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BRASA nº 04 (2017)

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Alberto G. de Martins Amanda Celio Ana Carla Vicencio Andre Salomao Gomes Carlos Romero Carolina Lemos Carraro Barbara Menegasso Carolina Lemos Carraro Cecilia R. B. Fernanda Borela Fernanda Borela Fernando Povoa Flavia Nascimento de Freitas Giordanno Nader Gladson Targa Gleuber R. Militani Alves Gustavo F. Monteiro Peixoto Karla Nascimento Barroso Leticia Vilela Lilian Salgado Luiz Zonzini Marcel Mujali Neto Cavalcanti Marilia Marcolini Marcel Mujali Patricia Lemos Carraro Raphael Vinicius Faria Renata Freitas Rogerio Sartori Rosemario H. de Souza

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Editorial

Quanto tempo se passou desde a última vez em que estivemos nestas páginas? 12 meses? Mais de um ano? Muito tempo para quem se dizia bimestral. Pois é, o impresso como prevíamos não prevaleceu. Simplesmente não rolou. Acontece. Foi um ano sufocado para muita gente, mas a sensação que fica é a de impotência. Esse mais sincero sentimento de fraqueza, em que olhamos para trás com a certeza de que enfrentamos muitos obstáculos para pensar em atear fogo aqui, agora. As nossas páginas provavelmente não entrariam nas labaredas das chamas. Tentamos o Catarse mas não atingimos a meta. Tentamos as doações de amigos queridos mas não foi o suficiente. O caos meio a crise, entretanto, foi também uma forma de nos reinventar, de seguir em frente mesmo com o pé no peito e a boca no coração. Fazer da angústia a nossa maior obra de arte, sabe? Lançamos esta publicação em formato apenas digital junto ao convite para uma edição especial totalmente artesanal, com 300 exemplares numerados. O lançamento desta edição singela, feita com as nossas próprias mãos, será em dezembro, como presente a quem nos apoiou - parceiros, apoiadores e colaboradores, aqueles que narram as suas histórias por meio destas páginas que construímos de forma independente. O BRASA ainda há de ser, aos trancos e barrancos de quem ainda em insiste em prevalecer. Uma pausa para a leitura desta edição que foi criada no sufoco durante inesquecíveis meses. Dissecamos o universo para expor os contornos de um mundo que exige pesquisa e reflexão. É o que sugere a arte da capa, feita por Elisa Riemer, em uma de suas coleções “Anatomia”. Por tudo isso, bem-vindo ao melhor do BRASA em tempos de cólera. fb.com/feitobrasa @feitobrasa feitobrasa.com

issuu.com/feitobrasa vimeo.com/feitobrasa youtube.com/feitobrasa

Boa leitura.


Sumário

Religiosidade p. 6 Educação p. 8 Boutique p. 11 Artista de Capa p. 12 Tapiocaria Gastrobar p. 16 Gastronomia p. 18 Gastronomia p. 21 Cachoeiro p. 22 Feito Brasil p. 24 Mens Sana In Corpore Sano p. 26 Chapada dos Veadeiros p. 28

Expediente:

Diretora & Idealizadora: Lívia Vilela Jornalista responsável & Direção Criativa: Carlos Gabriel Ferreira (0019607/MG) Desenvolvedor Front-End: Rafael Puga Estúdio Pivot Colaboradores: Isley Borges, Lara Rodrigues, Cissa Borges, Môni-

ca Hering, Carlos Gabriel Ferreira, Raissa Dantas, Lívia Machado, João Eduardo M. Vilela, Alexandre Saldanha e Victor Vieira Parcerias: Rotas da Chapada, Tapiocaria Gastrobar, Feito Brasil, Cachoeiro, Proper Burger, La Mesa, Cozinhando como Antigamente e O Boticário - Grupo Glória. Encontre mais conteúdo em www.feitobrasa.com

O BRASA é um espaço aberto para novas ideias e tendências artísticas. Para colaborar envie o seu material por correio ou no e-mail info@feitobrasa.com. Rua Bias Fortes, 340, Centro - 38440-008 / Araguari (MG), Brasil

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O fio do cotidiano Isley borges Jornalista e mestrando na área de Geografia Cultural pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sabe de tudo um pouco.

O fio do cotidiano são as relações sociais que tecemos na teia da vida. A sua família, aquela amiga com quem toma café nos fins de tarde, o colega que trabalha para viver, a companhia para idas ao parque em dias de semana, as pessoas com quem falamos ao telefone, o entregador que já lhe conhece e, também, a sua casa. São as pessoas e as coisas que nos cercam, e o que fazemos delas. É este o fio que nos faz suportar o tédio (do) cotidiano. Quando rompe-se, não sobra nada: trata-se de um estiraçar da subjetividade. Como se o que fizesse a conexão entre o público e o privado simplesmente desaparecesse. Farei como em outros textos e me autoetnografarei. A partir de um novo ponto de minha vida, falarei sobre acontecimentos anteriores que modificaram a compreensão que possuía sobre mim. Passei por agosto e setembro muito doente. Intoxicação alimentar, periodontite, alergias. Isso fez com que eu me distanciasse das pessoas e das coisas. Reuniões eram desmarcadas, músicas não eram mais ouvidas. Sem as minhas referências cotidianas, rompeu-se o fio do sentido da vida, pois trocas já não mais aconteciam. Por dois meses, assim permaneci: quieto, rompido, vazio de coisas e pessoas. Penso que até hoje permaneço. Há uma certa continuidade, um pacto com a enfermidade, que fará com o que o meu ano não seja dos mais agradáveis. Mas, em meio a tantos desprazeres, uma descoberta. Uma voz lá no fundo, bem lá no fundo, sussurrou que era o momento desejável para a minha primeira oração. Antes, nunca havia orado. Nunca havia pedido nada a uma transcendentalidade fantasmagórica. Sempre tive horrores de falar sozinho. E, quando pensava como era falar com Deus, me imaginava meio desajeitado, olhando para cima, com olhar de criança teimosa. Meio, assim, envergonhado. Fechei os olhos e pedi para que tudo se tornasse bom e bonito, sem dores e desconexões. Lembrei dos altares da vovó. Da forma sexualizada com que posavam os anjinhos barrocos. Do ocre e do dourado. Das flores rosa bebê e das cabecinhas sobressalentes nas nuvens azul celeste. Ouvi louvores presbiterianos. E, também, o batuque afro-brasileiro. Uma experiência ecumênica, devo dizer, e profundamente pura. Não há coisa mais pura do que a fé. A fé é a crença no (im)possível, é o indizível, o não vocabulizado. A mensagem que se encontrava em minha boca pedia conforto, implorava por tranquilidade e equilíbrio emocional. Não coloquei uma mão defronte para a outra, mas ergui-as bem alto. Como se erguendo-as, conseguisse alcançar algo. A oração fora a verdadeira súplica para o reatamento do meu fio do cotidiano. O meu fio, já desgastado, estremecia: - eu já não suporto mais esta condição! E por não suportar mais aquela condição de indignidade, facilitou a ti o elo. No âmago, todos nós sabemos orar, rezar, já que todo ser humano sabe pedir. Nascemos muito despreparados e o que sabemos bem fazer é pedir – a mamadeira, o abraço, o convite, a nova roupa, qualquer coisa. Aprendi, então, que a gente reza é quando a coisa aperta.

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Lara Rodrigues Formada em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e recém-aprovada no Programa de Pós-graduação em Estudos Literários, Lara quis ser professora – não imaginava que o caminho seria tortuoso e indefinido. Ainda bem que ela é dura na queda.

A vida toda estudei em escola de periferia. Fui a menina que se sentava na frente, tirava notas altas e era repreendida pelos professores apenas por ler livros de literatura em horários fora dessa disciplina. Eu era a garota exemplar, orgulho dos pais e dos professores. Nunca vi isso como virtude ou algo de que deveria me vangloriar, contudo. Primeiro, porque sempre gostei de estudar – ler para mim é muito mais um prazer que uma obrigação – e, segundo, por uma questão social, que eu não conseguia racionalizar muito bem na época, mas que já pesava sobre mim. Na minha casa havia uma mãe e um pai alegres e amorosos, além de algumas regras: hora de deitar para dormir, acordar, tomar banho, ir à escola, almoçar e jantar. Não era algo rígido e assustador, pelo contrário: essas normas vinham acompanhadas de muito carinho. Acordávamos de um jeito suave, o almoço sempre esteve ali, quentinho e na hora certa. Minha mãe estava constantemente checando os meus cadernos e perguntando se eu tinha “alguma dúvida”, incentivando-me em qualquer coisa que eu precisasse. Eu tinha um ambiente que me favorecia totalmente aos estudos. Meus colegas de sala, não. Principalmente os considerados “alunos problemas”: chegavam na escola com o uniforme sujo, o dever de casa sem fazer e ansiosos pensando no intervalo para o lanche. Eram inquietos e, conforme os professores, “desinteressados”. A história de vida da maioria era parecida: pais envolvidos com o tráfico, alguns presos. Muito dos meninos eram órfãos, se não de ambos os pais, ao menos de um. Havia, também, os filhos de mães solteiras, estigmatizadas pela sociedade por sua condição de “sem homem” e pela pobreza. A maioria desses meninos já trabalhavam no ensino fundamental para sustentar a si e a família. O que quero dizer com tudo isso é que apesar de todos os elogios dos professores e seus comentários sarcásticos de “ao menos há uma esperança”, nunca me senti grande coisa: se fui a melhor ali, era apenas por falta de concorrência. Meus “colegas-problemas” constantemente me surpreendiam pela sagacidade que demonstravam em diversos aspectos da vida, da escolar inclusive, mas é eles não tinham a autoestima e o incentivo necessários para querer se ater aos estudos – e aqui me refiro a qualquer estudo, seja ele tradicional, em que se encaixota o ser humano para ser sugado de alguma forma por uma multinacional; seja autônomo, em que o indivíduo vai julgar e contestar o mundo a sua volta; ou, profissional, em que me explicarei futuramente. Sorte da escola, afinal de contas, esse era o ambiente menos propício para abrigar cidadãos críticos e reflexivos. Com a consciência de que inadequada era a escola e não os ditos alunos “indisciplinados”, alimentei, no início da adolescência, o desejo de ser professora. Por ter lido tanto, aprendi a ter fé na educação e na arte. Então, indo contra a corrente – cuja direção ia para “áreas que davam dinheiro” –, tentei uma vaga na universidade federal para a área que me daria esperança de um mundo melhor. Fui para a Educação: me licenciei em Letras. Utópica, dirão. Sim, foi por utopia, por paixão. Nunca entendi o porquê dessa palavra ser usada em tons pejorativohs. O fato é: cá estou, professora e orgulhosa de assim ser. Dar de aula é, sobretudo, um prazer – mas orgulho não paga conta, não garante boa estrutura de trabalho e, se contribui para alguma

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evolução social, é em um estado micro. Há um bom tempo que a educação é desvalorizada. Nunca esteve cem por cento. O que era ruim antes, contudo, caminha para o insuportável. O governo vigente pretende “melhorar” o país cortando os poucos direitos que favoreciam o professor, como as férias de 45 dias. Implicaram até com o lanche – lecionar é uma carreira tão bem sucedida financeiramente que torna injusto o docente consumir o alimento enviado pelo governo às escolas. Entretanto, o que mais me chateia é: o retrocesso da educação espelha o atraso de uma civilização. Com as condições de trabalho do professor piorando, que tempo se terá para pensar em projetos sociais, políticos e artísticos voltados para a periferia e comunidades carentes? Em que momento o discente vai conseguir elaborar aulas interessantes, válidas, que dialoguem com o seu público? Sem verbas, como transformar o espaço escolar, literalmente aprisionante, em um ambiente favorável ao ensino e aprendizado? Como ter uma direção humana e eficaz ao invés de robôs preocupados em maquiar números? Aliás, quando o estudante e o professor vão ser considerados seres humanos e não contas (bem atrasadas) a pagar? De certa forma, entendo o governo. Bem aventurados os que choram, porque deles será o reino dos céus. Para que serve uma feminista na periferia? Uma mulher negra e feminista? Mais desnecessário ainda. Negros cientes de seu valor e apontado o racismo? Gay?

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Sapatão? Que moda é esse de trans sei lá o quê? “Vamos parar de adulterar o que Deus fez!”, eles dizem. E como assim falar de drogas? “Misericórdia!”, eles repetem. Esses drogados nem gente são, parabéns para o Dória lá em São Paulo, esse sim sabe o que é importante para se formar uma sociedade sã. Arte de periferia? Que safadeza é essa incentivar os discentes a ouvirem funk? Rap? Ô coisa do capeta! Pichação? Grafite? Bandido? Bom só se for morto – vivo preferimos o Datena, esse sim faz o mundo melhor. Deus nos livre, amém! Neste cenário, como fazer diferente? Como me agarrar à possibilidade de algum ser humano dócil que se senta na cadeira da frente, decora o que tem para decorar, ser avaliado com nota integral e me fazer sentir que meu trabalho está dando frutos apesar de tudo? (Claro, não há nenhum problema com os alunos da carteira da frente, estou apenas ironizando um estereotipo para fins estilísticos). Mas, e agora, qual o meu papel no mundo? Meu desejo é ser uma professora de todos e para todos. É transformar tudo aquilo que cria um “estudante desinteressado” em algo realmente de valor. É abraçar o menino carente (de dinheiro e de afeto) e lhe fazer ver o quanto ele é capaz, que ele merece condições de vida digna. Sonho, enfim, em ver a educação plena sem toda essa hipocrisia de sempre. Sonho mais do que eu deveria sonhar, se é que há uma medida para sonhos. Só que agora meus sonhos são contaminados de incertezas. Isso, contudo, não vai me fazer parar, como vejo que não vai parar os colegas de diversas licenciaturas que se graduaram comigo. Vamos continuar lutando. Greves e ocupações não pararão de existir, elas estão aí para isso. Temos noção de que é na educação que está a chave para um mundo melhor – e isso é muito mais que um clichê. Não é por um acaso que todos os entraves existem nessa área desde que me lembre por gente. Não sei se a (r)evolução esperada na carreira do professor vai acontecer na minha geração. Ou na outra, ou ainda na outra. O que importa é que farei alguma coisa. Se isso fizer diferença daqui a muitos anos, já estarei satisfeita, afinal de contas, a sociedade atual não está preparada psicologicamente para tão bem-aventurança. Ainda estamos caminhando. E é isso o que importa: caminhar.

“ Aliás, quando o estudante e o professor vão ser considerados seres humanos e não contas (bem atrasadas) a pagar? ”


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Especial//Capa

ARTISTA DE CAPA

A arte de Elisa Riemer e a jornada feminina do autoconhecimento

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Em maio de 2016, a NASA descobriu 1.284 planetas fora do Sistema Solar. Uma pancada no nosso coração que ainda sonha com as crateras da Lua e os anéis de Júpiter. Descobrir tudo que nos cerca é, quase sempre, partir para o desconhecido, mergulhar na incerteza da nossa existência enquanto seres vivos. É que, feitos de poeira estelar, somos o universo pensando sobre si próprio, imersos em matéria escura em seu fluxo astronômico. Na ocasião da revelação, uma das cientistas da agência espacial disse que “isso nos dá a esperança de que em algum lugar aí afora, em uma estrela muito similar à nossa, possamos descobrir outra Terra”. Enquanto dizia, imaginamos nós, a especialista preenchia os olhos de uma bela e pura satisfação de quem não aceita estar sozinha em um cosmos que expande a passos largos de gigante. Também não aceitamos: avistamos galáxias, explodimos em supernovas e criamos nebulosas em cores que nunca imaginávamos, pois assim conseguimos explicar o nosso instinto em buscar companheiras, compor espaços revolucionários e dialogar através de nossas histórias. Encontramos nos outros a matéria para a nossa autodescoberta. Foi com suas pares, no movimento feminista e na Marcha das Vadias, que Elisa Riemer começou a desvendar mais de si do que em qualquer outro momento de sua trajetória interestelar. Maringaense, Elisa já atravessou agências de publicidade até se tornar galáxia no universo da internet. O seu caminho foi através da política, na busca e luta por seu papel enquanto mulher lésbica na sociedade contemporânea. Aproximando-se das manifestações de sua cidade, Elisa descobriu as suas companheiras: foi com elas que Riemer aprendeu tudo, em conjunto, na coletividade auto-organizada. Neste espaço a artista criou, principalmente, cartazes para as Marchas das Vadias e Paradas. “Isso me alimentava muito. Era muito prazeroso ver que meu trabalho poderia ser usado como instrumento de transformação social”, ela nos disse. Em 2012, o seu cartaz para a Parada das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT) da cidade se tornou referência. Na peça, Elisa representou a Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Glória, referência arquitetônica de Maringá (PR), atravessada por um arco-íris - inspirada tanto no álbum The Dark Side of The Moon, da banda britânica Pink Floyd, como na bandeira do movimento LGBT. O arcebispo não gostou, os católicos se irritaram. A arte se espalhou pela internet, tomou forma e se tornou galáxia. Após uma conversa entre os organizadores da parada e o arcebispo, o representante religioso felizmente entendeu que o melhor ca-

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“ Avistamos galáxias, explodimos em supernovas e criamos nebulosas em cores que nunca imaginávamos, pois assim conseguimos explicar o nosso instinto em buscar companheiras ”

minho para contornar a situação seria impulsionar o diálogo entre a comunidade diante da LGBTfobia. Em média, a cada 26 horas um homossexual é morto. 2016 foi recorde de assassinato a pessoas LGBT, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB). O arcebispo indicou na época a criação da pastoral gay do Paraná, mas Elisa nos conta que não sabe se rolou, se a ideia foi para frente. De toda forma, atualmente há vários leds coloridos em volta da catedral. Pode ser um bom indicativo. Depois de lutar ao lado de suas companheiras, Elisa sentiu a ruptura. Mais do que do uma rachadura no movimento que ela tocava junto às suas companheiras, a artista abriu uma fenda em si. Era preciso voltar o olhar para dentro, descobrir quem era, explorar a sua própria nebulosa. “É muito engraçado acompanhar essa ruptura porque ela aconteceu em todos os lugares, nos mesmos anos, em um cenário político que mudou a vida de muita gente, principalmente de nós mulheres”, lembra Riemer. Às vezes a gente está muito no piloto automático do nosso corpo e esquece de enxergar o que estamos sentindo, para onde estamos indo. Este é o pilar do trabalho de Elisa: permitir-se sentir, em toda a sua essência, em toda

liberdade que a palavra l-i-v-r-e permitir; intensamente, sem tréguas, sem fugir do que o coração quer traduzir. O cerne da sua identidade está aí, junto a reflexão dos universos femininos e a vontade de construir sensações pautadas na diversidade. Além de se inspirar no universo, em todas as peças de Elisa você verá: há figuras femininas. Ela cresceu junto a outras quatro mulheres, apaixonou-se por uma aos seis anos de idade, são elas o que a artista mais conhece, mais entende e compreende. “O que me inspira é o cotidiano, as minhas companheiras que passaram na minha vida, me deixam histórias, que mexeram dentro de mim e deixaram uma herança”, relata. Elisa se posiciona como artista lésbica porque, bem, “tudo de mim pode ser tirado, menos o meu orgulho de ser lésbica”. As suas três coleções - “Anatomia”, “Astral” e “Tarot” - tocam neste cerne, nos diferentes desconfortos que elas podem causar nas pessoas. Essencialmente, elas ressignificam todas as figuras masculinas por representações femininas de extrema potência que, muitas vezes, foram esquecidas. “Temos uma parte da história da arte onde fomos apagadas, substituídas, então e acho que isso é um resgate de nossa ancestralidade. A gente só tá pegando o que é nosso”, Elisa arremata. Em “Anatomia”, Elisa nos diz que algumas peças foram feitas chorando, literalmente. Para conseguir representar o que estava sentindo, ela se permitiu sentir dores e amores intensos em cada órgão, desvinculada de suas espiritualidades e credos; enquanto em “Astral”, a artista observou as sensações durante diferentes tempos e espaços, tratando sobre os trânsitos do universo, as suas influências sobre os seus sentimentos e comportamentos e a nossa conexão com tudo que está acima de nós. Tudo muda. Em “Tarot”, a sua última criação, foi um guia que entrou devargazinho, pedindo licença, perguntando se estava tudo bem. Bonitas por demais, cada carta foi vivenciada, como um monomito, ao teor da Jornada do Herói. São conselhos das deusas do astral, em uma espécie de missão do que será vivido por ela na Terra. É maravilhoso quando mulheres se espalham para outras, em um círculo de reciprocidade. Foi assim que Elisa ilustrou a capa do livro “Me beija-flor ou eu te defloro”, da poeta e performer Patrícia Giseli; foi assim que toda a sua coleção “Astral” foi parar em um museu LGBT, com curadoria de Felipe Areda. Galáxias atraem novas galáxias. Para acompanhar Elisa, visite a sua página no Facebook (fb.com/liriemer) ou o seu site (elisariemer.com.br) - por lá, você também encontra uma lojinha com as suas artes.


CRIADO PELO BRASA

Em 2017 embarcamos em uma empreitada: Criar a identidade visual de um gastrobar que fosse a cara do cerrado e tivesse a essência do mundo. O seu nome pode ser um pouco óbvio, mas a sua essência tocou em nós: era preciso pensar no futuro e preservar o passado. A Tapiocaria Gastrobar surge dessa vontade de experimentar: novos lugares e novos sabores, aproveitando o melhor dos caminhos que nos trouxeram até aqui. Da farinha da mandioca à flor do aipim, do contemporâneo à cozinha de raiz, o nosso gastrobar é um lugar para se deixar flo-re-SER. Fomos a fundo: a nossa inspiração foi a mandioca - indígena, matéria prima da nossa própria essência. Ela está no pão de queijo, no beiju, no polvilho, na tapioca e também no tucupi. Ela está principalmente no aconchego mais nostálgico da nossa alimentação. A sua flor é rara, vista por poucos. Delicada, ela nasce até dos solos mais secos do nosso país tropical. A mandioca representa muito e, por isso, está em nossa marca em sua mais pura perfeição: o seu desabrochar. A Tapiocaria Gastrobar fica na Rua Elias Peixoto, 333, em Araguari (MG). Abrimos a partir das 19h30, entre terça e sábado. Venha!

@tapiocariagastrobar

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www.muzai.com.br

MUZAI


Foto: “Women & Food Stories”, Lee Price.

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afeto na cultura alimentar contemporânea

Cissa Borges Comunicóloga e escritora nascida em Uberlândia e radicada no Rio de Janeiro há 13 anos. Mãe de Caetano, ela vive nas montanhas da serra fluminense onde abre as portas de casa para experiências gastronômicas.

Adentro a cozinha estreita e comprida. O piso é de cimento queimado com uma capa vermelha, o rádio de pilha fica perto da porta, o fogão esmaltado de branco e rosa brilha. Minha avó se multiplica nesse espaço, especialmente suas mãos parecem muitas. Uma pitada de sal aqui, outra ali, mexe de cá, sova a massa, bate o suco, lava e corta os legumes para a salada. Misturados os cheiros ganham qualquer parte da casa – não há portas entre os cômodos e sequer existe laje então o território é livre para que um estômago desocupado comece a sentir a mais bonita das fomes. Antes do remate dessa coreografia já instalamos uma vigília barulhenta em torno das panelas. A turma toda está louca para comer. Esse ritual se repete seguidas vezes no percorrer do dia e da noite, variando apenas entre panelas, tachos, jarras, xícaras e fôrmas. Seus santos e circunflexos são fortes: fôrmas, rôscas, bôlhas, fôgo, côa. Todos nós estamos protegidos pela primeira cozinheira da minha vida, a vovó Marli.

Corta para dois mil e dezessete. É bem cedo, estou grávida, minha avó acaba de morrer. Pego o polvilho doce, os ovos, óleo, sal. Escaldo o polvilho com água e óleo, coloco os ovos, sovo a massa, acabo de amassar com a água até o ponto de enrolar. Frito em óleo morno. Só é possível resistir assim. Revivo o sentimento anterior para poder passá-lo adiante. Para mim não basta uma foto. A cultura alimentar contemporânea está atrás de sua espontaneidade e de suas raízes, sintoma de uma crise de pertencimento. A comida pronta, além de suas deficiências de origem e cultivo, não diz nada sobre afeto e não nos conduz para narrativas coletivas ou individuais, como os causos da cozinha da minha avó. Tirei uma foto dos bolinhos prontos e enviei para o meu tio. “Temos que manter estas receitas antigas. Delícias que não encontramos para comprar em lugar nenhum”. Eu e ele sabemos que essas receitas representam a conexão genuína do nosso núcleo familiar e que mantê-las significa reforçar a existência e sobrevivência da nossa aldeia, enquanto o tempo faz nascer e morrer. Parece que esse resgate é simplesmente uma saudade do passado e que a comida é um mero possível elemento nostálgico. Mas não é só isso. Esse passado ilumina o futuro quando a forma atual de consumir comida não faz sentido porque é esvaziada de convivência, de prazer e de saúde. A maneira de comer no presente foi inventada em benefício de uma indústria alimentícia que reforça minha falta de tempo e tenta mentir que o bolo de fubá pré-pronto tem o sabor da receita da vovó. Estamos cada vez mais conscientes sobre o poder da alimentação. Vivemos uma redescoberta da nossa relação emocional com a comida e queremos pensar as etapas: origem, produção, criação de animais, comercialização e consumo. Só assim para que essa geração saia da platéia dos programas culinários e volte a cozinhar. fb.com/lamesagastrobar

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Mônica Hering Mônica comandava o site “Receitas como antigamente”. Hoje ele se transformou em “Santo Legume” (santolegume.com.br), com receitas veganas toda semana.

Morei em São Paulo quase minha vida inteira, até três anos atrás. Em 2014 meu marido recebeu uma proposta de trabalho em São Luís (Maranhão) e resolvemos aceitar o desafio. Saímos de SP somente com malas na mão. Nada de mudança. Quem ficou cuidando da casa foi a filha (adulta, formada e trabalhando). A nossa vida nova começou em um flat e, em seguida, em um quarto e sala semimobiliado A cozinha minúscula com uma geladeira e um fogão. Parei de trabalhar pensando em um período sabático. Sonhei em ter todo o tempo do mundo para finalmente cozinhar tudo que tivesse vontade. Ironicamente, deixei para trás todas minhas panelinhas, gadgets culinários e livros de receitas colecionados ao longo da vida. E assim começou a maior de todas as mudanças: aprender o que realmente é necessário para viver bem. Comecei a escrever um blog para contar as minhas aventuras nos mercados locais, descobertas de novos ingredientes e como viver com muito improviso e criatividade em um lugar tão culturalmente diferente. O projeto acabou tomando uma forma bem mais ampla do que eu podia imaginar e foi se reinventando ao longo do tempo. Me vi aprendendo a escolher melhor o que comer. Eu tinha muito tempo para ler sobre comida e para cozinhar. Resolvi só fazer comida boa, comida de verdade. Pensei que mantinha, até então, uma alimentação saudável e equilibrada. Achei também que sabia cozinhar razoavelmente bem. Acabei descobrindo que estou só começando a aprender, no final das contas. Cozinhar é algo muito mais simples e fácil do que se imagina e dizem por aí, mas requer a alma presente. E mais do que isso: é preciso respeitar a comida, respeitar quem é alimentado por essa comida e respeitar o planeta que produz essa comida. A gente pode passar uma vida inteira cozinhando sem se dar conta disso. O blog também trouxe uma conexão enorme com o mundo. Conheci muitas pessoas incríveis, com histórias de vida inspiradoras e projetos para acreditar. Como bônus ganhei a possibilidade de compartilhar tudo o que venho fazendo e aprendendo! Um destes projetos é o Feito Brasa, de quem recebi esse convite delicioso para escrever um pouco sobre cozinhar e dividir receitinhas. santolegume.com.br

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Fritada de milho verde e abobrinha Rendimento - 6 porções Ingredientes 4 colheres (sopa) de manteiga 1/2 cebola cortada em tiras 2 espigas de milho verde debulhadas (ou 1 lata) 2 abobrinhas grandes fatiadas bem fininho (em torno de 4 xícaras) 1 colher (sopa) de manjericão (seco ou fresco) 1 colher (chá) de orégano (seco ou fresco) 1/2 colher (chá) de sal 3/4 xícara de queijo gruyère ou muçarela ralada + para polvilhar 4 ovos batidos Salsa fresca para polvilhar Modo de fazer Aqueça o forno (180oC). Polvilhe as fatias de abobrinha com sal e coloque em um escorredor de macarrão. Espere uns 15 minutos e aperte bem para retirar o excesso de água. Derreta a manteiga em uma frigideira funda, em fogo médio. Junte as tiras de cebola e refogue até ficarem translúcidas. Acrescente as abobrinhas e misture. Coloque o milho e refogue até que os legumes fiquem macios (5 a 10 minutos). Retire do fogo espere esfriar alguns minutos. Junte o manjericão, orégano, sal, queijo ralado e os ovos batidos. Forre uma forma redonda (usei uma com 23cm) com papel manteiga, ou unte bem. Coloque tudo na forma e arrume a parte superior com as fatias de abobrinha. Polvilhe um pouco de queijo e cubra com papel alumínio. Leve ao forno por 20 minutos. Retire o papel alumínio e asse por mais uns 5 a 10 minutos para dourar. Espere 10 minutos antes de desenformar e cortar. Polvilhe com salsa fresca picada no momento de servir. fb.com/santolegume

@monicahering


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Cachoeiro Grupo de cinco pessoas loucas que rodeiam o Triângulo Mineiro em busca de cachoeiras de tirar o fôlego.

O Universo é muito sacana. Aposto que ele joga a primeira versão do The Sims em um Windows 95 e mata os personagens na piscina; aposto que ele gosta de um cutuque na ferida e uma esquizofrenia na avenida às quatro da matina. Pro Seu Universo eu grito bem alto – mas com carinho: maldito masoquista! Estávamos nós ali, pulando a cerca, atravessando a rodovia para encarar a nossa nova descoberta. O meu destino vibrava com o cu apertado: “agora vai”! Saímos às 11h do tradicional posto de encontro do Cachoeiro. Baguete de frango na mochila, água de dois litros na cacunda e em direção ao destino da cachoeira Mandaguari. Percorremos o mesmo caminho para Mirandinha e Britador, na rodovia em sentido a Indianópolis, mas entramos no trevo da cidade, logo após o ponto de ônibus escrito Asoozeta (que zoeira!), no km 579, e voamos numa estrada sem acostamento até passar o Ribeirão de Furnas. Nossa amiga Raissa é uma Schumacher, não brinca na pista. Depois de alguns cinco quilômetros estávamos ali, de carros estacionados, preparados, atravessando a estrada com Leandro Araújo, visionário das cachoeiras, que nos acompanharia nesta expedição rumo a 30 metros de queda em nossa visita. Pulemos a cerca pois então. Nela está escrito em arranhados “Japa Didi”. Só o Universo sabe o que isso significa, mas passa embaixo e sai rebolando. É uma estrada de terra que segue para o horizonte e Sra. Bondade que vem gritando. Ela se importa com a sua propriedade privada, é dona dali com seus olhinhos castanhos. Não nos serve café na recepção, nem um biscoitinho de polvilho, mas é ela quem garante uns carinhos nas nossas pernas. De antemão: ela não morde, só faz cara feia e oferece as costas pr’um carinho. Bondade é de toda pelagem bege e adora uma conversinha jogada fora. Ela late, diz para você voltar, mas acaba retribuindo o convite à cachoeira e abre a passagem. Já no caminho de terra dá para escutar a música que vem da natureza e, logo ali, quase no fim da trilha, há uma bifurcação: pegue à esquerda e aproveito o ofurô, a gente sabe que você gosta projetocachoeiro.com.br

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de um descanso. A primeira queda da cachoeira Mandaguari é boa para molhar os pés, para aproveitar o vento na cara. Seja ansioso assim que chegar: olhe no precipício e veja o que te aguarda logo abaixo. Quem sabe um arco-íris fique ali no resguardo. Para chegar na parte de baixo, basta subir a trilha novamente até a bifurcação e descer à direita. A trilha continua mata adentro, não tem como se perder. Nós do Cachoeiro descemos. Veja só: a segunda trilha é nível hard, é para descer com a bunda quicando, we are stayin’ alive. Não se apavore, disseram as boas bocas mais tarde, no Facebook, quando postamos nossas selfies na timeline, que há um segundo caminho com bambu para ajudar na descida. Não sabemos a sua localização, mas mesmo que soubéssemos teríamos preferido essa mesmo que você confere no vídeo (disponibilizado aqui por meio do QR Code), a que precisa de um cipó nas mãos e um Tarzan salva-vidas nas costas. A gente gosta d’um manda-me-parir e d’um me manda pesquisar shopping center. Por isso descemos por essa revanche de terra, porque parte de nós é dificuldade e a outra também – senta conosco e chora, Clarice! Depois de deslizar ladeira abaixo, chegam as plantas, os buracos de minhoca pr’outro universo, a fase do Mário subaquática. É o Universo brincando com a gente, apertando o chicote e gritando que agora é hexa. A trilha que segue logo após a ladeira de terra é de botar medo: a gente aqui, na casa das jiboias, não queremos nenhuma rastejando pelas plantas de dois metros ao nosso redor. São alguns minutos de aventura na selva com ajuda de Leandro, no sufoco de não cair. Observar a Mandaguari ao fundo, ao contraste do verde, é quase sufocante: a gente quer é chegar logo, se jogar na água fria e aproveitar tudo o que esse lugar tem a oferecer – não é no quintal de casa que encontramos a loucura de alguns metros de queda. Chegamos: no barro, cansados, atolados, mas, sim, grandes, imensos, felizes, aqui e agora, na aventura de simplesmente existir. Aproveitamos tudo que o lugar tem a oferecer e nosso roteiro fica mais feroz. É isso. Universo, obrigado.

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João Eduardo M. Vilela Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro jundador da Associação Brasileira de Psiquiatria Biológica.

Escrever sobre a velhice em um jornal dirigido aos jovens? Sim, por que não? Afinal, todos temos algo de velho e algo de jovem. Conheço alguns jovens que quando abrem a boca causam perplexidade, tamanha a rigidez de seus pensamentos e a quantidade de preconceitos. Por outro lado, escutar os sonhos de determinadas pessoas idosas me deixa encantado com a possibilidade do amanhã. Que vamos todos envelhecer, não há dúvida, é um fato. Millôr Fernandes dizia: “A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a juventude é passageira. A velhice sim. Quando um cara fica velho é pro resto da vida e cada dia fica mais velho”. Mas a maneira como vamos envelhecer gera dúvidas, pois o caminho a percorrer é uma escolha! E aqui cabe um trecho de Adélia Prado: “Erótica é a alma que... faz as pazes com sua história... que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma... que não se culpa pela passagem do tempo”. Apesar de sermos ameaçados continuamente pela morte, não há dúvida que o prolongamento da vida é uma das mais notáveis conquistas da raça humana. A população idosa vem aumentando nas últimas décadas. No Brasil de 1940 havia 4% de idosos, enquanto em 2010 já tínhamos 11%. Por outro lado, diminuiu a proporção da população jovem - menor de 15 anos - tanto em termos absolutos quanto relativos. A partir de 2030, o único grupo populacional que irá crescer será o de 45 anos ou mais. Portanto, olho na aposentadoria, moçada! A longevidade acarreta uma situação ambígua, na medida em que o desejo de viver cada vez mais se depara com o temor de viver em meio à incapacidade e à dependência. É claro que o avanço da idade aumenta a chance de ocorrência de doenças e de prejuízos à funcionalidade biopsicossocial. Em um envelhecimento com autonomia e independência, com boa saúde física e psíquica, desempenho social e manutenção da atividade, pode-se ter uma boa qualidade de vida. Como autonomia, compreende-se a habilidade para tomar decisões, ou seja, ter autocontrole sobre sua própria vida. Independência é entendida como a capacidade de realizar as atividades da vida diária sem depender de terceiros, por seus próprios meios. E como qualidade de vida, entende-se a percepção de bem estar de uma pessoa, que advém da avaliação do quanto realizou daquilo que imaginava realizar e de seu grau de satisfação com sua vida. No envelhecimento normal, a principal

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queixa refere-se a alterações de memória relacionadas a fatos da vida cotidiana, as quais não apresentam impacto significativo nas atividades do dia a dia, ou apenas algumas repercussões leves nesse domínio, mas que não se caracterizam como demência. Gabriel Garcia Márquez nos dá um exemplo disso em “O amor nos tempos do cólera”: “Seu poder de concentração diminuía de ano para ano, até o ponto em que precisava anotar num papel cada jogada de xadrez para saber por onde ia. Mas ainda lhe era possível ocupar-se de uma conversação séria sem perder o fio de um concerto...” O envelhecimento está relacionado a fatores fisiológicos, cognitivos, ambientais, sociais e culturais, que fizeram a experiência do envelhecer passar por várias transformações nos últimos anos. No final dos anos 60, na França, o termo ‘terceira idade’, veio atribuir aos idosos qualidades dinâmicas, uma nova identidade ligada à liberdade, ao lazer e à atividade, mostrando uma mudança de atitude em que o idoso expressa novos padrões de comportamento de uma geração que se aposenta e envelhece ativamente. O termo se refere, ainda, a uma opção de vida, um estilo independente de viver a velhice, ao qual todos podem aderir. Assim, não existe um ponto determinado que caracterize o ficar “velho”. Não por acaso, esse mesmo país nos brindou no início deste ano com um recorde de um “jovem” senhor de 105 anos de idade no ciclismo; Robert Marchand conseguiu pedalar 22,5 Km em uma hora! O envelhecimento é uma experiência única, ninguém repete o envelhecimento do outro. Para cada pessoa o processo de envelhecer apresenta inúmeras possibilidades de resultado final, dependendo dos caminhos escolhidos e dos determinantes desse envelhecimento. Alguns são imutáveis - como raça, sexo e ambiente social e familiar onde se nasce - enquanto outros são modificáveis - como o meio ambiente, os hábitos, estilos e maneira de encarar a vida. Estudos sobre a velhice têm mostrado que alguns fatores se destacam na qualidade do envelhecer: escolaridade, ambiente socioeconômico, atividade física e de lazer, vida afetiva e sexual, sensação de estar conectado a uma rede de comunicação, obrigações mútuas. Não podemos nos esquecer de que há uma grande responsabilidade da sociedade e das políticas públicas em garantir condições para se conseguir essa qualidade de vida. Portanto, faça sua parte: exercite-se, alimente-se bem, leia um bom livro, saia da frente da tela, vá procurar os amigos. Ria da vida e viva! Não tenha medo ou vergonha de envelhecer. A muitas pessoas é negado esse privilégio!


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Alexandre Saldanha Viajante, Alexandre contou com a ajuda de Victor Vieira (@rotasdachapada) para desbravar a Chapada dos Veadeiros

A 230 km da capital do Brasil, a sentido nordeste, encontramos uma das formações mais antigas do continente sul-americano. A Chapada dos Veadeiros, parte da Serra Geral que conecta os estados de Goiás, Bahia e Tocantins, abriga uma paisagem savânica, abundante biodiversidade e é berço de três grandes bacias hidrográficas: Tocantins, Maranhão e Paranã. Reserva da biosfera, une povos tradicionais e patrimônios naturais, tendo o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, como um exemplo. Com uma área de 62 mil hectares tem a sua entrada na Vila de São Jorge, uma vila de 700 habitantes que originou seu povoamento a partir do garimpo do cristal sendo considerado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) um santuário da vida silvestre de grande relevância para a humanidade. O mosaico entre matas de galerias, cachoeiras e veredas compõem oito cidades: Alto Paraíso de Goiás, São João da Aliança, Teresina de Goiás, Colinas do Sul, Cavalcante, Campos Belos, Montes Alegre e Nova Roma. Seu cume, cujo o mesmo é o pico do planalto central brasileiro, encontra-se na região do Pouso Alto, onde atinge 1.675 metros de altura e localiza-se a aproximadamente a dez quilômetros da cidade de Alto Paraíso. Tida como “capital”, a cidade de Alto Paraíso de Goiás, pacata cidade de sete mil habitantes tem forte cunho místico. Berço de entrada do ecoturismo local, abriga diversas terapias holísticas,

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centros de yoga, a consciência do alimento orgânico e da qualidade de vida. Cortada pelo Paralelo 14, linha imaginária que atravessa o globo em pontos de energia do planeta (como Machu Picchu, por exemplo) atrai pessoas do mundo todo em torno de experiências místicas e ufológicas. Nas proximidades de Cavalcante, cidade mãe que originou todo o povoamento da região e que atualmente tem aproximadamente dez mil habitantes, encontramos a comunidade Kalunga. Sítio histórico do patrimônio cultural compreende uma área de aproximadamente 123 mil hectares e é reconhecida como patrimônio imaterial da cultura brasileira. Por lá, abriga-se população de afrodescendentes que se organizam de forma rudimentar em meio a um cerrado selvagem e inúmeras cachoeiras. Com ritos e manifestações particulares reservam uma diversidade de conhecimentos sobre raízes, ervas e caminhos desta região montanhosa. Dentre os destacamentos o mais conhecido é o Engenho II, por nele estar a cachoeira Santa Bárbara, altamente difundida através do ecoturismo pela transparência e beleza da cor de suas águas. A região proporciona diversos tipos de atrativos naturais com grau de dificuldade quanto a acessibilidade e distância de caminhada. Desfrutar do ambiente natural em equilíbrio e harmonia com o meio é tarefa do viajante consciente. Listamos alguns atrativos para sinalizar as particularidades do mosaico Veadeiros.

“ Por lá, abriga-se população de de afrodescendentes que se organizam de forma rudimentar em meio a um cerrado selvagem e inúmeras cachoeiras. ”


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Para melhor conhecer a região recomenda-se um guia local que pode ser agendado antecipadamente ou encontrado nos Centros de Atendimento ao Turista (CAT) das cidades ou vilas. Garantir é sempre uma boa opção para quem quer confirmar mais informação e segurança nos passeios. Particularmente recomendo pelo trabalho profissional e qualificado, o serviço do guia Victor Vieira (Instagram @rotasdachapada; rotasdachapada@gmail.com, +55 62 9 9825-1626), que conduziu nossa equipe por maravilhosos sete dias na Chapada dos Veadeiros nos permitindo conhecer um pouco do panorama deste território sagrado que é a região. Catarata dos Couros Sequência de cânions e cachoeiras cortado pelo rio dos couros onde se pode ver a dimensão e força da savana brasileira. Localizada a 51 km da cidade de Alto Paraíso de Goiás em direção Brasília, compreende caminhada com grau de dificuldade médio com três quilômetros de distância. Cachoeira Santa Bárbara Conhecida pela transparência de suas águas, localiza-se no Engenho II, a 30 quilômetros de Cavalcante, com leve caminhada de 900 metros ideal para todas as idades. Estima-se que o território Kalunga abrigue aproximadamente mil cachoeiras. Parque Nacional Chapada dos Veadeiros Patrimônio natural da humanidade tem a sua entrada na Vila de São Jorge. Na época da seca abriga as trilhas dos Saltos/Corredeiras, Cânions/ Cariocas com dez quilômetros de caminhada (cinco quilômetros ida e cinco quilômetros de volta) e sete quedas em uma trilha que pode ser feita com pernoite dentro da Unidade de Conservação que compreende 23 quilômetros de caminhada.

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Fazenda Volta da Serra Cachoeira Cordovil + Poço das Esmeraldas Localizada no km 72 da GO 239 que liga o município de Alto Paraíso de Goiás a Vila de São Jorge, compreende uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) com grande relevância em recursos hídricos e espécies da fauna e flora. O circuito de cachoeiras proporciona rara beleza tanto pela caminhada nos platôs dos chapadões como pelas ótimas piscinas para banho. Além disso a fazenda possuiu sistemas agroflorestais que conciliam o desenvolvimento da apicultura e cafeicultura em consórcio com o cerrado nativo. Possui chalés e espaço para camping onde se pode ter belos contatos com a natureza. Simão Correia Localizada na fazenda “Barreiro da Onça”, a 30 quilômetros da cidade de Alto Paraíso de Goiás em direção a região do Sertão, compreende uma caminhada de 15 quilômetros (7,5 quilômetros ida e 7,5 quilômetros), onde pode-se observar grande movimento da fauna, em especial das aves endêmicas do cerrado como o Sanhaço de Fogo (Piranga flava), o Socozinho (Butorides striata) e o Urubu Rei (Sarcopamphus papa). Entre matas de galeria e florestas secas pode se desfrutar uma caminhada média/difícil para, no fim, deliciar-se com a cachoeira de 110 metros de queda, Vossa Majestade: Simão Correia.


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