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ISSN 1809-8304

Nº02>>2006>>R$18,90

por: Paloma Amado, Zé Simão, Wagner Moura, Mario Cravo Neto, Adriana Lima, Pierre Verger, Jorge Amado e Sônia Braga, Carlinhos Brown, Jacques Dequeker, Mãe Carmen do Gantois, Doces Bárbaros, Sérgio Machado, Cristiano, Deusas do Ilê Aiyê, Lázaro Ramos, Gui Paganani, Rogério Duarte, Mathew Barney, Vavá Ribeiro, Zé Pedro, Mestre Didi, Christian Cravo, Marina Person, Bob Wolfenson e João Miguel

GELÉIA GERAL A Bahia do sagrado e do profano, do tradicional e do contemporâneo


BORDADO: BETH BORDADOS

Nesta edição 57

artes

58 Pierre Verger e a vida como ela era no bairro do Taboão, em Salvador 74 A força das águas na visão única de Mario Cravo Neto 90 Os mistérios da Irmandade da Boa Morte pelas lentes de Adenor Gondim 104 Meste Didi e a tradição africana traduzida em contemporaneidade

126 Os objetos musicais não identificados de Walter Smetak 132 Chuva, suor, cerveja e desbunde na história da praça Castro Alves 138 MPB-Rock-Pop-Dance-DiscoClube: o mapa da música dançante brasileira

141 literatura 109 música 110 Dez anos de imagens do liquidificador Carlinhos Brown 118 O DJ Zé Pedro faz uma viagem por todos os sons e os tons da Bahia

142 Jorge Amado, Sonia Braga e a construção da imagem da mulher brasileira 146 A nova geração de escritores baianos dá seu recado

152 Verger, contracultura e sonhos: a trajetória da editora Corrupio

155 cinema 156 As muitas idéias na cabeça de Sergio Machado, novo queridinho do cinema nacional 160 Cinco atores geniais confirmam a vocação da Bahia para exportar talentos 170 Matthew Barney, o homem que fez o Carnaval de Salvador parar 172 Cinema Novo, Tropicalismo e outra bossas na arte do designer Rogerio Duarte

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BORDADO, BETH BORDADOS

Nesta edição 185 moda 186 Looks em preto e branco revelam a silhueta volumosa da próxima estação 230 Maximalismo, cores fortes e os dois pés na África: é a vez dos acessórios 240 O forte de Mont Serrat é o cenário do encontro do artesanal com o streetwear 256 Verão em cores fortes, preto e branco e grafismo invadem as praias do planeta 270 As estampas do verão 2007 roubam a cena nas areias de Amaralina 288 Moda masculina

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312 Adriana Lima, a menina de Salvador que virou uma das modelos mais bem pagas do mundo 314 Os Doces Bárbaros e sua revolução na moda dos anos de chumbo 318 O encontro de Goya Lopes com os designers da Neon 320 As deusas negras do Ilê pedem passagem

Ganzelevitch no centro histórico de Salvador

352 turismo 356 Zé Simão e os dez programas mais inusitados para se fazer na Bahia 364 Paloma Amado e os efeitos da autêntica pimenta da Bahia 366 A nouvelle cuisine baiana 371 A magia toma conta do Gantois na festa dedicada a Nanã

325 design 326 Um manifesto em defesa das Festas de Largo de Salvador 336 Convento do Carmo: da clausura à hotelaria de luxo 342 O quartel-general de Dimitri

Capa: Angelica Sulzbach (Marilyn), incorpora uma Oxum, fotografada por Gui Paganini. Edição de moda: Paulo Martinez Beleza: Daniel Hernandez (Gloss) Tratamento de imagem: Alex Wink (Studio AW)


Colaboradores DIÓGENES MOURA Jornalista, escritor, roteirista e diretor de fotografia, Diógenes Moura é de Recife, viveu anos em Salvador e hoje faz história como curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Nesta edição, ele assina o perfil de Mestre Didi, artista com os dois pés fincados na tradição africana, e o texto sobre a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte.

FLAVIA POMMIANOSKY E DAVI RAMOS Há mais de 15 anos os stylists Flávia Pommianosky e Davi Ramos formam uma das duplas mais requisitadas do país quando o assunto é produção de editoriais, catálogos e desfiles. Para esta edição de ffwMAG!, os dois garimparam jóias, bijus, amuletos e talismãs que enchem o ensaio sobre acessórios assinado por Bob Wolfenson.

CIRO MIDENA Em dobradinha com Vavá Ribeiro no editorial clicado no Forte de Mont Serrat, o stylist Ciro Midena foi o responsável pelos looks que mesclam o street wear com peças artesanais. No tabuleiro de Midena tem de tudo: Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura, Reinaldo Lourenço, Fause Haten e Márcia Ganem, entre outros.

XICO DINIZ Ele uniu duas paixões – a fotografia e a arquitetura – e se transformou em um dos profissionais mais requisitados de sua área. Com mais de 2 mil fotos publicadas em livros e revistas de arquitetura, Diniz abriu sua grande-angular sobre dois pedaços especialíssimos de Salvador: o Hotel Convento do Carmo, no Pelourinho, e a casa do francês Dimitri Ganzelevitch. O resultado é luxo só.

Com seus retratos únicos de índios, portugueses e africanos que co-existem na Bahia, Mario Cravo Neto conquistou as platéias mais longínquas, fazendo parte de exposições e de coleções particulares e públicas mundo afora. Aqui, o fotógrafo abre seu portifólio com um ensaio sobre a água e com imagens de Carlinhos Brown, seu músico preferido, feitas nos últimos dez anos.

BORDADO: BETH BORDADO

MARIO CRAVO NETO


Colaboradores ADENOR GONDIM Adenor Gondim gosta de dizer que há 30 anos “tenta ser fotógrafo”, ofício que ele define como um aprendizado sem fim. Apesar da modéstia, esta é uma arte que domina como poucos, como provam seus ensaios sobre a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e as antigas barracas das festas de largo de Salvador.

CHRISTIAN CRAVO Christian Cravo passou a infância na Bahia (terra do pai, Mario Cravo Neto), a adolescência na Dinamarca (terra da mãe) e o resto do tempo em andanças pelo mundo – suas fotos já foram expostas em Copenhagen, Nova York, São Francisco, Oxford. Autor de dois livros e com o terceiro em gestação, é ele quem assina os portraits da nova geração de escritores baianos e das sócias da editora Corrupio.

CRISTIANO Seus cliques já rechearam nossas principais revistas e inúmeros catálogos. O paulista é quem mostra o que o homem brasileiro deve usar no próximo verão. Com a proteção de Oxalá, o editorial passa por alguns dos pontos mais emblemáticos da capital baiana – a Igreja de São Francisco, o Dique do Tororó, as sedes dos blocos Ilê Aiyê e Filhos de Ghandy.

EDUARDO LOGULLO Jornalista, cronista, roteirista de TV, Logullo é nosso enviado especial ao túnel do tempo, que ele atravessa para trazer as incríveis histórias da Praça Castro Alves – ela mesma, a que é do povo. Em um mergulho no Carnaval baiano dos anos 70, seu texto “Chuva, Suor e Cerveja” mostra a evolução da festa que hoje virou uma indústria saltitante, mas que já teve seus dias de “celebração pagã, libertária e eletrizante”.

Desenho, gravura, pintura, escultura, design, história da arte: o que vier Fernando Vilella traça. Ele é o responsável pelos belos desenhos que estampam duas reportagens desta edição: “Merendas de Dona Flor”, sobre a nova gastronomia baiana, e “MPB Samba Pop Rock Dance Disco Clube”, sobre os DJs que fazem sucesso tocando só música brasileira.

BORDADO: BETH BORDADO

FERNANDO VILELLA


Colaboradores

VAVÁ RIBEIRO Ele cresceu nas areias de Ipanema e saiu pelo mundo em busca das ondas perfeitas. As surf trips desembocaram em cursos de fotografia na Europa e nos Estados Unidos e deu no que deu: Ribeiro é colaborador regular de publicações como Dazed & Confused, Purple... e agora ffwMAG!, onde assina um onírico editorial.

JACQUES DEQUEKER Cores fortes e estampas, em contraste com a pele negra, enchem de vida e plasticidade o editorial clicado por Jacques Dequeker em praias baianas. Gaúcho de Porto Alegre, o moço tem dez anos de carreira e virou um dos queridinhos das editoras de moda internacionais graças às imagens tão densas quanto chiques que gosta de fazer.

ZÉ SIMÃO “Sou filho de árabe com loira e deu macaco na cabeça” é a definição do jornalista José Simão sobre si mesmo. Ele, que há quase 20 anos assina uma das colunas mais comentadas da Folha de São Paulo, é o autor de nosso guia de atrações imperdíveis na Bahia, lugar que conhece como poucos. A paixão começou nos anos 70, quando Simão (um filho de Ogum) não perdia um Carnaval de Salvador.

PALOMA AMADO

BORDADO: BETH BORDADO

Integrante de um dos clãs mais importantes da literatura brasileira – ela é filha de Zélia Gattai e Jorge Amado –, Paloma Amado é quituteira de mão cheia. Apaixonada por letras e gastronomia, a autora de A Comida Baiana de Jorge Amado e As Frutas de Jorge Amado, livros em que esmiúça os muitos sabores descritos na obra do pai, nos honra com um conto inédito sobre o poder das pimentas baianas.


Diretor Responsável Paulo Borges Conselho Editorial Denise Basso, Graça Cabral, Gustavo Bernhoeft e Paulo Borges Diretor de Projetos Especiais Gustavo Bernhoeft Diretor de Redação Ailton Pimentel Editor-Assistente André Rodrigues Diretora de Arte Graziela Peres Editor de Moda Paulo Martinez Redatora-Chefe Micheline Alves Designers Rafael Pera e Ricardo Athayde Produtor-Executivo Cadu Alves Assistente de Produção Carol Ramos Produtor Gráfico Jairo da Rocha Revisão Fabiana Pino Pesquisa de Imagem Aldrin Ferraz Diretor Comercial e de Publicidade José Bello Contatos Adriana Dantas e Ana Maria Silva Colaboradores Adenor Gondim, Ana Ban, Arlete Soares, Bob Wolfenson, Carla Stagni, Christian Cravo, Ciro Midena, Cristiano, Daniel Hernandez, Davi Ramos, Diógenes Moura, Duda Schneider, Eduardo Logullo, Eva Joory, Fernando Lazlo, Fernando Vilela, Flávia Pommianosky, Gey Espinheira, Gil Santos, Gui Paganini, Heitor Reis, Heleno Jr., Ivan Melo, Jacques Dequeker, Jasmin Pinho, Juliana Pereira, Luciana Pessanha, Marcelo Gomes, Marcelo Nascimento, Marcus Preto, Marcos Villas Boas, Marina Person, Mario Cravo Neto, Max Weber, Mônica Lima, Paloma Amado, Patrícia Favalle, Ricardo Athayde, Richard Luiz, Roni Hirsch, Sibele Menegazzi, Vavá Ribeiro, Vicente de Paulo, Vilmar Ledesma, Xico Diniz, Zé Pedro, Zé Simão Projeto Gráfico Graziela Peres A ffwMAG! (ISSN 1809-8304) é uma publicação trimestral da Editora Lumi 05 Marketing e Propaganda Ltda. Todos os direitos reservados. Fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia do conteúdo editorial. Os artigos assinados são de exclusiva responsabilidade dos autores e não refletem a opinião da revista.

Distribuição Assessoria Edicase www.edicase.com.br Distribuição Exclusiva em Bancas Fernando Chinaglia (21) 2192-3200 Pré-Impressão e Impressão Litokromia A Lumi 5 não se responsabiliza pelo conteúdo dos anúncios publicados nesta revista, nem garante que promessas divulgadas como publicidade serão cumpridas. Lumi 05 Marketing e Propaganda Ltda. Diretores Responsáveis: Denise Basso, Graça Borges, Graça Cabral, Marcia Matsuno, Paulo Borges Endereço Rua Tavares Cabral, 102, 5o andar, Pinheiros, São Paulo, SP – CEP 05423-030 – Tel.: (11) 3094-2882 ffwmag@saopaulofashionweek.com.br

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obrigado!!!

MOLDURA: BETH BORDADOS

Não poderia começar esta carta de um jeito diferente, senão com um sincero agradecimento. Devo um “muito obrigado“ enorme pelos resultados da primeira edição da ffwMAG!. Agradeço pela qualidade da revista, que superou todas as expectativas; por uma equipe dedicada, que não teve receio de fazer diferente nem pensar adiante. Pela confiança dos anunciantes – antigos e grandes parceiros –, que nos ajudam a construir credibilidade. Pelo carinho e reconhecimento do mercado e dos amigos. Acredite, fazer uma revista como esta é uma alquimia complexa. Conseguimos e fizemos bem-feito. Neste segundo número, seguimos firmemente na proposta de olhar à frente, acelerar o passo, buscar o novo. Decidimos embarcar para a Bahia, a mágica Bahia, o lugar onde o Brasil é mais África. Onde essa nossa matriz se manifesta no cheiro, nas ruas, na gente, no ritmo. Entendemos a verdade de nossa mestiçagem e sentimos, de fato, que ser brasileiro é ser também baiano. Essa Bahia nos brindou com gentilezas preciosas e exclusivas que você vai ver a seguir. Fotografamos dentro da Igreja do Bonfim e na Igreja de São Francisco e fizemos um registro histórico e mágico de uma festa no Terreiro do Gantois. Os bons e queridos amigos da Bahia tornaram isso possível e, por isso, mais uma vez, agradeço. A Lícia Fabio, a amiga que descortinou para mim essa Bahia que não está nos guias de turismo; a Heitor Reis, que não hesita em investir em idéias criativas, seja na arte, seja na moda; a Ewerton Visco e a toda a equipe do Iguatemi Salvador, que fazem pela Bahia o que outros empreendedores deveriam estender para todo o Brasil; a Paulo Gaudêncio e Cláudio Taboada, duas pessoas que se desdobram em esforços para que o mundo sinta a força e o mistério dessa terra. A minha querida Mãe Carmen e a suas filhas Ângela e Neli, por esses momentos especiais em minha vida; a Dimitri Ganzelevitch, estrangeiro generoso que adotou a Bahia e que abriu seu mundo particular; a Mario Cravo Neto, pelo olhar fotográfico que traduz sob medida tudo o que imagino e vejo da Bahia miscigenada; a Adenor Gondin, que guarda essa memória que baianos e brasileiros não podem esquecer; à Fundação Pierre Verger, a Arlete Soares, Jesus Sangalo, Dadá, Vovô do Ilê, Dinha, Negra Jô, Karine e Jel Queiróz do Soho; a José Carlos do Trapiche; a seu Clarindo Silva (o homem mais elegante da Bahia!); e a todos os que trabalharam e se dedicaram para fazer desta uma revista especial.

Paulo Borges, Mãe Carmen e Iyakekerê Ângela fotografados por Cristiano


ILUSTRAÇÃO ORIGINAL: CALASANS NETO/BORDADO: BETH BORDADOS

artes Doutor em etnologia pela Universidade de Sorbonne e babalaô por excelência, Pierre Verger é ícone máximo do registro visual da relação Bahia-África – assim como a Festa da Boa Morte, traduzida aqui nas palavras de Diógenes Moura e nas imagens de Adenor Gondim. Nosso túnel do tempo destrincha ainda a vida e a obra de nomes como Mestre Didi e Mario Cravo Neto.

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Moça na janela

PRESENTE COTIDIANO A primeira morada de Pierre Verger quando chegou à Salvador, em 1946, foi um quarto no Hotel Chile, perto da Praça Castro Alves, cuja janela se abria para uma vista deslumbrante – a Baía, a Igreja da Conceição, o Forte de São Marcelo, o Trapiche Adelaide, o Mercado Modelo, a Rampa do Mercado, com seus saveiros à vela vindos de tantos lugares, o Bonfim, o Montserrat e, lá longe, a Ilha de Itaparica. Ali ele viveu durante uns quatro anos. O endereço seguinte, por um tempo bem maior, foi no caminho novo do Taboão: um quarto no sótão de uma casa de quatro andares. Essa moradia agradou a Verger, muitíssimo. O movimento naquela área era bem intenso. A Baixa dos Sapateiros, o Mercado Santa Bárbara, onde os bondes faziam uma parada, o Pelourinho, a Ladeira do Carmo e, descendo o Taboão, a cidade baixa – o Mercado do Ouro, o Porto, o pessoal da estiva. Os caminhos 58

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partiam dali – do coração do centro histórico. E Verger percorreu todos esses caminhos da cidade. No Café Moderno, entre o Pelourinho e a Baixa dos Sapateiros, Verger tomava o café da manhã. Na Gruta Ibérica, restaurante em uma esquina da Rua das Flores, almoçava sempre no mesmo horário – meio-dia – e na mesma mesa, que lhe proporcionava um amplo campo de visão. Ele viveu naquele bairro por dez anos – fotografou as igrejas, os casarios, as festas que por ali passavam, profanas, religiosas e cívicas, as ruas e os becos, as muitas ladeiras que se espalham naquela área e, de maneira sensível e carinhosa, as pessoas de seu bairro. Quando fizemos Retratos da Bahia, primeiro livro de Verger publicado no Brasil, nós nos demos conta da quantidade de belas fotos que ele havia feito na área do centro histórico de Salvador – e acabamos por publicar um livro só com imagens daquela área. Durante


Moças na janela

Etnólogo, antropólogo, fotógrafo... e amigo de todos do bairro do Taboão. É essa personagem que prevalece na memória de Arlete Soares quando o assunto é Pierre Verger, que mostra um delicado recorte do dia-a-dia do artista a seleção para esse livro, Verger contava histórias sobre seus primeiros anos de Bahia. Conhecia muitas pessoas pelo nome e era chamado de “Piérri”. Ali, no Taboão, polia os sapatos com João Alves, cortava o cabelo com Olímpio, ambos amigos e também pintores. Seu locatário tinha o apelido de Papai Noel – todos o chamavam assim, inclusive Verger. Um dia, Papai Noel precisou de dinheiro e recorreu a Verger. E ele ria ao nos contar a história: “Fui Papai Noel de Papai Noel por um bom tempo!”. Lamentava sua inabilidade total para a dança, já que os bailes nos fins de semana eram famosos. Como espectador era habitué, e lembrava dos tempos em Paris, quando, ao lado dos amigos da Bande à Prévert, freqüentava o Bal Nègre da Rua Blomet. Às vezes acontecia de alguém lhe pedir para tirar uma foto, como foi com um casal de noivos: “O jovem rapaz veio me pedir se, por um preço módico, eu

poderia fotografá-los naquele dia tão especial. Fiz a foto e, quando o moço veio buscá-la, ficou encantado e ao mesmo tempo preocupado com o que iria pagar. Quando lhe disse que era um presente, ficou tão feliz que me abraçou como se fôssemos velhos amigos. E com tanto entusiasmo que quase fomos ao chão”. Com seu humor e ironia, costumava dizer que o Pelourinho foi salvo pelas damas da noite, já que “as pessoas de qualidade” não queriam morar ali e, então, a especulação imobiliária não chegava. E concluía: “Elas bem que mereciam ter uma estátua no Pelourinho”. Quando a revista ffwMAG! me solicitou que escolhesse um conjunto de fotos de Verger para este número, com grande enfoque sobre a Bahia, não tive dúvida. Aqui, não há nenhuma foto inédita. São imagens singelas, feitas por um fotógrafo genial, de pessoas de seu bairro – “mon quartier”, como ele gostava de dizer.


Vendedora de milho verde

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Noivos


Moradoras do Maciel

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Moradoras do Maciel


MON QUARTIER

“No Taboão, havia uma casa de torrefação de café, à qual me referi em outra às emanações de um depósito de cachaça que existia bem embaixo de minha

Menino do Taboão


obra, Retratos da Bahia, fazendo alusão ao encanto que me causava o cheiro de café torrado se misturando janela. Era como se eu sentisse o aroma do café cognac de um bar parisiense.”*

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* EXTRAÍDO DO LIVRO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR. CORRUPIO, 1989.

Olímpio, barbeiro e pintor


Joรฃo Alves, engraxate e pintor

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ÁGUA BENTA Em uma compilação de imagens feita especialmente para MAG!, o fotógrafo Mario Cravo Neto apresenta sua homenagem poética à rainha-mãe da natureza: a água – do mar e dos rios –, elemento que propicia renovação de energias, proteção divina ou simplesmente o prazer de se refrescar em um dia de calor


Mãos da antológica Mãe Bida e de Anália da Paz, duplamente irmãs, de santo e de irmandade


Mãe Filhinha, Dadi, Adeildes e Estelita, a Juíza Perpétua, seguram o bastão sagrado da Boa Morte (no sentido horário)

olhos que o tempo não esquece Nascida em Salvador num período de contraluz – a escravidão –, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte reescreve seu passado, louva os santos e os orixás para celebrar a vida e perpetua seus mais profundos anseios de liberdade, história e memória por Diógenes Moura/fotos Adenor Gondim


A

o derramar seu olhar sobre a imagem deitada de Nossa Senhora da Boa Morte, no centro da igreja, Narcisa Cândida da Conceição, a Mãe Filhinha, de 104 anos, filha de Iemanjá, não faz outra coisa a não ser olhar para si mesma, para seu passado de “ancestralidade machucada”, para os ecos de uma escravidão que deixou marcas abomináveis em seu povo, para as lembranças de um tempo encravado em outro tempo que escreve com letras afrobarrocas a história da cultura na Bahia e no Brasil. A diferença é que hoje seu olhar parece verdadeiramente livre e, em silêncio, passando calmamente as mãos pelas vestes sagradas que cobrem a santa, aquela mulher pode pensar em voz alta: “Eu estou aqui, eu existo. Essa é minha história, essa é a memória de meu povo”. Antes de entrar na igreja, na noite de sexta-feira, mulheres da Irmandade da Boa Morte carregam o andor, sentindo o peso da imagem santa, morta, e o logro da história dos antepassados, enquanto pisam nas pedras cabeça-de-negro, numa narrativa de séculos vividos no Recôncavo Baiano. Ao cantar para Nossa Senhora, essas mulheres acendem um sincretismo religioso tão poderoso quanto seus dias de vida. Quando essas mulheres, unidas na vida e até depois da morte, fazem vibrar os hinos de louvação, todas elas iluminam as marcas de uma ancestralidade única no mundo e trazem ao século 21 uma história e uma memória que remontam aos tempos da escravidão. Atualmente, são cerca de 24 irmãs, negras e mestiças, mães ou filhas-de-santo, que vivem às margens do Rio Paraguaçu, entre Cachoeira e São Feliz, cidades vizinhas que se derramam, a olhos nus, como um imenso presépio e que servem de caminho para as pastagens de Curralinho, pequeno lugarejo onde o poeta Castro Alves viveu e romanceou seu grande e perverso amor – aquele, o que enlouqueceu sua penúltima musa e prima, Leonídia Fraga. As origens dessa confraria podem se confundir com a chegada da mão africana à Bahia, em tempos do Brasil colônia. Ou talvez ela tenha surgido depois desse período, com o país já liberto do monstro que foi a escravidão, mas ainda escravocrata. Foi nessa época que um grande número de irmandades veio à luz: havia a dos ricos, a dos pobres, a dos músicos, a dos brancos, a dos pretos. Todas elas eram formadas somente por homens. Às mulheres cabia o papel de dependentes. A Irmandade da Boa Morte surgiu no início do século 19 na Igreja da Barroquinha, no coração de Salvador, quando a cidade, mesmo sem saber, preservava seus anseios de arte e religiosidade sem desperdiçá-los ao amargor de um certo abandono, como o que se vive hoje, de suas manifestações populares. Desde o início, as irmãs da

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Boa Morte levantam questões quanto a suas origens: há historiadores que juram de pés juntos que as pioneiras pertenciam à nação jeje. Outros insistem que podem ter sido escravas libertas da nação queto. Em uníssono, todos concordam: não há nenhuma certeza quanto à procedência étnica da irmandade. Esse é mais um “levantamento” em que se nota a fragilidade documental da memória brasileira com a qual convivemos, ou seja, somos o que somos, sem saber de onde viemos. A única certeza é a da mudança do grupo para a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, naquela época a cidade mais próspera do Recôncavo. DEPOIS DO FOGO DO CORPO Notáveis em sua perseverança ancestral, as irmãs da Boa Morte louvam tanto os santos da igreja católica quanto os orixás e os preceitos do candomblé: na “obrigação” para os deuses africanos, nada pode ser visto nem revelado. Todo o segredo da irmandade é guardado a sete chaves. Em tempos mais remotos, a congregação era formada por mulheres acima dos 60 anos – depois que passava “o fogo do corpo”, como elas costumam dizer. Hoje, são aceitas irmãs um pouco mais jovens, já que os trabalhos para as celebrações do grupo, em agosto, exigem preparo físico no recolhimento de recursos para a festa, o pedido de esmolas, de porta em porta, que acontece uma semana antes da procissão. Um ritual que faz com que as mais antigas sintam a mão do tempo. Não é mesmo nada fácil a vida cotidiana na Irmandade da Boa Morte. Aliás, como em toda manifestação cultural que se proponha a manter viva a memória do Brasil. Por conta do sincretismo religioso, as irmãs já passaram por vários momentos de tensão com a igreja. O conflito chegou a ponto de o clero suspender, durante quase uma década, as missas de celebração. Mas foi numa sexta-feira, 13 de agosto de 1999, que a desavença chegou ao fim: com a igreja lotada, o pároco de Cachoeira subiu ao altar para louvar Nossa Senhora e satisfazer também os orixás. Até a primeira metade dos anos 90, as deusas de agosto viviam em um casarão conjugado à Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, doação da prefeitura e de um grupo de descendentes afro-americanos. Eram ruínas na Rua 13 de Maio, no centro da cidade. Foi a amizade e a devoção do fotógrafo baiano Adenor Gondim, profundo conhecedor das desventuras da irmandade, que buscaram guarida na pena afiada de Jorge Amado. O escritor imediatamente redigiu o artigo-denúncia “Tomo a Cuia de Esmoler”, chamando a atenção das autoridades para a urgência da construção de uma sede própria para a irmandade. O então governador da Bahia ouviu o cla-


Acima, a materialização do sagrado: mães e filhas-de-santo louvam Nossa Senhora. Abaixo, a materialização da fé: diante da imagem, irmã Iraildes conversa em silêncio

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“A Irmandade da Boa Morte é um tesouro ainda vivo que precisa ser protegido em sua mais profunda herança ancestral”, diz Adenor Gondim, único fotógrafo no mundo que teve a “graça” de registrar a imagem do medalhãosímbolo da irmandade. Último exemplar, a jóia de prata portuguesa possivelmente do fim do século 19 era usada na bolsa pelas irmãs durante o pedido de esmolas


mor e, em 1999, o casarão foi (re)inaugurado. Hoje, as irmãs têm um convênio simbólico com o governo do estado, que lhes repassa R$ 30 mil por ano, um orçamento frágil para as despesas de manutenção da sede, o custeio das celebrações e o salário de um único funcionário. A idéia é que a sede abrigue um memorial, possibilitando, por meio de exposições, publicações e outras atividades, uma renda que seria revertida para a própria irmandade. SENHORA DAS ÁGUAS Como em todas as confrarias religiosas da Bahia, a Irmandade da Boa Morte obedece a uma austera hierarquia, cuja maior autoridade é a Juíza Perpétua. Quem ocupa a honraria é dona Estelita Santana Souza, hoje com 100 anos, uma das mais antigas do grupo, sabedora dos segredos da irmandade e que ainda toma parte em todas as obrigações da festa. São quatro dias de celebração (entre procissão, missas, comida branca para Oxalá e samba-de-roda) que confirmam as palavras do pesquisador Moraes Ribeiro – que considera a cerimônia “o mais representativo documento vivo da religiosidade brasileira, barroca, ibero-africana”. Também como em outras irmandades, as noviças, para serem aceitas, passam por um processo de iniciação de três anos, conhecido pelo nome de “irmã de bolsa”, no qual é testada sua vocação. Elas apenas seguem adiante se foram ligadas a alguma casa de candomblé – jeje, queto ou nagô-batá. Como algumas também são católicas, é preciso professar o sincretismo religioso. A mais antiga das irmãs é Mãe Filhinha, cuja própria história é feita de mito e ancestralidade. Era ainda muito pequena quando avistou Iemanjá chamando-a para dentro das águas, num lugar conhecido como Porto Preto, lá pelas bandas do Rio Paraguaçu. Salvou-se quando a água estava quase cobrindo seu corpo. “Sabe, meu filho, eu sou tão das águas que vim ao mundo no meio de um riacho. Então minha mãe me pegou dentro da saia e me levantou, escorrendo água por todos os lados. Quando eu nasci, fui coada”, conta ela, que foi declarada filha de Iemanjá Ogunté no terreiro de Zé da Lama, em São Gonçalo dos Campos, cidade próxima a Salvador, nos idos da década de 40. Levou um ano “suspensa”, como ela diz: “Seis meses dentro e mais seis meses do lado de fora da roça em que fui feita. Só depois é que abri, com todos os direitos, minha casa, o Ilê Axé Itaylê”. O significado do nome, como manda a tradição de família e da nação nagô-vodunce, não pode ser revelado. É representante máxima do fluxo em que “o mito eterniza e o rito faz repetir o que deuses, heróis e ancestrais teriam lançado como conhecimento verdadeiro do mundo, ab origine”, Mãe Filhinha considera sua entrada na irmandade o ato que salvou sua vida: “Eu fazia panela de barro, sentada aqui, nesse chão. Era uma vida triste. Isso eu não tenho vergonha de dizer a ninguém. Até o dia em que levei três noites sonhando com Nossa Senhora da Boa Morte. Depois, dentro do sonho mesmo, em que eu estava encafifada com ela, eu disse, ‘Oh! Minha Mãe, se vós tem vontade de eu caminhar, dar uns passos com vós, vós me ajude, me tire desse fracasso em que estou’. Ela me ajudou e foi assim que entrei para a irmandade, e dela só saio depois de morta”. Assim são as mulheres da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. Algumas, vivas há mais de um século, saídas de dentro da pobreza para causar o imbatível milagre de fazer viver a própria história, a história de seus antepassados – os herdeiros da noite –, a história dos filhos e dos tempos que estão por vir. Por isso é que os olhos de Narcisa Cândida da Conceição, Mãe Filhinha, 104 anos, tanto brilhavam, louvando a vida, naquela noite de sexta-feira, diante dos olhos fechados da outra santa morta. XX

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Mãe Filhinha, sabedora dos fundamentos que unem deuses, mitos e entidades, olha para o mundo com as vestes de honra da irmandade: “Nunca botaram corrente nem nos pés de meus pais nem nos meus. Minha liberdade é só minha”


ah! asipá! SUA FAMÍLIA MORA ALI! ELE É FILHO DE MÃE SENHORA, DESCENDENTE DA TRADICIONAL FAMÍLIA ASIPÁ, DE OYO E KETU, CIDADES DO IMPÉRIO IORUBÁ. A TRISAVÓ, OBA TOSSI, FOI UMA DAS FUNDADORAS DA PRIMEIRA CASA DE TRADIÇÃO NAGÔ NA BAHIA. IMPOSSÍVEL DISSOCIAR A PALAVRA ANCESTRALIDADE DA OBRA DE MESTRE DIDI, QUE FEZ DE UMA FRASE TÃO SIMPLES QUANTO SIMBÓLICA SEU ENSINAMENTO MAIS FAMOSO: “EVOLUIR SEM PERDER A ESSÊNCIA” Sumo sacerdote no culto aos ancestrais, Alapini – filho de uma ialorixá filha de Oxum, Mãe Senhora, sem a qual a história do candomblé não poderia ser escrita nem na Bahia nem no Brasil – Deoscóredes Maximiliano dos Santos é Mestre Didi. Matriz africana contextualizada na realidade mundial, o homem, hoje aos 89 anos, é um artista do sagrado. Para entender sua vida e sua arte é preciso futucar o passado. Lá estão os princípios do universo nagô, a origem iorubana, a inspiração “mítica, formal e material” e a definição mais do que precisa em suas palavras: “Evoluir sem perder a essência”. Seus objetos rituais, hoje em grandes dimensões e nos quais vem trabalhando intensamente, elevam ao fazer da escultura – de nervura de palmeira, couro, búzios, sementes, palha da costa e bronze – o conceito da terra e sua relação com os gêneros feminino e masculino. Não há separação estética entre a vida e a obra de Mestre Didi.

Seu espaço temático pode ser visualizado dentro da própria tradição da escultura africana, aquela inicial, de madeira e pedra. O artista relê sua ancestralidade por meio de valores que lhe são preciosos: “O homem é, fundamentalmente, cultura”. Os objetos e as esculturas de Mestre Didi estão relacionados ao panteão dos orixás e reproduzem os emblemas e cetros de Nanã, Obaluaê, Ossain e Oxumaré. “As obras de Didi alcançam as subjacências absolutas do religare: homem e cosmos, homem e natureza, homem e linguagem, dinastia, ancestralidade, homem e continuidade existencial”, explica Juana Elbein, antropóloga e sua companheira há 39 anos. Sacerdote-artista, ele, o Mestre, pelo qual a herança africana se manifesta, tradicional e contemporânea, fecunda, na mais original linguagem plástica, é portador da palavra sagrada e dela guarda segredo e silêncio: “Eu falo, mas não converso”.

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“OGUÊ AROLÊ ATI EJÔ NINU IGBÔ” Floresta do Caçador com Serpente, 1995 Fibra de palmeira, tecido, búzios, couro e fio de contas naturais e de vidro


UM NEGRO BAIANO EM KETU uvia sempre minha mãe e várias pessoas mais velhas descendentes de africanos dizerem que nós descenderíamos de uma das sete famílias reais do reino de Ketu. Porém eu nunca dei importância e achava até ridículo comentar o assunto com outras pessoas. Eu pensava que tudo aquilo que ouvia com referência a minha família real e levando em consideração as dificuldades que os negros sempre tiveram para manter e preservar a tradição afro no Brasil, e principalmente na Bahia, fosse um pretexto para afirmar-se, fazendo o culto e nossa religião afro-baiana mais respeitada no meio social. Até quando me foi concedida pela Unesco uma bolsa, por intermédio do Ceao da UFBA, para fazer uma pesquisa comparada sobre arte sacra da África Ocidental no Brasil, na Nigéria e em Dahomey, atual República do Benin, durante um período de três meses. Assim foi que, em 6 de janeiro de 1967, embarcamos, eu e minha mulher, Juana Elbein dos Santos, Research Fellow do Institute for the Study of Man, Nova York, que também obteve uma bolsa na ocasião para colaborar na pesquisa. Chegamos em Lagos no dia 7. Três dias depois, viajamos para Ibadan, onde, depois de termos nos apresentado ao professor Hebert G. Armstrong, diretor do Institute of African Studies da Universidade de Ibadan, armamos nosso quartel-general. No dia seguinte, ou seja, no dia 11, nós nos encontramos com Pierre Verger. Com sua ajuda e de seu pequeno carro Citroën de 2 cavalos, começamos a fazer viagens curtas, para manter os primeiros contatos. No dia 21 atravessamos a fronteira e viajamos para Dahomey. Ficamos hospedados em Porto Novo, no Hôtel des Députés. Partimos no dia 23, um dia depois do falecimento de minha mãe, acontecimento do qual só vim a tomar conhecimento ao regressar para Ibadan, 11 dias depois. Partimos para o reino de Ketu, acompanhados de um intérprete funcionário do Irad, a fim de continuar nossas pesquisas e fazer uma visita ao rei em meu nome, em nome de todos os irmãos descendentes de Ketu residentes na Bahia. Longe estava eu de imaginar que poderia encontrar alguma pessoa descendente daquela família real de que tanto falavam. Por mais incrível que pareça, até esse momento nenhum comentário tinha sido feito a respeito dessa possibilidade. Na passagem por Cotonu, fomos ao Monoprix e compramos um bom vinho francês para dar de presente ao rei. Procuramos, dessa maneira, seguir os costumes tradicionais, e em seguida retomamos o caminho. O Citroënzinho guiado por seu dono, Pierre Verger, avançava pela estrada afora parecendo uma besta, com os freios tomados nos dentes, passando por vários povoados, espantando porquinhos, cabritos e galinhas, descendo e subindo ladeiras empinadas, cheias de curvas, de campos e lindas paisagens. Depois de muito tempo, começamos a percorrer um caminho de terras vermelhas, a poeira tingindo de vermelho a paisagem, até chegar à entrada do reinado de Ketu. Na cidade, depois de quatro horas e meia de viagem, paramos no armazém de um simpático senhor de nome Exu, nome de um dos orixás que, erradamente, é sincretizado como o Diabo no Brasil, para fazer uma breve refeição com sardinhas, pão e Mocacola, um delicioso refrigerante feito à base de café. Meia hora depois chegamos ao palácio do rei. Como eu me sentia bem! Com todos e tudo o que eu via e ouvia, apesar de andar brigando com meu iorubá, pois, por não estar habituado a falar cotidianamente, ainda não podia seguir diretamente as conversações muito prolongadas. Além disso, os dialetos iorubá variam muito de um lugar para outro.

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Pierre Verger, a quem todos conhecem na região por Babalaô Fatumbi e que já conhecia o rei, fez nossa apresentação. Entreguei o presente. Logo o rei mandou abrir a garrafa e servir a todos o presente, ficando ele, como é de costume, para se servir por último. Conversa vai, conversa vem, eu disse ao rei que era descendente da terra de Ketu. Ele, muito espantado com meu nagô-iorubá, mandou que eu desse prova do que tinha dito. E assim foi que cantei algumas cantigas enaltecendo a terra, o rei e a riqueza de seu povo. O rei, todos os seus ministros e as demais pessoas que lá se encontravam na ocasião ficaram surpresos e me escutavam emocionados, pois eles nunca tinham imaginado que, do outro lado do oceano, pudesse ainda existir pessoas como eu, capazes de cantar os cânticos tradicionais que eram entoados por nossos antepassados. Quando terminei de cantar, o rei, bastante emocionado, passou a mostrar a coroa que estava usando e, traduzindo uma das cantigas, nos disse que não era aquela coroa a que a cantiga se referia e sim a outra, com a qual são consagrados os reis. Existia a maior alegria no recinto e todos me admiravam com muito carinho e certa ternura se estampava nas faces. Enquanto isso, minha mulher se lembrou do caso da família real e perguntou por que eu não recitava o Orilé de minha família, o que eu chamo de brasão oral. Não dei atenção à pergunta. Mas ela e Verger insistiram tanto que fui forçado a recitar o Oriki, mesmo porque o rei observou quando Juana falou em francês para Verger e pareceu ficar muito interessado. Tive de dizer as seguintes palavras em nagô: “Asipá Borocun Elesé Kan GonGoo”. Quando terminei, só vimos o rei de repente exclamar: “Ah! Asipá!”. E, levantando-se da cadeira onde estava sentado, apontou para um dos lados do palácio, dizendo: “Sua família mora ali”. Todos nós ficamos parados. Era uma coisa inacreditável. Em seguida, o rei chamou uma pessoa das mais velhas, Iyá Nanã, e nos mandou levar à casa dos Asipá. Quando chegamos ao lugar, descobrimos que era todo um bairro, em vez de uma casa. Fomos levados à casa principal. Por ser um dia de semana, a maior parte dos homens estava trabalhando na roça da família, denominada Kosikú (“não há morte”). Mesmo assim fui apresentado a todos os que estavam por lá, e, quando recitei o Oriki, foi uma alegria geral. Todos bateram palmas, vieram apertar minhas mãos, queriam estabelecer conversações comigo e eu estava tão emocionado que não entendia nem sabia nada. Só via alegria, alegria no semblante de todos os que se acercavam para me cumprimentar. Logo nos levaram ao Ojubó Odê, lugar de adoração a Oxóssi, mostrando onde estava o Axé da casa, e foram chamar uma das pessoas mais velhas pertencentes à família, a fim de nos fornecer as informações precisas. Assim foi que ficamos sabendo que tudo o que minha mãe, Senhora, e as pessoas mais velhas falavam na Bahia era verdade. Independentemente de minha linhagem real, nossa família foi uma das sete principais que fundaram o reino de Ketu. Mestre Didi Asipá Alapini * Texto extraído do livro Contos Negros da Bahia e Contos de Nagô, Editora Corrupio


“OPÁ ESIN MATÁ” Fibra de palmeira, tecido, búzios, couro e fio de contas naturais e de vidro


ILUSTRAÇÃO ORIGINAL: CARLOS BASTOS/BORDADO: BETH BORDADOS

música Chuva, suor e cerveja são os sinônimos do Carnaval baiano em seus tempos áureos, quando não era necessário existir nenhuma área VIP para dar de cara com as figuras mais ilustres da cultura nacional. E, já que o tema é o gingado, fomos atrás das noitadas que vêm ganhando força em várias capitais graças a um elemento: a música brasileira feita para dançar. O som que move o povo da Bahia – e do Brasil – é traduzido nos trabalhos de Carlinhos Brown, Matthew Barney, Walter Smetak e mais uma série ilustre de artistas revelados em uma viagem no tempo pelo DJ Zé Pedro. ffwMAG! Nº 02 2006

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o bem amado Samplear a tradição cultural e os frutos do intercâmbio África-Brasil foi o primeiro estalo que fez o vendedor de picolé Antônio Carlos dos Santos Freitas virar gente grande e ser reconhecido no mundo inteiro como Carlinhos Brown. Com sua mente-liquidificador girando na potência máxima, ele extrai novas bases para sua música e ainda consegue mudar a dura realidade do bairro do Candeal, em Salvador. Ao longo de dez anos, o fotógrafo Mario Cravo Neto registrou as mil e uma facetas de Brown – sobrenome apropriado de pelo menos três fontes americanas: o cantor e compositor James Brown, o escritor abolicionista Box Brown e o ativista H. Rap Brown. Confira algumas delas

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Tambores do Burundi


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Raul Seixas


BAHIA DE TODOS OS SONS Da chegada dos portugueses à atitude da roqueira Pitty, de Dorival Caymmi a Carlinhos Brown, de João Gilberto a Caetano Veloso, de Maria Bethânia às rainhas do Carnaval de Salvador. No tabuleiro musical da Bahia, o que não falta é diversidade, como mostra a viagem do DJ Zé Pedro pelas épocas, tendências e sonoridades que já fizeram e continuam fazendo a cabeça dos mais variados ouvintes ra 1o de janeiro de 1552. Primeiro bispo nomeado pela coroa portuguesa, dom Pero Fernandes Sardinha chegava à Bahia trazendo na comitiva um músico para dar aulas no Colégio dos Jesuítas. Mal sabia ele que estava lançando a semente de algo que iria reverberar nos lugares mais variados pelos cinco séculos seguintes: a música baiana. Evidentemente, nada aconteceu tão rapidamente assim. Tanto que só no século 20, mais precisamente na década de 30, surgiram os primeiros sinais da música que influencia até hoje novos compositores e cantores: o samba que chega ao Rio de Janeiro pelas mãos de Assis Valente e Dorival Caymmi, fazendo o encontro definitivo entre o morro carioca e a cidade de São Salvador. Assis Valente nasceu em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Aos 10 anos, era declamador e comediante de circo. Mais tarde, foi para o Rio de Janeiro exercer a função de protético – e compositor de sambas. O primeiro sucesso foi gravado por Araci de Almeida e se chamava Tem Francesa no Morro (que dizia “Done muá si vu plé lonér de dancê aveque muá...”), mas foi seu encontro musical com Carmen Miranda que o colocou em situação de igualdade com os grandes compositores desse período. Carmen levou sua música para os quatro cantos do mundo e foi sua principal intérprete. O sucesso, no entanto, não o impediu de cometer suicídio em 1958, deixando sambas antológicos como ...E o Mundo não se Acabou, Camisa Listrada e Brasil Pandeiro. Dorival Caymmi é o pai de todos. Não dá para entender a música da Bahia – e do Brasil – sem ouvir suas composições. Depois das primeiras tentativas como cantor e compositor, ainda em Salvador, Caymmi transferiu-se para o Rio de Janeiro para tentar a sorte como jornalista, mas foi logo aconselhado por amigos a investir na música. E não parou mais. Curiosamente, também foi Carmen Miranda quem gravou sua O que É que a Baiana Tem? e lhe trouxe fama – mantida depois pelas canções praieiras, que o consagraram.

© Arquivo/AE.

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Não que na própria Bahia as coisas também não acontecessem: foi lá mesmo, durante os anos 40, que surgiu uma geração de sambistas, com Batatinha e Riachão entre os destaques. Nascido em Salvador em 1924, Batatinha só começou a cantar e compor depois de uma temporada trabalhando em jornais e como funcionário público. Assim como Caymmi e Assis Valente, teve seu primeiro samba gravado no Rio de Janeiro, pelo cantor Jamelão. O compositor foi pioneiro em introduzir elementos de capoeira na canção popular, estilo consagrado anos mais tarde por Baden Powell e Vinicius de Moraes nos afro-sambas. As letras dos sambas de Batatinha, compostos em estilo melancólico, fizeram os críticos da época o compararem a Noel Rosa e Paulinho da Viola. Nos anos 70, foi gravado por Caetano Veloso e Maria Bethânia, que trouxeram sua música para um público jovem, que desconhecia sua obra até então. Riachão, de nome de batismo Clementino Rodrigues, consagrouse como cronista musical da antiga Salvador. Nascido e criado no bairro do Garcia, aos 9 anos já cantava nas serestas e batucadas com os amigos do bairro. Após o tropicalismo e o exílio forçado, Caetano Veloso e Gilberto Gil gravaram em 1972 seu samba Cada Macaco no seu Galho, grande sucesso que levou o nome de Riachão para todo o Brasil. Quase 30 anos depois, a cantora Cássia Eller, em seu último disco, também gravou uma composição sua, Vá Morar com o Diabo. BATIDA DIFERENTE Nos anos 50, o Carnaval brasileiro passou por uma revolução: surgiu na Bahia o primeiro trio elétrico. Adolfo Nascimento, o Dodô, e Osmar Macedo resolveram sair durante a folia baiana em cima de uma fubica (um Ford 1949) equipada com dois alto-falantes, tocando frevos pernambucanos pelas ruas da cidade. Criadores da primeira guitarra elétrica brasileira, a “guitarra baiana”, Dodô e Osmar estabeleceram novos padrões para os ritmos musicais nordestinos. ffwMAG! Nº 02 2006

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© Agência A Tarde Dorival Caymmi

A tradicional música brasileira também foi pega de surpresa nesse período: o mundo descobria a voz e o estilo de João Gilberto, baiano de Juazeiro que ganhou um violão aos 14 anos e nunca mais parou. Depois de tentar a sorte como cantor em Salvador, ele foi para o Rio de Janeiro e virou integrante de um grupo vocal, o Garotos da Lua, para em seguida gravar dois compactos que lançaram seu estilo e inauguraram a bossa-nova. Sua maneira de cantar baixinho, totalmente diferente do estilo adotado pelos cantores da época, e sua batida diferente ao violão mudaram completamente os rumos de nossa música. Nos anos 60, foi para os Estados Unidos gravar com o saxofonista Stan Getz e tornou imortal a canção de Tom e Vinicius Garota de Ipanema. Ainda nos anos 50 foi criada a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Fundada em 1954, ela deu origem a grandes movimentos culturais brasileiros, como o Cinema Novo e o tropicalismo. Unindo a vanguarda musical com as manifestações populares, passaram por ela nomes como Walter Smetak e Tom Zé. No início dos anos 60, surgiu em Salvador a gravadora JS, iniciais de seu idealizador, Jorge Santos. O primeiro lançamento foi o disco de um grupo de jovens cantoras intitulado As Três Baianas – que logo depois, com mais uma integrante, passaria a se chamar Quarteto em Cy. Foi no mesmo período que teve início uma revolução: Caetano Veloso e sua irmã Maria Bethânia saíram de Santo Amaro para estudar na cidade de Salvador. Ali, encontraram Gilberto Gil e Gal Costa. Um destino predeterminado pelos deuses. Em 1963, Caetano foi convidado pelo amigo Álvaro Guimarães para musicar a peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, na qual Bethânia foi ouvida no palco pela primeira vez. Em off, é sua 120

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voz que entoa o samba de Ataulfo Alves Na Cadência do Samba. Foi nesse ano que Bethânia e Caetano conheceram Gil, Gal e Tom Zé, com quem passaram a cantar e trabalhar. Em junho de 1964, o grupo foi convidado para apresentar um show de música popular na semana de inauguração do Teatro Vila Velha. O show era Nós por Exemplo. O segundo espetáculo do grupo se chamava Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova. Ainda em 1964, Bethânia fez seu primeiro show-solo, Mora na Filosofia, onde foi vista e aplaudida por Nara Leão, que estava em Salvador em excursão com o show Opinião. No início de 1965, Bethânia recebeu um convite para ir ao Rio substituir Nara e levou consigo seu irmão Caetano. O resto é história. Quando encontrou os irmãos Veloso, Gilberto Gil não era marinheiro de primeira viagem. Já participava de programas de auditório e compunha suas primeiras músicas. Aos 9 anos, Gil começou a aprender acordeom. Aos 18, formou o conjunto Os Desafinados e, em 1962, gravou seu primeiro compacto. Transferido para São Paulo como funcionário da Gessy-Lever, começou a ter contato com a cena musical brasileira daquele momento. Conheceu Chico Buarque, Torquato Neto e Capinam, participou de festivais e teve em Elis Regina sua mais forte incentivadora. Gal Costa também foi precoce. Incentivada por seu pai logo cedo, começou a cantar e tocar violão em festas. Vizinha e prima de Dedé Gadelha, futura mulher de Caetano, ela viu João Gilberto passar por sua porta no bairro da Graça – e ouviu dele a frase que mais tarde o Brasil inteiro repetiria: “Você é a maior cantora do Brasil”. Depois do começo com Gil, Caetano e Bethânia em Salvador, Gal também se


© Agência A Tarde João Gilberto

mudou para São Paulo, onde gravou seu primeiro compacto, em 1965, ainda com o nome de batismo: Maria da Graça. Incentivada por Guilherme Araújo, trocou definitivamente de nome e imagem para transformar-se em porta-voz do tropicalismo. Com Tom Zé foi tudo diferente. Apesar de ter tido a mesma trajetória de seus amigos baianos no início, sua carreira não obteve o mesmo sucesso imediato. Depois de chegar a São Paulo e ter uma música sua vencedora em festival (São São Paulo, Meu Amor), Tom Zé continuou a gravar discos, mas sem a resposta do público e da crítica, que não entendia sua sofisticação e novidade. No fim da década de 80, foi o americano David Byrne quem finalmente fez justiça a sua obra – depois de encontrar em um sebo o disco Estudando Samba, de 1976, no qual Tom Zé sacudiu as estruturas do ritmo brasileiro mais conhecido no mundo. PAZ E AMOR Em 1969, chegaram ao mercado os Novos Baianos: Luiz Galvão, baiano de Juazeiro, Moraes Moreira, de Ituaçu, Paulinho Boca de Cantor, de Santa Inês, e Baby Consuelo – a única “forasteira”, de Niterói, Rio de Janeiro – tocaram juntos pela primeira vez em Salvador no show Desembarque dos Bichos depois do Dilúvio. Nas apresentações em palco e nas gravações, os quatro eram acompanhados pelo grupo Os Leifs, do qual faziam parte Pepeu Gomes e seu irmão baterista, Jorginho Gomes, depois incorporados definitivamente à turma. Em 1971, todos se mudaram para o Rio de Janeiro e foram morar numa cobertura em Botafogo. Isso até 1973, quando fixaram residência, todos juntos – com as 122

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mulheres, os filhos e tudo o mais –, num sítio no bairro de Jacarepaguá, conjugando amor, música e futebol. Outros baianos também chegaram com força ao mercado fonográfico brasileiro nos anos 70. Entre eles, Maria Creuza, uma das cantoras prediletas de Vinicius de Moraes. Depois de um começo como crooner em conjuntos musicais, a cantora chegou a ter o próprio programa de televisão numa emissora local de Salvador. Casada com o cantor e compositor Antonio Carlos, da dupla Antonio Carlos e Jocafi (outro sucesso do Brasil nesse período), Maria Creuza gravou canções como Você Abusou, Mas que Doidice e Eu Sei que Vou te Amar, ao lado de Toquinho e Vinicius. Falando em duplas, impossível não citar Tom e Dito, que em 1974 lançaram seu primeiro LP, Se Mandar m’Imbora Eu Fico, pela gravadora Som Livre – onde está o primeiro sucesso nacional da dupla, Tamanco Malandrinho. Do mesmo período, os Tincoãs (cujo nome vem de uma ave do cerrado brasileiro) iniciaram sua carreira em 1960 no programa Escada para o Sucesso, da TV Itapoá, interpretando boleros inspirados no sucesso do Trio Irakitan. Em 1973, gravaram o segundo disco – o primeiro como representantes legítimos da música afro-baiana, com arranjos feitos a partir de canções dos terreiros de candomblé, tendo como base violão, atabaque, agogô e cabaça. MUITO ALÉM DO AXÉ Muito antes de gay ser plataforma no Brasil, o baiano de Juazeiro Edy Star já aprontava na vida e na música da Bahia. Apelidado


Na foto acima, Edy Star; ao lado, os Novos Baianos

por Raul Seixas de “Bofélia”, ele foi o que se pode chamar de o primeiro artista glitter brasileiro. No Rio de Janeiro, gravou com Raul e fez shows em boates. Em 1974, gravou um disco pela Som Livre chamado Sweet Edy, com canções inéditas de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Roberto Carlos. Raul Seixas, baiano de Salvador que começou formando o grupo Os Panteras, foi um mito que até hoje tem seguidores fiéis. Misturando tudo em seu balaio – religião, Luiz Gonzaga, rock pesado e muitas filosofias –, gravou o primeiro disco no Rio de Janeiro. Um fracasso de vendas. Logo depois, trabalhando como produtor da gravadora CBS, gravou às escondidas seu disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez, com canções suas e de outro maldito da época, o compositor Sérgio Sampaio. A ousadia o fez perder o emprego, mas não interrompeu a carreira: depois de inscrever a canção Let me Sing, Let me Sing no Festival Internacional da Canção, em 1972, foi contratado pela gravadora Philips, de onde começou a mandar para o Brasil os primeiros grandes hits: Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante e Ouro de Tolo. Chegamos aos anos 80. Era o tempo do rock no Brasil, e a Bahia não fugiu à regra: surgiu Marcelo Nova e sua banda Camisa de Vênus, pioneiros do punk rock brasileiro. Com letras recheadas de palavrões, invadiram o Brasil e derrubaram o conceito de que baiano não faz rock. Na mesma época, A Cor do Som, grupo formado em 1977 por Dadi (ex-Novos Baianos), seu irmão Mu, Armandinho (filho de Osmar, do trio elétrico), Ary Dias e Gustavo, fez as meninas do Brasil se descabelarem. 124

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Nos anos 80, canções feitas para o Carnaval começaram a extrapolar fevereiro e a tocar nas rádios o ano todo. Muitos artistas se destacaram nesse período, mas foi Luiz Caldas o baiano que chegou ao sulmaravilha como representante oficial desse movimento, que passou a se chamar axé. Nascido em Feira de Santana, Caldas começou a cantar aos 7 anos e passou por vários trios elétricos até chegar à consagração – com 100 mil cópias vendidas de seu primeiro grande sucesso, Fricote. Estava aberta a porteira para todos os grupos baianos que vieram depois: Asa de Águia, Chiclete com Banana, Banda Eva, Cheiro de Amor, todas com público fiel na Bahia. Na primeira metade dos anos 90, surgiu o império das cantoras baianas. A primeira a despontar foi Daniela Mercury, que, após fazer parte da banda Companhia Clic, lançou o primeiro disco-solo em 1991, quando a canção Swing da Cor virou sucesso nacional. Ivete Sangalo, também inicialmente uma vocalista de banda – a Eva –, foi outra que partiu para a carreira-solo e faz sucesso internacional. Com Margareth Menezes, elas formam um trio de rainhas reverenciadas como deusas no Carnaval baiano e que a cada ano chegam à rádios de todo o país com novos hits. Aqui, abre-se um capítulo à parte: Carlinhos Brown, que em 1985 chegou a ter 26 músicas tocando nas rádios, mas que só lançaria o primeiro disco-solo, Alfagamabetizado, em 1996 (leia reportagem com a trajetória de Brown nesta edição). Nos anos 2000, curiosamente, foi o rock o elemento que voltou a atrair os holofotes para a música made in Bahia: Pitty, cantora hoje radicada em São Paulo, conquistou crítica e público desde o primeiro CD, Admirável Chip Novo. Prova de que a Bahia é versátil – e se renova. O que será que vem pela frente?

© Agência O Globo / © Kenji Honda/AE.

RÉGUA E COMPASSO Uma seleção de discos para mergulhar na riqueza sonora produzida na Bahia 1. Dorival Caymmi – Canções Praieiras (1954) 2. João Gilberto – Chega de Saudade (1959) 3. Maria Bethânia – Maria Bethânia (1965) 4. Tropicália – Vários (1968) 5. Tom Zé – Tom Zé (1968) 6. Antonio Carlos e Jocafi – Mudei de Idéia (1971) 7. Novos Baianos – Acabou Chorare (1972) 8. Raul Seixas – Sessão das Dez (1971) 9. Edy Star – Sweet Edy (1974) 10. Camisa de Vênus – Camisa de Vênus (1983) 11. Carlinhos Brown – Candombless (2005)


SALVE-SE QUEM SOUBER Porque poder, ninguém poderá mais, avisou Walter Smetak sobre sua época “tão problemática, tão apocalíptica”. Artista plástico, poeta, músico, professor, visionário, louco, mutante, esse brasileiro nascido no leste europeu tem uma legião de admiradores que vão de Augusto de Campos a Gilberto Gil – esse, criador da melhor definição sobre o mestre: um mergulhador de excelente performance e vários recordes de profundidade no oceano da dúvida por Jasmin Pinho/fotos Claudiomar Gonçalvez


Choris pagode, Choris violoncelo, Choris sol e lua, Choris microtonizado e Choris violino, 1968

Em cima de sua “Prostituta da Babilônia”, uma moto BMW que só pegava depois de muitas aceleradas, ele percorria as velhas ruas da cidade de Salvador. Músico, filósofo, artista plástico, homem de teatro, lunático, polivalente, poeta e, sobretudo, professor, Walter Smetak foi multidisciplinar muito antes de a definição ser ambicionada por artistas contemporâneos. Nascido checoslovaco em 1913, nacionalizado suíço e adotado oficialmente pelo Brasil, Walter Smetak estava à procura de sua quarta nacionalidade, “que não deve ser deste mundo”, dizia. Mas era a Bahia, terra em que ele verdadeiramente se naturalizou, onde encontrou terreno fértil para suas idéias de materializar sons, instruir mentes e produzir esculturas plásticas sonoras. Smetak teve formação clássica. Filho de pai músico e mãe cigana, ainda criança aprendeu a tocar zither, instrumento da família da cítara muito popular na Baviera, mas acabou optando pelo piano, graças à atração que Bach e Beethoven exerciam sobre ele. Depois começou a tocar violoncelo. Em 1931, estudou no Mozarteum de Salzburg e, em seguida, diplomou-se como concertista em Viena. Foi em fevereiro de 1937 que recebeu o convite para vir para o Brasil, contratado pela Rádio Farroupilha, de Porto Alegre. Não pensou duas vezes: arrumou as malas e veio. Chegando a Porto Alegre, enfrentou seu primeiro obstáculo em terras tropicais: a orquestra que o havia contratado se dissolvera. De qualquer forma, preferiu se envolver na desordem e liberalidade do Brasil a se submeter às misérias européias semeadas pela guerra. Para sobreviver, foi professor de violoncelo do Instituto de Belas-Artes do Rio Grande do Sul, trabalhou na Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio de Janeiro, além de passar pela Rádio Nacional, Rádio Tupi e Rádio Guanabara e no Teatro Municipal. Em São Paulo, para onde seguiu em 1952, trabalhou no Teatro Municipal e nas Rádios Record, Bandeirantes e Sumaré. Assim que chegou ao Brasil, Smetak enfrentou sérias dificuldades financeiras. Adotou o ofício de luthier e passou a construir artesanalmente violinos para sobreviver. Essa solução acabaria conduzindo seu 128

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fazer artístico numa direção fascinante, que não estava programada. Ainda em São Paulo, Smetak encerrou a carreira de violoncelista em um concerto vanguardista do maestro Hans Joachim Koellreutter, em 1957. Koellreutter convidou-o, então, a participar como professor dos seminários de música da Universidade Federal da Bahia. Em Salvador, Smetak encontrou as vertentes e as influências que inspiraram suas pesquisas, as teorias e os experimentos. PLÁSTICAS SONORAS No fim dos anos 50, a cidade da Bahia, sempre ancorada em práticas culturais tradicionais, recebeu um forte influxo de informações internacionais. Parte substancial delas vinha das vanguardas estético-intelectuais européias, especialmente nas áreas de música, teatro, artes plásticas, arquitetura, dança e cinema. Esse transbordar de culturas tinha como pólo difusor a Universidade Federal da Bahia, semeando o terreno para gerar frutos como a tropicália e o Cinema Novo. Foi nesse universo que Smetak encontrou espaço para fundar e ensinar novos conceitos musicais, ministrando aulas de violoncelo e de improvisação na Escola de Música da UFBA. Era adorado por uns, desprezado por outros, e, por não estar engajado na arte tida como oficial, não era sequer notado por alguns outros. Nos seminários, Smetak recebeu uma sala/galpão que, em pouco tempo, transformou em oficina de idéias e objetos. Ele sentia que era preciso criar instrumentos para uma nova música, um novo som. “O que acontece talvez é que me interessa muito mais o mistério dos sons do que o da música. Tenho procurado diferenciar claramente o fazer som, um meio de despertar faculdades da percepção mental, e o fazer música, apenas um acalento para velhas faculdades da consciência.” Dentro desses novos conceitos de matéria e espaço nasceram as Plásticas Sonoras, que são, de fato, esculturas que soam. Para construí-las, Smetak empregou cabaças, madeira, cordas, tubos de PVC, latas e qualquer material que estivesse a seu alcance. Havia uma preocupação


“O caminho dos instrumentos foi longe. Começou com o trovão e terminará com o trovão. Seguirá um vasto silêncio. E, por sua vez, o som terá de dar vida às coisas deste mundo tão belo (...). Sempre sou a gota que voltou ao oceano” Walter Smetak

M-2005, 1969. Instrumento musical de corda percutida. Cabaça, madeira, metal, isopor e plástico


cativa em toda uma geração de músicos brasileiros, tanto do meio erudito quanto popular. Foram os jovens da geração tropicalista que mais deram ouvidos a esse professor excêntrico. Smetak estava interessado em improvisação e em resultados obtidos pela musicalidade, e não pelo virtuosismo. O improviso, que ele considerava um elemento essencialmente brasileiro, era fundamental em sua criação musical. “Falar sobre música é uma besteira, mas executá-la é uma loucura.” Tentar classificar Smetak em alguma categoria musical é tarefa árdua. Há quem diga ser impossível. Sem dúvida é significativa sua inclinação e dedicação ao microtonalismo, mas sua teoria musical envolve toda uma filosofia adquirida em experiências místico-esotéricas unidas a uma visão muito particular do mundo.

Imprevisto, 1969. Plástica sonora. Madeira, flandre, vergalhão e cabaça

democratizante ao idealizar tais objetos. Era a possibilidade de fazer instrumentos baratos, que qualquer um pudesse reproduzir. “Percebi que intuitivamente eu estava retomando princípios da Grécia Antiga – das harpas eólicas que os gregos colocavam nos telhados das casas para que o vento as tocasse.” Com uma casca de coco e um tubo plástico, elaborou um tímpano suavíssimo. Com duas cabeças justapostas, imita o som do vento batendo numa janela. Com uma lata de inseticida pingando água num balde, chegou a um ritmo próximo do samba. Os “choris”, série de instrumentos de aspecto medieval, produzem um som semelhante ao de um soluço pequeno, entre o choro e o riso. As Plásticas Sonoras, ao contrário dos instrumentos tradicionais, não permitem nem estimulam o desenvolvimento de uma técnica virtuosa do executante. Os primeiros toques esgotam quase todas as possibilidades sonoras do instrumento para os ouvidos leigos. Elas servem para descondicionar o ouvido, a visão e a percepção em geral. São o resultado de uma pesquisa timbrística microtonal e do aspecto plástico da interpretação smetakiana do universo. Com um caráter eminentemente lúdico, elas refletem uma antiga e moderna tendência de integrar a música às artes plásticas. Smetak utilizou também outros recursos, como a linguagem das cores – o amarelo, o azul e o vermelho, representando, respectivamente, planos de uma mente cósmica, sabedoria, atividade e produção. Toda a sua obra foi criada para ser tocada pela imaginação, ou, como ele dizia, para ser ouvida com o olho, uma vez que seu som é virtualmente invisível. Em dezembro de 1966, foi convidado a participar da I Bienal Nacional de Artes Plásticas, em Salvador, junto a artistas como Lygia Clark e Frans Krajcberg. Smetak relutou, mas acabou aceitando a idéia, que lhe valeu o Prêmio Especial de Pesquisa e 1 milhão de cruzeiros de então. O trabalho se tornava cada vez mais humanístico, tendo o som como intermediário. Sendo esse misto de compositor, teórico, místico, esotérico e pesquisador incansável, Smetak exerceu uma influência signifi-

LOUCURA SANTA Na faixa de abertura do primeiro LP de Smetak, lançado pelo selo Phillips em 1973, ouve-se a melodia contínua de um violão exposto ao vento. Em sua crítica, Augusto de Campos se refere às surpresas sonoras que o LP contém: “Entre elas as improvisações vocais de Caetano, um canto de ruídos guturais que não tem paralelo em nossa música (popular ou erudita). Por nossos ouvidos desfilaram, pela primeira vez, alguns dentre os muitos (cerca de 100) instrumentos criados por esse anti-luthier – insólitos bricolages que vão da vassoura ao móbile”. Em 1974, recebeu o Prêmio de Personalidade Global do ano para música da Rede Globo de Televisão. No mesmo ano, Smetak conquistou as páginas dos jornais ao realizar um inusitado concerto dentro de uma igreja em Ouro Preto: as paredes começaram a tremer, os lustres balançaram e todas as pessoas saíram correndo da igreja. “Lembro que só ficaram uns hippies, que não tinham mais nada a perder, e eu. Quando na verdade se tratava apenas de uma reação física causada pelo som produzido com as mãos, o nariz e a língua num órgão elétrico. Ficamos quase surdos uns dois dias. Mas ninguém morreu”, relatou o próprio. Durante essa fase começou seu envolvimento real com o teatro. Aconteceram as primeiras apresentações públicas na reitoria da universidade, com as peças Vir a Ser e A Caverna. Ele escreveu também as nunca encenadas A Quadratura do Círculo e O Errotismo do Canhoto e quatro peças para dança: A Corrente, Akwas, Dos Mendigos e Sarabanda. Em livros e artigos, expressava suas idéias cósmico-musicais em textos de português aproximativo, entre poético e místico. Manuscritos povoados de símbolos alquímicos e musicais e textos cheios de neologismos. Para ele, as artes, a música, a literatura são intermediárias para estados de consciência superior. “Creio que só a loucura poderá salvar o homem, a loucura santa.” Smetak não chegou a fazer em vida exatamente tudo o que queria. A doença foi rápida – em 1984, ele morreu de enfisema pulmonar – e muitos foram os projetos que ficaram por realizar, por falta de dinheiro principalmente. Hoje, 22 anos após sua morte, as Plásticas Sonoras serão restauradas, depois de anos de armazenamento nos corredores da Biblioteca Central da Universidade Federal da Bahia, para uma exposição retrospectiva inédita. Nela, os instrumentos, elevados a sua real condição de obra de arte, receberão interfaces interativas que permitirão ao visitante imergir na dimensão sonora, visual e filosófica de Walter Smetak, um renascimento que lembra uma de suas célebres frases: “O fim da fala ainda não é o início do silêncio”. Apesar das inúmeras obras construídas, apesar dos textos filosoficamente musicais ou dos sons musicalmente filosóficos, apesar da estranha beleza das Plásticas Sonoras, o que parece se perpetuar na mente daqueles que o conheceram como discípulos ou como amigos é a força de sua presença criadora e, sobretudo, seus ensinamentos sobre música ou sobre a vida. Louco? Só dentro dos infinitos conceitos smetakianos – “louco”, dizia, “vem do latim loco, que quer dizer ‘lugar’”. É isso que esse ilustre desconhecido não nos deixa esquecer, com sua presença submersa e sua arte invisível.


“O fim da fala ainda não é o início do silêncio” “Eu sou um descompositor contemporâneo” Walter Smetak

Máquina do silêncio, 1971. Instrumento musical manual, mecânico e elétrico. Madeira, metal, cabaça, isopor, fio e fibra

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chuva, suor e cerveja folia de rua na Bahia data de 1884, quando surgiram os desfiles populares organizados. Seriam seguidos, no período posterior à abolição da escravatura, pelos primeiros afoxés: Pândegos de África e Embaixada Africana. A gênese é inter-racial, portanto. Salvador e Rio de Janeiro são matrizes nacionais dessa festa, conquanto entre os cariocas o período carnavalesco fosse revestido de aspecto mais lírico, mascarado e brincalhão, com bailes aristocráticos, batalhas de confetes, desfiles, corsos e cordões. A historiadora paraense Eneida de Moraes (1904-1971), figura intelectual legendária no levantamento cronológico do Carnaval da ex-capital federal, afirmava: “O que caracterizou nosso Carnaval do passado foi a preocupação dos foliões em se apresentar, nos bailes ou nas ruas, nas festas ou nas batalhas, fantasiados. Para o carnavalesco de outras eras, não podia haver Carnaval sem máscaras nem fantasias”. Esse aspecto ornamental também seria copiado na Bahia, contrastando com a participação popular e misci-

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genada encontrada desde o fim do século 19 nas ruas e nos becos de Salvador. Mas se os cariocas profissionalizaram a grande festa até torná-la um luxuoso espetáculo multimídia, os baianos mantiveram as grandes concentrações populares como expressão maior do Carnaval. Cá para nós, bem que eles tentam organizar a folia, mas inexiste por lá a engrenagem metódica imposta pelos carnavalescos-cenotécnicos, o mantra contínuo dos sambas-enredos e a devoção quase religiosa às agremiações de samba. Em outras palavras, o Rio requebra e Salvador pula. Antes, segundo Fred de Góes no estudo O País do Carnaval Elétrico, Salvador festejava a data em clubes como Fantoches da Euterpe, Cruzeiro da Vitória, Inocentes do Progresso, Tenentes do Diabo e Democratas. Nos salões, “polcas, marchas e dobrados, ou ainda maxixes, batuques e adaptações para compasso binário de certas composições consagradas e de efeito, como a entrada das trompas da ópera Aída”. Nas ruas, marchas carnavalescas celebrizadas pelo rádio. O

Foliões mascarados: uma cena romântica e bem comum na folia de momo até fim dos anos 70

© Agência A Tarde

“Venha/Deixa/Beija/Seja o que Deus quiser.” Os versos de Caetano Veloso no frevo lançado no verão de 1972 por Gal Costa talvez sejam o compasso certo para explicar o desbunde do Carnaval baiano e da Praça Castro Alves durante os anos 70. A pequena grande festa que movimentava apenas o centro de Salvador hoje se transformou numa indústria saltitante, restando apenas imagens daquela celebração pagã, libertária e eletrizante por Eduardo Logullo


© Agência A Tarde

“Esse trio (elétrico) gerou um contraponto ‘branco’ ao aspecto africanizado que começava a dominar parte da folia de rua soteropolitana. O afoxé Filhos de Gandhi, por exemplo, foi fundado em 1949. Sem Dodô e Osmar, talvez o Carnaval popular da Bahia tivesse seguido uma trilha hegemonicamente black”

Acima, travestido ou mascarado, o importante era cair no Carnaval vestindo uma personagem e realizando todas as fantasias. Na página ao lado, desfile do afoxé Filhos de Gandhi, em plena Praça Castro Alves

povão, chamado de “público”, assistia aos desfiles das elites ou fazia batucadas na Baixa do Sapateiro. Nas ruas, famílias colocavam cadeiras nas calçadas – costume que se prolongou na região central de Salvador até a metade da década de 70. O grande pulo baiano tem data e foi inventado pelos músicos Dodô e Osmar. O ano, 1950. Posicionados em um calhambeque Ford, irromperam nas ruas tocando frevos amplificados por alto-falantes e acompanhados por cavaquinho, violão e paus-elétricos, as toscas “guitarras” criadas por eles. Revolução imediata nos ouvidos e quadris. O que era aquilo? Nas laterais do automóvel, lia-se “A Dupla Elétrica”. No ano seguinte, entrou o terceiro componente, Aragão. Batizados de O Trio Elétrico, continuavam na fobica dirigida por Olegário Muriçoca, reunindo-se ao lado do Cine Guarany, em frente à Praça Castro Alves. Esse trio gerou um contraponto “branco” ao aspecto africanizado que começava a dominar parte da folia de rua soteropolitana. O afoxé Filhos de Gandhi, por exemplo, foi fundado em 1949. Sem Dodô e Osmar, talvez o Carnaval popular da Bahia tivesse seguido uma trilha hegemonicamente black. O frevo tocado por eles trazia raízes pernambucanas, embora já considerado um ritmo de aceitação nacional. Em Recife, os frevos eram metálicos, orquestrais e musicalmente caudalosos. A tríplice aliança dos baianos simplificou tudo aos acordes básicos, pegando os foliões pelas notas agudas e penetrantes. Durante duas décadas o trio repetiu a performance, até que Caetano Veloso, em 1969, antes de embarcar à força para o exílio em Londres, lançou o disco que contém a faixa Atrás do Trio Elétrico. Uau.

Essa canção logo virou hit nas rádios e chamava a atenção do país para o Carnaval baiano. Note-se que, no mundo ocidental, a guitarra era símbolo de transgressão e juventude. Misturar guitarras ao Carnaval renovou o repertório carnavalesco e rachou a folia ao meio: de um lado, os velhos babaquaras, com suas marchinhas de salão; de outro, os cabeludos e desbundados com a carnavalização eletrificada, enlouquecida, catártica. Nada mais ficaria como antes. O ano de 1972 assinalou exatamente o início dessa fase, digamos, contracultural do Carnaval baiano, que durou menos de dez anos. Naquele verão, Caetano e Gil voltavam do exílio londrino, Gal era a musa do underground, Bethânia enfeitiçava com Rosa dos Ventos, todo mundo estava com os cabelos mais longos do que nunca, os umbigos viviam à mostra, os lábios, rubros de batom, tamancos, flores, beijos de língua, fumo, ácido, som, pôr-do-sol, magreza dos corpos. No período pré-carnavalesco, Salvador era o epicentro de freaks, hippies, malucos, mochileiros, artesãos, músicos, traficantes, artistas alternativos, poetas. A Bahia ganhava status de refúgio transcendental. Ipanema até podia ser mais descolada e cheia de informações. Mas Salvador era sol, mar azul, umbu e pés descalços. Na Praça Castro Alves, temperatura máxima. Ali acontecia o encontro de trios e blocos, entre barracas de festas de largo, com espaço para andar, namorar e se divertir. A folia se estendia da Praça da Sé ao Campo Grande. O Pelourinho, ainda sem restauração, era zona proibida e perigosa. Carnaval na Barra? Nem pensar. Na praça havia um mar de cabelos, lama, cerveja, cheiro de mijo e loucuras. Em 1975, outra ffwMAG! Nº 02 2006

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© Agência A Tarde / © Diego Goldberg/Sygma?Corbis

revolução: o trio dos Novos Baianos. Caminhão enorme, amplificado por sistema de som profissional, microfones e palco. Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor, Bola, Gato Félix, Pepeu Gomes e a turma da pesada fizeram o Carnaval baiano pegar fogo. A festa ganhou punch. Moraes Moreira também inventou seu trio, provocando encontros trepidantes nas ruas da cidade. Mesmo sem ninguém mencionar o termo área vip, a Praça Castro Alves atraía um elenco inacreditável para a época. Gal vestida de pierrô, Caetano de calção e camiseta, Dedé Veloso, Wilma Dias, Sandra Gadelha, os Dzi Croquettes, Sonia Braga, Maria Bethânia sentada em caixa de cerveja, Torquato Neto, Jards Macalé, Waly Salomão, Jorge Salomão, Norma Benguell, Rogério Duarte, José Simão. Em 1974, a cantora Maria Alcina apareceu por lá com uma lata cheia de lantejoulas para brindar os amigos. Havia ainda a “fechação” das bichas, exageradas, loucas, coloridas, que subiam nas escadarias para desfiles absurdos: Marcos Rebu, Domingas Portella Lima, o argentino Fernando Noy (com a bunda inteira de fora, sua marca registrada), Makumba, Pedra, Jaiminho Urubulina e a famosa prostituta Peteleka. Atores locais de teatro tornavam a mistura mais eclética ainda, reunindo Nilda Spencer, Jurema Penna, Álvaro Guimarães, Helena Ignez, Sonia dos Humildes, Nonato Freire, Mario Gusmão, Sonia Dias, Gesse Gessy, Bemvindo Siqueira, João Augusto, Márcio Meirelles, Eugênia Millet, Jacques de Beauvoir, Teresa Sá, Eduardo Cabuz. Do povo de dança, Clyde Morgan, Laís Salgado Góes, Lia Robatto. Os paulistas José Possi Netto e a ainda atriz Zizi Possi faziam seu début 148

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na praça. Figuras marcantes, como Zezeca Joplin e sua irmã, a fotógrafa Thereza Eugênia, Yeda Alves, Jorge Santori, Ney Galvão, Letícia Muhana, Armindo Bião, Luciano Diniz, Dicinho, Aninha Franco, Carlos Borges, Luana de Noilles, Zulu. E até Cida Moreyra. Festa de arromba. Os músicos dos trios desciam para beber cerveja, comer acarajé, dar tapas na pantera, namorar, beijar qualquer criatura na boca. Baby Consuelo carregava a bebê Riroca (rebatizada mais tarde de Sarah Sheeva) numa cesta de vime. De vez em quando rolava briga entre “os da praça” e “os intrusos”, geralmente vestidos em mortalhas de blocos. A praça permanecia ultra-animada até o dia raiar, com a retirada em massa dos farrapos humanos. No dia seguinte, replay. Ploft. A chegada dos anos 80 trouxe a Salvador o crescimento dos blocos afro e o inchaço da praça. Agremiações como Eva e Trás-os-Montes, bandas como Chiclete com Banana, acoplados a cordões com isolamento e trios gigantescos, apagaram aquela atmosfera singela de chuva, suor e cerveja descrita por Caetano. O fluxo de visitantes cresceu feito avalanche, a Bahiatursa se uniu ao governo estadual para profissionalizar o Carnaval, e a folia hoje se estende até a orla. O Carnaval agora é produto de mercado e o espírito da festa se rende a patrocinadores, disputas de camarotes e transmissões televisivas. A geração de Daniela Mercury, Carlinhos Brown e Ivete Sangalo traduz a renovação do Carnaval baiano. Animado e rico, sim. Mas definitivamente distante dos vapores baratos e dos desbundes de antes. O chão da praça não balança mais. Acabou-se o que era doce, neném.

Os músicos dos trios desciam para beber cerveja, comer acarajé, dar tapas na pantera, namorar, beijar qualquer criatura na boca. Baby Consuelo carregava a bebê Riroca (mais tarde batizada de Sarah Sheeva) numa cesta de vime

Acima, o chão da praça balança ao som da guitarra elétrica. Versão década de 70 do trio elétrico (atenção ao alto-falante!). Ao lado, bloco de travestidos, uma das poucas tradições que permancem no Carnaval baiano


MPB SAMBA POP ROCK Gradativamente, a música popular brasileira volta a fazer parte do cardápio musical até das pistas de dança mais modernas Ninguém mais se assusta se sair de casa no sábado à noite, entrar em um clube daqueles ultramodernos e, no meio da pista de dança, ouvir o vozeirão de... Clara Nunes, Alcione ou mesmo Maria Bethânia. Já estava na hora. Ao que parece, a resistência a consumir música brasileira nas pistas de dança está diminuindo de forma considerável. Além de festas voltadas unicamente para esse segmento, alguns DJs já fazem questão de incluir, sempre que podem, algum hit nacional em seus sets habituais. A música brasileira já teve seus dias de glória em pistas dos anos 70, mas seu uso entrou em declínio a partir do começo da década seguinte. “Nos anos 80, começou a ascendência da música internacional em boates da classe média e o som dançante produzido no Brasil foi virando uma coisa segmentada, que quase mais ninguém procurava”, afirma o veterano Tony Hits, mestre das pistas de samba-rock, que tem residência fixa aos domingos no Consulado Music, em Santana, bairro da Zona Norte de São Paulo. Ele afirma que o Brasil está de novo em um bom momento e imagina que o futuro seja bem promissor. “Quem mais procura nossa festa hoje é o garoto de 16 a 20 anos. Ele está interessado em ouvir e dançar samba-rock. E a gente criou uma característica para esse som, com uma pegada de acid jazz, mais pesada, o que deixa o ritmo mais atraente ainda para os jovens”, conta. Wagner Oliveira afirma que a faixa etária de seu público é mais ampla. Ele é um dos responsáveis pelas festas itinerantes do Tranza Negra, também em São Paulo. “Olho a pista e vejo garotos de 18 anos dançando com senhoras de 60”, diz. Com os DJs Daniel e Waltinho, Oliveira toca sucessos dançantes dos anos 60, 70, 80 e 90. Entre as preferidas do público, clássicos de Tim Maia, Jorge Ben e Bebeto. Como as festas não têm data fixa, quem quiser dançar o som da Tranza Negra tem de procurar a programação no mural de eventos do site: www.tranzanegra.com.br. BATIDÃO “A música brasileira eletrônica mais tocada no Brasil é o funk carioca. O high society vai aonde quer que o DJ Marlboro esteja e sai

dançando”, considera o DJ e produtor carioca Marcelinho da Lua. Finalizando seu segundo disco de MPB eletrônica, Da Lua sai em defesa do batidão: “O funk já misturava Luiz Gonzaga com música eletrônica há muito tempo”. Mas essa suposição de que a música brasileira esteja entrando em pistas de dança da classe A por portas abertas pelo funk carioca não é muito bem aceita pelos DJs. O também produtor e DJ Zé Pedro vai pela via inversa: “O funk está passando pelo período de modismo, que é até prejudicial para nossa música, porque, acabando a onda, o recuo para a música estrangeira é quase irreversível”. Ele explica por que chegou a essa conclusão: “O drum’n’bass de Marky, Patife e Fernanda Porto e a tentativa de volta de Claudio Zoli em versão eletrônica para as pistas também foram um sinal de que as coisas iam mudar e, depois que esses estilos foram consumidos à exaustão, a produção de remixes brasileiros quase desapareceu”. Além de já ter lançado dois discos próprios, nos quais coloca bases eletrônicas em clássicos da música popular brasileira, Zé Pedro tem feito participações nos próprios álbuns das cantoras. O caso mais recente aconteceu em Lá nos Primórdios, CD novo de Marina Lima. Seria um recurso para ajudar a música brasileira em seu caminho às pistas? “Espero que os DJs toquem minhas produções, nem tanto por meu trabalho em si, mas pela afirmação e coragem de enfrentar o preconceito e tocar o que é nosso. Minha primeira aproximação com a música foi por meio da canção brasileira. Não me sinto capaz nem com vontade de produzir um remix que não seja brasileiro”, explica Zé Pedro. PESQUISA O projeto de música brasileira para pistas que mais tem conquistado seguidores no Rio de Janeiro é o Brazooka, comandado pelo DJ Janot e que acontece toda sexta-feira na Casa da Matriz. Jornalista de formação, Janot criou o hábito de tocar blocos de mais de uma hora com músicas de um mesmo artista. Parecido com o que fazem algumas boates gays quando Madonna faz aniversário – só que, no caso

por Marcus Preto/ilustração Fernado Vilela 138

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DANCE DISCO CLUB dele, Madonna é Chico Buarque, Tim Maia, Roberto Carlos... Também no Rio, o DJ MAM pilota o projeto Ser Chique É Ter Sotaque Carregado, festa que costuma rolar aos sábados no Casarão Hermê, em Santa Tereza. O nome vem do orgulho de ser carioca da gema, brasileiríssimo. No cardápio, música eletrônica com inserções de candomblé, capoeira e cantos indígenas. Orgulhoso também é o DJ Tutu, do Projeto Nacional – A Nova Música do Brasil, que ocupa as quintas-feiras do Studio SP, em São Paulo. Tutu não pode ouvir falar em remix. “Quero apresentar a música como ela foi feita, por isso meu trabalho se baseia em pesquisa”, conta. Não dá para duvidar dele, já que seu set-list está longe de ser óbvio e é renovado semanalmente. Apesar de estar hospedado em um reduto “moderno” (gente que costuma torcer o nariz para tudo o que não veio de um clubinho alternativo e escuro de Londres), Tutu não reclama de público. Mas considera que a vitória foi uma conquista de sua persistência: “Eu sou radical, só toco música brasileira mesmo. Algumas vezes até fui criticado por isso. Mas bati o pé e insisti nesse som até quando não havia demanda para ele. Graças a essa militância, consegui o espaço que tenho agora”. “MODERNOS” E O PRECONCEITO Se música brasileira é mesmo boa para dançar, por que é tão difícil emplacar esse gênero em pistas de modernos ou fashionistas? Camila Kfouri é uma espécie de pioneira nessa batalha. Desde Jardim Elétrico, a noite que ela residia nas quintas-feiras de 2003 no então hypado (e já lendário) clube Xingu, também em São Paulo, Camila tem levado música brasileira para uma pista mais acostumada a house, electro e seus derivados. Ela relativiza seu esforço: “Não acho que esse trabalho seja tão difícil assim. Mas talvez até mesmo os ditos ‘modernos’ tenham um pouco de problema com o que é diferente daquilo com que estão acostumados”, cutuca. Mas depois assopra, apontando um caminho: “Quando acontece de esses ‘modernos’ chegarem na festa e o som ser brasileiro, é difícil não se entregar e se divertir. Só os muito radicais ou preconceituo-

sos torcem o nariz. Numa noite de música brasileira cabem muitos estilos. A única coisa que todas as músicas têm em comum é o fato de serem nacionais”. Muito menos otimista do que Camila, Zé Pedro retorna para dar sua opinião sobre o assunto. “Quando vou tocar no exterior, volto muito triste com a realidade preconceituosa em relação a nossa música. A forma empolgada como eles recebem nosso som lá fora chega a me envergonhar quando volto para cá e encontro uma enorme dificuldade para fazer as pessoas dançarem o que é nosso”, lamenta o DJ, que faz suas pequenas sabotagens em nome do som que acredita: “Claro que sempre encontro um jeito, em todo lugar que toco, de pelo menos ter um bloco de remixes brasileiros, mas esse momento está longe de ser o ápice de meu set. Mesmo assim nunca desisto; aproveito a experiência e a fama que adquiri para reafirmar isso cada vez que me apresento”. DE GRÃO EM GRÃO Está certo, ainda não estamos no mundo ideal. Mas festas e mais festas com repertório brasileiríssimo têm surgido a cada dia. Seja de pegada eletrônica, pop ou de raiz, o que vale nesses casos é a nacionalidade. Em Brasília, só se fala na Criolina, que tem como sobrenome A Festa da Música Negra. Comandada pelos DJs Formiga, Pezão e Barata, a pista bomba em plena segunda-feira, com música preta brasileira em levadas drum’n’bass, hip hop e samba-rock. O público aumenta a cada edição, com resultados bem animadores, e já começa a virar referência na noite da capital federal. Mais pop é a quinzenal Balancê, que o DJ Thy organiza no Dynamite Pub, bar no bairro paulistano da Vila Madalena voltado especialmente para o público de... rock! Isso mesmo: o projeto invade o até então hermético reduto roqueiro com nome de música de Carnaval cantada por Carmem Miranda e Gal Costa. Simbólico? Ainda que esse seja apenas mais um caso isolado, o fato só confirma que a entrada da música brasileira em diferentes guetos anda cada vez mais tranqüila.


ILUSTRAÇÃO ORIGINAL: CARLOS BASTOS/BORDADO: BETH BORDADOS

literatura Romancista do primeiro escalão de nossa literatura, Jorge Amado é o grande responsável pela mitificação da mulher brasileira com sua personagem Gabriela, vivida (e eternizada) pela atriz Sonia Braga – para quem não sabe, uma paranaense. Com os olhares voltados para o futuro, apontamos nomes como João Filho, Mayrant Gallo e Allex Leila, escritores saídos da Bahia que, numa literatura sem fronteiras, conquistam leitores de todo o país. Completando o cardápio, a história da editora baiana Corrupio, primorosa representante e divulgadora do trabalho do mestre Pierre Verger. ffwMAG! Nº 02 2006

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A FALSA BAIANA HÁ DÉCADAS O IMAGINÁRIO MASCULINO SONHA COM GABRIELA E OUTRAS MUSAS CRIADAS POR JORGE AMADO E INTERPRETADAS COM MAESTRIA POR SONIA BRAGA – UMA PARANAENSE QUE IMORTALIZOU A MULHER DE CABELOS ENCARACOLADOS, VESTIDO DE CHITA, PÉS NO CHÃO, BREJEIRICE E MUITA SENSUALIDADE por Luciana Pessanha XX

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DIVULGAÇÃO


© LUCIO MARREIRO / EDITORA ABRIL


“Quando os dois grupos se encontraram, no começo da viagem, a cor do rosto de Gabriela e de suas pernas era ainda visível, e os cabelos rolavam sobre o cangote, espalhando perfume. Ainda agora, através da sujeira a envolvê-la, ele a enxergava como a vira no primeiro dia, encostada numa árvore, o corpo esguio, o rosto sorridente, mordendo uma goiaba”

falsa baiana, quando entra no samba, ninguém se incomoda, ninguém bate palma, ninguém abre a roda, ninguém grita oba!, salve a Bahia, Senhor”, disse Geraldo Pereira, imortalizado na voz de João Gilberto. Mas o compositor não contava com a aparição de determinada falsa baiana que causa frisson até hoje por onde passa: a atriz Sonia Braga, uma paranaense de nascimento que personificou como ninguém, no cinema e na TV, a mulher idealizada pelo escritor baiano Jorge Amado – e que ganhou fama nos quatro cantos do mundo. Justiça seja feita: muito antes de Sonia, uma portuguesa baixinha, criada no Rio de Janeiro, foi quem inventou essa baiana midiática e poderosa. Em 1939, Carmen Miranda fez sua primeira aparição como baiana no filme Banana da Terra. Em seguida, embarcou para os Estados Unidos, onde atuou em 15 filmes, virou a “brazilian bombshell” e uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood em sua época. Foi com Carmen, nossa primeira baiana “tipo exportação” a ganhar o mundo, que todos aprenderam a cantar: “O que é que a baiana tem?”. Tudo ali remetia à Bahia: o torço de seda, os brincos de ouro, a sandália enfeitada, os balangandãs, o ar brejeiro, os longos cabelos encaracolados e o vestido de chitão – e de preferência levantado, enquanto ela, pés descalços, acocorada no chão, chupava uma manga e nos sorria convidativa. Mas a imagem mais explosiva, que se transformou em sinônimo de mulher brasileira – uma figura idealizada e solidificada no imaginário de brasileiros e estrangeiros –, é a da mulher livre, sensualíssima, meio criança, meio selvagem, inocentemente indecente, criada por Jorge Amado, em 1958, no livro Gabriela, Cravo e Canela. Mais tarde, em 1975, Gabriela virou novela da TV Globo, adaptada por Walter Durst, dirigida por Walter Avancini e encarnada por ela, Sonia Braga. Estava inventada a baiana mítica contemporânea. Oito anos depois, Sonia repetiu a personagem no filme de Bruno Barreto, com trilha sonora de Tom Jobim e auxílio luxuoso da voz de Gal Costa. Aliás, a baiana dos sonhos de muita gente tem a estampa de Sonia Braga e todo o poder vocal de Gal. É verdade que, tanto na TV quanto no cinema, houve um mix de pessoas poderosas para construir uma única mulher. Basta alugar o filme na locadora mais próxima ou dar uma espiada em cenas da novela Gabriela, em que Sonia dança na chuva ou sobe no telhado para pegar uma pipa (disponíveis no site www. youtube.com, por exemplo), para ter uma noção do perigo. A mistura Jorge Amado/Sonia continuou explosiva por mais de 20 anos. Sempre sensual, a atriz foi amadurecendo com as personagens do autor. Assim, em 1976, Sonia foi dona Flor em mais um filme de Bruno Barreto, inspirado no livro de 1966. Na história, a personagem, depois de penar na mão do marido malandro, fica viúva e resolve se casar com um homem bem-comportado. Quem

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não se lembra do primeiro menáge à trois brasileiro, com a quituteira deitada na cama entre o fantasma de Vadinho (José Wilker) e o doutor Teodoro Madureira (Mauro Mendonça)? Não foi por acaso que o filme teve 12 milhões de espectadores e se mantém como a maior bilheteria do cinema nacional. Em 1985, miss Braga foi fazer a América. Sua participação no filme Luar sobre Parador e, mais recentemente, na celebrada série de TV Sex and the City são provas de que a morena conseguiu plantar seu gingado na terra das platinum blonds. Já madura, aos 46 anos, e ainda divina, em 1996 Sonia foi Tieta, no filme Tieta do Agreste, de Cacá Diegues, inspirado no livro lançado em 1977. A história da pastora expulsa da terra natal que enriquece e volta para virar a cidade de cabeça para baixo tem no enredo sexo, prostituição, intolerância, vingança, incesto e até ecologia. A Tieta de Sonia Braga volta a Mangue Seco glamourosa, como uma artista de cinema: de peruca loura, chapéus extravagantes, óculos escuros – e um pouco acima do peso. No entanto, com o desenrolar do filme, a personagem e a atriz voltam às raízes. E é com enorme prazer que reencontramos a estrela de seios de fora, deitada na areia, linda e baianíssima, como sempre. E a tradição se confirma: não existe no mundo baiana mais baiana do que essa paranaense de Maringá. A essa altura podemos nos perguntar: por que nossas baianas emblemáticas sempre foram falsas? Será que a mídia não dá espaço para as verdadeiras? Ou será que elas têm preguiça de se desabalar para o sul e preferem ficar deitadas na rede, enquanto outras fazem seu papel? A resposta é simples: talvez uma mulher não precise ter nascido na Bahia para ser baiana. É possível que a baianice seja um estado de espírito, que cai perfeitamente bem em paranaenses, cariocas, paulistas, mineiras, gaúchas, portuguesas, romenas... É claro que nós, mulheres urbanas, saradas, drenadas, FPS 50 e fortes tendências à tarja preta ficamos um pouco vexadas em nos arriscar. Até ousamos um linhão branco transparente nas férias em paraísos tropicais. Nesses cenários, depois de uma semana regulamentar de descompressão, podemos nos surpreender sendo mesmo uma baiana bem lânguida, com jeito de fruta gogóia e aquele ar de “vem cá, meu nego”. Mas não vamos muito além. Já no desembarque no aeroporto, diante de turistas de capitais mais edificadas, nos percebemos meio ridículas como genéricas de Sonia Braga/Gabriela. Uma semana depois, se ainda restar alguma coisa além dos adereços no canto do armário, será uma vaga nostalgia. Só que, lá no fundo, alguma coisa fica. E está pronta para ser sacada novamente. Talvez em casa, sem cenário nem figurino, mas com doçura, liberdade, um moço bonito… De repente, em plena urbe, recebemos uma Gabriela de frente e… salve a Bahia, Senhor! ffwMAG! Nº 02 2006

© MARCEL HARTMANN/CORBIS/STOCK PHOTOS

Gabriela, Cravo e Canela – Jorge Amado

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a vida

como ela é Personagens urbanas, temas universais e buscas existenciais dão o tom nas obras dos novos escritores baianos. Autores destaques dessa geração, todos considerados grandes promessas da literatura da Bahia, falam de seus livros e suas referências na vida e na arte por Vilmar Ledesma/fotos Christian Cravo/ilustrações Ricardo Athayde

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“Transito com naturalidade da situação realista para a fantástica ou onírica, que tento mesclar àquela, num desejo de mostrar que a vida, por mais miserável e óbvia que seja, conserva ainda algo de misterioso e insondável” Mayrant Gallo

Foi-se o tempo dos regionalismos: na produção dos novos escritores baianos, a prosa urbana e as personagens universais dão o tom. Vários deles, por exemplo, tratam Salvador como uma cidade suja, escura, violenta, facilmente confundida com metrópoles como São Paulo e Rio – o que tem chamado a atenção de leitores de todo o país. A vida literária por lá, como em outros lugares, é dividida em classes, gerações e gêneros. “Há os escritores já renomados, mais velhos, os que estão se destacando, na faixa dos 40, os mais novos e que arriscam mais, entre 22 e 30 anos, e os que sempre se acham excluídos do bando”, define Mayrant Gallo, integrante da faixa dos que estão se destacando, ao lado de Állex Leila, Renata Belmonte, João Filho e Adelice Souza. Os cinco são considerados grandes promessas literárias na Bahia de todos os santos – ou “de todos os santos e demônios”, como prefere Adelice. É uma geração de escribas que precisa driblar um mercado complicado, no qual a ausência de editoras é ponto crônico. “Não há uma grande, nem médias, o que já seria bom”, lamenta Állex Leilla. As edições esparsas são frutos de prêmios literários ou pagas pelos próprios autores. Gráficas soteropolitanas se encarregam de desovar a produção dos que resolvem se lançar por conta própria. Outro caminho são as pequenas editoras que nascem num dia e, com muita sorte, lançam dois, três livros, sem conseguir que seus produtos circulem fora do estado. “Na hora de publicar, ficamos sempre à mercê do crivo de Rio e São Paulo e, portanto, meio ressentidos. Para um autor baiano romper essa redoma, é preciso que escreva muito melhor do que paulistas, cariocas, mineiros e gaúchos e que o editor se predisponha a lê-lo, sem um julgamento preconcebido. Se ele escreve no nível daqueles, em geral é preterido”, diz Mayrant Gallo. Com livros de contos (Pés Quentes nas Noites Frias e Dizer Adeus) e poemas (Recordações de Andar Exausto), Mayrant rompeu as barreiras territoriais e teve O Inédito de Kafka lançado pela paulistana Cosac Naify em 2003. Sua busca é pelo texto de efeito, que impacte o leitor, com contos relativamente breves. “O leitor vai de um só fôlego, como se descesse diretamente para um enclausuramento insuportável ou para uma liberdade extrema, algo como sair da escuridão para a luz”, diz ele sobre seu estilo. As personagens das 15 histórias de O Inédito de Kafka circulam por uma “cidade clara, suja e desarrumada”, a Salvador descrita no conto “Dissolução”. FUROR VERBAL Mayrant Gallo gosta de situações-limite, com sangue, sexo, morte, humilhações, ultraje, desespero, dor, solidão, abandono, realidades falsas, falsos livros, famílias em crise e seres agonizantes, anulados por uma sociedade cruel. Suas personagens habitam grandes centros urbanos, com suas ruas sujas, becos, bares sórdidos e altos edifícios. “Transito com naturalidade da situação realista para a fantástica ou onírica, que tento mesclar àquela, num desejo de mostrar que a vida, por mais miserável e óbvia que seja, conserva ainda algo de misterioso e insondável”, ele avisa. Seu primeiro romance, Colaborador Bento, está pronto. É a história de um escritor em um envolvimento não muito normal com três mulheres e um estranho amigo, que sempre ironiza suas mancadas, seus equívocos e percalços. Ele conta que foi o livro que mais lhe deu prazer de escrever, mas que ele resolveu melhorar ao longo de dois anos. “É divertido, irônico e fácil de ler. Rápido, ágil. Literatura de entretenimento, só isso”, conta. Por alguns anos, Gallo foi professor de literatura, mas abandonou a atividade. Escreve uma crônica semanal para o jornal Correio da Bahia e faz de vez em quando um ou outro bico literário – revisão, digitação, jurado de concurso. Por


encomenda, ele até já reescreveu um romance inteiro de outro autor, que foi publicado e circulou. Encarniçado, o livro de estréia de João Filho, foi publicado pela Baleia, pequena editora paulistana, em 2004. O autor ainda morava na cidade em que nasceu, Bom Jesus da Lapa, quando recebeu o livro: “Coloquei embaixo do braço e saí caminhando sem direção feito um maluco para ver se dava conta da grande alegria que me contagiou”, ele relembra. Encarniçado foi bem recebido, principalmente pela participação de seu autor na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) daquele ano. Quando o escreveu, João Filho vivia “uma fase braba, muito bas-fond”. Fiel ao lema “se é para despirocar, despiroquemos tudo, então”, ele não apenas abordou temas terríveis, mas procurou isso na linguagem. “Apesar da busca de uma estrutura para cada texto, ali misturei, creio, o dionisíaco e o apolíneo, furor verbal, catarse e uma matemática da linguagem”, diz. Suas invenções lingüísticas, o processo de reinventar frases e gírias ou “o ritmo troncho, meus descompassos”, como ele define, remetem, segundo alguns críticos, a Guimarães Rosa. O escritor Sérgio Sant’Anna não poupou elogios: “Uma escritura endemoninhada”. BARRA-PESADA “O primeiro livro é como perder o cabaço”, diz João Filho – logo avisando que seu “hímen” é complacente e que a cada nova publicação estará intacto. O próximo deve ser “Açougue-Soul”, que está em negociações com editoras e segue a linha inventiva de Encarniçado. Alguns trechos do livro estão no blog www.hiperghetto.blogspot.com. Também estão entre seus inéditos dois livros de poesia – um deles chamado História do Corpo, recheado de poemas metafísicos. Apesar de a pedagogia discordar, João Filho conta que já nasceu leitor, encantado com a linguagem humana. Quando viu pela primeira vez um livro de Machado de Assis e um de Schopenhauer, lá pelos 12 anos, ele diz que foi tomado por “uma sensação de déjà vu danado”. Nos tempos de Bom Jesus da Lapa, foi “balconista, vendedor de um monte de coisas e locutor de rádio”. Enquanto seu objetivo de viver de livros não chega, está abrindo com a mulher, a escritora Állex Leilla, o Sebo Diadorim, localizado na Galeria Plaza, em frente ao Forte São Pedro. João Filho e Állex se conheciam há muito tempo. “Mas percorremos caminhos distintos, sempre nos acompanhando a distância e evitando a enorme atração que sempre sentimos um pelo outro”, conta ela. “Até que um dia baixamos a guarda e resolvemos ficar juntos.” Urbano, o primeiro livro de contos de Állex Leilla, é resultado do primeiro Prêmio Copene de Literatura, de 1997, e chamou a atenção pelo lirismo melancólico e o universo marginal de suas personagens inquietas. A própria autora explicita suas referências: “Se a pessoa tiver alguma referência literária, diria que é um cruzamento entre Caio Fernando Abreu, meu pai literário – embora eu já escrevesse antes, minha escrita sofreu um choque profundo após tê-lo lido –, e Ana Cristina Cesar, com ramificações em André Gide, Hubert Fichte e Jean Genet”. Àqueles que não têm as tais referências literárias, um aviso: a barra é pesada. Em 2003, Állex lançou Henrique, seu primeiro romance, pela editora local Domínio Público. Seu tema é o maior da literatura e arte em geral – a condição humana. Morrendo, num acidente de carro, a personagem do título não aceita se desapegar do que ama. Seu olhar então passeia por tudo o que viveu e também por momentos de delírio e projeções tardias. Há ainda o tema da homossexualidade (Henrique é gay), da amizade, do amor, do ciúme, da loucura e do incesto – entre pai e filho, e tratado sem culpas.

“Se a pessoa tiver alguma referência literária, diria que é um cruzamento entre Caio Fernando Abreu, meu pai literário, e Ana Cristina Cesar, com ramificações em André Gide, Hubert Fichte e Jean Genett” Állex Leilla

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“Apesar da busca de uma estrutura para cada texto, ali misturei, creio, o dionisíaco e o apolíneo, furor verbal, catarse e uma matemática da linguagem” João Filho

“Não me interessa escrever sobre as coisas como elas são por fora. Não quero fazer retrato de paisagem. Na paisagem, eu possivelmente faria um monólogo do hidrante enferrujado despercebido na calçada” Adelice Souza

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TUDO O QUE SE MOVE Durante muitos anos, Állex duvidou que seus escritos pudessem interessar a alguém. Mas como escrever, para ela, estava ligado ao próprio ato de existir, e respirar, nunca deixou a atividade de lado – e lá pelos 16 anos publicou “uns poeminhas bobos” num jornal independente de Bom Jesus da Lapa. Em Salvador desde 1992, é mestra em literatura e dá aulas em universidades, além de escrever muito – tem dois romances engavetados e um terceiro com possibilidade de ser publicado. “É a história de uma família (pai, mãe e filho) que se separa por força dessa vida fragmentada e pós-moderna que vivemos agora, mas luta para manter uma conexão delicada, que se revela através dos diálogos, referências partilhadas, visões de mundo parecidas, manifestações diárias de afeto. É um livro positivo, sobre a delicada teia que ainda pode unir as pessoas.” Adelice Souza também foi revelada pelos prêmios literários, que garantiram a publicação de seus dois livros de contos: A Cama e os Cães, de 2001, e Caramujos Zumbis, de 2003. Diretora teatral, ela usa em sua ficção o exercício de observar o mundo enxergando o real com outra poética, fugindo à linguagem naturalista. “Não me interessa escrever sobre as coisas como elas são por fora. Não quero fazer retrato de paisagem. Na paisagem, eu possivelmente faria um monólogo do hidrante enferrujado despercebido na calçada”, diz. Curiosidades existenciais transformam-se em suas matérias-primas. Foi assim com “Dona Lia”, seu conto favorito, que veio do pensamento de “como foi nossa primeira sensação tátil no mundo, aquele que primeiro nos tocou com a mão”. Assim nasceram as vozes confusas do encontro entre uma menina e a mulher que fez seu parto. No ano passado, Adelice estreou como dramaturga, com Fogo Possesso. Nesse inverno, estava com três espetáculos em Salvador. O humano, suas múltiplas divisões e suas infinitas possibilidades, serve de matéria-prima para os contos de Renata Belmonte. A preferência pela narrativa curta vem de sua “tendência a falar de pessoas, e não de acontecimentos”. Escritora e advogada, 24 anos, Renata está lançando O que Não Pode Ser. É seu segundo livro e chega três anos após Femininamente, Prêmio Braskem 2003 para autores iniciantes. As regras incompreensíveis desse mundo e nossa ignorância sobre o impossível movem os novos textos de Renata, sempre com a presença do elemento fé em personagens que buscam compreender as ausências e lacunas da vida. “Alguns recorrem ao mágico, outros preferem o caminho mais lógico. Em qualquer das escolhas, a dor está sempre presente”, ela acredita. Não por acaso, a epígrafe do novo livro recorre à frase “tudo o que se move”, de Clarice Lispector. É que Clarice tem grande importância na formação da escritora: “Eu entrei em contato com seu texto aos 17 anos, e considero esse o mais mágico de meus encontros”. Dois anos depois, Renata já estava escrevendo e às voltas com suas personagens – todas buscando, ba sicamente, “compreender, sentir-se parte de algum lugar”.


CONTADORAS DE HISTÓRIA Em 25 anos de sucesso, a editora Corrupio segue como maior divulgadora da obra de Pierre Verger e tem na trajetória de suas sócias um capítulo à parte por Mônica Lima/foto Christian Cravo Conversar com a fotógrafa baiana Arlete Soares e com a advogada salvadorenha naturalizada brasileira Rina Angulo é entrar nas páginas da história contemporânea do planeta. Sócias da Corrupio, a editora que tem os direitos sobre a obra de Pierre Verger no Brasil, as duas têm aventuras para contar que matariam Thelma e Louise de inveja. Fundada em 11 de dezembro de 1979 numa simpática casa no bairro da Barra, em Salvador, a Corrupio nasceu como editora e livraria com o propósito de divulgar a cultura afro-brasileira por meio de livros de arte e fotografia. Tudo começou dez anos antes, na Paris do fim dos anos 60, meca de boêmios, intelectuais e esquerdistas. Entre eles, nossas amigas Arlete e Rina, mais a jornalista paraibana Cida Nóbrega, sócias-fundadoras da Corrupio. Foi lá, enquanto preparava sua tese sobre a colônia de pescadores de Jauá, vilarejo no litoral norte da Bahia, que Arlete começou a ler Fluxo e Refluxo, livro de mais de 800 páginas que retrata o tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Baía de Todos os Santos, nos séculos 17 e 19. O autor do livro? O etnólogo e antropólogo francês Pierre Verger, incansável pesquisador das questões que envolvem o eixo África–Brasil. Como a edição estava esgotada, todo santo dia Arlete ia à biblioteca para ler o livro, no original em francês. Em 1969, a então estudante foi apresentada a Pierre Verger por um amigo comum, o escritor Jorge Amado. Conversa vai, conversa vem, ela falou sobre a peregrinação diária para ler o Fluxo e Refluxo – e completou que achava um absurdo um documento daquele sem edição em português. Queixa registrada, em poucos dias Arlete recebeu do próprio autor um exemplar do livro, que guarda até hoje em sua repleta estante de livros. PASSAGEM PARA A ÍNDIA De volta à Bahia, em 1972, Arlete começou a dar os primeiros passos na fotografia. Com amigos, abriu um estúdio, o Grupo Zaz. Uma visita de Pierre Verger, que apareceu por lá para revelar umas fotos, foi o ponto de partida para o estreitamento de uma relação que duraria décadas. Em 1976, o Grupo Zaz foi extinto e Arlete voltou a Paris para preparar a viagem de dois anos que faria para a Índia com Rina, Cida e mais uma quarta amiga, a gaúcha Sara Silveira. Anos depois, em 1991, a aventura vivida numa kombi-casa que passou por Grécia, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão e, finalmente, Índia deu origem ao livro Caminhos da Índia, com fotos de Arlete, texto de Cida – e prefácio de Jorge Amado e... Pierre Verger. Convidadas por Verger, as quatro passaram o Natal e o Ano-Novo com ele no Benin, foram à Nigéria e acabaram ficando por dois meses na África. Na despedida, a retribuição ao mestre foi a promessa de encontrar, no Brasil, uma editora para publicar Fluxo e Refluxo em português. Em 1979, a turma que acabava de voltar da Índia embarcou em outra viagem: fundar uma editora para publicar Verger. Enquanto esperavam a liberação da papelada, em 1980, as sócias da Corrupio (cujo nome foi tirado do lugar onde Pierre Verger morava em Salvador, o Alto do Corrupio) publicavam seu primeiro livro, Retratos da Bahia, com 256 fotos sobre negros, em preto-e-branco, assinadas por Verger. O sucesso foi estrondoso e tornou o etnólogo francês conhecido em todo o Brasil. No rastro vieram Lendas dos Orixás, Notícias da Bahia e Orixás: Os Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo, todos publicados em 1981. Hoje, a editora tem 45 títulos, de diversos autores. Entre eles, sim, Fluxo e Refluxo – que acabou saindo em 1987. 164

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Arlete Soares e Rina Angulo, s贸cias da bem-sucedida Editora Corrupio

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ILUSTRAÇÃO ORIGINAL: CALASANS NETO/BORDADO: BETH BORDADOS

cinema Dos malandros baianos vividos por Lázaro Ramos e Wagner Moura no longa-metragem Cidade Baixa, de Sérgio Machado, às safras de filmes que extrapolaram as fronteiras soteropolitanas para ganhar sucesso mundial, a Bahia inspirou muitas pérolas – no sentido real e figurativo, aqui objetos de análise da cineasta Marina Person. Em busca das raízes, desvendamos o artista multimídia Rogério Duarte, um dos mentores do tropicalismo e criador de cartazes antológicos para o Cinema Novo. De volta aos anos 2000, relembramos a passagem do cineasta Matthew Barney pelo Carnaval de Salvador. ffwMAG! Nº 02 2006

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CINEMA TRANSCENDENTAL De tão apaixonado por filmes, Sérgio Machado dorme todas as noites diante do DVD ligado. Diretor do cultuado Cidade Baixa, que retrata uma Salvador tão distante dos cartões-postais, é um dos novos nomes do cinema brasileiro. Em entrevista à MAG!, fala de seus filmes e de suas referências e da relação com a Bahia, centro de seu universo criativo e todo cineasta é, antes de qualquer coisa, um grande cinéfilo, Sérgio Machado é uma confirmação dessa regra. Já durante a adolescência, ele era alvo de brincadeiras dos colegas, que não entendiam sua relação quase obsessiva com a sétima arte. E que acabou levando-o para fora da Bahia, em busca de vôos mais altos. Na verdade, foi ainda em Salvador que aconteceu sua primeira investida nessa área: seu trabalho de conclusão do curso de jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia foi o curta-metragem Troca de Cabeça. O curta, último trabalho do mestre Grande Otelo, ficou tão bom que Jorge Amado (que não conhecia Machado pessoalmente) resolveu enviar uma cópia para Walter Salles. A convite do cineasta, Machado foi assistente de direção de Central do Brasil e dos dois filmes seguintes de Salles: O Primeiro Dia e Abril Despedaçado, do qual também foi roteirista. Dessa parceria surgiu a idéia que desencadeou seu primeiro longa, sobre a vida e a obra de Mário Peixoto, cineasta que filmou, em 1931, a obraprima do cinema mudo brasileiro, Limite. Batizado de Onde a Terra Acaba (o título que seria usado no segundo longa de Peixoto, não concluído), o projeto rendeu prêmios no Festival de Gramado, na Mostra Internacional de São Paulo e no Festival do Rio, entre outros. A partir daí, começou a receber roteiros e convites para trabalhar no exterior – e participar cada vez mais dos planos da Videofilmes, produtora dos irmãos Walter e João Moreira Salles, no Rio de Janeiro, onde mora hoje. Seu segundo longa, Cidade Baixa, veio com uma força estrondosa e foi exibido na prestigiada sessão Un Certain Regard, no Festival de Cannes, onde ganhou o Prêmio da Juventude. O filme se passa em Salvador, terra que Machado tanto ama e que guarda como refúgio criativo. “Sei como as pessoas andam e falam lá. Não preciso pedir licença para falar das coisas de minha terra”, diz ele. As câmeras ligeiras que correm as ladeiras de Salvador por onde passam Deco e Naldinho, personagens vividas por seus conterrâneos Lázaro Ramos e

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Wagner Moura, revelam um belo retrato da Bahia. MAG! – Você passou a infância e a juventude na Salvador dos anos 70 e 80. Quais são suas grandes recordações desse período? Sérgio Machado – Da infância, as memórias são partidas... muito futebol em campos de barro, amizades que duram até hoje, namoradinhas, descoberta da sexualidade... A adolescência foi toda na década de 80. Morei alguns anos com meus pais na Guiana Inglesa, quando trabalhavam como adidos culturais na Embaixada brasileira. Foi uma época bacana, era meio playboy, ia para boates todas as noites... Voltei ao Brasil para fazer vestibular. Engraçado... Estou percebendo que é mais fácil para mim falar do presente e do futuro do que do passado. MAG! – É um traço de pessoas não muito nostálgicas... S.M. – Não tenho nada de nostálgico. Recentemente passei por um outdoor que anunciava uma dessas festas ploc (que só tocam hits dos anos 80) e comentei com uma amiga que não tenho vontade alguma de ir numa festa dos anos 70 ou 80. Gostaria de ir numa festa que tocasse o som que vai rolar em 2020. Curto o momento que estou vivendo. MAG! – O que o levou a sair da Bahia? S.M. – Saí de Salvador porque desde muito cedo decidi que queria fazer cinema, e ficou claro para mim, quando era garoto, que filmar e morar na Bahia eram duas coisas difíceis de conciliar. Mas a Bahia não saiu de mim, e sempre vou para Salvador. O roteiro de Cidade Baixa e Onde a Terra Acaba foi escrito na Ilha de Itaparica. Acabo de chegar de uma temporada na Praia do Forte, onde fiquei isolado escrevendo. Para mim, é natural ambientar minhas histórias em Salvador e no Recôncavo Baiano. Viajei muito, morei em algumas cidades e não tenho dúvidas de que a Bahia está no centro de meu universo criativo. Sei como as pessoas andam e falam lá. Não preciso pedir licença para falar das coisas de minha terra.

por Ivan Melo/foto Vicente de Paulo 156

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

MAG! – Sua amizade com João Miguel, protagonista de Cinema, Aspirinas e Urubus, é de longa data. Fale mais sobre esse relacionamento. S.M. – A gente era amigo, e hoje é mais amigo ainda. Para mim, é muito bom ver esse sucesso de João. Uma trajetória bonita, feita por um trabalho sério e conseqüente. Nós nos conhecemos quando montamos um grupo de teatro na escola para participar de uma gincana. Além de nós dois, o grupo era formado por Ludmila Rosa, atriz maravilhosa que trabalhou com Antunes Filho, foi apresentadora da MTV e fez o último filme de Murilo Sales. Tinha também Ana Paula Bouzas, que faz muito teatro aqui no Rio. Guardo com muito carinho uma foto em que eu, João e Ludmila estamos vestidos de palhaço em uma peça da escola. Descobrimos juntos que queríamos trabalhar com arte. MAG! – Você nasceu pouco depois da invenção do Cinema Novo, que imortalizou Glauber Rocha. Como isso influenciou seu desejo de fazer cinema? S.M. – Fui pouco influenciado por esse movimento. Comecei a engatinhar no cinema nos anos 90, peguei logo pela frente a dureza da era Collor. Glauber Rocha é uma presença marcante para a geração que começou a fazer super-8 na década de 70. A influência que ele tem no que faço é a mesma que têm outros grandes cineastas, como John Ford, Hitchcock, Eisenstein, Copolla, Kurosawa. Não há uma relação mais direta, mas é no mínimo estimulante saber que um cara que nasceu no mesmo lugar que eu fez um cinema que dialogou com o que aconteceu de mais radical em sua época. Lembro que chorei quando vi Deus e o Diabo em meu primeiro dia de mestrado na Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA), em São Paulo. Ver o filme me deu uma sensação boa, de que as coisas podiam rolar. De Roberto Pires conheço apenas a Grande Feira, um belo filme. Oscar Santana foi um dos produtores de Troca de Cabeça, meu primeiro curta. MAG! – Se não tivesse saído de Salvador, o que provavelmente estaria fazendo hoje?

S.M. – A decisão de sair de Salvador foi tomada cedo. A Bahia demorou muitos anos para retomar a produção. Não havia lá um movimento em torno do audiovisual forte, como rolou em Recife nos anos 90. Minha formação foi de modo geral solitária. Só passei a conviver com gente de cinema em meados dos anos 90, quando vim para o Rio e comecei a trabalhar com Waltinho. Jorge Amado abriu as portas para mim de uma maneira muito generosa. Meu filho se chama Jorge em homenagem a ele. Aprendi a maior parte do que sei sobre fazer filmes com Waltinho e no convívio com o pessoal da Videofilmes. Acho que se as coisas não tivessem acontecido assim eu teria buscado informações de outra maneira. Provavelmente tentaria uma bolsa para uma pós-graduação em cinema no exterior. Na Bahia só agora se iniciou um processo mais contínuo de produção. Mas eu não perdi meus vínculos. Tenho planos de comprar uma casa no litoral norte ou Itaparica para ficar lá escrevendo. Minha mulher não gosta da idéia, acha que não vou querer mais sair de lá. MAG! – Em sua opinião, existe um cinema tipicamente baiano? S.M. – Como eu disse antes, a Bahia ficou anos fora da retomada. Acho que o que talvez exista é um modo de ser baiano. Há dois dias fui ver Eu me Lembro, o filme de Edgard Navarro que ganhou quase todos os prêmios de Brasília. Achei que o filme vai falar muito especialmente a quem é da Bahia. Ele tem um senso de humor sacana e tipicamente baiano que é muito mais interessante do que a baianidade estereotipada que a gente vê na televisão. Cidade Baixa teve um quarto de seu público em Salvador. Os baianos adoram se ver no espelho. Nos últimos sete meses, estive em pelo menos 15 países. Eu me identifico bem com uma parte da turma que está produzindo na Bahia, mas descobri identidades e interesses comuns com diretores do Irã, de Burkina Fasso, da Suécia. MAG! – Como o sucesso e a aceitação de seus trabalhos mudaram sua maneira de viver? S.M. – O que de melhor aconteceu nos últimos anos é que agora não sinto mais aquela insegurança em relação à continuidade da carreira.


Tenho recebido bons convites e não preciso perder mais tanto tempo correndo atrás de levantar os projetos. Isso me deixa feliz, porque o set de filmagem e a ilha de edição são talvez os lugares do mundo onde eu me sinto mais à vontade. Gosto de todas as etapas que fazem parte da preparação de um filme. Adoro até a dublagem, a mixagem, a finalização de imagem. Não vejo a hora de começar a filmar de novo. O bom resultado de um filme acaba abrindo também as portas para a gente trabalhar com atores e equipes muito legais. O lado mais complicado é que agora não é fácil conseguir o mesmo nível de concentração que eu tinha antes, justamente porque o nível de solicitação é infinitamente maior. Resolvi passar setembro fora do Brasil escrevendo. Acredito na necessidade de mergulhar de cabeça em um projeto, e não estou conseguindo fazer isso sem me distanciar. MAG! – Onde a Terra Acaba teve ótima repercussão entre os jovens e Cidade Baixa ganhou o Prêmio da Juventude em Cannes. O que o faz tão ligado a essa nova geração? S.M. – Isso é uma coisa curiosa, não sei bem a razão, mas o fato é que os dois filmes, bastante diferentes um do outro, fizeram muito mais sucesso com o público jovem. Cidade Baixa participou de muitos festivais pelo mundo. Deve ter ganho uns 30 prêmios, e o primeiro deles foi do público jovem, em Cannes. Por onde o filme andou, as sessões mais quentes foram sempre as que tiveram mais jovens na platéia. E a gente quase sempre ganhou os festivais em que os jurados eram mais novos. Uma das razões é que o filme fala de um trio de jovens à deriva, procurando se encontrar através do amor. Há também uma maneira natural e desencanada de tratar o sexo, o que fez com que o filme se comunicasse menos com um público mais conservador. Onde a Terra Acaba no fundo também fala de um jovem à deriva. Mário Peixoto fez Limite com apenas 21 anos e passou o resto da vida tentando se reencontrar. MAG! – Você tem planos para uma carreira internacional? S.M. – Recebi alguns bons convites para filmar nos Estados Unidos e na Europa. Existe um interesse enorme por cineastas latino-americanos

que vem muito em função do sucesso de Waltinho, Fernando Meireles, Alfonso Cuaron e Alejandro Iñarritu. O legal é que, além de talentosos, esses caras são muito generosos e têm aberto portas para uma turma que está surgindo atrás deles. Quando eu estava no Festival de Londres recebi um telefonema de Cuaron me convidando para passar uns dias com ele no set de filmagem de Children of Man, uma ficção científica de US$ 150 milhões. Estou com uma agente administrando esses convites lá fora e tenho recebido uma boa quantidade de roteiros para analisar. Num primeiro momento fiquei bastante tentado, mas depois achei que era melhor caminhar um pouco mais no Brasil antes de dar esse passo. MAG! – E quais são seus projetos mais imediatos? S.M. – Estou trabalhando com dois roteiros diferentes: um é um argumento original inspirado em um assalto a banco que aconteceu na década de 80 e o outro é uma adaptação de Quincas Berro d’Água, de Jorge Amado. Aproveitei as viagens para os festivais para escrever bastante. Além desses dois roteiros, trabalhei com um amigo francês na adaptação de um conto de Stephan Zweig, que vai ser produzido no ano que vem, e escrevi um curta para ser interpretado por minha mulher, que é atriz, meu filho de 2 anos e Zé Dummont. MAG! – O que há de melhor em ser baiano? S.M. – A cultura baiana é tolerante e permissiva. Na Bahia ainda há um desejo de resolver as questões mais na base da acomodação do que no confronto. Outra coisa que me encanta é a forma desencanada que as pessoas têm de curtir seu corpo e lidar com a sexualidade e com os sentidos de modo geral. Isso está diretamente ligado à presença do candomblé, uma religião obrigada a se misturar para sobreviver e onde os deuses são cultuados através da música, da dança e da boa comida. Os negros baianos desenvolveram mecanismos muito sofisticados de sedução. A única outra parte do mundo onde vi isso tão presente foi em Cuba, que é produto de uma mistura muito parecida com a que gerou os baianos. ffwMAG! Nº 02 2006

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DA BAHIA PARA O MUNDO SEGUIDORA DE NOMES COMO OTHON BASTOS E GERALDO DEL REY, QUE BRILHARAM NO CINEMA NOVO E EM FILMES QUE O MUNDO TODO APLAUDIU, UMA NOVA GERAÇÃO DE ATORES NASCIDOS NA BAHIA ARREBATA PLATÉIAS E SE MULTIPLICA EM PERSONAGENS QUE ESTÃO DANDO A NOVA CARA DO CINEMA, DO TEATRO E DA TELEVISÃO DO BRASIL. COM VOCÊS, LÁZARO RAMOS , WAGNER MOURA, VLADIMIR BRICHTA, DANIEL BOAVENTURA E JOÃO MIGUEL, UM QUINTETO PARA NINGUÉM BOTAR DEFEITO por Vilmar Ledesma 2

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FOTO: CALÉ/REVISTA TPM/ACERVO TRIP

CHARME DE PRÍNCIPE LÁZARO RAMOS Participar de Cinderela Baiana, filme estrelado por Carla Perez no auge do Tcham, pode significar roubada, certo? Não para Lázaro Ramos. Foi seu segundo filme (antes fez Jenipapo), lhe permitiu abandonar o emprego de técnico de patologia em um hospital de Salvador e construir uma carreira rara. O talento, aliado ao charme de príncipe, faz de Ramos um dos atores mais adoráveis de sua geração. Atualmente brilha como o Foguinho de Cobras e Lagartos. Na trama global, vive o primeiro protagonista negro das novelas brasileiras. Da turma de atores revelados por João Falcão em A Máquina, sua trajetória nos palcos começou cedo em Salvador, onde nasceu. Foi assistir a uma peça do Bando de Teatro Olodum e se encantou. O garoto de 15 anos venceu pela insistência e acabou aceito. Ali perdeu a timidez, se apaixonou pela profissão, aprendeu a explorar sentimentos, corpo e voz de todas as formas possíveis.

Desde os bastidores até a preparação, ele gosta de tudo no cinema e nem se importa com a famosa espera entre uma cena e outra. É Lázaro Ramos sempre em alta. Performances arrebatadoras e prêmios por elas não faltam na carreira de Ramos: Madame Satã, Carandiru, Cafundó, Cidade Baixa, O Homem que Copiava e Meu Tio Matou um Cara. Os dois últimos são de Jorge Furtado, com quem Ramos acabou de filmar Saneamento Básico. Outro inédito é O Cobrador, baseado no conto do livro de Rubem Fonseca e com Peter Fonda no elenco. Produção internacional, falada em três línguas, ela foi rodada no ano passado em Nova York e em cidades do México, da Argentina e de Minas Gerais. Ramos interpreta o protagonista, um assassino que pretende acertar as contas com o mundo e não fala uma palavra ao longo de toda a trama.


JOÃO MIGUEL Aos 10 anos, João Miguel apresentava um programa de TV e chegou a entrevistar Glauber Rocha. O diálogo teve um início surrealmente infantil: “Glauber, vou te perguntar uma pergunta”, ele disse, para ouvir um bemhumorado “vou te responder uma resposta”. Mas foi só muito tempo depois que o ator, nascido e criado em Salvador, ganhou reconhecimento – graças a Ranulpho, o sertanejo de Cinema, Aspirinas e Urubus. De formação teatral, João Miguel tem 36 anos de idade e 29 de carreira. A estréia nos palcos foi com O Cavalinho Azul, de Maria Clara Machado, no Teatro Castro Alves. Depois, vieram passagens por grupos como Bando de Teatro do Olodum, Los Catedráticos e Piolim, na Paraíba, onde viveu um ano e meio. A primeira virada veio com o monólogo Bispo, sobre o artista plás-

tico Arthur Bispo do Rosário, que estreou em 2001 e ficou quatro anos e meio em cartaz. O diretor Marcelo Gomes assistiu a sua performance arrebatadora e o convidou para o teste de Cinema, Aspirinas. Eram 300 concorrentes e ele ficou com o papel, que lhe rendeu prêmios e o levou a participar de Cidade Baixa e Eu me Lembro, além de dois episódios do seriado Carandiru. Neste ano, a agenda cinematográfica de João Miguel inclui Deserto Feliz, de Paulo Caldas, Mutum, de Sandra Kogut, e O Céu de Suely, de Karim Ainouz, os três concluídos. Em agosto, voltou a Salvador para interpretar um ecologista homossexual em Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro. E em novembro estará em Tropa de Elite, segundo filme de José Padilha, diretor de Ônibus 174. Incansável, o ator planeja dirigir no teatro um monólogo com Ludmila Rosa sobre a vida de Pagu.

FOTO: LUANA FISCHER/FOLHA IMAGEM

TUDO AO MESMO TEMPO AGORA


FOTO: CALÉ/REVISTA GOL/ACERVO TRIP

O CARA DOS MIL TIPOS WAGNER MOURA Sabe aquela dúvida na hora do vestibular? Wagner Moura não teve. Adolescente, ele fazia teatro no grupo da Casa Vila Magia, no Instituto Cultural de Salvador. Na hora de entrar na Universidade Federal da Bahia, no entanto, sua opção foi pelo curso de jornalismo. Formou-se, exerceu a profissão, mas continuou com o teatro amador. Como a carreira de ator deslanchou e não havia jeito de conciliar as duas atividades, a escolha se fez naturalmente e sem traumas. Moura nasceu em Salvador, mas, como filho de militar, peregrinou por várias cidades do interior e passou boa parte da infância em Rodelas, onde os alunos dividiam a sala de aula com as cabras. A vontade do pai em dar estudo aos filhos trouxe a família de volta a Salvador. O palco começou a assumir ares mais sólidos a partir de Abismo de Rosas, musical assumidamente brega no qual ele cantava as célebres dores-de-cotovelo de Lupicínio Rodrigues. A guinada cafona influenciou a banda do moço, Sua Mãe, que trocou os covers de The Cure por canções na linha de Odair José. De passagem pela Bahia, o diretor pernambucano João Falcão assistiu a Abismo de Rosas e acenou com a possibilidade de um futuro trabalho. Dois anos depois, Falcão telefonou e começava a nascer A Máquina, o espetáculo que o consagrou com os amigos Lázaro Ramos e Vladimir Brichta e os levou a fixar residência no Rio de Janeiro. Pele morena e rosto comum, Moura é daqueles raros que se transformam a cada personagem e pode interpretar de traficante (Carandiru) a milionário (A Lua me Disse), de presidente (JK) a retirante (O Caminho das Nuvens). Pequenos papéis em Sabor da Paixão e Abril Despedaçado representam o início de uma carreira cinematográfica das mais impressionantes. Logo viriam papéis de destaque em Deus É Brasileiro, O Caminho das Nuvens e Carandiru. Wagner Moura terminou em agosto as filmagens de Saneamento Básico, o novo de Jorge Furtado, que deve estrear no primeiro semestre do próximo ano. Depois de protagonizar A Lua me Disse e a minissérie JK, ele é presença confirmada na nova novela de Gilberto Braga. O ano de 2007 promete.


DANIEL BOAVENTURA Company, Vitor ou Vitória, A Bela e a Fera, Chicago. Esse é o currículo de algum ator da Broadway? Até pode ser, mas aqui representam quatro musicais importantes estrelados pelo ator e cantor Daniel Boaventura, baiano de Salvador. Ele vai logo avisando que sua formação é “pouco ortodoxa”: primeiramente um curso de administração de empresas e somente depois os palcos. Mas, “maluco por música”, desde a adolescência ele teve banda. E foi via música sua entrada no mundo dos espetáculos – ele tem um vozeirão, toca sax tenor, flauta barroca e trombone de vara. No início dos anos 90, em Salvador, engatou sua carreira de musicais com Cinema Cantado e Zás-Trás. Em 1994, foi a vez de Os Cafajestes, espetáculo que é o divisor de águas em sua carreira. Ficou cinco anos em 6

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cartaz, com temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tanto sucesso chamou a atenção da Globo e logo veio o convite para participar da minissérie Hilda Furacão. De lá para cá, Daniel Boaventura não parou mais e vem alternando trabalhos na TV – Laços de Família, Kubanacan, Essas Mulheres – com o teatro, principalmente os musicais. A peça mais recente foi a comédia musical Camila Baker: A Saga Continua, na qual ele voltou a ser dirigido pelo conterrâneo Fernando Guerreiro, o mesmo de Zás-Trás e Os Cafajestes, e deu show no papeltítulo, uma ex-diva teatral muito louca. Daniel Boaventura se considera “relativamente tímido” e diz que a Bahia lhe deu “a velocidade de raciocínio, a rapidez do pensamento, o relaxar em cena, dar a cara a tapa, ter coragem de fazer as coisas, o que é essencial para o humor”.

FOTO: MARCOS VILAS BOAS

HOMEM MUSICAL


FOTO: C GAUL/REVISTA TPM/ACERVO TRIP

BAIANIDADE ADQUIRIDA VLADIMIR BRICHTA É um estranho no ninho nessa turma de craques. Como assim? É que ele é o único que não nasceu na Bahia – é mineiro de Diamantina, mas aos 5 anos já estava em Salvador, onde cresceu e começou na carreira. A baianidade é tanta que, quando se mudou para o Rio, precisou contratar um professor para domar o acentuado sotaque. Mais baiano impossível. O bichinho do teatro entrou cedo na vida do cara. Extrovertido, aos 6 anos já fazia parte do grupo de teatro do colégio. Na adolescência vieram vários cursos de teatro e mais tarde artes cênicas na Universidade Federal da Bahia. Em oito anos de palcos baianos esteve em mais de 20 peças, como Um Bonde Chamado Desejo e Equus e Calígula, que ele planeja remontar. O reconhecimento nacional veio com A Máquina, o festejado espetáculo de João Falcão. Era o segundo encontro com o diretor com quem protagonizou o musical infanto-juvenil A Ver Estrelas. Em 2001, ainda encenando A Máquina, veio o convite para a novela Porto dos Milagres e, desde então, participou de mais quatro novelas. Como começou tarde na televisão – aos 25 anos –, Brichta resolveu tirar o atraso e priorizar o veículo. Mas não deixa o teatro de lado e no ano passado estreou como produtor em Como Raul Dizia, montagem de Os Argonautas, grupo baiano que integrou antes de se mudar para o Rio. Agora é a vez do cinema na trajetória de Brichta. Depois de uma participação afetiva em A Máquina, ele estrela Fica Comigo essa Noite, com direção de João Falcão e Alinne Moraes de par romântico. Sua personagem é um cantor da noite e Vladimir Brichta encara até uma versão roqueira do bolero imortalizado por Nélson Gonçalves que dá título ao filme.


O Pagador de Promessas (1962)

OS DEUSES (E OS DIA Há quase um século, a mítica Bahia é cenário dos sonhos para diretores brasileiros e estrangeiros. Saiba mais sobre os

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Sabor da Paixão (2000)

BOS!) NA TERRA DO SOL cinco melhores filmes e as cinco piores produções rodadas por lá, no ranking criado pela VJ e cineasta Marina Person

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Orquídea Selvagem (1990)

Cinderela Baiana (1998)

A Idade da Terra (1980)

ão dá para falar em cinema baiano sem pensar na intelectualidade de Glauber Rocha nem no “exotismo” da culinária, da geografia e da riqueza do material humano da Bahia – elementos que fascinam tanto gringos quanto outros “forasteiros”, que também trazem na carteira de identidade a nacionalidade brasileira. Não por acaso, a Bahia é pano de fundo de uma dezena de filmes estrangeiros, muitos deles uma compilação de clichês dedicados exclusivamente ao público de fora. E é daí que nascem grandes equívocos. Primeiro exemplo que vem à cabeça? Uma das cenas de Orquídea Selvagem, de 1990. Lembro de ver Mickey Rourke pegando o carro no Rio de Janeiro, onde passou pela Lagoa Rodrigo de Freitas, entrou no Túnel Rebouças e saiu no Pelourinho, em pleno centro histórico de Salvador. Mais recente e não menos constrangedor é assistir a dois talentosos atores baianos em início de carreira, que no primeiro dos seis filmes que fizeram juntos contracenaram com Penélope Cruz e falaram em inglês! É a dobradinha Wagner Moura e Lázaro Ramos, no filme Sabor da Paixão, de 2000. Ramos, aliás, está em outro filme dessa lista, infelizmente entre os piores: o longa Cinderela Baiana, de 1998, que dispensa comentários, até porque o elenco fala por si: Carla Perez, Alexandre Pires… Em geral, são os americanos (sim, os xerifes do planeta, que acham que o mundo começa na costa leste e termina na oeste, sem direito ao cinturão do milho e outras referências da própria região

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central dos Estados Unidos) que fazem o maior estrago ao deturpar e mediocrizar o cenário baiano. Um exemplo é Luar sobre Parador, superprodução de 1988 que trouxe Richard Dreyfuss e Raul Julia ao Brasil – além da estrela brasileira Sonia Braga, naquela época radicada em Nova York. Só para resumir, o enredo flertava com o clássico estigma de República das Bananas, que serve como foco a dez entre dez produções ambientadas na América Latina. OS ESTRANGEIROS Os gringos não são os únicos responsáveis pela fábrica de fantasias e visões estereotipadas da Bahia (e, por tabela, do Brasil), mas sem sombra de dúvida são os piores. Lúcia Murat fez um diagnóstico preciso dos clichês que o mundo cinematográfico insiste em reforçar no documentário Olhar Estrangeiro, exibido em 2005 na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, com lançamento previsto para outubro deste ano. Nas entrevistas com atores e diretores, em vários cantos do planeta, a cineasta – que se baseou no livro O Brasil dos Gringos, de Tunico Amâncio – vai à fonte para descobrir quando e por que a indústria adotou esse viés tão preconceituoso ao se referir ao Brasil como roteiro de fuga para bandidos e onde, na maioria das vezes, a população fala espanhol e tem Buenos Aires (e não Brasília) como capital federal.

© Courtesy of Everett Collection/Keystone, © Album Online/Stock Photos, © Divulgação, © Edgar Meraz/Buena Vista/Divulgação, © Lauro Escorel/Imagem cedida por Tempo Glauber, © Gaumont-Coline/Album/Stock Photos

Luar sobre Parador (1988)


Solo Diós Sabe (2006)

Terra em Transe (1967)

Dona Flor e seus Dois Maridos (1972)

Meteorango Kid (1970)

Do outro lado da moeda, também há exemplos de obras cinematográficas que retratam a Bahia com seu devido respeito. Escolhemos cinco delas, que cumprem esse papel ao longo de pelo menos cinco décadas. Em 1962, Anselmo Duarte dirigiu O Pagador de Promessas, com produção paulista de Oswaldo Massaini, mas todo filmado em Salvador. É até hoje o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Glauber Rocha, baiano da gema, também foi premiado no mesmo festival francês, em 1969, quando levou a Palma de melhor diretor por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. No entanto, não é esse filme de Glauber Rocha que entra em minha lista. Terra em Transe, feito dois anos antes, é obrigatório para quem quer ter o mínimo de cultura cinematográfica brasileira. Um filme difícil, que extravasa a personalidade de um diretor enfurecido, muito emblemático de uma estética – o Cinema Novo – e de uma geração contestadora. ALTOS E BAIXOS Para não bater só em cachorro morto, incluo na lista dos piores outro filme de Glauber Rocha feito em 1980. Ninguém contesta o valor e a grandeza de sua obra, mas pouca gente consegue assistir, ter prazer e mesmo entender A Idade da Terra, um filme menor, um cinema de ego, que me cansa.

Ainda entre os melhores, quero citar também um produto saí do do chamado surto underground baiano. Vale conferir Me teo rango Kid: O Herói Intergaláctico, realizado por André Luiz Oliveira em 1970. Vale pelo humor, pelo desprendimento da rea lização e pela curiosidade. A Bahia idílica de Jorge Amado também inspirou muitos cineastas que se encantaram com os prazeres locais. Um caso em particular foi o sucesso arrasa-quarteirão Dona Flor e seus Dois Maridos, que permaneceu durante anos como o filme brasileiro mais visto de todos os tempos. O triângulo perfeito entre Sonia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça foi dirigido por um precoce Bruno Barreto, que na época tinha apenas 20 anos de idade. É daqueles raros exemplos de filmes que não caducaram com o passar do tempo. E olha que ele foi exibido em 1972. Para fechar o quinteto dos melhores, uma aposta que ainda não estreou em circuito: Solo Diós Sabe, uma co-produção internacional (eles de novo!) dirigida pelo mexicano Carlos Bolado, que tem Diego Luna e Alice Braga (a Carina do cultuado Cidade Baixa, do baiano Sérgio Machado) nos papéis principais e me rece toda a atenção. O filme, curiosamente, aborda um tema muito presente na realidade baiana, mas pouco explorado no ci nema: o candomblé. ffwMAG! Nº 02 2006

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INVASÕES BÁRBARAS A poeira nem tinha baixado quando, de repente, tudo parou. Vários trios elétricos haviam botado fogo na multidão que tomava conta do circuito Barra-Ondina, em Salvador, no domingo de Carnaval. De repente, um barulhento trator florestal de 35 toneladas invadiu o Farol da Barra, cuspindo fumaça e puxando o bloco criado pelo artista plástico americano Matthew Barney em parceria com o músico Arto Lindsay. De Lama Lâmina, na verdade mais um projeto multimídia de Barney, teve como inspiração o candomblé e bebeu na fonte da ativista Julia Butterfly Hill – que virou notícia ao morar por dois anos em cima de uma árvore de 70 metros de altura, na Califórnia, em protesto contra o desmatamento. A cena era a seguinte: uma árvore de 6 metros, arrancada pela raiz, foi colocada na frente do trator. Seus galhos foram cobertos por camisinhas gigantes e, sobre eles, uma mulher seminua fazia sua performance. O veículo puxava um imenso bloco de terra, onde ficaram Lindsay, sua banda e o presidente do Cortejo Afro, Alberto Pita. No meio das ferragens, um homem nu, batizado de “greenman” (homem verde), se masturbou várias vezes e simulou o ato sexual com as engrenagens do trator. Atrás dessa parafernália, a bateria do Cortejo dava o tom da trilha sonora, com aquela pegada dos grupos de afoxé. Para quem estava ali, era essa a única referência de que se tratava de uma noite de Carnaval na Bahia. XX

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Seguindo esse trio elétrico sui generis, cada um tentava sacudir o corpo a sua maneira, embalado por um som que misturava marchinhas carnavalescas, improvisações e refrões mântricos. Alguns utilizavam o “abadá oficial”, um modelo de papel sintético cortado a laser, que lembrava a vestimenta de um orixá. Quem olhava em direção aos camarotes do circuito encontrava as mais diferentes expressões: espanto, indignação, curiosidade e admiração. Uma coisa é certa: indiferente ninguém ficou. Entre tantos rostos, um em especial chamava a atenção: o da cantora islandesa Björk, mulher de Matthew Barney e mãe de sua filha, Isadora, orgulhosa com a performance do marido. Era justamente isso o que Barney e sua trupe queriam: causar perplexidade, dar pano para manga, virar assunto... E virou. Com sua metáfora ambulante, conseguiram chamar a atenção para causas religiosas, ecológicas e sociais – em uma semana em que a palavra de ordem é esquecer os problemas do mundo e se divertir. Verdade que muita gente não entendeu o recado. Mas tudo foi registrado e virou o filme De Lama Lâmina – rodado por Matthew Barney com três câmeras estrategicamente colocadas durante a apresentação do Cortejo Afro e exibido em vários países. Barney é um dos maiores ícones da pop art contemporânea. Sua transgressora passagem pelo Carnaval baiano jamais foi igualada e deixou lembranças.

FOTO\: DIVULGAÇÃO © GLADSTONE GALLERY

A capital baiana viveu uma experiência inusitada no Carnaval de 2004, quando o artista Mathew Barney subverteu a ordem com o bloco-instalação De Lama Lâmina, em plena passagem do Cortejo Afro por Carla Stagni


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DA TROPICÁLIA

AO CAOS Poeta, escritor, professor, tradutor, músico e um dos mais importantes designers gráficos do Brasil, o baiano Rogério Duarte ganhou capítulo exclusivo no livro O Design Gráfico Brasileiro: Anos 60, lançado pela editora Cosac Naify. Com mais de 500 imagens assinadas pelo artista e diversas capas de discos que fizeram história, a obra faz um panorama de um dos períodos mais ricos da cultura brasileira, revisitados agora pela ffwMAG! por Ivan Melo


Nas imagens, alguns trabalhos de autoria de Rogério Duarte, um dos mentores intelectuais do Tropicalismo.

ogério Caos. O apelido, dado por Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha – um dos ícones da história do teatro brasileiro –, diz muito sobre a personalidade de Rogério Duarte, figura das mais importantes quando o assunto é criação de arte e design no país. Designer, diretor de arte, poeta, escritor, professor, tradutor e músico multiinstrumentista, Rogério Duarte continua a fascinar quem se depara pela primeira vez com suas criações, parte delas compiladas no recém-lançado O Design Brasileiro: Anos 60, livro da editora Cosac Naify organizado por Chico Homem de Melo, que tem um capítulo inteiro dedicado ao artista, com mais de 500 imagens e texto de Jorge Caê Rodrigues. Baiano de Ubaíra, Rogério Duarte nasceu em 1939 e mudou-se no início dos anos 60 para o Rio de Janeiro, onde teve os primeiros contatos com intelectuais da semiótica e do design, como os alemães Max Bense e Otl Aicher e o ítalo-argentino Tomas Maldonado. Deles, recebeu as cartilhas racionalistas das escolas alemãs – a Bauhaus e a Escola Superior da Forma, de Ulm – e utilizou referências em trabalhos como cartazes políticos da UNE, da qual era diretor, e pôsteres de shows da bossa-nova que deram início a uma identidade visual inconfundível, que abriu caminhos para toda uma geração de artistas gráficos brasileiros. Um de seus grandes amigos foi Glauber Rocha, para quem criou o cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Duarte ainda fez trabalhos para o Cinema Novo, como os cartazes de O Desafio, de Paulo César Saraceni, A Grande Cidade, de Cacá Diegues, A

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Opinião Pública, de Arnaldo Jabor, e, em 1969, o de Meteorango Kid: O Herói Intergaláctico, de André Luiz Oliveira, esse produzido no período em que o designer estava envolvido em outro movimento vanguardista da cultura brasileira: o tropicalismo. Duarte foi um dos próceres do movimento que reuniu Caetano, Gil, Tom Zé, Torquato Neto, José Agripino de Paula, Hélio Oiticica e companhia. Sua influência teórica e estética está mais do que explicitada não somente em letras de músicas, mas também em livros e em revistas para os quais colaborou nesse período, além de logotipos, cartazes de shows e filmes – e várias capas de discos que ele projetou. Sua versão para a história dessa época está em Tropicaos, livro que reúne ensaios, depoimentos e memórias e foi lançado em 2003 pela editora Azougue. A obra causou certa polêmica antes mesmo de seu lançamento – quando um crítico musical carioca escreveu um artigo dizendo que Duarte estava preparando um livro chamado “Mentira Tropical”, uma “resposta” a “Verdade Tropical”, relato de Caetano Veloso sobre a tropicália. O próprio Duarte se encarregou de desfazer o mal-estar, explicando que sua entrevista ao crítico tinha sido mal-interpretada: “Ao que parece, o entrevistador não gostava, diferentemente de mim, de Caetano, e conseguiu interpretar a sua maneira minhas respostas. O livro que anunciei na época foi publicado com o nome de Tropicaos e não tinha o propósito de atacar nem ofender Caetano, mas apenas esclarecer questões históricas referentes ao tro-


“O grande erro da publicidade atual é estar a serviço da mentira consumista, em vez de servir à desalienação da humanidade”. Rogério Duarte

picalismo, além, é claro, de expor minhas idéias e sentimentos sobre diferentes assuntos da época”. “DESALIENAÇÃO” É óbvio que a música teve um papel fundamental na difusão da tro pi cália. Foi por meio dela que a massa presenciou e assimi lou mais notadamente as mudanças radicais que surgiam no cená rio cultural brasileiro. Porém, a literatura, as artes plásticas, o cinema e o teatro e, por conseqüência, a propaganda, a moda e a televisão também foram sugados pela necessidade da transgressão, pelo de sejo de criar, misturando o que aqui estava estabelecido com o que de melhor acontecia mundo afora, como a pop art e o psicodelismo. Rogério Duarte foi o guru des se novo concei to visual que se espalhou pelo Brasil, e suas cria ções são subversivas e carregadas de uma lingua gem gráfica anár quicoantropofágica, que o afasta por completo da “arte de galeria”. São duas capas de discos criadas por Duarte – os LPs-solo de Caetano e Gil, em 1968 – juntamente ao LP Tropicália ou Panis et Circen sis, com arte de Rubens Gerschman dirigida por Rita Lee e Gui lher me Araújo, que detonam esse movimento rechaçado pe lo AI5, que em 1969 levou o designer à prisão e lhe causou internações no pavilhão psiquiátrico do Hospital Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Apesar de toda a adversidade política da época – ou talvez por conta dela –, Duarte firmou-se ainda mais naquele ce ná rio

transgressor e seguiu adiante. Em 1974, fez a capa de Cantar, de Gal Costa, arte recheada de movimento, e de Jorge Mautner, estampada com uma tropicalíssima mandala. No ano seguinte, assinou a arte do disco Qualquer Coisa, de Cae ta no Veloso, em referência ao disco Let it Be, dos Bea tles. Ainda na década de 70, participou com suas in ter venções gráficas da revista Navilouca, projeto de Torquato Neto e Waly Salomão, tudo isso enquanto era diretor de arte da Desenho Industrial Audiovisuais – DIA. Finda a ditadura, ganhou títulos de Notório Saber em Artes Gráficas e Desenho Industrial pela Universidade de Brasília e pelo Conselho Federal de Educação do então Ministério da Educação e Cultura, foi diretor de arte da prefeitura de Salvador e hoje é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Uma de suas maiores conquistas foi conseguir popularizar a arte gráfica sem que ela perdesse o status de “alta cultura”. Sua intelectualidade e seu profundo conhecimento estético lhe permitiram mesclar o que de melhor existia no mundo com elementos genuinamente brasileiros. Apesar dos inúmeros estudos sobre a importância de Rogério Duarte, ele afirma com modéstia não saber se suas criações gráficas foram tão importantes quanto costumamos pensar. Mas lembra: “O que eu gostaria que tivesse sido entendido é meu empenho em colocar o design e a arte gráfica a serviço de algo superior ao puro mercantilismo. O grande erro da publicidade atual é estar a serviço da mentira consumista, em vez de servir à desalienação da humanidade”.


ILUSTRAÇÃO ORIGINAL: CALASANS NETO/BORDADO: BETH BORDADOS

moda Miçangas, acessórios maximalistas, cores primárias, formas amplas – e muito mais. Em mais de 100 páginas, a moda brasileira pede passagem em cenários da Bahia. Voltando 30 anos no tempo, desvendamos o código de vestimenta dos lendários Doces Bárbaros: Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Também naturais da Bahia, apresentamos Adriana Lima, a segunda modelo mais bem paga do planeta, e as deusas de ébano. Em outra reportagem, Dudu Bertholini e a artista Goya Lopes falam da parceria na criação das estampas étnicas que arrasam na nova coleção do estilista. ffwMAG! Nº 02 2006

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ROMA

NEGRA

O título foi dado por Mãe Aninha, ialorixá fundadora do Ilê Axé Apô Afonjá, que enxergava Salvador como a capital do candomblé, um paralelo de Roma, o centro do catolicismo no mundo. Belos retratos com várias personagens emblemáticas na meca da negritude mostram looks em preto-e-branco sob medida que ressaltam a dramaticidade da silhueta volumosa, uma das tendências mais fortes para o verão 2007 fotos Gui Paganini/edição de moda Paulo Martinez


A Ladeira da Miseric贸rdia, cidade baixa Vestido Samuel Cirnansck


Ladeira da Conceição da Praia, cidade baixa Biquíni Rosa Chá, flores e voilette acervo pessoal


Hotel Convento do Carmo Mai么 Adriana Degreas e xale Gloria Coelho


Ladeira da Montanha, cidade baixa Vestido Gloria Coelho


Sede do Grupo-Escola do Olodum Mirim, no Pelourinho Regata Carmim, calรงa Diesel, colete-fraque Pedro Lourenรงo, saia Gloria Coelho, cinto Fause Haten e sandรกlias Tereza Santos para Patachou


Sorveteria da Ribeira Vestido AndrĂŠ Lima, chapĂŠu Zil, flores e fita de cetim acervo pessoal


Hotel Convento do Carmo Maxicamiseta Daniele Mabe, macaquinho Cori, quepe Alexandre Herchcovitch, xale Gl贸ria Coelho e sand谩lias Forum


Rua do Porto do Bonfim Vestido Fause Haten, sand谩lias Zeferino e 贸culos Ray Ban para Ventura


Rua do Porto do Bonfim Vestido Huis Clos, sandálias Lino Villaventura, colares Lúcia Lima e óculos Ray Ban para Ventura


Residência e obra do artista plástico Luiz Mário Ribeira Blusa Massy, biquíni Jô De Mer, calça Cavalera, cinto Zoomp e sandálias Forum


Praia Pedra do Sal, em Itapu達 Camisa-colete Zoomp, saia e pulseiras Lino Villaventura e gravata acervo pessoal


Praia Pedra do Sal Maiô Luisa Bonadiman, meiacalça Trifil e sandálias Tereza Santos para Patachou


Sede do grupo de percussรฃo feminino Didรก, no Pelourinho Caftan Neon, bermuda MOB, cinto Zoomp, colar Lucia Lima e sandรกlias Tereza Santos para Patachou


Salão de penteados afros da Negra Jô, no Pelourinho Vestido Reinaldo Lourenço


Restaurante Zanzi Bar, na Ladeira da Misericórdia Vestido Iódice, na cabeça, estola de flores Glória Coelho, meia-calça Trifil e sandálias Arezzo


Dinha do Acarajé no Rio Vermelho Vestido-avental Cavalera, calça Pedro Lourenço e óculos Persol para Ventura


Ladeira da Conceição da Praia Macacão Maxime Perelmuter, cinto Rita Neves e braceletes Pedro Lourenço


Hotel Catarina Paraguaçu Biquíni Jô De Mer


Restaurante Varal da Dadรก, no Alto das Pombas Vestido e pulseiras Triton, bermuda Cavalera e brincos acervo pessoal


Deck do restaurante Amado Colete e calça Zoomp, cinto Ka, blazer Patrícia Viera, colar Lucia Lima e sandálias Tereza Santos para Patachou


Hotel Convento do Carmo Macac達o e quepe Forum, pulseira Poko Pano


Restaurante Solar do Unhรฃo, no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) Top de renda Emanuelle Junqueira, saia DTA, bolero Tereza Santos para Patachou, sandรกlias Arezzo, รณculos Persol para Ventura e colar Lucia Lima


Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) Capuz Osklen, cinto Zoomp, calรงa legging Rosa Chรก e sandรกlias Arezzo


No Terreiro de Jesus com o senhor Clarindo Silva, propriet谩rio da sessentona Cantina da Lua Mai么 J么 De Mer, blazer e maxicamisa Redley, cinto TNG, quepe Alexandre Herchcovitch, sand谩lias Zeferino


Sede da ONG de capoeiristas Ginga Mundo Mai么 e pulseiras Poko Pano, cinto Fause Haten e meia-cal莽a Trifil


Capela do Hotel Convento do Carmo Maiô Adriana Degreas, calça Alexandre Herchcovitch, sandálias Reinaldo Lourenço, suspensório Laundry e xale Gloria Coelho


MAM, Estrada do Contorno Vestido Lorenzo Merlino, cinto Lucy in the Sky, sandálias Forum, xale Gloria Coelho e óculos Ray Ban para Ventura Produção de moda: Heleno JR Beleza: Daniel Hernandez (Gloss com produtos Lancôme) Assistente de moda: Alex Andrade Assistente de foto: Romildo Silveira Assistente de beleza: Eduardo Tadeu Modelo: Angelica Sulzbach (Marilyn) Produção executiva: Gil Santos e Marcelo Nascimento Tratamento de imagem: Alex Wink (Studio AW)


o máximo! A Bahia pega emprestado de sua mama África os bordados de miçangas, madeiras e cores fortes que dominam os acessórios maximalistas do verão 2007, em que as mulheres surgem em clima anos 80 sobre plataformas gigantes e tons saturados fotos Bob Wolfenson/edição de moda Flávia Pomianoski e Davi Ramos

Maiô Triya, sapato de verniz Zigfreda, colares de miçanga Alexandre Herchcovitch, echarpe de algodão e colar curto com fios de seda Maria Eudóxia de Melão


Maiô de cirrê Adriana Degreas, sapato de verniz Zigfreda, braceletes de miçanga Lino Villaventura, colares de madeira e bracelete de madeira Christine Yufon


Mai么 Neon, sapato Zigfreda e colares com pingentes de resina Daniela Ktenas


Maiô Jo De Mer, sapato de verniz Zigfreda, colares de fio de seda e algodão Tarântula, pingente de acrílico e espelho Coven


Maiô Vix, sapato de verniz Zigfreda, colar com pingente de madeira e metal Christine Yufon, colares com pingentes de ágata Elisa Stecca, pulseiras de acrílico Alex Palma para Casa Mauro Freire Beauty: Daniel Hernandez (Gloss) Assistente de beauty: William Moraes Cenografia: Roni Hirsch Produção de objetos: Paulo Lagreca Agradecimentos: Objetos de Cena Modelo: Fabiana Semprebom (Ten Model)


Blazer e bermuda cavalera, regata em tricô Zoomp, colares Lucia Lima, cinto Iódice e sapatos fause Vestido Marcia Ganem e haten, relógio H stern chapéu de acrílico Cavalera


sonho meu Looks que consomem longas horas de trabalho manual, exigem tecidos de primeira qualidade e saem dos ateliês com preços astronômicos despertam a fantasia das pobres mortais e são perfeitos para entrar no clima de realismo fantástico fotos Vavá Ribeiro/edição de moda Ciro Midena


Saia Fause Haten, sapatos e luvas Alexandre Herchcovitch


Vestido Marcia Ganem, sapatos Reinaldo Lourenรงo, meias Doc Dog Fetish, luvas Alexandre Herchcovitch


Vestido Samuel Cirnansck, sapatos Reinaldo Lourenรงo, meias Doc Dog Fetish


Saia usada como vestido Lino Villaventura, camiseta e sapatos Reinaldo Lourenรงo, meias Fogal


Vestido Gloria Coelho


Vestido Andre Lima, camiseta Triton, bota Reinaldo Lourenรงo, meias Doc Dog Fetish


Look total Reinaldo Lourenรงo


Saia usada como vestido Lino Villaventura, camiseta Reinaldo Lourenço Beleza: Marcelo Gomes (Gloss) Assistente de foto: Christian Sievers Assistente de moda: Gil Santos Assistente de beleza: Eduardo Tadeu Produção executiva: Gil Santos e Marcelo Nascimento Agradecimentos: Forte Mont Serrat


Look total Alexandre Herchcovitch


Da esquerda para a direita: biquíni Água na Boca, regata Fit, biquíni Rigy e shorts Salinas, Ele: sunga Blue Man e camisa Triton, flores de tecido V.Rom


Onde há fumaça, há fogo: a moda praia abandona convenções e adere à democracia com formas grandes e pequenas, que aparecem em maiôs, biquínis, camisetas, sungas, shorts e bermudas. A única regra vem das cores, que imprimem sofisticados grafismos em preto, branco e tons primários fotos Gui Paganini/edição de moda Paulo Martinez

Biquíni Adriana Degreas e flores V.Rom


Da esquerda para a direita: biquíni Sais, mini t-shirt com capuz Vide Bula, biquíni Água Doce, blusa Carina Duek, maiô Vix e colar Zinc


Sunga Blue Man, biquíni Água Doce e viseira Everlast, biquíni Vacanze e camiseta Maria Bonita Extra


Da esquerda para a direita: biquĂ­ni Blue Man, sunga e bermuda Blue Man, sunga Ligia & Nany e bermuda Rosa ChĂĄ


Biquíni Movimento, pulseiras Zinc, sunga Blue Man, camiseta e biquíni Salinas, boné Everlast, sunga Blue Man e biquíni Movimento


Biquíni Body Jam, top Maria Bonita Extra e pulseiras Zinc, biquíni Blue Man e pulseiras Zinc, blusa Flor, biquíni Água de Coco e correntes Zinc


BiquĂ­ni MCD e top Salinas


Sunga Rip Curl, biquíni Água Doce, biquíni Flor, shorts John John e cinto-faixa Spezzato, sunga Poko Pano e touca Track & Field


Biquíni Água de Coco, sunga Ligia & Nany e bermuda Rip Curl, biquíni Água Doce


Biquíni Miquelina, biquíni Movimento, pulseiras Zinc, biquíni Super Lucy, cinto usado como faixa Fit e pulseiras Zinc


Sunga Ligia & Nany e boné Super Lucy, biquíni Lolie e bermuda Rosa Chá, pulseira Maria Bonita Extra, maiô Body Jam e cinto Lenny & Cia


Sunga Vacanze, sunga Sais, mai么 Movimento, biqu铆ni Vix e sunga Movimento


Produção de moda: Heleno JR Assistente de moda: Alex Andrade Beleza: Daniel Hernandez (Gloss com produtos Lancôme) Assistente de foto: Romildo Silveira Assistente de beleza: Bruno Miranda (Gloss) Modelos: Nil Fiúza, Leonardo Reinol e Drielly Oliveira (Wired); Renato Stefen, Sabrina Onzi, Liz Tiegs, Giordana (Ford); Samuel Arins (Marilyn) e Jader (One) Tratamento de imagem: Alex Wink (Studio AW) Sunga Sais e touca Track & Field


A PRÓXIMA TEMPORADA DE CALOR É TUDO SOBRE ESTAMPAS – COM PASSE LIVRE NO VERÃO BRASILEIRO – E GRAFISMOS MIL, IMPRESSOS EM CORES FORTES, QUE FAZEM REFERÊNCIA A MOTIVOS ÉTNICOS DO MUNDO INTEIRO

fotos Jacques Dequeker/edição de moda Paulo Martinez


Vestido Movimento


Top e saia Alexandre Herchcovitch

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Vestido Lino Villaventura

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Vestido Lucy in the Sky e sunga Adidas


Vestido Cia Maritma

Vestido Osklen ffwMAG! Nยบ 01 2006

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Vestido Osklen

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Biquíni Rosa Chá

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Vestido Ellus

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Vestido I贸dice

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Edimilson

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Macacรฃo Neon

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Vestido André Lima

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Biquíni Água de Coco

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Vestido Anunciação

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Produção de moda: Heleno JR Beleza: Daniel Hernandez (Gloss com produtos Lancôme) Assistente de moda: Alex Andrade Assistente de foto: Alexandre Dequeker Assistente de beleza: Eduardo Tadeu Modelo: Anabela (Marilyn), Oto e Edimilson (DS Model, Bahia) Produção executiva: Gil Santos e Marcelo Nascimento Agradecimentos: Forte de Amaralina Tratamento de imagem: Alex Wink (Studio AW)

Oto

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Caftan Ronaldo Fraga

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Quinta da Boa Vista Diante do painel de azulejos portugueses do século 18, no pátio interno da Igreja e Convento de São Francisco Blazer e bermuda Cavalera, regata de tricô Zoomp, colares Lucia Lima, cinto Iódice, sapatos Fause Haten e relógio H.Stern


andar com fé A moda masculina passeia por igrejas, terreiros de candomblé e outros pontos altos do sincretismo baiano, embalada com o novo costume (tomado por bermudas e calças curtas) e alternando momentos de branco puro com tons terrosos, listras e – até porque é verão – estampas multicoloridas fotos Cristiano/edição de moda Paulo Martinez


Orai por n贸s A Bahia, porta de entrada de colonizadores em tempos antigos, abriga o opulento barroco, repleto de obras sacras e muito ouro, na Igreja de S茫o Francisco Camisa Ronaldo Fraga e rel贸gio H.Stern


Terra de Todos os Santos Em sincretismo total com o planeta cristão, o Gantois mostra orixás em forma de ídolos e santifica personalidades da religião afro-brasileira em imagens cheias de axé Camisa Zoomp e smoking Fause Haten


Espírito Santo Símbolo máximo da paz, a imagem da pomba fala por si e dispensa qualquer acompanhamento Colar Lúcia Lima


Voto de fé Em uma terra que exala religiosidade, a sala de ex-votos da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim é ponto de encontro para quem teve suas preces atendidas Camisa e calça Diesel, blazer Mario Queiroz, cinto Iódice, sapatos Fause Haten e fitas compradas na Igreja do Nosso Senhor do Bonfim


Rainha dos mares “Mulher tá rezando, já passou da hora Mulher tá chorando, meu Deus, que demora Iemanjá tá querendo ficar com Mané Iemanjá é rainha É bonita, é mulher” (trecho de Iemanjá, gravada por Gilberto Gil) Camisa e colete Mario Queiroz, cinto Iódice, calça Diesel, sapatos Fause Haten e terço Lúcia Lima


Orixás O Dique de Tororó é uma lagoa feita a pás e picaretas por escravos sob o controle dos invasores holandeses, no século 17, que pretendiam tornar o Palácio Rio Branco inacessível aos portugueses Camisa Iódice, bermuda Ellus, blazer Fause Haten, cinto Zil e acessório Mario Queiroz


Mahatma Ghandi O branco é de Oxalá menino, o Oxaguiam, e o azul, de Ogum; as contas são amuletos da sorte. Os Filhos de Ghandi, o maior bloco de Afoxé da Bahia, só aceitam homens como membros Camisa e costume Zoomp, cinto Iódice e sapatos Fause Haten, acessórios originais dos Filhos de Ghandi


Vaticano negro Considerado o principal centro de candomblé da Bahia, o Gantois é lar dos representantes mais influentes da religiosidade afro em terras brasilis Blazer, colete e calça Maxime Perelmuter, sandálias Havaianas


O pão nosso de cada dia A feira livre de São Joaquim é o maior e mais importante centro de comércio da população de baixa renda em Salvador Camisa, colete e blazer Ricardo Almeida, bermuda Cavalera e sunga Rosa Chá


Ilê Ayê Regido por batuques e batidas, o bloco afro do Ilê Ayê, aqui em sua sede, na cidade de Salvador, dispensa a batuta de qualquer maestro Camiseta Lacoste, blazer e calça TNG, cinto Alexandre Herchcovitch e sandálias Havaianas


Pés descalços No terreiro sagrado do Gantois, o certo é descarregar as energias negativas e mergulhar nas vibrações positivas Macacão e maxicamisa Alexandre Herchcovitch


Bem-aventurados A Igreja de Boa Viagem é uma das várias catedrais cristãs que dividem o cenário da Bahia entre os cantos gregorianos e as batucadas do candomblé Regata Osklen, bermuda Ellus e chapéu Mario Queiroz


Afortunados As fitinhas da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim são amuletos obrigatórios para quem tem fé, paciência e até três desejos Camiseta Tough e terço Lúcia Lima


O pagador de promessas Zé do Burro, um sertanejo, carrega nas costas uma imensa cruz por mais de 7 léguas, até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, para pagar uma promessa Maxicamisa V.Rom, calça Iódice, cinto Alexandre Herchcovitch e sandálias Havaianas


Produção de moda: Heleno JR Beleza: Doda Guedes Modelo: André Zeihe (Elite) Assistente de moda: Alex Andrade Produção executiva: Gil Santos e Marcelo Nascimento Tratamento de imagem: Jorge Morabito


TROPICALIENTE Como um pedaço que se desmembrou da Bahia para ganhar o mundo, a supermodelo Adriana Lima habita o olimpo da moda, com direito a caprichos dignos de uma divindade e existe uma fórmula para a criação da imagem de uma celebridade internacional, com certeza ela leva uma boa dose de beleza – e tem seus efeitos potencializados quando o corpo é curvilíneo e bronzeado. Se for exótica, a mulher é mitificada como deusa. E, se for brasileira, logo vira uma figura de linguagem, mais precisamente uma metonímia. Fruto da miscigenação, a modelo Adriana Lima é uma fabulinha ambulante, um pedaço da Bahia mítica, cheia de curvas, cores, sotaques, sensualidade e aquela energia cósmica, o tal do axé, que abençoa o povo soteropolitano. Embora pouco conhecida da massa nacional, Adriana é tratada nos Estados Unidos com toda a pompa e circunstância de uma rainha subequatorial, cercada de súditos, regalias e excentricidades. Não pode botar a cara na rua sem ter de fugir dos fotógrafos ou rabiscar uns autógrafos. Dona de personalidade ferina, a garota de 25 anos é de poucos amigos e pouquíssimas palavras – só fala o que quer, quando quer e para quem quer. Hábitos aristocráticos que se chocam com a baianidade e a pobreza presentes em sua criação. A top nasceu em Salvador e foi descoberta, como muitas modelos brasileiras, quando passeava num shopping center em sua cidade natal, aos 15 anos. Não demorou e venceu o Supermodel of Brazil e ficou em segundo lugar no mesmo concurso em âmbito mundial. Foi quando mudou para Nova York, onde vive desde então, sob os holofotes da mídia e nas fantasias de muitos marmanjos.

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DIVERSIDADE Em dez anos de carreira, reúne trabalhos para as marcas mais relevantes de moda e beleza, além de integrar as listas de superlativos das mais importantes publicações do mundo. No início da carreira, fotografou para revistas como Marie Claire e Vogue. Na seqüência, vieram desfiles para estilistas e marcas americanas e eu-

ropéias, leia-se Valentino, Giorgio Armani, Emanuel Ungaro e Betsey Johnson. Em 2000, a exemplo de gente como Claudia Schiffer e Eva Herzigova, a brasileira se tornou garota-propaganda da Guess. Hoje, Adriana Lima tem contratos multimilionários com Victoria’s Secret, Maybelline e Telecom Italia Mobile. Tamanha diversidade faz dela a segunda modelo mais bem paga do mundo, que atrai marcas de diferentes segmentos, encanta a realeza pop e a aristocracia fashion. A moça ainda entrou na lista de personalidades mais poderosas do mundo de 2006 – segundo a revista Forbes, ocupa o 99o lugar, com ganhos anuais de US$ 4,5 milhões. Uma realidade contrastante com a infância no bairro do Castelo Branco, periferia da capital baiana, onde cresceu na companhia da mãe, a assistente social Maria da Graça Lima, e abandonada pelo pai. Adriana dribla a intensa publicidade e consegue preservar certa intimidade. Falha apenas quando relações envolvem outros célebres. Lenny Kravitz, por exemplo – com quem posou para um editorial da revista Vibe em 2001 e de quem foi namorada por dois anos. A relação chegou ao fim com a mesma discrição com que começou. Atualmente, Adriana tem sido vista na companhia do príncipe Wenzeslaus de Lichtenstein, que conhece desde o namoro com Kravitz. Apaixonado, o integrante de uma das famílias mais antigas e ricas da Europa esperou a solteirice da brasileira para se declarar. Cosmopolita, mas sem renunciar às raízes, Adriana prestigia o São Paulo Fashion Week (integra o calendário fotografado por Bob Wolfenson, lançado na edição de verão 2007), colabora com o orfanato Caminhos de Luz, em Salvador, e adquiriu uma fazenda a 100 quilômetros da capital baiana. É seu refugio periódico do faustoso mundo da moda. Uma imersão bem no estilo soteropolitano que lhe é tão característico.

por Juliana Pereira/foto Bob Wolfenson 256

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Na foto, Adriana Lima posa para o top-fot贸grafo Bob Wolfenson, respons谩vel por clicar o hist贸rico calend谩rio Top 25


CIVILIZAÇÃO INVENTADA EM TEMPOS DE DITADURA E CONTENÇÃO, A PALAVRA DE ORDEM NO PALCO ERA EXTRAVASAR. FOI ASSIM PARA OS DOCES BÁRBAROS, O QUARTETO FORMADO POR GAL, BETHÂNIA, CAETANO E GIL QUE FEZ HISTÓRIA NÃO APENAS NA MÚSICA, MAS TAMBÉM NA MODA – GRAÇAS AOS FIGURINOS, QUE INCLUÍAM CALÇAS DE CINTURA BAIXA, BARRIGAS DE FORA, SAIAS LONGAS, MACACÕES JUSTÍSSIMOS Por Eva Joory


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Foto: © Arquivo Agência A Tarde


Fotos: © Arquivo Agência O Globo

Alto astral, altas transas, lindas canções Afoxés, astronaves, aves, cordões Avançando através dos grossos portões Nossos planos são muito bons. uita gente deve lembrar dessa letra. São versos da música Os Mais Doces Bárbaros, do quarteto baiano Doces Bárbaros, formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Mais do que música, falar em Doces Bárbaros é lembrar do visual exótico e singular dos quatro no palco. Algumas perguntas vêm à mente: os looks estavam de acordo com a moda da época? Os baianos eram hippies? Modernos? Bem vestidos ou mal vestidos? Lançaram tendências? Foram copiados? O estilista André Lima é só elogios: “Juntos, eles conseguiram dar o tom da época, em que era preciso resistir, extrapolar”. E extrapolaram mesmo. Calças de cintura baixa, barrigas de fora, saias longas e aquele macacão branco de Gil. “As meninas adotaram um look hippie sensual, Gal de óculos escuros, Bethânia magra e linda.” Durante o curto período em que durou a formação, os baianos tinham uma postura de rock stars: eram blasés, debochados e bem mal-humorados”, brinca Lima. Mas transcenderam moda e tendências. Perguntado sobre a moda do quarteto, Caetano explicou recentemente que os Doces Bárbaros eram festa e celebração, no tom, nas músicas e nas roupas: “As roupas não eram hippies, eram estilizadas, eram fantasias de palco, variadas, uma civilização inventada. Era um pouco cafona, uma brincadeira. Na verdade, era uma paródia dos novos baianos. Nós já éramos os velhos baianos”. Cafona? Para a época, nem tanto. No mundo pop, as bandas dividiam-se em glam e glitter. Era a época de Bowie, Marc Bolan, Slade, Roxy Music, do cetim, do lamê, do make e dos cabelos estilizados e de looks que continuam até hoje inimitáveis e inesquecíveis. A turma tinha estilo. E os Doces Bárbaros eram nossa resposta ao glam rock inglês. Em meio a um país sombrio e

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sisudo, exibiam uma moda colorida, desconectada e escapista, bem teatral, reflexo talvez do espírito de felicidade conjunta que estampavam no palco. Se hoje o visual 70’s só faz sucesso nos brechós, a década atestou a importância do rock e de um novo estilo de vida. Sem flores na cabeça, mas com saltos plataformas, brilhos, guitarras estridentes e pantalonas. “A moda deles tinha muito de fantasia. A base vinha dos figurinos teatrais. Tinha um mix étnico, com caftans, calças saruel, minicoletes com brilhos, mas o principal é que havia ousadia na escolha das roupas. Na verdade, quem quebrou mesmo os padrões foram Caetano e Gil, dois homens casados que, com essa atitude, mostraram que não era preciso ser gay para se vestir daquele jeito”, continua André Lima, explicando que, para os padrões de então, Caetano e Gil lançaram tendências. O estilo over e até um pouco efeminado foi usado por alguns homens, principalmente no meio artístico: “Nos anos 70, as pessoas estavam querendo experimentar coisas novas. Queriam ser ousadas, contestadoras. Essa era a ordem do dia, já que não era possível falar sobre política. Era uma época própria para experimentar em todos os sentidos, com drogas, sexo, bebidas, e com a moda também. Hoje a vida não é mais uma experiência, é um compromisso. Ninguém ousa muito, a estética é mais massificada e influenciada pelo consumo”. Se hoje o quarteto fosse usar as mesmas roupas, o efeito não seria o mesmo. A moda não assume tanto o caráter experimental e até comportamental que tinha há 30 anos. “Naquela época, as pessoas interferiam nas próprias roupas, o que era imediatamente copiado pelas butiques. Surgia aí o streetstyle brasileiro. A moda que os Doces Bárbaros adotaram era lúdica. Hoje, esse aspecto não existe mais”, sentencia Lima.


ESCAPISMO Os Doces Bárbaros sacudiram a MPB como um furacão. O fenômeno que foi o aparecimento da banda marcou uma reviravolta na carreira dos artistas, principalmente para Caetano e Gil, recém-chegados da Europa – depois que a década da censura implacável aos artistas fez com que os dois se exilassem em Londres. O Brasil vivia sem novidades na área musical, dando sinais de cansaço, e o tropicalismo, nascido em 1968, já estava de certa forma sedimentado na produção musical brasileira. O grupo impôs um estilo novo de música, uma mistura entre rock, pop e uma MPB modernizada. No repertório escolhido para o show, as influências eram múltiplas e vinham da música brasileira, do rock e sobretudo da música africana. A fúria tropicalista havia sido finalmente abrandada pela experiência e pelo novo espírito hippie do grupo. O plano era de Bethânia. Quando ela sugeriu que os quatro amigos poderiam se unir em um show e disco únicos, o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar e a música era sujeita a uma pesada censura. As aventuras do grupo durante a turnê foram registradas no documentário Os Doces Bárbaros, de Jom Tob Azulay, lançado originalmente em 1978 e que teve relançamento em 2004, sem os cortes exigidos pela censura à época. No mesmo ano, o LP Doces Bárbaros ao Vivo também foi lançado. Cabe aí um pouco de história: o show estreou em 24 de junho no Anhembi, em São Paulo. Foi um sucesso inesperado até para o quarteto, que não contava com recepção tão calorosa. O espetáculo seguiu em turnê até 7 de julho, quando Gilberto Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha em Florianópolis. A detenção interrompeu a turnê, criando uma polêmica nacional. O filme, recentemente recuperado dos cortes da censura e exibido

novamente nos cinemas nacionais, detalha o acontecimento com depoimentos que atestam a força da ditadura militar. O julgamento de Gil também é mostrado, com o cantor magérrimo e de visual hippie admitindo abertamente que “gostava de maconha”. Gil e Azevedo foram condenados e levados a um hospital psiquiátrico para tratamento contra o vício. A turnê seria retomada depois da libertação dos dois. O show seguiu então para o Canecão, no Rio de Janeiro, onde permaneceu em cartaz durante dois meses, batendo o recorde de bilheteria da época. Essa curta reunião, de tom familiar, foi provavelmente o marco mais importante da carreira do grupo. Mas, apesar da novidade e do sucesso de público, os Doces Bárbaros receberam críticas pelo tom escapista que adotavam, na contracorrente da resistência da MPB ao regime militar. Entre inúmeras curiosidades e histórias sobre a curta trajetória do grupo está a de uma dupla comemoração: o ano de 1976 celebrava também os 12 anos do primeiro show que fizeram em conjunto, o histórico Nós por Exemplo, quando ainda viviam na Bahia, e que serviu de ponto de partida para que a turma iniciasse suas carreirassolo. Mas a melhor é sobre a origem do nome Doces Bárbaros, que surgiu de uma conversa entre Caetano e Jorge Mautner. Ao saber da idéia, Mautner explicou que Jesus era o doce bárbaro, ao contrário dos bárbaros invasores de Roma. E assim Caetano incluiu Jesus na letra com o seguinte verso: Peixe Espada, peixe luz Doce bárbaro Jesus Sabe quem é otário Peixe no aquário nada Se esses versos tivessem sido compostos hoje, o escapismo tão criticado nos 70 seria mais do que bem-vindo. Porque, no século 21, é ele que está na moda. ffwMAG! Nº 02 2006

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Dudu Bertholini (stylist da Neon) posa ao lado de Goya Lopes em foto clicada recentemente na Bahia

CRIAÇÃO COLETIVA Numa mistura vibrante de Espanha, Bahia e São Paulo – sem deixar de apostar na África -, a Neon junta forças com a artista plástica Goya Lopes e cria uma explosão de cores e estampas por Duda Schneider Se existe uma marca que traduz com perfeição o espírito da nação brasileira, ela se chama Neon. Quer dizer, Neon aqui no Brasil e Neon do Brasil lá no exterior. Comandada pela batuta afinadíssima de Dudu Bertholini e Rita Comparato, a marca rompeu as próprias barreiras ao firmar parceria com a artista plástica e designer têxtil Goya Lopes na 21a edição do São Paulo Fashion Week, em julho. Goya foi a responsável pelo toque afro-brasileiro na coleção com duas estampas exuberantes, uma inspirada no Mercado Modelo de Salvador e a outra, “Indo-Afro”, étnica, com simbologias regionais e desenhos geométricos tirados das pinturas tradicionais da cerâmica dos índios kadiwéu. O afro já estava na moda. Era só pegar o indígena e juntar elementos da miscigenação”, explica a artista. Os kadiwéu habitam a Serra da Bodoquena, em Mato Grosso do Sul, e são conhecidos como os “índios cavaleiros do Pantanal“, por terem sido excelentes guerreiros antigamente. “Tudo aconteceu de forma natural”, diz Goya sobre a parceria, com aquele tom simpático de obviedade que marca o sotaque soteropolitano. De passagem por uma feira de tecidos em São Paulo, Bertholini e Rita encontraram a artista expondo algumas peças de sua grife, Dida-

ra (“bom”, na língua iorubá). “Sempre fomos fãs do trabalho dela! Isso sem contar as mulheres da família de Rita, que usavam muitas roupas da Didara”, conta Bertholini. Não demorou e veio a proposta de um trabalho em conjunto. Num encontro que durou uma tarde inteira no ateliê da Neon, em São Paulo, nasceram as estampas que encantaram fashionistas celebridades clientes da marca, como Wanessa Camargo e Ivete Sangalo. “Fiz uma criação que tem minha marca registrada e a cara da Neon”, define Goya, que estava de olho no continente africano e suas influências na moda brasileira há um bom tempo. Desde 1980, a artista é uma das maiores pesquisadoras das raízes afro-brasileiras. Seus desenhos são sempre baseados em muita pesquisa, e somente quando a idéia está formatada é que ela se debruça no tema e começa a trabalhar. Em Salvador, Goya mantém um estúdio há 20 anos, onde cria peças personalizadas para suas linhas de moda e decoração. Algumas de suas obras podem ser vistas no acervo do Itamaraty e da Fundação Ford, de Nova York. Pela primeira vez desenvolvendo um trabalho desse tipo para uma marca como a Neon, a designer se orgulha do resultado. “O interessante dessa união foi a manutenção das identidades, tanto da Neon quanto da Goya.” ffwMAG! Nº 02 2006

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deusas do ébano Apesar da população miscigenada, nossos concursos de beleza sempre valorizaram um biótipo um tanto distante da realidade étnica nacional. As mais belas eleitas pelo bloco afro Ilê Aiyê estão aí para mudar esse cenário por Mônica Lima/fotos Cristiano

Sueli Conceição, 30, bióloga


Jusa Ventura, 23 anos, danรงarina


ão basta ser negra, bonita, saber dançar. Para ser rainha do Ilê Aiyê, o bloco afro fundado em 1974 no coração da Liberdade (o maior bairro de Salvador, que abriga uma das maiores populações negras no Brasil), também deve ser politizada e ter total consciência das questões raciais. Pelo menos são esses os pré-requisitos listados pela bióloga Sueli Conceição, 30 anos, 1,65 metro e 56 quilos, eleita Deusa do Ébano em 1999. A Festa da Beleza Negra, realizada pelo Ilê e que já está em sua 27a edição, é um dos programas mais concorridos do apimentado verão baiano. A “eleição” acontece invariavelmente 15 dias antes do sábado de Carnaval e a vencedora ganha destaque durante toda a festa de Momo, além de participar pelo ano todo das apresentações do grupo, no Brasil e no mundo. Mais do que um mero concurso de beleza, a escolha da Deusa do Ébano é uma ode ao orgulho de ser negra. As candidatas não lêem O Pequeno Príncipe, não têm como hobby preferido “aquele de bolinhas azuis” nem prometem lutar pela paz mundial. Aqui, quem ganha tem missões mais reais, como, por exemplo, ajudar as mulheres negras a conquistar seu lugar na sociedade e elevar a auto-estima. E nesse quesito Sueli já é mestra. Formada pela Universidade Católica de Salvador, atualmente é mestranda em estudos raciais e africanos na Universidade Federal da Bahia. Seu objeto de estudo? A investigação etnobotânica. “Estudo a relação da comunidade afro-brasileira com os vegetais”, explica ela, compenetrada. Para quem não entendeu nada, Sueli avisa que o assunto tem tudo a ver com o candomblé (religião da qual é seguidora), que cultua uma gama de plantas sagradas, a maioria delas proveniente da quase extinta Mata Atlântica. Ser adepta da religião dos orixás, aliás, é um traço comum entre as beldades do Ilê. Exemplo disso é a dançarina Vânia Lopes, 23, que freqüenta o Terreiro de Mãe Hilda Jitolu, no bairro do Curuzu. Mãe Hilda vem a ser mãe de Vovô, fundador do Ilê Aiyê, e de Dete Lima, produtora de moda das dançarinas. Mentora espiritual do bloco, é Mãe Hilda quem comanda o ritual, com direito a banho de pipoca e revoada de pombos na famosa saída do Ilê, sempre na madrugada do sábado de Carnaval. Vânia é uma das 22 dançarinas que fazem parte do corpo de bailarinos do Ilê Aiyê. Com o bloco, além de sair na linha de frente durante o Carnaval, também tem a oportunidade de viajar e conhecer lugares do mundo – o grupo esteve recentemente em Nova York e na Filadélfia, por exemplo. Para Jusa Ventura, de 23 anos, outra dançarina do Ilê, as viagens que faz para apresentações em outros países são sempre bem-vindas. “Além de mostrarmos nosso trabalho, ficamos conhecendo outros países. No ano passado fomos para Barcelona. E já conheci Estados Unidos, França e Alemanha”, conta Jusa. Mas é a trançadeira de cabelos Jaci Fraga, 30 anos, quem tem na ponta da língua a filosofia do bloco “mais belo dos belos”: “O melhor de poder fazer parte do corpo de bailarinos do Ilê Aiyê é poder mostrar que o negro é lindo”.

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ILUSTRAÇÃO ORIGINAL: CARLOS BASTOS/BORDADO: BETH BORDADOS

design É na Bahia, porta de entrada dos colonizadores no Brasil, que a opulência das cortes européias se entrega de corpo e alma aos balangandãs da cultura afro, materializados, entre tantas outras formas, nas barracas da Festa de Largo. Legado arquitetônico de nossos antepassados, exploramos cada centímetro do Hotel Convento do Carmo, uma edificação que exala riqueza e religiosidade. E como a Bahia nunca deixou de ser o caminho mais fácil para chegar a esses brasis, invadimos a aldeia global (e pessoal) do marchand Dimitri Ganzelevitch, no centro histórico de Salvador. ffwMAG! Nº 02 2006

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simplesmente chique Num passado não muito distante, as barracas das festas de largo eram o paraíso do design e da arte popular, como revelam as fotografias de Adenor Gondim e a contundente carta assinada pelo sociólogo Gey Espinheira, destinada ao Rei Momo e, por tabela, às autoridades municipais. O que se vê hoje nas ruas de Salvador é o efeito devastador da industrialização do Carnaval e do processo de padronização das barracas, que só fez empobrecer uma estética cheia de cor, vigor, verdade e grande beleza...


CARTA ABERTA AO REI MOMO SENHOR REI DOS DIAS GORDOS DOS CARNAVAIS

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ão tenho o costume de escrever para reis ou outras personalidades de elevado status, mas tomo a liberdade de fazê-lo agora, em nome do que penso ser uma boa causa. Na verdade o que quero é a interferência de sua majestade junto ao prefeito de Salvador, pois um pedido de rei vale bem mais do que meu honesto e simples protesto. Senhor rei, vamos ao assunto, e permita-me dar algumas sugestões: quando chegar o momento de receber da mão do prefeito Antonio Imbassahy as chaves da cidade, ou mesmo antes, se tiver chance, peça a ele que não deixe empalidecer – na verdade, acinzentar – as festas de largo de Salvador. Lembre a ele, cidadão ocupado com as coisas austeras da administração, o quanto eram bonitas as barracas das festas de largo, com suas cores vivas, seus desenhos e seus nomes. Muitas eram pobrinhas, é verdade! Mas por que não ajudar as mais pobres a se vestir melhor? Senhor rei, a padronização é útil e até mesmo necessária para cer-

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tos processos, mas jamais para as expressões da cultura de um povo. Pode-se padronizar certos equipamentos, mas, quando se trata de estilos de vida, de modos de ser, a homogeneidade é simplesmente destruidora, tediosa e mortificante. Observou, senhor rei, o quanto foram feias e desconfortáveis as festas deste ano? Todas as cores e os nomes tão nossos conhecidos sumidos naquele cinza cor-de-burro-quando-foge? Percebeu, senhor Momo, a falta que fez a cultura de nosso povo naquilo que é dele, feito por ele para todos nós, que dele somos parte? Senhor rei, não é por acaso muito sábia a constatação de que não podemos ser iguais em lugares diferentes? Ridícula “globalização” do branco fosco e do cinza dessas barracas da pós-modernidade municipal! A idéia da “desfavelização” das festas de largo é pretexto para a imposição do feio, do sem-graça, da indiferença e da mortificação. Será o planejamento homeopático da extinção das festas, e poste-


riormente do Carnaval popular? Senhor rei, chame com seu charme e cuidado a atenção do prefeito. Um rei tudo pode, como seu bobo da corte pode lhe dizer – e é o único que assim procede, sem medo de perder a cabeça – as verdades que ao rei escondem seus ministros. Diga a ele que uma força burocratizante está ameaçando a fantasia da Bahia, de nossa cidade, de nosso povo. Sugira ao prefeito, senhor rei, convocar gente boa que tem aí na prefeitura, gente competente e de bom gosto, para retomar a fantasia das festas de largo, de planejar com a participação dos artistas do povo as cores vivas de nosso mundo encantado, eliminando esses estandes de feira de exposições denominados “barracas padronizadas”. Diga ao prefeito, senhor rei, que esta missiva é como um recado do povo, da baianidade. Por último, senhor rei, sugira ao prefeito que ouça mais a voz do povo, que se inspire na cultura baiana, que jamais temeu a ino-

vação criativa, mas que rejeita imposições estatizantes e burocráticas de técnicos que pensam que podem, sem fazer um grande mal, subordinar a cultura a uma “racionalidade” desprovida de emoção. Pela vitória da fantasia, do encantamento, do belo, do limpo e do aconchegante. Que venham de volta com todas as suas cores e decorações “Índia”, Sultão da Matas, Cosme e Damião, Berimbau, Três Marias, Vitória, Iemajá, Iracema, Bota Fogo, Juvená e tantas mais, muito mais, para ter lugar onde o povo sentar e fazer festa, protegerse do sol forte e sentir-se em casa, em sua cidade, entre sua gente. Obrigado pela atenção, meu rei.

Saudações festivas, Carlos Geraldo D’Andrea (Gey) Espinheira Sociólogo e professor de sociologia da Universidade Federal da Bahia.


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doce rec么ncavo Um mergulho na hist贸ria do antigo convento no Pelourinho que virou um dos hot茅is mais requintados de Salvador por Patr铆cia Favalle/fotos Xico Dias


Capela onde fica o altar da Nossa Senhora da Porta do CĂŠu


ossa Senhora da Porta do Céu. O nome já diz tudo. Bem ao lado da catedral está a entrada que conduz ao reino de sonhos – ops, ao Convento do Carmo Hotel. Depois de atravessar a nave e admirar a pintura barroca do século 17 e as imagens robustas dos anjos de trombetas, os poucos privilegiados que pisam ali parecem mesmo encontrar o céu. O complexo do Convento do Carmo é formado por dois prédios e uma igreja, a do Carmo, é claro. Há ainda duas capelas, uma delas com sacristia ornamentada a pinceladas de ouro, além de um museu que reúne em seu acervo 1.500 peças, entre imagens sacras, ourivesarias, móveis e vestimentas bordadas com fios de ouro. Erguida no meio do Pelourinho em 1586 para abrigar uma congregação de frades carmelitas, a edificação chegou a ser usada como alojamento das tropas portuguesas na época em que os holandeses invadiram o litoral brasileiro. O processo de deterioração da obra colocou em risco parte do que viraria patrimônio histórico e cultural da humanidade. Só em meados dos anos 70 é que aconteceu a primeira tentativa de recuperação do local. O restante da lição ficou a cargo de uma equipe de arquitetos, engenheiros e restauradores que, no início da década de 90, por meio de uma parceria do governo e da iniciativa privada, com supervisão do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), começou a replanejar a região tombada, o que tornou rentável especialmente a exploração do setor hoteleiro de luxo. Depois de passar por intervenções e períodos como pousada, o empreendimento foi comprado em 2003 pelo tradicional grupo hoteleiro português Pestana. Rebatizado de Convento do Carmo Hotel, ele foi aberto ao público em outubro de 2005. Considerado um dos mais sofisticados do país – e já integrante da rede Leading Hotels of the World® –, a antiga morada dos carmelitas sempre foi modesta e austera. Perfeitamente compreensível, uma vez que a Bahia reserva

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um punhado de tentações capazes de fazer ajoelhar os ateus e desmemoriar os adeptos da batina. SÉCULOS DE HISTÓRIA Diante de tantos pecados possíveis em uma cidade quente, cheia de sabores e surpresas como é a capital baiana, a redenção é orar. E por ali não faltam confessionários, escapulários e oratórios. Um passeio pelos 79 apartamentos – 60 quartos categoria luxo, nove suítes júnior, nove suítes loft e uma suíte master – mostra que as antigas celas só preservaram o jeito simples e certo ranger nas dobradiças. O mobiliário foi desenhado sob medida, caso das camas imensas com lençóis de algodão egípcio de fios incontáveis e travesseiros de tamanhos e preenchimentos variados. São tantas as opções que existe até uma espécie de cardápio para escolher seu companheiro de sono. Outras peças que completam a decoração foram garimpadas em antiquários, com especial cuidado para as relíquias dos séculos 17 e 18. Os armários são quase high tech, com acionamento de luzes internas no abrir das portas. Entre os mimos, roupões felpudos, televisores de plasma e muito conforto convidam os hóspedes ao que se pode chamar de clausura. “Para enfrentar os dias longos, uma excelente pedida é folhear um bom livro numa das espreguiçadeiras da piscina colonial”, aconselha Virlene Borges, executiva de contas do hotel. O relaxamento – uma obrigatoriedade quando se está na Bahia – fica por conta das instalações coletivas. A começar pelo restaurante, que reúne cozinha internacional com pitadas de regionalismo em uma área muito aconchegante, de ares contemporâneos. Dá para desfrutar seis tipos de receitas de bacalhau, acompanhadas por uma garrafa de vinho de boa cepa. Na adega, já são quase


Na página ao lado, a área da piscina em tom turquesa e rodeada por vasos maximalistas. Nesta página: detalhe de um dos corredores cheio de colunas; mais abaixo, algumas imagens típicas da arquitetura portuguesa colonial


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Na página ao lado, a Capela do Noviciado: ainda em restauração, o local vai servir de palco para banquetes exclusivos. Acima, a entrada do Museu do Carmo, seguida por um vaso tipicamente colonial e uma parede toda de pedra bruta

100 rótulos. Para quem não abre mão da boa forma, há um moderno fitness center – aliado à mordomia do Spa Shishindo, que oferece, por exemplo, tratamentos de beleza à base de cacau. Ao todo, o grupo português desembolsou R$ 20 milhões para restaurar as instalações e imprimir um estilo próprio ao empreendimento. Entre os suntuosos corredores, séculos de história estão impressos em vasos de bronze e telas de artistas holandeses, franceses e nórdicos. Pelos corredores, santos católicos convivem com símbolos do candomblé em total harmonia, como pede o sincretismo brasileiro (ou seria baiano?). Com diárias entre R$ 1.254 e R$ 3 mil, o hotel já teve hóspedes como a banda irlandesa U2, o estilista italiano Valentino e o cantor americano Stevie Wonder. Fazendo parte ou não do hall da fama, o investimento vale a pena. Convento do Carmo, tel.: (71) 3327-8400.


metamorfose ambulante Com os pés fincados no centro histórico de Salvador e a mente ligada na cultura popular mundial – sobretudo a da América Latina –, o colecionador e marchand francês Dimitri Ganzelevitch ensina como morar em muitos lugares ao mesmo tempo, sem precisar sair de casa por André Rodrigues/fotos Xico Dias

Porta de entrada do Solar Santo Antônio pintada por Esdras, um pintor popular que vende seus quadros na rua. Representa o passado e o presente de Ganzelevitch: infância e adolescência em país muçulmano (Marrocos), com suas mesquitas, e a vida na Bahia, no meio das igrejas barrocas


No quarto: altar ecumênicocultural sem compromisso espiritual. Mesa rústica pernambucana do século 19


uem vive em refúgios paradisíacos (qualquer um dos muitos localizados abaixo da Linha do Equador) conhece bem histórias de gringos que, após o primeiro contato, se apaixonam perdidamente pela geografia, pela música, pela beleza das pessoas ou pelo clima de alguns lugares e se entregam de corpo e alma, a ponto de abandonar sua vida intercontinental para adotar novas micropátrias. Mas toda boa história como essa tem outra versão – e esse é o caso de Dimitri Ganzelevitch, marchand e colecionador residente em Salvador desde 1975. “Sou apaixonado pela Bahia, mas é uma paixão cartesiana”, ironiza o francês, neto de russos, cuja trajetória é bem distante da maré de turistas predatórios e deslumbrados que se instalam em cartões-postais brasileiros. Na década de 70, aos 39 anos de idade, ele pisou pela primeira vez na Bahia, ciceroneado por ninguém menos do que Jorge Amado e Orígenes Lessa. Depois da incursão triunfal em terras baianas, Ganzelevitch, que nasceu no Marrocos e esteve em várias nações, decidiu se mudar para o lado de cá dos trópicos e seguir a cartilha de regras de muitos colegas de profissão, sempre em busca dos holofotes, da fama e do dinheiro. Não demorou e o homem formado na École Paul Colin, em Paris, virou figura colunável, chamou a atenção de mecenas contemporâneos e se viu imerso no entorpecente cheiro do glamour. Um aroma que, para espanto de seus admiradores jet-setters, logo lhe causou náuseas. “Eu me cansei da politicagem da haute société, de toda aquela encenação. Nada daquilo era o que eu havia planejado para minha vida”, revela. Sem firulas, tirou os pés dos tapetes da sociedade e voltou seus olhares para o povo e suas criações, para a arte em seu estado mais verdadeiro, em seu nível mais particular, pessoal e intransferível. Dessa forma morreu a Galeria da Sereia, primeira galeria de arte a se instalar no Largo do Pelourinho, no início dos anos 70 – então destinada ao crème de la crème soteropolitano –, e nasceu a Galeria Flecha, no fim da mesma década, em pleno Merca-

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Acima, jogador de bola de Juazeiro do Norte. Quadro "reciclado" de Flávio Morais, que mora em Barcelona. Na foto abaixo, geral do living com ares de bazar


Placa de sapateiro comprada por causa da elegância descompromissada do letrismo e o humor do texto, poltrona brasileira dos anos 30 e biombo montado com placas de proteção de rodas de caminhão (Pernambuco)


Na biblioteca, quadro Primavera, do português Domingos Costa (1906). O objeto com cara de baú sobre a mesa é na verdade parte do teto de um palácio marroquino do século 19


Lustre alemĂŁo do sĂŠculo 19 oferecido a Ganzelevitch por uma princesa de Wurtemberg. Pintura do teto feita pela artista inglesa Alice Sheppard


Na página ao lado, detalhe do living com o quadro de Zilda Paim Matriz da Purificação de Santo Amaro. Nesta página, o francês exibe parte da coleção de ex-votos e quadro do artista baiano Walber (1976)


No meio da sala de estar, entre almofadas étnicas e quadros garimpados ao redor do mundo, uma girandola de brinquedos de Belém, vendidos durante o Sírio de Nazaré, dá um toque lúdico ao ambiente


do Modelo, região de Salvador até hoje conhecida como chamariz para turistas ocasionais. Nela começou a revolução pessoal de Ganzelevitch, o que na época causou muito burburinho nas altas rodas locais. Nesse contexto high-low militante, o francês alçou alguns artistas ao estrelato e assim viveu até 1996, ano em que decidiu que sua morada pessoal serviria também de lar para seu vasto acervo de obras – ato que culminou com o que ele hoje chama de sua “última obra em vida”. CULTURA, MEMÓRIA E CIDADANIA “A arte é uma percepção e um acervo é uma coletânea de percepções agradáveis aos olhos”, explica. Construído por volta de 1840, o casarão, localizado no bairro de Santo Antônio, “um gueto de estrangeiros”, segundo Ganzelevitch, passa longe da simplicidade presente em suas peças, garimpadas ao redor do mundo. É uma daquelas edificações que parecem engolir seus moradores e abrir uma fenda no tempo para uma paisagem colonial: a impressão é que a qualquer minuto a sinhá vai passar pelos corredores e a janela vai dar a visão de uma senzala, e não de um centro histórico em restauração. Mas esse clima quase feudal é posto abaixo pelo toque pessoal de Ganzelevitch, que abarrotou cada ambiente da casa com quadros, mesas, tábuas, esculturas, artesanatos e um mundo de obras de arte colhidas em suas viagens por toda a América Latina. “Estou construindo outra residência no terreno ao lado e pretendo levar tudo para lá. Quero criar uma fundação chamada Solar Santo Antônio, para abrigar mostras e palestras e promover a arte popular. Essa deve ser minha última obra em vida”, revela ele. Dimitri acredita que, com sua fundação, que vai ser uma extensão do próprio lar, vai conseguir promover um novo conceito de arte popular, em que um pedaço de papelão manchado pode ganhar proporções davincianas e onde, acima de tudo, as pessoas entrem em um universo no qual a arte não tenha etiquetas nem fronteiras. Bem-vindos ao criativo mundo de Dimitri Ganzelevitch. Dimitri Ganzelevitch, tel.: (71) 3242-6455 www.salvadorcultural.com.br

Acima, duas talhas barrocas portuguesas do século 18 contracenam com um busto de Cristo baiano datado do século 19. Abaixo, uma maré de objetos de arte invade o cantinho do living do marchand


turismo Destino certo de viajantes do mundo todo, a Bahia ganha proporções mitológicas graças à topografia paradisíaca e ao axé do povo. A tradição é confirmada por nosso guia Zé Simão, que aponta alguns locais ultra-exclusivos da terra que ele conhece bem. Paloma Amado, da real linhagem criadora de relíquias literárias, faz as vezes de cicerone e explica tudo sobre a pimenta baiana em seus múltiplos sentidos. E, por falar em paladares, os chefs Edinho Engel e Beto Pimentel abrem as portas de seus restaurantes estrelados e desvendam os segredos da nouvelle cousine baiana.


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ILUSTRAÇÃO ORIGINAL: CARLOS BASTOS/BORDADO: BETH BORDADOS


em ritmo de férias Como diz o ditado: pense numa coisa absurda. Pensou? Pois saiba que já aconteceu na Bahia. E isso fica bem claro no roteiro inusitado sugerido pelo jornalista Zé Simão, um amante da São Salvador e dos arredores desde os anos 70, quando hippies, freaks, chiques, artistas, boêmios e outras personagens emblemáticas habitavam o estado mais efervescente do Brasil. É dele esta seleção de dez programas tão deliciosos quanto diferentes para fazer por aquelas bandas


“Descer o Rio Paraguaçu de barco. Bahia colonial. Fortes, igrejinhas, saveiros. Mata do tempo dos tupinambás! E de repente, numa curva, mas bem de repente mesmo, o Convento de São Francisco. Enorme. Um exagero do barroco, ali, sozinho. Na beira do rio!” “Comer banana real em Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo Baiano. A cidade é tipo Ouro Preto. Mas é um forno. Comendo banana real embaixo do sol o açúcar fica mais doce!!!!!!”


“Instituto Feminino Regis Catharino, no Politeama. Para ver uma pulga vestida de noiva! Quando me contaram que tinha uma pulga vestida de noiva, eu falei: “Deixa de ser mentirosa, bicha”. Mas a pulga está lá, toda de branco. E obrigatório para o povo fashion: figurinos das madames baianas dos anos 20 aos 40! O manto de dom Pedro II. Trabalhos incríveis feitos pelas noviças deserdadas das grandes famílias.”

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“Subir e descer a Ladeira da Barra arrastando os chinelos e cantando alto. Sinuosa como uma cobra. Psicodélica. Seqüência de lugares incríveis: Bahia de Todos os Santos com todos os navios, a Ilha de Itaparica, o Iate Clube, o Cemitério dos Ingleses, a rampa para a Igreja de Santo Antônio da Barra, lojas anos 50... e desemboca no Porto da Barra. FÊRVO! Aí já é a Turma do Fêrvo!”


“Laje. Um bar-restaurante entre o Bonfim e a Praia do Ribeira. Fique na cobertura-laje. A Bahia vista de outro ângulo. O ângulo oposto dos cartões-postais e das fotos! Parece Grécia. Um brilho absurdo. Muito azul. Você é engolido pelo azul. Fica lá comendo caranguejo dentro daquele azul. E vendo o brilho do sol e o brilho do mar. Leve óculos escuros. Ou não!” “Barraca do Tchê. Pintosamente conhecida pelas criaturas GLS por Barraca do Gaúcho. É a barraca GLS mais animada que existe. Vale pela freqüência, pela trilha sonora (não é axé) e pelo desfile de sungas de Gaúcho. Ele só tem três, mas assim mesmo é engraçado!”

“Passear pela Bahia com as orelhas ligadas. Ouvindo o povo falar: “Hoje acordei virado na porra”, ”Tem que ser agora, é?”, “Aproveita que você está em pé e me traz um copo d’água”, “Estou com o sistema nervoso”. E o neguinho decorando tabuada em ritmo de Carlinhos Brown. Sensacional!”

“Visitar a sacristia da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho. Num dos móveis de vidro você encontra um Jesus rastafári. Na Bahia até Jesus é rastafári!” 360

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“Tomar um sorvete na Cubana, sorveteria dos anos 50 que vale pelo nome, ao lado do Elevador Lacerda. Peça um Dusty Miller, homenagem a um jogador de futebol dos anos 50. É o sorvete mais doce que existe! Chega até a arrepiar!

“Programa de época. Plano Inclinado Gonçalves. Também conhecido como charriô, de tão antigo que é (dos anos 50!). É um bondinho que vai da Praça da Sé à cidade baixa. Com direito a uma vista deslumbrante. O Elevador Lacerda é muito claustrofóbico!”


A PIMENTA, O TURISTA E A MENINA BAIANA “Hummmm, que ardido é esse na boca da menina? Que beijo tão saboroso, tão... tão... É pimenta-de-cheiro, meu lindo, teria ela respondido, tivera o dom de ler pensamentos. Diante daquele sarapatel fumegante, cheio de pimentas-de-cheiro amarelas e vermelhas, quem pode exercer seus dons divinatórios?” Em conto inédito, a escritora Paloma Jorge Amado nos conduz a uma viagem pelos sabores mais quentes da cidade da Bahia foto Fernando Lazlo


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ste almoço no Mercado do Ouro está saindo melhor do que a encomenda”, pensou o turista. Deixara os restaurantes chiques, recomendados pelos amigos paulistanos, habitués dos fins de semana na Bahia, para acompanhar a menina numa peregrinação pelos mercados da cidade. Começaram vendo artesanatos no Mercado Modelo, provando uma lambreta com molho lambão, “só um tiquinho para não queimar a boca, meu bem”, ela dissera. Isso o fez lembrar a encomenda de pimentas feita pelo amigo chef, recém-saído de um curso de gastronomia brasileira, louco para experimentar as novas receitas. Antes de entrar pelos caminhos mágicos da Feira de Água de Meninos, ela sugeriu um sarapatel para dar energia. “Conhece sarapatel, meu bem? Não vou te contar do que é feito que é para você comer. Tem muita sustança. Faça atenção nas pimentas-de-cheiro, lindas como pitangas, perfumadíssimas e fortes como o quê.” Ficou vendo encantado como ela misturava a farinha ao caldo. Viu com que prazer mordeu a pimenta e não resistiu à tentação de beijá-la – o primeiro beijo – antes de atacar seu prato. Hummmmmm. Fez a primeira garfada, coroada por uma pimenta inteira, cor-de-laranja. Ia levando à boca quando a menina interrompeu o trajeto do garfo: “Cuidado, meu lindo! Não vê que não se come pimenta assim? Ainda mais quem não tem costume. Prove primeiro o prato, que o gosto dela já está aí misturado. Depois experimente um pedacinho, mas tirando a semente, que é onde está o ardor maior”. Ele não levou em consideração a explicação, estava sob os efeitos das roscas de lima tomadas no hotel e da cachacinha que acompanhara a lambreta, queria se exibir, mostrar fortaleza. Pôs a pimenta inteira na boca e começou a mastigar. Imediatamente os olhos se encheram de água, de branquelo ficou vermelho feito um camarão e buscou o copo de cerveja para apagar o fogo que tinha em sua boca. “Oxente, tá maluco? Não tome cerveja, não. Ela só faz espalhar o ardor pela garganta. Moço, traz uma banana, por favor. Ou um pedaço de pão. É preciso comer uma coisa assim, massuda, senão não melhora.” “Mas você comeu...” “Você me viu colocando a pimenta inteira na boca, viu? Se fosse painho, esse, sim, come pimenta aos punhados. Não sou tão forte quanto ele. Eu tiro as sementes, meu lindo, senão não agüento.” “Mas esse gosto em sua boca...” “Tava bom, meu lindo? Vamos repetir, assim a gente mistura tua pimenta com a minha...” Muitos beijos depois, forrados do melhor sarapatel e bem temperados de pimenta-de-cheiro, partiram para a compra da encomenda. Ele ouvira falar na malagueta e na dedo-de-moça, isso porque dera de folhear livros de cozinha, hábito divertido ao qual aderira por influência dos amigos gourmets. Ia agora conhecê-las ao vivo e em cores. A Feira de Água de Meninos, ou de São Joaquim, como é chamada agora, é uma festa! O objetivo eram as pimentas, mas é impossível resistir aos balaios de frutas de todas as qualidades, cajus perfumadíssimos, variedades de mangas, abacaxis recém-chegados do Recôncavo, mangabas, umbus, graviolas, bananas de muitas formas e tamanhos... “Que banana engraçada é essa? Vermelha e gorda! Nunca vi assim.” “É banana-são-tomé, meu lindo, ou banana-roxa, como chamam também. Bem madura e assada na brasa, fica uma delícia.” Continuaram pelas vielas da feira até chegar à barraca de Robério, vendedor das melhores pimentas de toda a cidade da Bahia,

doutor em pimenta, como gostava de anunciar a si próprio, cheio de um palavrório importante, de quem estudou o assunto. “E então, meu bom, qual posso lhe servir?” “Vou levar um pouco de cada. Como não conheço, agradeceria se pudesse me explicar qual a mais ardida, qual a mais saborosa...” Robério começou pela malagueta, a mais conhecida de todas – ele tinha vermelhas e verdes. “Ela é das mais fortes, boa para fazer molho.” O paulista lembrou de ter lido num livro de culinária baiana uma receita de molho de pimenta de autoria do pintor Carybé. O artista dizia que não se devia lavar a pimenta antes de colocá-la para macerar na bebida alcoólica. “Isso é verdade, Robério?” “Pois se fui eu quem ensinou isso a ele!”, riu, alegre. “Tire os cabinhos para não amargar e coloque diretamente do pacote na cachaça. Seu Carybé gostava de colocar no gim, coisa de gente fina.” Passou adiante para as pimentas-de-cheiro, que estavam lindas e coloridas. Nem deixou que Robério começasse a falar da ardência, já conhecia de experiência própria. Comentou o incidente do almoço. “Mas ela não é nem das mais ardidas...” Seu Robério já se virava para o cesto de pimenta-cumarim, amarelinha, pequena e bem picante. A cumarim miúda arde bem, é boa para peixe, acarajé, vatapá. Vai bem no molho feito com dendê. Quando for comer acarajé, lembre que, se perguntarem se quer quente, isso quer dizer picante. “Leve da cumarir também, vai fazer sucesso.” No outro cesto estava a dedo-de-moça, bem vermelha e grande. Aprendeu que é com ela que se faz geléia e se coloca em doces e chocolates, o que não significa que sejam fraquinhas, não senhor, tem seu ardor. “Aliás, por falar em dedo-de-moça, o senhor sabia que é com ela que se faz a pimenta-calabresa? Pois foi seu Carybé quem me contou, que ele era meio italiano. Pois basta secar que já virou calabresa.” Robério explicava e ao mesmo tempo ia embrulhando as pimentas. O turista, encantado, ia ter muito o que contar em São Paulo. “E qual é a mais ardida de todas, seu Robério?” “A mais ardida que eu conheço, seu moço, não é daqui e nem sempre eu recebo. Ela se chama murupi e é lá do Norte. Essa é forte como o quê. Uma pimenta bonita, amarela, em gomos.” A menina baiana, até então caladinha, só rindo da expressão alegre do moço, não agüentou e se meteu na conversa. “Essa tal de murupi, meu lindo, é a que dizem que no dos outros é refresco.” “No o que dos outros?”, ele se riu. “Ora, você sabe... Não pense que eu sou moça que sai por aí dizendo nome feio.” Fez cara de dengosa e ganhou mais um beijo. Quis saber qual era a mais fraquinha. Seu Robério mostrou um frasco com lindas pimentas rosadas, pequenas e com um biquinho na ponta. “É essa do bico-doce. Não tenho fresca, só em conserva. Está muito na moda.” “Boa para bancar o machão, meu lindo. Você coloca inteira na boca, mastiga com semente e tudo. É uma delícia e arde muito pouco. Só não deixe ninguém provar, para você não ficar desmoralizado.” Comprou ainda outras garrafas de molho pronto. “Obrigado pela aula, seu Robério.” Carregado de pimentas, saiu abraçado com a menina baiana. Iam tomar o rumo da Igreja do Bonfim. Era preciso agradecer pelas emoções vividas desde que pisara nesta terra abençoada: o sol, as cores, o mar, os cheiros e, sobretudo, os beijos da menina, ardidos de pimenta. Inesquecíveis. Paloma Jorge Amado. Cidade da Bahia, 14 de agosto de 2006 ffwMAG! Nº 02 2006 261


AS MERENDAS DE DONA FLOR Ninguém revelou mais os gostos da Bahia do que o escritor Jorge Amado, que temperou sua obra com cravo, canela e uma pimentinha inconfundível. Delicie-se com esta Bahia de Todos os Santos, cheiros, cores e sabores por Patrícia Favalle/ilustração Fernando Vilela aído das páginas da literatura de Jorge Amado e reverenciado como iguaria, um novo movimento invade as panelas para encantar-se com criações nada ortodoxas. A história data de pelo menos cinco séculos, época em que os índios viviam apenas da mandioca, do milho e da caça. Na chegada dos portugueses, o paladar lucrou com o incremento de misturas. Mas foi apenas no século 16, quando os africanos foram trazidos como escravos, que ele mais se modificou. Levadas às cozinhas das casas-grandes, as negras foram responsáveis pelo acréscimo do gengibre, do inhame, do amendoim e da banana aos pratos existentes. As receitas ganharam toques condimentados, e dessa combinação nasceu uma culinária intrigante e, por que não dizer, prazerosa. Nos fogões à lenha, os alimentos sagrados dos orixás começaram a ser moldados ao gosto popularesco. Entre as invenções, o mungunzá – que leva milho branco, leite, açúcar, coco fresco ralado e canela em pó –, muito apreciado por Oxalá, agradou tanto quanto os bolinhos de puba, o cuscuz e os mingaus. Com doses extras de especiarias, a inovação já desembarca nos guias especializados e as estrelas tilintam ao lado dos nomes dos chefs dessa safra, a exemplo de Beto Pimentel e Edinho Engel, que comandam respectivamente os restaurantes Paraíso Tropical e Amado. “Ainda estamos num processo de construção da identidade da cozinha nacional, já que, além de expressar a cara e a cultura de um

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povo, a gastronomia requer técnicas apuradas, uso de ingredientes de qualidade e, claro, inventividade dos chefs”, avisa Engel. Numa comparação despretensiosa, os temperos se valem dos tons encorpados para compor as notas da música nacional. Costuma-se afirmar que, na harmonia, quem faz a cuisine é a bateria. No baticum originalis, Gilberto Gil, então, foi o expresso desgovernado, açafrão verdadeiro, a combinação perfeita entre muitas cores e sabores. Veio dele a Geléia Geral, vontade insistente da experimentação que hoje denota a gastronomia nordestina. E nessa poesia tropicalista, Beto Pimentel é mestre. Autodidata, ele não mede esforços para alçar as peculiaridades regionais ao topo. Acostumada às comidas de traços lusitanos, era às sextas-feiras – e nas datas comemorativas – que a população se entregava aos toques exóticos das matrizes africanas. Depois da desmistificação dos sabores típicos da Bahia, os gourmands despontam com criações cada vez mais elaboradas e universais. “A transformação da comida baiana se deve, principalmente, ao acerto dos ingredientes”, explica Pimentel. Entre suas especialidades, além do consagrado dandá de camarão, do arroz de mangabuce e da torta salgada de maturi (castanha de caju verde, aquele que fazia Tieta virar os olhos), ele incluiu vinagreira ao tempero da galinha caipira e – sem exagero algum – reinventou a tradicional moqueca numa versão que leva lascas de coco, polpa de dendê e biribiri, um fruto singular de sabor cítrico. “Em minha moqueca coloco uns 30 tipos diferentes de elementos”, diz.


Se as inovações roubam as atenções dos comedores, a surpresa com o grand finale é arrebatadora. Numa enorme bandeja, frutas exóticas – como o achachairu e o akee – chegam às mesas dos clientes com o frescor de terem sido colhidas em seu pomar particular, que reserva nada menos do que 121 variedades de frutas, em 6 mil pés plantados. Não ficou satisfeito? Tudo bem, pois a pouco mais de uma hora de viagem está a fazenda da família, onde existem 32 mil árvores frutíferas, horta orgânica e o maior celeiro de moluscos da região. Antioxidante ao tempo, o gengibre é a representação do orixá Carlinhos Brown, um virtuose da canção, cheio de onomatopéias e sons compassados – idênticos aos barulhinhos do fogareiro que ferve as miscelâneas inóspitas ao ritmo do “Aê Aê”. Paladar apurado, depois de 18 anos de estrada, o mineiro Edinho Engel aportou em Salvador levando na bagagem criatividade, predicado que lhe rendeu punhados de admiradores. Instalado num antigo casarão restaurado pelo arquiteto Paulo Jacobsen, a simplicidade do menu garante o requinte de suas receitas, com destaque para a diversidade de peixes, frutos do mar e todos os condimentos que remetem ao jeito baiano, caso dos camarões feitos no vapor em salada picante de manga e papaia. “Viva a mandioca, o aipim ou a macaxeira, a mandioquinha ou batata baroa, os feijões, o quiabo, o maxixe. Viva a galinha ao molho pardo, as moquecas, o jambu, o baru e o pequi. Viva o caju, as bananas, a serigüela, a pitanga, as mangas e o coco. Adoro a sálvia, o alecrim, o manjericão, as pimentas,

o coentro, a salsinha e as frutas que, às vezes, uso até como tempero em meus pratos”, declara Engel. Dos terreiros de candomblé diretamente para os redutos ecumênicos, a Bahia confirma que tem espaço para toda espécie de sincretismo. Não à toa, no tabuleiro da baiana há muito mais do que acarajé, bolinho de feijão fradinho e abará. Os quitutes são vatapá, sarapatel e caruru com camarão frito. E olha que dá rima. Dorival Caymmi que o diga. Cercado por belezas naturais, a visita ao estado não se resume apenas ao pôr-do-sol multicolorido e às praias de águas tranqüilas. Por ali, os pecados da gula são perdoados – talvez por isso a terra seja chamada de Todos os Santos. Como disse o historiógrafo Afrânio Peixoto em seu livro Breviário da Bahia, “a Bahia é um feliz consórcio do melhor de Portugal – a sobremesa e a preferência pelos pescados – e da Costa da África, o óleo de dendê e a pimenta – muita pimenta benzendo tudo”. Com a alma leve, só resta se entregar à comilança do circuito gastronômico baiano, que percorre do contemporâneo Soho aos tradicionais acarajés de Dinha, Cira ou Regina, com direito a paradinha para degustar o surubim do Gibão de Couro. Some a isso o papillote em folha de bananeira do Amado regado pelos inventos imperdíveis do Paraíso Tropical. Voilà, bon appétit! Restaurante Amado, tel.: (71) 3322-3520 Restaurante Paraíso Tropical, tel.: (71) 3384-7464


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BORDADOS Beth Bordados Rua Artur Mota, 1 São Paulo, SP Tel.: (11) 6695-5156 e-mail: bethbordados@uol.com.br MODA Adidas Tel.: 0800-556277 Adriana Degreas Rua Barra do Tibají, 1097 São Paulo, SP Tel.: (11) 3333-3331 Água de Coco Rua Oscar Freire, 1181 São Paulo, SP Tel.: (11) 3061-3367 Água Doce Rua Oscar Freire, 959 São Paulo, SP Tel.: (11) 3048-1277 Água na Boca Rua João Cachoeira, 1480 São Paulo, SP Tel.: (11) 3044-2872 Alex Palma para Casa Mauro Freire Alameda Jaú,1580 São Paulo, SP Tel.: (11) 3061-5274 Alexandre Herchcovitch Rua Haddock Lobo, 1151 São Paulo, SP Tel.: (11) 3063-2889 All Star Converse www.converseallstar.com.br

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JARDIM DAS FOLHAS SAGRADAS É esse o título do novo filme do cineasta Pola Ribeiro, que mergulha na cultura afro por meio da trajetória de Bonfim, um bancário de 40 anos que recebe a incumbência de abrir um terreiro de candomblé e decide modernizar tradições seculares. O longa, com previsão de lançamento para julho de 2007, contou com a consultoria do antropólogo Raul Lody e a preparação de atores de Márcio Meirelles e tem como música-tema Salve as Folhas, embalada por Maria Bethânia foto Henrique Andraderistiano 370

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UMA FESTA NO GANTOIS Um ensaio fotogrรกfico no Terreiro do Gantois Por Cristiano

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UMA FESTA NO GANTOIS Num momento muito especial, pude estar diante de uma família de mulheres fortes, que carregam em sua vida uma parte importante da cultura brasileira, da história do candomblé no Brasil. Além do privilégio de conversar com Mãe Carmen e suas filhas, Ângela e Neli, sobre o Gantois, apresentamos imagens do fotógrafo Cristiano concedidas com exclusividade para a ffwMAG! – um registro especial, mágico, único e histórico de uma festa para o orixá Nanã, que encerra esta edição, dedicada a retratar a alma africana que existe dentro de nós por Paulo Borges/fotos Cristiano ffwMAG! – Como surgiu o Gantois? Mãe Carmen – A primeira ialorixá do Gantois foi Vovó Júlia, que veio como mucama para o Brasil quando vigorava a Lei do Ventre Livre, no tempo dos escravos. Ela morou com uma família, casouse, foi ter a casa própria e foi fazer o orixá no Terreiro da Barroquinha, onde hoje está a Igreja da Barroquinha, aqui em Salvador. Quando esse terreiro fechou, grande parte dos iniciados fundou a Casa Branca, no Engenho Velho, e meu avô, Francisco de Nazaré, arrendou esse terreno na Federação, que era da família Gantois. Ela trouxe o “assentamento” de seu orixá para o Gantois, abrindo assim seu terreiro, o Ilé Ìyá Omi Àsé Iyámase. Naquele tempo, a tradição era passada pela comunicação oral, o que ainda é uma característica do culto aos orixás. Assim começou o Terreiro do Gantois, com a força de uma grande mulher, Mãe Júlia do Gantois. ffwMAG! – O que o Gantois representa para o candomblé? Mãe Carmen – Adaptamos o candomblé a nossa época, mas sua essência continua a mesma. A força do candomblé se chama axé. Tudo tem um significado: os cantos, os gestos, as danças, as vestimentas, as comidas. No Gantois, nós encontramos a essência do candomblé.

Iyakekerê Ângela – Ele representa o próprio candomblé. Preserva sua história, suas tradições, suas raízes, sua origem. Iyadagã Neli – No Gantois, encontra-se o candomblé em sua essência. Isso é prioridade. É como uma lei que nós temos de preservar, assim como aprendemos, mantendo as tradições de nossos ancestrais. Daí é que se fortalece nosso axé, a força do candomblé. Nós simplesmente cumprimos aquilo que aprendemos. ffwMAG! – Quem foi Mãe Menininha? A que as senhoras atribuem ela ter se tornado uma personagem de tamanha força? Mãe Carmen – Uma guerreira, uma batalhadora que lutou por seus filhos do candomblé, por sua fé, por sua religião, por sua honradez, pois foi buscar o respeito devido ao candomblé. Contemporânea do período das agressões ao candomblé por soldados, quando eles entravam nas casas para interromper as festas, rasgar os atabaques, ela foi, com certeza, a primeira mulher que enfrentou tudo isso, e venceu. Acredito que por isso, também, se tornou tão respeitada e admirada. Iyakekerê Ângela – Falar de Mãe Menininha é falar de doçura, de encanto, de credibilidade, de respeito. É falar de tudo o que é bom, de tudo o que constrói o bem, é falar da força da fé. Era esse o exem-


M達e Carmen do Gantois


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plo que ela nos passava. Quanto mais a gente convivia com ela, mais a gente descobria seus valores positivos. A cada dia ela se revelava mais, descobríamos mais seus encantos. Encantos que a Bahia guarda, que o Brasil canta e o mundo admira. Iyadagã Neli – Além de ser uma grande mãe, uma grande avó, uma grande ialorixá, foi uma grande amiga. ffwMAG! – As cerimônias no Gantois são conduzidas pelas mulheres. O Gantois é uma casa matriarcal? Qual o papel do feminino no candomblé e no Gantois? Mãe Carmen – A mulher é a força geradora, a força criadora do axé, como uma mãe que administra uma família. A figura da mãe representa a família e, no candomblé, representa também a procriação, no sentido de perpetuar a tradição e o culto aos orixás. ffwMAG! – O que é a festa de Nanã? Mãe Carmen – Como nas outras festas, é uma homenagem ao orixá. Os filhos do axé preparam iguarias e oferecem a Nanã, e depois rezam, agradecendo e chamando Nanã para abençoar aquele momento. ffwMAG! – Por que o candomblé na Bahia se faz mais evidente? Mãe Carmen – Preservamos a história, isto é, continuamos a fazer o que aprendemos, transmitindo de um para o outro. Mantemos a tradição, com fidelidade às raízes. Essa tem sido a preocupação do Terreiro do Gantois, desde o tempo de Vovó Júlia. Iyakekerê Ângela – É que a raiz das religiões de matrizes africanas está aqui na Bahia, onde o contingente negro é dos maiores. A Bahia é a raiz das religiões africanas no Brasil. Iyadagã Neli – É também pelo fato de essas grandes mulheres terem feito, com tanta galhardia, a preservação do candomblé. Não deixaram deturpá-lo e, por isso, ele continuou como era em sua origem. E quando vem da origem é mais forte. O Gantois, por meio da resistência, manteve sua tradição e isso, sem dúvida, contribui para evidenciar o candomblé na Bahia. ffwMAG! Nº 02 2006

“A raiz das religiões de matrizes africanas está aqui na Bahia” Iyakekerê Ângela


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“Tudo tem um significado: os cantos, os gestos, as danças” Mãe Carmen

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“Encantos que a Bahia guarda, que o Brasil canta e o mundo admira” Iyakekerê Ângela


“O Gantois, através da resistência, manteve sua tradição” Iyadagã Neli


“Preservar a história é continuar a fazer o que aprendemos” Mãe Carmen


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