Mausolテゥu 窶開oテ」o Miguel Moreira Auto
JoĂŁo Miguel Moreira Auto
MausolĂŠu
Edição e Concepção Gráfica
Cristina Astolfi Carvalho Érica Casado Ilustrações
Paulo Ito Projeto Gráfico e Diagramação
Fernanda Giulietti Revisão
Marcelo Beso Veronese
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Auto, João Miguel Moreira Mausoléu / João Miguel Moreira Auto – São Paulo: Editacuja, 2009. isbn 978-85-62473-00-5 1. Poesia brasileira. I. Título 09-03712
cdd-869.91
Índice para catálogo sistemático: 1. Poesia: Literatura brasileira 869.91
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Atribuição - Uso Não-Comercial - Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil.
João Miguel Moreira Auto
Mausoléu
São Paulo 2009
O fogo, a linguagem e a doença são perigos que se transmitem aos amigos sem alívio do que se possui
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bem-vindo cidade chão caminho porta moby dick janela corredor cárcere livro fantoche o choro do palhaço flores aperreio relance queda é a vida... estúpida pessoa torvelinho sorriso vida-mundo-tempo derradeira paz agonia
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cagar
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o autor o ilustrador a designer a editora
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soneto manco
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bem-vindo
12 d
Seja bem-vindo neste quarto velho em que pondero na vida com langor, onde mulheres lindas largaram seu amor e homens sábios vêm pedir conselho. O quarto é velho; e o habitante, um jovem a envelhecer sob o martelo da dor. Bem-vindo seja, seja lá quem for... aqui, só os papéis nos ouvem. Por isso entre, meu caro, por favor... Cá dentro, não há traça que se mova. Neste lugar, o peixe desova e aranhas dormem sem pagar penhor. É funda a minha cama como o mar e o silêncio do mundo, aqui, nos louva. Quem sabe guardo-te uma palavra nova? Amigo, venha, venha repousar. Quero mostrar-te um percevejo lindo. Mora comigo a mesma paz da cova. Está aberta agora a porta da alcova – bem-vindo seja, por favor, bem-vindo!
cidade
Nasci do caos que na rua se adensa, sou pó de asfalto a escurecer janelas, sou o ruído da noite velando as estrelas, o satélite, a roda da imprensa. A cada segundo milhões de goelas, arreganhadas, devoram sentenças... Sei que no trânsito a minha presença é a doença que te apanha e gela. Conheço aquele motorista que anda sem licença, o bêbado gordo que perdeu a chinela, o teu barbeiro, tua mulher, tua cadela, a tua fossa, a tua dispensa. Eu sou o troco no mercado, o cassino, o teto da favela, a pressa, o estilete no bolso, o soco, a febre intensa; eu sou esta cidade que te cerca imensa – ninguém além de mim tão bela!
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ch達o
16 d
Pisa, pisa, pisa o teu escravo pois, ai, sou baixo, reles, chão; escarnece do ridículo bufão que eu quero descer mais e cavo! Na tua casa eu habitei o porão, do teu dinheiro roubei um centavo; eu sou o sebo do sabão e lavo toda a sujeira do teu corpo são. Quando tu choras, sou eu que te vejo; quando tu cospes, sou eu que te beijo e se coçares eu estou em tua mão... E sou a inexpressiva e rígida venta quando respiras, sou quem te sustenta – pisa, pisa, pisa... no chão.
caminho
Paira à minha frente a noite escura mas não ligo pois eu sigo numa estrada clara e curva. Na beira do caminho, na chuva, alguém murmura numa voz seca e turva: – Tira-me dessa tortura! Eu olho a chuva que não se perturba e, calado, sigo com receio... A voz me grita um antigo nome feio e esse nome me cai como uma luva!
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porta
Desperto de meus sonhos com preguiça e do sono vem-me a impressão de luto. Ainda nos ouvidos trago e escuto o inaudito ruído das grandes dobradiças. Sinto-me febril, alucinado e zonzo... Quer vibrar na minha orelha o latim de uma missa: uma música que ondula, misteriosa e mestiça e que arrepia como o ranger de gonzos. É uma embriaguez que não se acaba, espécie de melancolia ou banzo, floresta funda em que me perco e zanzo ouvindo a pancada de uma aldraba. Escoa em minhas veias uma luz preta que enche-me de frio e de calor, terna e tenra como um tédio ou torpor e familiar como o som de uma maçaneta. Minh’alma está imersa em água escura e a mim, de mim, esconde os mil segredos... Covarde! Mostra-me teus loucos brinquedos! ...apenas posso ver a fechadura.
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Pelo furo se vislumbra uma árvore e, na penumbra, um caminho que se azumbra. Eu forço a vista, e ela, então, ressumbra gota a gota a palidez do mármore. Mas ouço agora um ruído suave que entorpece, adormece, acalma, que molha e amolece a alma – o som que ouço é um tilintar de chave. *** O que haverá agora atrás da porta? Um abismo? Uma parede? Um espelho? Ou será que um tapete vermelho? Não tropeces, na escada, uma mulher está morta.
22 d
moby dick
A minha dor é tal e tanta que só o som da geladeira me acalanta. Um som que se propaga casa adentro e penetra-me a cabeça até o centro. É tão tremendo e tão horrendo o tal barulho que até esqueço a minha dor e o meu orgulho. Pois MOBY DICK é tão barulhenta que nem o meu orgulho aguenta.
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janela
Eu sou uma janela sempre aberta. Olhai por mim: o sol cai no ocidente e o estertor de sua chama ardente acaba de chegar na hora certa. A luz do sol me atravessa. Vede: a sua substância é a matéria de meu corpo. Minha existência é mais sutil que um sopro: de fato, sou uma omissão de parede. Veloz se move o éter leve e flui dentro de mim num gozo... Meu sangue é esse feixe luminoso que vem a cada tarde e não faz greve. E como posso adivinhar suposto vento? Ele é invisível, não tem nome nem cara. Mas ouço a mosca que não morre nem para pois sei que corre em mim o tempo.
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E tanto foi e é sempre assim, eu nele não, mas ele em mim, que o não posso ver (pois não está fora) e assim agora já não é agora. E ainda o tempo anda sem pegadas e descalço em brandos passos que não têm onde nem quando. Bem mais sutil do que andar, o tempo é estar andando circularmente preso a si tal como um laço.
28 d
corredor
Eu sou um poema grudado no fundo de um corredor cheio de porta e estreito. Estou pregado nesse canto e desse jeito pra indicar onde é que se acaba o mundo. Sou pois a inexequível fronteira matreiramente assim determinada: “limite que separa o Ser do Nada; parede para aquele e, deste, a beira”. Mas quem primeiro pensou nisso é louco: Nada com beirada, tendo algo, já não é pouco e, de infinito, Tudo ora queda limitado. E eu mesmo, mediador, a mim não entendo. Entre o Ser e o Não-Ser, não-sendo e sendo, sou e não-sou divisa de um só lado!
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cรกrcere
32 d
Bato na parede com os dois pés e, de punhos cerrados, esmurro o duro muro negro e as barras do xadrez com a teimosia ruminante de um burro. Preso como um animal feroz dentro de um cofre minúsculo, já não acho espaço pra mover um músculo nem pensamento pra vestir com a voz. Quem me dera eu fosse um criminoso mil vezes condenado à masmorra! Morra! – digo e repito – morra! Meu destino, porém, é mais cavernoso... Vivo estou e permaneço acordado curtindo esse contínuo suplício, já quase calmo (ou pelo menos parado) na solidão eremita de um hospício. Sim, pois um anjo risonho botou no meu sangue um mal sem cura: sofro de isolamento, de loucura... Meu despertar profundo é feito de sonho!
livro
Minh’alma é um livro na mão. Não quero abri-lo contudo; não quero ler meu romance – hoje estou mudo. O livro está encardido, nem quero pô-lo na estante; quero dar fim nesse traste pois sei que a vida é flagrante. Livro amarelo e mofado! Devo atirá-lo na água? Quero rasgar minha alma e arrefecer essa mágoa. Embrulho velho e fedido, sou uma só garabulha; ninguém vai ler esse livro que não presta e só entulha. Eu me já nem reconheço no palavrório assanhado;
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a letra, porém, bem que é minha e o livro está assinado. Adulterei a sintaxe. Vou retraçar cada frase pois sei que a vida é desejo que nunca alcanço – mas quase. Eu sou esse livro raro. Não tenho outro exemplar; mas vou queimar tudo junto, arder e amar!
36 d
Não sou augusto, nunca fui dos anjos, nem pessoa pra ter um mausoléu Não quero busto, sou só um marmanjo que lança a custo seus males ao léu
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fantoche HĂĄ uma mĂŁo na alma que puxa o fio das ideias, que toca os sentimentos com os dedos e se abre em flor para os cinco sentidos.
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o choro do palhaço I O meu instante, a cada instante faço e, assim, da vida, a própria vida cobro para repor o que perdi em dobro quando perdi pelo caminho o passo. A dor que vem é chama que abraço em fornalha de aço e de malogro, e perco-me por dentro, e me sobro e sufoco fumaças de cansaço. E se me canso do caminho, dobro, e curva que não aprovo, retraço; porém nunca estarei feliz, pois caço só sempre o mesmo sítio em que soçobro. Sim, pois, meu velho e caro amigo, laço o próprio Nada, e com arte manobro no labirinto que eu mesmo obro desde que ouvi o choro do palhaço!
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II Não posso mais morgar nesse mormaço, não sei se morro logo ou se me arranco; quero explodir de rir com estardalhaço, quero matar ou assaltar um banco. Se um dia me foder inda me manco, mereço cometer um erro crasso: broxar pra todo o sempre, ficar manco, perder uma mulher, quem sabe um braço... O que pintar na minha estrada eu traço, se o carro der o prego, vai no tranco e eu me aguento a cada solavanco dos atravancos de por onde passo. Não sei se negligente ou se devasso, vou meter esse carro num barranco; o risco que eu corro eu mesmo banco e a flor da juventude pede amasso. Vou mal do fígado e talvez do baço, quero desopilar o que retranco; não sou Florbela, mas também espanco e, agora, canto o choro do palhaço!
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flores Flores brotam de meus poros como brotoejas e trazem um estranho aspecto taciturno: são roxas, murchas, sombrias como igrejas e exalam seu olor doce e noturno. Brotam tristes e apodrecem em meu corpo sem dar frutos; são promessas pálidas que não vingam, abortos... São furúnculos, feridas que fedem a bicho morto – não são flores de vida, são de luto. São do tipo que acompanha os homens no ataúde pra vincular enfim à terra os defuntos. São flácidas, fragílimas, quase enganam saúde e, silenciosas, não falam por falta de assunto. Sim, essas flores brotam de minha pele imunda e no mel que elas produzem, toda noite, me unto; assim, gradualmente, aos moribundos me junto envolvido numa mortalha de esterco e fecunda.
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aperreio O mundo é uma jaula de ferro e a sensibilidade, um jorro. Eu quero estar em situação de socorro porque a vida aponta pro erro. Eu sei fumar bituca de cigarro, eu amo o risco renovado que corro, quero fruir um átimo de esporro – parem pra eu vomitar fora do carro. Abri a boca pra soltar meu urro, gritei que o dia-a-dia é um só escarro em que me lanço, em que me agarro: tão franco e tão real quanto um murro! Sei que no mundo, ou mato, ou morro e vou seguindo assim tirando sarro. Eu vou secar e enrijecer (pois sou de barro) e enquanto isso não vem eu corro.
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relance Às vezes, na cidade, à noite, esbarro com a vida, que então passa como um vulto e não me cumprimenta (o bicho astuto): passa de carro. – A existência! – esse vazio em que me amarro e cuja vanidade é para mim um insulto... O seu sentido são fumaças de charuto e suas carnes, brasa de cigarro!
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queda Vida – tempo fugaz – fluxo que não cessa, por que, pergunto, essa pressa? Vida feita de gás. Vida que voa nessa viagem vã e voraz. Pergunto: vida, aonde vais? Quando vens, que te interessa? Espuma que se evola em sais, pluma que se enrola e nos enreda, ó vida leve e vazia, vertigem de ventania, és um copo que cai quando em queda.
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é a vida... Sofrer, sim, mas só porque estou vivo, não é uma questão de preferência. Não fui eu quem fiz a existência, mas o tributo que ela cobra é abusivo. Não sei se chego a ser persuasivo porém repito ainda assim, com veemência, que a vida é ruína e violência que se recebe calmamente e altivo. Não aconselho ninguém a ser passivo. Simplesmente, é preciso paciência. Pouco adianta fazer exigência, mandar o mundo ser compreensivo. O mundo é o mesmo mundo destrutivo, é todo desencontro e incongruência; é caprichoso e não tem clemência: malvado, perigoso e compulsivo. É um jogo vão e sem objetivo, Banco Imobiliário da Falência; mas, mesmo tendo essa consciência, quero roubar-lhe algum prazer furtivo!
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estúpida pessoa Uma fruta cai, o tempo voa. Nos subterrâneos, a umidade impera, penetra pelos anos noutra era imersa em devaneios de garoa. A chuva cai, o tempo escoa. Ai, que saudades de minha vida! Vive!, corpo maldito, alma parida! Que fazes, ó estúpida pessoa? O corpo cai, o tempo enjoa. O pêndulo oscila sobre o eixo; rola tempo, rola mundo, rola seixo... Que fazes, ó estúpida pessoa? A brisa vai e vem à toa... e a mão se submete ao queixo.
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torvelinho Meu cérebro é um tear automático traçando com arte o fio da ideia, trançando e tramando a fina teia da fantasia que embrulha o lunático. Viver é um entrecruzar de caminhos; é o enlinho, o enleio, o embaraço, é, vesgo, nadar sozinho em um mar de braços que te olham e murmuram burburinhos. Minha cabeça é um caldeirão de legume, pântano quente se mexendo todo, tripa enroscada vomitando a rodo grossos pedaços de caldoso estrume. Vou macerar os meus miolos pra que virem pó, beber aos goles essa sopa de lodo, emaranhar meus cachos no turbilhão de engodo e amarrar meus membros nesse grande nó!
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sorriso a Augusto dos Anjos
Nos teus dentes cristalinos, esta alvura que em loucura é propaganda de Kolynos não atura o mal do tempo – e não há cura para a dura crueldade dos destinos. Se no espelho o reflexo revela tão sem nexo beleza imatura, amanhã, a dentição que hoje é tão bela será só uma singela dentadura. Se agora, pura e alva, é modelo, dura pouco, está escura e amarela. Tão calva, sem fissura e ouso dizê-lo: tão carente, tão sem dente, tão banguela! Aproveita o lustro que te enfeita refletindo tua alegria estética... Todavia, um dia, fria e putrefeita, estará tua face rindo e esquelética!
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vida-mundo-tempo “como a própria palavra ‘mundus’, derivada de ‘motus’, dá a entender, o mundo está em perpétuo movimento” Philostheus Boehner e Etienne Gilson
A vida é como um peido que se desfaz no ar e deixa uma sensação que incomoda. É foda! Tudo muda, é moda. Tudo há de mudar. Enquanto a gente passa o tempo roda. Sim!, a vida é chã, perversa, vã, vil e calhorda; conversa que se esvai com o ar sutil que se respira; é luz que se dispersa quando cai leve na borda de um lago negro e fundo – é todo um mundo de mentira. Uma corrente tensiona – a engrenagem gira. O mundo funciona como um brinquedo de corda. A mente dança, o Cosmos delira... A morte ronda, arde o medo, a tarde morre cedo... e a escuridão acorda!
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derradeira paz Agora que estou morto, estou feliz; morto, soterrado em minha cova, mortinho, morto como aquela anchova na pizza já fria que eu nem quis. Sobre o cadáver manso, num acúmulo, pesam-me as horas e o vazio... E um vira-lata trôpego e sem brio, muito calmo, mija no meu túmulo. Não vou virar grande museu de vidro, seja silêncio canto de consolo. Melhor não ser o insigne Mausolo, não quero ser ouvido e, sim, olvido. Cá embaixo, insensível, na masmorra, sei que a existência é um beijo bem curto, pequeno furto que se toma, ou surto de vão desejo, ou sei lá eu que porra! Como é bom não ter que ser ninguém! Ah, o ter de ser eu mesmo o tempo todo! Pudera eu ser-me sendo de outro modo e a vida para mim estava bem.
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Tudo acontece ao mesmo tempo agora, esse é o segredo que o mundo tem. Porém, eu, vivo, ficaria louco sob o peso de tudo e mais um pouco, envolvido no tremendo caos lá fora se eu de fato fosse lá ter com alguém. A cada instante o mundo piora e eu, cá, té tive um pensamento torto: são os segundos gotas que Deus chora, gotas de tédio, dó e desconforto. Dentro da terra a solidão demora no transe em que quedo absorto... Mas – ora! – tendo eu chegado ao porto em que se chega quando é dada a hora – aleluia! – minha bílis comemora o imenso alívio de estar morto!
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agonia Na agonia, luto com a dor que a arte transubstancia em h贸stia... Nela gozei o vivo estertor de ang煤stia.
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cagar
dedicada ao Pensador de Rodin
Você, que agora se desfaz do que em suma é apenas sobra, você, que agora se dobra e dobra o papel lilás, note como é assaz asquerosa essa manobra (enquanto no vaso jaz merda n’água salobra): pois o homem é sagaz, tenaz e finório, mas nunca – jamais! – se recobra se vir que na vida fugaz a merda é, de longe, o que mais se destaca enquanto obra!
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o autor
J
oão Miguel, a quem todos chamam Damião, não se deixa levar pelo tempo dos outros. O tempo é dele. Fácil encontrá-lo falando sozinho e rindo na sua magrela sobre as ruas arborizadas de Barão Geraldo, onde mora desde os 17 anos, quando ingressou na UNICAMP. Filho de físicos, gostava de ciência e matemática, mas acabou estudando as letras, especialmente o português e o grego. Acha meio bobo quem supervaloriza um campo do conhecimento em detrimento dos outros e diz que para esses o melhor castigo, o mais justo para quem faz questão de se limitar em relação a alguma coisa é ser limitado mesmo. Pouco antes dos nove anos de idade, veio a mania de fazer letras de música. Roubava uma melodia e inventava uma letra para ela. Aos nove, ganhou uma medalhinha num concurso de poesias da escola. Foi esse o seu primeiro poema. Mas só começou de verdade aos 14, quando fez a primeira versão do poema Caminho, selecionado para este livro. Isso foi há 20 anos: fecha-se agora um ciclo extenso, um projeto de há muito... Estudou a noção de alma em Homero, no Mestrado. Publicou poemas em dois números da Revista Estudos Portugueses e Africanos e escreveu um artigo sobre o conceito de autoria, utilizado em vários cursos do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP. Mausoléu é o seu primeiro livro. Mas o autor tem ainda muito poema pra manga. Fora os inúmeros sambinhas.
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o ilustrador
P
aulo Ito se define assim: nasci em São Paulo em 1978. Três anos depois comecei a desenhar. E até hoje não parei. Pintor de técnicas múltiplas, artista de infindas temáticas, percorrer a sua produção é deparar-se com desenhos que, apesar de tão diferentes, imprimem uma marca inconfundível: Paulo Ito é descendente de italianos e japoneses, artista plástico formado na Unicamp, anda por aí numa bicicleta, de bermudas rasgadas e manchadas de tinta – registros que vai imprimindo nas ruas da cidade. Ele desenha mulheres lindas e nuas (algumas têm armas de madeira), samurais, sempre um cachorro. As primeiras ilustrações para o Mausoléu foram feitas em 2001, sob um livro ainda intitulado Agonia – uma delas está na capa do Livro. Nela, ele usou caneta sobre sulfite. Em 2008, convidado para fazer outras ilustrações para os poemas de João Miguel Moreira Auto, já parecia outro o artista. Misturou técnicas do graffiti com o processo fotográfico light painting e deu pintura à casa, às palavras do poeta.
Outros trabalhos do artista podem ser vistos n’O Herói de Damião, editado pela Girafinha, no http://www.flickr.com/photos/pauloito e nas ruas de São Paulo, Buenos Aires, Belo Horizonte e mundo afora.
a designer
F
ernanda é de uns olhos grandes, atentos, que parecem ver formas em palavras. Ela é de mergulhar na poesia e, de si, diz que suas primeiras palavras foram em francês, que adora cozinhar, viajar, e que pretende voltar a desenhar com lápis e papel. Que gosta muito de falar ela não conta. Única paulistana (de 1976) de uma família de tchecos, cariocas, paraibanos, pernambucanos, italianos e um francês, viu o mar pela primeira vez em João Pessoa, na Paraíba, onde vive parte da sua família. Mas o lugar dela é a arte: fez teatro, música, desenho. Ao cursar Artes Plásticas na Unicamp experimentou também a fotografia, a dança e a literatura. Hoje em dia, Fernanda faz da sua criação as gráficas: trabalha na Folha de S.Paulo há 5 anos como diagramadora. Em 2008, ganhou o Prêmio Esso de Criação Gráfica Categoria Jornal; em 2009, um dos prêmios de excelência na 30ª edição do The Best of Newspaper Design do SND (The Society for News Design) e foi indicada 5 vezes ao Prêmio Folha. No Mausoléu, desenhou com intensidade o lugar das palavras do poeta. De olhos sempre bem abertos.
Alguns de seus trabalhos gráficos estão em www.flickr.com/photos/fergiu
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a editora
A
Editacuja surge de um livro imaginário. É uma editora que se personifica naqueles que produz e publica, entrelaçando pessoas e saberes. Através de conteúdos e tecnologias, usa a criatividade e a inovação no desenvolvimento e adaptação de idéias que possam encantar, sensibilizar e educar. Com foco em ações educacionais e culturais, a Editacuja possibilita que artistas, entidades educativas e empresas apresentem suas realizações e materializem suas idéias em múltiplos meios: celular, web, impresso e áudio-visual. Projetos realizados com compromisso e cuidado artesanal. Para realizá-los, conta com uma rede multidisciplinar de colaboradores, que compartilham o talento, uma formação sólida em sua área de atuação e, principalmente, uma visão de mundo otimista e transformadora. Profissionais que acreditam na importância da afetividade para o desenvolvimento de um trabalho. Para o Mausoléu, coletânea de João Miguel Moreira Auto, poeta inédito que muito nos orgulha apresentar, convidamos a Fernanda Giulietti para desenhar o cenário do livro e Paulo Ito para ilustrá-lo – artistas que merecem nosso agradecimento e admiração.
Ditosos: que têm boa dita, venturosos, felizes, afortunados. Visite-nos: www.editacuja.com.br
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soneto manco
Há neste uma estrofe em branco que vale mais que o poema já que o soneto está manco: manco na forma e no tema. Se isso em ti provoca espanto tens alma fraca e pequena: não suportas minha pena, nem pro Nada tu tens canto.
Essa estrofe, meu amigo, é o próprio caroço d’alma atirado no abismo sem fim...
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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009 ***
Este livro composto com as tipologias Sabon e Perpetua Titling, sob papel Off Set LD 120 g (miolo) e Supremo LD 250 g (capa), impresso pela Citygráfica de Campinas, SP. Finalizado em São Paulo, no outono de 2009, na lua minguante.
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Aqui escreveu João Miguel Moreira Auto (1974 - )
Seja bem-vindo neste quarto velho em que pondero na vida com langor, onde mulheres lindas largaram seu amor e homens sábios vêm pedir conselho. O quarto é velho; e o habitante, um jovem a envelhecer sob o martelo da dor. Bem-vindo seja, seja lá quem for... aqui, só os papéis nos ouvem. (...)
isbn 978-85-62473-00-5
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