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BRASA nº 01 (Setembro/Outubro 2015)

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. F E I T W R A O B S

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• W W

e d i ç ã o # 1 // s e t / o u t 2 0 1 5

A . C O interior da serra carioca, cheio de alma #feitobrasa GASTRONOMIA umNo projeto Veja como foi a cobertura fotográfica #21 BRASAFERVE do Baile Amor, com o Criolo

#14

à vontade para você FASHION seMO-DA: vestir como bem quiser Entre os ETs da Vila de São Jorge #28 DIÁRIO DE BORDO e as loucuras de Alto Paraíso

#27


EDITOr RIAL É com muito que apresentamos nossa primeira edição do BRASA. Há tempos desejávamos ardentemente mostrar o jornal em termos formais. Assim o fizemos. Mesmo com pouco tempo de mercado, nossa fome de conhecimento e inquietação artística já é grande. Temos milhares de ideias para idealizar, referências para pesquisar e entrevistas para fazer... É, nós viemos para ficar. Com tanto material sendo produzido por aí, resolvemos exibir um pouco da nossa equipe que tem verdadeiro talento pelo assunto. O nosso objetivo é apresentar as tendências da contemporaneidade por meio de pensamentos fresquinhos de profissionais e empresas que ficam vintee-quatro-horas mergulhados em cultura. Tudo de forma gratuita, como o bom jornalismo deve ser. Para a nossa surpresa, mesmo com dezenas de títulos de impressos, o

BRASA encarou problemas para o seu lançamento: eram nãos, nãos, nãos. Bem, aqui estamos. Esfriamos um pouco a leitura preliminar com uma visão mais ampla. Os jornais em papel têm vida longa, desde que entendam que os tempos mudaram e que não se deve mais pensar como no século passado. Somos um jornal pensado, decidido cedo (feito brasa, mesmo), independente, isento, COLECIONÁVEL – e que por isso mesmo influencia decisivamente na qualidade de sua presença e renovase de acordo com a complexidade da história e tradição. Precisamos acabar com a praga de vender terreno, a tal estratégia de centímetro versus coluna. Anunciar hoje no jornal não é anunciar apenas na plataforma impressa. O grande paradigma que precisa ser quebrado é que o jornal impresso irá acabar. Abram as alas ao BRASA! Você tem um impresso que está usando bermuda por baixo do terno, que busca sempre uma forma de questionar e trazer novidades para a vida das pessoas. Até chegarmos aqui, neste produto final, algumas histórias dariam um bom filme. A união de tantos colaboradores e empresas deu início a um trabalho multidisciplinar que consiste na criação de vários produtos. No quintal do cerrado, com os pés descalços, o nosso Brazilian Savanna brotou tímido e cuidadoso, como um manjericão. Participe conosco do desafio contemporâneo de unir o novo ao tradicional, de dialogar com diferentes culturas e tradições, de desenvolver uma consciência sustentável e reinventar padrões. Nossa história ainda está em fase de construção, mas com certeza possui a melhor das estruturas e talentos. Com mais de 20 profissionais, a nossa meta é ambiciosa: você se divertir tanto quanto nós que fazemos o jornal. Abra as nossas páginas, corra os dedos por nosso conteúdo e sinta o clima esquentar de vez. #feitobrasa. É uma BRASA, mora?

Lívia VILELA

Diretora do BRASA e psicóloga formada pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP)

#03


diário NA BRASA

Com esmero, todo jornal, em sua essência, precisa atribuir espaço: dar e conceber área, um pedaço de papel, aos que querem colocar a boca no mundo, seja para experimentar, diversificar e até mesmo identificar-se tipo uma ágora pública. O BRASA é inteiro feito de pessoas plurais, de jornalistas cheios de vontade em praticar, mas o DIÁRIO NA BRASA é especialmente feito da disponibilidade ao trombone. Basta escrever e enviar fotografias ao info@feitobrasa.com que iremos receber, ler, pautar e estar em conjunto, em denúncias, comentários ou reclamações sobre o que incomodar (ou agradar) à nossa volta, seja em produtos, habilitações, telefonia, saúde ou atendimento de qualquer empresa e instituição. Tudo, tudinho, aparecerá por aqui.

tripulação

sumário

Diretora / Idealizadora: Lívia Vilela x x x x x Jornalista e Editor de Texto: Carlos Gabriel Ferreira (0019607/MG) x x x x x Revisora: Elisa Nakaguma x x x x x Projeto Gráfico: Marcello Vieira x x x x x Ilustração: Farândola e Wes Gama x x x x x Diretor Audiovisual: Eddie Shumway x x x x x Fotografia + Audiovisual: Bruna Finotti, Elisa Nakaguma, Flávio Rodrigues, Gabriel Pinguim, João Paulo Machado, Leocádio Resende e Olivia Franco x x x x x Produtora Audiovisual: IMAGINARE Filmes x x x x x Desenvolvedor Front-end: Lucas Vilaboim x x x x x Consultor Jurídico - CRR Advogados: Augusto Costa x x x x x Relações Públicas: Aline Alcântara, Estevão Maciel, Laura Máximo, Lorena Cardoso, Matheus Junqueira, Vinícius Ribeiro, Thales Henrique, Paulo Víctor e Fladirley Fernandes.

05: PAPIRO: VITRINE e HISTÓRIA // 06: PAPIRO: DIREITO // 07: CULTURA: A Natureza Urbana // 08: CULTURA: Literatura: HQ 'O Despertar de Zé Fogueira' // 09: CULTURA: Religiosidade // 10: NATUREZA: Projeto CACHOEIRO // 12: NATUREZA: BRASA Horta e Horta VOLUNTÁRIA 13: NATUREZA: Opinião // 14: GASTRONOMIA: SKP - SOUL KITCHENS Project // 15: GUIAS // 16: Matéria CAPA: Wes Gama // 18: GUARÁ: ARTE URBANA 19: BRASA Ferve: 1 ANO CENA CERRADO e Lançamento basídio #1 // 20: BRASA Ferve: Saindo do Forno - Edição #00 no Bar SAGRADO // 21: BRASA Ferve - Cobertura Baile Amor com CRIOLO // 24: SAÚDE: MENS SANA CORPORE SANO // 26: FASHION: LUXE // 27: FASHION : MO-DA // 28: TURISMO: Diário de Bordo

Colaboradores: Ana Moraes, Alessandra e Mary Debs, Antônio J. M. Guimarães, Beto Martins, Bruno Póvoa, Cissa Borges, Emílio Vieira, Isley Borges, João Eduardo M. Vilela, Godiva, Lenora e Priscilla Accioly, Laura Fleury, Leticia Vilela, Lívia R. Machado, Rainer Petter, Raissa Dantas e Rosemário Souza. Parcerias: A Natureza Urbana, Associação de Proteção Animal de Uberlândia (APA), Bar Sagrado, Clube Belgrano, Groove Pub, Hamburgueria do Barão, Incêndio Shop, IS Soluções Agronômicas, Luxe editorial, Mãe Natureza Produtos Naturais e Dietéticos, Miabara Collab Store, Moviola, Prefeitura de Araguari, Projeto Cachoeiro, Projeto “O despertar de Zé Fogueira”, Rede Tauá de Hotéis, Revista Paralela, SIBIPIRUNA bar, Soul Kitchens Project, Travesseiro Discos, Underdose TV, Vitrola Ambiente Cultural.

#04


mistura Vanessa Marques&Elisa Nakaguma vanessa é arquiteta e elisa nossa querida fotógrafa oficial

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Arquitetura + Fotografia + Dança O que começou como uma brincadeira transbordou pelas redes sociais e encantou muita gente. A pergunta que ficou foi:

“por que não fazer mais?” Arquitetura não é só beleza visual. O que é “belo” para alguns pode ofuscar a visão dos outros. A beleza está nos olhos de quem vê e na sensibilidade de quem convive com o espaço. Poupeme os que gostam de réplicas com muros altos – imaginando estarem seguros do mundo – e acreditam que basta mudar a cor para se tornar único. A arquitetura em si que deve ser singular: são necessárias boas histórias, péssimos defeitos, experimentos inusitados e feiuras inesperadas. Uma construção influencia no seu bem-estar, por exemplo, e pode criar aquele sentimento de querer voltar logo para casa. Foi assim que surgiu o projeto Dance Your Way Out... “Arquitetura é música petrificada.” Johann Wolfgang von Goethe Não é difícil passar pelas ruas e sentir o deslumbre que blocos de cimento e areia podem causar, são formas, cores, texturas em um movimento parado que pode confundir aos sentidos das pessoas mais brilhantes. Não é de hoje que essas linhas, quase musicais, despertam o olhar de fotógrafos e observadores. Eu sempre fiz parte desse grupo, dos prédios históricos aos contemporâneos, das igrejas aos cabarés, dos detalhes mais delicados aos acabamentos mais rústicos; não uma, mas diversas vezes me peguei parada, seguindo as partituras da arquitetura.

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” Friedrich Nietzsche Então por que não acrescentar uma dança a essa música?! Por que não unir a rigidez do concreto à fluidez da dança? E tendo isso em mente, quem melhor do que uma arquiteta e exbailarina para assumir esse desafio? O Projeto Dance Your Way Out começou sem nenhuma pretensão de ser um projeto, éramos três amigas com uma coisa em comum, o desejo de mostrar, por meio da fotografia, mais do que apenas um rosto bonito e a roupa da moda, mas sim uma sensação, uma vontade ou qualquer outra coisa que ela pudesse despertar. Uma fotógrafa, uma produtora e uma arquiteta que, por amor, de dispuseram a acordar às cinco e meia da manhã de um domingo para simplesmente dançar sem música. “Uma fotografia é um segredo sobre um segredo, quanto mais te diz menos você sabe.” Diane Arbus. E quanto menos a gente sabe, mais quer descobrir.

Elisa Nakaguma

#05


quase ficção _papiro_direito_

UM CONTO

DE AMOR & ÓDIO João, Pedro, Jorge e Jair: uma breve história sobre privilégios e adoção João é arquiteto e filho presente no convívio dos pais. Em 2005 conheceu Pedro, artista plástico, por quem se apaixonou perdidamente. Logo souberam da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizava a união entre pessoas do mesmo sexo e, após seis anos de relacionamento, resolveram se casar. Com o tempo, decidiram adotar uma criança, já que a vontade de formar uma família era algo presente. Nada melhor do que um pequenino para acompanhar o crescimento deste sentimento. Foram em frente. Passados alguns meses, receberam por telefonema a informação tão aguardada de que a hora chegara. Eles foram convidados a visitar o lar de crianças para adoção. Extasiados com a notícia, correram para o local e interagiram com algumas delas. Perceberam um garoto entre seis e oito anos – a própria criança não sabia precisar exatamente quando havia nascido. Seu nome era Jorge. Filho de prostituta, viveu nas ruas com a mãe sem conhecer a identidade do pai. Foi definitivamente abandonado à própria sorte quando tinha cinco anos, fadado a ter que cuidar da própria vida, alimentar-se, domiciliar-se e dar conta de funções “adultas”. Regularmente cometia pequenos furtos para se sustentar, pois não conseguia ninguém

para lhe dar amparo familiar, econômico ou emocional. Acabou por transformar-se em uma criança-adulta. Acompanhado de um grupo de garotos que se encontrava em sua mesma condição, certo dia furtou a bolsa de um indivíduo. Acabou pego pela polícia. Esculachado, foi chamado de “trombadinha” e, com tom de ameaça, dito que o cemitério era o seu lugar. No momento da apreensão, Jorge, como nunca havia acontecido em sua vida, teve sorte. Foi enviado a um lar que cuida de crianças sem família e que vivem na rua. O menino é, então, colocado na lista para adoção. Após o encontro entre os pretendentes pais e o garoto, Jorge se encheu de esperança em ter pessoas que lhe amparassem. João e Pedro já faziam também planos futuros. No Congresso Nacional, enquanto toda essa linda história acontecia, o deputado federal Jair conseguiu que um projeto de lei, que proibia a adoção de crianças por casais homoafetivos, chegasse ao plenário em fase de votação. Todos acreditavam que a proposta seria facilmente rejeitada, mas subestimaram o poder das bancadas religiosas. O projeto foi aprovado, para a perplexidade de muitos. Passado algum tempo, a lei entrou em vigor. Decepcionados com a “lei do ódio”, como ficou conhecida, o

casal perdeu as esperanças em adotar e formar uma família. Jorge, assim que recebeu a notícia, prontamente fugiu da instituição que lhe amparava. Jorge, já aos 15 anos e preso diversas vezes por furtos e tráfico de drogas, mais uma vez estava na rua – ou, como ele dizia, “em sua casa” –, após dois meses em um centro de reabilitação para menores. Sem um “puto” no bolso e sem a quem recorrer, decidiu assaltar o primeiro que aparecesse em sua frente. Com uma arma de fogo em mãos, sai à procura de sua vítima – e escolhe: um velho senhor em seu carro. Aproxima-se, exige o dinheiro e celular. O senhor lhe entrega tudo. Jorge não pensa mais como antes, entretanto. No passado, deixaria o homem seguir o seu destino, mas com o tempo, tornou-se um assassino vil e sem remorso. Disparou três balas no corpo frágil do velho, impiedoso. No dia seguinte, a repercussão já era enorme. Jorge foi preso, “era o seu destino”. Enquanto passava pelo saguão da delegacia, conseguiu ver de relance, na televisão, que o homem que matara era ninguém menos ninguém mais do que Jair, o homem que havia assassinado a sua esperança de ter uma família e ser uma criança como outra qualquer. x x x x x x x x x x x x x x x x x x x

Augusto Costa Advogado no Costa Reis e Rodrigues Advogados Associados. Seu texto foi escrito em 25 de junho deste ano. Ironicamente, dois meses depois, em 24 de setembro, o Estatuto da Família foi aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados. Como parte integrante do texto, consta: "reconhece-se como família, base da sociedade, credora de especial proteção, a entidade família formada a partir da união de um homem e de uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer”.

#06


FOTOGRAFIA A

N A T U R E Z A

U R B A N A

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_cultura_literatura_

um morador de rua decide recuperar suas memórias após encontrar uma câmera que registra o passado.

A história em quadrinhos (HQ) ”O Despertar de Zé Fogueira”, de Rainer Petter, apresenta o morador de rua, seu Zé, e seus conflitos com a perda parcial de suas memórias. Ele encontra uma câmera capaz de fotografar o passado, que o possibilita resgatar suas lembranças. É uma história sobre a

busca de memórias que se foram e a luta contra as que persistem em atormentá-lo. A primeira HQ dessa trilogia, finalizou no dia 30 de Agosto, com sucesso, em campanha no Catarse, através de um financiamento coletivo, para ser impressa e distribuída aos colaboradores e leitores. O lançamento será em novembro no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ).

Sobre o autor: Mineiro de Uberlândia, Rainer Petter é ilustrador e professor. Trabalhou por cinco anos como colorista de HQ em vários títulos de editoras norte-americanas. É graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Há um bom tempo pretende criar suas próprias tramas em HQ, agora é o momento em que se sente confiante e conseguiu organizar seu tempo para que isso aconteça. ”O despertar de Zé Fogueira” é a sua primeira HQ autoral.

#08


c re nç a

Candomblé: comunidade e identidade Em tempos da chamada pósmodernidade, nada melhor que um terreiro para ensinar-nos o significado de comunidade. Em tempos de emergência das múltiplas identidades, do orgulho da diferença, da fragmentação dos movimentos sociais, o candomblé vira objeto de estudo se quisermos compreender o contexto social, político e cultural contemporâneo. Possuindo espacialidade sagrada fluida, a religião afro-brasileira em questão cultua os elementos da natureza (ou orixás). Os ritos permanecem graças aos mais velhos, ancestrais, que transmitem os seus conhecimentos aos mais novos. As folhas secas do dendezeiro indicam os espaços mais sacros do ambiente. Todos trabalham para o terreiro funcionar: uns cozinham, outros limpam o salão; uns cuidam dos assentamentos das entidades, outros preocupam-se com a horta. Ninguém fica a ver navios, aguardando a iniciativa alheia. Parecem atentos a uma energia cósmica, transcendental, que a eles indica o que fazer para satisfazer seus

_cultura_religiosidade_

A religiosidade afro-brasileira é sinônimo de congregação e preservação cultural

pais e suas mães. Estatalo os olhos quando, ao olhar para um cômodo com a porta aberta, vejo a representação, um igbá, de Oxum, a rainha das águas doces. Porcelana branca pintada à tinta dourada, figura o orixá no espaço físico, no mundo, no aíyé. Os pontos da gira começam a ser entoados pelos Ogãs. Primeiro chamam Exu, o mensageiro, o comunicador. Diz-se que atravessa os mundos numa partícula de segundo. É guardião, fica na porta das casas para proteger seu filho ou sua filha. Incompreendido pelo cristianismo, fora associado a representações diabólicas, que o colocavam a porte de tridente, capa e rabo em forma de seta. Precisa comer para dar energia ao trânsito de espíritos que, a partir de agora, transformará o terreiro. Pimenta ardida, farinha de milho, cebola, azeite de dendê. É disso que ele precisa. Dali em diante, um espetáculo estético e místico. Muitos filhos agradecem a seus pai e mães, ofertando-lhes comida e

agrados específicos. A indumentária do ritual é feita sob medida, com tecidos macios de aplicações minuciosas. O perfume de alecrim e guiné leva paz aos corações aflitos, purifica os pensamentos, transporta o som dos tambores: “ô corre gira que Ogum mandou”. Pelo pai, “ô Babá”, todos possuem extremo respeito. Terreiro-comunidade para os irmãos de fé, (re)enraizamento de indivíduos, culturas híbridas. Comunidade porque é o lugar de muitos, espaço de acolhimento e pertencimento. E porque representa a resistência de um povo, a potência de (re)territorialização de uma diversidade de nações, porque fascina pois diferente é. Terreiro é identidade.

isley borges Jornalista e mestrando na área de Geografia Cultural pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sabe de tudo um pouco.

Babalorixá Batista D’Obaluayê #09


a nt r o p o l o g i a p u r a

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O Cachoeiro nasceu do comichão que toda pessoa um pouquinho fora de si, ligada ao que o mundo tem a oferecer e que não se importa em dar mais do que recebe, tem. Por uma agradável coincidência da vida, nosso encontro se deu nas salas de aula do curso de Comunicação Social: Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde, prestes a terminar a graduação, o Cachoeiro surge como projeto experimental dos estudantes Carlos Gabriel Ferreira, Emílio Lins, Isley Borges, Lívia Machado e Raissa Dantas. a ideia é simples: reunir gente como a gente, em descoberta e em formação, pra sair da selva de concreto e entrar em contato com as belezas do Cerrado.

Um roteiro, muitas cachoeiras Essa é a proposta do Cachoeiro, seção que tem brincadeira no nome e muita gente aventureira na região do Triângulo Mineiro. Para a nossa satisfação, a experiência extrapolou as obrigatoriedades acadêmicas, sendo hoje desenvolvida por opção, com muito amor, prazer e paixão. Próximo de completar um ano de atividades, o Cachoeiro tem espaço garantido aqui no BRASA: a cada edição, boas histórias compartilhadas exclusivamente com o/a leitora. A promessa é te levar para conhecer toda a beleza que encontramos no caminho, toda a dificuldade que enfrentamos na trajetória e deixar aquele gostinho doce de como é fazer aquilo que mais se adora. Sem mais demora, embarque agora com a trupe Cachoeiro em uma grande aventura pelas águas do Triângulo Mineiro. Para dar uma prévia do que está por vir, simbora apresentar a Cachoeira de Furnas, localizada nos arredores de Indianópolis (MG), a aproximadamente 50km de Uberlândia. Coisa boa é chegar nessa queda d'água gigante, com um lago propício para nadar e passar o dia curtindo tudo o que o lugar tem a oferecer. Somos recebidos de braços abertos. Para chegar, dirija-se à BR-365, entre no trevo de Indianópolis e siga em direção à cidade. Após a primeira pontezinha, no Ribeirão das Furnas, pare o carro. Este é o seu estacionamento e, a partir daí, o jeito é ir andando. À direita, você verá o início de uma trilha. Atravesse a rodovia com cuidado, passe no caminho ao lado da ponte e siga em frente. O trajeto é simples, impressionante, um retão gramado e uma pequena descida por entre árvores, que apesar de comprida, não exige uma caminhada tão intensa. Dá para vê-la na fotografia ao lado, marronzinha à esquerda. Basta segui-la – inclusive quando houver uma cerca impedindo. São quinze minutos embaixo do sol, então fique esperto: é protetor solar no corpo e rosto e, de preferência, um sombreiro dos maiores. A cachoeira se anuncia logo no horizonte, quando a trilha começa a ficar íngreme. Daí são mais alguns passos para partir para o mergulho. Nesta visita experimentamos uma divulgação diferente, convidando apaixonados pelas águas, como nós, a nos acompanhar na visitação. Era a primeira ida do Cachoeiro após o seu triunfo acadêmico, não mais como projeto, mas escolha de vida. A surpresa foi boa demais, dessas que juntam muitas caras diferentes, pessoas que não se conheciam e que nós mesmos nunca tínhamos visto. No final das contas, fomos numa carreata que desconstruiu na gente toda aquela ideia de que domingos são “dias de descanso”. Que nada, nosso domingo foi simples, mato e água na medida certa! Algumas fotografias você acompanha por aqui e (segredo!) novos documentários em breve estarão no site do BRASA. Algumas visitas guiadas com o nosso impresso #feitobrasa estão por vir. Acompanhe a página do Facebook do jornal para saber o que de bom irá rolar nos próximos meses. Há uma visita à cachoeira agendada vindo por aí e latões de lixos a serem pintados por mãos coletivas. Fique de olho!

Saravá! Até a próxima edição, Equipe Cachoeiro

http://projetocachoeiro.com.br

#10


C U I D A D O S NA ESTRADA, NAS TRILHAS E N A S C A C H O E I R A S • Se for dirigir, não beba; • Preste atenção nas estradas e rodovias que levam às cachoeiras: geralmente são de pista simples, sem acostamento e/ou asfalto (e, em alguns momentos, será necessário atravessá-las para chegar ao destino); • Use calçados e roupas apropriadas, como botas para trilhas e calças compridas (nada de sapatinho de dedo!), e esfregue bastante protetor solar no rosto; • Tenha muita atenção nas trilhas, onde os terrenos geralmente são bem acidentados. Tome o seu tempo, vá de acordo com o seu fôlego; • Cuidado com animais peçonhentos, como cobras, escorpiões e aranhas. Elas são comuns nesse tipo de ambiente e é você quem está invadindo os seus habitats (e não o contrário); • Observe os sapatos antes de calçá-los novamente: algum animal pode ter se escondido dentro; • Nunca deixe seu lixo na natureza. Leve sempre consigo um saco de lixo e traga-o de volta à cidade para descartá-lo da forma correta; • Tenha atenção redobrada ao se aproximar das quedas e entrar na água: geralmente, há pedras bastante escorregadias; • Se estiver chovendo ou chover no dia anterior, prefira adiar a sua ida à cachoeira. O risco de tromba d'água é muito alto; • Muito cuidado ao se banhar perto ou embaixo das quedas. Em alguns lugares, como na cachú de Furnas, a pressão é tamanha que pode ser uma armadilha letal; • Se tiver labirintite ou medo de altura, nada de se aproximar do alto das quedas para ter uma vista panorâmica; • Leve sempre consigo um kit de primeiros socorros, além de, claro, comida e bastante água.

#11


orgânico _natureza_brasa horta_

TOCAR A TERRA, TOCAR A VIDA A horta é o quintal de nossa fazenda. Um cantinho especial, rodeado por uma reserva florestal e rica pela diversidade natural, com plantas medicinais, aromáticas e frutíferas. Sem agrotóxicos, orgânica, fresquinhafresquinha em qualquer momento do dia. Folhas verdes, temperos à mão. Faça xaropes, compressas, tinturas e relaxe com chás aromáticos. Essas receitas caseiras são elaboradas com base em conhecimentos tradicionais sobre as propriedades benéficas das plantas medicinais – sim, um luxo orgânico e gratuito! A fitoterapia é uma ciência usada na prática cotidiana. Assim surge o BRASA horta. Por aqui, vamos mostrar o caminho para a sua saúde, através da natureza e os segredos passados de geração em geração, pela família. Acredite: só parece, mas ter uma horta em casa é fácil. Vamos lá!

v iva o s eu Juve n i l _natureza_hortavoluntária_

Uma horta para

chamar de comunitária

Na Escola Municipal Dr. Joel Cupertino Rodrigues no bairro Dom Almir, em Uberlândia, um pedaço de terra foi revitalizado. Em parceria com o Diretório Acadêmico de Agronomia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e a colaboração da atlética universitária do mesmo curso, um grupo de 12 rapazes, junto ao senhor Juvenil, é claro, e a vice-diretora da escola Helida Maria de Oliveira Alves uniram-se em prol de uma horta comunitária. “Que haja bastante verde”, eles disseram, e houve. Depois do terreno limpo, hortaliças foram plantadas, adubos foram comprados e, agora, a estufa reformada é a próxima missão. Os universitários ganham gratidão e o seu Juvenil uma cesta básica de alimentação. Os pequenos do sexto ao nono ano entrarão na brincadeira e, entorno da plantação fresquinha, ganharão palestras sobre assuntos diversos – até educação sexual uma aluna de enfermagem, a Jessica Silva, quis encarar – e grafites para apreciar. O BRASA põe-se junto nessa empreitada do pessoal. Sabem como é, pura convergência de interesses: fazer o bem. Para acompanhar tudo que acontecerá daqui para frente, adicione nossa página do Facebook (http://fb.com/feitobrasa) aos seus favoritos. A gente pode garantir que vem coisa bonita.

#12

MANJERICÃO (Nome científico: Ocimum basilicum. Nome popular: basilicão, alfavaca, erva-real) Uso culinário: Tempere saladas, massas, omeletes, sanduíches, molhos de tomate, até mesmo o suco de limão. Acrescente no último instante, quando o prato já estiver cozido, assim os aromas são liberados na entrega ao paladar. Pode-se colher as folhas e deixa-las secando em um local arejado sem o sol direto, assim elas podem ser armazenadas por mais tempo. Variedades: Várias, várias, várias. Manjericão-anão, manjericão-gigante, manjericão roxo, manjericão-cravo (hummm, um chazinho!). Luminosidade: O manjericão gosta de alta luminosidade e precisa de luz solar direta por algumas horas para ter uma vida saudável. Solo: Bem drenado, leve, fértil, rico em matéria orgânica – um lar perfeito para sua criação. Irrigação: A falta e o excesso de água prejudicam o manjericão, por isto seja moderado na rega. Uma vez por dia é o suficiente para deixa-lo bonito. Plantio: Plante as mudas quando elas tiverem por volta de dez centímetros de altura. Elas podem chegar até a um metro de altura se bem cuidados! Para aumentar a longevidade da planta, corte o pendão floral quando florir. Época para plantio e floração: O ano inteirinho, quando ele bem entender. Colheita: Quando bem desenvolvida, as folhas podem ser colhidas. Uma dica é nunca colher as folhas do topo, do final do caule, mas sempre as inferiores, assim a planta continuará a crescer sem fim.

O projeto é voluntário e conta com a participação de Alvaro Campos, Bruno Póvoa Rodrigues, Gabriel Silverio, Guilherme Andreatta, Guilherme Rodovalho, Gustavo Oliveira, Leonardo Campos, Matheus Giroto, Maycon Allan, Mohamad Bakkar, Phylipe Garcia, Yuri Zica e, claro, o Seu Juvenil.


opinião

Água, nosso bem

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mais precioso É preciso reeducar a nossa forma de consumir os recursos naturais, caso contrário iremos comprometer nossa sobrevivência

ANTÔNIO JOSÉ M. GUIMARÃES Engenheiro agrônomo, especialista em ecologia e meio ambiente. Consultor na N a t u r á l i a Sócioambiental

Recurso natural valioso, de uso múltiplo e coletivo, presente nos mais variados seres vivos, de extrema relevância para os ciclos naturais e a existência da vida na Terra. Na proporção de sua importância é o descaso como o homem o trata. O acesso à água está cada vez mais restrito e, apesar desta realidade, o ser humano cada vez mais polui e degrada este recurso natural. De fato, ocorreram grandes avanços no que se diz respeito à gestão dos recursos hídricos, como a elaboração de um arcabouço legal e a criação dos comitês de bacias hidrográficas, que democratizam as decisões de seu uso. No entanto, apesar dos esforços no sentido de proteger os recursos hídricos e regulamentar seus usos, a realidade é assustadora. Do ponto de vista qualitativo o que se vê são poucas cidades brasileiras com o devido tratamento de esgotos, lançando seus dejetos in natura nos cursos d'água. Já do ponto de vista quantitativo, o que se vê é o uso indiscriminado e sem critério, seja ele doméstico, público, industrial ou agropecuário, o que, aliado às mudanças climáticas, tem tornado este recurso escasso. Os déficits hídricos vêm se acumulando ao longo dos anos, como pode ser comprovado através da crise de abastecimento que vivem as grandes cidades ou até mesmo pela iminente crise energética, diante do baixo nível dos reservatórios da região sudeste e centro-oeste por anos consecutivos. Este recurso, valioso e importante, deve ser tratado de forma séria. Não basta a aplicação da lei para regulamentar seu uso, nem somente punir quem o degrada. Também é importante beneficiar quem o protege, aquele que tem consciência de sua importância. Por falar nisso, sem conscientização não se obtém êxito em qualquer matéria ambiental. Para tanto, é preciso entender, compreender e finalmente respeitar os bens naturais que nos são disponibilizados sem nenhum custo. Estamos falhando no aspecto mais básico: proteger os recursos naturais e, ao mesmo tempo, utilizá-los de forma racional e consciente. Ou seja, apesar do homem ser o único ser vivo na Terra dotado de inteligência, ele não consegue manejá-la para sua própria sobrevivência. Talvez é chegada a hora de sermos humildes e reaprendermos, tomarmos consciência de que somos seres que fazem parte desta teia complexa de interações; que nossas ações podem dificultar sobremaneira nossa permanência aqui, enquanto seres humanos ou, então, perpetuar e garantir para as futuras gerações a oportunidade de viver e sobreviver com qualidade, desfrutando do que a natureza nos oferece a todo momento.

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co m i d a afet iva _gastronomia_skp_

conhecendo a comida por meio de narrativas

pessoais

Luciana Basseggio

A combinação entre alma e antropologia encontra, na gastronomia, uma forma de conhecer e descrever pessoas CISSA BORGES I d e a l i z a d o r a e roteirista do projeto, Cissa mora em uma fazenda na serra carioca e planta (quase) todo seu cardápio

Mia Couto virou poeta no chão da cozinha. Rubem Alves alertou uma vez: depois de comer, coisas mágicas acontecem. Em Minas Gerais é fácil concordar com os dois. Suas cozinhas largas, com mesas grandes, fogão à lenha, panelas de barro, compõem um cenário inspirador para o homem virar gênio, se quiser. Comida é pura alquimia e, prosas em torno da mesa, uma imagem clássica da memória afetiva mineira. Nessa terra, dedos amarelos de galinha ao molho de açafrão combinam com a preguiça do domingo e habilidade se prova mesmo com a espessura da couve. Quanto mais o sujeito for dedicado, mais fininha. E se o sujeito for folgado, aí não lava nem o prato, né? A barulheira sempre corre solta na cozinha da vó, o groove perfeito vem dos pratos e talheres. Na rua de Araguari, a coxinha do Bar Apolo é um patrimônio. A cozinha em Minas é sagrada. Inspirada nessa magia toda, criei a websérie Soul Kitchens Project que registra na casa de desconhecidos a beleza dos encontros para cozinhar e comer juntos e também histórias de pequenos produtores. Já gravamos no Peru e no sul de Minas. Em Lima, a família da Dona Nancy Carreño

#14

nos recebeu no almoço de família que comanda há mais de uma década e fez pratos típicos reproduzindo as receitas da mãe, hoje com 100 anos, que também estava presente. Em Juiz de Fora, foi a vez de uma república com três mineiros e uma alemã abrir a cozinha para uma tarde de cerveja e torresmo. Gravamos pela estrada a Dona Maria do famoso pão de canela de Ibitipoca, que sustenta a terceira geração da família e conhecemos também a cozinheira do melhor doce de leite no canudinho do sul de Minas, que esse ano aposentou sua sabedoria por falta de alguém que desse continuidade ao doce que fez muita gente rodar até São Bartolomeu para comê-lo. Em Itabirito, Roninho ainda toca a resistente Mercearia Paraopeba que vende goiabada cascão por quilo, mandiopã e aceita fiado. Ele disse pra gente que bom mesmo é “lesgume”, porque se o legume vem com lesma é certeza que não tem veneno. E temos muito para ouvir ainda nas Geraes e bem além de suas montanhas. Dá para assistir o teaser do primeiro episódio aqui: www.facebook.com/soulkitchensproject. Através da comida, principalmente quando compartilhada, a gente pode mudar aquela velha

opinião formada sobre tudo e partir para novos modelos de vida mais sustentáveis e bacanas. Michael Pollan já avisou: “comer é um ato político”. Eu acho que principalmente aqui, no país que mais se consome agrotóxicos. Viram que a Vigilância Sanitária da Europa barrou nossos alimentos por excesso de veneno? Se não serve pra eles, serve pra nós? Cada um e todos juntos podemos encontrar soluções para reivindicar e gerar outra lógica de produção e consumo. Eu sai do Rio de Janeiro para viver na serra carioca. No sítio moro e namoro o chef argentino Javy Larroquet e, juntos, criamos o La Mesa: uma mesa de oito lugares na nossa casa para receber pessoas que gostam de comer conhecendo a procedência do que está no prato. Estou aprendendo a plantar com o Seu Darcy (agricultor local com uns 70 anos de enxada) e a comer sem precisar (tanto) de supermercado, o que também é possível com hortas urbanas para quem não quer fugir pro mato. Nesse espaço quero dividir com vocês as descobertas desse processo. Bora bater papos sobre as possibilidades de articulação da comida como escolha, comportamento político, experiência e identidade cultural. Aqui a mesa é nossa!


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#15


capa _arte_wés gama_

Wes Gama é ilustrador, muralista e desde os 12 anos faz intervenções urbanas em Goiânia e região. Nascido em 1987 na cidade de Uruaçú (GO), o foco de suas artes são a preservação da natureza e a valorização do povo simples que vive nas roças e vilarejos do Brasil. Suas ilustrações refletem os valores adquiridos durante o período em que morou no interior do estado e ficou em contato direto com os Kalungas, povo quilombola que habita a região da Chapada dos Veadeiros há mais de 300 anos. Wes foi organizador do Encontro Regional de Graffiti de Goiânia (2009), do projeto Coca-Cola Graffiti (2009) e da exposição coletiva “A Casa” (2010), além de também expor o seu trabalho na Galeria Potrich (2010). Hoje, aos 27 anos, com empolgação e ternura no abraço, presenteia a equipe do BRASA com ilustrações tão detalhadas que nos bate uma ansiedade do que está por vir. Queremos mesmo é apreciar a simplicidade do processo e trazer o cerrado para a cidade. Logo mais ocuparemos praças, cachoeiras e escolas com arte e natureza.

ACOMPANHE WES GAMA: /wessilei /wesgama

ilustrações feitobrasa #16

wesgama@gmail.com


#17


_cultura_guará arte urbana_

guará ARTE URBANA ”Guará” é uma seção do BRASA em homenagem ao lobo-guará, uma espécie em extinção do cerrado. O termo também nomeia um projeto de intervenção urbana que se realizará no Triângulo Mineiro nos próximos meses. Neste movimento conosco entra Wes Gama, que traz em suas obras as raízes do caipira. Entre os objetivos do projeto está ocupar os espaços urbanos com arte. Para tanto, é previsto a distribuição do jornal nas escolas públicas a fim de que os alunos possam, primeiramente, informar-se sobre a contemporaneidade e, então, interagir com o impresso por meio de figuras para colorir.

Figura ilustrativa do autor para colorir

Wes Gama é ilustrador, muralista e desde os 12 anos faz intervenções urbanas em Goiânia e região. Focado na preservação da natureza e na valorização do povo simples que vive nas roças e vilarejos do Brasil, suas ilustrações refletem os valores adquiridos durante o período em que morou no interior do estado.

#18


BRASAFERVE Elisa Nakaguma

Cobertura 1 ano CENA CERRADO

. F E I T W

M

• W W

R A O B S

A . C O

Lançamento

basídio #1

#19


b ra s afe r ve Leocádio Rezende _cobertura_fotográfica_

Lançamento da

primeira edição do

brasa! Só gratidão! O BRASA em sua edição 00 (https://goo.gl/9KRzSN) foi lançado, lido e comemorado pelas pessoas que passaram ali pelo Bar Sagrado no dia 14 de junho. Em cada experiência de leitura, uma reação encorajada para ir em frente. “O jornal veio para mudar a região”, alguns diziam. “O toque do folia, as ilustras do Farândola e a técnica jornalística vão fazer a diferença”, arremeteu um desconhecido. Para todos que pararam para ler o BRASA, em seu manifesto, os nossos agradecimentos.

Bruna Finotti

+ #BRASAferve -Cobertura BNegão & Seletores de Frequência + O Berço por Leocádio Rezende

M

acesse a cobertura completa no

A . C O

#20

R A O B S

#BRASAHorta

• W W

. F E I T W


. F E I T W

M

• W W

R A O B S

A . C O

BRASAFERVE

"Ele reflete a calmaria da mpb e a intensidade do rap". Conosco, a cobertura completa da energia de Criolo, durante o Baile Amor no dia 12 de setembro. Enquanto Aline Alcântara Relações Públicas atacava de jornalista, Flávio Rodrigues cuidou das fotografias sob o selo 2Mixx Photo. #BRASAferve #21


b ra s afe r ve _cobertura_fotogrรกfica_

. F E I T W

M

โ ข W W

R A O B S

A . C O #22


Festival Vaca Amarela 2015

cobertura MOVIOLA mĂ­dia livre

#23


autoestima _saúde_mens sana in corpore sano_

imagem corporal

e mídia

Gostaria de começar nossa conversa

representa, aos olhos da criança, uma identidade

abordando um tema que me preocupa muito, não

e ela começa a perceber como o outro a vê. Ela

só pelo número crescente de casos, como

aprende como enxergar diferentes características

também pela gravidade do quadro clínico. Falo

físicas e a imagem corporal vai tomando forma à

dos transtornos da alimentação, mais

medida que ela se conscientiza daquilo que é ou

especificamente, Anorexia e Bulimia Nervosa.

não atraente. É na adolescência, contudo, período

Kim Chernin, escritora norte-americana, já disse

crítico de formação de identidade, em que o risco

que a pornografia e a tirania da magreza são as

de se sentir insatisfeito com sua própria imagem

duas maiores obsessões da nossa cultura, ambas

torna-se maior, o que pode levar a uma

focadas no corpo feminino. Não há dúvida que

perturbação da autoimagem e,

esta preocupação com a imagem corporal

consequentemente, da autoestima.

encontra, hoje, um espaço cada vez mais amplo para discussões estéticas e éticas. Do nascimento à morte, a aparência física é

A maioria dos adolescentes sente-se insatisfeita com sua imagem corporal. Enquanto nos homens há um desejo de ganhar massa

uma parte importante do que somos, tanto para

muscular, há, em contrapartida, um desejo de

os outros, quanto para nós mesmos. A imagem

perder peso nas mulheres. Observa-se que esta

corporal é a figura de nosso próprio corpo que

insatisfação leva muitas vezes a

formamos em nossa mente, é o modo pelo qual

comportamentos alimentares inadequados, que,

nosso corpo nos é apresentado. Cada cultura tem

por sua vez, podem desencadear os transtornos

características específicas que utilizam o corpo

alimentares. Esta alta taxa de insatisfação tem

como um espaço para expressar suas convicções,

sido atribuída cada vez mais a pressões

ora através de mutilações, ora por meio de

socioculturais que enfatizam, particularmente

intervenções menos traumáticas. Toda

por meio da mídia, a forma física ideal,

sociedade, em qualquer época, possui um ideal de

frequentemente relacionada a um corpo esbelto

beleza que é compartilhado pela maioria. Quem

para as mulheres e a um musculoso para os

possui as características deste modelo tem

homens.

razões para melhorar seu amor-próprio, ao passo

A maioria das crianças e adolescentes passa

que aquele que não as possui, pode sofrer com

mais tempo em frente a uma tela do que

uma baixa de sua autoestima.

qualquer outra atividade. Não seria exagero

Há pesquisas que mostram que pessoas

afirmar que a mídia tem um papel primordial na

consideradas atraentes recebem mais suporte e

formação da identidade destes jovens. A televisão

encorajamento no desenvolvimento de suas

e a internet bombardeiam imagens de mulheres

habilidades sociais, enquanto que aquelas que

jovens e atraentes que vendem diversos tipos de

não possuem tais atributos estão mais sujeitas à

produto – desde comida para cachorro até

rejeição, com consequente desestímulo a essas

apartamentos de luxo – e transmitem uma

mesmas competências. Hoje vive-se um

mensagem, principalmente para as adolescentes

momento em que há cada vez mais uma procura

que estão em busca de uma identidade, de que a

pelo corpo perfeito, uma busca desenfreada pelos

aquisição de um corpo bonito é a fórmula para o

anabolizantes e silicones, em que muitos

sucesso e a felicidade. Não podemos nos

acreditam ser o caminho para o sucesso.

esquecer de que é da natureza humana as

A imagem corporal é um processo em

#24

Nutridos pelos meios de comunicação, os exemplos de beleza reformulam o imaginário juvenil e o modo como eles idealizam o “perfeito”

transformações biológicas do corpo promovidas

constante transformação. A sua percepção já se

por mudanças hormonais características de cada

faz aos dois anos de idade. Aos poucos, o corpo

fase da vida.

joão eduardo mendonça vilela Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro fundador da Associação Brasileira de Psiquiatria Biológica


Ilustração: Guilherme Batista, Farândola

#25


FASHION

PRODUÇÃO LUXE EDITORIAL

+ site:feitobrasa.com

#26

fotografia: Elisa Nakaguma produçåo (make up + hair): Priscilla Prix modelo: Layla Ferreira marcas: Les3 (roupas) / Home Shoes (sapatos) agradecimentos: Cleire e Mauro Rodrigues da Cunha.


à v o nt a d e

mo.da antôn.:

_fashion_mo.da_

antimoda

Vestir-se como mandam as tendências é mais do que obedecer regras, é também sentir-se bem e identificar-se com um tipo de comportamento

Quando me peguei pensando sobre o que escreveria no primeiro texto da editoria de moda do BRASA, confesso que fiquei na dúvida. Em meio a tantas possibilidades, considerei em começar pelo simples: o que é moda? Mas espera, antes de começar a me arriscar a falar sobre moda, quero contar pra vocês um pouco sobre essa escritora que vos fala. Sou Laura Fleury, formada em Jornalismo. Sempre me interessei pelo universo fashion e já tive a oportunidade de trabalhar na área, através de produções textuais e ensaios fotográficos. Gosto muito de falar sobre moda. A pergunta pode parecer um pouco relativa, mas vamos lá: segundo o dicionário Michaelis, um dos significados da palavra “moda” é “fantasia, gosto ou maneira como cada um faz as coisas”. Essa denotação me chamou a atenção pois explica o que acredito ser moda. A palavra pode envolver o estilo como nos vestimos, mas também pode encarar os hábitos culturais, o lazer, a alimentação e a maneira como cada um de nós enxerga as suas próprias ideias. Diante da moda como “modo de se vestir”, defendo a importância de se identificar com o que você está usando. O jeito como nos vestimos é quase o nosso cartão de visita, mas seguir as tendências das grandes grifes é importante? Pode até ser. Existem diversos estilos por aí e você pode ter todos ou nenhum, criar o seu ou copiar o dos outros. O melhor de tudo é que não existem regras: crie e recrie-se quantas vezes quiser. Nesta seção falaremos sobre tendências, claro, mas também quero te dar umas dicas ao longo do tempo. A grana tá curta mas você está apaixonado no look do dia da sua blogger favorita? Calma que tem garimpo, tem resenha, tem tutorial. Essa coluna é quase uma autoajuda, um pronto-atendimento. E o que vestir na Primavera/Verão? Entrando no clima das coleções, trouxemos algumas fotografias do nosso editorial inspirado em nosso cerrado. Cheio de atitude e estilo, o colorido não podia faltar, e com ele o floral. O charme das flores está em alta e vieram mixadas à outras estamparias, como as listras e o poá (as famosas bolinhas). Abuse dos vestidos com modelagem mais solta, macaquinhos e saia midi. As coleções de 2016 estão mais democráticas.

Para quem não gosta dessa sensação trend mais colorida, a estação também trouxe os tons pasteis para as passarelas. Um dos mais antigos aliados do nosso guarda-roupa ganhou uma cara nova e é também uma aposta da estação: o bom e velho jeans estão com uma modelagem mais acinturada, valorizando o quadril e a cintura. As roupas com modelagens assimétricas são outras apostas certas que já vinham ganhando força nas ultimas coleções. Aposto que você deve ter pelo menos algo guardado em seu guarda-roupas que tem toda pegada desse verão. Reinvente e reaproveite o que você já tem em casa!

laura fleury Jornalista formada pela UFU, trabalha na base do pechincha pela moda

#27


c i nde re la do ce r rado

Gabriel Nunes

_turismo_diário de bordo_

Como sair de órbita

sem tirar os pés da Terra Sobre dez dias intensos no cerrado

lívia machado Quase jornalista, Lívia aventura-se no cerrado com coração aberto e sem medo de errar

Cânion no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros

Na manhã do dia primeiro de maio de 2015, feriado do Dia do Trabalho, começamos nossa aventura. Passei a noite arrumando a mala e, feito um zumbi, atrasei a nossa saída. Nada, contudo, poderia conter a excitação das semanas de planejamento, pesquisas e preparação para a tão esperada viagem. E, assim, eu e Gabriel, meu Tarzan do cerrado, partimos de Uberlândia em direção à Vila de São Jorge, cravado no coração da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Antes, uma primeira parada: o Piri Bier, primeiro Festival de Cervejas Especiais de Pirenópolis, Goiás. Conhecida pelas belas cachoeiras, a Cidade dos Pireneus é, para mim, sinônimo de paz, tranquilidade e boas histórias. Essa era a segunda vez que retornávamos a Pirenópolis com os mesmos companheiros de viagem após o carnaval deste ano. Pizza quadrada na Rua do Rosário, doce de leite caseiro comprado na Praça do Coreto, muita cerveja e sono tranquilo na Suíte Master da casa dos pais da Júlia Vasques, a brasiliense que se amarrou em um amigo uberlandense e, de quebra, na trupe de amigos dele que não dispensam uma farra. Desses dois dias insanos, o que marcou foi a Colombina

#28

Poema au Chocolat, feita com Cacau Belga Barry Calebaut e Baru do Cerrado. Como tudo que é bom dura pouco, quando piscamos, domingo já estávamos no caminho da segunda parte da viagem: o corpo doía e não havia concentração de THC que me livrasse dos primeiros sinais angustiantes da gripe que se anunciava. Depois de algumas horas de estrada, o cenário ao redor impressionava: cerrado de altitude por todos os lados e o céu azul, que a gente quase tocava. No sentido contrário da rodovia, muitos veículos 4x4, todos embarreados, deixavam a Chapada no fim do feriado. Quando chegamos, o fim de tarde se anunciava. Tratamos logo de armar nossa barraca. Fizemos um estudo cuidadoso do terreno em volta: distante o bastante das barracas ocupadas e da cozinha, onde o barulho se concentrava, mas perto o suficiente do banheiro e de um varal improvisado no meio do Camping Taiuá. Esse seria o nosso refúgio durante os próximos três dias de viagem. Após um descanso curto e um banho nem quente nem gelado, saímos para explorar a Vila de São Jorge. Com uma população de aproximadamente

600 habitantes, as ruas da cidade nem sequer eram asfaltadas. Tudo bem roots, rústico, mas com um charme aconchegante característico do lugar. Depois de uma caminhada, nossa primeira parada foi numa lojinha simpática, onde um músico local tocava flautas ou sei lá. Entramos para dar uma espiada e logo nos deparamos com vários artesanatos locais. Uma seção me chamou a atenção: a dos óleos essenciais, “fabricados” ali mesmo, na Chapada. Percebendo a minha curiosidade, a vendedora tratou logo de explicar do que se tratava aqueles vidrinhos minúsculos: “esse aqui você usa para tratar de problemas respiratórios. Respira fundo e devagar”, disse ela ao aplicar um pouco da Sinergia para Respiração nos meus pulsos, têmporas e testa. Me senti melhor de imediato. Agradeci e disse que voltaria no dia seguinte para comprar. Dali fomos parar em um restaurante de outro mundo, a Pizzaria Canela d'Ema. Ele ficava logo na entrada do nosso camping, atravessando a rua, mas é impossível passar despercebido: nas ruas do povoado, várias placas de extraterrestres indicam a distância da pizzaria. De massa fininha e sabores exóticos, a pizza feita em forno à lenha não deixa a desejar. Para completar a atmosfera singular, a pizzaria conta com um Karaokê e uma família de alienígenas para você fotografar. Devido à nossa incrível habilidade com o microfone, não cantamos, mas posamos pra foto com os ET's simpáticos. Satisfeitos e bem alimentados, voltamos para o camping a fim de descansar para o longo dia de caminhada que nos aguardava. Antes de dormir, subimos em uma das “camas suspensas” que têm no camping para observar a lua cheia e queimar uma erva estranha. Que céu, que noite, que lua! Tudo indicava que o dia seguinte seria de muita euforia. E foi. Acordei bem melhor da gripe, mas com o corpo ainda meio lesado. Resolvemos então ir ao Vale da Lua nesse dia, pois a caminhada era curta e tranquila. O vale tem esse nome por conta da erosão causada pelo Rio São Miguel em suas rochas, formando uma paisagem incrível de crateras cinzas, com cachoeiras, lagos e túneis. Depois de um banho na água gelada, partimos em busca da Cachoeira Raizama, mas desistimos por conta da trilha escorregadia e da chuva que


Cachoeira Santa Bárbara

Cachoeira das Cariocas

chegava devagar. Ao longo do caminho, placas com os dizeres “NÃO faça cocô no mato nem junto ao rio” arrancaram alguns sorrisos. Terminamos o dia na Cachoeira do Lageado e, ainda à luz do dia, deu tempo de apreciar uma Aracê Stout, a primeira cerveja artesanal da Chapada. No dia seguinte, acordamos cedo e tomamos um café da manhã reforçado: misto quente no pão caseiro de abóbora, suco de banana com leite e uma xícara de café forraram nosso estômago, que deu uma revirada quando vimos três baratas grandes correndo pela lanchonete. Fomos para o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, uma reserva natural com mais de 65 mil hectares de cerrado de altitude, atualmente administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 1961, quando o parque foi criado, sua área era de 625 mil hectares, quase dez vezes maior do que a atual. Na entrada, assinamos um Termo de Responsabilidade que constava os nossos dados, como telefone para emergência, cidade e documento de identidade. Fomos orientados a sair até no máximo 17h30. Caso desse 18h e ainda não tivéssemos passado pela portaria, a segurança do parque daria início a uma busca pelos nossos corpos, provavelmente levados por alguma tromba d'água. Devido às chuvas naquela semana, algumas trilhas estavam interditadas justamente pelo risco do fenômeno natural perigoso. Fizemos a trilha dos Cânions, que dá acesso à Cachoeira da Carioca (ou Carioquinhas, para os íntimos) e aos Cânions. A grande aventura nos 12km de ida e volta começa agora. O início é animado, mas a demora para chegar nos deixava um pouco ansiosos. Quando olhei pra baixo e vi a descida que precisaríamos encarar, um alerta interno apitava cada vez mais rápido. Mesmo assim, desci, tirei a roupa e mergulhei junto aos outros turistas. As quedas da Carioca eram imponentes. Na volta, antes de encarar a subida, levei um tombo fenomenal. Gabriel-Tarzan ainda tentou me segurar pela mochila, mas isso só amenizou um pouco a queda, dentro de um poço d'água. Niiiiiiice. Rumo aos Cânions, a chuva anunciava a sua chegada. Engatinhei nos blocos de pedra

para descer até o poço, mas na minha mente o único pensamento era: “que merda, como eu vou sair daqui viva?”. As pedras escorregavam muito e a altura não era agradável. Quando finalmente terminamos de descer e tiramos a roupa para pular na água, caiu um pé d'água desgraçado. Não tinha onde se esconder e a única saída era de fato sair de lá. Colocamos a roupa e os sapatos, que a esse ponto já estavam encharcados, e pegamos o caminho para a portaria, que por um sinal divino não era o mesmo trecho que fizemos para chegar lá. Debaixo de chuva, literalmente “nadamos” em algumas piscinas naturais pelo caminho. O resgate não foi necessário, chegamos molhados dos pés à cabeça, porém vivos. O segurança da portaria nos dá uma grande ideia: “agora para vocês relaxarem, não há nada melhor que dar um pulo nas águas termais. Não é longe e lá fica aberto até dez da noite”. Fiquei animada. Fizemos uma pausa para lanchar, tirar a roupa molhada e saímos felizes em busca das piscinas naturalmente quentes na Fazenda Éden. Logo na esquina do camping, na saída para a estrada, eis o primeiro sinal de que não deveríamos ficar tão animados. Caímos em uma vala, das grandes, e atolamos o carro. Como

estava escuro e o Onix não é um 4x4, buscamos ajuda para desatolar. Logo um monte de crianças do povoado viram o acontecido e se empolgaram: “moço, pode entrar no carro que eu vou empurrar com toda a força pra te tirar”. Hilário. Saímos de lá com facilidade. O que não foi fácil foi lidar com o Gabriel depois, desanimando com a viagem por conta do para-choque quebrado. “Agora que a gente não vai mesmo na Cachoeira Santa Bárbara, imagina se eu atolo o carro no meio do nada”. No dia seguinte, partimos para Alto Paraíso. Apesar dos itens molhados na barraca por conta da chuva, eu sabia que sentiria saudade do Camping Taiuá, afinal, o pessoal era muito solícito e disposto a ajudar e tinha essa menininha, a Lua, filha de um moço que morava lá, que vivia fazendo peripécias pra lá e pra cá. Conhecemos também a Mãe Lua, uma senhora de não-seiquantos-anos, com cabelos longos brancos, tatuagens e cara de índia que fazia terapias com argila que ela mesma “colhia” da natureza. Muito simpática. Em Alto Paraíso ficamos na agradável Pousada Alfa e Ômega. Toda zen, até os funcionários de lá pareciam ser contagiados por essa onda astral. Por conta da chuva, no primeiro

Fim de tarde na Cachoeira dos Cristais

Trilha para a Cachoeira Santa Bárbara

#29


_turismo_diário de bordo_ Carioquinhas

dia ficamos ali mesmo, pela cidade. Passei mais de uma hora encantada em uma loja de cristais e pedras preciosas. O namorado ficou inconformado. No dia seguinte visitamos a Cachoeira Loquinhas, que na verdade é um conjunto de 14 poços de água cristalina, ideais para banho, que se dividiam entre duas trilhas e muito charme natural. Logo na entrada, uma família de macacos dá as boas-vindas. Depois da chuvinha básica na volta da trilha, fomos para a Cachoeira dos Cristais, que também é um aglomerado de poços para banho e sete pequenas quedas naturais. A última delas era a Cachoeira Véu de Noiva, que se tornou particularmente especial para mim e Gabriel. Estávamos a sós, um mergulho e não demorou para que a magia do lugar tomasse conta do nosso fetiche de amar cercados pela natureza. Uma adrenalina imensa. O dia terminou com um pastel de carne, preparado na lanchonete do local, uma Heineken, um pôr do sol, dois arco-íris e uma conversa com o jornalista Eduardo Vessoni, que estava lá a trabalho. Como qualquer jornalista, ou qualquer foca, despertei enorme interesse pela entrevista que Eduardo fazia com o homem que cuidava da propriedade da Cachoeira dos Cristais. Foi nesse bate-papo que descobrimos que o entrevistado, Fernando Couto, mais conhecido como Tatoo, tinha dado início ao Camping Taiuá, que ficamos em São Jorge, e que ele, assim como muitos, “foi ficando” na Chapada depois de ir visitar um primo que já morava lá. Segundo ele, a visita era uma despedida do Brasil, já que em breve voltaria para a Inglaterra. Na verdade, nunca mais saiu de lá. A história é bem parecida com a de Victor Vieira, um guia muito simpático que nos acompanhou até a Cachoeira Santa Bárbara. Natural de Cuiabá e formado em Jornalismo na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), veio para Alto Paraíso há alguns anos e também

Sereiando

nunca mais quis saber de outro lugar. Victor tem aquele jeito manso, típico dos moradores da cidade. No dia que fomos para Santa Bárbara, chovia legal, mas Victor não deixou que desanimássemos: “a cachoeira fica a 100km daqui. O tempo pode estar muito diferente lá”. Ele estava certo. A Cachoeira Santa Bárbara fica em Cavalcante, no Engenho 2, a 5km da comunidade quilombola Kalunga, a maior do Brasil. Os Kalunga são descendentes de negros escravos que saíram da Bahia, ainda no século XVIII, para se refugiar nessas terras acidentadas de Goiás. “E que belo refúgio eles arrumaram”, dizia Victor. Para chegar na cachoeira, os quatro primeiros quilômetros do percurso podem ser feitos em carros 4x4, depois disso é 1 km a pé até a queda d'água de 28m. Fizemos um pequeno trecho de carro e depois pegamos carona com a Maria para completar o trajeto. Maria e sua Saveiro branca sabem exatamente onde ir para não cair nos buracos. Com ela atrás do volante, o percurso fica suave.

Ao adentrar na mata ciliar, a ansiedade toma conta. Logo foi possível admirar o visual deslumbrante. O poço, que chega até três metros de profundidade, é forrado com uma areia bem branca, fazendo com que tudo seja visível, mesmo naquela profundidade. Gabriel logo se preparou para fotografar o cenário e eu, para mergulhar na água gelada. Ali, lembro-me de conseguir meditar. A vibe do lugar, o silêncio e as árvores proporcionavam uma experiência transcendental. Se Deus existe, tenho certeza que é lá que Ele está. Depois de um tempo admirando aquela paisagem, retornamos satisfeitos, sorridentes e leves como uma brisa. Nos restava mais um dia no paraíso. Como todas as manhãs, essa também foi chuvosa e nublada. A essa altura, nada disso seria problema. Nosso último dia foi destinado a conhecer as cachoeiras Almécegas I e II, localizadas na Fazenda São Bento, na estrada que conecta São Jorge e Alto Paraíso. Confesso que a trilha não era das mais fáceis. A primeira queda, com cerca de 50 metros de altura, dava pavor só de olhar. Por conta das chuvas, era muita água que descia entre as pedras. Ainda na esperança de tomar um banho de cachoeira, seguimos para a Almécegas II acompanhados de um amigo que fizemos no caminho. Também era impossível nadar: a força da água era tão espetacular que fazia a gente refletir sobre como seria dar qualquer passo em falso naquele lugar. Sentamos ali e ficamos só apreciando o visual, até cansar. Deixar a Chapada dos Veadeiros talvez tenha sido mais difícil do que chegar lá. Tanto é que esquecemos o cartão de crédito na máquina da pousada e tivemos que dar meia volta na estrada para buscar. De todas as lições que eu aprendi por lá, com aquelas pessoas de várias partes e todo aquele misticismo, talvez a mais importante seja a de sempre querer ser mais: mais por mim, mais pelos outros, mais pela natureza e pelos animais. Alto Paraíso de Goiás, me aguarde. Ainda voltarei para matar a saudade. X X X X X X X X X X X X X X X

#30


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