, para afirmar seu pertencimento comunitário, suas crenças compartilhadas.
Cada festa é uma unidade capaz de concentrar em si mesma o todo que a contém: paisagens, cenários, indumentárias, poesia, música e dança, tradições seculares, culinárias, devocionais. Uma cartografia sensível, rostos severos ou risonhos, faces de um Brasil rústico que talvez em breve não exista mais.
A câmera subjetiva e empática revela um compromisso ético na aproximação cuidadosa dos grupos fotografados e revela também um compromisso estético ao trazer imagens surpreendentes, de grande beleza, deixando entrever a ponta de um mistério, a força transcendental que anima todas as celebrações tradicionais enraizadas na cultura de um povo.
Angélica Madeira tem mestrado em Letras Modernas, doutorado em Semiótica pela Universidade de Paris e pós-doutorado pelas universidades de Colúmbia e de Indiana Bloomington (EUA).

Anotações de viagem
Rota
• Saída: Brasília - DF
Destino: Catalão - GO
• Período: 2016 e 2017
• Cultura: Congada de Catalão, celebração de devoção afro-brasileira a Nossa Senhora do Rosário
• Produção: Photo Agência
Registro
• Objetivo: documentação etnográfica da congada de Catalão, com foco nos festejos religiosos, cortejos, danças e expressões de fé popular.
• Método: registros fotográficos e audiovisuais de celebrações, práticas tradicionais e religiosidade popular, com abordagem antropológica e etnográfica, a partir da escuta ativa e dos princípios do inventário participativo.
Equipe
• Fotografia e pesquisa de campo: Eraldo Peres
• Assistente de fotografia: Sérgio Almeida
• Coordenação de pesquisa: Angélica Madeira
• Pesquisa de conteúdo: Clovis Britto
• Produção executiva: Carol Peres
Notas
• Catalão – Um dos maiores centros de congada do Brasil.
• Cortejos e coroações – Festejos em devoção a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito.
• Ternos de congada – Grupos com trajes coloridos, tambores e espadas.
• Religiosidade popular – Mistura de fé católica e ancestralidade africana.
• Cantos e toques – Músicas tradicionais e batuques para acompanhar os rituais.
• Mestres e guardiões – Responsáveis pela transmissão oral das tradições entre gerações.
• Resistência e identidade – A congada como símbolo de
• Patrimônio imaterial – Festa reconhecida como um dos



• Capitão Elzon Arruda – Guardião da tradição e
• Capitão Diogo Gonçalves – Guardião da tradição e oralidade em Moçambique Mamãe do Rosário
• Capitão Antônio Alves de Lima, Seu Toinzinho –Guardião da tradição e oralidade no Congo Santa

Congada de Catalão
A devoção que dança com o tempo
Eraldo Peres
A festa popular é o palco onde os brasileiros reinventam suas origens, celebram sua fé e reafirmam sua identidade. Na dança, no canto e no ritmo dos tambores, resiste a memória dos que vieram antes.
Darcy Ribeiro, no livro O Povo Brasileiro
Nos anos de 2016 e 2017, estive em Catalão, Goiás, para acompanhar de perto a congada em louvor a Nossa Senhora do Rosário, uma celebração que é, ao mesmo tempo, dança, canto, cortejo e devoção. Nos dias que antecedem o grande desfile, a cidade pulsa ao som dos ensaios. Nos becos e nas praças, os ternos de Congo, Catupés e Moçambiques afinam os ritmos, preparando-se para um dos momentos mais esperados do calendário festivo da região.
Nos primeiros ensaios, vi meninas de óculos coloridos e tranças enfeitadas, ora cobertas por chapéus, ora adornadas com fitas vibrantes, aprendendo os passos que suas avós já dançaram. O Terno do Gordo, imponente e tradicional, ressoava as batidas firmes, enquanto, nos quintais, os capitães reuniam os grupos, entoando cantos antigos para embalar a fé e a força dos devotos do Rosário.
Entre as vozes que mantêm viva a tradição, conheci o senhor Elzon Arruda, capitão do Terno de Congo do Prego. Com emtusiasmo, ele me contou sobre as origens e as histórias da congada, relembrando episódios e ensinamentos que há muito ecoam por ruas e terreiros de Catalão. Motiva-se ao narrar cada detalhe e mostra que a celebração não é apenas um festejo, mas um verdadeiro compromisso com a memória e a identidade do
povo. Também me encontrei com Diogo Gonçalves, jovem capitão do Moçambique Mamãe do Rosário, que, com passos firmes e olhar atento, conduz o grupo com o respeito e a alegria herdados dos mais velhos e reafirma a força das novas gerações na preservação de cantos e saberes dessa tradição.
Guardo com emoção um dos momentos mais marcantes dessa jornada, o encontro com o mestre e capitão Antônio Alves de Lima, o Seu Toinzinho, do Congo Santa Terezinha. Com fala calma e olhar luminoso, ele compartilhou lembranças dos antigos mestres que lhe transmitiram os segredos e os valores da congada. Falou com orgulho do preparo cuidadoso da farda — uma peça carregada de símbolos e significados —, que representa não apenas sua posição no grupo, mas também a fé e a resiliência que sustentam a manifestação em Goiás.
Então, é chegado o grande dia. As nações congadeiras tomam as ruas, e o cortejo se torna um espetáculo de cores e movimento: roupas bordadas, estandartes tremulando ao vento, tambores marcando o compasso de uma história forjada na luta e na espiritualidade. À frente, os capitães conduzem os grupos com imponentes bastões adornados com fitas e detalhes dourados. Giram no ar em coreografias de respeito e força, cada golpe sincronizado e que ressoa como um chamado à ancestralidade.
A dança não é apenas celebração, mas também um rito de perseverança e comunhão.
A rainha e o rei do Rosário seguem altivos, conduzindo os brincantes em um cortejo que sobrevive ao tempo. O encontro
dos capitães é um dos momentos de destaque: olhares firmes, movimentos ensaiados, bastões erguidos no ar em um gesto de irmandade. Ali, entre as batidas dos tambores e o tilintar das patagongas [chocalhos amarrados aos pés dos dançadores, que enriquecem o ritmo e evidenciam a força da cerimônia], a história do ritual popular se reafirma como um elo entre passado e futuro.
É mais do que uma festa. É uma promessa cumprida, uma oferenda em forma de canto e movimento. Os mais velhos são recebidos com reverência, pois são eles que guardam os
segredos e os saberes dessa tradição e transmitem aos mais jovens não apenas os passos da dança, mas a memória viva de um povo que se sustenta pela fé.
Enquanto os tambores ressoam e os pés marcam o chão com o ritmo dos antepassados, compreendo que ali, em Catalão, a congada não é apenas celebração, mas continuidade. Enquanto houver quem toque, quem dance e quem cante os louvores ao Rosário, essa tradição seguirá viva, dançando com o tempo e desafiando o esquecimento.

Menina prepara o véu de Nossa Senhora do Rosário para a missa, em Catalão (GO)

Nos mistérios do Rosário
Ecos das congadas no interior do Brasil Clovis
Britto
Oh, de casa, oh, de fora
Vou buscar Nossa Senhora!
Refrão dos ternos de Congos em Catalão
Congos, congados, congadas traduzem um conjunto de folguedos que se assemelham entre si por constituir grupos de dançantes e cantores devotos que “reproduzem, durante os festejos populares da Igreja Católica, ritos antigos de louvor a entidades religiosas reconhecidas como padroeiras e protetoras dos negros, como São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário” (Brandão, 2004, p. 323).
Entre cortejos, cantos e batidas de tambor, as fitas coloridas nas indumentárias dos ternos e nos estandartes anunciam fronteiras sociais e religiosas com origens no período colonial, na tessitura de um catolicismo popular que mesclava a participação de brancos e suas diversas irmandades, dos pretos – africanos escravizados integrantes da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e africanos que dela não participavam, mas que compareciam às festas – e dos crioulos ou pardos libertos e livres, a maioria integrante da Irmandade de São Benedito.
Evidencia-se, assim, uma geografia do sagrado com heranças no período colonial, seja através da existência de igrejas, irmandades e confrarias destinadas ao culto de escravizados, livres ou forros, seja nas comemorações específicas realizadas por esses devotos, especialmente nas regiões oriundas do ciclo da mineração: “A veneração dos ancestrais funda a visão de mundo banto e se constitui num dos elementos fundamentais de inserção de códigos culturais africanos no tecido da
cosmovisão cristã, formatando-a africanamente” (Martins, 2021, p. 186).
Segundo Mário de Andrade (1959), a congada é uma dança dramática de origem africana. Outros, concordando com Roger Bastide (1959), a consideram rituais de pessoas negras nascidas no Brasil, ou seja, uma forma afrocentrada de recriar celebrações originalmente brancas e europeias. Não sem motivos, Carlos Rodrigues Brandão (2004) destaca que “nem sempre um componente ou traço de folclore exercido por negros é, originalmente, dos negros. Nem sempre, também, alguma dança ou auto popular dos negros é de origem africana” (p. 324). O que é inegável é que os Congos até hoje estão nas ruas reverberando formas rituais e coletivas de devoção.
Enquanto vestem as roupas e afinam os instrumentos, os devotos se transformam. Deixam de ser anônimos para se tornarem filhos do Rosário que, através das demonstrações de fé, reforçam os vínculos com a mãe de Jesus. A narrativa rememorada promove uma reconciliação com o passado traumático na medida em que os fiéis atualizam, durante a festa, a aparição da Virgem para os cativos.
Entre chapéus, penachos, coroas e fitas cruzadas no peito, a memória que aciona o impulso criativo não é de privação, mas de transformação, por isso é celebrada com festa. Daí decorre o sentido de missão: estar no grupo é um compromisso com a divindade, mas é também um compromisso com a origem, com os antepassados: “A ligação com o passado no cativeiro é suficiente para conferir à congada profundidade histórica e, ao negro escravizado, valor positivo. A categoria raiz refere-se à
origem e expressa a ligação contígua com esse passado, sendo referencial central para entender a congada no tocante à constituição dos seus diferentes ritmos, hierarquia de grupos, formação de lideranças e dos significados que dela emergem” (Costa, 2006, p. 30).
Nessa forma de expressão, em cada terno [unidade ritual do folguedo] os devotos perpetuam e atualizam o que eles chamam de raiz: “Sua atuação demonstra a permanência do passado no presente, eles [os capitães] aparecem unindo seus grupos à origem. Esta, por usa vez, liga-se aos antepassados criadores do terno, bem como aos antigos fundadores da congada e dos estilos que a compõem. Se a raiz liga-se ao passado e à sua atualização, ele aparece associado ao chão ou a terra, evocando um sentimento de territorialidade, uma ligação com o local de origem” (Costa, 2006, p. 159).
Surgida originalmente sob a influência da Igreja Católica, a devoção ao Rosário foi reelaborada com elementos da cultura africana, adquirindo uma feição vernacular em diversas localidades espalhadas pelo interior brasileiro. Todavia, essas manifestações não ocorriam sem diversos enfrentamentos: muitas eram denunciadas por abusos e ações contra a tranquilidade pública, sujeitas ao controle das autoridades municipais e, posteriormente, às interferências da Igreja
Católica na segunda metade do século XIX. Martha Abreu (1996) destaca que os batuques africanos constituíram-se em estratégias e instrumentos de poder: “nas malhas do poder escravista, numa sociedade tradicionalmente católica e em meio a iniciativas mais cerceadoras em termos dos divertimentos populares, os pretos conseguiram barganhar a continuidade e a recriação de seus costumes” (p. 270).
As congadas expressam um exercício de resistência. Levar para o espaço público um desejo de liberdade de crença, de corpos, de expressão. Louvar Nossa Senhora do Rosário e os santos negros cujas devoções atravessaram o Atlântico, estabelecendo um círculo entre os mistérios de Portugal, da Costa Africana e das regiões mineradoras no interior do Brasil. O Rosário termina onde começa, é cíclico, e significa grinalda de rosas. Em suas aparições, a Virgem teria revelado que lhe era enviada uma rosa a cada ave-maria rezada pelo fiel e, a cada Rosário completo [quatro terços], uma coroa de rosas lhe chegava aos céus. No Rosário se rememoram os mistérios gozosos, dolorosos, luminosos e gloriosos por meio da meditação (oração mental) e da recitação (oração verbal).
Para os integrantes, a santa branca e coroada é a mãe que se compadecia dos sofrimentos dos filhos cativos ao ponto de ter lágrimas convertidas em pétalas de rosas. Sob o manto azul da
Rainha do Céu, rememoram-se fatos ocorridos nos tempos da escravidão: Nossa Senhora do Rosário aparece aos negros congos e moçambiques: os congos dançam e Ela sorri, os moçambiques dançam e a santa os acompanha até o local sagrado e os negros são libertos. Apesar de variações, este é o conteúdo mais comum na maioria das narrativas (re) contadas: “o mito explica a origem da Festa de Nossa Senhora do Rosário e, ao mesmo tempo, a posição privilegiada do moçambique dentro dela. O ritual do congo deriva de um duplo milagre: o primeiro é dado pela santa para os negros, o segundo é obtido pelos negros sobre a santa. Em qualquer uma das versões, o problema colocado pelo mito é a eficácia simbólica da congada. (...) Os dançadores brincam na congada para pagarem uma promessa, um voto válido, garantido pela eficácia da dança demonstrada no mito” (Brandão, 1985, p.86).
Como nos profundos veios de minérios e na ancestralidade pulsante nas veias dos devotos, as congadas resistiram: “Pedidos são direcionados à grande Mãe, Senhora do Rosário, intercessora da materialização das forças ancestrais do congado. E toda a musicalidade emanad a dos instrumentos tocados funciona como um chamamento dessas energias ancestrais a se corporificarem no presente” (Katrib, 2009, p. 89). Segundo Leda Maria Martins (2003), “por meio de uma estrutura simbólica e litúrgica complexa, os ritos incluem a
participação de grupos distintos, denominados guardas, e a instalação de um império negro, no contexto do qual autos e danças dramáticas, coroação de reis e rainhas, embaixadas, atos litúrgicos, cerimoniais e cênicos criam uma performance mitopoética” que, em sua manifestação, “reinterpreta as travessias dos negros da África às Américas” (p. 71-72).
Em cidades de Minas Gerais e de Goiás ainda é comum encontrar pessoas negras coroadas, cujos corpos anunciam os mistérios da vida em festividades ao longo do ano. Catalão, por exemplo, no sudeste de Goiás, representa um testemunho secular de uma das maiores devoções de congadeiras e congadeiros existentes no país. Alvorada festiva, novena, terços e missas preparam para o 7 de outubro, dia dedicado a Nossa Senhora do Rosário, quando, então, ocorre a coroação e o levantamento do mastro.
A fé manifestada ao longo de todo o ano se expande para as ruas com dezenas de ternos de Congo, Catupé, Vilão, Moçambique e Reinado. Unidos entre si como as contas do Rosário, transformam-se em espécie de coronárias. Os grupos saem às ruas realizando (com)passos irmanados na fé nos santos protetores e na esperança de que esses saberes continuarão a ser difundidos nos sertões do Brasil, revivendo clamores de liberdade.
Clovis Britto é doutor em Museologia pela Universidade Lusófona e em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professor na Faculdade de Ciência da Informação da UnB.




Bênção do estandarte de São Benedito na Igreja do Rosário


Preparação dos chapéus do Terno de Congo do Prego






Ensaio dos grupos de Congo


Decoração dos mastros de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário

Capitão Elzon Arruda do Terno do Prego



Capitão Elzon Arruda e netos na sede do Terno do Prego




Rito de bênção do sinal da cruz no início da congada

Participantes cruzam a linha do trem de costas como sinal de respeito

General Eduardo Camilo

Capitão Leonardo Barbosa


General Eduardo Camilo e a mãe


General Laudimiro da Silva (à esquerda), Gean Leonardo (no centro) e guarda-coroa Douglas Nascimento


Rainha Eleone Rita (in memoriam)

Rei Cleber


Capitães Diogo Gonçalves (à esquerda) e Carlos do Rosário se encontram no início da congada





Matheus Alves, segundo-capitão do Moçambique Mamãe do Rosário








Referências culturais



Rituais de devoção e acolhimento
A Congada de Catalão, em Goiás, tem raízes profundas na história da resistência e da fé do povo negro. Originada nos campos, entre comunidades descendentes de escravizados, a Festa em Louvor a Nossa Senhora do Rosário nasceu como expressão de devoção e identidade. Ali, entre cantos, danças e rituais, celebrava-se a proteção da santa, em meio às duras jornadas da vida rural. Com o passar dos anos, a expulsão dos brincadores do campo levou essa tradição para o espaço urbano, onde ela se fortaleceu e encontrou novo abrigo.
Ao migrarem para a cidade, os congadeiros fundaram a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, um espaço de acolhimento, solidariedade e preservação cultural. A Irmandade tornou-se ponto de encontro e resistência, mantendo vivas as práticas e a memória dos antigos festejos. Ainda em 1975, segundo registros de Carlos Rodrigues Brandão, existiam apenas cinco ternos de Congo ativos, revelando o esforço das famílias em manter viva uma prática que então enfrentava desafios de sobrevivência.
Hoje, a Festa do Rosário em Catalão é um dos maiores e mais importantes festejos de tradição afro-brasileira do Centro-Oeste. Reúne dezenas de ternos, mestres e brincadores que, com cânticos, danças e rituais, celebram a devoção à santa e reafirmam os laços históricos que unem a comunidade. A congada é, acima de tudo, um testemunho vivo da capacidade de reinvenção, resistência e celebração do povo negro em Goiás.
Arte e cultura
Trecho da música Congada pra Sinhô Rei, de Wilson Moreira e Grande Otelo
“É de pai pra filho que vem a congada de Minas Gerais
É de pai pra filho que vem a congada de Minas Gerais
Ê, sinhô rei, sinhá rainha mandou chamar
Ê, sinhô rei, sinhá rainha mandou chamar
Congada bate tambor
Rainha chama sinhô
Com amor, todos os santos
Vamos ter todos os encantos”

Pintura sobre azulejo de Alfredo Volpi (1940)

Filmes
• ACoroaçãodeumaRainha, de Arthur Omar
• CongadadeNossaSenhoradoRosário, de José da Silva Ribeiro e Sérgio Bairon http://lugardoreal.com/video/ congada-de-nossa-senhora-do-rosario-em-jequitiba
• Congo, de Arthur Omar https://www.youtube.com/watch? v=DP53o3gnS0M
• ReinadodeCongosdeMogidasCruzes, de Déo Miranda
• SãoBeneditodaAparecida, de Claudio Cao Quintas
Livros
• AsRaízesdaCongada:aRenovaçãodoPresentepelos FilhosdoRosário, de Patrícia Trindade Maranhão Costa
• CongadasdeMinasGerais, de Jeremias Brasileiro
• CulturaAfro-brasileiranaEscola:OCongadoemSala deAula, de Jeremias Brasileiro
• DançasDramáticasdoBrasil, de Mário de Andrade
• OsMeninosdaCongadanaFestadeSãoBeneditode Ilhabela, de José Santos
• OsSonsdoCongado:oCongadoMineirodosArturos eJatobá, de Glaura Lucas
Músicas
• ÁlbumIÔSÔ, de Sérgio Santos
• AquareladoBrasil, de Ary Barroso, com João Gilberto
• Congada, de Dudu Salinas, com Dudu Salinas, Leonardo Senna e Rosane Frota de Oliveira
• Congada, de Romildo e Toninho do Nascimento, com Clara Nunes
• CongadadoRei, de José Caetano Erba e Tião do Carro, com Moacyr Franco
• CongadapraSinhôRei, de Wilson Moreira e Grande Otelo
• FestadoCongado, com Silvio Brito
• MãeÁfrica, de Murilão e Luverci Pinheiro, com Quinteto em Branco e Preto

Em Catalão, Capitão Antônio Alves de Lima, Seu Toinzinho (in memoriam), prepara a farda do Congo Santa Terezinha

Filhos da Terra

O projeto Filhos da Terra – Diversidade e Cultura propõe um mapeamento visual e documental das manifestações culturais que compõem a identidade brasileira. Investiga como a fusão entre as culturas indígena, africana e portuguesa moldou o país, tornando-o profundamente mestiço em expressões, crenças e saberes. A pesquisa se concentra nos protagonistas dessas tradições – mestres, grupos, comunidades e lugares –, registrando, por meio de fotografias, entrevistas e vídeos, os elementos simbólicos e imagéticos que permeiam a vida cultural em diferentes territórios.
Para organizar essa documentação, a iniciativa se inspira na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro e traça quatro rotas culturais que direcionam os trabalhos de campo: a Rota da Costa Atlântica, ligada às culturas litorâneas e à relação com o mar; a Rota dos Sertões, que percorre tradições e resistências do interior; a Rota da Mineração, voltada aos legados históricos da exploração mineral; e a Rota dos Povos da Mata, dedicada aos modos de vida e aos saberes dos povos das florestas. A partir desses roteiros, o objetivo do projeto Filhos da Terra busca revelar a riqueza e a diversidade do patrimônio imaterial brasileiro, preservando histórias, ritos e expressões que constroem a identidade do país.
Linha do Tempo
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Cultura Açoriana
Palhoça - SC
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Pega de Boi no Mato
Serrita - PE
Tropeiros do Sul
Alegrete - RS

Vaqueiro das Águas
Corumbá - MS
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Congada
Catalão - GO
Festa do Carro de Boi
Vazante - MG
Maracatu Rural
Nazaré da Mata - PE
Congada
Catalão - GO
Marujada
Bragança - PA
Santo Daime
Céu do Mapiá - AM
Festa de Yemanjá,
Salvador e Itaparica - BA
Wyra’ Uhaw
Aldeia Tembé TekohawPA

Divino Espírito Santo
Quilombo Vão de AlmasGO


dos Sertões

de Yemanjá

da Mineração
da Costa Atlântica


Glossário

Acordeon – Instrumento de fole e teclas também conhecido como sanfona no Nordeste. É usado para acompanhar os cânticos, trazendo uma melodia forte e festiva aos cortejos.
Bastão – Símbolo de autoridade e liderança, é utilizado pelos capitães dos ternos. Ornado com fitas e detalhes dourados, os movimentos com ele possuem significados ritualísticos nos cortejos.
Caixa – Instrumento de percussão (tambor de lado) para marcar o compasso das músicas e das danças dos ternos.
Cajado – Tipo de bastão visto em alguns grupos de Moçambique, geralmente mais simples que o bastão de capitão e que representa liderança espiritual.
Capitão – Figura central de cada terno, responsável por liderar a dança, organizar o grupo e manter viva a tradição. Comanda o grupo nas apresentações e costura o elo com os antepassados.
Catupé – Estilo de terno caracterizado por ritmo cadenciado e movimentos mais leves. As danças são marcadas por passos precisos e pela elegância dos trajes com cores fortes.
Congada – Manifestação cultural e religiosa de matriz afrobrasileira que celebra, por meio de danças, músicas e rituais, a fé em Nossa Senhora do Rosário e em outros santos negros.
Cortejo – Procissão festiva pelas ruas da cidade, composta pelos ternos que dançam, cantam e tocam em louvor à santa.
Estandarte – Simboliza a identidade do grupo. É a bandeira sagrada de cada terno, carregada com honra e respeito, bordada e adornada com fitas.
Ganzá – Instrumento de percussão de origem africana, geralmente feito de metal ou bambu e preenchido com sementes ou grãos para produzir sons.
Guarda – Outro nome para os ternos ou grupos da congada, especialmente quando se refere às funções rituais de proteção simbólica da santa e do cortejo.
Irmandade de Nossa Senhora do Rosário – Organização religiosa formada por devotos para manter a festa, ajudar os participantes e reforçar os laços comunitários entre os congadeiros.
Moçambique – Tipo de terno com origem em tradições africanas. Os moçambiques executam uma dança com passos fortes e batidas de bastões no chão para simbolizar a libertação dos cativos.
Nossa Senhora do Rosário – Santa venerada como mãe protetora e símbolo da libertação dos negros escravizados. É a padroeira da festa e o motivo central das celebrações.
Patagonga – Chocalho preso no tornozelo dos dançadores e que reforça o ritmo durante a música.
Reinado – Cerimônia de coroação de reis e rainhas do Rosário durante a festa. Representa a dignidade, a resistência e o reconhecimento espiritual dos devotos.
Rei e rainha do Rosário – Figuras simbólicas escolhidas entre os membros da comunidade para representar o poder e a proteção na festa.
Tambor – Instrumento de percussão fundamental na congada. Existem de vários tamanhos e afinações, dependendo do grupo e do estilo do terno.

Terno –Unidade básica da congada formada por músicos, dançadores, capitães, porta-estandartes e, muitas vezes, corte de rei e rainha.
Terno de Catupé – Grupo com passos mais suaves e cadenciados, onde o ritmo dos tambores é mais moderado e as roupas têm cores fortes.
Terno de Congo – Um dos tipos mais tradicionais, caracterizado por músicas vibrantes, danças enérgicas e tambores fortes.
Terno de Moçambique – Grupo cuja dança é mais rítmica e marcada, com forte uso de bastões e batidas cadenciadas.
Terno do Reinado – Grupo que participa da cerimônia de coroação do rei e da rainha do Rosário, geralmente com trajes suntuosos e música solene.
Terno de Vilão – Estilo com danças que combinam elementos militares e movimentos coreografados.
bibliografia

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SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução de Joaquim Paiva. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
Agradecimentos
Agradecemos a todos os mestres, brincantes, capitães e guardiões da Congada de Catalão, cuja fé, música e dança mantêm viva essa tradição secular. Nosso reconhecimento especial aos ternos de Congo, Catupé, Vilão, Moçambique e Reinado, que, com seus cantos, batuques e cortejos, perpetuam a celebração em louvor a Nossa Senhora do Rosário.
Nossa gratidão aos capitães Elzon Arruda e Diogo Gonçalves, cuja liderança e dedicação fortalecem a memória e o espírito da congada. Um agradecimento especial in memoriam ao capitão Antônio Alves de Lima, Seu Toinzinho, cuja história, força e exemplo continuam a inspirar as novas gerações de congadeiros.
Agradecemos também à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que, há décadas, organiza e mantém viva esta festa, e a todos os integrantes dos ternos, músicos, brincantes e devotos, que, com suas vozes, instrumentos e passos, reafirmam ano após ano a identidade do povo de Catalão.
Manifestamos ainda nossa gratidão aos moradores de Catalão, que nos acolheram com generosidade e entusiasmo, permitindo que testemunhássemos a riqueza dessa expressão popular.

Autorretrato feito na pega de boi no mato em Serrita (PE), em 2015
Estar com os mestres e brincantes em seus territórios e celebrações me faz entender que fotografar é também um gesto de reconhecimento e valorização da cultura popular brasileira.
Fotojornalista e produtor cultural, EraldoPeres nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e mora em Brasília (DF) desde criança. Trabalhou em jornais, revistas e agências de notícias nacionais e internacionais. Desde 1996, dedica-se aos projetos FÉsta Brasileira e Filhos da Terra, entre outros, produzindo documentação fotográfica e audiovisual do patrimônio imaterial brasileiro. Participa de mostras fotográficas coletivas e individuais e ganhou prêmios nas categorias Nikon Photo Contest International (1996 e 2000/21) e Humanity Photo Awards (2006 e 2009) – promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na China –, além de menção honrosa no World Press Photo (2008).É diretor do festival Mês da Fotografia e curador de exposições e de livros de fotografia. @filhosdaterracultura




O Projeto Filhos da Terra percorre o Brasil profundo para documentar e valorizar as manifestações do patrimônio cultural imaterial do país. A pesquisa se estrutura em quatro rotas culturais, inspiradas na obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro: a Rota da Costa Atlântica investiga as culturas litorâneas e as conexões com o mar; a Rota dos Sertões explora o universo dos vaqueiros, dos tropeiros e das tradições do interior; a Rota da Mineração percorre os caminhos históricos da exploração mineral e suas expressões culturais; e a Rota dos Povos da Mata destaca os modos de vida e a espiritualidade das comunidades das florestas.
Composta por doze cadernos, a Coleção Filhos da Terra é um convite à imersão na cultura viva do Brasil, ampliando o conhecimento e fortalecendo o reconhecimento das tradições que fazem do país um território mestiço, vibrante e plural.

Rota da Costa Atlântica
Rota da Mineração
Rota dos Sertões
Maracatu Rural
Festa de Yemanjá
Cultura
Açoriana
Águas
Pega de Boi no Mato
Tropeiros do Sul
Congada
Festa do Carro de Boi Divino Espírito Santo