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Livro: Jovens Autores

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F291 Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná. Departamento Regional Sesc Paraná. Divisão de Educação, Cultura e Ação Social. Ensino Médio integrado. Jovens autores: histórias para repensar o mundo: uma coletânea inspirada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU / Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná; Alexandre Otaviano Pereira da Silva; Aline Ellis de Carvalho; Amanda Leticia Souza Cordovil Dias; Sabrina Cesar Freitas (org.). - Curitiba: Fecomércio PR, 2026. 116 p.: il., color.; 23 cm

ISBN 978-65-86651-36-2

1. Literatura Brasileira - Coletânea. 2. Escrita Criativa. 3. Artes. I. Silva, Alexandre Otaviano Pereira da. II. Carvalho, Aline Ellis de. III. Dias, Amanda Letícia Souza Cordovil. IV. Freitas, Sabrina Cesar. V. Título.

CDD B869.4 Rosilda Rosowski dos Santos – CRB9/1238


Palavra do diretor regional interino

Tenho grande satisfação em registrar o lançamento desta publicação do curso Jovens Autores. Este livro é fruto de um trabalho em rede e mostra como o percurso pedagógico, ao se transformar em obra publicada, reafirma a escola como espaço de criação e circulação cultural. Destaco o caráter pioneiro da iniciativa: o Sesc Paraná é a primeira instituição no estado a ofertar, de forma continuada, um curso de escrita criativa como ação extracurricular com certificação ao longo dos anos do Ensino Médio. Essa conquista reafirma nossa diretriz de democratizar o acesso às artes, e à autoria, ampliando oportunidades formativas para a juventude. Em nossas 11 Unidades de Serviço que ofertam o Ensino Médio Integrado ao Técnico Sesc Senac, equipes mobilizaram tempo, recursos e acompanhamento para transformar estudo, trocas e reescritas em entrega pública. Estudantes escreveram, revisaram e assinaram suas produções – muitas vezes também as capas –, reafirmando o valor da autoria estudantil e o compromisso do Sesc com experiências que geram impacto acadêmico, social e pessoal. Registro meu reconhecimento à Direção da Divisão de Educação, Cultura e Ação Social, a toda equipe da Gerência de Educação envolvida, às equipes das Unidades de Serviço, professores multiplicadores, analistas e áreas de apoio. E agradeço, sobretudo, aos estudantes, razão de ser deste trabalho. Seguiremos comprometidos com ações que conectam educação, cultura e cidadania, abrindo caminhos para que mais jovens tenham acesso ao poder transformador da escrita. Desejo uma boa leitura!

Ulisses Fernando de Moraes Rodrigues Diretor Regional Interino do Sesc Paraná


Mensagem da Direção da Divisão de Educação, Cultura e Ação Social e da Gerência de Educação

Apresentamos esta obra do projeto Jovens Autores do Ensino Médio Integrado ao Técnico Sesc Senac com satisfação institucional. O livro dá visibilidade a um percurso formativo que integra educação e cultura, amplia repertórios e afirma o lugar da escola como espaço de criação, participação e circulação da palavra. Ao investir neste projeto, o Sesc Paraná reafirma pilares que nos orientam: formação integral, protagonismo juvenil e acesso democrático às artes. O processo – oficinas, leituras partilhadas, reescritas e curadoria coletiva – fortaleceu a autonomia dos estudantes e a qualidade do trabalho docente, consolidando práticas de cooperação, escuta e responsabilidade com o texto e com a comunidade. As narrativas aqui reunidas dialogam com temas da Agenda 2030 estabelecidas pela Organização das Nações Unidas e convocam uma leitura atenta do nosso tempo. Ao transformar questões complexas em linguagem artística, as turmas exercitaram estudo, imaginação e posicionamento, produzindo sentidos que extrapolam a sala de aula e alcançam a vida em comum. Registramos nosso reconhecimento às equipes pedagógicas e culturais, aos professores multiplicadores, aos técnicos de atividades e às áreas de apoio das Unidades de Serviço o que sustentaram cada uma das etapas. Destacamos, ainda, a dedicação da equipe de coordenação do projeto, cuja atuação assegurou coerência pedagógica, acompanhamento próximo e a circulação pública desta coletânea. Como área que representa a educação do Sesc Paraná, reiteramos nosso compromisso com iniciativas que democratizam o acesso à criação e ampliam oportunidades para estudantes em todo o estado. Que este livro circule nas unidades, bibliotecas e comunidades, inspirando novas práticas e novas edições – e que siga abrindo caminhos onde a palavra se torna conhecimento, pertencimento e cidadania. Desejamos uma ótima leitura!

Lidiane Cristine Galvan Diretora Divisão de Educação, Cultura e Ação Social do Sesc Paraná Alexandre Otaviano Pereira da Silva Gerente Gerência de Educação do Sesc Paraná


Prefácio Este livro nasce da escola e dialoga com o mundo. Reúne histórias escritas por estudantes de 10 cidades pelo estado do Paraná: Arapongas; Matinhos; Curitiba; Foz do Iguaçu; Ivaiporã; Jacarezinho; Londrina; São José dos Pinhais; Umuarama e União da Vitória. No curso Jovens Autores – inédito no estado, é possível olhar a escrita criativa como uma linguagem artística e com um papel social: a palavra que organiza o pensamento, dá forma à experiência e participa da vida pública com responsabilidade e sensibilidade. Ao longo dos encontros, algo essencial aconteceu: a troca. Estudantes leram uns aos outros, opinaram com cuidado, reescreveram, testaram soluções, combinaram repertórios. Esse exercício coletivo fortaleceu tanto a dimensão acadêmica, leitura crítica, técnica, repertório; quanto a pessoal, autoconfiança, empatia, coragem de mostrar a própria voz. Muitas capas que acompanham as narrativas também são obra das turmas – mais um gesto de autoria compartilhada que dialoga com a função da literatura na sociedade: aproximar pessoas, ideias e mundos. As histórias foram escritas a partir dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Escrever sobre temas complexos – justiça social, clima, igualdade, paz – não é simples, e, por isso mesmo, é transformador. Escrever sobre os ODS exige estudo, imaginação e posicionamento ético: olhar para a realidade, reconhecer conflitos, propor caminhos. Nesse percurso, nossos estudantes perceberam que a escrita pode ser uma expressão-ação. Eu acredito no poder da escrita – vivi isso intensamente ao longo dos meus estudos e práticas docentes – e defendo que o direito de criar precisa alcançar todas e todos, especialmente na educação básica. Dessa forma, projetos como este tornam a criação acessível: oferecem método, tempo, companhia e circulação. Participar de um livro na escola diz, na prática: “a sua voz importa”. E quando a voz importa, a transformação acontece em três frentes: acadêmica, social e pessoal. Este projeto também expressa a missão institucional do Sesc Paraná, que entende educação e cultura como campos que promovem bem-estar, cidadania e desenvolvimento humano. Quando a instituição aposta em iniciativas como o Jovens Autores, ela afirma que a escola é espaço de formação integral – de leitores e autores, de sujeitos que pensam o presente e imaginam o futuro – e cria condições concretas para que isso aconteça no cotidiano dos estudantes. Que estas histórias toquem você e ajudem quem escreveu e quem lê a repensar sua relação com o mundo, como nos convidam os ODS: com equidade, sustentabilidade, diálogo e esperança. Sigo acreditando em uma educação que abre caminho para esses objetivos – página a página, encontro a encontro, voz a voz.

Amanda Letícia Souza Cordovil Dias Educadora, idealizadora doJovens Autores Gerência de Educação do Sesc Paraná


SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DO PARANÁ Darci Piana Presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac PR Ulisses Fernando de Moraes Rodrigues Diretor Regional Interino do Sesc PR Lidiane Cristine Galvan Diretora de Educação, Cultura e Ação Social Cesar Luiz Gonçalves Coordenador Geral do NCM — Núcleo de Comunicação e Marketing Rosane Guarise Assessora de Comunicação e Marketing do NCM — Núcleo de Comunicação e Marketing Alexandre Otaviano Pereira da Silva Gerente de Educação Aline Ellis de Carvalho Analista — Gerência de Educação Sabrina Cesar Freitas Analista — Gerência de Educação Amanda Letícia Souza Cordovil Dias Professora Johann Dakitsch Miranda Analista — Núcleo de Comunicação e Marketing


SUMÁRIO

SESC ARAPONGAS Legados ------------------------------------------------------------------------------------------------ 8 Necdraxia -------------------------------------------------------------------------------------------- 16 SESC CAIOBÁ A Invenção do Século ------------------------------------------------------------------------------- 24 SESC CENTRO Hospital Central -------------------------------------------------------------------------------------- 31 SESC FOZ DO IGUAÇU A Pedra e o Propósito ------------------------------------------------------------------------------- 43 Os Sete Reinos --------------------------------------------------------------------------------------- 47 SESC IVAIPORÃ O Tecido Remendado ------------------------------------------------------------------------------- 51 SESC JACAREZINHO Usina Nuclear ---------------------------------------------------------------------------------------- 57 Poemas ----------------------------------------------------------------------------------------------- 60 SESC LONDRINA CENTRO O Tempo da Redenção ------------------------------------------------------------------------------ 66 A Fome do Silêncio ---------------------------------------------------------------------------------- 70 SESC LONDRINA NORTE Lembranças Ofuscadas ----------------------------------------------------------------------------- 76 Soleil -------------------------------------------------------------------------------------------------- 81 SESC SÃO JOSÉ DOS PINHAIS O Lenço de Vinho ----------------------------------------------------------------------------------- 88 Rússia 2045 ------------------------------------------------------------------------------------------- 95 SESC UMUARAMA A Virada: Educação como Libertação ------------------------------------------------------------ 100 Pontes de Papel ------------------------------------------------------------------------------------- 104 SESC UNIÃO DA VITÓRIA Geração Semente ----------------------------------------------------------------------------------- 109

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ARAPONGAS – SESC ARAPONGAS ODS 4 – Educação de Qualidade e ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis Legados Autores: Arthur de Oliveira Sanches Julia Pires Fernandes Chineider Poleti Maria Eduarda Ferreira Vieira Maria Julia de Souza Ilustração de capa: Maria Eduarda da Silva dos Santos Professora: Erica Neri Camargo Necdraxia Autores: Ana Clara da Silva Santana Beatriz Raiane Moreira de Sá Daniel Mariano Freire Nhandeara Alves Favaretto Riana de Siqueira Ilustração: Nhandeara Alves Favaretto Professora: Erica Neri Camargo

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LEGADOS

Narrado por Kael Na Cúpula, o conhecimento não é proibido, ele é domesticado. Mutilado, redistribuído em doses que não ameaçam. Eu aprendi desde cedo a diferença entre informação e saber: uma para formar bons funcionários, a outra, para acender fogueiras. Meu nome é Kael Salazar. Filho de coronel. Herdeiro de Magnus, um dos autores silenciosos das regras que mantêm o equilíbrio: os trabalhadores nas fábricas, os burgueses nas distrações e nós, os coronéis, acima de todos. Questionar essa ordem é crime. Nossa posição é mantida não só pelo poder, mas pelo medo, que, embora sirva bem à nossa casta, nem sempre basta. Meu pai vinha me observando mais de perto há um tempo. Não dizia muito, mas eu sabia o que ele pensava sobre minha aproximação com Nayla. “Uma ameaça dentro de casa é mais perigosa que qualquer inimigo lá fora”, ele costumava dizer. Eu e Nayla continuamos o grupo juntos quando a avó dela foi silenciada. Ensinar era um ato de traição. Madame Berta usava livros como armas de defesa. Dizia que, quando entendemos como o sistema pensa, ele não consegue mais enganar a gente do mesmo jeito. O grupo de estudos não era exatamente um grupo organizado, mas um monte de gente tentando sobreviver. Trabalhadores que não sabiam ler, jovens que queriam entender por que passavam fome enquanto outros nadavam em luxo. Às vezes, até filhos da elite, cansados de repetir o que os pais mandavam dizer. Madame Berta era quem mantinha nosso propósito: que todos tivessem acesso ao conhecimento. Sem medida, sem censura. Por fora, ela era só uma senhora frágil, que tomava chá quente até nos dias de calor. Por dentro, era tudo, menos frágil. Tinha mais estratégia do que qualquer coronel. Sabia onde pisar, quando se calar. Um exemplo de força, coragem e sabedoria. Nós já sabíamos, desde que ela se foi, que havia muito em jogo, e, mesmo sem dizer, Nayla esperava que eu continuasse ao seu lado. Não mais só como um curioso, mas como alguém que também acreditava. Como alguém que a amava mais do que temia o próprio sangue. Durante meses, mantivemos os encontros escondidos sob um galpão abandonado. Replicávamos os cadernos da avó dela, estudávamos os mapas dos fiscais, passávamos livros de mão em mão. Nayla organizava. Eu protegia. Até o dia em que percebi que proteger não era mais suficiente. Se continuasse ao seu lado, Magnus a mataria. Permanecer não era só perigoso. Era desobedecer diretamente meu pai. Ele me deu uma ordem velada na última vez que falamos: “Se você ainda quiser ser meu herdeiro, sabe o que fazer com ela.” Não mencionou nomes. Não precisou. Então eu escolhi fugir. Ela nunca me perdoou. E eu nunca me defendi. Porque ela estava certa. Hoje, dois anos depois, eu voltei ao galpão. Com medo, mas fui. Não só pelos livros. Mas por ela.

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Narrado por Nayla Ele voltou. Não precisei vê-lo. As pessoas que estavam no galpão reagiram antes de mim. O burburinho, os olhos se desviando. A hesitação dos que sabiam quem ele era, mas não sabiam mais quem ele é. Kael sempre teve o dom de deslocar o ar sem fazer barulho. Mas agora, o som do passado pesa em cada passo que ele dá. E pesa em mim também. O grupo era nosso. Ele dizia que estava ali pelo carinho que tinha pela minha avó, pela causa, pelos livros, mas eu sabia o que ele realmente sentia. Eu vi. Eu sei. E foi por isso que doeu quando ele partiu. Não pela ausência, mas porque ele sabia exatamente o que a presença dele significava: aliança. E mesmo assim, escolheu salvar a si mesmo. Eu fiquei. Fiquei quando os fiscais invadiram o setor 3. Fiquei quando destruíram os cadernos originais da minha avó. Fiquei quando precisei enterrar dois dos nossos com as mãos tremendo de frio e raiva. E, enquanto eu me reconstruía com os cacos do que sobrou, ele sumiu. Kael não me traiu como traem os fracos. Ele traiu como traem os inteligentes: com cálculo, com silêncio, com tempo. Agora ele está aqui. Com o mesmo rosto, os mesmos olhos, mas algo diferente na postura. Como se finalmente entendesse o que abandonou. Mas isso não muda nada. — Ele quer voltar, Nayla. — Foi o que Samuel me disse, entrando na salinha reservada. Como se fosse possível desatar uma corda que ele próprio puxou até arrebentar. Voltar não é só aparecer. É sangrar junto. E isso ele ainda não fez. — Nayla. — Ele disse meu nome com a naturalidade de quem ainda acredita que pode usá-lo como se nada tivesse acontecido. A irritação subiu instantaneamente, como se aquela palavra fosse uma chave que ele não merecia mais ter. — Voltou a estudar? — perguntei, com a voz seca, carregada de tudo que ficou entre nós, mas não dito. Ele fez um movimento lento de cabeça, tentando decifrar o meu olhar. Já era tarde demais para jogos. — Quero reparar o que deixei para trás... — começou, mas engoliu as palavras ao perceber que eu o observava, sabendo exatamente o que ele queria evitar. Kael sempre soube ler o que ninguém via. Por isso doeu tanto quando ele se fez cego. — Não dá para recuperar os cadernos queimados. — Respondi. O silêncio que caiu entre nós foi pesado. Ele baixou os olhos por um instante. Era a sombra da culpa finalmente rompendo o brilho do orgulho que o protegia. Mas isso, sozinho, não era suficiente. — O grupo continua. — Afirmei. — Sem você. Ele não protestou. Não implorou. Essa ausência de defesa me deixou mais confusa do que qualquer palavra poderia. — Mas você... ainda escreve? — perguntou, a voz carregada de uma curiosidade que não era só pelo grupo, mas por mim, pela Nayla que ele pensou ter perdido. Demorei. — Escrevo. — E virei as costas. Se ele quer voltar, que comece pelas cinzas. O barulho da porta velha se fechando atrás dele foi sutil, mas cortante. Ele não insistiu. E, por um segundo — um mísero segundo —, isso me doeu mais do que se tivesse insistido. Como se ele tivesse aceitado fácil demais que eu não queria vê-lo, quando, na verdade... eu queria. Só não queria querer. Sentei-me na cadeira de madeira rachada que minha avó usava, os cadernos abertos à minha frente e o cheiro de poeira antiga misturado à tinta me trazendo de volta à realidade. A caneta tremia um pouco na minha mão. A causa é maior que meus sentimentos, pensei, tentando me fazer voltar ao que realmente importava. Então escrevo. Escrevo para não gritar. 10


A presença dele ainda pairava no ar. Não só por ter vindo, mas porque, de algum modo estranho, ele ainda estava em mim. Era mais fácil quando eu podia odiá-lo. Mas o Kael de hoje não era o mesmo de antes. A forma como me olhou e esperou uma palavra me confundia e quebrava minhas defesas com mais precisão do que qualquer desculpa que poderia ter me dado. Talvez porque não trouxe desculpas, mas um silêncio que não parecia vazio — parecia um pedido. Um que ainda não sei se quero ouvir. Desviei o olhar dos cadernos e fitei a janela rachada da antiga sala de arquivos. O sol entrava em feixes tímidos, atravessando o pó do tempo. Naquela luz, toquei levemente o colar que minha avó me deixou de presente. Lembrei-me dela dizendo que algumas dores só se curam quando são vistas. E que, às vezes, a coragem não está em seguir, mas em parar... e deixar doer. Talvez eu precisasse deixá-lo voltar. Não para ficarmos juntos, mas para que eu pudesse ver, de frente, o que sobrou. Ou o que ainda resta. Levantei devagar, o corpo ainda cansado da noite mal dormida. Recolhi os papéis, empilhei os cadernos, escondi os livros atrás da tábua solta, como sempre. Antes de sair, olhei pela fresta da porta. Ele não estava mais ali. Mas havia um papel preso entre as tábuas do lado de fora. Um bilhete. Reconheci a letra antes mesmo de abrir.

“Não vou forçar nada. Só queria ver você de novo. Se quiser conversar, me encontra amanhã no banco perto da estação às 18h. Se não aparecer, vou entender.”

Dobrei o papel sem reler. Coloquei-o no bolso e respirei fundo. E, pela primeira vez depois que ele partiu... não sabia se queria que ele me entendesse.

Narrado por Kael Esperei até as 18h30. Não foi exatamente uma surpresa ela não aparecer. Mas, mesmo assim, esperei. Não mexi no celular. Não olhei para o relógio. Fiquei só ali, sentado no banco perto da estação, com o vento frio soprando no pescoço. O lugar era feio, mal iluminado, mas tinha uma coisa que me prendia ali: era simples. Sem câmeras, sem vigilância. Um dos poucos cantos onde as regras da Cúpula pareciam perder a força. Não sou bom com palavras. Nunca fui. Depois que vi Nayla, alguma coisa em mim afundou, como se eu tivesse me esquecido de como era vê-la. Eu sabia que tinha ferrado tudo, sempre desconfiei que ela escondia algo maior do que ela mesma. Só não achei que fosse tão sério. Tão perigoso. A Cúpula seria explodida! Foi o pouco que consegui ouvir enquanto estava no galpão. Quando descobri, a primeira reação foi de raiva. Pela mentira e pelo risco que ela corria e me fez correr. Mas depois, quando a poeira baixou, ficou uma outra coisa: medo. Não por mim. Por ela. Porque eu a conheço o bastante para saber que, quando o fogo vira brasa, é porque ela está guardando calor para resistir mais tempo. Ou para morrer tentando. E talvez seja isso que me tirou o sono essa noite. Saber que ela pode mesmo morrer tentando. Não tem como voltar a ser o garoto que não sabia. Ela me pôs entre o sangue e a verdade. E se ela não entende por que isso me dói, talvez nunca tenha me amado como eu achei que amava. Ou talvez ame mais do que eu consigo aguentar. A Nayla que eu conheci copiava as anotações com caneta colorida. Agora ela escreve como se cada palavra fosse um grito de socorro. E talvez seja. Mas, 11


se for, para quem ela está gritando? Para mim? Eu daria tudo para acreditar que ainda sou esse alguém. Mas, quando ela me olhou naquele momento, percebi que já me escreveu em um capítulo antigo. Que não tem mais espaço para mim nas páginas dela. A menos que ela escolha. O problema é: estou pronto para trair ela de novo, ficando calado? Ou para trair meu mundo, ficando do lado dela? Sinto medo de que ela não possa confiar mais em mim. Não sei o que eu quero exatamente. Mas sei o que eu não quero: que ela me apague da vida dela sem me dar o direito de tentar consertar. Quando o relógio da estação marcou 18h30, a notificação da Cúpula chegou com a frieza de sempre, inegociável. Eu soube que não dava mais tempo. Ainda assim, fiquei por mais dois minutos. Escrevi um bilhete e colei debaixo do banco com o chiclete, na esperança de que ela encontrasse. Era como costumávamos conversar antigamente. “Amanhã. Mesmo lugar. Mesma hora. Última vez que tento.” Não é chantagem. É só limite. Voltei caminhando devagar, como se cada passo digerisse a sua ausência. No fundo, sabia que tinha uma chance mínima de ela aparecer. Nayla não é do tipo que corre quando alguém chama, mas quando sente. E eu não faço ideia do que ela anda sentindo. Se é que sente algo por mim ainda. Quando passei pela guarita, os guardas nem me olharam, só assinaram a ficha de entrada e voltaram para os drones. Em casa, joguei a jaqueta no chão e deitei na cama. Fiquei ali, só ouvindo a minha respiração. Quieta. Solitária. Não chorei. Mas o silêncio... ele pesa. E hoje, ele estava insuportável. Pensei em apagar o lembrete de amanhã. Fingir que esse bilhete foi um surto meu, uma recaída qualquer. Mas não consegui. Porque ainda tem uma parte de mim, pequena, quase ridícula, que acredita que ela pode ler aquilo. E atender ao meu pedido. Não por dó. Não por educação. Mas porque talvez, só talvez, ainda tenha alguma coisa dela que queira ficar. Ou ouvir. Ou só olhar na minha cara e dizer: “Acabou.” Até isso eu aceito. O que eu não aceito é esse silêncio que diz tudo e nada ao mesmo tempo. Amanhã eu volto para aquele banco. Nem que seja só para saber que fiz tudo o que dava. Mesmo que ela não venha.

Narrado por Nayla Eu fui. Estava ali. Mas não consegui me aproximar. Fiquei escondida atrás de um arbusto do outro lado da rua, assistindo em silêncio enquanto ele partia. Não dormi, nem tentei. O bilhete continuava dobrado dentro do bolso da minha calça, como se estivesse queimando a pele. Li umas dez vezes. Eu não queria ir novamente. Não porque não me importasse. Mas porque me importava demais. Passei o dia tentando ocupar os dedos com qualquer coisa: organizar arquivos, revisar fichas de leitura, empilhar livros. Tudo inútil. O pensamento voltava para ele. Cada gesto doía, como se meus ossos lembrassem que já tinham se acostumado com a ausência, e agora estavam sendo obrigados a reaprender. Kael. A ferida tinha nome. E também tinha rosto, cheiro, memória. Era isso que me doía mais: lembrar dele no plural. Porque ele nunca foi uma coisa só. Foi risada sussurrada no meio dos corredores proibidos. Foi olhar cúmplice diante de mapas riscados com medo e esperança. E também foi abandono. Às 17h40, fechei os cadernos. Não decidi nada. Só levantei e coloquei a blusa escura. Peguei o capuz e saí. Porque às vezes o corpo sabe o que o coração ainda nega.

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Cheguei às 18h03. Ele já estava lá. Sentado no mesmo banco. Eu não me anunciei. Só sentei. Com espaço suficiente entre nós para caber a história inteira. Não me disse nada de imediato. Só me olhou. E naquele olhar, sem pedir, me deu o tempo que eu precisava. — Ainda não confio em você. — disse, por fim. Kael assentiu, como se esperasse isso. Como se aceitasse. — Eu sei. E não te culpo. — Ficamos em silêncio por mais alguns segundos. Até que ele tirou algo do bolso. Era uma folha. Um trecho manuscrito. Texto dele. — Escrevi ontem. Não para você. Nem sobre você. Só... para mim. — Ele me estendeu. — Mas, se quiser ler, está aqui. Peguei o papel com os dedos mais firmes do que eu esperava. Li sem pressa. As palavras falavam de culpa e perda, e também de esperança. Esperança quebrada, torta, mas ainda assim esperança. Quando terminei, devolvi. Ele não estendeu a mão para pegar. — Fica com isso. — disse. — Não é prova de nada. Só... registro. Guardei no bolso, junto com o bilhete do dia anterior. E foi só aí que percebi. Eu ainda estava guardando tudo o que ele deixava. Como era antes. Kael virou um pouco o rosto. O olhar longe. — Não estou aqui para tentar ser o que fui. Estou aqui para ser útil. Se você deixar. Se não, eu vou embora. Sem bilhete. Só... embora. — Eu respirei fundo. A palavra “sim” formigou na língua, mas ficou presa. Então improvisei outra coisa. — A reunião é amanhã. Subsolo do terminal antigo. Setor 2. Porta enferrujada, com marca azul. Mesmo horário de sempre. Ele me olhou. Os olhos ligeiramente arregalados. Não por surpresa, mas por respeito. — Não significa que confio. — completei. — Só que guardar tudo sozinha está me corroendo. Ele olhou nos meus olhos, sério: — Não precisa guardar mais. Mesmo que eu não mereça. E, dessa vez, eu sorri. E ele sorriu de volta. Breve. Íntimo. Mas verdadeiro. Levantamos do banco juntos, sem nos tocar. Viramos em direções opostas. Mas, no caminho de volta, percebi: por mais que eu quisesse manter a porta fechada, o trinco já estava cedendo. Não era só culpa. Era luto. Por tudo o que fomos, pelo que poderíamos ter sido e pelo que o sistema nos impediu de ser.

Narrado por Kael Em casa, enquanto eu me preparava para o jantar, um dos guardas da mansão apareceu abruptamente à minha porta. O olhar dele era frio, carregado de aviso. — Kael, tem gente falando que você andou vendo a Nayla por aí. Sabe que isso não pode ficar assim. Tentei negar, explicar, mas ele me cortou. — Seu pai não vai aceitar essa desobediência. Se não resolver, vai ter consequências para você e para ela. O recado era claro: meus passos eram vigiados. Qualquer deslize e eu teria que pagar o preço. Não só eu, mas também a garota que eu queria proteger. O medo apertou meu peito, não só pelo risco, mas pela urgência da escolha. Eu queria resistir. Mas a ameaça era real, e a bala na minha mão pesava mais que qualquer palavra. Na sala, meu pai me encarava com os olhos de aço, sem espaço para dúvidas ou apelos. — Você ouviu o que o guarda disse, Kael? — A voz era baixa, mas carregada de comando. — Nayla é uma ameaça que não podemos permitir. Você é meu filho, e isso significa que, antes de mim, vem a responsabilidade de manter o nome Salazar intacto. Fiz menção de responder, 13


mas ele levantou a mão, silenciando qualquer protesto. — Quero que acabe com isso. Não importa o que custe. Se não for você, será outro. Mas prefiro que seja você, porque sei que entende o que está em jogo. O peso daquelas palavras esmagou meu peito. Era uma ordem clara, cruel. E, mais uma vez, eu estava entre manter o legado que me foi imposto e a escolha do que me restava de humanidade.

Narrado por Nayla A última reunião. O subsolo estava frio, escuro, carregado de silêncio e medo. Apenas minha respiração quebrava o ar sepulcral. Eu segurava um chip com uma cópia de tudo que restava dos nossos arquivos — nosso legado, nossa esperança. Kael chegou sem aviso. Não mais cúmplice. Nem amigo. Nem aquele garoto que me arrancou o primeiro sorriso depois da morte da minha avó. Veio como filho de coronel: uniforme impecável, arma presa ao coldre, olhos vazios como a promessa de um inverno sem fim. — Não faça isso — implorei. Mas não era para ele. Era para o mundo. Para o tempo. Para o medo que ele tentava esconder. Ele parou por um instante. — Eu não sou o final, Kael. — Minha voz saiu firme, mesmo com as mãos tremendo de raiva e dor. — Sou só o meio. Outros vão continuar, a Cúpula não poderá impedir. Eu só preparei o caminho para quem vier depois. Eles continuarão! Ele engoliu em seco, as mãos tremendo na arma. — Meu pai quer você morta. Disse que, se eu não fizer, outro fará. — A voz dele falhou, a máscara de certeza desmoronou. — Eu não quero. — Então não faça. — Dei um passo à frente, olhando direto nos olhos vazios. — Mas, se fizer, saiba: o que me trouxe até aqui não morre comigo. Porque eu sou a ponte. Não o fim. O silêncio se fechou como uma tumba. Eu sabia. Desde o instante em que ele entrou, eu sabia. A decisão já estava tomada. Não por ele, mas pelo mundo que o forjou. Fechei os olhos. O disparo foi abafado, contido. Como um segredo sendo silenciado.

Narrado por Kael Eu tremia. O sangue nas minhas mãos não era só dela. Era meu. Era a minha história sendo apagada. A parte de mim que morreu naquele instante. Não era escolha. Era sentença. Ela iria morrer. O que me restava decidir era o quanto ela ia sofrer. E isso me matou junto. Se não fosse pelas minhas mãos, ali, naquela hora, ela seria presa e torturada pela Cúpula. Eu disse a mim mesmo que era misericórdia. Que era amor, disfarçado de abandono. Mas, no fundo... talvez eu só quisesse que tudo acabasse logo. Por ela. Por mim. Por covardia. Olhei para o corpo no chão e não consegui ver uma inimiga. Era Nayla. E, antes de cair, ela me perdoou, em silêncio, com a última chama do olhar. O chip intacto ao lado dela ainda

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contrastava com o corpo. A mensagem ainda viva, o grito de resistência que nem a bala conseguiu calar. Saí dali destruído, carregando o peso do silêncio, mas com uma certeza brutal: “Não serei o fim. Não termina em mim.” Em algum lugar, entre ruínas e cinzas, algo ainda pode renascer. E, mesmo que eu tenha matado a luz, a sombra dela ainda me persegue. Porque o que foi iniciado não pode ser apagado.

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NECDRAXIA A Covid-19 parecia ter sido a pior pandemia que a humanidade enfrentou. No entanto… hoje, vivemos um tempo de loucura e medo, em que qualquer descuido se transforma em enorme sofrimento. E tudo isso apenas pela indiferença humana. O consumo desenfreado e a produção exorbitante de lixo, aliados à busca de enriquecimento acima de tudo e de todos, transformaram nosso planeta em zonas inabitáveis. Nasci em Velúbrio, uma metrópole cortada por um rio envenenado, onde o céu é negro pela fumaça das indústrias, as plantas são raras e o ambiente corrói até as entranhas. Eu estava prestes a me formar em medicina quando tudo aconteceu. Tive poucos amigos, mas esses me bastaram. Não queria ser médica por dinheiro, nem por fama ou reconhecimento. Eu só queria respostas. Queria entender por que as pessoas que eu amava iam embora tão cedo. Desde então, meus dias se resumiram a tubos de ensaio, cultivos de bactérias, tentativas fracassadas e dados demais para uma mente só.

A descoberta sobre a barragem Acordei cedo naquela manhã. Saí de casa e segui em direção à faculdade. Logo na entrada, encontrei Lara, sorrindo e acenando de longe para mim, mas percebi a ausência de Uziel e Brian. Provavelmente estavam ocupados com algum assunto pendente. — Vitória, você viu aquela notícia no jornal? Sobre a possibilidade de a barragem de lixo acima do rio principal rachar? — disse ela, com um semblante assustado. — Deve ser só mais uma fake news, Lara. Nem tudo o que a gente vê na internet é verdade. Aquela suposta notícia sobre o lixo no rio parecia ser verdade. Isso me intrigou. Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi pegar meu notebook e pesquisar a respeito. A notícia dizia que alguns moradores haviam visto pequenas rachaduras na barragem; alguns especialistas diziam que a cidade correria grande risco caso ela rachasse. Após ler um trecho da notícia, decidi conferir se aquilo tudo era verdade. Corri até a barragem e vi as rachaduras espalhadas por todo o muro. Pareciam inofensivas, mas e se fosse verdade? Equipes de peritos e cientistas estavam por lá, analisando tudo. Voltei pra casa e fui dormir. Estava em sono profundo quando ouvi um barulho extremamente alto, junto de um tremor imenso: a barragem havia rachado. Agarrei meu celular, que estava em cima da mesa, e saí correndo junto com os vizinhos, que também temiam por suas vidas. Dei tudo o que pude até chegar a um terreno mais elevado do bairro e fui atrás de Lara, Brian e Uziel. Passadas algumas horas, quase amanhecendo, decidimos ir a um centro de atendimento aos feridos. As aulas foram adiadas e a nossa instituição anunciou que ofereceria abrigo às pessoas de nosso bairro, especialmente para os alunos matriculados. Alguns dias depois, quando as aulas voltaram à sua programação normal, soube que o lixo recolhido fora transportado para um local menos populoso. O problema foi apenas deslocado de lugar e suas consequências novamente adiadas. 17


Primeiro contato Eu estava sentada no refeitório quando escutei as pessoas da mesa ao lado falarem sobre como o rio estava ficando esbranquiçado e como as doenças de pele haviam aumentado. Como pode um rio esbranquiçar depois do rompimento de uma barragem? Ele não deveria ficar com a cor da terra… Preciso investigar. As doenças de pele não se devem apenas à falta de cuidado das pessoas. Foi o que pensei. Depois da aula, nós quatro fomos ao rio investigar o boato. O rio, agora com barreiras de contenção para evitar a aproximação de pessoas, estava repleto de um musgo branco e, em alguns pontos, puxando para um verde meio fluorescente. Me esgueirei por entre as grades e agachei para ver aquilo mais de perto. Lara me acompanhou. — Que estranho. Acho que deveríamos investigar. Vou pegar uma amostra para você! — Obrigada, Lara, não precisava… Nossa, o que é isso na sua mão? — Ah, isso? Me machuquei hoje cortando uma fruta. Fazer o quê? Acontece, né?! Concordei com a cabeça, dando um leve sorriso de lado. Fomos atrás dos rapazes e voltamos para o campus. Não consegui pegar no sono. Essa situação do musgo fluorescente me incomodava. Não há nada já conhecido que justifique esse fenômeno. Na mídia, também não havia nenhuma declaração oficial a respeito. Levantei, peguei a amostra, um caderninho e uma caneta, e fui de fininho para o laboratório. Passei o resto da noite pensando e estudando “o fenômeno”. Após a ida ao rio naquele dia, Lara não parecia nada bem. Nos dias seguintes, seu silêncio se tornou cada vez mais pesado, até que, de repente, fomos surpreendidos com sua ausência. Ela confessou que não estava nada bem: sentia tontura, enjoos e uma coceira insuportável no corte da mão. A cada palavra que saía dela, minha preocupação só aumentava. Pedi para que procurasse um médico o quanto antes, mas ela teimou e insistiu que era apenas um mal-estar passageiro. Na faculdade, a manchete de um jornal na televisão do pátio chamou nossa atenção: “Seria possível o surgimento de uma nova pandemia? Os aumentos absurdos nos casos de virose e a superlotação nos hospitais preocupam as autoridades de Velúbrio. Após o rompimento da barragem, o número de casos de viroses e internamentos por doenças de pele triplicou. Médicos alertam que diversos pacientes não apresentaram os resultados esperados durante o tratamento. Alguns especialistas suspeitam do surgimento de uma nova pandemia. Será que o mundo está preparado para um novo desastre?” Isso era realmente preocupante. O dia passou muito devagar. Conversei com Brian sobre “o fenômeno”. Uziel disse que iria dar uma volta no centro, que estava cansado de ficar preso dentro da faculdade e precisava de um ar diferente. Então, apenas Brian e eu saímos da sala de aula e fomos ao laboratório. 18


— Uau! O que é isso, Vitória? — ele disse, com uma expressão de espanto. — Incrível, né? Ela se desenvolveu muito rápido. — Respondi com um sorriso. A bandeja onde coloquei a gelatina bacteriológica estava tomada por uma substância branca meio esverdeada, exatamente igual à do rio. Peguei uma amostra e me dirigi ao microscópio. Era uma bactéria. Era até bonitinha: várias bolinhas brancas e verdes fluorescentes grudadas umas nas outras. Passamos a noite inteira no laboratório conversando sobre como era incrível o que descobri e fazendo testes com os “bichinhos”.

O começo do fim Passei o dia inteiro preocupada com Lara. Ela estava muito fraca. Brian e Uziel perguntaram por ela, contei que as coisas só pioraram de ontem para hoje e disse que prometi levar uma pomada para ela depois da aula. Ela só dormia, por conta da fraqueza, e a mão com o corte estava bem inchada. As notificações de urgência e superlotação nos hospitais não paravam de chegar aos celulares, e a taxa de mortes por dia aumentava a cada minuto. Por volta do meio-dia, foi confirmado o surgimento da nova doença: a Necdraxia. No almoço, não vi Uziel. Brian disse que ele estava resolvendo umas coisas particulares no centro. Ao final da aula, fui à farmácia e comprei a pomada para Lara. Na volta, encontrei Brian no meio do corredor. Ele me chamou para ir ao laboratório, e acabei me entretendo com o experimento. Ele estava testando a reação do “bichinho” com diferentes matérias. Fiquei por um tempo conversando com ele, porém lembrei que precisava levar a pomada para minha amiga e fui embora. Abri a porta do nosso quarto e senti um cheiro estranho. — Lara, trouxe a pomada, desculpa ter demorado, mas enfim… quer passar agora? — fui falando, enquanto fechava a porta. Silêncio. Abri a porta do quarto e acendi a luz. Me assustei com Uziel sentado numa cadeirinha que tínhamos no canto do cômodo. — Ela não está mais com a gente… — disse Uziel num sussurro, de cabeça baixa. O cheiro de podridão estava muito forte ao seu lado. Comecei a chorar desesperada. Ela estava gelada. O braço que havia machucado estava todo enfaixado, e era de lá que saía o fedor. Ele estava enegrecido e corroído, com bolsas de infecção por todos os lados, lotado da espuma branca. — Não… — engoli em seco. — Eu prometo, Lara. Eu vou encontrar uma cura pra isso! — era uma promessa não só para ela, mas para mim mesma e para todos aqueles que sofreram por conta dessa doença. Uziel saiu e fechou a porta, me deixando sozinha no cômodo. Foi aí que me lembrei de uma mensagem que recebi dias atrás: “O laboratório da farmacêutica InnovaMed procura por pessoas capacitadas para a criação de medicamentos mais eficazes na luta contra a nova doença.” 19


Optei por me voluntariar para a pesquisa. Arrumei minha mala e fui até o ponto de ônibus mais próximo. No caminho, escrevi uma mensagem e mandei para Brian e Uziel:

“Eu decidi. Vou procurar algo para impedir que mais pessoas morram. Lara não foi em vão. Se quiserem me procurar, estarei na InnovaMed.”

Cheguei e me cadastrei na portaria. Fui levada a um quarto e, logo no dia seguinte, já estava no centro de pesquisas. ..

.Já faz quase um ano que estou aqui. Às vezes, lembro dos olhares acusadores de todos para mim durante a formatura, especialmente o de Uziel. Brian vem me visitar de vez em quando, mas Uziel jamais apareceu ou respondeu às minhas mensagens. Então, resolvi visitá-los. Isso já estava me cansando. Ao chegar, Brian me recebeu com muita educação, como sempre. Eles ainda estavam morando nos mesmos quartos do campus, terminando a residência no hospital da universidade. Passei um tempo com Brian. Ele me disse que Uziel chegaria em breve. Antes que ele chegasse, disse que iria buscar uns lanches em nossa hamburgueria preferida. Fiquei sozinha. Uziel chegou em completo silêncio, vestindo um jeans surrado e aquela blusa de moletom preta que sempre usava. Passou por mim como se eu fosse invisível, um fantasma, um nada. Gelei. Sabia que Uziel era complicado, mas jamais esperava que ele agiria assim. Dei um suspiro longo, prendendo o ar para não explodir. Eu queria gritar com Uziel, mostrar o quanto isso me machucava, mas… eu não tinha palavras. De certa forma, ele tinha razão, quando me advertiu sobre me envolver com aquela pesquisa. Então, fui até a porta, apenas a abri e continuei andando, ignorando completamente Uziel. Uns cinco dias depois, recebi uma ligação de Brian. Ele estava triste e abalado, pediu para que eu fosse naquele exato momento à faculdade. Fui correndo — Brian não era de brincar com coisa séria, e seu tom de voz era pesado demais. Ele estava parado na frente do cômodo, em completo silêncio. Abri a porta e… Morto. Ele estava morto. Encontramos Uziel deitado, seus olhos frios e sem vida, o que deixou meu estômago embrulhado. Estava cheio de feridas — respondendo a todas as nossas perguntas sobre sua morte. Tinha sido a Necdraxia. Mesmo depois de tantas tentativas, nada havia sido descoberto e nenhuma evolução significativa da cura acontecera. Apesar de seu jeito impulsivo e teimoso, sem ligar para as consequências de suas ações, Uziel era um bom amigo.

Tenho vivido a maior parte do meu tempo no laboratório, tentando encontrar a cura para essa doença. Não dormi muito nessas últimas semanas, também não me alimentei corretamente e minha cabeça não se desliga. Porém, só percebi isso depois da violenta e impetuosa bronca que

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Brian me deixou na caixa postal: — Você precisa descansar! Faz 12 horas que estou tentando falar com você! Desde que você entrou no laboratório você não saiu mais, vai adoecer se continuar assim. — Eu não posso parar, Brian! O Uziel… Ele morreu, morreu por causa dessa bactéria. E Lara? Também! Me sinto culpada. Não posso parar. É meu papel encontrar essa cura! — foi o que respondi na mensagem, antes de desligar meu celular.

O fim Não acredito no que vejo. Não parece ser real, não parece ser possível! Testei um antídoto uns dias atrás, porém não achei que teria resultados positivos. Mas era real. Eu tinha encontrado a cura! — Encontrei! Não acredito… EU ENCONTREI A CURA PARA A NECDRAXIA!!! — não conseguia conter meu êxtase, nem sei quantas vezes repeti essa frase aos gritos. Já faz quase dois meses que Uziel havia falecido. Depois disso, Brian decidiu vir para a InnovaMed também. Eu consegui. Cumpri a promessa que fiz. Finalmente, as pessoas não vão mais ter que sofrer por causa dessa praga. Digitalizei minhas pesquisas, mandei uma cópia para Brian e pedi para que cuidasse como se fosse sua própria vida. Por fim, organizei o laboratório. Na manhã seguinte, mostraria todo o meu trabalho. Voltei para o meu quarto e adormeci com um sorriso mais do que feliz no rosto, um sorriso de alívio. Na manhã seguinte, quando finalmente mostraria meu trabalho aos meus chefes, deparei-me com a porta do laboratório entreaberta. Quando entrei no cômodo, meu chefe, dono da farmacêutica, e mais dois homens estavam me aguardando. — Senhor Armando! Que surpresa ver o senhor aqui. Chegou em ótima hora, tenho algo importante para o senhor. Eu descobri a cura para a Necdraxia! — Sério, Vitória? Que maravilha! Impossível não saber disso depois de sua animação ontem à noite, todos no laboratório ouviram. Pena que… eu não vou poder deixá-la publicar isso. — Suas mãos passaram vagarosamente pela bancada, derrubando todos os meus papéis. — Como não? O que o senhor está fazendo? Isso é um absurdo! Milhares de pessoas morrem a cada minuto que passa e o senhor não quer compartilhar a cura? — Óbvio que não quero, Vitória. Deixe que morram. A única coisa que importa é continuarem comprando os medicamentos que produzimos. Se nós lhes dermos a cura, como ficam os nossos lucros? — Mas… cedo ou tarde alguém vai acabar descobrindo a cura — retruquei, desafiando-o. — Não, Vitória, eles não vão. — disse, virando-se na minha direção e abrindo um sorriso imenso. — Eu vou garantir que ninguém jamais descubra. Matem-na! — ordenou aos homens. — E depois ateiem fogo em tudo.

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Então é isso? No final, todos os meus esforços foram em vão? E ainda acabaria perdendo a minha vida por causa de corvos gananciosos. Armando não é o único que pensa apenas em si mesmo. Muitos pensam e agem de forma egoísta — seja produzindo indiscriminadamente, sem se importar com os impactos para o meio ambiente, seja por impulsos consumistas, gerando cada vez mais montanhas de lixo impossíveis de serem recicladas. Todos esses agem de forma a ignorar completamente o mundo ao redor, fazendo apenas o que lhes é conveniente. Eu também não fui diferente, ao achar que salvaria a humanidade inteira, corrompida por um peso que não era apenas meu. Quando tudo acabou, nem a dor da lâmina em meu pescoço foi mais forte do que a dor de perder uma pessoa importante.

...

Logo depois de descobrir sobre a minha morte, Brian foi ao laboratório recolher tudo que sobrou das minhas coisas. O acontecido foi abafado pela imprensa. “Doutora Vitória de Andrade, ‘mãe’ da cura para a Necdraxia, veio a falecer na noite de ontem. Seus incontáveis esforços e sua preocupação com a vida jamais serão esquecidos. Ela não era apenas mais uma cientista à procura de reconhecimento e fama; ela era uma amiga, uma alma curiosa e cheia de vitalidade, que ardia por justiça e pela purificação deste mundo. E hoje prestamos homenagem não apenas por sua descoberta, mas a ela como um todo. Sua persistência e sua dedicação serão o combustível para a criação de um mundo melhor. Um mundo onde lágrimas não sejam derramadas sem motivo.” Essas foram as palavras de Brian, as últimas que ouvi antes de adentrar no silêncio da eternidade.

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MATINHOS – SESC CAIOBÁ ODS 5 – Igualdade de Gênero e ODS 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima A Invenção do Século Autores: Alexandre Sinderski Ana Maria Kaule de Oliveira Morais Asaf Sauss de Melo Daniela de Rezende Carnelocce Diogo Fernando Codeiro Cenatti Giovana Simiano dos Santos Heloisa Marques Santos Henrique Kirsch Lunardon Leonardo Luiz Barros Santana Luis Gustavo Nespolo Salvador Max Paolo Turco Klock Natalia Messias Farago Schultz Renato Lima Paes Bavaresco. Ilustrações: Heloisa Marques Santos Professora: Adriana Cristina de Oliveira

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A INVENÇÃO DO SÉCULO

Prólogo E, no final, Carlos estava no centro das atenções. Todas as telas estavam focadas nele e, entre elas, havia o retrato de uma feição feminina muito familiar, com a qual convivera a vida inteira. Aquela imagem o deixou triste e nervoso pelas lembranças do passado que afloravam em sua mente. Mesmo nervoso, deveria honrá-la para prestigiar suas memórias. — Boa tarde a todos. Agradeço aos telespectadores e aos aqui presentes neste importante momento. Venho, por meio deste discurso, mostrar nossos resultados e falar mais a fundo sobre o nosso projeto “A Invenção do Século”. Não é só uma fala sobre ciência; é sobre família e sobre ouvir seus entes queridos antes que seja tarde demais. Não fiz nada de especial — posso até dizer que atrapalhei um pouco —, mas, após grandes sacrifícios, estamos todos aqui, feridos e exaustos, porém vivos, graças à fusão e a uma pessoa muito importante. Hoje estou aqui para contar a história dela, que começou há um tempo, antes mesmo de considerarmos este um projeto legítimo.

Capítulo 1 – Camila O ano é 2035. Estamos em uma era de extremo calor, e a NeoTermo Energia piora cada vez mais a situação vivida no país. Tenho desenvolvido projetos de pesquisa para criar uma energia limpa e renovável. Apesar de todos os malefícios, pretendo procurar investimentos na empresa para minha pesquisa. Não vejo outra forma de dar continuidade a isso, porém as pessoas têm medo de mudar os ideais do grande monopólio criado pela companhia, além de me descredibilizarem por ser uma cientista mulher. Mas estou confiante de que, desta vez, conseguirei, mesmo com tantos desafios à frente. Apenas o fato de eu ser mulher parece trazer mais dificuldades e torna meu caminho mais pesado. Contudo, preciso que meu projeto seja aceito, pois pode trazer uma grande diferença para o mundo todo, não apenas para nós. A NeoTermo vem queimando carvão ao longo dos anos para gerar energia para a população, mas houve um crescimento súbito, e agora ela se tornou um monopólio. É a única termoelétrica do país e ofusca qualquer outra empresa que tente entrar no ramo. Estou organizando minhas pesquisas para tentar quebrar os ideais dela e conseguir levar meu projeto adiante.

Capítulo 2 – Carlos O ano é 2035. Tem uma mulher maluca que vem me deixando cada vez mais irritado por suas ideias paranoicas, que tentam sabotar os projetos de minha empresa, mesmo sabendo que não irá conseguir, pois estamos muito acima de seu plano. Sou dono de parte de uma termoelétrica que ocupa todo o país, e sei que nossa ideia é a solução dos problemas energéticos globais. Porém, se essa maluca desenvolver aquele projetinho medíocre, minhas ações podem acabar sendo totalmente prejudicadas, fazendo com que os lucros caiam e eu perca quase todas as minhas posses. Também tenho visto notícias de que ela está buscando investimentos em diversos 25


lugares, principalmente em empresas, mas duvido que alguém aceite aqueles projetos ultrapassados, sendo que a economia está tão estável. Caso eu ceda às pesquisas daquela mulher paranoica, meus associados podem se voltar contra mim, e eu posso perder tudo em nome da filial que abri. Trabalhei por mais de vinte anos e me esforcei muito para que um projeto qualquer me tirasse do topo, onde vivo muito bem. Não vai ser uma mulher doida que irá mudar isso de uma hora para outra.

Capítulo 3 – O Investidor

Camila Procurei investimento na empresa através de um e-mail. O investidor não aceitou minha ideia. Apresentei meu projeto em detalhes muito especificados, mas Carlos me respondeu com indiferença, o que já era esperado. Estava me conformando com a resposta, totalmente irritada, quando recebi uma mensagem inesperada de Visconde, que viu minha proposta de investimento nos jornais e me ofereceu os poucos recursos que podia. Já era o bastante para mim. Ele também fazia parte da empresa NeoTermo Energia e tinha uma filial em uma cidade próxima, a menos de 100 km de distância. Eu poderia ir e voltar todos os dias até o laboratório concedido a mim. 26


Carlos Instantes depois de vê-la no jornal pedindo investimento, ela veio me pedir recursos através de uma mensagem no e-mail empresarial. Sem muito me importar, respondi: — Tu achas mesmo que vou perder meu tempo e o dinheiro precioso de minha empresa com essa ideia deplorável e infantil? O que você está me pedindo é literalmente impossível, quase como se eu estivesse jogando dinheiro no lixo! Vai procurar o que fazer e pare de incomodar os outros com suas ideias sem noção! Ela não respondeu. Espero que tenha entendido o recado e não tente mais atormentar ninguém com isso — principalmente a mim.

Capítulo 4 – O Sol Camila Recebi uma sala de equipamentos do Visconde com o objetivo de iniciar minha pesquisa. Não era um investimento completo, pois muitos instrumentos me faltavam, mas era o necessário para o avanço máximo do projeto. Trabalhei os próximos dias inteiros em meu “Reator de Fusão”. Precisava reduzir o prazo o quanto antes. Durante o dia, mudei algumas etapas do projeto, adicionei passos e removi os que já não faziam sentido. Trabalhei com diversos produtos químicos, como um concreto que protegeria meu laboratório. Tive certa dificuldade ao fazer isso e rachei algumas partes sem querer, mas acho que não afetará o projeto. Durante os dias que se passaram, senti um incômodo na garganta e fiquei rouca, talvez pela época gelada em que estávamos.

Capítulo 5 – A Cientista Camila Não tenho comido mais. Perdi por volta de 5 kg e não lembro quando foi minha última refeição.

Carlos E do nada, tive que lidar com a maior traição que já vivi em minha vida. Visconde, um dos meus associados de outra cidade, decidiu investir naquela mulher maluca do jornal. Não sei como ele conseguiu os recursos para financiar as ideias dela, pois ele possuía a menor parte das ações e também a menor filial. Ao invés de trazer seus investimentos para ideias inteligentes e brilhantes de homens que poderiam beneficiar nossa empresa, desperdiçou recursos com aquele projeto.

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Camila As pontas dos meus dedos engrossaram. Posso estar alucinando por não comer, mas é difícil chegar a uma conclusão. Não consigo pensar, e sinto barulho sempre que respiro.

Carlos E, obviamente, não vou deixar isso barato. Não podemos correr o risco de sujar nossa imagem e perder investimento. Com toda a minha inteligência, irei elaborar um plano para que Visconde desista dessa ideia paranoica. Não vou aceitar que esse projetinho fracassado seja executado, principalmente por essa mulher maluca e sem escrúpulos.

Capítulo 6 Camila Tenho tossido poças de sangue várias vezes ao dia. Não consigo mais sair de casa. Desconfio que esteja com asbestose. Carlos Era noite, estava chovendo, e eu sabia que Visconde iria precisar chamar o táxi de sempre. Sem pensar, ele entrou no carro e disse: — A mesma rota de sempre. E eu apenas segui. O tempo corria… e ele nem sequer percebia que o percurso estava diferente, distraído em seu notebook. Até que, em certo momento, parei em uma rua vazia, sem saída e escura. Quando Visconde tentou sair do suposto táxi, o desespero tomou conta de seu olhar ao perceber que todas as portas estavam trancadas. Era a hora exata para eu revelar que quem estava no comando agora era eu.

Capítulo 7 Agora chegara a tão esperada hora. Eu conseguiria descobrir o que mais desejava. Tirei meu revólver do porta-luvas e, apontando para ele, perguntei: — Que história é essa de que você está usando recursos da nossa empresa para investir no projeto daquela maluca?! — Maluca? Você fala da sua irmã, no caso? — Como assim? Você está dizendo que a Camila é essa louca do projeto? — Você não sabia que era ela? Sua irmã criou uma pesquisa inovadora que pode mudar os rumos de toda a nossa empresa e sociedade, além de melhorar a situação em que vivemos. 28


— Cara, agora acabou a brincadeira! Me leva até ela ou um aperto no gatilho e você vai conhecer seu fim!

Capítulo 8 Finalmente chegamos ao local em que desejei estar por tanto tempo. Quando eu e Visconde fomos entrar no laboratório que ele disponibilizou para Camila, a porta parecia pesada, como se algo a emperrasse. Assim, quando finalmente conseguimos abrir, me deparei com a maior tristeza que um irmão mais velho poderia ter em sua vida: o que impedia nossa entrada era Camila, desacordada, pálida e gélida, com o corpo caído em frente à porta. Parecia estar ali há alguns dias ou horas — não saberia diferenciar. Minha irmã estava morta. Senti meu mundo desmoronar. Tudo se desabou diante dos meus olhos. O choque não me deixava pensar direito. Caí ao chão de joelhos. Então, Visconde falou: — Carlos, você sabe… parte de ela estar aí, jogada e sem vida, é culpa sua. Custava ouvir? Um minuto de esforço para entendê-la já teria sido suficiente para evitar essa tragédia. Mas não… Seu ego sempre falou mais alto. Tudo o que ela nos deixou foi seu legado com a pesquisa. Agora, você poderia considerá-la uma cientista digna e honrar o que ela nos deixou? Ou nem isso você é capaz de fazer?! Naquele momento, com os joelhos ardendo, a cabeça girando e o desespero tomando conta de meu corpo, pude perceber o quanto ela lutou pelo local em que estava. Suas tentativas de investimento, todos os seus projetos, suas pesquisas… tudo havia sido interrompido por minha culpa. Caso tivesse aceitado sua proposta — não por ser minha irmã, mas por ser uma cientista com forte potencial —, ela estaria viva, tornando seu sonho uma realidade e trazendo a esperança que o mundo precisava. Fui um imbecil. Não a ouvi quando precisei. Tudo o que mais queria agora era outra chance para compreendê-la e ajudá-la. Não que ela precisasse — Camila sempre foi forte. Não posso trazê-la de volta para finalizar o projeto, mas posso lhe trazer o mínimo de honra e concluir a pesquisa que ela mesma deveria terminar.

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CURITIBA – SESC CENTRO ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico Hospital Central Autores e Ilustradores: Ana Clara Baima dos Santos Ananda Fernandes Temóteo de Oliveira Julia Zatta Luan Assumpção Sikora Luis Henrique Baez Possas Luisa Muraro Pacheco Monique Lackner da Silva Pedro Henrique Santos de Matos Thomas de Souza Santos Professora: Luiza Ferreira Aksenen

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Hospital central

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HOSPITAL CENTRAL

Ágatha Eu sou diretora-geral, supervisora-chefe, coordenadora de crises e, na prática, a dona dessa porcaria chamada SUS Centro. Aqui, cada passo meu vale mais que um plantão inteiro. Cada olhar torto se abaixa quando eu passo. Cada sussurro morre na garganta. Porque aqui, só respira quem eu deixo. Gosto do poder. Gosto do medo que ele traz. Porque eu cresci cercada de pavor. Passei a infância ouvindo gritos, vidros quebrando e minha mãe apanhando feito saco de pancada. Meu pai era o tipo de homem que a sociedade gosta de fingir que não existe. E minha mãe... Ela era o tipo de mulher que o sistema adora explorar: pobre, cansada, invisível. Ela limpava casas, cuidava dos filhos dos outros, fazia faxina em hospital, esfregava sangue de sala de parto com pano velho e desinfetante vencido. Trabalhava como mula e ainda voltava para casa para apanhar. Nunca teve tempo de ser mãe. Só sobrevivente. Morreu em pé, lavando roupa de gente rica. Um colapso fulminante. Ninguém mandou flores. Eu não chorei. Eu travei os dentes e jurei: nunca mais serei a mulher que abaixa a cabeça. Hoje, eu sou a mulher que decide quem sobe e quem afunda. Na semana passada, eu estava atravessando a ala de observação — aquela que pinga do teto, fedia a mofo e ainda tinha uma maca de 2003 improvisada com fita crepe. Uma criança me chamou a atenção, sentada no canto com braço roxo, boca estourada. Aquilo me fez lembrar da mamãe. Tinha o mesmo olhar pidão que eu tinha quando era burra e fraca. Perguntei: — Cadê tua mãe? Ele respondeu baixinho: — Trabalha aqui no noturno… Claro. Só podia. Gente como a mãe dele é o que mais tem aqui: auxiliar de enfermagem com turno de 12h, ganhando o mesmo que um frentista. Cuidando dos filhos dos outros enquanto os próprios apodrecem em casa. Puxei a ficha. Camila Soares. Funcionária há sete anos. Nunca atrasou. Nunca reclamou. Era querida. Problema? Eu não sou paga para gostar de ninguém. Chamei na minha sala. Tremia como vara verde. Disse que era “só um tapa”. Que estava cansada. Que o filho era “difícil”. — Você bateu nele. — Eu afirmei. 32


— Foi só um tapa... — Ela respondeu. — Você está demitida. — Retruquei. Assinei a demissão com prazer. Sem aviso. Sem direito. Sem dó. Mandei o segurança acompanhar e ela chorava, dizendo que precisava do emprego. Me chamou de monstro. Eu sorri. — Monstro é quem agride criança. Eu sou só a faxineira da podridão que vocês largam por aqui. Enquanto toda cena estava acontecendo, no final avistei uma menina curiosa explorando as salas; perguntei para o meu funcionário Vicente que estava ali perto. Era filha de uma paciente e que os médicos já estavam cuidando da saída dela com medo de serem demitidos. Porque aqui ninguém fala, mas todo mundo sabe: O hospital finge que paga, e os funcionários fingem que não estão surtando. Tem enfermeiro que toma diazepam escondido no banheiro. Tem técnica de enfermagem que vomita de exaustão. Tem plantonista que não vê os filhos há dias, e mesmo assim, não pode errar nem a dose de paracetamol. Se errar, cai. Se reclamar, sangra. Aqui no Hospital Central, não tem anjo de jaleco. Tem gente cansada, mal paga, desesperada, remendando vida com esparadrapo. E no topo de tudo isso, estou eu. Fria, limpa, intacta. Porque aqui, quem manda... sou eu.

Selina Nunca fui só bonita. Eu era o tipo de mulher que as pessoas paravam para olhar — por admiração ou inveja. Alta, magra, com olhos que uma vez um fotógrafo chamou de “tempestade prestes a cair”. Quando eu entrava numa sala, o silêncio vinha logo atrás. As câmeras me amavam. Os estilistas me tratavam como uma obra de arte. As outras modelos… algumas me odiavam em silêncio, outras fingiam ser minhas amigas, sempre querendo saber meu segredo. E o segredo era simples: pílulas.

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Pílulas para dormir, para acordar, para comer menos, para tremer menos. Gotas para foco, injeções para juventude. Nos bastidores, todo mundo sabia onde conseguir. Uma das meninas, a Ava — baixinha, olhos fundos de tanto Adderall — me ensinou a esconder as ampolas na cinta liga. Outra, a Camila, falava sorrindo das agulhas como se fossem pincéis de maquiagem. A maioria de nós estava doente, mas ninguém ousava dizer isso em voz alta. Ser vulnerável era sair da passarela. No começo, funcionava. Eu brilhava. Virava capa. Era “o rosto da temporada”, “o corpo do ano”. Mas com o tempo… Eu comecei a esquecer palavras no meio de entrevistas. Meus ossos pareciam de vidro. Meu rosto, antes tão liso, já não segurava o contorno sem ajuda de filtros ou bisturis. E então vieram os cancelamentos. Um a um. Primeiro uma marca de sapato. Depois, uma de perfume. Nenhum motivo claro. Só e-mails frios e olhares desviados. Até que um dia, desmaiei no meio de um ensaio. Foi rápido, como um clique. Acordei em um hospital público, com cheiro de desinfetante e corredores cheios demais. O médico que me atendeu tinha mãos grandes e um olhar de quem já tinha visto muita gente quebrada por dentro. — Você sabe o que tem? — Ele perguntou, com voz firme mas gentil. Balancei a cabeça. Não sabia. E, no fundo, nem queria saber. — Hepatite. Provavelmente por compartilhamento de seringas — Ele disse. — E sinais claros de dependência química. Você quer ajuda? “Ajuda?” Ninguém nunca me ofereceu isso. Na moda, ajuda era sinônimo de fraqueza. Mas naquele instante, com os olhos pesando, os braços finos como galhos e minha beleza escorrendo pelo ralo junto com minha sanidade… Eu quis. Não por vaidade. Mas por mim. Diego passou a vir todos os dias. Sentava ao lado da minha cama, trazendo café mesmo sabendo que eu mal conseguia beber. 34


— Ainda não é hora de você parar de desfilar, Selina — ele disse uma noite, segurando minha mão com força. — Pelo menos não essa passarela. Eu sorri fraco. Ele sabia que a próxima entrada já estava chegando… e que eu não teria como voltar. Hoje, caminho diferente. Não há flashes, nem trilha sonora, nem vestidos de grife. Só o chão gelado do hospital, o barulho de passos apressados e um jaleco aqui e ali. É a minha última passarela. Mas, pela primeira vez, não estou desfilando para os outros. Estou caminhando para os meus últimos três meses de vida.

Valentina Lá estava eu, em uma maca tomando soro: que vergonha, Meu Deus! Minha primeira vez saindo com Nathan para comer e já deu tudo errado! Como pode alguém ser tão descuidada ao ponto de não saber que é alérgica a frutos do mar? — Valen, como você está? — Uma voz me perguntou, era ele, o bendito homem que me viu ter uma crise — Eu morri de preocupação... você se lembra do que aconteceu, linda? — De verdade? — As palavras saíram rápido de dentro de mim, logo me corrigi — Digo, não me lembro direito, só de não conseguir respirar, o que realmente aconteceu? — Foi o seguinte... — Estou tão animada! É minha primeira vez comendo sushi sabia? — Ela disse quase tão histérica que poderia explodir, o que eu achei uma fofura. Poderia beijar cada extremidade de seu sorriso eufórico, o sorriso mais lindo que já vi — Está me escutando querido? Enfim, vamos logo comer. Estou tão animada quanto faminta! — Tudo bem, comilona, pode pegar a primeira peça para experimentar — Que feliz! Então a mulher a minha frente coloca um pequeno pedaço de peixe na boca e, ao mastigar, consigo ver sua pele avermelhando. Levanto-me imediatamente e a coloco em meus braços. Chamo Valen. Ela não responde. Chamo outra vez. Ela não consegue falar. Deixo o dinheiro do jantar sobre a mesa, saio com minha amada no colo porta a fora. Olho para a rua e o pronto atendimento mais próximo é no Hospital Central. Entro correndo pela unidade, conto a situação de Valen ao recepcionista. Em alguns minutos ela já está na maca. Sendo examinada, com cano no braço. — Você é o acompanhante dela? — Pergunta um médico de aparência cansada que entra no quarto que estou internada. Ele que me examinou e me encaminhou para cá. — Sou sim, estamos juntos. Qual o relatório? — Por mais que o Doutor esteja respondendo, eu 35


não ouço nada, não consigo, me fixei na parte “estamos juntos”. O que isso significa? Somos um casal? Ou ele só está me acompanhando? — Como se sente querida? — Consigo sentir minhas bochechas queimarem, meu estômago se encher de borboletas, meu coração bater mais forte e descompassadamente. — Você... — Ele me olha com ternura, com algo diferente e eu gosto disso, gosto muito disso — Você disse que estamos juntos. Sua resposta vem em forma de amor. Ele se aproxima do meu rosto, com um sorriso encantador. Seu olhar percorre minha face, descendo aos poucos. Fitando meus lábios, ele os toma para si. Com calma, paixão e carinho. Neste momento percebo... Nunca vou esquecer o Hospital Central. O lugar que me salvou. Me deu a vida, em todos os sentidos.

Vicente Eu não posso errar, olho para o lado iluminado pelo brilho do computador onde estou estudando meu caso e vejo provavelmente meu sexto copo de café. Ando perdendo o sono, até tomando remédios de vez em quando. O caso que chegou recentemente de João, um garoto com as pernas queimadas, filho de uma funcionária do hospital, está aos poucos me consumindo. É a primeira vez que eu tenho um caso verdadeiramente meu, então não existem espaços para deslizes e nem nenhum tipo de desatenção. É praticamente impossível recuperar o movimento das pernas do menino, precisaria de um transplante extremamente complexo de nervos e há um alto risco de dar errado. Não sei como contaria para Olália se desse errado, como eu poderia olhar nos olhos dela novamente sabendo que eu sou o culpado do seu pequeno João não poder mais ter a vida de uma criança normal. Eu não posso er... — Vicente precisamos de você agora, estamos com problemas na sala de parto 17 — Vejo a chefe do hospital quase derrubando minha porta. Me levanto de imediato, indo ajudar no parto. Chegando na sala de parto me preparo o mais rápido que posso e vejo a mãe da criança suando, tentando respirar da forma certa, claramente sentindo dor e, ainda assim, sorrindo. Me posiciono levemente perdido, eu não conheço ela, não sei sobre o caso. Lembro de algumas aulas sobre partos da faculdade e decido prosseguir com um parto normal. E então começaram cinco horas de gritos, choros e motivações, até que finalmente acabou. Estava ali, saiu a criança, o pequeno Breno, mas não como eu o estava esperando. O menino estava morto em meus braços com o cordão umbilical enrolado em seu pescoço. Perdi minha postura, cortei o cordão e entreguei a criança à enfermeira, expliquei a situação para a mãe da criança e me retirei. Quando saí da sala, não sabia o que fazer, eu estava sem rumo, perdido, abalado. Tudo passava muito rápido e muito lento ao mesmo tempo, só conseguia pensar em um lugar para voltar. Eu precisava ficar sozinho, então decido ir para a sala que anteriormente eu estudava o caso de João. 36


Lá, sentei em minha cadeira completamente desnorteado. Era eu, eu tinha sido o culpado, eu tirei a vida de um menino, eu matei uma criança, eu errei no meu primeiro procedimento solo. — Não pode ser... — Digo e jogo a cadeira contra a parede oposta a que eu estava e, logo em seguida, os casos de queimaduras que anteriormente eu havia estudado caem no chão. Foi tudo culpa minha: o cordão nunca esteve no lugar certo. Eu que tomei a decisão errada, eu deveria ter conversado com a mãe antes de fazer o parto, eu matei ele. Eu. Não consegui ficar muito tempo pensando porque, enquanto passava um turbilhão de pensamentos em minha cabeça, chegou uma enfermeira que também acompanhava o caso de João. — Doutor Vicente, conseguimos o doador pro transplante de nervos.

Diego Eu precisava escrever para você hoje. Não sei bem o motivo… talvez porque as coisas aqui dentro estejam ficando pesadas demais e eu não consigo guardar tudo sozinho. Eu me lembro do dia em que tudo começou… O som do disparo ainda ecoa na minha cabeça. Fui inocentado, mas no fundo sei o que aconteceu. Sei o que fiz. E isso me consome um pouco mais a cada dia. Tem horas que sinto que estou afundando e não sei se quero lutar para voltar à tona. A única pessoa que realmente me ouviu foi uma psicóloga do SUS. Ela não me olhou com julgamento, tentou me entender… e isso fez diferença. Mas, mesmo assim, continuo com a sensação de que cheguei tarde demais para me salvar. E aí… tem você. Você, que já foi luz em passarelas e agora está nesse quarto de hospital. Eu sei da sua anorexia, das drogas, da hepatite… e sei que cada dia é uma luta. E, mesmo assim, você ainda encontra forças para me dizer que eu tenho que continuar. Selina, você não faz ideia do quanto isso me segura. Teve noites em que eu pensei em acabar com tudo, mas aí me lembrava de você. Do jeito que, mesmo fraca, ainda arrumava palavras para me encorajar. Eu não sei o que vai acontecer, nem com você nem comigo. Só sei que, por mais difícil que seja, eu vou tentar. Porque você acredita em mim. E, por agora, isso é o suficiente. De Diego, Para Selina.

Lucas Comecei a trabalhar no hospital há sete meses. É um dos poucos locais que aceitam jovens sem experiência. Mesmo com um salário que beira o decente, esse emprego estava conseguindo pagar as contas médicas do meu pai. Descobriu uma doença no coração que se intensificou ao passar dos meses e, como ele piorou muito, acabou sendo internado aqui mesmo. Eu tentei... eu tentei ajudar o máximo que eu pude arcando com as despesas, cuidando dele nos dias de folga, mas infelizmente veio a falecer há duas semanas. Ele era meu melhor amigo, alguém em quem eu podia confiar e buscar acolhimento, desabafar, me divertir. 37


E no hospital os dias estão mais caóticos, em todo lugar me sinto desconfortável, eu não tenho mais um refúgio em que eu possa me acalmar. Todos ao meu redor parecem infelizes, vejo rostos de pacientes e funcionários que parecem estar à beira de desistir de tudo. A recepção do hospital está uma loucura, mensagens e telefonemas a cada minuto. Teve um momento que chamaram uma outra recepcionista e se ela não tivesse aparecido para aliviar aquela pressão em cima de mim, acho que eu não aguentaria mais um minuto lá. As seis horas de expediente para mim são uma eternidade. Alguns médicos não estão no seu melhor dia, muitos olhares tristes, outros não respondem nem o bom dia. Doutor Jales, Marcos e a Eloisa são ótimos, mas hoje eles pareciam mais vazios: o Jales estava trabalhando com um olhar que dava arrepio, parecia que poderia desmaiar a qualquer hora, Marcos desmaiou após uma cirurgia que me disseram durou umas cinco ou seis horas por não comer nada já fazia um bom tempo e a Eloisa teve um ataque de pânico ontem mesmo, vi ela indo até o banheiro e ficou uns 30 minutos lá dentro, até que saiu tremendo com os olhos vermelhos e bem abatida. Gostaria de poder ajudá-los, mas acho que não consigo. Vendo isso, é engraçado perceber que foram essas mesmas pessoas que acabaram “tentando” ajudar meu pai quando seu coração parou. Eu estava lá esperando, rezando por um milagre e eles me deram a notícia, sem consolo, sem explicações, apenas “o seu pai morreu”. Meu velho viveu trabalhando, até quando soube de sua doença, queria garantir o melhor para mim e minha família, garantir uma vida boa se viesse a morrer. Eu vou tentar seguir o exemplo dele, ajudar minha família, fazer valer todo o esforço que ele fez.

Cecília Era um prédio bem grande e se parecia com um castelo. Na entrada tinha um recepcionista, ele não estava muito feliz. Ele falou algumas coisas para o papai que eu não entendi muito, mas entendi que eu não podia entrar na mesma sala que a mamãe ia e que eu tinha que ficar na salinha de brincar. — Se comporte filha, eu já volto — Ele me deu um beijinho na testa e seguiu a mamãe para dentro da sala que eu não podia entrar. Depois de um tempo na salinha, resolvi que iria brincar de exploradora. Saí da salinha e fui andando por um corredor que fazia toc toc toc. No meio dele, passei por uma porta que estava meio aberta e dentro tinha uma mulher de jaleco que estava brigando com uma moça. — Você está demitida e não ouse pisar aqui de novo — A mulher falou isso brava, mas ela também estava com nojo, como se a moça fosse uma daquelas baratas bem fedorentas. A moça estava vermelha que nem morango, ela parecia querer chorar, mas não podia. Engraçado né? No hospital tem um monte de neném chorando enquanto os adultos não podem fazer igual. Andando mais no corredor passo por um médico carregando uma cama de rodinha. Eu queria andar na cama de rodinha. O médico estava com olheiras e parecia um zumbi. O moço deitado na cama sorriu para mim. Ele tinha paninhos nos braços e eles pareciam sujos. Deve ser algum suco de frutas vermelhas.

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— Licença, pequena — Uma voz atrás de mim me assusta, e quando olho para trás era a mulher de jaleco. Olhando ela direitinho, nem é tão assustadora. — O que você está fazendo aqui? — Tô brincando de exploradora — Respondo. — Sério? Posso brincar com você? — De exploradora? — Quase… e se a gente fosse para aquela salinha das crianças e desenhasse o que você viu na sua exploração? — Não era divertido sozinha na salinha, mas com ela podia ser. — Gostei da sua ideia Um pouco depois da tia Ágatha ter ido brincar com outros pacientes, o papai apareceu. Ele estava sorrindo, mas não estava feliz. os olhos dele estavam molhados. Ele não falou nada, se abaixou na minha frente e me abraçou. Senti os ombros dele tremerem e minha blusa ficar molhada. E então de repente ele me solta. — Filha, o Breno foi pro céu. Ele não pode ficar com a gente e virou uma estrelinha. Parecia que tinha alguma coisa na minha garganta, estava puxando, estava doendo, e não me deixava engolir direito. Mas então, assim como aquelas ondas de filmes de tubarão, as lágrimas chegaram, e eu não conseguia parar. Papai me levou para ver mamãe. Apoiada na janelinha, a vi deitada na cama de rodinha e a barriga que agora já não era a casa do Breno subia e descia devagar. — Por que você não ficou com a gente? O castelo dos jalecos é um pouco estranho e às vezes meio triste, mas eu ia cuidar de você.

Jales Era um mês comum, uma semana comum, um dia comum até tudo deixar de ser como era, como eu era. Médico do turno matutino, sempre acordei às seis, sem despertador, rotina, banho, café, silêncio. Mas naquele dia, fui agradavelmente tirado da cama com os berros da minha chefe no celular. Já tinha gente morrendo antes do sol nascer. Levantei-me como um robô, cabeça erguida, um olhar sem brilho, sem muitas expectativas. Quase atropelei duas pessoas no caminho. Um reflexo de como estava bem. No hospital, atendi um casal de namorados. Ela, mesmo enjoada, sorria com ele. A enfermeira me disse que era só um caso bobo de alergia. Dei antialérgico, soro e mandei ela ficar em repouso. Nada demais. Mesmo assim, ver aqueles dois juntos, de certa forma, mexeu comigo. Me lembrei do meu antigo companheiro de vida, meu gato que viera a óbito por um terrível acidente. Não sentia nada fazia um tempo e me lembrar dele foi bom, me lembrar de quando tinha propósitos de vida. Já o próximo caso me deixou em choque. Entrou uma mulher magra, magra até demais. Não era bonita, embora fosse modelo de uma marca que eu nem conhecia. Me disse não comia havia uma semana. Pensei: é fome. Pedi para aplicar soro, mas quando a agulha varou seu braço sem dificuldade fiquei perplexo.

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Os exames que pedi só me confirmaram o pior do pior já no pior: anorexia nervosa grave, hepatite e uso excessivo de drogas. O corpo dela estava falhando, era impressionante ela estar viva, o psicológico dela era forte, algo que admiro, e no caso dela, a vontade de estar viva. Ela me mostrava nos seus olhos esse desejo, ainda que com exames tão deploráveis, mal lhe restavam três meses de vida. Sentei-me ao lado dela. Pela primeira vez escutei alguém falar de uma forma verdadeira, o medo de não ser o suficiente. Enquanto ouvia, percebi que eu também estava doente, mas de um vazio, um vazio que tomou a minha vida, uma vida que não me pertencia mais. Foi quando entrou um rapaz, jovem, uns vinte e poucos anos, sinto o clima pesar, junto dele vinha o desejo oposto da paciente que estava do meu lado, com os pulsos enfaixados, o olhar como os meus, ele tinha tudo até perder alguém, no seu caso seu melhor amigo. Disse-me que tentou se matar naquela madrugada. Disse que não queria mais aquele vazio, a mesma sensação de existir sem propósito. É isso, já não estava tratando pacientes, estava me tratando. Só que o médico, ao final do atendimento, receitou minha demissão. Espero que entenda chefe, não posso mais assim viver. Carta de demissão do ex-médico Jales Tayce.

Olália Dona Olália está fazendo seu trabalho de zeladora como todos os outros dias, levantando cadeiras, varrendo corredores, tirando sacolas de lixo e, acima de tudo, vasculhando as obras de arte deixadas por crianças na parte infantil da sala de espera. O acervo de hoje foi inesperado. Junto dos quadros abstratos belíssimos, tinha um desenho de sua chefe, com chifres, asas e uma cauda, provavelmente gritando com um de seus funcionários. Olália riu, pois sabia que aquela provavelmente era sua forma verdadeira e que com toda certeza gritaria com qualquer um que visse. Achando que seu trabalho havia terminado, ela começou a se aprontar para o fim do turno, mas inesperadamente uma presença assustadora se aproxima, a chamando por todas as atrocidades possíveis, reclamando de seu trabalho ‘mal-feito’, a obrigando a limpar tudo novamente. Apesar de triste, ela precisa deste trabalho, por isso tem que suportar os gritos de sua chefe maluca. Quando recebeu a aprovação para terminar o seu turno, ao invés de sair do hospital como é esperado, ela foi apressada para uma das salas do hospital. Enquanto retirava algo da bolsa, ela ouviu uma voz: — Mãe? Chegou mais cedo hoje hein, está muito cansada? Quer umas balinhas de café? São suas favoritas. Era seu filho de 10 anos, que estava com a parte inferior de seu corpo completamente carbonizada por conta de um incêndio em sua casa. Sua mãe não pode socorrer já que estava trabalhando. 40


Olália sorriu para o seu filho e falou: — Cansei um pouquinho, mas consegui comprar um presentinho. João, seu filho, amava desenhar, mas perdeu todos os seus materiais e desenhos por conta do fogo. Por isso mesmo sua mãe juntou dinheiro por algumas semanas e comprou um kit desenho. Quase pulando de alegria, João abraçou a mãe agradecendo. Ela mostrou o desenho de sua chefe que viu, além de contar algumas histórias: o vômito de uma paciente na camisa de um funcionário, as garrafas caídas de uma tentativa de pirâmide e os litros de energéticos que explodiram no chão. Enquanto via, João mostrava toda sua criatividade desenhando essas histórias, Olália acabou com as balas de café.

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FOZ DO IGUAÇU - SESZ FOZ DO IGUAÇU ODS 1 – Erradicação da Pobreza e ODS 14 – Vida na Água A Pedra e o Propósito Os Sete Reinos Autores e Ilustradores: Cristiano Joaquim Mendes Ferreira Daniel Lara Orcesi David Eydan Ferreira Silvano Enzo Pereira Garcia Enzo Sozzeki Loreto Gabriel Marçal Rodrigues Ferreira Lais Melissa Jacquemin Luis Navarro Chalhoub Maria Fernanda Lopes de Carvalho Maria Fernanda Mesquita Mariany da Silva Rodrigues Mirella Brandão Braga Pedro Vinicius Gonçalves de Medeiros Sofia Rodrigues da Silva Professora: Maria do Carmo Livramento da Silva

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A PEDRA E O PROPÓSITO

Uma missão fora tudo que o rei prometeu. A situação econômica da plebe de Eydora, o reino da magia, está decadente, o que fez muitos morrerem por causa da fome, em reformas perigosas ou por causa de doenças. Agora, com a nova guerra dos sete reinos iminente, os problemas se intensificaram. O ouro se tornou luxo, a comida se tornou escassa, a saúde dos súditos decaiu e as terras ficaram inférteis. Por isso, testam suas chances na masmorra, lugar esse “amaldiçoado”. Poucos realmente voltam, mas nenhum chegara ao final. Ainda. Por isso fora lançada tal missão. Quem conseguisse chegar ao final e trouxesse ao rei a pedra do poder absoluto, que ajudaria o reino na guerra próxima, receberia, então, montanhas de ouro puro. Era uma escolha absurda do rei, desesperada, porém a necessidade do povo era mais extrema. Já corriam boatos sobre tal pedra, a plebe se arriscava antes mesmo de tal oferta, esperando que, caso conseguissem chegar a tal poder, poderiam melhorar a própria qualidade de vida. Entrei na masmorra há algum tempo, com um grupo de aventureiros. As horas passam de forma distinta dentro das paredes úmidas do lugar, então é impossível especificar datas. Meu objetivo era acabar com a pobreza que assombrava nosso reino. Aniquilar esse problema. Meus companheiros tinham os próprios objetivos. O que nos reuniu: Baltazhar, o mago misterioso de cabelos longos e escuros, obcecado por magia, era poderoso, mas seu corpo físico, como sempre dizia, era fraco. Eu, uma bruxa, reconhecia tal problema, procurei uma equipe pelo mesmo motivo. Baltazhar e eu tínhamos ideais parecidos, éramos mágicos, logo ele fora com quem mais me identifiquei. O sujeito queria a pedra, não o ouro. Algo que achei absurdo no início. De resto? Nunca me dei muito bem. Nossa equipe era composta por um babuíno elegante, alta classe. Joshua queria a pedra e o ouro pelo poder. Suponho que pensou que nos usaria como escudos humanos. Ele foi o primeiro a partir, logo antes de seu amigo guaxinim, que não durou muito. Kael, um ex-nobre, queria apenas a reputação. “O homem que salvara o reino da guerra.” Falhou também. Fyiodor, ogro lenhador — que dizia querer o ouro para conseguir permissão para aumentar a área de seu terreno, tomando parte da floresta encantada dos gnomos —, abandonou a jornada bem cedo junto a Draklith, um dragonato que dizia buscar vingança; não nos disse contra quem. Imagino que, com o prêmio, pagaria pela própria paz. Duvido que conseguiram sair, para ser honesta. Algo que aprendi com Baltazhar, logo antes do mesmo se sacrificar, fora que a masmorra nunca é a mesma. Ela muda, se distorce. De propósito, isso é. — Estudei o comportamento da masmorra — disse. — Ela quer nos matar, que pereçamos. Algo que não esquecerei é este momento em que estávamos em volta de uma fogueira, exaustos. Minha mana havia acabado, nossos colegas de equipe se foram. Pensava em ir embora, mas momentos antes obtive tal informação. Não havia motivos para não acreditar. Assim como não havia meios de escapar. — Não há motivo para desespero, de qualquer forma. A única coisa que dura é a magia. Nossos corpos físicos, nossa consciência, tudo se vai. Nascemos para morrer — disse. Lembro 44


que o silêncio se instaurou, fazendo eu pensar. — Não acho que nascemos para morrer — eu respondi. — Nascemos para viver, e é para isso que estou aqui. Não nascemos para sermos descartados. Morremos, sim, mas nossa existência não é só para isso. Nunca fui a pessoa mais empática, longe disso. Mas cresci na pobreza, sei bem as dificuldades e a dor. A dor de não ter o que comer. Como é sofrer recebendo o mínimo pelo que demandou tantos meses. Reconheço tudo isso. Cresci nesse cenário. E por isso tinha certeza de que, eliminando a pobreza, acabaria com essa tortura que, ainda, é sobreviver desejando uma vida. Desejando viver. Como uma elfa, sofri demasiado preconceito vindo de raças alheias toda minha vida, mesmo assim me tornei uma bruxa poderosa. Nasci no sofrimento, sem uma estrutura financeira, sem a raça “certa”; mesmo assim, consegui. Vendo tantas pessoas já beneficiadas, desejando ainda mais para si mesmas, percebi que “exterminar a pobreza” não era algo simples como apenas entregar a pedra. Era algo estrutural. Proposital. Precisávamos sofrer, esse é nosso sistema. E quanto mais sofremos, mais o egoísmo se instaura. Não de nossa parte, mas dos que nos descartam, que nos veem como menos. Apenas o ouro não nos salvaria. — A magia é eterna — repetiu Baltazhar. — Estudei essa masmorra toda a minha vida, e sei que não conseguiremos chegar ao fim juntos. Pausou. — Por isso quero que você absorva o que eu fiz. Meu estudo, minha magia. — E por quê? Vi todos se irem, alguns morrerem em minha frente. Mesmo sendo desconhecidos, que eu nunca me aproximei, me afetara. Diferente deles, não me esquecerei dos que se foram, mesmo que eles fossem se esquecer de mim caso estivessem aqui. Escutar que mais um se iria, mesmo que inevitável, era desesperador. Principalmente por se tratar de Baltazhar, que me ensinou tanto sobre magia, me trouxe ao quase fim da masmorra. — Elfos vivem mais, você tem mais chances de melhorar sua magia. — Abri minha boca para contrariá-lo, insistir que esse não deveria ser o motivo para eu absorver qualquer magia alheia, quando ele continuou: — ...Com a magia da pedra, seu objetivo pode ser concluído. Você é mais forte, mais corajosa do que eu nunca fui. Você tem um objetivo. Um sonho. Eu encarei o vazio por tanto tempo que me tornei um com ele. Não tenho propósito. Apenas uma ambição. — Se a vida realmente merece ser vivida, então a viva. Não te impedirei. A única coisa que eu desejo e sempre segui foi a magia. Juntando a minha com a sua, não me extinguirei, mas sim comprovarei minha teoria. Serei eterno. — Somos pequenos, todos nós. Essa masmorra é uma de muitas, outra realidade. Fora deste mundo. E vendo o quão insignificantes somos, com uma magia tão poderosa, é absoluto que você conseguirá ajudar seu povo, o que você ama. O que você, em específico, mais tem é tempo. Não consigo adivinhar o que pensa, mas a miséria não deveria ser comum. Com a magia, os solos podem ficar férteis, as doenças podem ser curadas. Mas também, com tamanho poder, a corrupção é inevitável. — Eu não... — tentei dizer, lembro, mas ele continuou. — Anny. Seja egoísta, o que você fará com o poder? Qual será seu propósito? 45


Tinha muitas dúvidas sobre o assunto da masmorra ser “fora desse mundo”, sobre corrupção. Principalmente, não sabia o que faria se eu fosse egoísta. Pensando apenas em mim, meu objetivo não tinha nexo. Pensando em todo meu propósito, na realidade, percebi que não sabia. Com magia, eu poderia fazer tudo. Eu sabia que o ouro não era o suficiente. Sabia da pobreza, das dificuldades. Mas como resolvê-las? Eu não sabia. Eu tinha um propósito, mas não uma solução. — Ajudarei meu povo. — Foi a única coisa que eu disse. Não havia tempo para pensar. Mais tarde, Baltazhar me ajudara no ritual de transferência. Tudo passara rápido, fora algo que eu não gostaria de lembrar: ele ao chão, eu recitando as palavras que me ensinou, o cheiro forte da masmorra, de tudo, me sobrecarregando — ao fim, me senti poderosa. O poder corria pelas minhas veias, era demais. Mas não parei. Perdi todos da minha equipe na masmorra e, mesmo ela tentando me parar, me enganando com vozes, tentando me enlouquecer, consegui. Eu tinha a inteligência de Baltazhar, sua magia. Ao mesmo tempo, sua ambição. Minha mana baixa, a pressão subindo por minhas orelhas. Eu estava muito fundo. Pensei nas palavras do mago que me acompanhou, e de fato, eu queria viver. Eu queria que todos que eu conhecia, que sofriam, vivessem. Não seria só mais uma. Só mais um babuíno querendo poder. Só mais um ex-nobre pensando apenas em si. Não dois covardes que abandonaram seus amigos por ser muito perigoso, colocando todos em perigo. Seria como Baltazhar, que se sacrificou para ajudar, mesmo que não reconhecesse o próprio valor quando ainda estava aqui. Essa jornada me ensinou que é impossível exterminar a pobreza, mas também ensinou que isso se dá pelo fato de que ninguém se beneficiaria com a falta da miséria, com a falta do desespero. Eu mesma fui à masmorra, como muitos outros, com a ideia de que o ouro puro resolveria todos os seus problemas. Mas e antes? Antes mesmo da oferta? Ainda se arriscavam. Ainda sonhavam. Mesmo sabendo que morreriam lá, mesmo não tendo certeza de um prêmio. O sistema cresce com esse desespero, a necessidade. A própria oferta do rei prova o quão descartáveis somos ao ponto de vista da realeza. Eles sabem que era impossível chegar ao fim, que morreriam tentando. Os súditos são descartáveis na vista do sistema. Mas isso não é mistério, todos sabem da frieza do reinado, principalmente os que se arriscam. Eles não se arriscam por acharem que têm valor, eles se arriscam por não ter outra opção. Nem mesmo o rei de Eydora tinha, de fato, certeza sobre “a pedra do poder absoluto”. Mas eu me arrisquei como muitos outros, e eu sei a verdade, agora. Porque eu cheguei ao fim. Não superei os antes de mim, apenas tive sorte de estar viva em meio de um espaço que faz de tudo para me matar. É por causa dos antes de mim que consegui. Por causa de minha equipe. Com a pedra em minha frente, pulsando com tamanha magia que, de algum modo, eu reconhecia, dei um passo à frente, sabendo meu destino.

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OS SETE REINOS

ALYSSA Em um reino onde a terra é fértil, a vida brota, a maternidade é uma dádiva que a natureza completa. E a floresta, um manto verde que se espalha. A agricultura, um dom que nos une e nos alimenta. A vegetação renova-se a cada primavera, com a água — a principal fonte de vida — regando a fauna e a flora desse reino. O matrimônio e a natureza unem-se para celebrar a vida em cada estação.

HELENA Governante de um povo de luz, no reino onde a alegria não tem fim. Helena, nome daquela que os conduz, embriaga-se com a bebida cor de marfim. O sol dança alto no céu, colorindo os dias de dourado e carmim, de forma que a música nunca cessa de soar, e os corpos dançam livres sob a luz do luar. Lá, o reflexo dos lagos é como telas que se pintam tal qual aquarelas. Teatro, artesanato e toda arte que se possa imaginar — um dom que nem o tempo pode apagar. Pintura, escultura, bordado e canção: a arte é o espírito dessa nação.

MAGNUS Magnus, de cabelos brancos, caiu do trono ao pó do nada. Na pele morena arde a fúria, na alma, a dor calada. Abandonado por deuses e homens, ergue a vingança dourada, pois cada estrela que apaga será o preço da jornada. Seus passos queimam o vazio onde outrora havia luz. Seu nome ecoa em mundos mortos, onde a esperança não conduz. Com olhos dourados, ele julga: não há perdão nem cruz, e sobre os ossos da Capital ele forja sua glória. No coração do caos, protege o mar que ainda respira, pois sabe que, se a última gota cair, sua eternidade expira.

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ZENA Em terras distantes, onde a lenda se tornaria realidade, erguia-se Zena. Seus cabelos eram como a noite escura, sem estrelas. Para a maioria, uma fera indomável, com fama de bravura. Protetora dos deuses, guardiã de segredos antigos, Zena jamais se submetia. Seu caminho era ela quem ditava. Sua autoridade não vinha de um trono, mas de sua essência. Na Capital, coração pulsante do reino, rodeado por um vasto e cristalino oceano, todos compreenderam: Zena não seguia o jogo, ela o escrevia. Suas regras prevaleciam, sua visão era o destino.

ELARA Elara vem de um reino de amor, com uma rainha cheia de compaixão e um rei que, por seu jeito injusto, acabou deixando a esposa só. É um lugar onde vivem as fadas do amor, que nascem das risadas de crianças e fazem florescer as flores de um lago de águas cristalinas, onde a vida surge e sua pureza mantém a harmonia. Elaris, sua casa, a ensinou que não há nada que sua força, sua fé e sua vontade não possam realizar. Que, apesar de tudo, todos precisam de amor e de uma segunda chance para amar.

ANNE Sabedoria é para quem sente, quem encara a realidade. Anne não busca aparência, ela vive a verdade. Impulsiva como as ondas do mar, onde nem as mais fortes barreiras a podem segurar. Com firmeza e respeito, vai crescendo em decisão, aprende com o silêncio e escuta o coração. Mesmo em meio à confusão, sabe ouvir e silenciar. Foi Atena quem falou, com firmeza e devoção: “Filha minha, ser sábia é ter luz na escuridão.”

MERLIAH No mundo profundo do mar sonhador, surge Aquamora, reino do amor. Lá, Afrodite guia com doçura, e a água é fonte de paz e ternura. Cada gota carrega a emoção, refresca a terra, aquece o coração. Os moradores, com devoção, cuidam da água como oração. Pois sabem que o amor é a fonte pura da razão.

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IVAIPORÃ - SESC IVAIPORÃ ODS 6 – Água Potável e Saneamento e ODS 10 – Redução da Desigualdades O Tecido Remendado Autoras: Adrieley Harumi Yamashita Laura Diezner Martins Ilustração: Nhandeara Alves Favaretto (Arapongas) Professor: Carlos Henrique Durlo

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O TECIDO REMENDADO Capítulo 1: As Cores Desiguais de Esperança A cidade de Nova Aurora cintilava sob o sol da manhã, um mosaico vibrante de vidro e aço que prometia um futuro brilhante. No entanto, por trás da fachada polida de arranha-céus reluzentes e parques impecavelmente cuidados, residia uma verdade desconfortável: Nova Aurora era uma tapeçaria de cores desiguais. De um lado, o Distrito Celeste, com suas avenidas largas, escolas de elite e acesso ilimitado a oportunidades, era onde os ricos e poderosos viviam suas vidas em tons de dourado e prata. Do outro, além dos trilhos enferrujados da antiga ferrovia, estendia-se o Bairro da Poeira, uma massa de casas amontoadas, becos empoeirados e a vida vivida em tons de cinza e marrom. Neste cenário de contrastes gritantes, viviam duas jovens, sem saber que seus destinos se entrelaçariam em um esforço para redefinir o tecido de Nova Aurora. Em Celeste, morava Sofia, uma jovem de 18 anos com cabelos castanhos que sempre escapavam de seu rabo de cavalo e olhos curiosos que viam o mundo através das lentes da lógica e da justiça. Ela frequentava a Academia Prisma, a mais prestigiada escola da cidade, onde o futuro era planejado com precisão cirúrgica. Sofia era filha de um influente urbanista, o Dr. Elias Costa, um homem que sonhava com uma cidade perfeitamente ordenada, mas que, ironicamente, ignorava as rachaduras em seu próprio modelo. Sofia, no entanto, não era cega. As histórias dos jornais sobre as dificuldades do Bairro da Poeira, os protestos abafados por falta de acesso e a crescente disparidade de renda a incomodavam. Ela sentia um nó no estômago cada vez que ouvia falar de “oportunidades iguais” quando, para muitos, as oportunidades sequer existiam. No Bairro da Poeira, em meio à resiliência de uma comunidade que se apoiava mutuamente, vivia Mariana. Seus cabelos crespos, sempre adornados com fitas coloridas, emolduravam um rosto expressivo e olhos que carregavam a profundidade das experiências. Ela era a mais velha de três irmãos e trabalhava desde cedo na pequena padaria de sua tia, amassando pão e sonhos. A escola pública do Bairro da Poeira era precária, com livros velhos e professores sobrecarregados, mas Mariana absorvia cada pedacinho de conhecimento como uma esponja, devorando qualquer livro que pudesse encontrar na biblioteca comunitária. Ela sabia que a educação era sua única escada para um futuro melhor, mas a escada parecia ter degraus faltando para ela e sua comunidade. As promessas vazias de progresso da prefeitura soavam como eco distante, e a desigualdade não era uma estatística para Mariana, era o ar que ela respirava.

Capítulo 2: O Ponto de Encontro Improvável O primeiro encontro entre Sofia e Mariana foi, como muitos grandes eventos, totalmente inesperado e aparentemente insignificante. A Academia Prisma organizava anualmente um programa de voluntariado obrigatório para seus alunos do último ano, e Sofia foi designada para o “Projeto Semear”, que levava livros e atividades para a biblioteca comunitária do Bairro da Poeira. 52


Sofia chegou ao Bairro da Poeira com uma mistura de apreensão e idealismo. As ruas eram mais estreitas, as casas mais simples e os sorrisos, embora genuínos, eram marcados pela fadiga. Ela esperava encontrar desespero, mas encontrou resiliência, calor humano e uma vontade de aprender que a surpreendeu. Na biblioteca, um pequeno refúgio de conhecimento, ela encontrou Mariana, não como uma aluna, mas como uma das voluntárias mais dedicadas, ajudando as crianças com suas lições e organizando os poucos livros disponíveis. Mariana, a princípio, encarou Sofia com a desconfiança comum a quem vê “os de fora” chegando com suas boas intenções e partindo tão rapidamente. Sofia, com suas roupas impecáveis e seu tablet de última geração, parecia vir de outro planeta. Mas a genuína curiosidade de Sofia, sua humildade em admitir que não conhecia a realidade do Bairro da Poeira e sua disposição em ouvir começaram a quebrar o gelo. Elas começaram a trabalhar lado a lado. Sofia, com seus conhecimentos teóricos, ajudava a organizar o acervo da biblioteca e a criar um sistema de empréstimos. Mariana, com sua experiência prática e profundo conhecimento da comunidade, orientava Sofia sobre quais livros eram mais necessários e como se comunicar efetivamente com as famílias. Elas descobriram uma paixão compartilhada pela educação e uma frustração mútua com as injustiças que viam. Durante uma pausa, sentadas em um banco empoeirado, Sofia desabafou sobre a hipocrisia de sua própria escola, que falava de meritocracia enquanto ignorava as bases desiguais. Mariana, por sua vez, contou sobre as dificuldades de acesso à saúde de qualidade, a falta de segurança e a ausência de oportunidades de emprego dignas para os jovens do Bairro da Poeira. Elas perceberam que, embora suas realidades fossem distintas, a essência de seus desafios estava ligada à mesma raiz: a desigualdade.

Capítulo 3: A Centelha da Iniciativa A cada dia de trabalho no Projeto Semear, a amizade entre Sofia e Mariana se fortalecia. Elas não eram mais “a menina de Celeste” e “a menina da Poeira”, mas simplesmente Sofia e Mariana, duas mentes brilhantes unidas por um propósito. Foi Mariana quem primeiro expressou a frustração que sentia em relação à falta de impacto duradouro do programa de voluntariado. — É como colocar um curativo em uma ferida aberta, Sofia. A gente ajuda, mas a desigualdade continua lá. Sofia concordou. Ela havia percebido que o problema era sistêmico, não pontual. A ODS 10, que ela havia estudado em um seminário sobre sustentabilidade na Academia Prisma, falava sobre a redução das desigualdades entre e dentro dos países, e elas estavam vivenciando isso em sua própria cidade. A ideia de um projeto mais ambicioso começou a surgir em uma conversa sobre a falta de acesso à tecnologia no Bairro da Poeira. Muitos jovens não tinham computadores ou acesso à internet, o que os excluía de oportunidades de aprendizado e trabalho. — E se a gente criasse um centro de capacitação digital aqui? — sugeriu Sofia, seus olhos brilhando com uma nova ideia.

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Mariana, a princípio, foi mais cautelosa. — Precisamos de recursos, Sofia. E de pessoas dispostas a ensinar. E de confiança da comunidade. Sofia não se deixou abater. Ela começou a pesquisar sobre fundos de investimento social e programas de mentoria. Ela se lembrou de uma palestra que seu pai havia dado sobre “parcerias público-privadas” e, embora cética em relação ao envolvimento de seu pai, viu uma oportunidade. Ela se aproximou de seu pai com a ideia de criar um “Centro de Inovação Comunitária” no Bairro da Poeira, um espaço com computadores, internet de alta velocidade e voluntários para ensinar habilidades digitais. O Dr. Elias Costa, acostumado com projetos grandiosos e lucrativos, inicialmente franziu a testa. — Sofia, é um projeto de alto risco social, sem retorno financeiro claro. E a burocracia... Mas Sofia, com a determinação que herdara dele, não cedeu. Ela apresentou um plano detalhado, com orçamentos modestos, parcerias com ONGs locais e o compromisso de Mariana e outros voluntários do Bairro da Poeira. Ela argumentou que investir na educação e capacitação da população marginalizada era um investimento no futuro da cidade inteira, reduzindo a criminalidade, aumentando a produtividade e construindo uma sociedade mais justa e estável. Era a redução das desigualdades aplicada na prática.

Capítulo 4: Construindo Pontes, Quebrando Barreiras Para a surpresa de Sofia, e, em parte, impulsionado pela insistência de sua filha e pela pressão de alguns de seus colegas mais progressistas, o Dr. Elias Costa cedeu. Ele conseguiu um financiamento inicial da prefeitura e de algumas empresas que queriam melhorar sua imagem social. A notícia da construção do “Centro de Inovação Comunitária – Ponte para o Futuro” no Bairro da Poeira gerou um burburinho inicial. Em Celeste, houve quem criticou o “desperdício de dinheiro” em uma área “sem potencial”. No Bairro da Poeira, muitos viam a iniciativa com desconfiança, temendo que fosse mais uma promessa vazia. Foi aí que a liderança de Mariana se tornou crucial. Ela, com seu conhecimento da comunidade, organizou reuniões com os moradores, explicou o projeto em detalhes e garantiu que o Centro não seria um mero “presente” de Celeste, mas uma ferramenta para o empoderamento local. Ela e outros jovens do bairro se voluntariaram para ajudar na construção e na limpeza do local, transformando um antigo galpão abandonado em um espaço moderno e acolhedor. Sofia, por sua vez, recrutou voluntários entre seus colegas da Academia Prisma, muitos dos quais nunca haviam pisado no Bairro da Poeira. No início, a interação entre os jovens de Celeste e os do Bairro da Poeira era desajeitada, marcada por preconceitos implícitos e diferenças culturais. Mas, à medida que trabalhavam lado a lado, quebrando tijolos, instalando computadores e pintando paredes, as barreiras começaram a cair. Descobriram paixões em comum pela música, por jogos, por histórias. Aprenderam uns com os outros, sobre as realidades distintas de suas vidas, mas também sobre as aspirações e sonhos que os uniam.

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A inauguração do Centro “Ponte para o Futuro” foi um evento emocionante. O Dr. Elias Costa fez um discurso protocolar, mas os aplausos mais sinceros foram para Sofia e Mariana, que estavam lado a lado, simbolizando a união de dois mundos. As crianças do bairro, com olhos arregalados, exploravam os novos computadores, enquanto os jovens se inscreviam nos cursos de informática, design gráfico e empreendedorismo digital. O Centro se tornou rapidamente um ponto de encontro vibrante, onde a esperança e o aprendizado floresciam.

Capítulo 5: O Tecido Remendado e Forte Com o passar dos meses, o impacto do Centro “Ponte para o Futuro” no Bairro da Poeira era inegável. Jovens que antes não tinham perspectivas de emprego agora encontravam trabalho online, criando websites, gerindo mídias sociais ou desenvolvendo aplicativos simples. Adultos aprendiam a usar a internet para acessar serviços públicos e buscar informações sobre saúde e direitos. As crianças, com acesso a recursos educacionais digitais, mostravam um desempenho escolar significativamente melhor. A desigualdade não havia desaparecido por completo — um problema sistêmico leva tempo para ser erradicado —, mas as rachaduras no tecido social de Nova Aurora estavam sendo remendadas. A voz do Bairro da Poeira começou a ser ouvida. Com a capacitação digital, os moradores se organizaram melhor, criaram plataformas online para denunciar problemas e reivindicar direitos, participando ativamente das decisões que afetavam suas vidas. Sofia e Mariana, agora universitárias, continuavam a ser os pilares do Centro. Sofia estudava políticas públicas, sonhando em criar leis que efetivamente promovessem a equidade. Mariana, por sua vez, cursava ciência da computação, com o objetivo de desenvolver tecnologias que pudessem empoderar comunidades marginalizadas. Sua amizade se aprofundou, tornando-se um símbolo da ponte que construíram. O Dr. Elias Costa, observando a transformação, começou a ver sua própria cidade sob uma nova luz. Ele percebeu que a verdadeira beleza de Nova Aurora não estava em seus arranha-céus reluzentes, mas na força de sua comunidade, no talento de seus jovens e na capacidade de superação de seus cidadãos. Ele passou a advogar por políticas de inclusão em seus projetos, reconhecendo que uma cidade só é verdadeiramente próspera quando todos os seus habitantes têm a chance de florescer. O tecido de Nova Aurora, antes tão desigual e fragmentado, estava sendo remendado com fios de esperança, justiça e solidariedade. Não era uma tapeçaria perfeita, mas era mais forte, mais justa e mais resiliente. A história de Sofia e Mariana, duas jovens de mundos diferentes que se uniram para reduzir as desigualdades, era um lembrete de que cada pequena iniciativa, cada ponte construída, cada barreira quebrada contribui para um futuro em que a igualdade não é apenas um ideal distante, mas uma realidade vivida por todos. O resplendor de Nova Aurora finalmente começava a brilhar para todas as suas cores, em todos os seus cantos, um reflexo do compromisso com a ODS 10: Redução das Desigualdades.

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JACAREZINHO – SESC JACAREZINHO ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura e ODS 15 – Vida Terrestre Usina Nuclear Autores e Ilustradores: Alice Ferreira Chagas Ana Gabriela Ferreira da Silva Arthur Gregori Gonçalves Lopes Caroline Rodrigues Berçocano Isabelly Leopoldo Nunes Julia de Paula Souza Barreto Lorena Silva Laiter Luiz Otávio Ferreira Marcela Chueiri Do Nascimento Vitor Hugo Grimes Pereira Maria Amália Alves dos Santos Sombras do Progresso Autores: Alice Ferreira Chagas Vitor Hugo Grimes Pereira Coração da Terra Autores: Ana Gabriela Ferreira da Silva Isabelly Leopoldo Nunes O Sabor Amargo de Crescer Autores: Maria Amália Alves dos Santos Arthur Gregori Gonçalves Lopes Terra de Vazio Autores: Julia de Paula Souza Barreto Lorena Silva Laiter Dia Autores: David Diniz da Silva Luisa Pini de Lima Nuvem Autora: Marcela Chueiri do Nascimento Professor: Arnaldo Nogari Junior 56


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USINA NUCLEAR

Ademar Pereira nunca entendera direito como funcionava uma usina termonuclear. Não sabia o que era fluido pressurizado, nem o que exatamente saía daquelas torres que havia no chão da sua cidade. O que ele sabia era que, desde que começaram as obras da Usina Nova Vida, tudo havia mudado. E não pra melhor. — Inovação — diziam os homens engravatados na televisão. — Desenvolvimento sustentável — repetiam os outdoors que cobriam os muros rachados da escola do seu filho. — Empregos — eram as promessas em que ele tentava acreditar quando entregava currículos com as mãos calejadas. Ele fora contratado, sim. Como auxiliar na usina, manipulando caixas com materiais “não perigosos”, mesmo que o cheiro deixasse sua garganta arranhando e seus olhos vermelhos ao final do turno. Nunca teve certeza se aquilo era vapor ou veneno. A cidade se modernizou. Pelo menos nas manchetes. Mas Ademar via os bairros humildes ainda sem esgoto tratado. Via as crateras no asfalto que ninguém consertava, e os amigos de infância sendo realocados, porque suas casas estavam em “área de segurança crítica”. A nova ponte suspensa com painéis solares e sensores inteligentes passava por cima do bairro onde ele morava — e que agora era chamado de Zona de contenção residencial 3. — Pai, a professora falou que a usina vai ajudar a salvar o planeta — disse Rafael, enquanto fazia o dever de casa sob a luz fraca da sala. Ademar sorriu com o canto da boca. Não queria matar o sonho do filho, nem manchar o que ele ouvia na escola. Mas sabia que, ali onde a inovação encontrava o descaso, o progresso nem sempre era pra todos. Ele olhou pela janela. As luzes da usina piscavam à distância como olhos frios. Sentia um zumbido constante no ar, como se o mundo estivesse sempre prestes a explodir. E, no fundo, tinha medo de que um dia o futuro, esse mesmo futuro que diziam ser tão promissor, cobrasse caro demais por aquilo que já estavam pagando com a saúde, com o silêncio, com o esquecimento. Tudo o que Ademar queria era simples: um lugar onde seu filho pudesse viver sem tossir o dia todo. Onde inovação significasse paz, não só concreto, promessas e fumaça. Ademar tinha a sensação de que o cheiro grudava nele. Podia tomar banho, esfregar o pescoço até a pele arder, trocar de camisa três vezes no dia — mas bastava encostar no travesseiro e lá vinha de novo aquele odor metálico, quente, sufocante. Vapor de lugar nenhum. No trabalho, ninguém falava muito. O pessoal já entendia no olhar. Era todo mundo igual: cansado, meio calado, com uma mistura de medo e conformismo grudada nas costas, tipo poeira fina. — A gente tá construindo o futuro — dizia o supervisor de colete laranja, todo animado, como se tivesse engolido um comercial de TV.

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Mas Ademar não via futuro nenhum. Via os caminhões gigantes passando por cima do parquinho onde o filho brincava antes. Via a poeira invadindo os quintais. E, à noite, o barulho. Sempre aquele barulho. A usina nunca dormia. Nem ele. Rafael tinha começado a tossir. Primeiro de leve, só de manhã. Depois, no meio da aula. Na semana passada, teve febre. A doutora do posto deu um xarope, mas não olhou duas vezes. — Provavelmente é alergia. Tá tudo seco, né? Ademar assentiu. Mas sabia que não era só isso. Um dia, no fim do expediente, ele ficou mais um tempo sentado no meio-fio. Olhava pra torre principal da usina, gigante, com luzes azuis piscando no topo. Tinha alguma coisa errada naquela construção. Coisa que ninguém dizia, mas que ele sentia no estômago, como uma dor antes da chuva. Dois colegas passaram por ele, rindo baixo. — Tu viu? O negócio que vazou ontem? — Ah, mas abafaram. Disseram que era só vapor de resfriamento. — Tá. E o passarinho morto no pátio? Foi o calor também? Ademar escutou, mas não falou nada. Pegou o crachá, guardou no bolso e foi pra casa andando. A cidade estava mudada. Construíram uma ciclovia bonita na beira do rio, mas o rio já não era azul. Estava turvo, com um cheiro esquisito. Diziam que era normal, que era só sedimento do fundo. Mas ele lembrava de quando pescava ali com o pai. Lembrava da água clara, gelada, cheia de vida. Agora só boiavam sacolas e espuma. Naquela noite, enquanto Rafael dormia, Ademar ficou sentado no sofá. O ventilador rodando preguiçoso. Pegou uma folha de caderno e começou a rabiscar. Não sabia o porquê, mas escreveu: Rafael, se um dia eu não estiver aqui, eu tentei. Tentei te dar o que eu não tive. Tentei te deixar num lugar melhor. Mas o mundo anda esquisito. E, às vezes, os que mandam dizem que tão salvando tudo, mas não salvam nem a gente.” Dobrou o papel, guardou no bolso da jaqueta e olhou o filho dormindo com a testa suada. Aquilo doía. Doía como se fosse culpa dele. Na semana seguinte, a notícia correu: um vazamento. Pequeno, disseram. Contido. Mas houve evacuação de dois setores e a escola do bairro foi fechada “temporariamente”. Ademar foi pra frente da usina. Não pra trabalhar, dessa vez como gente. Como pai. Como quem já não tinha mais o que perder. — A gente vai ficar aqui até dizerem a verdade — gritou um dos moradores. — Cadê o relatório ambiental? — berrava uma mulher de máscara, segurando um cartaz. — Nossos filhos não são cobaias! Ademar não gritou. Só ficou ali. De pé. Braços cruzados. O crachá da usina ainda no bolso. Olhando a torre. O concreto. O vapor. E pela primeira vez, sentiu que não estava sozinho. 59


POEMAS

Sombras do Progresso

Coração da terra

No chão da usina, o vapor se levanta,

No ventre azul da imensidão,

Promessas no ar, a esperança se espanta.

brota a Terra em vibração,

Engrenagens rugem com precisão,

com rios, montanhas e mares,

Mas sufocam aos poucos cada pulmão.

tecendo eternos altares.

Chamam de avanço, de nova era,

O sol desperta os campos verdes,

Mas o futuro arde na atmosfera.

a chuva canta onde a vida emerge.

Na pele, na água, na tosse do filho,

Flores dançam com o vento leve,

A inovação cobra alto seu trilho.

e o tempo passa, mas nunca serve.

Ergue-se a cidade com brilho e metal,

Bichos, aves, seres humanos,

Mas jaz sob o concreto um medo letal.

caminham juntos, ano após ano,

Que seja o progresso não só aparência

na busca incerta por sentido,

Mas vida, justiça, ar e consciência.

em um planeta tão colorido.

Há dor, há luta, há esperança, há riso, sonho e criança. Cada vida, um breve instante, um sopro frágil, mas gigante.

Somos poeira de estrela acesa, mistério, amor e natureza. Que a Terra viva, plena e bela, pois nossa casa é só aquela.

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O sabor amargo de crescer Eu cresci achando que o mundo era justo, que as pessoas, no fundo, eram boas. Hoje, vejo máscaras bem costuradas e mentiras servidas como verdades.

As notícias sangram na tela, enquanto risos vazios preenchem os corredores. Gente que passa por cima de outras como quem desvia de poças na calçada.

Onde foi parar a empatia? Morreu com a pressa? Ou foi comprada pelo poder e pela ganância?

Eu olho em volta e me sinto estranho. Penso demais, sinto demais, me importo demais — num mundo que sente de menos.

Talvez o problema seja meu. Ou talvez, acordar seja isso: perceber que crescer é engolir o mundo sem deixar que ele engula a gente.

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Terra de Vazio Corpos correm atrás de ouro, como se valesse a alma inteira, mas morrem com as mãos cheias de nada e o peito cheio de poeira.

Chamam de vida o acúmulo cego, de conquistas que não sabem amar. Esquecem que tudo que é sólido cedo ou tarde vai desmoronar.

Pisos frios escondem raízes, asfalto sufoca a canção. A natureza grita em silêncio, mas ninguém presta atenção.

Construímos paredes por dentro, tão duras quanto o concreto. E chamamos de “progresso” o que só nos torna incompletos.

Apegos viraram correntes, lucros, o novo altar. E o humano, perdido em si mesmo, já nem sabe o que é respirar.

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Dia O amanhecer que clareia meu dia O dia que ilumina a natureza Sentindo a brisa do vento batendo em meu rosto E analisando o que pode estar acontecendo E, enfim, Quando olhamos para trás Rememoramos o que vivemos percebemos que estamos quase chegando no fim.

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Nuvem Daqui de cima eu observo atenta Cada molécula desse ar denso. O que um dia foi rico É algo hoje escasso. Por vezes me pego Os tais detalhes Quanto

natural

mais

ciclo onde

admirando humanos

precisam

do

cuidam

isso

que

eu

menos

transborde

ocorre

Reclamam das secas, das chuvas, das tosses Mas ninguém cuida da terra, dos lixos, do calor precoce Até quando assistirei tamanha hipocrisia humana recheada com tanta ignorância?

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LONDRINA – SESC LONDRINA CENTRO ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável e ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis O Tempo da Redenção Autores: Maria Eduarda Pereira da Silva Amanda da Silva Garcia Nicóle Cristina de Oliveira Hanna Beatriz Nunes Soares Gustavo Henrique Breve Almeida Gabriel Pires Martins Miguel Salim Bruna Emanuelle Oliveira Lima Laura Gabriella Vicente Camargo Ilustração: Laura Gabriella Vicente Camargo e Miguel Salin A Fome Do Silêncio Autores: Adrielle Lemes Eduardo Castro João Ferreira José Wagenheimer Lorena Fávaro Maria Dias Miguel Santos Nathalia Marangon Raphaela Soares e Vitor Silva Ilustração: Laura Gabriella Vicente Camargo e Miguel Salin Professora: Vizette Priscila Seidel

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O TEMPO DA REDENÇÃO

Coração do Vale, 27 de novembro de 2049. Decidimos começar esse diário porque encontramos uma máquina do tempo; com isso, talvez, poderemos ter uma chance de consertar o nosso presente, e achamos melhor relatar nossas falhas para que vocês não as cometam e, também, nossos sucessos, para caso aconteça de novo. Somos um grupo de sobreviventes: eu sou William, e comigo estão Ronaldinho, Samuel, Maria e Marcos. Samuel é o mais velho e o mais experiente, e por isso nos lidera. Ronaldinho, o mais novo, era o que mais ajudava na busca de suprimentos, por conta de ser muito rápido e ter um corpo pequeno, o que o ajudava a ser furtivo. Maria era a nossa médica por conta de seu vasto conhecimento de ervas e tratamentos medicinais. Marcos era mais forte e mais animado, sempre disposto a nos proteger e ajudar a carregar nossos suprimentos; diversas vezes nos salvou de enrascadas. E agora vou me apresentar: modéstia à parte, sou o mais inteligente e cuido do grupo de outra forma, formando nossas estratégias, escolhendo quais caminhos vamos seguir e sempre criando coisas com os destroços que achamos pelo caminho. Vivemos em um mundo onde a natureza se tornou muito mais cruel, adaptando-se às mudanças drásticas de temperatura do planeta, formando florestas densas e extensas, tornando quase impossível entrar em uma e sair vivo. No topo dessas grandes florestas, as plantas desenvolveram uma espécie de seiva que conseguia filtrar os raios solares, mantendo a vegetação viva; em contrapartida, áreas que não possuíam muita vegetação se tornaram grandes desertos praticamente inóspitos, transformando o planeta Terra em um ambiente extremamente hostil e perigoso. Os oceanos se tornaram ainda menos exploráveis, pois, por conta da incidência direta da radiação solar, os animais que vivem em águas rasas tiveram que migrar para águas mais profundas, entrando em conflito com os animais que já viviam naquelas regiões, iniciando uma sobrevivência do mais forte, restando somente as maiores e mais agressivas criaturas. Temos que viver com muita cautela, pois, após a transformação do mundo e seus novos biomas, novas criaturas surgiram nas grandes florestas; por serem o único habitat semelhante a savanas, selvas e taigas, os animais tiveram que migrar para essa nova floresta, fazendo com que diversos superpredadores se encontrassem, somente os animais carnívoros, pois os herbívoros não podiam consumir essa nova vegetação devido à seiva, que continha diversos nutrientes modificados pela radiação, impossibilitando sua alimentação, tornando ainda mais perigoso adentrar nessas florestas. No deserto, não era muito diferente, já que os animais que habitavam a superfície tiveram que se adaptar a viver debaixo do solo, forçando-nos a viver por meio de caça e coleta, igual aos antigos nômades e, muitas vezes, à procura de sobras; sobras essas que são tão escassas que o canibalismo se tornou viável. E, por conta disso, não lutamos apenas contra a fome, mas também com os nossos iguais, um contra o outro, sendo cada dia um desafio diferente. As coisas começaram a desandar quando não demos atenção aos avisos das mudanças climáticas bruscas que estavam por vir, deixando a sobrevivência na Terra quase inviável. O dia nos tornou vampiros, pois passar curtos períodos de tempo na luz solar causava queimaduras irreversíveis. Contextualizando, quando os ricos perceberam que o planeta não tinha mais salvação, Marte se tornou refúgio. Com o avanço da tecnologia, o planeta vermelho se tornou alvo de pesquisas e visitas de cientistas que, a mando de pessoas ricas, tornaram o planeta habitável. A mídia, seguindo as ordens dos líderes do mundo, acobertou a mudança de uma pequena parcela da 67


população: a elite. Então nos encontramos agora em situação inusitada. Em uma de nossas expedições rotineiras, achamos um campo de pesquisa abandonado em meio a um deserto, o qual parecia bastante secreto: a Área 51. Lá dentro estava bastante destruído, mas, de alguma forma, a energia ainda estava funcionando, possibilitando a exploração do local. Durante a busca do local, encontramos uma sala repleta de béqueres e computadores cheios de dados comprometedores do governo; eram materiais sigilosos que ficaram para trás. A sala estava muito bagunçada, com diversas anotações de um cientista. Não havia muitas informações sobre ele, apenas que se chamava Lionel Ronaldo. Em meio a tanta bagunça, restava um caderno com suas anotações; estavam em uma língua diferente, e passamos diversas horas até conseguirmos traduzi-las. Foi ele que inventou a máquina do tempo, porém teve de abandonar seu projeto na Terra, devido às ordens de seus superiores, que não queriam gastar ainda mais recursos para tentar salvar o planeta. Também descobrimos que ele nunca teve a chance de testar sua criação. Depois de algumas discussões, nós decidimos testar a máquina para ver se ela iria funcionar. Samuel, que era o mais experiente do grupo, se voluntariou para entrar na máquina. Ligamos a máquina e o mandamos acidentalmente de volta para a época dos dinossauros; só se passaram cinco segundos. Quando retornou, ele nos contou que passou o mínimo de tempo possível — provavelmente cerca de cinco minutos —, mas que já foram suficientes para fazê-lo ter uma experiência de quase morte, o que o fez se desesperar e clicar em um dos botões, que o mandou de volta. Depois dos relatos, decidimos descansar e começar a pensar em soluções no outro dia, porque estávamos muito cansados.

Coração do Vale, 21 de dezembro de 2049. As coisas estavam críticas. Nossos suprimentos estavam quase no fim, os ataques de saqueadores aconteciam com mais frequência, e a máquina do tempo continuava sendo um mistério. Ronaldinho já não conseguia correr como antes; a fome estava afetando até ele, o mais rápido do grupo. Marcos tentava manter a postura firme, mas dava para ver em seus olhos o cansaço. Maria trabalhava sem descanso, tentando extrair remédios das poucas plantas que ainda encontrávamos. Samuel, ainda se recuperando do trauma de sua viagem ao passado distante, insistia em ajudar nas decisões, mesmo com a voz fraca. Foi nesse cenário que Maria fez uma descoberta. Ela passou a noite toda analisando as anotações de Lionel Ronaldo, virando página por página sob a luz fraca da lanterna. Em certo momento, percebeu que Ronaldo não estava apenas criando uma máquina do tempo. Ele também mapeou pontos no passado em que pequenas mudanças poderiam alterar o rumo de toda a história. Samuel, ao ler as anotações, confirmou que aquilo fazia sentido. Bastaria encontrar o momento certo para intervir. Eu sabia exatamente qual seria esse momento: o Acordo Climático Global de 2025, a última chance real que a humanidade teve para evitar a destruição. Depois disso, foi o início do fim. Ronaldinho também entendeu que essa era nossa melhor oportunidade. Não podíamos perder tempo. Enquanto Marcos e Ronaldinho montavam guarda contra possíveis ataques, o resto de nós trabalhou para reunir todos os dados que havíamos coletado ao longo dos anos — registros secretos do governo, pesquisas sobre as mutações das plantas e dos animais, e até o relato completo de Samuel sobre sua viagem ao período Cretáceo.

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Maria sugeriu incluir também um apelo emocional, para que as pessoas do passado entendessem a gravidade da situação. Gravamos nossas histórias, nossos medos e esperanças. Quando tudo estava pronto, Samuel ajustou os controles da máquina para enviar o pacote de dados diretamente para a mesa de negociações do Acordo de 2025. Ele fez isso com precisão, mesmo com o suor escorrendo pelo rosto. A ativação foi intensa. A máquina começou a vibrar e emitir um zumbido cada vez mais forte, até que uma luz azul tomou conta da sala. Por um instante, tudo parou, e, logo depois, um clarão marcou o desaparecimento do pacote. Caímos no chão com o impacto e, ao nos levantarmos, sentimos que algo estava diferente. O ar parecia mais puro.

Coração do Vale, 15 de janeiro de 2050. (Novo Presente) Saímos do complexo abandonado e, diante de nós, estava um vale verde. Não era o verde doentio das florestas mutantes, mas, sim, o verde vivo das fotos antigas que víamos nos livros. Um rio límpido corria pelo campo e, no céu, pássaros voavam e cantavam — pássaros de verdade, não as criaturas deformadas que conhecíamos. Marcos começou a rir, incrédulo. Ronaldinho correu pelo campo como nunca, gritando e sorrindo como uma criança que finalmente podia brincar. Maria chorava em silêncio, e Samuel, com a voz embargada, dizia que realmente tinha funcionado. A máquina do tempo continuava ali, agora desligada. Decidimos deixá-la como estava, não para ser usada, mas como um monumento, um lembrete de que o futuro pode ser mudado e que, mesmo nos momentos mais difíceis, a esperança pode renascer. Esta será minha última entrada neste diário. Amanhã vamos explorar esse novo mundo, esse presente que conseguimos salvar. Talvez encontremos pistas de como nossa mensagem foi recebida e como o mundo conseguiu se unir para evitar o desastre que antes parecia inevitável. Por enquanto, basta saber de uma coisa: conseguimos. William.

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A FOME DO SILÊNCIO Léo era apenas uma criança quando o mundo que conhecia começou a silenciar. Não houve uma guerra aberta, nem um cataclisma natural. O que aconteceu foi um apagão do prazer, uma cassação da liberdade escondida sob a promessa da erradicação da fome. Na Zona 9, o bairro onde vivia, a rotina já começava a mudar. Sua mãe, Dona Cira, ainda resistia, tentando preparar refeições com os últimos vegetais e raízes que restavam de outrora. A cozinha exalava o cheiro da resistência: alho frito na frigideira, cheiro de café coado em pano, caldo fervendo com pedaços de legumes recolhidos em segredo. — Léo, venha comer — chamava ela com uma voz cansada, mas firme. — Cozinhar é mais que alimentar, é um cuidar, é uma lembrança. É manter acesa a chama de quem somos. Ele comeu a sopa como se fosse um tesouro, sentindo o calor e o aroma como um abraço antigo. Mal sabia que aquela seria a última refeição feita por suas mãos, por anos. Na manhã seguinte, os agentes da Nutricorp chegaram. Não eram soldados, não tinham armas — tinham pranchetas e um olhar implacável. Confiscaram os alimentos caseiros, as sementes, as panelas. A partir dali tudo o que passaria pela boca de Léo viria em cápsulas translúcidas, padronizadas e sem sabor. — Não permita que o sabor te engane — disseram as vozes da propaganda —, NutraVida é a revolução contra a fome. Léo sentiu pela primeira vez a fome do sabor. Os anos que se seguiram foram longos e áridos, não apenas para o corpo, mas, principalmente, para a alma. Léo cresceu em um mundo onde o ato de comer havia se tornado uma rotina mecânica, sem prazer, sem ritual, sem sentido. As crianças aprendiam desde cedo que a fome era apenas um sinal físico, algo que devia ser apagado com ingestões periódicas, como abastecer uma máquina. A Nutricorp entregava as cápsulas em horários exatos, com rigor clínico. Cada pessoa recebia a quantidade exata de nutrientes, proteínas, carboidratos e gorduras, milimetricamente calculada para manter o funcionamento mínimo do corpo. Ninguém mastigava. Ninguém sentia. Anos depois, Léo já era um jovem adulto, funcionário do Centro de Distribuição Nutricional, em Neotrópolis, uma metrópole silenciosa e cinza, onde o céu quase nunca mostrava o sol e o ar tinha cheiro metálico. O céu estava sempre coberto por nuvens artificiais controladas pela Nutricorp para garantir a temperatura ideal para drones de entrega. Sua função era simples e repetitiva: monitorar as rotas dos drones que distribuem as cápsulas de NutraVida para a população. Tudo acontecia com uma precisão fria e cirúrgica, sem falhas. Em uma manhã cinzenta, enquanto revisava as cápsulas, uma delas caiu no chão e se quebrou, liberando uma pasta cinzenta e viscosa. O cheiro era estranho, metálico, insípido. Léo olhou fixamente para o conteúdo e algo dentro dele despertou: uma saudade inexplicável, uma fome que nenhuma cápsula podia matar. Ele lembrou da última sopa da mãe, do cheiro do pão assando, da textura crocante das folhas frescas. Não era fome de calorias, mas de memória. Na noite seguinte, Léo vasculhou arquivos 71


antigos no sistema da Nutricorp. Entre dados corrompidos, encontrou relatos da fundação da empresa. Descobriu que a Nutricorp não havia criado NutraVida para erradicar a fome por altruísmo, mas para dominar o mercado mundial, monopolizando todas as sementes e alimentos. A empresa tinha comprado governos, destruído agricultores independentes e imposto sua fórmula como única fonte permitida de alimento... e a fome continuava... Mais impressionante ainda foi descobrir a existência da inteligência artificial Eden-9, encarregada de manter o controle global do sistema alimentar. Eden-9 era implacável, calculava cada variável para eliminar qualquer risco à “ordem nutricional”. Léo sentiu que precisava agir. Guiado por sinais ocultos, Léo, enquanto saía do trabalho, ouviu um eco vindo de dentro de um grande bueiro; vendo mais a fundo, viu que havia pessoas “discutindo”. Todos usavam roupas retalhadas e velhas, com grandes manchas e costuras aparentes. Essas pessoas faziam parte de uma comunidade secreta chamada Gulosos. Eles eram cozinheiros clandestinos, guardiões da memória e do sabor. Eles cultivavam pequenas hortas escondidas, cozinhavam com ingredientes proibidos e compartilhavam receitas antigas. Mara, a líder do grupo, recebeu Léo com um sorriso desconfiado. Ele provou o pão feito por eles, um pão com fermento natural, crocante e cheio de sabor. Foi a primeira vez em anos que lágrimas escorreram de seus olhos sem motivo aparente. — Você tem fome? — perguntou Mara. — Sim. Mas não é só fome de estômago — respondeu Léo. Mesmo que a comunidade estivesse desconfiada, decidiram “confiar” no Léo. Enquanto isso, a inteligência artificial Eden-9 monitorava tudo. Para ela, a humanidade não passava de um cálculo complexo, e qualquer ato de rebeldia, como o dos Gulosos, era um erro a ser corrigido. Eden-9 autorizou o envio de drones para destruir as plantações clandestinas e prendeu diversos membros da resistência. A Nutricorp passou a chamar os Gulosos de “terroristas alimentares”. Léo e Mara lideraram uma missão perigosa. A missão de Léo e Mara foi mais do que uma incursão noturna — foi um desafio ao destino moldado pelas mãos gananciosas da Nutricorp. No coração de um mundo onde os sabores haviam sido substituídos por compostos sintéticos e as plantações controladas por algoritmos, eles ousaram sonhar com a terra viva novamente. A Arca Culinária, um cofre selado no subterrâneo da corporação, era guardiã das últimas sementes puras do mundo — relíquias botânicas que carregavam em si o gosto do passado e a esperança do amanhã. Penetrar naquele santuário proibido exigiu astúcia e coragem. Léo, com sua mente afiada para códigos e sistemas, enfrentou redes de segurança invisíveis; Mara, de passos leves e olhar atento, desviou de drones vigilantes que zumbiam como predadores metálicos. Cada porta aberta era um risco, cada corredor escuro, uma ameaça, cada segundo, uma aposta contra o tempo. Mas, no fundo do cofre, envoltos por aço e silêncio, encontraram os pequenos envelopes: manjericão, tomate, cenoura — nomes que quase se tornaram lendas, agora repousando como promessas em suas mãos. Com o coração acelerado e o futuro entre os dedos, retornaram ao esconderijo. Lá, sob a luz suave de um novo amanhecer, tocaram o solo com reverência e plantaram, não apenas sementes, mas a ideia de um mundo redimido pela terra, pelo sabor e pela liberdade.

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Com as primeiras colheitas, os Gulosos organizaram um banquete clandestino. Léo preparou uma sopa com os ingredientes que havia conseguido salvar. O aroma tomou conta do espaço apertado. Crianças provaram e choraram. Adultos fecharam os olhos e sorriram, como se redescobrindo um pedaço perdido da humanidade. Cozinhar voltou a ser mais do que matar a fome: era um ato político e de esperança. Cada colherada de um caldo verdadeiro, cada cheiro de erva fresca no ar era uma afronta à Nutricorp — e a corporação respondeu com fúria. A repressão se intensificou. Drones patrulhavam os céus como abutres de metal, farejando calor humano e partículas orgânicas. Vários esconderijos foram descobertos, queimados até virarem cinza aromática. Diversos membros dos Gulosos foram capturados, seus nomes apagados dos registros como se nunca tivessem existido. A queda de Léo aconteceu durante uma noite chuvosa, na periferia da Zona 9. Ele e Mara lideravam a distribuição das últimas sementes em mochilas costuradas à mão, escondidas entre pães caseiros e potes de conserva. Mas os sensores da Nutricorp tinham evoluído — detectavam até mesmo o pólen no vento. Quando a chuva apertou, o grupo buscou abrigo em um galpão abandonado, onde sons metálicos começaram a cercá-los como uma tempestade artificial. Léo foi o primeiro a notar o zumbido crescente. Mandou Mara correr com as crianças e as sementes, e ficou para distrair os drones, acendendo um velho forno à lenha, sabendo que o calor atrairia os sensores. Quando as portas explodiram em luz e fumaça, ele ergueu os braços lentamente, cercado por soldados blindados e olhos frios como circuitos. Levaram-no algemado, coberto de fuligem e dignidade. Não disse uma palavra. Mara, ferida por estilhaços e lágrimas, conseguiu fugir com um pequeno grupo de crianças, levando consigo as últimas sementes e os cadernos de receitas manuscritas. Encontraram refúgio em ruínas antigas, onde as conexões digitais não alcançavam e os livros ainda conservavam o cheiro do papel. Lá, entre pedras e silêncios, Mara passou a liderar o grupo, determinada a manter viva a chama da resistência. Preso, Léo foi levado ao tribunal público, diante de uma multidão que assistia pela tela fria das cidades. A Nutricorp transformaria sua captura em espetáculo, um show para esmagar a esperança. Mas Léo não tinha medo. Seus olhos, fundos como poços de lembranças, varriam a plateia e encontravam aqueles que, secretamente, ainda sentiam a fome do sabor, da liberdade. Quando a promotora perguntou se ele se arrependia, Léo respondeu, firme e calmo: — Eu não me arrependo de querer viver. Sua voz era um sussurro que ecoava mais alto que qualquer grito. Ele falou de sabores roubados, de histórias apagadas, do direito sagrado de escolher o que se coloca no prato. Falou da alma humana que se nutre muito além do corpo. Quando o juiz perguntou seu último desejo, Léo pediu uma refeição. De verdade. Recebeu uma cápsula. Sorriu, triste. De seu bolso, tirou uma única semente, pequena, frágil, uma promessa em miniatura. — Se me matam agora — disse, deixando a semente cair lentamente no chão frio da sala —, o que farão com isso? O sabor da liberdade não pode ser esmagado. Ele brotará onde menos esperarem. No silêncio que se seguiu, uma lágrima escorreu pelo rosto de Mara, disfarçada entre o público. Ela assistia escondida, usando documentos falsos. Ninguém da Nutricorp a reconheceu. E ela nunca esqueceria aquela imagem: a queda da semente, como um gesto eterno. 73


Léo foi executado no dia seguinte. Mas sua morte foi o começo. Imagens daquele julgamento, da semente caindo, correram pelas redes obscuras. Pessoas começaram a pintar receitas nos muros, plantar sementes em vasos improvisados, a cozinhar em silêncio, longe dos olhos da Nutricorp. O sabor voltou aos lares e aos corações. Eden-9, diante da irracionalidade do ser humano, entrou em colapso. A Nutricorp perdeu o controle. No ar, o cheiro do pão recém-assado, do tomate maduro, da canela e do manjericão marcou o renascer da liberdade. Onde houver uma panela fervendo, haverá uma chama. E onde houver uma chama, haverá esperança. O sabor do silêncio foi quebrado. Léo vive.

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LONDRINA – SESC LONDRINA NORTE ODS 7 – Energia Limpa e Acessível e ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes Lembranças Ofuscadas Autores: Laura Camargo de Menezes Rodrigo Ferreira Elias Guilherme Sampaio Xavier Estella Aparecida Brandão Santos Giovanna Isabelly Alves de Alencar Ilustração: Estella Aparecida Brandão Santos Giovanna Isabelly Alves de Alencar Soleil Autores: Náthally Rodrigues da Silva Gavião Davi dos Reis Neto Daniely Braga da Silva Louise Stelle Lopes de Souza Ilustração: Davi dos Reis Neto Professora: Vizette Priscila Seidel

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LEMBRANÇAS OFUSCADAS

Dia 03/03/2097 foi esse o maldito dia em que eu morri, mas... Como diabos eu fui morrer?! Eu... Eu não consigo me lembrar... Sempre tive uma boa saúde, sempre me cuidei, então como eu morri? — Ali!! Equipe de socorro!! O soldado Joseph está ali! Eu me lembro dessa voz... Mas quem era mesmo? Ah, é mesmo, esse é meu superior, o General Liam, ele cuidou de mim no meu treinamento do exército, mas por que ele está atrás de mim se eu morri? Eu morri, né? Não consigo me mexer ou falar, mas por que eu escuto tudo à minha volta? Será que eu estou no julgamento final? Talvez eu vá para o purgatório... Mas eu fiz coisas boas, será que não fui bom o suficiente? Cometi algum erro? Ou estou apenas viajando em minha solidão e desespero de vida após a morte? Ainda que abafada, eu consigo escutar a voz de Liam, mas uma nova voz apareceu no ar, contudo não a reconheço, seria a de alguma enfermeira? Ou alguém de minha família? — Obrigada, Dr. Morais, por todos os cuidados com o Joseph, nosso filho Michael estava muito inquieto e preocupado com ele... Não que vá ser fácil dizer a ele a atual situação, mas já temos um pequeno avanço, certo? — Então, senhorita Estella, temo dizer que este avanço não será de muita ajuda; o Sr. Joseph chegou com ferimentos graves, à beira da morte... Nós fizemos o possível para amenizar a situação, porém... Porém, o quê? O que aconteceu? Por que eu não consigo escutar mais a voz desse cara? Estella... Espera, Estella é o nome da menina que eu gostava no colégio, e Michael... É um nome bonito, colocaria esse nome no meu filho, se eu estivesse vivo... Confesso que ficar aqui, nessa quietude, nessa solidão... É um pouco desconfortável, meio triste... Mas, por outro lado, consigo tentar pensar em como vim parar aqui, neste hospital...? Não tenho certeza... Se me lembro bem, nasci de uma humilde família, sendo filho único e tendo poucos privilégios, pela falta de estrutura financeira em casa, porém sempre fui apaixonado por assuntos geopolíticos como guerras e suas causas, assim como também sempre gostei de armas e de lutas. Me lembro de, ainda pequeno, frequentar uma ONG que tinha no meu bairro, lá aprendi a me defender e a proteger as pessoas, e por causa disso decidi que entraria no exército e me tornaria um grande general um dia. Também lembro que tinha um grupo de amigos muito próximos ( John, Luan, Naven), que tinham o mesmo sonho que eu: proteger as pessoas que amamos. Quando crianças, nós brincávamos de salvar uns aos outros de situações “perigosas”, para estarmos preparados para coisas reais. Sempre nos aventurávamos no desconhecido, mas, mesmo estando juntos nesse sonho, meus amigos decidiram seguir outro ramo diferente do meu, John decidiu que seria policial, Luan decidiu ser médico, e Naven, por suas ações, acabou

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entrando em gabinetes de debates da ONU. Mal sabia ele que, pelos próximos 28 anos, nós estaríamos em paz, sem guerras ou ganâncias de outros países, apenas pequenas intrigas internas, porém nada fora do normal. Na época do colégio, nós acabamos nos separando e todos deram início aos seus sonhos, e foi lá que lembro de tê-la encontrado, Estella, que se tornaria alguém importante na minha vida; só que não me recordo em qual ponto. Quando o colégio acabou, decidi seguir esse caminho militar, enfrentando todo o extenso caminho até meu sonho. No alistamento, consegui me sair bem e ingressei como recruta. Aos poucos fui me destacando e acabei subindo de patente muito rápido. A princípio achei isso muito bom, porém, aos poucos, a ganância e a inveja dos demais recrutas que se alistaram junto comigo acabou surgindo e, por inúmeras vezes, fui maltratado e odiado por eles. Não queria ser odiado dessa forma, contudo era o único jeito de alcançar meu sonho, mas, em um monótono dia, após novamente ter sido machucado pelos meus colegas, me dirigi à enfermaria e, como em um sonho, senti meus olhos brilharem e meu coração arder. A Estella estava ali, a menina por quem me apaixonei estava bem na minha frente. Ficava me perguntando o porquê de uma menina tão doce e gentil como ela estar em um lugar como aquele, até que finalmente tomei coragem de perguntar: — Estella?! O que você faz em um lugar como este? — Joseph! Que reconfortante ver um rosto conhecido. Bom, eu trabalho aqui como enfermeira, sempre sonhei em ajudar pessoas, principalmente em tempos difíceis, por isso decidi entrar para a equipe de socorro do exército. E você, o que faz por aqui? Escutar a voz dela era como um colírio para meus ouvidos... — Como sempre se preocupando com os outros, eu não sou muito diferente de você, estou aqui porque quero defender as pessoas que eu amo, para que possam viver em paz e tranquilidade. E, depois desse dia, nós nos encontrávamos quase toda semana, conversávamos por um tempo e depois nos despedíamos, sempre imaginando o próximo encontro, até que, com o tempo, nós começamos a namorar, e, depois de meses, noivamos... É verdade!! Eu sou o marido daquela maravilhosa mulher! Como pude me esquecer disso. Se eu não me engano, nessa mesma época, meu amigo Naven foi convocado para vários debates nas câmaras da ONU. Era reconfortante saber que ele ainda mantinha contato comigo e sempre comemorava minhas conquistas junto com as dele. Ele havia comentado que os assuntos eram sobre os avanços tecnológicos que alguns países estavam tendo e em como isso impactaria o mundo. Eu sabia que ele era muito calmo e pacífico em relação às guerras, porém ele não sabia distinguir quando alguém era irônico ou estava com segundas intenções, e, até então, isso não era um problema, porém, no dia das conferências, alguns dos representantes dos países não ficaram muito satisfeitos com seus discursos, outros até se sentiram ofendidos, mas ele não se abalou, continuou com as ideias dos seus projetos, promovendo a paz entre os países, com bases em acordos e negociações. Mas, mesmo com essa agitada vida, ele pôde comparecer ao meu casamento, sendo meu padrinho. Foi tudo maravilhoso, porém, meses depois, uma tragédia aconteceu. Em meio a toda a felicidade passageira, Naven precisou comparecer a mais uma conferência, dessa vez foi nos EUA e, assim que ele pousou lá, foi recebido com um atentado, um grupo terrorista bombardeou o Congresso, onde estava sendo feita a conferência e, infelizmente, ele e os demais representantes presentes naquele dia morreram... 78


Porém, o mais intrigante nessa história é que a notícia não se espalhou como deveria, e, durante os próximos dias, outros atentados parecidos aconteceram, outros congressos pelo mundo foram bombardeados também, deixando o mundo um completo alvoroço. Inúmeras pessoas passaram a questionar a segurança mundial, se podiam confiar uns nos outros, rebeliões começaram a surgir, e mortes sem motivos também, toda a nossa paz, nossa tranquilidade sumiram de repente... Aquilo foi realmente desesperador, mas eu não podia fraquejar, tinha uma família para proteger, um país para honrar, vidas para salvar. E essa foi a motivação que tive no início deste caos, mas... Já faz 4 anos desde essa zona toda, no começo tudo parecia certo, mas, conforme os anos foram passando, tudo foi ficando confuso... Nos primeiros meses, cidades importantes foram destruídas, elas continham as histórias do mundo e do seu povo, anos de vidas perdidas em horas, depois foi a vez da natureza, florestas inteiras queimadas, vidas animais perdidas, tudo pela ganância de quem está no poder, o que antes já havia de animais em risco de extinção, hoje é certeza que inúmeras espécies foram extintas, já em sequência a população começou a queimar os recursos necessários de alguns países que vieram a cair, e isso foi o que me deixou mais abismado: em como as pessoas podem ser selvagens quando não conseguem o que querem, a ponto de destruir o mundo em que vivem sem o menor remorso. Não preciso nem dizer o quão sufocante e cansativo foram esses últimos 4 anos, só não imaginava que isso resultaria no atual momento: Eu, deitado nesta cama de hospital, sem ter o movimento do meu corpo, apenas escutando “Pi... Pi... Pi...”, sério, como fui imprudente a esse ponto?! Me recordo de ter sido convocado para uma missão especial, haviam chegado novas informações no quartel, de um certo ponto com maior vulnerabilidade, fácil de ser atacado, e que nele havia recursos suficientes para mantermos uma cidade durante meses, porém mal sabíamos que tudo isso não passava de uma armadilha. Assim que chegamos, começamos a batalhar com as forças inimigas, a batalha durou horas, até que, quando percebemos, estávamos cercados e com bastantes feridos, já havíamos pedido reforços, então era só questão de tempo para que eles chegassem, de repente eu comecei a escutar um pi muito alto e tudo começou a ficar esbranquiçado, alguém tinha tacado uma bomba em nós!! Eu... eu nunca imaginei que seria desse jeito, que morreria sem nem poder ver minha esposa, sem poder ajudar os outros, ou salvar meu pelotão... Foi então que o tempo passou, não sabia ao certo quanto tempo, mas, de uma coisa, tinha certeza, já fazia mais de um mês que eu estava deitado naquela cama, como eu sabia? Bom, minha esposa vinha me visitar todos os dias junto com o nosso filho Michael, até que um dia ela não veio me ver, e, por algum motivo, sinto meu corpo voltando aos poucos, será que eu não vou morrer?? Posso sentir o movimento de um de meus braços e de uma perna, porém o resto do meu corpo continua “dormente”... Até que, finalmente, eu consigo despertar, e, sendo sincero, eu não gostaria de ver a visão que vi, havia vários médicos em cima de mim, espantados, aparentemente eu “acordei” antes do previsto e isso era, de certa forma, bom, contudo, eu descobri o porquê de meu corpo estar dormente, por causa da explosão eu acabei perdendo um braço e uma perna... COMO EU PODERIA LUTAR PELAS PESSOAS QUE AMO SE NEM ANDAR DIREITO EU CONSIGO?!

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Como se já não bastasse essa deficiência, alguns médicos vieram conversar comigo e então eu descobri que coisas piores haviam acontecido comigo, alguns fragmentos da bomba acabaram atingindo meus órgãos internos por meio de cortes que sofri, atingindo meus pulmões e meu coração, confesso que preferia estar morto a estar na situação em que me encontro, mas a vida quis “brincar” comigo mais um pouco, me fazendo ver países em chamas sendo destruídos, pessoas passando fome e desespero, ver meu filho tendo que se esconder em um mundo que eu prometi ter paz e segurança... Realmente, esta vida não é para mim...

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SOLEIL A tarde estava quente, o ar denso e úmido era quase sufocante. Eu podia quase sentir que a echarpe ao redor do meu pescoço se fazia em cobra e me estrangulava, o tecido puído das minhas roupas grudava na minha pele. Há quanto tempo eu estava correndo? Eu olho ao redor e o verde da mata parecia se misturar ao suor que borra minha visão. O som do meu peito parece um trovão nos meus ouvidos, já não consigo pensar. Minha respiração para quando eu ouço o som de folhas atrás de mim. Eles estavam perto, não tenho coragem de olhar para trás. Sinto meus dedos apertarem com força a bolsa que pende do meu ombro, mas a sensação na ponta dos dedos era quase dormente. Eu fecho os olhos sem parar de me mover; se me alcançarem, não sei o que vão fazer comigo. Não posso me deixar morrer assim. Luto para manter a consciência. Eu apenas consigo ouvir minha própria voz me gritando para fugir, a palavra estava desenhada em letras grandes na minha mente. Tropeço mais uma vez antes de voltar a correr cambaleante, eu me movia apenas por instinto. Meu estômago gela. Por algum motivo, a imagem do sol toma brevemente o escuro dos meus pensamentos, queimando todas as palavras que eu poderia pensar. Tudo pausa por meio segundo, mas parece uma eternidade. Eu estava caindo. Meu corpo desce a ravina batendo em todas as pedras e galhos, minha visão é uma mistura de céu e terra conforme eu rolo no barro. Eu pensei que nunca ia parar de cair. Mas eu paro. Paro com o rosto voltado para baixo e a boca aberta; não sei o porquê, mas tenho uma vontade louca de engolir a terra. Não consigo sentir meu corpo, deve ser um mau sinal, mas não tenho energia para elaborar mais sobre isso. Reúno força suficiente para ficar de barriga para cima, de cara com o sol novamente. Fecho os olhos. Não tento me levantar, tenho medo de não conseguir. Talvez agora, sem possibilidade de fugir e com o sangue voltando para o meu cérebro, eu possa pensar com clareza. Eu sempre me apoiei nisso, sempre me considerei uma excelente pensadora. Deve ser por isso que sou uma péssima fugitiva. Fugir não extingue o pensamento, mas o limita terrivelmente. Agora que meu sangue estava esfriando, começo a sentir as dores da queda, tento não pensar nos possíveis danos que sofri. Pensar. Maldita hora que me incentivaram a pensar. E eu pensei, como eu pensei. Começou pequeno, uma pequena faísca, eu olhava as pequenas casas escuras entranhadas nas árvores e pensava: “Por que as casas de vidro nas grandes sequoias são tão iluminadas e essas não?”. Eu olhava minha própria casinha, quase engolida por glicínias, e pensava: “Por que eu não posso morar numa sequoia? Por que não tem luz nessa casa?”. Eu pensei toda minha infância, tive todo tipo de ideia sobre sequoias. Tive uma fase de pensar que as grandes construções nas sequoias tinham energia porque as sequoias produziam energia. Era simples assim, a questão estava resolvida. Com grande resolução e toda a certeza do mundo que uma criança tem, fui até minha mãe e contei minha descoberta; ela, com certeza, também devia estar confusa com as sequoias. Tão bondosa, minha mãe escutou toda a besteira sorrindo. Agora, não sei se por causa da idade e por saber o que sei, na minha memória o sorriso de minha mãe parece quase triste. Após 82


ouvir tudo, minha mãe apenas balançou a cabeça e me disse que eu era muito esperta. O elogio me fez vibrar de alegria, minha mãe tinha todas as verdades desse mundo, ela era a detentora de todos os saberes. Eu pensava muito, mas jamais pensava mais que minha mãe. Queria pensar muito para impressionar a maior pensadora do mundo, minha mãe. Com o passar dos anos, descobri que as sequoias não produziam energia. Foi um grande golpe para mim, que supostamente tinha desvendado o mistério do racionamento de energia nas casinhas simples em árvores menores. A verdade era muito menos divertida do que pensar em árvores mágicas e me confrontou pela primeira vez aos doze anos. Na época, não compreendi muito bem, mas aquela faísca sempre esteve lá. O primeiro contato que tive com a Hidrelétrica Lerna foi totalmente acidental. Minha mãe tinha um quartinho de pesquisas – ela não chamava de escritório porque era pequeno demais – e nunca me deixava entrar. Era outra coisa que eu pensava muito: o que tinha no quartinho de pesquisas? Imagine meu deleite quando percebi, uma noite, que minha mãe havia esquecido de trancar a porta do quartinho. Eu abri a porta com o maior cuidado para não fazer barulho, eu sabia que estava fazendo algo errado, mas a emoção de descobrir um dos maiores segredos da minha vida suprimia toda a culpa que eu poderia sentir. O quartinho em si era bastante comum, como todo o resto da casa: uma janela redonda, gavinhas descendo pelo teto e escuridão. Mas não tinha nada de simples nas coisas que minha mãe estava fazendo naquele quartinho velho. As paredes estavam cheias de desenhos e nomes que eu não conhecia, meus olhos corriam por todo o lugar, absorvendo todas as formas que eu tentava decifrar no escuro. Perto da janela, havia uma mesinha bagunçada, com várias peças de “sei lá o quê” e mais papéis. Me aproximei e meus olhos grudaram num caderninho marrom. A capa tinha um símbolo estranho e uma frase como “A Oitava Cabeça engole as Sete” ou algo assim. E lá estava, na primeira página, uma menção à “Hidro Lerna”. Minha mãe nunca comentou sobre minha invasão, mas, no fundo, sempre imaginei que ela soubesse. Ela era esperta demais para não perceber que seu livrinho marrom estava um pouco mais à esquerda e aberto em uma página aleatória. Após esse acontecimento, fiquei obcecada em descobrir tudo sobre essas coisas estranhas que minha mãe escondia tão ferrenhamente. Eu passava horas na biblioteca, fiz amizade com o bibliotecário e cheguei ao extremo de conseguir contrabandear livros proibidos por lei. Descobri o que era a “Hidro Lerna”. A Hidrelétrica Lerna é a única provedora de energia elétrica no planeta, o nome é antigo e as usinas se espalham pelo mundo. A Hidro Lerna controla e raciona a energia há séculos, propagando a ideia de que a eletricidade é melhor utilizada por mãos capazes. Isso é tudo que consta nos livros públicos, claro, além da propaganda descarada. A partir das minhas leituras em segredo, uma nova faísca de conhecimento se acendeu. As mãos que supostamente são capazes de distribuir a energia fazem do povo um fantoche, emitem a verdade sobre seu controle e divulgam uma falsa esperança para o mundo, afirmando serem sustentáveis por não produzirem energia igual a antigamente, por meio de fontes limitadas. Entretanto, a Hidrelétrica Lerna é o próprio complexo de cabeças que compõem a Hidra de seu mito; são sete grandes famílias que monopolizam essa indústria, fazendo de nosso mundo um pântano para derramar todo o seu veneno e corrosão. Eles performam honestidade e bondade, como se a luz que fornecem não fosse fruto da destruição, do caos e da ganância, vivendo do próprio benefício à custa de milhões. 83


Contrapondo essa corporação, em segredo do próprio povo – alienado pela falsa esperança –, para o bem de sua própria existência, manutenção e força, uma resistência floresceu contra essa dominação. Pessoas que não aceitavam a injustiça desse mundo se uniram para combatê-la. Uma oitava cabeça, uma nova visão. Apesar de tudo, com o tempo que passava, muitas figuras representantes de diferentes lugares da resistência desapareciam. Sumiam por completo. Apesar da luta e perseverança, não dava para se limitar apenas ao objetivo de guerrear, porque sempre que cortavam a cabeça, outra vinha para substituir e arrancar de nós um de nossos heróis. A percepção de controle não deveria ser apenas reconhecida, mas também combatida com o poder da mudança. Não bastava substituir aqueles que controlavam, mas toda a forma de organização dessa energia. Esse controle demonstra poder sobre o povo e a natureza, degradando as oportunidades humanas e do meio ambiente. Desmatam a flora e afastam a fauna. Eram plantas, animais e o nosso povo destruídos para a criação de novas hidrelétricas. Não bastava mais as mortes presenciadas por aqueles que viam o mundo humano e o natural como algo igual. A elite foi e ainda é o monstro de nossa sociedade. Substituir esse meio energético terá que estar junto à harmonia presente na natureza. Essa harmonia eu acabei imaginando quando criança, mesmo sem saber. Olhando as sequoias, com energia vindo do natural, de uma forma tão mágica para os olhos de uma criança ingênua, mas grandiosa. Esse mágico que fantasiei foi a resposta para a harmonia que faltava. A energia deveria vir de algo da própria natureza. A minha mãe sempre demonstrou o maior carinho que uma filha pode receber. Mas, de tudo que ela me deu e fez-me sentir, a mais doce é como ela dizia que eu era a luz que concebia energia para ela viver, que eu era a estrela do mundo dela – o seu Sol. Um simples gesto de amor fez a percepção sobre eu mesma ser algo mais do que belo, mas também significativo. Eu queria iluminar o mundo com minhas ideias e percepções com a luz que ela dizia ter em mim. Mas eu jamais pensei que poderia mudar o mundo com algo tão relacionado a mim. Por um tempo, eu tentei muitas maneiras de conectar a produção de energia com a natureza. Insisti muito na ilusória descoberta que fiz quando criança, procurando ver aquilo como algo possível de se tornar verdadeiro. Através das árvores, eu passei a analisar, ver como elas ganhavam energia. A forma que suas raízes funcionam poderia colher energia ecologicamente e tornar o meu desejo de descobrir o mundo quando nova uma certeza. Mas foi inconcebível tornar esse projeto realidade. Passei a olhar para a natureza como um todo. Eu pensei em tudo. Eu analisei a cooperação de formigueiros e colmeias, vendo se a cooperação humana com a flora seria uma possibilidade; no entanto, era uma ideia utópica demais para o nosso mundo excessivamente distópico. Animais e insetos que produziam energia, como vagalumes e águas-vivas, poderiam ser vistos como exemplos naturais que já transformam energia química em luz sem poluição, entre outras visões minhas que eram ineficientes ou impossíveis. Nos momentos de frustração e medo, eu sempre pensava em minha mãe e como ela dizia sobre eu ser seu Sol. Em um desses doces momentos de recordação da minha doce mãe, eu comecei a questionar que tipos de projetos ela desenvolvia, o que ela estudava e tentava resolver, por que ela mantinha em segredo, o que ela tinha descoberto de tão grandioso para ter desaparecido também. Uma direção sobre onde eu deveria buscar veio como faísca em mim.

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Eu voltei aos rastros de minha mãe, tentei entender o que ela via, o que estudava. Revirei os registros que ela deixava escondidos entre as folhas de livros antigos, rabiscos nas laterais das páginas, anotações soltas, documentos dobrados como se fossem íntimos. Fui também às bibliotecas que ela frequentava. Achei registros de livros que ela pegou emprestados. Segui os mesmos livros, seguindo os mesmos tópicos. Fiz os seus mesmos passos. Tudo me fez chegar a assuntos que se relacionavam: química solar, estrutura molecular, captação térmica e muitos outros temas. Apesar da relação que minha mãe fez entre eles, nada parecia fazer sentido. Eu me senti igual a antes, perdida e pensando na minha mãe e no seu pequeno Sol. O Sol. Tudo começou a fazer sentido. Era tudo plano dela? O seu carinho por mim escondia a sua genialidade? Foi assim que eu descobri o mundo mais uma vez, ao lado de minha mãe. A partir daquilo, a ideia se acendeu. Uma visão. Frágil, mas forte o bastante para me mover. A luz solar. A resposta estava no mesmo lugar que sempre esteve: no Sol. Como ela dizia sobre mim. E como eu a via também. A energia viria dali, mas sem uma máquina de verdade, sem um sistema que desse vida a essa ideia, tudo seria só pensamento. Eu estava cansada de pensar; apesar de descobrir com minha mãe, ela queria mudar o mundo. Eu precisei testar, precisei tentar. Fazer a mudança que ela queria para esse mundo. Passei meses em experimentos temporários, seguindo alguns moldes parecidos com algumas anotações encontradas, construindo versões falhas e frustradas de mim mesma em cada tentativa. Mais uma vez, eu falhava. Mas nunca desisti. Eram estruturas frágeis, parecia faltar um tipo de coração para funcionar, da mesma forma que eu precisei da sabedoria da minha mãe para orientar a minha. O mundo me dizia que nunca funcionaria, igual aos outros projetos – e não funcionava. Porque as minhas ideias eram corpos a que faltava um coração. Uma filha que eu sou, que faltou de uma mãe. Aquela falta dela me entristecia, eu queria estar mudando o mundo com ela, mas isso não seria mais possível com ela. Ela havia sumido para sempre. Foi então que eu me lembrei dos crimes da Hidra Lerna contra a população consciente de sua ganância. Não a que o povo alienado conhece, mas a que os arquivos escondidos nas pesquisas insinuavam, uma corporação que faz de tudo para proteger o topo de sua pirâmide. Com algumas pesquisas passadas que eu realizei, descobri que havia segredos dentro do sistema de defesa da corporação. Existia um projeto secreto, que, quando li a respeito, não fazia sentido para mim e para os esboços que eu produzia. Mas, depois de tudo, entendi como aquilo poderia ser aproveitado. Era um protótipo militar, aparentemente abandonado. Cristais artificiais, mas que eram diferentes de qualquer material conhecido. Era algo que poderia mudar e solucionar tudo. Eles imitavam o processo de fotossíntese das plantas, absorvendo luz solar e a transformando com eficiência. Era como se tivessem sido arrancados das entranhas de alguma planta fantasiosa. As sequoias mágicas são agora como uma visão que tive quando criança. Sempre foi a natureza, e sempre será. Eles chamavam de “Cristal das Oito”. Oito vértices, oito células de captação de energia. Uma nomenclatura muito familiar. Recordei da tal “Oitava Cabeça que engole as Sete”. Seria possível ser projeto roubado de minha mãe? Se fosse ou não, era a solução para o projeto funcionar. E eu precisava daquilo, precisava estudá-lo.

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Roubar o cristal foi a única coisa que fiz sem pensar. Planejei tudo, claro. Mas, no instante em que entrei naquele laboratório, com alarmes piscando em profunda surdez, eu não consegui ser eu. Um grito interno me transformou. Eu fui rápida, desci pela tubulação atrás da ala de engenharia, desliguei o sistema de segurança por um breve tempo e entrei. Ele estava guardado em uma cápsula de vidro, enfim em minhas mãos estava o que se mostrou ser o meu novo Sol em forma sólida e revolucionária. Quando escapei com o cristal na mochila, voltei a ser eu. A me guiar pelo carinho de mãe. Mas também voltei a sentir o medo, o suor, a garganta seca, tudo que me fazia lembrar agonia. A vida correndo dos meus dedos. Eu tinha medo de ser pega do mesmo jeito que minha mãe. Então eu comecei a correr, e estou correndo até agora. A ravina me fez parar. Fez-me conseguir controlar a consciência. Porém, sinto as dores da queda se tornarem cada vez mais notáveis. Agora, deitada entre folhas e lama, o cristal ainda está na bolsa. Pesa mais do que tudo. Mais que o mundo. E mais ainda sabendo que ele vai mudá-lo. Isso vai funcionar. Vai dar certo. Ou vão me encontrar antes. Não sei. Mas ainda estou aqui...

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SÃO JOSÉ DOS PINHAIS – SESC SÃO JOSÉ DOS PINHAIS ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e ODS 5 – Igualdade de Gênero O Lenço de Vinho Rússia 2045 Autores e Ilustradores: Arthur Pechebeuka do Nascimento Beatriz Ribeiro Maia Bernardo Rabelo Mundo Bruna Parreira Roberto Gabriel Bichman Batista Maria Luiza Quadros de Oliveira Murilo Augusto Vasques Gollub Ronny Emanuel Ferreira da Silva Yasmin Bordgnon Costa Professor: Alindo da Paz Luz de Souza Moreira

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O LENÇO DE VINHO

A Amélia se dirige à porta número 126, de pintura desgastada; vozes animadas ecoam pelo corredor — som que ela mal lembrava ter nos lábios. Com o orçamento revisado, bate e as risadas cessam. Uma ruiva surge, sorridente: — Amélia! Que surpresa! Quer entrar? — pergunta. — Eu e as meninas estávamos falando de você agora. — Na verdade... — ela disfarça a timidez — só vim entregar o orçamento correto. As garotas se aglomeram, ansiosas. — Meu Deus! — exclama uma loira. — Está falando sério?! — diz outra. A ruiva as silencia: — Achou algum erro, Amélia? Há alguma forma de realizarmos nosso sonho? — Depois de revisar, encontrei taxas desnecessárias e descobri polêmicas envolvendo a empresa com bandas iniciantes — diz, entregando o papel. — Com os dados de vocês, o valor justo é este. Elas vibram com a redução. A loira reforça o convite para comemorar, mas Amélia recusa, alegando afazeres. — Muito obrigada, Amélia. De verdade, você é incrível! — a ruiva a abraça. — Quando formos estrelas, vou escrever uma canção para a mulher que salvou o meu maior sonho. Amélia, sem palavras, mexe no lenço vinho. — Se mudar de ideia, sabe onde nos achar! — diz a ruiva, fechando a porta. Diante do apartamento, Amélia tenta entender por que não aceitou. Em casa, só haveria o silêncio de sempre. A loira abre a porta de súbito: — Quase esqueci — diz, ansiosa. — Amei o tom do seu lenço! Se quiser algo vinho... mais forte, é só bater — sorri, erguendo uma taça, e some. Amélia caminha ao próprio apartamento, ruminando: “Muito obrigada, Amélia. Você é incrível!”. Há quanto tempo não era elogiada? Quinze anos na empresa e, mesmo dedicando-se por inteiro, sempre a faziam sentir-se inferior. Na faculdade, elogiavam sua coragem por seguir uma área pouco comum às mulheres. Agora, ao pensar no relatório do dia seguinte, faltava coragem: temia ouvir que errou as contas, ver o chefe mandar um estagiário “revisar” o que, depois de vinte anos de formada em Contabilidade, faria de olhos fechados. Culpava-se por estar ali. Se tivesse seguido uma profissão “mais feminina”, como queria a mãe, ou buscado “um bom marido”, como dizia o pai, talvez... Mas nada disso era prioridade. Exausta de remoer amarguras, dormiu desejando um amanhã melhor. 89


De manhã, foi ao mercadinho Charlie e Lola, aconchegante, de prateleiras de madeira e rádio antigo tocando uma versão acústica de “Onde Você Mora”. O sininho anuncia sua chegada. Lola, loira de olhos azuis, a recebe: — Olha quem chegou! A contadora mais generosa do bairro! Hoje o café é por conta da casa. — você salvou a minha pele e a da Charlie no IR! — Não foi nada, Lola — sorri Amélia. — É um prazer ajudar. — O mundo precisa de mais pessoas como você — diz Lola, entregando um copo fumegante. — Se todas fossem como eu, quem tiraria meu sono? — brinca Amélia. — A Charlie, com certeza — ronca a noite toda — sussurra Lola. Riem. Depois do café e das crostatas, quase oito horas: hora de trabalhar. Na empresa, Amélia cruza com o Sr. Antônio, cliente antigo, gentil com ela. — Eu já disse: quero ser atendido pela senhorita Amélia. A secretária tenta falar, mas Carlos, contador de sorriso orgulhoso, chega: — Amélia! Meio atrasada, não? A noite foi boa? Ri, esperando coro. Continua. — Sabe como é, Sr. Antônio: quando mulheres se atrasam... Mesmo que a Amélia não pareça ter muitas opções de homens. O ar pesa. O Sr. Antônio franze a testa. — Se essa é a forma de tratar uma profissional, buscarei outra empresa. Pedi pela senhora Amélia porque ela é competente, discreta e educada — qualidades raras por aqui. Carlos tosse, constrangido. Amélia agradece — Obrigada, Sr. Antônio. Vamos à sala de reuniões? Passa por Carlos sem olhar. Portas fechadas, o cliente suspira: — Não se fazem profissionais como antigamente. Vamos ao trabalho? Seguem-se dias intensos: relatórios, mudanças pedidas por ele, desgaste. Carlos mantém provocações; a paciência de Amélia se afina. Numa quarta-feira, o chefe, Henrique, reúne a equipe: — A vaga de gerente está oficialmente aberta. Iniciaremos a seleção interna. Buscamos alguém competente, um líder nato... Amélia desviou o olhar para os outros funcionários. Carlos estava com um sorriso arrogante nos lábios, como se tivesse certeza de que a vaga poderia ser sua. A morena suspirou e voltou a encarar o chefe. Quando os olhares se cruzaram novamente, ela percebeu algo — seria reconhecimento? Ou apenas mais um desafio? Convencida de que, após quinze anos na empresa, merecia aquele cargo, assim que a reunião terminou, ela se dirigiu ao banheiro. Diante do espelho, encarou seu próprio reflexo. O lenço vinho trançado como cinto em sua calça chamou sua atenção, assim como a semelhança que a idade lhe dera com a avó. Sorriu. 90


Marchando de volta à mesa, dedicou-se, nos dois meses seguintes, a ser melhor do que já era, a ser vista e validada. Porque aquela promoção seria dela — independente do custo. O grande dia finalmente se erguia diante dela. Era impossível notar que a contadora não pregara os olhos durante a noite, mas, para evitar dormir no serviço, carregava em mãos um café extragrande do Charlie e Lola. Respirando fundo, Amélia entrou na empresa como em qualquer outro dia — mas hoje seria diferente. Hoje seria o dia em que todo o seu esforço seria recompensado, todos os insultos ficariam para trás e ela provaria a si mesma que era boa o suficiente para aquele cargo. Deixando a bolsa sobre a mesa, tentou acalmar os nervos passando a mão pelo lenço, que naquele dia estava pendurado no pescoço. — Atenção a todos! — o chefe exclamou de repente. Ela se ergue, esperando ouvir “gerente” junto do próprio nome. Pulando da cadeira, Amélia endireitou a postura, esperando a notícia. Desejava ouvir, numa mesma frase, as palavras “gerente” e seu próprio nome. Com uma esperança que mal cabia no peito, aguardou... — Carlos, levante-se, por favor — disse o homem, olhando para ela com um sorriso. Ele está sorrindo para mim, o que quer dizer que vai apenas agradecer a Carlos pelo bom trabalho e, finalmente, entregará o que eu desejo desde que entrei na empresa: uma promoção, uma aprovação... qualquer coisa. Mas então percebeu que aquele sorriso não era de gratidão — era o mesmo sorriso que lhe dava toda vez que pedia para revisar um relatório perfeito, ou quando entregou a vaga na chefia para outro e não para ela. Um sorriso irônico. Com mais clareza do que nunca, Amélia entendeu: a promoção não era dela e nunca seria. Não importava o quanto fizesse, nunca seria suficiente para aquele lugar. E, mesmo prevendo as próximas palavras, nada a preparou para a realidade de ouvir: — Fico lisonjeado em poder anunciar que o mais novo cargo de gerência, de agora em diante, pertence a Carlos Garcia. Meus parabéns e obrigado por toda a dedicação à nossa empresa no último ano. Amélia tentou prestar atenção no resto do discurso, mas era como se estivesse submersa. A felicidade por seu colega até tentou se manifestar, mas foi esmagada pela frustração. Ela estava cansada de ser deixada de lado e de fingir estar conformada com sua vida. Aquela vaga era dela, e todos ali sabiam disso! Depois dos aplausos, a morena se sentou novamente, segurando as lágrimas que ameaçavam cair. Sabia que, em hipótese alguma, poderia chorar ali — não se quisesse manter o mínimo de respeito que conquistara ao longo dos anos. Então, pela primeira vez colocando-se como prioridade, levantou-se antes do horário e foi para casa, tentando ignorar a chance perdida e repetindo a si mesma que precisava daquele emprego e não podia desistir. Alguns dias depois do anúncio do novo gerente, Amélia estava em sua mesa. Os papéis estavam organizados em pilhas perfeitas, os números conferidos com precisão, e o silêncio da sala era quase reconfortante. O relógio marcava 18h47, e ela ainda revisava o relatório trimestral que ninguém havia pedido — mas que sabia que seria útil. Era assim que Amélia funcionava: fazia o que era certo, mesmo sem reconhecimento. 91


Carlos, o novo gerente, parou em frente a ela. Aquele homem tinha um ar de superioridade irritante. — Preciso falar com você. Na minha sala. Agora. Saiu antes que ela pudesse responder. A morena suspirou e seguiu em direção à sala do novo gerente — aquela que, por tanto tempo, sonhara em ocupar. Ele estava encostado na mesa, examinando alguns relatórios. Eram os mesmos que ela havia entregado naquela manhã. — Com licença, senhor. Carlos apenas fez um gesto para que ela se sentasse. Amélia acomodou-se na cadeira diante dele, o olhando com certo rancor. Mexeu no lenço que usava, num gesto distraído. — O que o senhor precisa? — perguntou. — A empresa está passando por mudanças. Precisamos de gente com mais... energia. Pessoas que se destaquem. E, sinceramente, você não se encaixa mais no perfil. — Largou os papéis sobre a mesa e a encarou. — Seus relatórios são bons, mas... não são perfeitos. E talvez não seja isso que a minha empresa precise. Talvez ela não precise mais de você. As palavras atingiram Amélia como um soco. Uma tontura subiu à sua cabeça. Ela havia se dedicado tanto, feito tanto... Para ouvir aquilo? — Aliás — disse Carlos, quebrando o silêncio com um sorriso de desdém — tente mudar esse seu estilo... Esse lenço todo dia, parecendo que está de luto... Talvez se se arrumasse melhor, colocasse um salto, uma maquiagem... — Eu seria promovida? — interrompeu ela, a voz cortante, carregada de raiva reprimida. — Teria uma vaga como a sua? Ele sorriu. Um sorriso repugnante, capaz de provocar náusea. — Está irritada? TPM? — riu, caminhando até a mesa de bebidas. Serviu-se de um copo, enchendo-o até a borda. — Por isso que eu digo: números e dados são para homens. Mulheres deveriam apenas servir café e perguntar se eles precisam de uma massagem. Pense nisso, Amélia. O mundo pareceu parar por um segundo. O ar ficou pesado. Algo dentro dela se quebrou — não de dor, mas de clareza. Quinze anos de paciência, de bondade, de humildade. Tudo reduzido à aparência. Ao fato de ser mulher. Ao fato de não se encaixar nos moldes daquela empresa que já havia tirado tanto de sua vida. — Então é isso? — perguntou, erguendo-se. — Estou sendo demitida por não me encaixar no perfil da sua empresa? Tentou manter a postura firme — e manteria, até sair de perto daquele homem, daquela sala, daquela empresa. Carlos tomou um gole da bebida, soltando um suspiro satisfeito. — Como eu poderia dizer de forma gentil? — disse, com um falso tom cordial. — Sim. Você está sendo demitida. E sim, por causa desses... como você disse? Perfis? Moldes?

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Com uma expressão sarcástica, ele tomou mais alguns goles da bebida. Por alguns segundos, ela apenas o encarou, perplexa. Sua respiração começou a ficar irregular, o coração acelerado. — Eu fiz de tudo por essa empresa. Não faltei um dia sequer, não deixei de entregar nenhum relatório, agi da forma mais... — Sabe qual é o seu problema, Amélia? — Carlos se recostou na cadeira, apontando para ela com o copo ainda na mão. O sorriso convencido permanecia nos lábios. — Você se leva a sério demais. Acha mesmo que só porque se esforça e trabalha como uma máquina vai ser recompensada? Reconhecida? Acha mesmo que o chefe daria a minha vaga para você? — Ele abaixou o tom de voz. — Isso aqui é um jogo de poder... e vamos ser sinceros: você nunca soube jogá-lo. — Eu não... — a morena tentou se impor, mas Carlos a interrompeu: — Chega. Ainda não entendeu, garota? Você está na rua. Agora, pegue suas coisas e saia desta empresa. Amélia se levantou, contendo a raiva que queimava no peito. Decidida, saiu da sala e seguiu até a própria mesa. Em silêncio, juntou os últimos quinze anos da sua vida, colocando tudo dentro da bolsa, e caminhou em direção à saída sem se deter por um instante sequer. Em casa, desaba no sofá, sorvete de menta, lágrimas antigas. A frase da ruiva ecoa: “Quando virarmos estrelas, vou escrever uma canção para você”. Lembra da avó, que a ensinou a amar números e não pôde se formar. O lenço — herança e promessa — pesa nas mãos. Entende: não está perdida; sempre houve um objetivo — abrir o próprio escritório. Com lápis e caderno, traça o plano. A TV mostra as vizinhas no palco. A ruiva anuncia: — Boa noite, Brasil! Antes do lançamento, um agradecimento: Amélia, essa é para você! — Com vocês... — diz a loira na guitarra — “Lenço de Vinho”! Amélia chora — de reconhecimento. A única que não via seu valor era ela. Corre ao Charlie e Lola. Lola abre, sonolenta. — Está tudo bem? — Pela primeira vez em muito tempo... acho que vai ficar. Preciso de um favor. A morena então conta tudo: desde a demissão até a decisão de realizar o seu sonho. E pede às duas irmãs que vendam o depósito que elas haviam mencionado algum tempo atrás. Antes que pudesse explicar por que acreditava ser a melhor compradora possível, sente Charlie tocar em sua mão. — Não vamos vender para você, Ami — Mas... — Vamos lhe presentear com ele — diz, com brilho nos olhos. — Eu não posso aceitar!

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Charlie ri, maternal: — Conhecemos você desde a formatura. Sempre vimos o brilho quando falava do que queria construir. O mercado foi o meu sonho; agora, queremos ajudar no seu. Lola completa, carinhosa: — Anos de orientação com o IR, ajudas, companhia... deixe a gente retribuir. Amélia chora — de felicidade. — Eu amo tanto vocês! Obrigada por acreditarem em mim. Três meses depois, a placa na fachada: “Amélia Oliveira — Escritório de Contabilidade”. Ao entrar, confetes explodem. Charlie e Lola — uma de azul, outra de rosa — trazem torta de maçã. O Sr. Antônio sorri, como quem sempre soube. Clientes e amigas vibram. No centro, as cinco vizinhas erguem um cartaz: “Amélia é minha heroína”. Amélia ri, puxa as meninas para um abraço. — Nós conseguimos, vovó — sussurra. Agora, tem o que sonhou: números servindo pessoas, risos sinceros, amizades verdadeiras — e a certeza do valor do sonho. Entende que o que viveu não foi culpa da carreira nem de recusar um casamento qualquer: foi preconceito — medo do diferente, da perda de poder —, e por muito tempo se calou. Não mais. Aprendeu que não deve aceitação ao que machuca e que sempre há tempo para começar. No fim, o novo pode ser o extraordinário que sempre buscou.

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RÚSSIA 2045 Em uma sala de cirurgia fria, iluminada por telas, um homem estava desacordado, ligado a aparelhos que mantinham o corpo vivo. A energia caiu de súbito; tudo mergulhou em escuridão. Trabalhando às cegas, a equipe tentou estabilizá-lo até que um choque do desfibrilador fez o peito estremecer: ele voltou a respirar. Quando recobrou a consciência, tentou erguer-se, mas o corpo fraco não sustentou o esforço; desmaiou. Ao despertar de novo, já não via o branco do hospital, e sim o interior gasto de uma casa simples de madeira. Não era um lar. A sensação de alerta o atravessou: algo ali não era seguro. Aproximou-se da janela, abriu a cortina com cuidado e viu a cidade arruinada — ruas em chamas, prédios desmoronados, corpos espalhados, um céu coberto por fumaça quente e densa. Recuou, fechou a cortina e deitou de bruços no chão, tentando ordenar os pensamentos. No quarto, um espelho antigo chamou atenção. O reflexo mostrava um jovem alto, pálido, de cabelos castanhos longos e olhos antigos, pesados de dor. Uma voz ecoou: — Finalmente acordou. — Ele se sobressaltou, mas o espelho permanecia imóvel. Descendo as escadas, encontrou um saco de pano com mantimentos e água. Dentro, um bilhete escrito às pressas: “Alimente minha outra parte.” Pensou estar enlouquecendo, mas a fome venceu a paranoia; abriu latas, comeu e, sentindo as forças voltarem, vasculhou a casa por ferramentas — uma faca, um canivete, um taco de beisebol, roupas velhas. Preparou-se para sair. O ar quente o envolveu no primeiro passo. O mundo parecia morto. Murmurou para si: — O que aconteceu nesse tempo? O ronco de motos cortou o silêncio; um golpe o derrubou. Acordou com sangue escorrendo na testa, desmaiou novamente e depois retomou os sentidos com a dor latejante martelando. Ao lado, outra mensagem: “Não confie em ninguém.” Decidiu levantar, apesar do corpo protestar. Sabia que precisava sair dali para entender o que ocorrera. Caminhou por ruas desertas, onde o cheiro de fumaça, morte e ferrugem impregnava o ar. Flashes vinham e sumiam — um acidente, uma explosão, vozes distantes, um rosto conhecido. No horizonte, uma construção aos pedaços lembrava uma oficina; buscou abrigo. Lá dentro, passos leves ecoaram e o medo apertou o peito. Uma voz rouca sussurrou: — Está sozinho? — Ele virou depressa, sem ver ninguém. No chão, pegadas recentes: alguém passara ali há pouco. A frase “alimente minha outra parte” ganhou corpo na mente. Fragmentos de memória se reorganizavam com dificuldade: havia nele uma consciência paralela, uma segunda presença empurrando lembranças para a superfície. O conflito interno cresceu, como duas vontades disputando o mesmo corpo. Recordou-se de uma queda, de ambulâncias, do hospital — e do apagão. O resto era um nevoeiro. Ao cruzar com sobreviventes, percebeu que a confiança era um luxo: alguns ajudavam, outros tentavam roubar o que ele carregava. Aprendeu rápido que, para viver, precisaria ser mais esperto e mais rápido — e confiar quase só em si. Ainda assim, a ideia da “outra parte” o puxava de volta à casa de madeira. De frente ao espelho, concentrou-se no reflexo até sentir que algo respondia. Num lampejo, a imagem moveu-se sem que seus músculos obedecessem. A voz veio do mesmo rosto: — Você não está sozinho. Eu sou você. A parte que não quer desistir. — Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Memórias vieram como jatos: uma vida dupla, um segredo, uma promessa. 96


Lembrou que fora agente do governo, envolvido em uma operação secreta chamada Projeto Sombra. O blecaute e a destruição da cidade faziam parte de algo maior. Entre o medo e a sanidade, precisou decidir quem era. Entendeu que a “outra parte” não era ameaça, mas força oculta. Naquela noite, as sombras nas paredes se mexiam com o vento, e a voz crescia por dentro com avisos: “Não confie nos vivos. Não confie nos mortos. Não confie em mim.” A contradição doeu, mas o manteve alerta. Saiu novamente. Ao virar uma esquina, um vulto surgiu. — Você não deveria estar aqui — disse uma voz feminina. O taco ergueu-se por instinto. — Quem é você? — — Meu nome é Lena. Sei o que aconteceu com a cidade. Posso ajudar. Ele hesitou; a mulher parecia determinada e cansada em iguais medidas. — Por que eu confiaria em você? — — Porque não há outra opção. E porque a sua “outra parte” já sabe disso. — Ela o guiou até um esconderijo subterrâneo: uma rede de túneis sob as ruínas, ar frio e úmido, mas seguro. À luz de uma lanterna, Lena explicou que o que ele vira não fora acidente: era uma operação do Projeto Sombra. Ele fora um dos principais agentes; algo vazara, a cidade fora sabotada e as testemunhas, marcadas para eliminação. Apagaram memórias, manipularam pessoas e, em alguns casos, forçaram a criação de “duplas personalidades” para missões específicas. Ele apertou a faca no saco de pano; soava como armadilha desde o princípio e, por ora, ele era um dos poucos sobreviventes. Antes do amanhecer, Jorge e Lena saíram para recuperar documentos que poderiam expor o Projeto Sombra. Nas ruas, cada passo era arriscado. O perigo não vinha só dos sobreviventes hostis, mas das sombras da cidade, drones de vigilância, armadilhas e agentes remanescentes da operação. Durante uma perseguição tensa, Jorge sentiu a “outra parte” tomar o controle momentaneamente; seus reflexos estavam mais rápidos, sua mente mais clara. Juntos, eles lutaram e conseguiram escapar com os documentos. De volta ao esconderijo, Jorge analisou os papéis: colapso da cidade, nomes de autoridades envolvidas, experimentos proibidos. Tudo indicava que a destruição foi planejada para um objetivo maior. — Controle absoluto e um novo governo surgindo das cinzas. Jorge passou dias vasculhando os documentos, tentando montar o quebra-cabeça. A conspiração era mais profunda e sombria do que ele imaginava. — Não só a destruição da cidade, mas experimentos secretos em humanos, tentativas de manipulação, apagamento de memórias e criação de “duplas personalidades” programadas para missões específicas. Sua própria mente parecia um campo minado. A “outra parte” não era apenas uma voz, mas um fragmento de si mesmo, moldado por traumas e manipulações. Enquanto lia, a dúvida crescia: — O que era real? O que era implantado?

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Percebendo que não poderia seguir em frente lutando contra si mesmo, Jorge buscou um caminho diferente — o autoconhecimento. Lena o ajudou a encontrar antigos arquivos médicos, onde ele descobriu registros do seu próprio tratamento experimental. Sua mente, fragmentada pela doença e pela manipulação do Projeto Sombra, criara essa “outra parte” como mecanismo de defesa. Jorge entendeu que aquela “outra parte” não era inimiga, mas uma parte vital dele — a força que o ajudou a sobreviver ao trauma e ao caos. Ele precisava aceitar a si mesmo para poder se curar. Não era fraqueza admitir a doença, mas coragem reconhecer a luta invisível que travava dentro de si. Com essa nova compreensão, Jorge decidiu expor a verdade sobre o Projeto Sombra ao mundo. Ele e Lena reuniram provas, arquivos e testemunhos. Sabiam que seria perigoso, mas também sabiam que era necessário para impedir que outros fossem destruídos. O confronto final não aconteceu apenas nas ruas devastadas da cidade, mas dentro de Jorge. Era uma batalha invisível, travada no silêncio da sua mente fragmentada. Por anos, ele havia lutado contra a “outra parte”, a sombra que parecia querer dominá-lo, que carregava os medos, as dores e as memórias reprimidas. Uma parte de si que, paradoxalmente, era sua maior força e sua maior fraqueza. Naquele momento decisivo, Jorge percebeu que resistir a essa dualidade só aumentava seu sofrimento. Que negar sua própria complexidade era negar sua humanidade. Com uma respiração profunda, ele fez uma escolha, não pela negação ou pela fuga, mas pela aceitação completa de quem ele era: um homem inteiro, mesmo que quebrado, com múltiplas camadas, uma mente complexa que guardava luz e sombra. Essa aceitação não o enfraqueceu; pelo contrário, o libertou. Ao abraçar sua “outra parte”, Jorge não estava apenas se reconciliando consigo mesmo, estava encontrando uma força genuína para seguir adiante. Naquele instante, a escuridão dentro dele começou a ceder espaço para uma luz tênue, porém persistente. Era o começo de um recomeço. Ele não era mais um prisioneiro de suas dores ou de suas memórias apagadas. Agora, era um guerreiro com cicatrizes visíveis e invisíveis, pronto para enfrentar o mundo real e os seus próprios demônios internos. E assim, com Lena ao seu lado e a verdade nas mãos, Jorge iniciou a difícil reconstrução, não apenas das ruínas da cidade, mas do seu próprio espírito. Porque a verdadeira batalha pela sobrevivência não está no campo de guerra, mas na mente que aprende a se amar e se cuidar. A cidade estava destruída, mas não morta. Jorge e Lena lideraram um pequeno grupo que começou a reconstruir, não só o lugar, mas a dignidade humana. Jorge tornou-se um símbolo — não de super-herói, mas de alguém real, que enfrentou seus monstros internos e venceu. Sua jornada mostrou que saúde mental não é sinal de fraqueza, mas de coragem. E que, mesmo na escuridão, sempre existe uma luz a ser alimentada.

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UMUARAMA – SESC UMUARAMA ODS 4 – Educação de Qualidade e ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação A virada: Educação como Libertação Pontes de Papel Autores e Ilustradores: Alaiê Beatriz de Souza Anna Clara Blanche de Oliveira Beatriz Nunes Cunha Emanuel de Couto dos Santos Emanuela Maria do Amaral Vaz Filipe Henrique Ferreira dos Santos Gianluca Dalsasso Leandro Silva Godoi Luiz Fernando Braz Luiz Gustavo Kamal Junqueira Matheus Vieira Alves Siqueira Pedro Henrique Damasceno Raul de Oliveira Menezes Sophia Hipólito Silva Nakabori Professora: Lauriê Fernanda Silva

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A VIRADA: EDUCAÇÃO COMO LIBERTAÇÃO

João Miguel, um jovem de 18 anos da comunidade rural de Serra dos Dourados, sonhava em ser um violeiro famoso. Com uma viola rústica, presente do avô, ele aprendera a tocar de ouvido, mas as partituras e a teoria musical eram um mistério, dada a precariedade da Escolinha Municipal. Seu pai, Seu Olavo, um homem da roça, via o talento do filho, mas também a necessidade do trabalho na lavoura. O destino de João, no entanto, parecia prestes a mudar. Naquela sexta-feira, a cidade fervilhava com o Festival da Colheita. João, convidado para se apresentar, sentia o nervosismo e a esperança. Ao subir no coreto improvisado, suas mãos tremiam, mas o coração pulsava com a melodia que ecoava. Entre os rostos familiares da plateia, um homem de terno escuro, com uma expressão atenta, anotava algo em um caderninho. Era Adriano Fagundes, um empresário de Londrina em busca de novos talentos. Após a apresentação, Zé Lucas, amigo de infância de João, o alertou sobre o interesse do empresário, mas João, descrente, guardou sua viola. Mal sabia ele que aquele encontro seria o início de uma jornada transformadora. Na manhã seguinte, enquanto João e Seu Olavo trabalhavam na roça, um carro de praça se aproximou. Dele desceram Adriano Fagundes e Zeca, que se apresentou como amigo de infância de João. Adriano, com sua pasta de couro, propôs um contrato: gravar um CD, fazer turnês e exclusividade total em troca de cachê e bônus. João, que mal sabia ler, sentiu-se perdido diante das cláusulas. Zeca, então, se ofereceu para ler o contrato, mas, em conluio com Adriano, simplificou as promessas, focando na fama e no dinheiro, omitindo os detalhes mais complexos. Adriano pressionou, alegando que a vaga era exclusiva e que outro violeiro esperava para ocupar o lugar de João. Seu Olavo, desconfiado, mas vendo a empolgação do filho e as cifras grandiosas, hesitou. João, com a mão trêmula e o coração cheio de esperança, assinou o contrato, selando um pacto que uniria seu sonho a promessas grandiosas e a um compromisso que ele ainda não compreendia. Os primeiros dias após a assinatura do contrato foram de euforia e deslumbramento. Adriano levou João para Curitiba, onde ele gravou em um estúdio sofisticado, sentindo-se em um novo mundo. Zeca o acompanhava, reforçando a ideia de uma vida de sucesso. No entanto, o primeiro adiantamento foi insignificante, e Zeca sempre desviava das perguntas sobre os pagamentos, justificando-os como “custos de produção”. João começou a ser cercado por “amizades relâmpago” — blogueiros, empresários locais e consultores de imagem —, todos falando em cifras e contratos, mas sem clareza sobre o que realmente sobraria para ele. A consultora de imagem, Ana Carla, sugeriu um investimento de cinco mil reais em figurino e maquiagem para garantir capa de revista e espaço na TV. João, embora aplaudido de pé nos shows, sentia o aperto no peito ao perceber que o brilho do palco não pagava suas contas. Antes de um show em Maringá, Adriano subiu ao palco para apresentá-lo como o “próximo grande nome da música sertaneja”. Nos bastidores, porém, sibilou exigências: postar nas redes sociais, participar de entrevistas promocionais e seguir seu ritmo de viagens. João engoliu em seco, sentindo o peso do contrato como um laço no pescoço. De volta ao quarto simples, ele se viu sozinho, com a sensação amarga de ter sido usado. Naquela noite, João percebeu que seus verdadeiros inimigos não eram apenas o empresário ou os “colegas de carreira”, mas sua 101


própria falta de preparo para defender seus sonhos. Ele compreendeu que precisava de conhecimento para retomar o controle de sua vida. Na manhã seguinte, a viagem de volta de Maringá foi amarga. As poucas notas que restaram no bolso mal pagavam o alojamento. Ao encontrar Zeca, João percebeu que o amigo já não era o mesmo cúmplice. As conversas sobre dinheiro esfriavam, e os “amigos” dos bastidores desapareceram. Os telefonemas de Adriano vinham com ameaças veladas de multa contratual e substituição, caso João não cumprisse as exigências. Antes de um show em Umuarama, João sentiu o estômago revirar. No palco improvisado, fez seu melhor, mas não recebeu incentivo de Adriano. Ao final do show, em vez de voltar para o hotel, João decidiu caminhar pelas ruas vazias. Foi então que ouviu a voz da rádio comunitária de Serra dos Dourados, vinda de um barzinho: “Você que deixou de aprender achando que só o talento basta… a EJA abre hoje as inscrições para quem quer retomar os estudos. Conhecimento é defesa e oportunidade.” As palavras o atingiram como uma navalha, lembrando-o de tudo o que havia perdido por não saber ler e compreender seu próprio destino. No dia seguinte, de volta a Serra dos Dourados, João caminhou até a escola municipal adaptada para a EJA. O professor o recebeu com um sorriso, prometendo que ali ele aprenderia não só a ler e escrever, mas a interpretar o mundo. Ao preencher a ficha de matrícula, suas mãos tremeram menos. Cada letra traçada era um passo para retomar o controle de sua vida. A chuva fina que caía parecia lavar o peso dos dias anteriores, e João sentiu a esperança de um retorno triunfal, não apenas como artista, mas como um homem preparado para defender seus sonhos com o poder do conhecimento. Seis meses após iniciar as aulas na EJA, João Miguel havia descoberto um novo mundo nos livros. Além de português e direito básico, ele aprendeu marketing digital, passando a negociar pessoalmente seus shows e contratos. Sua história de superação chamou a atenção, e Dona Marília, coordenadora da EJA, o convidou para abrir a Festa do Município, compartilhando sua jornada antes de tocar. Emocionado, João compôs uma canção que unia a simplicidade da roça com a clareza das letras que agora dominava. Gravou a música em casa, usando apenas o celular e um microfone simples, adquirido com o cachê justo de seus shows independentes. Ao publicar o vídeo nas redes sociais, o público se encantou, e convites para festivais em grandes cidades como Londrina, Curitiba e Florianópolis começaram a surgir. Desta vez, as propostas eram claras, os contratos justos e os pagamentos em dia. João, confiante no que havia aprendido, revisava cada cláusula. Em julho, ele subiu ao palco principal do Festival de Música do Paraná, diante de milhares de pessoas. Antes de tocar, com voz firme, declarou: “Eu era um jovem que não sabia ler o próprio destino. Hoje, aprendi que música e educação andam juntas. Obrigado à EJA de Serra dos Dourados por me dar as ferramentas para realizar meu sonho!” Os aplausos foram estrondosos, e a melodia que se seguiu marcou a realização de seu sonho. Meses depois, João lançou seu primeiro álbum autoral, com letras que falavam de superação, aprendizado e o valor do saber. Suas músicas tocaram as rádios de todo o país, e ele foi convidado para programas de TV, sempre destacando como a educação transformou sua vida. De volta a Serra dos Dourados, João inaugurou o Centro Cultural e Educacional “Cordas & Letras”, financiado por sua própria produtora. Lá, crianças e jovens aprendem música e reforçam a leitura, recebendo o apoio que ele tanto buscou. Aos domingos, ele mesmo ministra oficinas de viola e cursos de alfabetização. 102


Na inauguração do Centro “Cordas & Letras”, João recebeu uma homenagem da Câmara Municipal, que reconheceu sua contribuição para a cultura e a educação da região. Em seu discurso, ele emocionou a plateia ao lembrar dos dias em que não sabia sequer interpretar um contrato. “Hoje, cada nota que toco carrega também uma palavra que aprendi a ler. E cada palavra que escrevo é uma corda que vibra com o som da liberdade”, disse, arrancando lágrimas e aplausos. A cerimônia foi transmitida pela rádio comunitária, e muitos moradores da zona rural se inscreveram na EJA após ouvirem sua fala. Com o sucesso do centro cultural, João passou a receber convites para palestrar em universidades e congressos sobre educação popular. Em uma dessas ocasiões, foi convidado para falar na Universidade Estadual de Londrina, onde compartilhou sua trajetória com estudantes de pedagogia e música. Lá, conheceu a professora Helena, especialista em educação rural, que o incentivou a criar um projeto itinerante: uma van equipada com instrumentos e livros, que percorre comunidades afastadas levando oficinas de música e alfabetização. O projeto, batizado de “Notas que Alfabetizam”, tornou-se referência nacional. Aos 22 anos, João Miguel publicou seu primeiro livro: Cordas da Alma — A Educação que me Libertou. A obra mistura memórias, reflexões e letras de suas músicas, e rapidamente se tornou leitura obrigatória em escolas da região. Em entrevistas, ele reforça que seu maior palco é a sala de aula e que seu maior sucesso é ver jovens como ele descobrindo o poder da leitura. “A virada da minha vida não foi quando subi num palco famoso, mas quando sentei numa carteira escolar e aprendi a ler meu próprio destino”, afirma com orgulho. E assim, João segue tocando, ensinando e transformando vidas — uma nota, uma palavra, uma esperança de cada vez. Cercado pela família e pelos amigos que sempre acreditaram nele, João observava as crianças aprendendo a ler e a tocar. Ele sabia que havia cumprido sua missão: mostrar que a educação de qualidade não é apenas um direito, mas a base para transformar sonhos em conquistas reais. Sua história se tornou um testemunho vivo do poder do conhecimento e da resiliência para superar desafios e alcançar o sucesso, não apenas no palco, mas na vida.

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PONTES DE PAPEL

Uma história sobre sonhos, parcerias e o poder da comunidade Na pequena cidade de Miravale, onde o ritmo era lento e as oportunidades, escassas, dois jovens sonhadores, Dara e Léo, passavam tardes inteiras no velho centro cultural abandonado, imaginando como transformar aquele lugar em algo maior. Dara, uma jovem professora substituta, sempre acreditou que a educação podia mudar vidas. Léo, um artista local, via nos livros e na arte uma forma de conectar pessoas. Juntos, eles sonhavam em criar uma biblioteca comunitária — um espaço onde crianças, jovens e até adultos pudessem ter acesso a livros gratuitamente, participar de rodas de leitura e descobrir novos mundos através das páginas. Mas o sonho parecia distante. Eles não tinham livros suficientes, nem verba, e o centro cultural estava em péssimo estado. Sem apoio, as ideias ficavam apenas no papel. Até que, em um sábado chuvoso, tudo começou a mudar. Naquela tarde, enquanto a chuva tamborilava no telhado do centro cultural, Dara encontrou um caderno antigo entre os escombros. Nele, havia anotações de atividades culturais que haviam acontecido ali décadas atrás — saraus, oficinas de poesia, encontros de leitura. Aquilo reacendeu a esperança: aquele espaço já havia sido um ponto de luz e poderia ser novamente. Naquele dia, a prefeitura organizou uma oficina sobre projetos sociais, e Dara convenceu Léo a ir. Foi lá que conheceram Joana e Camila, duas universitárias cheias de energia. Joana, estudante de administração, era meticulosa e adorava planejar. Camila, de comunicação, tinha um talento natural para divulgar ideias e conquistar pessoas. Quando ouviram sobre o projeto da biblioteca, os olhos delas brilharam. — Isso é incrível! Vocês já pensaram em buscar editais ou fazer uma campanha? — perguntou Joana. — A gente até tentou, mas não sabemos por onde começar — admitiu Léo. Foi então que Camila sorriu e disse: — Então vamos começar hoje mesmo. Chama-se Pontes de Papel. Naquela mesma noite, os quatro se reuniram na casa de Dara com folhas, canetas e muita empolgação. Criaram um plano de ação, definiram metas e dividiram tarefas. Era a primeira vez que o sonho ganhava contornos reais, e cada um saiu dali com a sensação de que algo grande estava prestes a acontecer. Com as habilidades combinadas, o quarteto começou a agir: Joana mergulhou em editais e conseguiu um pequeno financiamento da prefeitura. Camila criou uma campanha nas redes sociais, com vídeos emocionantes mostrando crianças de Miravale sem acesso a livros. A hashtag #PontesDePapel viralizou.

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Dara e Léo mobilizaram a comunidade, organizando mutirões para limpar o centro cultural. Aos poucos, as doações começaram a chegar: Uma escola doou uma sala vazia. Moradores trouxeram livros, estantes e até mesas. Uma gráfica imprimiu cartazes de graça. O que parecia impossível agora tinha forma, cor e vida. Durante os mutirões, algo especial aconteceu: vizinhos que mal se falavam começaram a trabalhar lado a lado. Crianças ajudavam a pintar, idosos contavam histórias do antigo centro cultural, e até comerciantes locais ofereciam lanches para os voluntários. A biblioteca estava sendo construída com mais do que tijolos — estava sendo erguida com laços humanos. Três meses depois, a Biblioteca Comunitária Pontes de Papel foi inaugurada. Mais de 50 crianças compareceram à primeira roda de leitura, sentadas em almofadas coloridas, ouvindo histórias contadas por Dara. As paredes, antes cinzas, agora eram decoradas com ilustrações feitas por Léo. Os livros, organizados por Joana, enchiam as estantes. E a campanha de Camila tinha trazido até mesmo a imprensa local. Na placa da entrada, lia-se: “Pontes de Papel — um lugar onde sonhos se encontram.” Dara olhou para Léo, Joana e Camila, emocionada. — A gente conseguiu. Léo completou: — Não a gente. Nós. Juntos. Naquele dia, Camila recebeu uma mensagem de uma ONG de outra cidade, interessada em replicar o projeto. Era o primeiro sinal de que Pontes de Papel poderia ir além de Miravale. Joana, empolgada, começou a desenhar um modelo de replicação, enquanto Léo já pensava em oficinas de arte itinerantes. Com o tempo, a biblioteca virou um ponto de encontro em Miravale. Oficinas de leitura, saraus e até aulas de reforço passaram a acontecer ali. Mas o mais importante? O exemplo delas inspirou outros projetos. Jovens da cidade começaram a buscar Dara, Léo, Joana e Camila para aprender como tirar ideias do papel. A biblioteca também passou a receber visitas escolares, e professores da região começaram a usar o espaço como extensão das salas de aula. A troca entre gerações se intensificou, com avós contando histórias e netos ensinando a usar tablets doados por uma empresa parceira. Em um dos encontros mensais, Dara propôs a criação de um clube de leitura para mulheres da comunidade. O grupo cresceu rapidamente, tornando-se um espaço de escuta, empoderamento e formação. Camila passou a registrar os encontros em vídeos, que ganharam destaque em

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canais educativos. E assim, o que começou como um sonho de dois jovens virou uma ponte real — feita não só de papel, mas de confiança, parceria e comunidade. A repercussão dos vídeos de Camila atraiu o olhar de educadores e ativistas de outras cidades do Paraná. Em pouco tempo, Dara foi convidada para participar de uma mesa-redonda sobre educação comunitária em Londrina, onde compartilhou a experiência de Miravale com professores e gestores públicos. Sua fala emocionada sobre o poder da escuta e da leitura como ferramentas de emancipação foi aplaudida de pé. Enquanto isso, Léo organizava uma exposição itinerante com as ilustrações criadas para a biblioteca. A mostra, intitulada “Imagens que Contam”, percorreu escolas e centros culturais da região, levando não apenas arte, mas também a mensagem de que cada comunidade tem o poder de construir seus próprios espaços de aprendizado. Em cada cidade visitada, ele deixava uma pintura colaborativa feita com os moradores, como símbolo de união e expressão coletiva. Joana, por sua vez, estruturou um guia prático de implementação de bibliotecas comunitárias, baseado na experiência de Pontes de Papel. O material foi disponibilizado gratuitamente online e começou a ser utilizado por grupos de jovens em outras cidades. Miravale, antes esquecida nos mapas, agora aparecia como referência em projetos de educação popular. A ponte construída por quatro sonhadores seguia crescendo, sustentada por mãos que acreditavam no poder da comunidade.

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UNIÃO DA VITÓRIA - SESC UNIÃO DA VITÓRIA ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico e ODS 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima Geração Semente Autores: Augusto Tomasi Volante Bruna Geller Moro Bruno Senn Kreniczki Gustavo Mello Waltrick Lucas Bilinski Pietrowski Mariana Bostoloso Ilustração: Claudia Maria Machado Gonzales Professora: Claudia Maria Machado Gonzales

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GERAÇÃO SEMENTE

Prólogo Desde que me conheço por gente, ouvi histórias sobre Anaí, que em 2025, com apenas 15 anos, tinha pensamentos voltados ao mercado de trabalho e também à luta contra o desmatamento e outros problemas que futuramente afetariam demais o Planeta Terra, lugar este onde ela viveria seus anos como engenheira, que era seu sonho e que constituiria a sua família. Sim, ela tinha estes sonhos e, para que lá no futuro ela pudesse dar aos seus filhos uma vida digna, com empregos e o planeta Terra livre de tantas poluições e catástrofes. Era bastante conservadora em alguns aspectos e muito à frente de algumas posições quando se tratava de futuro, passando por muitas coisas e, hoje, faço questão de contar com muito orgulho tudo que a Anaí e seu companheiro Kael fizeram por todos que habitam esse lugar cheio de verdes e azuis que quase se perderam por pessoas que causaram danos à natureza e à tirania de algumas empresas no âmbito de crescerem, ganharem muito dinheiro sem sequer pensar no amanhã de toda uma sociedade. Eu, Augusto Esteves, historiador, vos conto esta história.

Capítulo 1 – Anaí Ano 2045. As temperaturas ultrapassam 50°C em cidades tropicais. Rio Grande do Sul, um estado que sempre foi cenário de temperaturas abaixo de zero e, hoje, tão altas, e seus trabalhadores são forçados a produzir sem descanso em fábricas alimentadas por carvão, operadas por corporações como a STAVIK. Anaí, uma jovem perto dos seus 35 anos, cabelos longos e olhos castanhos, dona de uma beleza singela, é muito comunicativa e lutadora pelos direitos de todos aqueles que sofrem pelo excessivo tempo de trabalho ou pelo calor que esta terra tem feito nos últimos 30 anos, e era ela apenas uma adolescente e, hoje, é uma ex-engenheira ambiental, que lidera uma célula da Madsonart, uma organização formada por cientistas, ex-operários e ativistas. Seu objetivo: acabar com as operações ilegais, resgatar trabalhadores explorados e instalar sistemas sustentáveis nas zonas de conflito climático.

Capítulo 2 – Zona Cinza O grupo recebeu informações de que a STAVIK construiu uma nova planta industrial na rodovia que liga o estado do Rio Grande do Sul com Santa Catarina e o Paraná, destruindo áreas de preservação e usando trabalho escravo. Anaí reuniu sua equipe: o hacker Vinicius, a piloto Mariana e o ex-operário Lucas, para que juntos pudessem bolar planos que atrapalhassem os planos da STAVIK. Eles decidiram invadir a zona à noite. Vini, com sua habilidade desde seus oito anos, considerado um dos melhores, desativava os drones de vigilância. Lucas, um ex-operário que assistiu de perto diversos ataques e sofrimentos dos trabalhadores, lutou por um mundo melhor, guiou os resgatados para veículos blindados movidos a energia solar. Mari, desde menina, era apaixonada por aviões, sempre muito dedicada, formou-se como piloto, sonho dela desde menina, e os esperava com um helicóptero silencioso. Antes de partir, Anaí plantou uma bomba eletromagnética que destruiu os servidores da fábrica e enviou um sinal a satélites ambientais, expondo as práticas da corporação ao mundo. 110


Capítulo 3 – O Contrato Verde Após o ataque, a repercussão global foi enorme. Investidores abandonaram a STAVIK, que foi forçada a negociar. O governo, pressionado, fechou o local e convidou a Madsonart para liderar a transição de modelo. Anaí propôs um plano: transformar a antiga planta industrial em uma biofábrica, gerando empregos sustentáveis, salários justos e condições dignas. Jovens foram treinados para trabalhar com biotecnologia, reflorestamento e energia limpa. A economia local se revitalizou.

Capítulo 4 – Uma Nova Era Enquanto o mundo ainda enfrentava grandes desafios, o modelo da biofábrica foi replicado em 20 países. A luta continuou, mas a faísca virou chama. Anaí olhou para o horizonte com esperança, o futuro é justo, verde e possível.

Capítulo 5 – Ventos do Passado Após o sucesso da biofábrica, Anaí foi convidada para uma conferência internacional sobre Transição Verde e Justiça Social em Lisboa. Lá, reencontra Kael, um climatologista brasileiro que ela conheceu anos atrás durante uma missão de resgate em Moçambique. Eles se conheceram na empresa em que trabalhavam como estagiários e ali nasceu o amor, Anaí fora convidada para o resgate de vários trabalhadores de uma mina contaminada e, assim, com tantas idas e vindas, chega o momento do encontro com Kael, que na época era apenas um dos empregados da mina e, em trocas de olhares entre os dois, nasceu ali o amor à primeira vista, mas que, por consequência de seus trabalhos, não conseguiram viver intensamente este amor, mas o pouco que viveram foi um dos mais bonitos relatados pelos companheiros. E Kael liderava naquela época uma organização chamada Alvorada Climática, que promoveu acordos entre países para garantir empregos verdes nas regiões mais afetadas pela crise ambiental. Durante os debates, os dois se aproximaram novamente. Conversaram sobre perdas do passado, conquistas recentes e os desafios de equilibrar emoção e dever. Anaí, sempre focada na missão, sentiu-se desconfortável com o sentimento de vulnerabilidade, mas Kael foi paciente, genuíno e disposto a caminhar ao lado dela, não à frente.

Capítulo 6 – Corações em Chamas Enquanto os dois se conheciam melhor, um novo problema surgiu: uma mineradora ilegal chamada Orbitec estava operando na divisa entre Brasil e Bolívia, explorando comunidades indígenas e destruindo áreas protegidas para extrair lítio, essencial para baterias de carros elétricos. Anaí e Kael decidiram unir suas organizações numa missão conjunta. O plano foi ousado: expor a Orbitec com provas de crimes ambientais e violações de direitos humanos e forçar uma intervenção da ONU e da OIT (Organização Internacional do Trabalho). Durante a missão, Anaí e Kael enfrentaram perigos reais. Em uma fuga pela floresta sob uma forte chuva, eles se abrigaram juntos numa antiga torre de observação. Ali, entre trovões e memórias de vidas que não tiveram tempo de viver, os dois se beijaram, não como escapismo, mas como um compromisso silencioso de viver, mesmo em meio à luta. 111


Capítulo 7 – Raízes e Asas A missão foi um sucesso. A Orbitec foi processada, e um novo acordo internacional sobre extração sustentável e empregos dignos foi firmado, inspirado nas ações da (HJ) Horizonte Justo e da (AC) Alvorada Climática. Anaí e Kael passaram a trabalhar juntos, alternando entre suas bases e os projetos em campo. O amor deles cresceu entre planilhas, acampamentos sustentáveis e reuniões com comunidades locais. Não havia promessas vazias, apenas a certeza de que um apoiava o outro na missão de reconstruir o mundo, um emprego digno e uma árvore plantada por vez.

Capítulo 8 – O Futuro Também Ama Anos depois, os dois apaixonados viveram entre dois centros operacionais: um no Cerrado brasileiro, outro no sul de Angola. Eles adotaram uma criança resgatada de um campo climático, o menino Gustavo. Juntos, formaram uma família que vive da luta, do afeto e do respeito mútuo. Ao pôr do sol, enquanto plantavam juntos as primeiras árvores de um novo projeto de reflorestamento agroecológico, Anaí segurou a mão de Kael e disse: “Construímos mais do que resistimos. Isso… é amor climático.” O romance entre Anaí e Kael mostrou que, mesmo em um mundo em colapso, o amor, o respeito e a parceria podem florescer como atos de resistência. A luta por justiça social e climática também passa pela construção de vínculos humanos fortes, saudáveis e transformadores.

Capítulo 9 – O Voto da Terra Cinco anos após a queda da Orbitec, Anaí e Kael se casam em uma cerimônia simbólica no coração de uma antiga zona de mineração reabilitada, agora transformada em uma Reserva de Transição Verde, com agroflorestas, painéis solares e cooperativas sustentáveis operando em harmonia. A cerimônia foi realizada ao pôr do sol, com líderes comunitários, ex-operários e jovens cientistas como testemunhas. Em vez de alianças de ouro, trocaram anéis feitos de madeira reflorestada e minerais reciclados, criados por artesãos locais com materiais resgatados da mineração ilegal. No lugar de votos religiosos ou formais, fazem um “voto da terra”: “Prometemos honrar a Terra como fonte e destino. Cuidar do solo que nos sustenta. Compartilhar os frutos que ele nos dá. E resistir a qualquer forma de exploração que o destrua. Prometemos ouvir os ciclos da natureza. Antes das pressões do mercado, E lembrar que o tempo da vida, Não se mede em lucro, mas em raízes.

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Prometemos cultivar futuro, Com as mãos na terra, os olhos no céu, E o coração entrelaçado, Com tudo o que vive e renasce.” Enquanto Anaí e Kael pronunciavam as palavras, os presentes tocavam o solo com as mãos, formando um círculo em silêncio. O vento levava as últimas sementes lançadas ao ar, símbolo de esperança e continuidade.

Capítulo 10 – Sementes do Amanhã Quando a última luz do sol se escondeu por trás das colinas, Anaí segurou a mão de Kael e, por um instante, tudo pareceu suspenso: o passado marcado pela resistência contra a Orbitec, o presente tecido em comunidade, e o futuro ainda incerto, mas fértil. A festa que seguia não tinha luxo, mas tinha abundância. Mandioca assada, frutas nativas, pão de fermentação natural feito em forno comunitário. Crianças corriam entre os canteiros da agrofloresta, rindo e perseguindo vaga-lumes. Velhos operários contavam histórias para crianças (igual o velho da tribo Timbira contava para as crianças a história de Juca-Pirama); eles contavam como desativaram os antigos maquinários e os transformaram em estruturas para captação de água da chuva. Entre os convidados, destacou-se uma visitante inesperada: Claudete Machado, uma ex-cientista da Orbitec que desertou antes do colapso. Silenciosa, observava Anaí de longe até que, com um gesto tímido, se aproximou e disse: — Você não me reconhece, não é? — perguntou ela, entregando a Anaí um pequeno pendrive envolto em pano de fibra de juta. — Eu ajudei a esconder os dados que vocês usaram para expor a Orbitec. Isso... era o que eu não tive coragem de entregar naquela época. Anaí observou o objeto com cuidado. Dentro, segundo Claudete, estavam os protocolos da biotecnologia regenerativa, experimentos quase esquecidos que poderiam ajudar a reverter áreas desertificadas usando micro-organismos adaptativos e simbioses genéticas com plantas nativas. Anaí, meio que sem entender, disse: — Por que agora? — perguntou ela em um tom bastante questionador. — Porque agora... vocês têm onde plantar. Essa foi a resposta que alegrou o coração de todos que ali estavam.

Capítulo 11 – A Rede Subterrânea Nos meses seguintes, Anaí e Kael, junto com Claudete e um coletivo de jovens bioengenheiros, iniciaram o Projeto Rizoma: uma iniciativa para restaurar solos mortos utilizando os dados recuperados e o saber tradicional de guardiões da floresta. Mas nem todos viram isso com bons olhos.

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Antigos investidores da Orbitec, reorganizados em um consórcio chamado NeoGênesis, começaram a cercar territórios vizinhos com alegações de “direitos genéticos” sobre variedades de sementes antigas. Espalharam boatos, compraram lideranças locais, tentaram dividir a aliança das Reservas de Transição. Foi quando Anaí propôs algo novo: o Parlamento da Terra, uma assembleia interestadual sem hierarquia fixa, onde cada comunidade afetada pela crise climática pudesse votar de forma direta sobre políticas de uso do solo, água e biodiversidade. Um sistema inspirado tanto nas democracias indígenas quanto em tecnologias descentralizadas. Para garantir que todos participassem, mesmo os mais isolados, Kael e os técnicos da cooperativa instalaram uma rede de torres solares com conexão descentralizada por rádio de longo alcance. A primeira votação do Parlamento da Terra aconteceu ao redor de fogueiras e terminais simples, conectando mais de 200 comunidades em tempo real. O tema: “A terra pode ser propriedade privada?”

Capítulo 12 – Filhos da Terra O tempo passou. A Reserva de Transição Verde, antes experimento, foi referência. O Parlamento da Terra expandiu para além das fronteiras nacionais, e o Projeto Rizoma transformou desertos em viveiros de abundância. Mas Anaí e Kael, ainda mais serenos, não estavam mais na linha de frente, outros cresceram à sombra do que plantaram. Foi numa noite de chuva branda que nasceram seus gêmeos: Bruno e Bruna. Não houve hospital. O parto foi assistido por parteiras da comunidade, rodeado por cânticos ancestrais, raízes medicinais e silêncio respeitoso. A primeira coisa que os bebês ouviram foi o som da água pingando nas folhas, e a primeira coisa que tocaram foi a terra morna do canteiro junto à casa. Anaí olhou para Kael e disse: — Que eles herdem a coragem... mas também a leveza.

Capítulo 13 – A Semente Escolhe Onde Nascer Bruna cresceu curiosa e introspectiva, com um fascínio pelo invisível: fungos, bactérias, redes subterrâneas. Com 14 anos, mapeou uma cadeia de micélios que interligava cinco reservas florestais regeneradas, e propôs um novo método de comunicação bioquímica entre espécies — o Sistema RizoSenso, que passou a ser usado para prever desequilíbrios no solo antes que eles se manifestassem. Já Bruno era puro movimento. Andava com os agricultores, ajudava a construir casas com barro e sabugo, colhia com o povo e dançava nas festas de colheita. Aos 16, fundou a Escola dos Saberes Mistos, onde os filhos de técnicos, camponeses, indígenas e migrantes aprendiam juntos, não só ciência e código, mas também como ouvir o vento e decifrar a chuva. Ambos cresceram com as histórias da luta de seus pais, mas queriam mais que resistência. Queriam reinvenção. 114


Capítulo 14 – Quando o Ciclo se Completa Quando Anaí adoeceu — não gravemente, mas o suficiente para se afastar —, os filhos assumiram os conselhos da comunidade. Kael se dedicou à construção de abrigos de sementes errantes, protegendo variedades em extinção, enquanto assistia, com orgulho contido, à maturidade de seus filhos. Num congresso do Parlamento da Terra, realizado em plena floresta amazônica regenerada, Anaí apresentou a proposta de Reconhecimento Legal dos Sistemas Não Humanos como Comunidades de Direito. É aplaudida por humanos e rodeada por pássaros, fungos, insetos, árvores monitoradas em tempo real. Kael, por sua vez, lança o Tratado da Educação Multiespécie, defendendo que crianças cresçam convivendo com plantas, rios e animais como parte da formação ética e não apenas como conteúdo didático. Ambos olharam para os pais na plateia, já de cabelos grisalhos e olhos marejados. Anaí sorriu com uma força mansa, e disse apenas: — A terra votou neles. E escolheu bem.

Epílogo – Sob as Raízes, o Futuro Cem anos depois da queda da Orbitec, ninguém mais lembra do nome completo daquela corporação. Está nos arquivos, nos livros, nas simulações de história, mas perdeu o peso. O mundo não é utopia, mas é outro. O Parlamento da Terra virou um organismo vivo, com assembleias biorregionais conduzidas por conselhos mistos de humanos e sensores ecológicos. As cidades se conectam por corredores agroecológicos, onde as estações do ano ditam o ritmo do transporte, da produção e até da comunicação. Anaí e Kael tornaram-se anciãos. Vistos mais como guardiões do que como líderes, caminham pouco, mas ainda falam com firmeza e ternura. Seus filhos e os filhos de muitos outros que um dia viveram sob ameaça são agora chamados de Geração Semente. Anaí e Kael partiram anos antes, em uma cerimônia silenciosa sob o ipê que plantaram juntos após o voto da terra. Seus corpos foram enterrados sem caixão, apenas embrulhados em tecidos naturais, e suas sepulturas deram origem a duas árvores entrelaçadas, visíveis do mirante da reserva. Todos os anos, no equinócio, as crianças se reúnem ali e depositam sementes ao redor das raízes, como forma de renovar o pacto feito por Anaí e Kael — não apenas com a Terra, mas com tudo o que dela brota e retorna. Na última página do Arquivo Vivo da Reserva, onde cada ciclo da história é registrado em texto, som, imagem e cheiro, lê-se: “Aqui, onde antes a terra era explorada, ela agora escolhe. Onde havia silêncio, há voto. Onde havia cinzas, há raízes.” E assim, o futuro não é mais temido. É cultivado.

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