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dailha

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[ ] da i l h a B e a t r i z

B a s t o s


DA ILHA Beatriz Bastos


[ Edição ]

Érica Casado [ desenhos ]

Jakub Vasícek [ Projeto Gráfico e Diagramação ]

Fernanda Giulietti [ Revisão ]

Leandro Salgueirinho Liliana Cabral Bastos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Bastos, Beatriz Da Ilha / Beatriz Bastos – Rio de Janeiro: Editacuja, 2009. isbn 978-85-62473-03-6 1. Poesia brasileira. I. Título 00-00000

cdd-000.00

Índice para Catálogo Sistemático: 1. Poesia: Literatura brasileira 000.00

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Atribuição - Uso Não-Comercial - Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil.


DA ILHA Beatriz Bastos

Rio de Janeiro 2009


Ao Leandro


[De lรก]


narcissus delphiniums gérberas rosas pentecostes violetas não orquídeas viburnums doces ervilhas crisântemos copos de leite que aqui são calla lilies lilies dill artichoke

[11]


Temptation

[12]

Tempte-se. Arranque as pétalas feias, arranque os galhos-bebês tire o excesso e preencha em volta com folhas verdes e galhos e outras peças que se ajeitarão agora tudo que vejo na minha frente são caules acumulados. Não, já não são mais flores é este movimento com as mãos centrífugo um galho depois outro e outro uma gérbera amarela uma laranja uma rosa esbranquiçada uma após a outra segure firme com as mãos, sem apertar muito distancie do corpo para que os olhos possam ver redondo, está? Quase, assim, umas folhas mais à direita, sim, quem sabe ainda uma outra pionísia, destas já muito abertas prestes a murchar num buquê vão.


Nota-se? Ele lambia minha barriga ontem. Molhava com a lĂ­ngua, depois puxava com os dentes. Tomei banho de banheira. A Inglaterra ĂŠ uma ilha. O mar ĂŠ um quarto [13]


The florist

[14]

Trains machines so unlike flowers black women and tulips for the Chinese who love tulips even on sad occasions I sit still on the stairs under stars under flowers trains and sounds from the earth back to the earth powder not pounds cut alive busy not old oh so sweet oh so lovely oh so lonely earthly scenes soon die.


Ainda não houve revelação alguma, os gatos daqui são como os de lá. [15]


Daqui, de costas para este pedaço de janela, vejo um reflexo gasto de luz numa tarde nublada onde a miragem é o fantasma de um gato. O gato sumiu. Agora se confunde com a fumaça insistente de um cigarro. Sem aviso. De noite vêm os sonhos, nos sonhos o gato de sorriso estridente. O gato-cachorro, nos alertando para o dia. Até que se vai. Cumpre-se o descumprido. Algo se perde a cada vez. Por pouco não notamos. Ouvi seu choro discreto na cozinha. Não soube o que falar. Embora tenha acabado de ler uma estória onde a menina um dia vai e não volta. No meu sonho o rosto voltava e trazia um sorriso estridente. Eu no sonho sabia que não consolava. Dor de pedra.

[16]


Strange HORIZON in which to YOU I write far TOO close made to feel smell TOUCH or close one eye and LOOK [17]


Quando se olha para o centro dele parece um grande olho, a pupila preta dilatada, micropontos negros formando os olhos, captando certa nuance de preto, marrom e azul marinho. As pétalas amarelas são gigantes inexplicáveis. As folhas verdes, vastas, o caule grosso. O girassol olha o sol. Astronauta de botas de vidro e folhas por braços olho intergaláctico.

[18]


Você compra um presente, diz que os dias são pálidos. Eu concordo no meio de tanta nuvem. A cama é a única geografia possível. Cheiro de gato. Há dias sem banho, mas sempre cheiroso. [19]


Eu posso sentar aqui nesta mesa, olhar estas flores que eu comprei há duas semanas, ou pouco menos, e agora eu já não sei exatamente se desabrocharam o que podiam. Algumas delas ainda estão meio fechadas, e uma delas já começou a murchar. Sobre esta flor, única com o caule mais longo, de pétalas brancas e centro amarelado, o que dizer dela, se não que uma de suas pétalas já caiu, mas ela ainda está branca, e vou deixá-la neste jarro por mais uns dias, talvez ela viva mais um dia, dois, três, e vou esperar que com o tempo, com o movimento das pessoas na cozinha, as pétalas caiam, sobre o passeio do gato, uma a uma.

[20]


Chat

Such nice flowers! Do you have any fake ones? No. It’s for my flat, you see. I’ll be away for a while, But I still want it to look nice. * Is it gift wrapping for the roses? Sorry, huh? Gift wrapping? Actually, it’s for a funeral.

[21]


No quarto andar está bem melhor. Tem uma janela grande de onde vejo toda a vizinhança e o falso céu escuro da cidade, ocupado de aviões e luzes que se espalham por quilômetros e um varal com lingeries vermelhas. A planta reviveu facilmente depois que dei a ela um pouco d’água, mesmo que só por mais duas semanas.

[22]


O amor Ê inventado? Como um pedaço de lua, ao seu alcance, invento que te amo a cada passagem. [23]


Palavras descalças no chão frio sob os pés. A manhã é um precipício. Sigo sobre um fio tênue, linha em paralelo, em cada mão carrego bagulhos, coisas perdidas e achadas, que às vezes eu largo como olho aberto no escuro. O gato sabe e apenas mia. E pára e mia outra vez. Quando levanto, sorumbática, para lhe abrir a porta, depois a outra porta, abrir a janela e deixá-lo sair o mais rápido possível, antes que o frio atravesse meus ossos.

[24]


Respiro o silĂŞncio da casa. Lata de queijo vazia, o sol que nĂŁo vem, a ferrugem nas cadeiras de metal regada de folhas laranjas.

[25]


O amor ĂŠ um terreno? Abandonando amores-perfeitos compro flores para outros homens. [26]


I close myself in the room. I don’t wanna hear no footsteps. No noises. I don’t wanna hear no giggling. I don’t want music. I don’t want no bird singing. No airplanes, no gifts, no lights, no winds, all I want is silence. The white sheets. The space in which within. The old fellas playing on tired strings which I didn’t get to listen to last night. A soundless image. My eyes have been closed from now on to forever. The rain is silent. There is nothing, nothing left.

[27]


Obscena. Praga e alguns dias de solidão me deixaram sonhando com beijos luxuosos e carícias. Sonhos perigosos. As coxas nuas do menino na porta ao lado. Certo constrangimento pela manhã diante de um desconhecido. Se ele soubesse as mãos que sonhei. Um dia se passou quase inteiro em silêncio. Algumas palavras trocadas com estranhos, “uma cerveja, por favor”, “a conta”, “onde é o banheiro?”. Caminhando por esta cidade como se ela não fosse de verdade de tão bela e diferente. A língua tcheca aumenta a irrealidade das coisas. Pernas cansadas, encontro o que queria. Poucas fotos, pois tudo é cartão-postal. Quero o músculo, o cheiro, o inteiro. Tudo em que sonho avesso. O silêncio me faz pornográfica.

[28]


Londres assalta a falta de estar em mim. Eu tateio, tateio e tudo permanece nuvem.

[29]


Alheio vulto

[30]

o lenço caindo da poltrona era você? lenço.


Cada vez mais

com o tempo minhas dĂşvidas se tornam pĂŠtalas.

[31]


Rosa desfigurada

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carícias matinais quando não dizias que me amavas com todos os gestos o sorriso abrias pétala por pétala eu que antes em mim habitava agora em ti deságuo


Quando percebi a neve e o chão coberto por uma camada de gelo, comecei a andar e me dei conta de que desconhecia o gelo e não falava a língua e andei até as cabras e recuei quando todas pararam estilizadas feito num cartão-postal de um lugar com nome de baleia. Eu não estava mais chorando, mas subi sem jeito num tronco enorme e caído e coberto de neve, e talvez ainda levasse um cigarro nas mãos, o que tornava meus movimentos ainda mais imprecisos. Eu tentei falar com você, mas foi tudo como numa cena ensaiada de filme, e nem reparamos que você já estava num lado da cerca e eu no outro, quando eu caí, e meu silêncio espatifou-se em pedras de sal, eu caí e foi apenas uma parte do tombo o seu gesto no meu rosto, e foi a continuação do tombo você me perguntando, “então, é por ali mesmo que você vai?”, e eu fui, e houve o episódio das cabras, o tronco e o cigarro, até que encontrei um banco, um banco na beira da estrada, onde sentei, onde sentei e fiquei de cara pro sol que era quente e me esquentou, nem entendi

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sol tão forte no meio de tanto gelo, mas me contentei e fiquei sentada no banco e depois de um tempo, deitei no banco – sim, era ainda melhor assim, e foi um alívio, foi, ai, estas coisas simples, eu fiquei pensando no susto das cabras e senti sede e tive a idéia de beber neve, o que parece muito lógico, mas não pra mim, na minha terra nunca se ouviu falar de gente que bebe neve, e pensei que aquela neve ali estava boa, aquela bem fresquinha em cima da grama, branquinha. Depois voltei pro banco, mas eu estava tímida, com medo de um banco na beira de uma estrada, só por causa dos carros e das pessoas que passam, que te olham, que na maioria das vezes não te perguntam nada, e te deixam em paz como se não fosse assunto delas, e você insiste, você só encontra paz no banco da estrada.

[34]


K

K is like an elastic band comes and goes he is a man though he is a boy I sit on his lap I sit on his cock I have lied down on his body possibly everywhere there is to lie and impossibly slept over him like a cat. K is a cat he sits and does nothing he plays his strings he is very serious but smiles beautifully. I do not know K K is a question K wanders

[35]


K says he does not know he knows what love is K reads the papers. K is an eye dark green sea K travels to warm distant lands and with the warmest hands to close, here inside me.

[36]


Me tranco mais uma vez enquanto as italianas falam. Até hoje, porém, a voz do outro lado do muro chega numa língua que não reconheço. Mesmo que já tenha ouvido russo, português e árabe. Os vizinhos mumbulam enquanto me faço em pedaços. Flutuo tempo e espaço. Num eco vazio e estranho. Precipício, antes de começar, depois do fim, tento apossar-me de uma lembrança, qualquer lembrança.

(eles andaram furtivos pelo parque de noite, e lá de longe, do escuro, ela podia ver os carros passando a uma distância que apaziguava o ar frio entrava em seus poros verde musgo)

[37]


The Japanese Deceit com Hans Lucas

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She comes here quite often. I remember her coming here ever since I first started working at the flower shop. At first she came many times asking if the credit card machine was working. It never was. It reached a point when it became annoying, this Japanese girl who acted like a nun, reserved and overly reverential, and always asking the same dumb question about the credit card machine. Finally, many months later, the credit card machine got fixed and since then she comes regularly to buy flowers. She came in the other day and asked if we had any, “Gaberas?” “Which ones, sorry, what did you say?” Gerberas, I figured. “The ones that look like giant daisies,” she offered politely. “No, sorry. No gerberas today, we always have them but today we don’t. The boss forgot to buy them at the market.” Then she asked if I had some wrapping paper. “I can pay,” she said. “Yes, that’s fine. There’s no need to pay.”


I was so bored that day I would have paid someone to give me something, anything to do. It was ridiculously dull and there wasn’t even a way of making coffee at the flower shop. I had already smoked far too many cigarettes, which left me with fuck all else to do. There wasn’t even an old newspaper to read. The paradox was though I was happy enough, satisfied let’s say. I was just waiting for some entertainment, or a distraction, but I would have remained just as indifferent had she not come into the flower shop that day. “I have orange gerberas, what colour paper do you think will go cute with orange gerberas?” as she pulled out flowers she had already bought elsewhere. Go cute – it almost broke my heart. I felt like I would do anything for her. Even wrap flowers she had bought elsewhere which my boss would never approve of. I melted like a child and entered a retarded world of “Go cuteness!” I was content. She made me feel happy with our small, shared deception. I started cutting the brown wrapping paper, which we chose in the end instead of the

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pink paper, which was decided that although cute would be a bit too much for orange gerberas. I was about to cut the paper to shape when she asked: “Do you have some of that wrapping paper?” I wouldn’t have understood had she not pointed towards the ribbons we use to tie bouquets. “Sure, you can have some of that as well. It’s not a problem, there’s no charge.” Then, leaving the greater part of her habitual self aside, she asked: “If I bring them there, to the counter, the flowers I have, will you wrap them for me?” As I said I really had nothing to do, so: “Yes bring them over, no problem.” She came over with her six or seven orange gerberas and two stems of this green plant with few flowers. I made them into a bouquet when she added: “You don’t have to use all of them if you don’t want to.” “No, no problem.” I wondered if she would like to add any more flowers. “No! No, please, sorry, no. It’s a present for

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my friend. She doesn’t like big things. She likes gerberas, she loves gerberas. Just very simple, just make it very simple.” I got on with my three-minute job while she thanked me many, many times saying how kind I was. How sweet it was of me to do it. Thank you so much she continued and kept smiling, sincerely. I finished the job and charged two pounds for the greenery I had used. She handed me three pounds, adding: “It’s for you”. She thanked me again and repeated it so that I started feeling stupid, gratified and infantile again. It was sickly but I just felt nice and sweet and ridiculous. I felt fine. She left the flower shop and I tossed the two pound coin inside my bag. It had really only been one pound worth of greenery that I’d used in her bouquet. I thought, well, two pounds is two pounds, that’s how it goes. And then it was time for another cigarette break.

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[Daqui]


Desde que nasci te escrevo estas palavras seus olhos, algo seu, algo meu, que ao escrever te prendo, te liberto, para sempre na minha pele como em palavras nuas.

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A solidão cresce macia os espaços da casa se alargam mudo os móveis de lugar em busca de um novo ângulo a cama cresce faço caretas no espelho os olhos continuam os mesmos meninos jogam pelada fazem barulho espio atrás das venezianas e a cada dia escuto mais mas na escuridão quando a noite vem escuto apenas o ruído do ventilador de teto.

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O vestido dela era amarelo feito cor de jabuticaba feito Manuel Bandeira e sua voz anasalada ao ler PasĂĄrgada e mesmo que fosse bonita, mesmo sendo bonita, a leitura em voz alta, o s om do poeta, era ainda mais bonito quando sĂł palavra impressa preta pequena num livro velho folheado guardado amarelado esquecido a voz do poeta sĂŁo letras

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Guardo a sílaba. rolimã A criança [48]

passeia.

coração


Recado: Em cima do vaso grande, embaixo de um potinho de plรกstico. Perto da porta da cozinha (sem planta).

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Peixinhos

[50]

Que dia triste. Ganhei um casal de peixes. Peixes pretos escuros. Nunca tive peixes nem sonhava como cuidá-los. Mas disseram que estes peixinhos eram simples, peixes de poça, só precisavam de um pouco d’água. Coloquei-os em uma bacia transparente. E coloquei uma planta. E estava começando a admirar a pequena beleza dos peixes pretos e escuros na bacia. Não levo mais que um minuto para começar a adorá-los. E chamo alguém para ver, pensando – ter peixes! Mesmo que sejam estes peixes pretos... escuros. E num apuro, como quem quer demonstrar amor por alguém que já se sabe amado, por um exagero, ou simplesmente porque sempre tive as mãos desajeitadas, resolvi tirar um pouco da água do aquário. Afinal, eram peixes de poça. Não sei como soube que morreu, olho de peixe morto é que não tinha. O peixe preto coloriu-se todo. De vermelho, verde, azul. O peixe morto embelezou-se, do preto do dia-a-dia, agora morto, encheu-se de cores. Para que nós, os vivos, o soubessem. E foi assim, por esta estranha lógica, que soube, entendi, que quando peixe preto e escuro se apruma e colore, se faz visto, é que morreu.


Lua escrita

Suspiras. Perdoa se já não posso contê-las as palavras e fazes ar de cansado, de quem já me sabe tanto, e queria que eu chegasse aí na cama, ao seu lado, mas hoje não é noite para se fechar os olhos. Ouvidos muito atentos faço uma fogueira, que, embora invisível afasta mau-olhado e atrai palavras, desejos suspensos, rumores de terra e céu, com uma certa beleza, de noites silenciosas, de amores de rua. Perdoa, meu bem, se hoje, não sou sua.

[51]


O gato

[52]

me olha do fundo da cozinha. Seus olhinhos brilham, e lá vem ele aproximando-se outra vez; vai se enroscar nos meus pés, pedir algo que se diz apenas com um miado – que eu não entenderei – mas passarei minhas mãos sobre seu pêlo, direi também palavras dessas que não se entendem, e depois ele se deita e se enrosca um pouco mais. Ele me olha, não sei o que vê em mim, talvez companhia noturna, como se eu fosse gente como gato para quem não houvesse noite nem dia. Nos fazemos companhia. Os gatos têm lá seu jeito de pedir as coisas, é feliz aquele que as entende. E agora sou como o gato que, de um jeito sem palavras, pede. O gato responde de um modo disperso, me deito, ele se afasta para outros afazeres, mas depois volta. Tento colocá-lo ao meu lado, mas ele não quer, levanta, procura o espaço entre as minhas pernas, e é ali, entre coxas, pernas e sexo, que ele fica. Não levo a sério malícias de gato, mas com seu instinto felino, quer as coxas e as pernas, e aqui, deita-se. Cochilamos. De repente acordo. Bruscamente levanto-me, esquecida do gato entre as minhas pernas. Ele se levanta,


passeia para longe, eu acendo um cigarro, busco um papel, tenho a caneta. Escrevo palavras outras. Hoje, nesta noite nova, com mais esperança do que todas, a rua silenciosa, hoje, o que me cabe, são dois olhos, brilhantes, de um gato, que agora me olham, mudos, muda mulher, mudo gato, mutuamente, dois pares de olhos se olham como sábios, com a tranqüilidade de quem sabe que pedidos são sempre atendidos. Há noites em que o pedido é um gato. E as pernas se enroscam.

[53]


Prima, as maria-sem-vergonha já se abriram todas esperando sua chegada amanhã, arrumei o quarto, passei spray de lavanda pra dar cheiro. Só falta a louça. Os meninos chegaram, está azul e todos te esperam. Prima, você chegando é um pouco como eu chegando também. Prima tem manga te esperando lá na casa da vovó. Prima furacão, já viu? Eu tenho. Cor de violeta, ultra-marinha, prima Caracolina.

[54]


All-star

Ainda calçada, desfaço o cadarço, lentamente. Penso em pés e gatos que fogem por caminhos incógnitos. – O hóspede italiano e suas duas amantes disseram que viriam no mesmo dia? Há no vinho qualquer esperança senão desolação e um ritmo que apenas, palidamente, apreendo. Largo a teia jogo os cadarços ainda não desfeitos todas as estrelas no chão.

[55]


Belleslettres

[56]

Ora, Ana, qual não foi minha surpresa ao perceber que não só eu mas que é hábito entre estudantes de letras dedicar-lhe não sei quantos mil poemas dedicatórias póstumas rabiscos presos para sempre com pauta, sem pauta pouco importa em cadernos a linha se coloca. Ora, Ana estes poemas não são meus estes poemas são de todos só espero que nem todos tenham este péssimo hábito que tenho de colar, de adorar ler com rabo de olho, os cadernos dos colegas.


Poemas Ana C. ao leo M.

Nos seios de Ana C. me vejo pálida face abstrata do poeta que não fui e que chutou em baldes a vida passando ao lado. * Os seios de Ana C. para quem o prosador bolinou um poemeto espermas e mel em que me farto escorrem das minhas pernas e dedos que não sendo poeta chupo depois. * Sugo o leite dos poetas a bela sem a fera Paris no anos 30 andarilha pilotis reflexos nostálgicos do que eu nem ela sou. [57]


Síndromes Ana C.

[58]

Carne fraca do poema face loura anjo azul mas sei que o que me liberta é esta superfície sacana pois mesmo que fique anos sem sol é “ô morena, ô, gostosa”, que falam na rua depois.


As sweet as it gets

A gata já chegou dando lições OK. Finjo que aprendo, me saindo uma ótima dona de casa leituras do avesso poesia devassada parei de me arrastar agora desssssslizo.

[59]


Três poemas sobre o pó

Volto ao pó, entre tragadas na praça e o canto do chinês ao ar, à tarde tudo são cantos alheios num vagão de trem. * Bebo coca-cola faço chá. Ela sonhou que morava a alguns passos do mar por duas noites seguidas. Os casais vizinhos vivem a brigar não é mar, é criança preta e gorda. Já não cheiram mais. * Cheirei três vezes na primeira na Bahia virei noite peguei ônibus dia noite madrugada adentro pra chegar na Diamantina

[60]


sexo com um homem que tinha um pau enorme e transformava-se ao inalar na segunda Icaraí bobagem amigos bobos tagarelice dia seguinte segunda trabalho na terceira Flamengo dois amigos um banheiro pra não ter sono volta a pé pelo Aterro belo belo belo se não tivesse me esquecido dois amigos eu cama o ascensor para o cadafalso um amigo se levanta um me toca mas afasto dedos noites dia não.

[61]


Ciúme

Flecha vazia de além-mar pego um barco e vou te ver? Peito vazio em flor.

Papéis rasgados, cartões-postais que escondo chegou a carta? chegou meu amor?

[62]


Não se pode ver nada: neblina e pedras e arbustos, neblina, noites e pedras você só descobre quando entre os imensos rochedos a cada cinco passos você se perde no topo do mundo neblina e pedras você anda cinco passos e se não puder chamar por uma voz que te indique o caminho você poderá a cada cinco passos de neblina e pedras nunca mais voltar.

[63]


O amor é uma saudade? Já ouço, ao longe o rufar dos tambores os fogos as explosões os sinos anunciando uma chegada. [64]


Hoje quando acordei a primeira coisa que pensei foi nos seus dois olhinhos redondinhos cor de mel e a pequena mancha branca do olho esquerdo. Lembrei dos seus sapatos de couro bom dos seus dentes tão bem cuidados em como você diz ‘querida’, em como você me apresenta à família. E quando te vi reconheci os sapatos mas os olhos, meu querido, sempre tão redondinhos cor de mel dois olhos e a pequena manchinha – seus olhos pareciam de cego.

[65]


Luz noturna, a lagoa se faz misteriosa em seus entornos. Um pássaro na mão, dois voando capto seus sons como deixas queixumes de santos aritmética de pastores demoram-se muitos e muitos anos.

[66]


do Rosa

Descrições explícitas. Do amor, os pormenores. Cabeça de boiadeiro tão exato no preciso dos quereres e dos não-se-sabe. Leitura que joga luzes, ausentes, eu mesma meio Doralda meio Soropita. Tô devendo? Mereço? O que é certo, o que se faz do amor paz grande, loucura igual. Em meu peito de homem que bate bate bate mansidura quente feito perfume degolado das flores de jasmim, feito cheiro de mulher em seus braços carnuda flor amoral.

[67]


Os dias se despedem das noites os pombos namorados pessoas são como pássaros. Vagueio Não, não penso que tudo é fundo de mar escuridão cantar de sereia abaixo dos peixes coloridos e dos arrecifes no fundo das águas me calo.

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[de lá]

narcissus [11] Temptation [12] Nota-se? [13] The florist [14] Ainda não houve [15] Daqui, de costas [16] Strange [17] Quando se olha [18] Você compra [19] Eu posso sentar [20] Chat [21] No quarto andar [22] O amor é inventado? [23] Palavras descalças [24] Respiro o silêncio [25] O amor é um terreno? [26] I close myself [27] Obscena [28] Londres assalta [29] Alheio vulto [30] Cada vez mais [31] Rosa desfigurada [32] Quando percebi [33] K [35] Me tranco [36] The Japanese Deceit [37]


[daqui]

Desde que nasci [45] A solidão cresce [46] O vestido dela [47] Guardo a sílaba [48] Recado [49] Peixinhos [50] Lua escrita [ 51] O gato [52] Prima [53] All-star [54] Belles-lettres [55] Poemas Ana C. [56] Síndromes Ana C. [57] As sweet as it gets [58] Três poemas sobre o pó [59] Ciúme [61] Não se pode ver nada [62] O amor é uma saudade? [63] Hoje quando acordei [64] Luz noturna [65] Do Rosa [66] Os dias se despedem [67]


[Nota sobre os desenhos] As imagens usados neste livro são do tcheco Jakub Vasícek. Na última vez que o vi, em 2006, morava no Hampstead Heath, um parque de Londres. Certa vez ele me deu um caderno, repleto de desenhos, lições de inglês e de português, cartas, poemas, traduções. São fragmentos deste caderno que reproduzimos neste livro.


[A autora]

Beatriz é carioca, nasceu em 1979 e mora na Glória. Mas já viveu em outras terras, de língua e sol bem diferentes. Entre escritos autorais, está concluindo um mestrado em tradução de poesia. Gosta de Velvet Underground, Pasolini, Chagal, Nina Simone. Da Ilha é o seu quarto livro. Beatriz publicou, também, Areia (2003) e Flor de Sal (2005) pela Acheronta Movebo e o Pandora - Fósforos de segurança (2006), co-autoria com Fernanda Branco, pela Editora Azougue.

Leandro Salgueirinho

Obrigada a: Carol Bastos, Chloë de Carvalho, Daniel Bueno, Fernanda Branco, Sérgio Lage e Thais Medeiros.


[a editora] Ditosos: que têm boa dita, venturosos, felizes, afortunados.

A Editacuja surge de um livro imaginário. É uma editora que se personifica naqueles que produz e publica, entrelaçando pessoas e saberes. Através de conteúdos e tecnologias, usa a criatividade e a inovação no desenvolvimento e adaptação de idéias que possam encantar, sensibilizar. Com foco em ações educacionais e culturais, a Editacuja possibilita que artistas, entidades educativas e empresas apresentem suas realizações e materializem suas idéias em múltiplos meios: celular, web, impresso e áudio. Projetos realizados com compromisso e cuidado artesanal. Para realizá-los, conta com uma rede multidisciplinar de colaboradores, que compartilham o talento, uma formação sólida em sua área de atuação e, principalmente, uma visão de mundo otimista e transformadora. Visite-nos: www.editacuja.com.br


Este livro foi composto em Colaborate Thin/Medium sobre papel NNNNNNN (miolo) e NNNNNN (capa) e impresso pela NONONNO de NONON, SP. Finalizado em São Paulo, na primavera de 2009, na lua XXXXXX.

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