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Coletânea de Contos Infantis Sesc (2026)

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Catalogação na Fonte: Sesc Paraná - Gerência de Cultura

C694 Coletânea de Sesc de Contos Infantis / Ilustração de Adriano Catenzaro; Curadoria de Álvaro Posselt. –Curitiba: Sesc PR, 2026.

67 p.: il., color.; 20 cm

ISBN 978-65-86651-39-3

1. Contos infantis. 2. Literatura Infantojuvenil. I. Sesc PR. II. Catenzaro, Adriano. III. Posselt, Álvaro. IV. Título

Felipe Nascimento dos Santos– CRB9/1994

CDD – 028.5

A ARTE DA LITERATURA INFANTIL

Há um tipo especial entre os escritores; refiro-me àqueles que se dedicam à literatura infantil. Os autores e autoras de histórias dedicadas aos pequenos leitores possuem características próprias, como sensibilidade artística temperada com uma visão especial do universo onírico e mágico.

A humanidade vem sendo enriquecida pela literatura infantil há milênios. Essa forma especial de arte necessita ser estimulada para que prossiga exercendo sua tarefa pedagógico-literária ao longo dos próximos séculos.

É essencial para o desenvolvimento da criança a sua convivência com histórias que irão lhe revelar mundos fantásticos, despertando a criatividade e expandindo a mente para os desafios que irá enfrentar em sua vida adulta.

Como parte das funções educacionais do Sesc, a Coletânea de Contos Infantis já é tradicional, reunindo obras de qualidade que conquistam leitores desde aqueles em fase de alfabetização até adolescentes.

Nossa missão é gratificante. Nesta Coletânea você, leitor e leitora, vai descobrir por quê.

Boa leitura!

Darci Piana

Presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac Paraná

UMA COLAGEM DE HISTÓRIAS

É com alegria que apresentamos a 11ª edição da Coletânea Sesc de Contos Infantis, uma obra construída a partir do encontro de muitas vozes, imaginações e modos de ver o mundo. Como um grande quadro feito a partir de colagens, esta coletânea reúne histórias vindas de diferentes cantos do Paraná, compondo um mosaico de narrativas que refletem a riqueza criativa de nosso estado.

Cada conto presente nestas páginas traz consigo um universo singular. Juntos, eles formam uma colagem de sonhos, aventuras, memórias, personagens e descobertas, revelando a diversidade de experiências que habitam nossas cidades e comunidades. São histórias que atravessam territórios, aproximam leitores e demonstram como a literatura é capaz de criar pontes entre diferentes realidades.

A cada nova edição, a Coletânea Sesc de Contos Infantis fortalece o compromisso do Sesc Paraná com a formação de leitores e com o incentivo à produção literária. Mais do que reunir textos, este projeto celebra a potência da criação, oferecendo espaço para que autores e autoras compartilhem suas narrativas e contribuam para ampliar o acervo de literatura para as infâncias.

Convidamos você a percorrer estas páginas com curiosidade e encantamento. Que cada história encontrada pelo caminho acrescente uma nova cor a esta grande composição literária e que a leitura desperte perguntas, emoções, sorrisos e novas possibilidades de imaginar.

Boa leitura!

Ulisses Fernando de Moraes Rodrigues

Direção Regional do Sesc Paraná

Autores Selecionados:

Adri Tortato Curitiba

Alice Santana Curitiba

Claudia Kanoni Curitiba

Claudia Zippin Ferri

Dois Vizinhos

Elaine Yanagui Almirante Tamandaré

Felipe Gustavo Trevisan Cascavel

Mia Oliveira Maringá

Mariselma Araújo Cascavel

Rosicler Atoniácomi

Ponta Grossa

Sandra Sebastião Curitiba

A CHAVE MÁGICA DO BAIRRO PORTÃO

Adri Tortato

Pág. 10

A DESCOBERTA DE IBYRÁ

Alice Santana

Pág. 16

ENECÔEMA E O MISTÉRIO DA GRALHA-AZUL

Claudia Kanoni

Pág. 20

AVENTURA NO BONDINHO DA XV

Claudia Zippin Ferri

Pág. 26

CONVITE ESPECIAL

Elaine Yanagui

Pág. 32

DE QUEM É O DEDÃO?

Felipe Gustavo Trevisan

Pág. 36

UMA MENINA GIGANTE

Mia Oliveira

Pág. 42

AURORA E O PEQUENO AMENDOIM

Mariselma Araújo

Pág. 48

OURO VERDE, UM PRESENTE DE TUPÃ

Rosicler Atoniácomi

Pág. 54

TOTH, A MÚMIA

Sandra Sebastião

Pág. 60

A CHAVE MÁGICA DO BAIRRO PORTÃO

Luiza era uma menina de dez anos, mas seu coração batia no ritmo de uma verdadeira exploradora: cheio de energia e curiosidade! Ela tinha duas tias que eram suas melhores companheiras de aventuras: a tia Adriana, que todos chamavam carinhosamente de Nana, e a tia Cassiana, a divertida tia Cassi.

Certo dia, a aventura aconteceu no bairro do Portão. Para Luiza, aquele lugar não era apenas um bairro, era fascinante! Parecia uma grande passagem mágica para o resto do mundo.

“O Portão é um bairro de movimento, Luiza!”, explicou Tia Cassi, enquanto as três se preparavam para sair em uma manhã de céu azulzinho, que brilhava contrastando com o cinza do dia anterior.

“E o que vamos procurar?”, perguntou Luiza, ajeitando seu inseparável casaco de exploradora, pronta para qualquer desafio.

Tia Nana, com um sorriso misterioso, consultava um livro antigo de lendas curitibanas. “Vamos procurar a lendária Chave Mestra do Portão. Diz a lenda que ela abre a porta para o futuro e está escondida em três lugares especiais: um que representa a velocidade, outro, o conhecimento, e o último, o encontro.”

A aventura começou! Andando pelo bairro, o primeiro lugar que Luiza indicou, saltitando, foi a estação-tubo.

Aquela parada de ônibus transparente e cilíndrica parecia, para ela, uma verdadeira nave espacial pronta para decolar!

“Velocidade é aqui, tias! Os ônibus vêm e vão muito rápido!”, Luiza exclamou, acenando alegremente para um ligeirão vermelho que passava zunindo, vrummm!

Tia Cassi concordou, rindo da animação da sobrinha. “O Portão é o coração do transporte. O primeiro segredo da Chave Mestra é o Ritmo.”

Elas observaram o fluxo mágico de pessoas e veículos. Luiza tentou acompanhar os passos rápidos dos passageiros, dançando na calçada.

Tia Nana apontou para uma faixa de pedestres. “Para encontrar a pista da chave, temos que prestar atenção ao que para e ao que segue. Luiza, siga o ritmo: ande, pare, ande, pare.”

Luiza seguiu a instrução, brincando de imitar o semáforo. Quando ela parou exatamente na linha branca, plim! Notou algo brilhante no asfalto: um pedacinho de metal que parecia a cabeça de uma chave muito antiga.

O fragmento brilhante tinha uma inscrição minúscula, quase mágica: “Passe do Ritmo para o Conhecimento.”

Luiza guardou o tesouro no bolso do seu casaco de exploradora e perguntou com os olhos brilhando: “Onde vamos encontrar conhecimento aqui no bairro?”

Suas tias se olharam e, sorrindo misteriosamente, se voltaram para Luiza: “Acho que nós sabemos onde encontrar. Vamos precisar andar mais um pouco, e enquanto andamos você pode ir tentando adivinhar para qual local estamos indo.”

Luiza foi andando e pensando, com sua expressão mais séria e compenetrada de detetive. De repente, eureca! Soltou um grito: “É uma escola! O lugar de conhecimento!”

As tias ficaram muito felizes e falaram: “Sim, é uma escola, e muito especial, porque foi onde nós duas estudamos quando éramos crianças!”

Logo elas chegaram na escola e Luiza, esperta como um esquilo, correu para a biblioteca procurando pela próxima pista. Assim que entrou, viu um painel bem bonito cheio de desenhos coloridos dos alunos e, bem no cantinho, lá estava ela: um pedacinho de papel colorido!

“Tias, olhem aqui, acho que encontrei a pista!” Luiza pegou o papel e, junto com as tias, percebeu que era um bilhete mágico, mas que só estava escrito no verso.

O verso do bilhete, quase apagado pelo tempo, revelava a próxima pista: “O tesouro da chave está no Encontro das Ruas.”

“A segunda parte da chave é o Encontro”, disse Luiza, unindo as peças do quebra-cabeça.

“O Encontro das Ruas”, Tia Nana completou. “O Portão tem um lugar onde todos se encontram, onde a vida do bairro pulsa, misturando o antigo e o novo.”

Elas seguiram para a praça Tito Schier, entre dois shoppings, um ponto mágico onde grandes avenidas se cruzam e onde antigamente existia a estação de trem do Portão.

“Este é o lugar do Encontro”, disse Tia Cassi. “Antes as pessoas vinham aqui para pegar o trem, agora elas vêm aqui para passear e brincar na praça.”

O desafio final era encontrar a última parte da Chave Mestra. “Para o Portão nos dar a chave final, precisamos mostrar a ele o Sentido da União”, disse Luiza, sentindo-se uma verdadeira guardiã do bairro.

Elas observaram a praça e viram um monumento. Era uma estrutura simples, em homenagem às famílias que construíram o bairro. Luiza notou uma pequena placa de bronze na base do monumento, geralmente escondida por flores.

Ela usou o pedacinho de chave que havia encontrado perto da estação-tubo para raspar delicadamente a sujeira da placa. Sob a terra, a placa revelava uma frase mágica:

O Futuro é Abertura. A Chave Mestra é a Conexão.

Não havia um pedaço físico de chave ali, mas sim o desenho de duas mãos se apertando, símbolo da união.

As tias e Luiza se sentaram em um banco para tomar um delicioso caldo de cana, comemorando a descoberta.

“Encontramos o mistério do Portão!”, declarou Luiza. “A Chave Mestra é feita de três coisas: Ritmo, Conhecimento e Conexão.”

“Exatamente, Luiza Flor”, disse Tia Nana, orgulhosa. “O Portão ensina que a vida em Curitiba precisa de ritmo para se mover rápido (ônibus), de conhecimento (escola), e, o mais importante, de conexão para que as pessoas se unam (Monumento das Famílias).

Tia Cassi pegou o pequeno fragmento de chave de Luiza. “Este pedacinho que você achou não abre portas de ferro, Luiza. Ele simboliza a sua Abertura para o mundo. O tesouro do Portão é que ele está sempre aberto para as mudanças e para receber novos amigos.”

Luiza guardou o fragmento de chave e o bilhete, pensando em todas as pessoas que haviam passado pela praça.

“O Portão não é o fim”, Luiza disse, olhando para as ruas movimentadas. “É o começo de muitas viagens.”

Adri Tortato

Sou pedagoga e psicopedagoga de formação, com uma trajetória de 30 anos dedicada à educação, atuando como professora, coordenadora e diretora em escolas públicas e particulares. Como autora, publiquei os livros Quatro Famílias Tortato – Siamo Tutti Parenti (2019), MEMÓRIAS – Vila Leão, Vila

Pimpão – Portão (2023) e Vida e Memórias de Euclides Tortato (2025), além de participar da obra coletiva De hoje em diante: crônicas imperfeitas para dias nada exemplares (2025). Atualmente, dedico-me ao desenvolvimento de projetos voltados às áreas de Memória, Patrimônio e História.

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A DESCOBERTA DE IBYRÁ

Primeiro, uma bicada. Ibyrá achou que era dor, mas na verdade, foi só um susto: sentiu cócegas. Aquele bico preto como a noite sem lua não queria machucar, estava sendo muito delicado pra isso. Sentiu o vento fresco ao redor contrastando com o bafo morno que vinha da garganta da gralha-azul. Voaram alto, e a vida era maravilhosa.

Mas aí, pousaram. A gralha-azul fez um buraco no chão e enterrou Ibyrá, que teve medo. Achava que seriam companheiras para sempre! Sentiu-se traída, sozinha e com frio. Depois de muito chorar, começou a achar aquele cantinho escuro aconchegante, e dormiu triste.

Acordou com um barulho esquisito. CREC! Um galhinho saiu da sua cabeça! Mais um: CREC! Agora uma raiz saiu da sua base. Que horror! Ibyrá gostava tanto do seu corpinho de pinhão! Agora estava quebrada, crescendo desengonçada, mais pra baixo do que pra cima, sentindo-se feia. Teve vergonha. Quis se esconder, mas não conseguiu se mexer. O jeito era aceitar e esperar.

Depois de um tempo, o CREC-CREC cessou, mas não aquele crescimento desenfreado. Num instante, atravessou a terra e voltou a ver o céu. Lembrou-se dos tempos em que voava com a gralha-azul e seu coração ficou apertado. Espanou os pensamentos que lhe causavam tristeza, e prestou atenção ao redor. Agora havia outras criaturas, de muitas cores, cheiros e formas. Barulho de aves, insetos, água correndo. Seu corpinho agora tinha espinhos, e se espalhava para vários lados, balançando quando o vento soprava. Sorriu.

Puxou conversa com um arbusto ao lado, que era muito simpático, e lhe apresentou outras plantas e animais que por ali viviam. Eram todos muito alegres, e Ibyrá foi se deixando contagiar. Em algum tempo, era a mais feliz das árvores, sentindo-se bonita,

forte, nutrida e importante. Não demorou muito para que começassem a aparecer pinhas, que ela ostentava como joias preciosas.

Um dia, quando Ibyrá já era uma árvore feita e bem alta, um vento muito forte soprou. Seus galhos balançaram intensamente, e ela sentiu pólen se depositando sobre suas pinhas, de maneira suave.

Ibyrá sentiu-se diferente. Por fora ela era a mesma, mas por dentro sentia a maturidade tomar conta. Seu interior parecia se conectar a tudo: o antes, o depois e o agora. Ela era uma árvore adulta, mas também era aquele pequeno pinhão enterrado pela gralha-azul, e seria muitas ainda, em dezenas, centenas de anos! Respirou fundo para deixar aquela maré de emoções assentar.

Finalmente, sentiu-se plena. Observou a natureza à sua volta, como se fosse a primeira vez. Eram seus irmãos, mas também seus filhos — agora sabia. De repente, uma bicada. Um carinho da gralha-azul, outra, como aquela grande amiga que lhe deu o maior presente de todos: a oportunidade de brotar. Em breve, seriam seus filhos voando, brotando, crescendo em muitos lugares, mesmo sem conseguir andar, num ciclo infinito e maravilhoso. Ibyrá fechou os olhos e sentiu a luz do sol. A vida de uma araucária é, mesmo, maravilhosa.

Alice Santana

Baiana de Muritiba, vivo, trabalho e amo em Curitiba, onde formei minha família e atuo como servidora pública. Formada em engenharia sanitária e ambiental, tenho a leitura e a escrita como minhas paixões mais duradouras e - até então - íntimas. Acredito na capacidade humana de criar laços e emocionar através dos livros; por isso, busco traduzir meu conhecimento e minhas vivências em pontes de conexão com as pessoas, especialmente com a minha filha, a quem dedico cada palavra.

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ENECÔEMA E O MISTÉRIO DA GRALHA-AZUL

Há muito tempo, em uma aldeia que via o sol nascer sobre as águas do Rio Iguaçu, nasceu uma menina chamada Enecôema. Seu nome, na língua tupi, quer dizer “Bom Dia”. E ela era exatamente assim: um despertar. A pequena não apenas via a floresta, mas se sentia como parte dela.

Porém, conforme Enecôema crescia, ela percebia que o mundo ao seu redor também mudava. O chão de cimento tomava conta de tudo, se estendia como um tapete que não deixava a grama respirar. Os passarinhos perdiam suas casas e a quantidade de verde minguava. Certo dia, a menina deu de cara com máquinas que avançavam com pressa, derrubando árvores como se fossem gravetos. Para apressar o caminho, homens ateavam fogo na vegetação.

Assustada, a menina correu para se esconder atrás de uma árvore antiga. O chão estava quente. De repente, uma cortina de fogo subiu das folhas secas. A menina arregalou os olhos ao ver a natureza despertar com voz própria. O Fogo soltou faíscas e chamou pela Água:

— Água, ó Água, que me olha com rosto de espelho! Por que me observa parada, enquanto eu fico vermelho? Eu não quero ser destruição, mas se você não me apagar, o seu fim também pode chegar! Só você pode calar a minha fúria, salve a floresta desta lamúria!

O fogo, que cada vez mais esquentava, clamava à água em voz furiosa. Enecôema sentiu. O fogo não era mau; mas estava sofrendo. A água que parecia estar calada revirou-se com suas águas marrons para responder:

— Ó Fogo, eu não consigo te tocar, por mais que eu tente! Tu sabes que estou pesada e o meu leito está doente. O concreto cobre o meu corpo, o asfalto tranca o meu passo, e o

veneno em minhas veias tirou todo o meu espaço. Onde estão as rajadas de ar, enquanto o homem nos maltrata? Estão usando o seu fogo para queimar toda a mata! Eu nada posso fazer. Vento, o verde que é nossa fonte de vida, venha proteger!

A água esgotada clamava ao vento. O Vento passou num rodopio, levantando uma poeira que fez Enecôema tossir. Desceu em um redemoinho e soprou com bravura o ar, respondendo em poucas palavras:

— Encontro poucas árvores para eu repousar, e raras folhas amigas me ajudam a soprar. Não acho o caminho das nuvens, perdi a direção. Sem as árvores para guiar, bato nos prédios e perco o meu chão! O que sobrou de mim é poeira, fuligem e fumaça, sopro sem força, vendo o tempo que passa. Sozinho eu não consigo parar essa dor. Terra! Só você pode amedrontá-los com o seu tremor!

Dizia o vento também frustrado. A Terra estremeceu sob os pés de Enecôema, um gemido que pareceu vir do centro do tempo. Levantou poeira no ar para dizer:

— Eu não fechei os olhos, eles é que tentam me cegar. Cobrem meu corpo de asfalto para eu não poder mais respirar. Sujam as águas, reduzem o verde, o que será de nós? Eu grito em tremores, mas não escutam a minha voz!

Dizia a terra desanimada. Enecôema sentou-se no chão quente e, por um momento, apenas chorou com eles. Seus pés descalços sentiam a febre da terra. Tocou as rachaduras e também sentiu medo.

— Eu estou ouvindo vocês — disse ela, baixinho, mas sua voz atravessou o barulho das chamas.

Os elementos a viram e silenciaram.

— Minha pele arde com o calor, Fogo. Minha garganta seca com sede, Água. Meus pulmões pesam com a poeira, Vento.

E os meus pés sentem a dor das suas rachaduras, Terra. Eu sei que vocês estão tristes e cansados.

Enecôema abriu o saquinho de pinhões.

— Se vocês me ajudarem, a floresta vai voltar outra vez. Vamos trazer o verde com um pinhão de cada vez!

Ela assobiou um chamado. As Gralhas desceram como flechas.

— Fogo, recue e seja apenas o calor que convida o broto. Água, use o seu resto de força para umedecer a raiz. Vento, guie as asas das minhas amigas. Eu serei as mãos, elas serão o voo, e vocês serão a vida.

Inspirados pela menina que reconheceu sua dor, os elementos concordaram. O Fogo recuou, deixando cinzas que serviam de adubo. A Água infiltrou-se onde a Terra ainda era macia. O Vento soprou uma brisa fresca, soprando a fumaça para longe.

As Gralhas-azuis voavam em círculos e ela cantava:

— Podem cobrir a terra e a raiz tentar podar, mas o segredo da floresta é que ela sabe voar!

Entoava. Enecôema abriu o saquinho, com um brilho no olhar, e anunciou para os quatro ventos:

— A Gralha-azul é nossa jardineira!

Elas começaram a girar em um redemoinho em volta de Enecôema.

— Voem! Voem por todo o Paraná! Levem o verde e a vida onde o cinza está! Onde a semente cair, uma araucária vai surgir! — comandou Enecôema, erguendo as mãos cheias de sementes. — Vamos semear o verde em todo o nosso chão!

As Gralhas-azuis alçaram voo, levando no bico a promessa da floresta. O Vento, agora forte e orgulhoso, carregava as aves para os lugares mais distantes do Paraná, garantindo que nenhum palmo de terra ficasse sem semente. Enecôema sempre voltava, coletando e entregando mais sementes às suas aliadas. Dizem que, desde aquele dia, o mistério nunca mais cessou. Visto de cima, o Paraná transformou-se em um mar de copas verdes, um manto de araucárias que protegem o solo.

Dizem que, desde aquele dia, ela nunca mais parou. Embora muitos rios ainda corram tristes por debaixo do cimento, o verde teve força para resistir. Enecôema tornou-se uma lenda: contam que ela ainda caminha, distribuindo pinhões de seu saquinho infinito, enquanto as Gralhas-azuis riscam o céu, inserindo as sementes no chão para plantar o futuro: a Gralha-azul voa, o pinhão cai, e o Paraná se veste de verde. Enecôema está presente na coragem de quem planta, na mão que limpa o rio e no coração de cada um que escolhe ouvir o que a natureza espera de nós.

Claudia Kanoni

Sou autora dos musicais infantojuvenis O Feitiço da Lua e Giramundi, espetáculos cênico-musicais que unem dramaturgia, dança e patinação artística, realizados em parceria com a Footwork Produções e apresentados na programação oficial do Teatro Guaíra.

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AVENTURA NO BONDINHO DA XV

Era 1973, e Curitiba era bem diferente. Mas criança é criança em qualquer tempo e em qualquer lugar. A menina Carla já morava em Dois Vizinhos, com os pais, mas as viagens para Curitiba eram frequentes.

Na casa dos avós paternos, no Seminário, a diversão era subir nas árvores de ameixas e catar pinhão no bosque de araucárias. No Água Verde, o apartamento dos avós maternos era puro aconchego.

Não existiam shoppings e os passeios eram nos cinemas, Passeio Público, feirinha da praça Zacarias, teatro de bonecos, dentre outros. Dia perfeito era uma matinê no centro, e depois, um pastel com laranjinha Wimi , receita perfeita de uma infância feliz.

Naquele ano, algo novo surgiu, o bondinho da rua XV , prometendo diversão para as crianças e sossego para os pais, que poderiam fazer suas compras, tomar um café, enquanto os filhos ficavam bem cuidados. Eram outros tempos.

Carla estava pronta para a novidade, e depois do preenchimento de uma ficha, entrou no bondinho para ficar por algumas horas, sob os cuidados de duas moças.

O bondinho era vermelho, com formas antigas, uma visão encantadora entre as floreiras do calçadão. E por dentro, era mais que um sonho, era acolhedor, com mobiliário próprio para crianças, que sem nunca terem se visto antes, viravam melhores amigas.

A menina recebeu folhas de papel, e uma caixa cheia de lápis de cor foi deixada ao alcance de todas as crianças. Carla olhou através das janelas de vidro, e percebeu que parecia estar dentro de um aquário, com pessoas circulando lá fora, olhando, vez por outra, para dentro do bondinho.

Inspirada pela sensação, mergulhou no oceano de suas fantasias e começou a desenhar

peixinhos coloridos, tartarugas marinhas e uma linda sereia sentada sobre uma rocha cercada pela água do mar. Mas logo parou ao observar que os desenhos ganhavam movimentos e pareciam nadar naquela folha de papel. Carla sentiu a brisa do mar tocando seu rosto, e foi então que viu seus personagens ganharem vida.

A sereia sorriu para Carla, dizendo:

– Olá, estou com fome. Você tem alguma coisa para comer?

Carla procurou alguma coisa no bolso, mas não tinha nada para oferecer. Então, rapidamente, desenhou uma cesta cheia de frutas sobre a rocha, e a sereia começou a comer os morangos, até acabar com todos. Depois, comeu as uvas, laranjas, manga, e parou diante do abacaxi, tentando entender como superar a barreira da casca e da coroa com espinhos.

Lambendo os dedos, a sereia olhou para Carla e exclamou:

– Que algas estranhas! Mas são muito gostosas, obrigada.

Carla deduziu que as sereias não conheciam alimentos produzidos fora do mar, e desenhou algumas algas marinhas para ela comer. Mas a sereia não gostou nadinha da ideia. Ela estava gostando mesmo era de comer as frutas. Nesse momento, a menina ouviu um barulho de água em movimento e viu, assustada, que a sereia havia pulado da sua folha de papel para a folha de outra criança.

E, numa bocada só, a sereia engoliu um bolo enorme que outra criança havia desenhado, retratando sua festa de aniversário, comendo até a vela do bolo, que estava acesa.

As crianças se olharam espantadas, mas a sereia continuou fazendo bagunça, pulando de folha em folha, para comer outras coisas, sem nem perguntar se eram de comer.

Comeu as frutas de Carla; o bolo com a vela de aniversário do menino

de óculos; a casinha que a menina de tranças desenhou; e já estava comendo a Lua do desenho do piazinho loiro quando as crianças sentiram que seus pés estavam molhados e o bondinho começou a inundar.

– A água está saindo do meu desenho! — exclamou Carla, olhando para sua folha de papel. Era a maré cheia, como a menina de tranças bem observou, exatamente como acontece na praia.

E com a maré cheia, os peixinhos e tartarugas pularam todos da folha de papel e começaram a nadar entre as crianças, que já estavam com a água pelo pescoço.

Felizmente, alguém havia desenhado um barquinho, que era grande o suficiente para abrigar as quatro crianças, que navegavam agora dentro do bondinho, ao sabor do vento, com a água pela janela.

O povo passando lá fora, sem perceber tamanha confusão. Eram crianças flutuando no barquinho sobre as ondas; sereia gulosa comendo tudo que via pela frente; peixinhos, e tartarugas nadando em todas as direções; ventos marítimos soprando forte, até que uma das moças que cuidava das crianças no bondinho percebeu que a situação estava fora de controle, pegou uma borracha e começou a apagar os desenhos das crianças.

E a água foi diminuindo; os peixinhos e tartarugas foram ficando transparentes; o barquinho fez “ploc”, e sumiu; a sereia, que agora exibia um barrigão, mergulhou num último pedacinho de mar que havia sobrado na folha de papel, e as roupas das crianças ficaram secas.

Os pequenos se olharam sem entender nada, mas ouviram quando uma das moças falou para a outra:

– Eu te falei que não era para abrir essa caixa de lápis. Ainda bem que eu encontrei a borracha mágica!

E dizendo isso, guardaram a caixa dos lápis mágicos numa gaveta com chave.

Pela janela, Carla viu sua mãe vindo buscá-la. O tempo tinha passado voando e já era hora de partir.

Despedindo-se das outras crianças e das moças do bondinho, Carla abraçou a mãe e voltou para casa, contando sobre suas aventuras. A mãe ouviu tudo sorrindo, porque sabia que, às vezes, Carla exagerava um pouco em suas narrativas.

Mas, logo mais, à noite, a mãe da menina ficou confusa, quando Carla foi tomar banho, e em seus bolsos e meias havia areia e conchinhas do mar.

– Será que o bondinho da XV tem mesmo uma caixa de lápis mágicos? Pensou ela, intrigada.

Cinquenta anos se passaram, a menina cresceu, mas nunca esqueceu da aventura no bondinho da rua XV, agora, estampado em uma linda aquarela, disposta na parede de seu quarto, presente recebido de sua mãe.

Claudia Zippin Ferri

Sou paranaense, advogada, casada, mãe de dois filhos e avó de cinco netos. Atuei na causa animal, na prevenção da violência doméstica, e na defesa dos direitos humanos, junto ao Conselho da Comunidade. Na literatura obtive alguns prêmios pelo Brasil, além de um prêmio no Japão. Dei um tempo na literatura mas, com a chegada dos netos, comecei a ser cobrada para produzir historinhas. Acredito na literatura como forma de arte e crescimento pessoal, crio minhas obras porque gosto de viajar pelo mundo da imaginação, e porque quero deixar uma pequena contribuição para um mundo melhor.

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CONVITE ESPECIAL

Adoro vampiros! Esse é o tema da festa do meu aniversário. E falta só um dia!

Já cuidamos de quase tudo: eu e mamãe colamos morcegos nas paredes, penduramos balões por todo lugar, e até toalhas azuis o papai comprou para as mesas — não tinha mais na cor preta, mas eu também gosto de azul. Só falta uma coisa para deixar ainda mais especial.

Todo mundo sabe que uma festa assim precisa de um vampiro de verdade. Já sei até onde encontrar ele.

Ouvi dizer que o velho morador da esquina é o vampiro mais famoso de Curitiba. Será que ele viria à minha festa? Não custa tentar. Com essa dentadura vampiresca acho que ele vai pensar que sou um também e vai querer ser meu amigo. Vou agora mesmo até lá. Vou levar uma coisinha para ele. Sendo vampiro, acho que ele vai gostar.

O velho é de dar medo nas crianças menores. Mas nas que vão fazer dez anos, como eu, já não é tão assustador assim. Principalmente depois que passei por ele no centro, enquanto acompanhava a mamãe em mais um de seus “garimpos”, como ela mesma diz, pelas lojas de móveis usados da Rua Riachuelo.

A frente da casa dele é meio estranha. É de casa antiga. Será mesmo que convido? Acho que ele nem vai querer ir… Mas quer saber? Agora que vim até aqui não custa perguntar, mesmo se a resposta for não. Respiro fundo. Beeem fundo. E bato três vezes na velha porta. É bem velha mesmo: a tinta está soltando. Essa pontinha aqui tá fácil de pux…

Ouço um barulho que vem de dentro da casa.

Rápido, enfio a mão no bolso. Fico ali como uma tábua só esperando, mas ninguém aparece. Bato de novo, dessa vez mais forte. Espero, e ninguém atende de novo. Pelo menos eu tentei.

Dou as costas, e no primeiro passo distante da porta ouço alguém mexer na fechadura. Viro de frente e, então, ela se abre.

O vampiro está bem na minha frente. Um arrepio corre pelas minhas costas. Exibo meus grandes dentes caninos de plástico. Impossível não perceber que sou um deles, mesmo que de mentirinha.

— Ah, oi! Eu… vim convidar o xenhor para o meu aniverxário…

Ele deu um sorriso estranho. Minha dentadura vampiresca deve ter impressionado ele. Ligeiro, tiro do bolso a garrafinha com suco de groselha. Não é sangue, mas a mamãe disse que todo vampiro que se preze também gosta de um bom suco de groselha.

Estendo o braço para entregar, mas ele me faz sinal para esperar. Entra de novo para dentro da casa deixando a sala visível por uma pequena fresta. Chego perto para ver melhor que tanto de coisas estranhas deve ter a casa de um vampiro.

Mas que nada! Vi alguns móveis antigos, bem do tipo que a mamãe gosta, uma poltrona marrom com braços grandes e uma estante com papéis e livros. Será que atrás daquela estante existe uma passagem secreta, como nos filmes, onde deve estar o caixão em que ele dorme?

Ouço barulho de passos.

Tomo distância da porta. Ele então reaparece com um livro nas mãos e me entrega! Na capa leio “A chuva”. Ele agradece o convite e se despede sem responder se aceitou. Tudo bem. Até ganhei um presente!

Bem que a mamãe comentou que vampiros preferem clima de chuva e tempo nublado. Ela só estava errada numa coisa: acho que eles não gostam de suco de groselha. Vou torcer pro dia estar chuvoso amanhã. Vai que ele resolve dar uma passadinha na minha festa?

Homenagem ao vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan

Elaine Yanagui

Quando criança, eu adorava ouvir Chapeuzinho Vermelho no disco de vinil. Era muito divertido! Cresci assim: ouvindo histórias, lendo gibis e desenhando. E hoje, sou ilustradora, escritora e “fazedora” de livros! Meu sonho é levar aos leitores narrativas que inspirem e divirtam não apenas crianças mas também adultos. Boas histórias são como boas lembranças: nunca nos esqueceremos delas!

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DE QUEM É O DEDÃO?

Betina chegou em Cascavel quase às onze horas da manhã. Tinha saído de Realeza com seus pais às oito e meia, mas o pai sempre dizia: — Devagar e sempre! — Os olhos da menina brilhavam, amava visitar outras cidades. A calma do pai fazia todo o percurso parecer um passeio de descobertas. Toda a vez que atravessava a Avenida Brasil ficava encantada com cada detalhe novo que se mostrava. Porém, estava animada mesmo era pra ver o seu primo Bento. Os dois têm a mesma idade. Bruna, a mãe da Betina, é irmã gêmea de Brenda, que é mãe do Bento. E as duas acabaram tendo seus filhos no mesmo ano. Assim nasceu a dupla imbatível, que deixou a família mais unida e forte!

A caminho da casa da tia, a menina esperava animada a saída com a família para almoçar no shopping, mesmo depois de comer um pacote inteiro de gominhas. Enquanto imaginava qual novo prato iria provar no almoço, um item quase mágico apareceu e pousou no olhar de Betina. Talvez já o tivesse visto antes, mas até então nunca o havia percebido. Era um dedão! Não era qualquer dedão, era um dedão gigante. Como ela, com seu olhar de detetive, nunca havia reparado nesse dedo imenso no alto da Avenida Brasil? Logo ela, que adorava olhar pedacinho por pedacinho tudo o que havia naquela rua tão cheia de vida.

Luz vermelha! Semáforo fechado. O pai parou o carro. Nesse intervalo, Betina teve tempo para observar todos os detalhes do imenso polegar. O dedão saía do chão e apontava para o céu. Havia vários outros dedos polegares desenhados nele. Tinha as ruguinhas que aparecem quando a gente dobra e também digital. Justo nessa semana, Betina aprendeu na escola um pouco mais sobre o que é uma digital. Estava toda feliz de usar essa palavra para ilustrar o seu pensamento. Luz verde! Semáforo aberto. Investigação concluída com sucesso: o tal dedão tinha unha, cutícula, dobrinha e até marcas do tempo.

Chegando na casa da tia Brenda, logo após o primeiro abraço, Betina já perguntou:

— De quem é o dedão?

— Como? Acho que não entendi, meu bem — respondeu a tia.

— De quem é o dedão que estacionou lá no calçadão?

Todos riram, mas ninguém respondeu à pergunta curiosa.

— Betina, que saudade das suas piadas! Vamos logo com as malas, hoje ainda vamos almoçar no shopping e depois tirar fotos em família lá no Lago Municipal! E amanhã tem passeio no Zoológico! — disse o tio Pedro, pai de Bento.

A menina ficou tão animada que esqueceu do dedão por um tempinho. Logo estava planejando os passeios junto com o primo. Depois, brincaram um pouco de escondeesconde ao redor da casa. Os dois gostavam muito da companhia um do outro, mesmo quando Bento, imitando o sotaque da prima do Sudoeste, dizia rindo que não era “leite”, mas sim “leiti”. A união dos dois era tipo slime no cabelo: gruda e não descola mais.

— Vamos, dupla dinâmica! É hora de sair para almoçar! — disse a tia Brenda.

Já no carro, a família passou de novo pelo tal dedão. Ver novamente o grande polegar reacendeu a curiosidade de Betina, e ela perguntou:

— Afinal, de quem é esse dedão?

— É do Dirceu — respondeu a tia.

— O Dirceu era um gigante que morava aqui em Cascavel. O grandão ficou muito conhecido por ter chegado aqui quando tudo ainda era mato! Ele era tão alto, mas tão alto, que a cabeça tocava as nuvens. Às vezes ele respirava uma nuvem inteira. Quando a chuva estava chegando, ele avisava. Aí os camponeses sabiam quando poderiam plantar e quando deveriam se proteger das tormentas. Se tinha tempestade, ele ficava com gripe.

Um dia, porque estava muito perto do céu, um raio caiu bem na mão dele — completou o primo.

— Então foi aí que o dedão caiu? — Betina perguntou, meio curiosa e meio preocupada com a história do gigante.

— Caiu e virou pedra. E o resto dele virou estrada, avenida, montanha e cachoeira. Caiu até na Ponte Molhada, de tão grande que ele era. A gente pode ir lá na Ponte Molhada ver, né, mãe? — disse Bento, com um sorrisinho.

As irmãs Brenda e Bruna gargalharam alto, sempre ficavam impressionadas com a imaginação da dupla que haviam juntado. A tia Brenda disse, então, que Dirceu não era um gigante. Ela contou que em Cascavel tem um artista chamado Dirceu Rosa e que o trabalho dele é fazer estátuas, como aquela do dedão. O corpo do dedão era como se fosse a cidade, e os dedinhos eram como os moradores, todos apoiando uns aos outros. Ela também falou que o Dirceu tem uma casa bem famosa, com outras obras de arte como aquela. Terminou dizendo que o polegar tem um lema: um por todos e todos por um!

Betina, mais aliviada, logo respondeu:

— Que legal! Então o dedão é de todo mundo! Tia, o lema do dedão é tipo o lema da nossa família, não é? Juntos ficamos mais fortes!

— Isso aí, Betina! Acho que você entendeu. E esse dedão tem mais de vinte anos, sabia? Muitas obras de arte são antigas e contam um pouco da história das cidades. É tipo aquela estátua dedicada ao pioneiro de Realeza, o Monumento Bruno Zuttion, lembram dele? — perguntou Brenda.

— SIM! — responderam os primos numa só voz, balançando o banco do carro.

— Espera aí! Então será que as estátuas das cidades podem ser primas, igual eu e a Betina? — falou Bento, com o brilho no olho de quem faz uma grande descoberta.

Todos no carro riram, inclusive ele. Foi aí que Betina, olhando pela janela, entendeu tudo. O dedo não era de um gigante, mas até que a fala do primo tinha algum sentido. Talvez toda cidade tenha algo antigo, curioso e bonito, tentando contar uma história. Sorte que tem crianças para perguntar de quem essas histórias são, pensou ela.

Felipe Gustavo Trevisan

Sou psicólogo e venho permitindo que cada vez mais (re)apareça meu eu escritor e artista. Quando criança, dizia que seria escritor, artista plástico ou cirurgião. Felizmente, hoje posso usar lápis, tinta e imaginação… sem precisar de bisturi! Atualmente sou servidor público do Estado do Paraná, mas também já fui professor de universidade e de colégio. Nas minhas criações, registro fragmentos do cotidiano e memórias da infância. Transformo lembranças e pensamentos em imagens e textos.

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UMA MENINA GIGANTE

Em um bairro afastado da cidade, morava uma menininha chamada Tina, apelidada pelos vizinhos como meninona, pois era mais alta que qualquer outra criança; era o dobro, talvez o triplo do tamanho, e parecia não parar de crescer. Mas ela não tinha crescido de um dia pro outro, não crescera também por mágica, tampouco nascera grande; aliás, tinha sido um bebê bem pequenininho. Foi com o tempo que começou a se destacar: um centímetro aqui, outro ali, até que as mangas e as calças ficaram curtas e os seus dedinhos dos pés pareciam gritar para abrir caminho em seus calçados favoritos.

Pelos corredores da escola, era fácil identificá-la no meio das outras crianças. A menina parecia andar sempre com medo de pisar em alguém, vivia olhando pro chão. Porém, não era só por precaução que fazia isso; Tina se sentia confusa, não entendia por que tinha que ser tão diferente dos seus colegas. Tudo parecia ser tão pequeno, nada parecia ser feito pra ela. Sua mãe não comprava mais seus sapatos na sessão infantil, as saias e vestidos feitos pra sua idade já não cobriam mais nada e os brinquedos do parquinho se tornaram baixos e desconfortáveis. Tina sentia como se não coubesse no mundo.

Todos conseguiam vê-la de longe, e agora ela começava a sentir vergonha por chamar tanta atenção; então resolveu tentar se esconder, encolher para se encaixar. Começou a andar de ombros curvados, passou a falar mais baixo e trocou as cores que amava pelos tons neutros. O laço de cabelo que usava passou a ser guardado no fundo da gaveta; sentia que ela era grande demais pra isso e que nem parecia tão delicada como as outras meninas, talvez até dos brinquedos ela deveria abrir mão e “começar a agir como alguém do seu tamanho”. Assim, todas as noites ao deitar, torcia para acordar minúscula e, sem aviso nenhum, foi o que aconteceu.

Certo dia, ao amanhecer, sentiu que sobrava espaço, abriu os olhos e se deparou com o quarto enorme. Como única maneira de descer da cama, ela escorregou pela coberta até o chão, aproximou-se da mãe, que agora parecia um arranha-céu, e a chamou a plenos pulmões, mas seus gritos eram praticamente inaudíveis. Atravessou a rua até a escola,

enfrentando obstáculos feito formiguinha. Andava pelas beiradas do corredor, torcendo para que alguém percebesse sua presença. Ninguém a notou, mas sentiram sua falta.

Exausta de tentar buscar uma solução, sentou-se no cantinho embaixo da pia do banheiro da escola. Viu suas duas melhores amigas entrando e, com a audição mais aguçada, as palavras a atingiram potentes como ondas:

— Você viu a Tina hoje?

— Não, e eu estou sentindo tanta saudade! Nós poderíamos passar na casa dela mais tarde pra ver se ela está bem, né?

— Vamos! Vou aproveitar pra levar um lacinho de cabelo, eu adorava quando ela vinha com o dela, ficava tão bonito… ela deve ter perdido…

Com lágrimas nos olhos, Tina observava não só a conversa, mas os detalhes de cada amiga: como seus narizes, seus olhos e seus cabelos eram diferentes, e como a altura de ambas também não era igual de uma pra outra. Elas eram lindas do jeito único de cada uma e, de repente, a menina começou a se achar bonita também.

Sentada, abraçou joelhos e deixou que os ruídos do seu choro fluíssem descontrolados, até sentir uma mão carinhosa em seu rosto. Abriu os olhos: estava em sua própria cama. Tudo parecia ter voltado ao seu tamanho normal. A mãe a olhava cheia de ternura. Tina a abraçou ainda chorando, mas agora de alívio.

— Mamãe, eu acordei minúscula, você não me ouvia, ninguém me ouvia, ninguém me via. Foi horrível, mas eu queria tanto isso antes. Eu não queria mais ser tão grande, porque parece que quando se é tão grande as cores deixam de ser pra você, os laços não podem mais ficar na sua cabeça e você precisa fingir que brinquedos não são mais legais.

A mãe riu carinhosamente e a abraçou ainda mais forte.

— Calma, querida, foi só um pesadelo. Venha, vamos dar uma volta.

Dentro do carro, Tina acompanhava a vista do lado de fora com olhares encantados. Tinha se preocupado tanto em se tornar despercebida que havia parado também de

perceber o mundo à sua volta. Pelas ruas do centro de Maringá, admirava os prédios enormes e as árvores frondosas que pareciam viver em harmonia.

— Você vê? — disse a mãe, fazendo a menina voltar a atenção para ela. — Todas essas lojas, essas ruas, esses prédios estão cheios de pessoas, e nenhuma é igual à outra. Tem pessoas que gostam de usar cores neutras, outras que são monocromáticas, e tem as que parecem um arco-íris. Tem gente por aí que coleciona brinquedo, tem quem colecione disco de vinil e as que não colecionam nada. Tem pessoas de nariz grande, nariz pequeno, nariz que não é um nem outro, altas, baixas, de cabelo liso, cabelo crespo e tantas outras características, e olha só… todas têm espaço no mundo. Todas são especiais, assim como você. Ter uma característica diferente deveria ser motivo de orgulho, não o contrário. E crescer não significa deixar sua personalidade de lado, aliás, não importa o quanto você cresça, eu vou te amar de qualquer jeito.

Emocionadas, ambas saíram do carro e caminharam de mãos dadas até uma enorme estrutura em forma de cone, que parecia uma grande nave espacial: era a Catedral da cidade.

A garotinha olhava boquiaberta e quase desejou crescer ainda mais para que pudesse alcançar até o topo, mas a verdade é que, naquele momento, enquanto admirava aquela arquitetura distinta que se destacava bem a sua frente, Tina não se sentia grande demais, nem pequena demais. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que era do tamanho certo.

Mia Oliveira

Nasci e cresci em Maringá. Desde o início da minha alfabetização, criar histórias sempre foi o meu ponto forte e me aventurar por gêneros literários diferentes era um estímulo muito grande para mim. Ao chegar na vida adulta, minha frequência de criação diminuiu drasticamente, foi só quando entrei na graduação de Artes Cênicas que voltei a não só me reconectar com a escrita, mas também com a infância. Escrever este conto foi um exercício pessoal para tocar nas questões que me atravessavam quando criança, a partir da minha perspectiva naquela época.

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AURORA E O PEQUENO AMENDOIM

Era uma vez uma cidadezinha muito bonita, no interior do Paraná, onde a terra é vermelha e gruda no pé. Lá o horizonte é desenhado por lindas araucárias — árvores grandes e fortes em formato de guarda-chuva. Nessa cidadezinha nasceu uma menina chamada Aurora. Ela era muito alegre e animada, amava correr e brincar com seus amigos.

Sua infância era cheia de aventuras. Nos dias de inverno a garota adorava visitar o sítio de sua vovó, correr entre as árvores e observar os passarinhos; tudo isso enquanto sentia o vento gelado do sul no seu rosto... Ela gostava de juntar os pinhões que caíam das grandes araucárias para assar no fogão a lenha. Ela amava tudo isso, mas sua atividade favorita era sentar-se na varanda, ajudar a vovó a descascar amendoim e comê-los — uma delícia... Para a pequena Aurora, cada casca dura que se quebrava era uma pequena vitória. Ela sempre foi muito otimista, então, quando uma brincadeira parecia difícil, dizia com um brilho desafiador nos olhos: “Vou tentar para ver até onde eu consigo!”.

A vida era doce como o mel até que, aos oito anos, uma tristeza muito grande chegou: seu pai faleceu. Com essa perda dolorosa, a vida de Aurora mudou completamente. Ela, sua mãe e seus dois irmãos mais novos mudaram-se para Curitiba, a capital das calçadas com desenho de pinhão e do céu cinzento de inverno. Agora, tudo havia mudado e a realidade era outra. Para sustentar a casa, a mamãe precisava trabalhar fora o dia inteiro, demonstrando um amor gigante em cada esforço. Aurora, mesmo sendo ainda uma criança, tornou-se a pequena guardiã dos irmãos menores. Ela cuidava dos pequenos com muito carinho, mantendo a casa em ordem e o coração esperançoso. Mas, infelizmente, não podia mais descascar os tão saborosos amendoins...

Foi nesse momento de grandes responsabilidades que Aurora começou a se sentir mal de saúde, e coisas estranhas lhe aconteciam. O médico disse para a mãe que o nome da doença era “epilepsia” e que a menina precisaria tomar vários remédios. Quando essa doença aparecia, Aurora tinha o que os adultos chamam de “crise”: ela caía, seu corpo tremia e fazia movimentos estranhos que assustavam os colegas na escola. Algumas crianças riam, imitando seus movimentos, e outras colocavam uma blusa de agasalho debaixo de sua cabeça, para que Aurora não se machucasse.

Ela sentia dores muito fortes na cabeça, como se tivesse levado um choque elétrico. Aurora passou por coisas que nenhuma criança deveria passar, mas, com muita determinação e alegria, não perdia as esperanças e seguia de cabeça erguida, mesmo com todas as suas dificuldades.

Muito tempo se passou, e a mãe de Aurora lhe contou que a família voltaria para a cidade do interior, a cidade da terra vermelha, Cascavel. Aurora descobriu mais tarde o motivo do nome da cidade: uma lenda local conta que os tropeiros acampavam ali, perto de um rio e, à noite, ouviam sons de cascavéis — serpentes com guizos. Por isso, denominaram o local pela grande quantidade de cobras que ali viviam.

A garota ficou muito contente se lembrando da cidade, de todos os momentos bons que viveu lá com seus amigos, e do sítio calmo e alegre da sua avó. Quando voltaram, a vovó percebeu que sua pequena Aurora já não era mais uma garotinha, agora ela era uma jovem muito bonita, apesar de sua doença ainda a atrapalhar.

Mesmo adulta, Aurora enfrentou dificuldades. Algumas pessoas não entendiam o que era a epilepsia e não aceitavam a sua condição, o que fez a jovem se sentir muito sozinha. O tempo foi passando e os remédios de Aurora já não ajudavam mais a controlar as crises. Ela ficou muito doente, e precisou ficar no hospital por muito tempo.

Os médicos achavam que ela não voltaria mais a acordar, mas Aurora fez uma escolha muito importante: ela escolheu lutar com a mesma determinação de quando era uma criança. Com um esforço muito grande, Aurora acordou. Sua recuperação foi lenta.

Ela tinha dificuldade para enxergar e se mexer. Mas um dia, quando estava sentada

em uma cadeira, alguém lhe deu um amendoim. A casca era tão dura como os muitos momentos de sua vida. Nesse momento, Aurora lembrou de quando era criança e ficava sentada na varanda do sítio de sua avó. E ela pensou: “Se eu conseguir abrir esse amendoim, posso conseguir outras coisas também.”

Descascar o amendoim virou um símbolo de coragem e assim, dia após dia, Aurora não desistiu e foi ficando cada vez mais forte. Seus movimentos foram voltando, a visão foi clareando e o amendoim abriu! Com o tempo, a moça aprendeu algo muito importante sobre si mesma: seu diagnóstico não a definia, assim como doença nenhuma define ninguém. Ela se reconheceu apenas diferente, de um jeito especial e único.

Hoje Aurora ainda cuida da saúde, continua tomando sua medicação certinho e vive bem melhor. Ela usa seus aprendizados para ajudar outras pessoas a se cuidarem e a se respeitarem. Aurora se tornou uma psicóloga muito querida. Ela ensina que rir e zombar do outro não é brincadeira, que ninguém deve ser tratado mal por ser diferente e que, com esperança e determinação, é possível enfrentar qualquer desafio.

Aurora continua brilhando, mostrando que sempre existe força dentro de nós, mesmo depois de dias difíceis, e que, com apoio e coragem, somos capazes de enfrentar o que vier e ainda encontrar algo que nos motive — seja um livro, uma história, um brinquedo superlegal ou até mesmo um simples amendoim.

Mariselma Araújo

Nasci em Nova Cantú, interior do Paraná, vim morar em Cascavel aos 5 anos, logo em seguida meu pai faleceu e nos mudamos para Curitiba onde vivi até os 14 anos. Retornei para Cascavel, cidade linda do céu azul onde resido até os dias atuais. Iniciei a vida profissional na área da saúde, ao longo do caminho percebi que minha jornada era na área da saúde mental. Sou formada em psicologia e atuo na educação emocional e prevenção ao abuso sexual infantojuvenil.

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OURO VERDE, UM PRESENTE DE TUPÃ

Lá vai o burrinho Jerivá, carregando sacas de erva-mate por uma trilha, na várzea do Rio Potinga, seguindo a tropa enfileirada, no seu passo lento. Do alto, Tupã observa a inquietude de Jerivá, enquanto executa aquele trabalho tão enfadonho e pesado. O deus dos Guaranis resolve se divertir um pouco, além de proporcionar uma distração ao pobre bichinho. Concede-lhe o dom de conversar com a carga que transporta.

— Oi, coisinha cheirosa que está dentro dessas sacas que estou carregando...

Pode me dizer qual é seu nome?

— Oi — responde a erva-mate —, mas quem disse que eu quero conversa, depois de tudo que me aconteceu?

— Mas o que lhe aconteceu, que pode ser pior que minha sina de ficar carregando você nas costas, por essa longa trilha?

— Ora, não vê que me cortaram da minha árvore, me secaram ao calor do fogo, depois me arrebentaram toda, para caber nesta saca?

Não gostando nada do rumo que tomou a conversa, Tupã permite que um sapo salte para cima de uma das sacas que o burrinho carrega, e ajeite o assunto:

— Não seja ingrata, Caá — diz o sapo à erva-mate — você é personagem de uma linda história. E você, burro, no futuro, será reverenciado no Paraná inteiro por sua importante participação no desenvolvimento desta terra abençoada.

— Então a coisinha cheirosa se chama Caá? — diz o burrinho

— Lindo nome. O meu é Jerivá, por causa da minha cor. E você, sapo, como se chama?

— Meu nome é... Senhor Sapo... Fique sabendo, Jerivá...

— Senhor Jerivá... — interrompe o burrinho. O sapo continua:

— Fique sabendo que o senhor carrega o Ouro Verde desta terra, e por esse bom serviço será até estudado em escolas.

Caá, também conhecida por erva-mate, admira-se:

— Ouro Verde? Isso sou eu? Parece coisa de importância...

— E é — diz Senhor Sapo —, você não conhece sua própria história?

E começa a narrar, seguindo a inspiração de Tupã, que ainda mais se diverte:

— Houve um tempo em que espíritos poderosos da Natureza costumavam visitar os humanos da Nação Guarani. Certa vez o grande espírito do trovão, o deus Tupã, hospedou-se na oca de um velho cacique, e ali comeu a melhor comida, bebeu a melhor bebida e dormiu na melhor rede. Muito agradecido, avisou-o em sonho que o recompensaria com presente especial, que serviria para sua tribo como fonte de força, saúde e alegria, e que sua filha Jari, ao final de sua vida terrena, nele abrigaria seu espírito. Ensinou-lhe como preparar uma bebida que se tornaria algo essencial na vida da comunidade. Ao acordar, o velho cacique encontrou uma linda árvore de folhas verdes e brilhantes plantada ao lado da oca. Deu-lhe o nome de Caá, que hoje os humanos conhecem por Erva-Mate.

— É uma linda história, Caá — exclama Jerivá —, estou feliz por participar dela!

— Puxa! — exclamou Caá — Mas agora estou indo para onde, mesmo?

— Vão embarcar você em um vapor!

— Vapor? Sei quanto isso esquenta! Já passei por isso antes de vir parar nesta saca, e não gostei nada, pois fiquei bem seca e quebradiça.

— Esse vapor é um barco, que navega por um grande rio, o Rio Iguaçu. Ouvi muitas conversas sobre o destino dessas sacas. Meus sentidos de espécie muar me permitem ouvir até coisas que outros da minha espécie compreendem de suas experiências. Por isso, sei que, depois de uma longa viagem no vapor, as sacas são desembarcadas no Porto Amazonas, e, de novo, outros de minha espécie as levam para uma estação de estrada de ferro. De lá sai um trem que as leva até as empresas ervateiras, que terminam o preparo desse presente de Tupã para que possa dar alegria, força e saúde para os humanos. Todos se deliciam com esse seu cheirinho gostoso, num chimarrão ou numa xícara de chá-mate! E você é também uma grande riqueza desta terra, por isso é conhecida por Ouro Verde, amiguinha!

O Senhor Sapo, muito aborrecido por Jerivá apropriar-se da sua narrativa, pula para dentro de uma orelha do burrinho, coaxando:

— Agora vamos ver se consegue escutar conversas, Senhor Bisbilhoteiro!

Jerivá, desembestando pela trilha, sacode tanto as orelhas, que Senhor Sapo é expelido violentamente, indo parar no cangote do tropeiro que conduz a tropa, causando grande rebuliço. Tupã troveja de tanto rir.

No Paraná de antigamente, quando estradas asfaltadas nem existiam, tropas cargueiras, vapores e os trens foram muito importantes para espalhar o presente de Tupã para toda a humanidade.

Na floresta, segundo a lenda guarani, descansa o espírito de Jari, abrigado em uma frondosa árvore de erva-mate.

Rosicler Antoniácomi

Meu nome é Rosicler Antoniácomi. Quando criança, eu a brincava no quintal ou na rua até o Sol se pôr. Cresci, me diplomei no Curso de Letras, na minha cidade de Ponta Grossa, e trabalhei no Banco do Brasil. Eu contei muitas histórias como a deste livro para minhas duas filhas pequenas. Elas cresceram, mas eu ainda gosto de contar histórias e de brincar. Agora, meus coleguinhas de brincadeira, são os personagens dos livros que escrevo, enquanto olho o pôr do Sol, pela janela. Entre os nove livros que publiquei está o Infantil As aventuras de Lisa, a Calopsita, e mais quatro infantis, quase prontos.

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TOTH, A MÚMIA

Antes de ser múmia, Toth era uma linda jovem musicista. Reza a lenda que ela também era cantora no Templo de Ísis, uma famosa deusa egípcia.

Em 1995, Toth veio da Califórnia, nos Estados Unidos, onde estava exposta em um museu, para Curitiba. Por questões financeiras, não veio de avião, e sim de navio. Depois de longos dias viajando pelo mar, passando por fortes tempestades e ventanias terríveis, Toth desembarcou no Porto de Paranaguá.

Ali chegando, foi removida com todo o cuidado que se costuma dedicar ao transporte de múmias. Porém, um dos jovens que a transportaram do navio para o vagão do trem que a traria para o Museu Egípcio de Curitiba cometeu um grande engano: separou Toth do instrumento musical preferido dela. Mal sabia esse jovem que algo terrível acontece quando múmias são separadas dos objetos amados em vida — tanto que eram levados para as tumbas de todos os grandes reis do Egito os pertences preferidos deles.

Mas foi no trem de Paranaguá a Curitiba que algo assustador aconteceu. Depois de passar séculos imóvel no sarcófago, Toth começou a se mexer. Justo quando o trem passava pelo primeiro túnel cortando a serra do mar, a múmia saltou para fora do sarcófago e começou a andar por entre os vagões, desesperada para encontrar o inseparável instrumento. Ela se apressava em procurar e passar entre as caixas, e em atos desesperados emitia um som assustador, algo mais ou menos assim: “Uuuuuuuu!”. Para se equilibrar no trem, que se movimentava rápido, Toth ficava com os dois braços para frente, e também para que quem a visse de longe achasse aquilo assustador.

Foi quando Carlos, o assistente do maquinista, ouviu um barulho — “Uuuuuuuu!”. Corajoso, como todo assistente de maquinista, Carlos pegou uma pequena lanterna e foi verificar se estava tudo bem com a preciosa peça de museu. Ao abrir a porta do vagão onde o sarcófago estava, o coração dele quase parou: a múmia não estava lá! Voltou

correndo e foi dizer ao maquinista Mário, já famoso por ser muito corajoso, que de imediato parou o trem e disse rindo a Carlos:

— Meu jovem Carlos, você deve estar cansado... Múmias não levantam de sarcófagos.

Os dois homens saíram pelo trem com a lanterna, quando perceberam algo leve e macio passando pelas costas. Sentiram um medo terrível e começaram a gritar desesperados, e ao mesmo tempo viram algo fora da caixa. Lá estava: era a harpa da musicista Tothmea. Sem pensar, colocaram o instrumento de volta na caixa, dificultando que Toth o encontrasse. Quando se levantaram, o vagão inteiro se iluminou com um grande raio que cortou o céu em meio às árvores da serra do mar. Entre os objetos que ali estavam, viram uma horrível múmia que arrastava faixas, e que naquele momento já vinha se arrastando por todo o vagão. Num salto gigante, os dois pularam para dentro da cabine do maquinista, e tão rápido quanto o raio que os fez ver a terrível múmia, chegaram a Curitiba. Ao parar na estação, a equipe do museu já aguardava a postos na estação de trem para, finalmente, levar Toth para a confortável sala no Museu Egípcio de Curitiba, onde ela ficaria exposta. De tão aterrorizados de medo, Carlos e Mário não conseguiram dar uma palavra. Desembarcaram correndo e gritando. O senhor João, chefe do museu, não entendeu nada, apenas disse a Mônica:

— A viagem do Porto de Paranaguá até Curitiba é cansativa, devem estar com fome. A alegria por ter uma peça tão rara no museu era maior que qualquer curiosidade.

Foi quando aquela tempestade que caía na serra do mar chegou a Curitiba. Uma forte rajada de vento tomou conta da estação, acompanhada de raios que partiam os céus. A pobre múmia Toth já não sabia para onde ir. Pensava que justo quando havia encontrado duas pessoas naquele vagão escuro, elas não lhe deram a mínima atenção e se trancaram na cabine. Agora ela se sentia muito animada, pois aquelas duas pessoas certamente a ajudariam a encontrar a amada harpa e, com isso, poderia voltar ao descanso no sarcófago. Ela não pensou duas vezes. Deixou os braços retos para frente — porque, como já dito, além de assustar, isso dá mais equilíbrio às múmias —, mirou a

porta do trem e lançou um: “Uuuuuuu!”. João e Mônica, ao ver Toth, desmaiaram de susto e a múmia musicista novamente não tinha conseguido se comunicar para recuperar a linda harpa. Foi quando ela avistou uma caminhonete e decidiu subir na carroceria, e era justo a caminhonete que a levaria para o museu.

Naquele momento, Sebastião, o motorista, que tirava um cochilo, pois tinha carregado a caminhonete com todas as caixas que estavam no vagão perto da cabine, foi acordado por Mônica e João, que estavam pálidos de susto e falavam muito rápido: — Vamos embora deste lugar!

Sem entender o que estava acontecendo, Sebastião apenas dirigiu até o museu. Foi quando João tomou fôlego e contou o ocorrido — que havia visto uma múmia horrorosa saindo do trem. Sebastião ficou gelado de tanto medo e pensava nas coisas horríveis que a tal múmia poderia fazer com eles. Nesse momento, ouviu um barulho que vinha da carroceria da caminhonete, um som mais ou menos assim: “Uuuuuuu!”.

Quando olhou, lá estava ela, com os braços para frente, movimentando-se para descer da caminhonete. Sebastião sentia o corpo paralisado de medo, mas decidiu falar com a múmia e tentar entender o porquê de ela estar ali, assustando todas as pessoas. Toth, que já estava em pânico por causa das coisas que tinham acontecido naquela noite, apenas apontava para a caixa que estava no chão. Sebastião decidiu abrir a caixa e, naquele momento, entendeu que Toth só queria o amado instrumento que lhe pertencia. Quando pôde tocá-lo novamente, o feitiço foi quebrado. Toth, então, repousou no sarcófago e, até hoje, aguça a imaginação de crianças e adultos que passam pelo museu para visitá-la.

Fim

Sandra Sebastião

Eu sou Sandra, nasci em Jardim Alegre, no interior do Paraná. Sempre fui uma contadora de histórias, com o nascimento dos meus filhos, isso intensificou. Atualmente tenho livros publicados e aprovados no PNLD.

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Álvaro Posselt

Curador

Sou poeta curitibano. Tenho 16 livros publicados. Meus poemas aparecem pela cidade através de vitrais (ACGB). Divulgo voluntariamente o haicai em escolas públicas há 13 anos. Minha casa é um espaço cultural, a Casa Posselt, onde recebo escolas e o público em geral para oficinas, bate-papos e rodas de leitura. Faço parte do Coletivo Era uma vez (grupo de escritores e ilustradores de Curitiba) e da ALB/PR (Academia de Letras do Brasil).

Adriano Catenzaro

Meu nome é Adriano Catenzaro. Nasci e vivo em Curitiba, uma cidade cheia de ruas, prédios, árvores e histórias que gosto de observar.

Sou um artista visual, que desenha recortando papéis, cores e formas para criar imagens que contam histórias. Às vezes minhas colagens parecem cidades, outras vezes, coisas e locais inventados.

Desde pequeno sempre gostei de desenhar, criar e imaginar mundos. Hoje, uso o papel como quem monta um quebra-cabeça, onde cada pedacinho encontra seu lugar.

Além das obras e exposições, também escrevo e ilustro livros, com personagens que habitam um universo de papel e muita imaginação.

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO

ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DO PARANÁ

Darci Piana

Presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac PR

Ulisses Fernando de Moraes Rodrigues Diretor Regional Interino do Sesc PR

Lidiane Cristine Galvan

Diretora de Educação, Cultura e Ação Social

Cesar Luiz Gonçalves

Coordenador Geral do NCM Núcleo de Comunicação e Marketing

Rosane Guarise

Assessora de Comunicação e Marketing do NCM Núcleo de Comunicação e Marketing

Mariah Fank Gerente de Cultura

Leandro Rodrigues Gerente Executivo Sesc Maringá

Isabel Cristina Bizerra da Silva Analista — Sesc Maringá

Mayara Elisa de Lima Cirico Analista — Gerência de Cultura

Johann Dakitsch Miranda Analista de Comunicação e Marketing do NCM Núcleo de Comunicação e Marketing

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