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Cultura

Sequências do Mês

Comentário

Entrevista

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3 Cultura

Surf Moderno

SUMÁRIO

4 Surfistas são Beats 8 A origem do Surf 9 Danilo Grillo 10 A Tragédia 16 Jadson Curiosidades

Cultura

Surf Profissional Delírio

Infográfico

Tunando sua prancha Cultura

A Revolução

12 06

28

06 - Viagem

12 - Campeonato

Worl Tour

Worl Tour

28 - Cultura

Consagração


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SURFISTAS SÃO BEATS

CURIOSIDADES

Nós, surfistas, não somos hippies. Os hippies queriam mudar o mundo. Nós não queremos mudar nada. Nunca quisemos. Os hippies, no máximo, nos emprestaram por um tempo sua estética “largada”, sua trilha sonora alucinante, além de terem dado uma freada no consumismo do esporte. E, se no final da década de 1960, cabelos cresceram e as guitarras ficaram mais distorcidas, nosso foco era a vida em torno da onda perfeita. Se o espírito libertário da época pedia, microcosmos de sociedades alternativas pipocavam por toda parte, mas sempre perto da areia - Saquarema, Imbituba, Byron Bay (Austrália), Santa Cruz... Nossa tribo pegou a parte superficial do movimento hippie e passou batida por ela sem nem olhar pra trás. Anos depois, foram os punks que tomaram de assalto o Ocidente. Ramones, Sex Pistols, Clash, Iggy Pop. Fúria, revolta. Nesse sentido, não podiam ser mais diferentes de nós. Não conseguimos odiar nem aqueles que destroem nossas praias, quanto mais comprar uma briga desse tamanho! Nada de ódio ao estabelecimento. Muito pelo contrário. “Quem sabe esse tal de estabelecimento não me arruma um empreguinho as segundas, quartas e sextas-feiras e deixa o resto da semana livre pra eu surfar?” Pensava o punk de butique, enquanto ouvia Social Distortion no headphone. Realmente, poucos universos conseguiam ser tão diferentes da vida à beira-mar quanto o grito da revolta suburbana dos punks. E por isso durou tão pouco, apesar do casca-grossa Dadá Figueiredo ter sido seu maior expoente. Tudo isso pra chegar ao movimento beat. Os punks só puderam ser punks por causa dos hippies. E os hippies só puderam ser hippies por causa dos beats. Mas os beats só queriam viver sua história. E contala, sem manual. Queriam sair pelo mundo e trilhar os próprios caminhos. Não ÁUREA Dezembro

queriam mais ser como seus pais. Nada de ficar pagando a vida inteira por aquela casa de subúrbio. Havia uma vida pulsando fora da avenida principal, uma música maravilhosa emanava dos guetos. Blues. Jazz. Coisa de preto. Poetas, músicos, intelectuais e vadios se encontravam nos esfumaçados bares e trocavam experiências. Eram párias. Inventavam uma nova maneira de viver. De dentro pra fora.Surfistas também são beats. Aliás, sempre foram beats. Muito antes do termo beat ser cunhado, na década de 1950, já éramos beats. E da nossa essência. 0 surf é uma paixão tão avassaladora, que vira bússola. Preenche tanto, que deixa a gente meio burro. pouco se lixando pro resto. Os surfistas foram os primeiros a cair fora. Foram os primeiros a enfrentar os pais. Foram os primeiros a seguir seus instintos. Não existia, nas décadas de 1940, 1950 e 1960, essa de ficar na praia de bobeira esperando o próximo swell. Mas eles ficaram. E com isso inventaram todo o nosso estilo de vida. Que é puro beatnik. Os expoentes da cultura beat foram Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg. Os do surf foram Mickey Dora, Greg Noll, Buzzy Trent e Peter Troy. Suas corajosas experiências poderiam ter rendido livros incríveis nos moldes de On the Road, com muita aventura e questionamento, mas poucas linhas foram escritas. Pra esses pioneiros, era melhor viver intensamente do que escrever sobre viver intensamente. E é assim até hoje

Mickey Dora


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CURIOSIDADES

Allen Ginsberg

William Burroughs

Jack Kerouac

Buzzy Trent

Peter Troy.

Greg Noll


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VIAGEM

Surf trip dos sonhos

Foto: Jorge Mesquita

A incrivel viagem com Guilherme Sodré e amigos

Um dia encrivel, assim que cheguei em Bali, fui ao encontro dos meu amigos que já se encontwravam por aqui e tive a noticia que partiríamos no dia seguinte para uma Ilha no sul de Sumatra. Apesar de estar bastante cansado da viagem sabia que valeria a pena viajar mais um dia e ter a oportunidade de surfar as ondas que tanto sonhei. Nossa primeira tentativa foi frustrante pois no dia não havia voo na parte da manhã o que nos fez abortar a missão. Por um lado foi bom pois tivemos um pouco mais de tempo para estudar a logística da viagem.

Indonesia, ilha Sumatra

O swell seguinte demorou 10 dias para entrar e quando resolvemos partir em definitivo deu tudo certo. Saímos as 10 da noite de Bali tendo como destino Jacarta, capital da Indonesia. Ao chegarmos, pegamos um taxi no aeroporto e fomos direto para o supermercado comprar tudo que iríamos precisar na Ilha. Enchemos o carro com acessórios de acampamento e iniciamos mais 4 horas de viagem até uma cidade que prefiro nao falar o nome. Tudo estava correndo como planejado, chegamos na cidade as 5 da maÁUREA Dezembro

Foto: Jorge Mesqita


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nossa estrutura. Era quase noite quando acabamos de montar tudo e podemos gozar da beleza do lugar. Só havia uma coisa que nos preocupava, a saúde do idealizador de tudo aquilo. Tojal estava mal da garganta e com muita febre mas não nos deixava em momento algum desanimar. No dia seguinte (4 de agosto) foi seu aniversário e mesmo doente foi fotografar a nossa primeira sessão de surfe. Nadamos até o barco e depois de 10 minutos já podíamos ver a onda. Perfeita, um cilindro azul que não tinha fim o único problema era a profundidade.

Depois de algumas voltas de barco encontramos uma praia que ficava mais protegida das ondas a resolvemos que seria a melhor opção. Fizemos umas balças com as pranchas e iniciamos o desembarque das bagagens e materiais de camping. Foi tenso mas ao mesmo tempo divertido, haviam algumas ondas e depois de algumas horas conseguimos desembarcar tudo e partimos para a procura de um bom lugar para montar o nosso acampamento.

A onda quebra em uma rasa bancada de corais vivos e muito afiados o que poderia acabar com nossa viagem facilmente, mas para nós, isso não era nenhuma novidade. Mesmo com a água e o tempo bastante quente é normal os surfistas usarem roupas de borracha para se proteger do fundo nesta onda, alguns deles usam roupas completas com botinha e capacete o que não foi nosso caso. Foram 3 dias de muitos tubos e o melhor, sem ninguém na água, a onda era nossa.

Achamos um lugar perfeito, em meio as árvores e próximo a areia, o chão era plano e havia um bom espaço para montar toda

Por: Guilherme Sódre

Indonesia, ilha Sumatra

Indonesia, ilha Sumatra

VIAGEM

nhã e iniciamos a procura pelo barco que iria nos levar até a Ilha. Não demoramos muito para encontra-lo mas demoramos para negociar o preço e comprar algumas coisas que nos eram essenciais como, lona para cobrir o acampamento, água, bujão de gás e comida. Assim que acabamos de comprar tudo que faltava, nos apreçamos para partir pois a viagem até a ilha seria longa. Depois de algumas horas avistamos a tão sonhada ilha. Linda, com mata virgem, areia branca e água cristalina. Ficamos eufóricos e fomos procurar um lugar para montar nosso acampamento o que não foi fácil pois precisamos de um lugar seguro para desembarcar nossas coisas.


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CULTURA

A origem do surfe O homo erectus - surgiu entre 200 mil anos atrás, na África; colonizou a Eurásia e a Oceania há 40 mil anos; a América há 10 mil anos; e a Polinésia há 2 mil anos. A Polinésia é um conjunto de ilhas e arquipélagos - incluindo Hawaii, Tahiti, Samoa, Cook e Páscoa - estendidas sobre uma superfície oceânica com quase 300 mil km² de área. Os homens e mulheres que colonizaram o território desenvolveram uma relação intensa com as ondas do mar. Principalmente se considerarmos que o oceano em questão é aquele chamado de Pacífico. A idéia que os homens “andam” nas ondas desde o princípio da humanidade, por necessidade natural de adaptação ao meio, é comum foi sugerida por Nat Young em sua versão da História do Surfe, publicada há quase vinte anos. Naturalmente, esse hábito foi intensificado nos últimos dois mil anos pelos polinésios, legítimos pioneiros em alto-mar. Por volta do ano 400 DC, um grupo de polinésios proveniente do Tahiti chegou ao Hawaii, onde suplantou os habitantes locais e se estabeleceu. Uma viagem oceânica de milhares de quilômetros, quase um milênio antes do período das grandes navegações européias. No Hawaii, por volta do ano 1000, este povo desenvolveu um meio particular de andar nas ondas: em pé, sobre pranchas de madeira. O que tornou-se uma atividade importante em sua cultura, em parte, talvez, pelas características das ilhas em que viviam. OS havaianos eram regidos por um conjunto de tabus, o kapu; no surfe, haviam regras para o tipo de madeira, o tamanho das pranchas e as praias que podiam ser usadas por nobres e plebeus. Os polinésios não dominavam a escrita e sua história e cultura eram transmitidas oralmente. Cânticos reÁUREA Dezembro

Nat Yound

gistrados décadas após o contato com os ocidentais mencionam episódios envolvendo o surfe que datam desde o século 15. No final do século 18 os havaianos tiveram o primeiro contato com não-polinésios. Os navios do capitão James Cook chegaram em 1778. Cook foi morto, mas os ocidentais retornariam para ficar. Entre 1795 e 1810, com apoio dos novos aliados, Kamehameha, criou uma monarquia e instituiu propriedades. Naturalmente, desses contatos iniciais os primeiros registros feitos por ocidentais da prática do surfe pelos havaianos - relatos e pinturas. A partir do contato com os estrangeiros, a cultura local e o surfe entraram em declínio. O kapu foi abandonado após a morte de Kamehameha, em 1819. A chegada dos missionários no ano seguinte intensificou o processo. Andar nas ondas era uma prática ligada às antigas tradições; prejudicava o trabalho braçal; e os europeus tinham medo dos banhos de mar, por causa das seguidas pragas e do puritanismo da época. Os ocidentais gradualmente tomaram controle do Hawaii e, em um século, a população nativa foi reduzida para um décimo da original. Em 1898, um golpe de estado pacífico fez do Hawaii uma república, presidida pelo filho de um missionário. O território foi anexado pelos EUA e se tornaria o 50º estado norte-americano em 1959. Nesta nova sociedade, o surfe deixou de ser um ritual sagrado, mas sobreviveu. Continuou sendo praticado principalmente Por Cabralsurgiu os homens que o em Gustavo Waikiki, onde espalharam pelo mundo no início do século 20.


Dropando

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SEQUÊNCIAS DO MÊS

Sequencia Felipe Fonseca, Foto: Michel Silva

Sequencia Danilo Grillo, Foto: Rafael Calsi

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COMENTARIO

A TRAGÉDIA DOS NOSSOS BALNEÁRIOS Por: Fred D”orey

Austrália. Que país é aquele? Estive lá em 1981, com Valdir Vargas, Roberto Valério, Cauli e o Rico. Eu tinha 18 anos. Nossa equipe saiu do Brasil pra disputar a perna australiana. o primeiro campeonato foi em Burleigh Heads, no Gold Coast, e deu altas direitas. Assistíamos às baterias sentados num gramadão, cercado por gente bonita, que aproveitava o evento pra fazer piquenique e curtir o sol. Vestiário, sinalização competente e estacionamento. Pra nós, terceiro-mundistas, aquela overdose de civilização parecia coisa do outro mundo. A sensação unânime era de que estávamos num parque de diversões pra surfistas, onde tudo funciona, é limpo... e dá altas ondas! A equipe mandou bem. Valdir e Cauli chegaram até o homem a homem. A night bombava direto. Mark Richards venceu Dane Kealoha na final. Depois, compramos uma lata-velha por AU$ 2,00, que batizamos de “gangorra”, amarramos as 2,2, pranchas no teto e descemos a costa por duas semanas. Mas essa história eu conto depois. O assunto aqui é outro. Só fui voltar lá em 1995, e dessa vez fiquei em Sidney. Mais parques. Mais gramadinhos em frente à praia. Mais vestiários com chuveirinhos. Mais tranquilos finais de tarde com galera curtindo as ondas. E o que isso tem a ver com alguma coisa? WelU pode-se dizer muito de um país pela forma como ele trata seus espaços públicos. E a praia, nosso hábitat, nosso ganha-pão, nosso tesão, nossa vida, é “o” espaço público. Ou deveria ser. Entre todos os países onde estive, El Salvador, Peru, México, índia, Indonésia e Tailândia carregam uma mórbida semelhança ÁUREA Dezembro

com o Brasil. Primeiro, são tão ou mais fudidos quanto a gente. E segundo, esse espaço público chamado praia é tratado com um descaso de quem odeia praia e público. No lugar dos parques, prédios horrendos. No lugar do chuveirinho, esgoto in natura. No lugar da galera tranquila em harmonia com a natureza, a insegurança de que seu carro pode estar sendo arrombado naquele instante. E essa praga tem se propagado por toda nossa costa. A falta de educação e cultura (que os australianos, ex-colonos ingleses, tanto prezam) está transformando nossos balneários em algo indescritível. Fica tudo com cara de São Cristovão (bairro do subúrbio do Rio), com suas construções-caixote, seus luminosos de mau gosto, seus supermercados e postos de gasolina nas avenidas principais e os predinhos com esquadria de alumínio e vidro fumê surgindo ameaçadores no horizonte. E ninguém faz nada, ninguém se importa. Mas por que na Austrália é diferente? Simples, com educação e cultura, você rapidinho descobre que não se pode matar a galinha dos ovos de ouro. Que o turismo só vai rolar enquanto as características locais e a natureza daquele balneário estiverem preservadas. Com educação e cultura, esses políticos que acabam com o nosso país não estariam eleitos, porque você saberia que o importante è qualidade de vida e não demagogia barata. Amo Saquarema. E, sem dúvida, a melhor e maispower onda do Brasil, talvez nossa única internacional. Já tive casa alugada por dois anos e tenho alguns bons amigos vivendo lá. Foi em Itaúna que vivi


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uma das maiores emoções da minha vida ao levantar o troféu de campeão no Town and Country de 1987, última etapa do Circuito Brasileiro daquele ano. Mas nem todo esse vínculo emocional me impede de ficar triste com o que estão fazendo com a cidade. Os contínuos assaltos desvalorizaram os imóveis, o plano diretor foi modificado, fazendo surgir os horrendos predinhos (quem é o “fdp” que projeta essas coisas!?), que já estão lá sem se preocupar com saneamento básico, enquanto as ruas continuam de terra e mal iluminadas. Com isso, a cidade perdeu de desfrutar os investimentos que uma administração responsável traria, gerando empregos, com hotéis, pousadas e restaurantes bombando. E assim Saquarema está sendo esquecida por culpa da própria incompetência. Isso não está acontecendo com Itamambuca, no Litoral Norte de São Paulo. Talvez os paulistas, por viverem na pior cidade da América do Sul, tenham tomado o maior cuidado com o pico onde passam seus fins de semana. Pra nós, cariocas, pode até parecer difícil visualizar, mas imaginem uma praia lotada sem nenhum mísero papel no chão. Se num passe de mágica as pessoas desaparecerem, a praia volta a ser virgem. As muitas construções de megacasas e condomínios que pipocam refletem uma atitude quase respeitosa pela areia, procurando disfarçar o máximo possível sua presença com árvores e jardins. E lógico que essa minha leitura é apressada, com certeza a praia deve ter “trocentos” problemas. Mas, mesmo assim, já está em outro patamar, e se cuidar direitinho, pode durar ainda

muito tempo. Esse fim de semana que passei em Itamambuca me deu uma pontinha de esperança. Tudo bem, impossível não se abater com o fato de que Saquarema podia ser perfeitamente a nossa Itamambuca. Mas que o exemplo de cidadania e modernidade que a comunidade do surf exerceu (pois é ela quem está shapeando o pico) nessa praia do Litoral Norte possa ser exportado pra outros balneários ainda de futuro incerto, como Garopaba, Guarda, Pipa, Lagoa da Conceição, Porto de Galinhas e Fernando de Noronha (entre tantos outros). Todos eles vão mal e, na real, já estão indo pro brejo, mas ainda podem dar a virada. E como os surfistas não são mais aqueles moleques cabeludos sem voz, mas executivos bem-sucedidos, jornalistas de respaldo, ambientalistas consci-entes, herdeiros pilotando corporações, gente formando opinião, pode ser que o rumo da história mude. Faço a minha parte, minha consciência está tranquila.

Saguarema, Rio de Janeiro, Brasil

COMENTARIO

Burleigh Heads, Austrália.


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CAMPEONATO

ASP WORLD TOUR BILLABONG PRO SANTA CATARINA COM MUITA PERSONALIDADE, JADSON ANDRÉ FAZ HISTÓRIA AO DERROTAR KELLY SLATER NA DECISÃO DO BILLABONG PRO SANTA CATARINA, TERCEIRA ETAPA DO ASP WORLD TOUR 2010, DISPUTADA DE 23 A 29 DE ABRIL NA PRAIA DA VILA, IMBITUBA. COM A CONQUISTA, JADSON ASSUMIU A QUARTA POSIÇÃO NO RANKING E QUEBROU DOIS TABUS: É O PRIMEIRO SURFISTA DO PAlS A VENCER ESTE EVENTO E ACABOU COM O JEJUM DE 12 ANOS SEM VITÓRIA DE UM BRASILEIRO EM CASA. Por RICARDO MACARIO

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ASP WORLD TOUR BILLABONG PRO SANTA CATARINA

causado pela derrota para um estreante, e ainda por cima brasileiro. A vitória de Jadson André em Imbituba é relevante em vários aspectos. Ele foi o primeiro brasileiro a vencer essa etapa do ASP World Tour, realizada desde 2003; foi o primeiro es treante a vencer uma etapa depois de Bobby Martinez, em 2006 no Tahiti; o fato de ter derrotado Kelly Slater, que vinha embalado pela vitória em Bell’s Beach e defendia o título na Vila, além de estar focado na busca pelo deca, é ainda mais impressionante - apenas Teco Padaratz tinha vencido Slater numa final do Tour, há 16 anos, na França. Mas o principal mérito de Jadson foi ter vencido uma etapa extremamente estratégica: primeiro porque, sendo realista, o Brasil é justamente uma das arenas que ele tinha chances de se dar bem, considerando que o número de integrantes na elite será reduzido de 45 para 32 atletas a partir do quinto desafio do ano, Mais que isso tudo, Jadson deu um tapa na cara da opinião pública especializada internacional, fazendo em sua terceira participação no Circuito Mundial o que ainda não fizeram as atuais “promessas” do ASP World Tour, como Dane Reynolds, Jordy Smith e Cia. Com variado repertório de manobras e um ataque aéreo impecável, ele mostrou ao mundo que chegou para ficar. Sua trajetória até o título começou com a derrota para Neco Padaratz na primeira fase.

Fotos Rodolfo Maia

CAMPEONATO

Seguindo a lógica do efeito borboleta, também chamado pelos cientistas de teoria do caos - princípio segundo o qual um pequeno evento pode ter consequências imprevisíveis, pois resulta num desfecho determinado por ações interligadas de forma quase aleatória a derrota de Jadson André em sua bateria de estreia no Billabong Pro Santa Catarina Que poderia terminar de outra maneira. Quem sabe? Neste caso, o efeito borboleta em questão tem outro sentido. Na hora eu pensei: “Será que isso é um sinal de que vai acontecer alguma coisa boa pra mim neste evento?”. A resposta só veio seis dias depois, e confirmou a intuição de Jadson. Com apenas 20 anos de idade, dono de uma personalidade forte e determinação de sobra, o carismático potiguar superou o imbatível Slater dando ao nove vezes campeão mundial uma boa dose de seu próprio veneno: um coquetel que inclui a frieza necessária para saber jogar a pressão para o adversário e coragem para arriscar tudo nos momentos cruciais.Talvez por isso o americano tenha tentado devolver de bate pronto a pressão, dizendo que Jadson só é uma ameaça em condições como as encontradas na praia da Vila e eventualmente nos outros fundos de areia do Tour. Mas vamos ver se consegue manter o nível de atuação em ondas como Teahupoo e Pipeline”, alfinetou Slater, no alto de seus 38 anos, deixando escapar nas entrelinhas o incômodo


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CAMPEONATO

Depois passou pelo aussie Drew Courtney na repescagem e pelo americano Damien Ho- bgood, campeão na Vila em 2005, na terceira rodada, sempre com somatórios acima de 14 pontos; nas oitavas de final, contra o aussie Luke Munro, Jadson deu show ao somar notas 8.50 e 8.33 e ainda descartar 8.20 e 8.10. Nas quartas, o local de Ponta Negra conseguiu uma virada eletrizante nos minutos finais contra o taitiano Michel Bourez. E na semifinal ele confirmou sua força ao virar contra o americano Dane Reynolds num duelo de gigantes, em que mostrou atitude ao virar novamente no último minuto com uma nota 9. Já Slater estreou perdendo para o português Tiago Pires. Na repescagem passou pelo campeão brasileiro e convidado Messias Felix, do Ceará. Na sequência, despachou. Tanner Gudauskas e depois superou o aussie Chris Davidson. Nas quartas, Slater tirou o sul-africano Jordy Smith e na semi foi a vez de mandar o aussie Owen Wright pra casa. A final rolou em ondas de 1 metro, com formação regular, numa quinta-feira de sol e bom público na praia da Vila. A expectativa da torcida foi aumentando à medida que Jadson ia passando as baterias e, na hora da decisão, era como se fosse o Maracanã lotado em final de Copa do Mundo. Jadson, que quase seguiu carreira como jogador de futebol, soube canalizar essa energia a seu favor ditando o ritmo da bateria. Na primeira onda ele mandou uma batida, um aéreo rodando incrível, mais uma rasgada e um aéreo chutando a rabeta para ganhar 8 pontos. Depois o potiguar veio numa direita com fortes batidas de baÁUREA Dezembro

Fotos Manoela D’Almeida

ckside, somando 6.40 pontos. Slater tentou reagir, mas precisava de 7.91 e o máximo que conseguiu foi 7.50 na última tentativa. Pela vitória, Jadson faturou US$ 50 mil dólares e 10 mil pontos no ranking, que o levaram do 13° lugar para a quarta posição, Já Slater passou a liderar a corrida pelo título mundial, fato que não ocorria desde 2008. Durante a premiação, a organização do Billabong Pro Santa Catarina prestou uma homenagem à família Ronchi devido ao assassinato do jornalista. Edson “Lêdo” Ronchi, figura marcante do surf brasileiro, no começo de abril em Florianópolis. Ciente do ocorrido, Slater ofereceu seu troféu e a camisa de lycra a ícaro e Cícero, filhos de Lêdo, comovendo a todos os presentes com seu gesto.


ASP WORLD TOUR BILLABONG PRO SANTA CATARINA

Jadson também lembrou da tragédia e estendeu a homenagem póstuma a uma tia e à mãe de Luis Henrique “Pinga”, seu manager, falecidas na mesma semana que Lêdo. Sendo ou não um fato isolado, as consequências a longo prazo tendem a ser as melhores possíveis. Brasileiros na prova.. Além dos quatro integrantes brasileiros no Tour (Mineiro, Jadson, Neco e Marco Polo), outros três surfistas brazucas disputaram a competição em Imbituba este ano. Messias Felix, campeão brasileiro, e Tânio Barreto, campeão catarinense, ganharam convites da organização. E Ricardo dos Santos venceu a triagem promovida pela Billabong um dia antes do início da prova. No entanto, apenas Neco estreou com vitória, superando Jadson e Mineirinho na pri-

Por Ricardo Macario.

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CAMPEONATO

meira rodada. Na repescagem, Tânio foi eliminado sem pelo então líder do ranking, Taj Burrow. O mesmo ocorreu com Ricardinho na bateria seguinte, derrotado pelo campeão mundial Mick Fanning, carrasco de Neco na rodada seguinte. Messias ficou na refrescagem, vítima de Slater. E Marco Polo sucumbiu diante do havaiano Fred Patacchia também na repescagem. Mineirinho passou na segunda fase pelo aussie Blake Thornton e depois escovou Patrick Gudauskas na terceira fase, mas caiu diante de Dane Reynolds nas oitavas de final, finalizando a prova na nona posição. Passando a tesoura nos Tops Após a quinta etapa do ASP World Tour, no Tahiti, o grupo de elite será reduzido de 45 para 32 atletas, que irão disputar o título mundial nas cinco provas da segunda metade de 2010. O número de competidores nas etapas também cairá de 48 atletas para um novo formato de 36 surfistas - os 32 com mais quatro convidados. Para o ano que vem, serão mantidos os 22 primeiros colo-cados no ranking final do Dream Tour 2010, com o ranking mundial unificado (ASP World Ranking) classificando mais dez surfistas para a elite de 2011.

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ENTREVISTA

Surf redondo com Jadson É o dia mais feliz de sua vida ? Com certeza. Sempre tive o sonho de chegar ao Circuito Mundial e também de um dia competir com o Kelly Slater, e principalmente vencer uma etapa do Tour. E tudo isso acon¬teceu hoje. Consegui vencer uma etapa ganhando do Kelly na final! Quanto pesou para você ter enfrendado Slater na deciisão ? Antes da bateria não pesou muito. Vim para aprender com os Tops e com os nove vezes campeãs mundiais. Ganhar seria uma consequência. Não fiquei pensando se era o Kelly e sim que, ganhando ou perdendo, eu estaria aprendendo cada vez mais. Foi uma bateria como qualquer outra. Tentei pegar minhas ondas e sabia que se pegassem as certas poderia vencer. Deu certo! Esperava vencer uma etapa tão cedo ? Sim, eu esperava. Vim trabalhando há muito tempo pra isso e sabia que a etapa do Brasil seria fundamental pra mim. Vai ter o corte no meio do ano e teria poucas oportunidades de surfar o tipo de onda que estou acostumado. Por isso vim confortável e confiante para este campeonato. Minhas pranchas estavam alucinantes e cheguei s Você tem alguma estratégia para a próxima etapa ? Ano passado fiquei lá sozinho. É uma onda difícil, e boa. Surfei com locais, Vai ser diferente do Brasil, não terei torcida a meu favor terei que surfar de backside, que é meu ponto fraco. Espero passar algumas baterias para ter boa posição no ranking.

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Jadson levantando o trofeu

Como foi a sua evolução desde a primeira etapa, na GOLD COAST ? sentiu pressão ? Ainda não senti pressão, porque sou o competidor mais novo do Circuito e os outros estão há bem mais tempo. Na primeira bateria lá na Austrália eu estava ansioso, porque nunca havia disputado nenhuma etapa do Tour. Mas comecei o ano com o pé direito, na minha primeira onda ganhei nota 7.17 e isso me deu confiança. Venci o local do pico Dean Morrison logo na primeira bateria. Em Bell’s ganhei do Taylor Knox, um dos melhores do mundo. Aprendi a usar a pressão a meu favor. É meu primeiro ano e vim pra aprender, mas quero evoluir a cada evento. Essa foi a minha vez, fazia muito tempo que um brasileiro não ganhava em casa e isso vai ficar pra história. Em J-Bay sei que vai ser mais difícil.

Qual foi a senssação ti ver uma multidão torcendo por você na Vila ? Só tinha visto algo parecido em estádio de futebol. Gosto de ir aos jogos e fico imaginando o que um jogador sente com mais de 50 mil pessoas gritando. Não era essa quantidade toda na praia, mas consegui ter uma noção do que eles sentem. Mesmo com o barulho do motor do jet ski eu conseguia escutar a galera vibrando e gritando por mim. Foi um dos melhores sentimentos que que ja tive na vida.


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ASP WORLD TOUR BILLABONG PRO SANTA CATARINA

Nem todas as baterias foram vencidas com aéreos. Contra o Luke Munro, por exemplo, fiz a minha melhor onda com rasgada, car ve e floater. Mas sei que os aéreos contam muito no novo critério de julgamento. Eu sabia que se abrisse a onda ou finalizasse com aéreos tiraria notas altas. Você e Kelly se falaram durante a bateria ? Não. Somente antes de entrar na água ele fez um sinal positivo com o polegar e desejou boa sorte. Durante a bateria não falamos uma palavra sequer. Só existe uma pessoa com quem eu falo durante uma bateria, é o Owen Wright (NR: de quem Jadson é grande amigo e era o único atleta além de Minei- rinho no churrasco). Nem com o Mineiro eu falo. Nesta final com o Kelly era como se eu estivesse me divertindo, mas com comprometimento. Acho que foi a bateria que eu estava mais calmo, pois sempre tive esse sonho de competir contra ele e pensei que se isso acontecesse um dia eu teria que estar calmo. As baterias anteriores me deixaram confiante. Como é a sua relaçao com os tops ? Gosto de falar com todo mundo e tenho uma relação legal com todos. Já chego quebrando o gelo, pois estarei com esses caras muitas vezes durante o ano e quero me sentir bem. O Kelly é um cara que brinca com a galera e eu entro na pilha. É bem divertido. O Mick é outro grande exemplo, um cara bem legal e que sempre resolve tudo pra gente. Fico viajando comigo mesmo, pois há dois anos eu era um fã .

De onde vem a sua visível autoconfiança ? Cada vez minha confiança aumenta mais. Nunca tive um treinamento tão profissional como venho fazendo. Faço um joguinho psicológico comigo: penso que o que vier é lucro, apesar de sempre entrar com a ambição de vencer, pois sei que sou capaz. Quando soube que pegaria o Kelly na final, você teve vontade de se vingar da derrota do Mineiro para ele no passado ? Assisti a essa final lá em Balito, na África. Eu tinha corrido um campeonato que me arrasei, estava morrendo de frio na área dos atletas e mesmo assim fiquei lá vendo pelo computador, torcendo pelo Adriano. Mas nunca pensei que pudesse ter uma oportunidade em igual situação. Não pensei em vingança, mas a vitória foi muito boa em todos os sentidos. O que você aprendeu viajando e treinando ao lado de Adriano Mineirinho ? O Adriano é muito confiante e tem o mesmo treinamento que eu. Com certeza é um grande exemplo. Sou muito privilegiado de ter ele como amigo e parceiro de equipe e viagens, um Top 5 que disputa o Tour há cinco anos. Um toque essencial que ele me deu foi em Bell’s Beach, sobre o jeito que os surfistas que usam o pé direito na frente, como eu, entram na manobra de backside. Eu sou bem agressivo, gosto de botar a prancha bem atrás. Mas lá, se colocar a prancha muito atrás, você fica. São toques como esse que fazem a diferença na hora de vencer ou não uma bateria.

Por ELAINE GUTGOLD

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ENTREVISTA

Você ja veiu pensando em usar os aéreos como arma nesse evento ?


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SEQUÊNCIAS DO MÊS

Dropando Nesta sequencia, Fernando Ziliotto, num alucinante tubo no Campeche SC.

Seguência de Fernando Zilioto

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Foto de Vitor Andrade


O nascimento do surfe moderno

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CULTURA Da dir. para esq. Tom Blake, Duke Kahanamoru e George Freeth

Nas primeiras décadas do século 20, o declínio do preconceito em relação ao mar em diversos países coincidiu com o ressurgimento do surfe no Hawaii. Gradualmente, em todo o mundo, as praias tornaram-se ambiente de lazer. O esporte das ondas naturalmente assumiu papel de destaque. Em 1900, pegar onda com antigas pranchas havaianas de madeira era uma atividade recreativa praticada basicamente em Waikiki. Nesta praia, George Freeth, aprendeu sozinho a surfar em pé. Tornou-se, possivelmente, o primeiro surfista de origem ocidental. Em Waikiki, George Freeth foi apresentado ao famoso escritor Jack London. Do encontro surgiu uma das primeiras obras literárias sobre o surfe. Freeth fez demonstrações na Califórnia, em 1907, introduzindo o esporte no continente. Freeth ficou na Califórnia; tornou-se o primeiro salva-vidas oficial dos EUA; inventou um equipamento usado ainda hoje em salvamentos. Foi considerado o pai do surfe moderno. Nesse cenário de redescobrimento do surfe, um jovem de linhagem havaiana despertou a atenção mundial a partir de 1911: Duke Kahanamoku, embaixador do esporte das ondas e do Hawaii. Kahanamoku, seu principal mérito como surfista, contudo, foi disseminar a prática do surfe em suas demonstrações pelo mundo. inclusive na Austrélia atualmente a maior potencia mundial do surf. O surfe ganhou adeptos na Califónia. Entre eles um que revolucio-

nou o esporte: Tom Blake. que trouxe inovações notáveis, entre elas: a hollow board (prancha oca), em 1926, mesmo ano em que inaugurou Malibu; o windsurf, em 1931; a prancha de surfe com quilha, em 1934. Outros que despontaram na Califórnia no mesmo período foram John Doc Ball (fotógrafo aquático) e Woody Brown (inventor do catamarã). Ambos mudaram-se para o Hawaii, onde, junto com Rabbit Kekai e John Kelly, tornaram-se pioneiros no surfe de ondas grandes. O surfe ganhou adeptos no Hawaii, dos EUA, na Austrália, na África do Sul; surgiu a produção comercial de pranchas, os beach clubs. A evolução das pranchas - que perderam tamanho, peso e ganharam quilha - teve ainda outro capítulo importante em 1937. Wally Froiseth, junto com Fran Heath e John Kelly, afinou as rabetas das pranchas que usavam no Hawaii, criando as primeiras pintails - que possibilitavam andar lateralmente nas ondas. A praia onde fizeram isso foi Makaha, Dois anos depois, foi a vez de Sunset Beach. Abriu-se uma nova fronteira para interessados em ondas grandes: o north shore de Oahu. Freeth, Kahanamoku, Blake, Brown, Froiseth e seus contemporâneos personificavam o surfista ideal da época: atletas, olímpicos ou quase, empreendedores, homens capazes de não apenas lidar com os difíceis equipamentos, mas de construí-los e inová-los. Por Gustavo Cabral ÁUREA Dezembro


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O NASCIMENTO DO SURFE PROFISSIONAL Há quem afirme que o primeiro surfista profissional da história foi George Freeth, contratado em 1907 por Henry Huntington para fazer demonstrações de suas habilidades na Califórnia. O atleta profissional como o conhecemos hoje, contudo, só surgiu com o advento de competições constantes, com premiação em dinheiro. E quando surgiram os campeonatos de surfe? Antes da chegada dos ocidentais, os havaianos realizavam anualmente um festival chamado Makahiki, que durava quatro meses e incluía celebrações e atividades esportivas. Na era do surfe moderno - a partir de 1900 - houve competições anteriores a década de 50, como as anuais promovidas por Tom Blake, em Corona del Mar, dos anos 20 aos 40. Na Califórnia e na Austrália, elas se tornaram frequentes com o surgimento dos beach clubs e dos serviços de salva-vidas. As competições (assim como o surfe) desse período eram bem diferentes das atuais, e geralmente incluíam disputas de remada e tandem. O Makaha International, a partir de 1954, consta como o primeiro campeonato da história com status de mundial - apesar de não ter premiação em dinheiro. Restrito a havaianos e californianos nas primeiras edições, tornou-se de fato internacional depois que Bud Brown mostrou filmagens de Makaha na Austrália. Alguns tornaram-se históricos - como o Duke Kahanamoku Invitational (inaugurado em 1965) e o Smirnoff Pro (em 1969), no Hawaii. Outros perduram até hoje, como o Gunston 500 (atual Mr Price), criado em Durban, na África do Sul, em 1969; o Pipeline Masters, em 1971; e o Bells Beach Classic, em 1973 na Austrália. A partir do final dos anos 60, as ÁUREA Dezembro

Nativo em Diamond Head

Os primeiros campeonatos

competições passaram a oferecer premiação em dinheiro - um dos primeiros foi o Duke Classic de 1968. A novidade deixou as disputas menos amigáveis e mais agressivas, dividindo opiniões. Enquanto alguns gradualmente abandonaram as competições, outros viram uma oportunidade de carreira - estavam lançadas as sementes do surfe profissional como é conhecido atualmente. Os primeiros mundiais de fato - houve seis entre 1964 e 72 - ajudaram a refinar formatos de disputa e critérios de julgamento, não padronizados até então.A vitória de um local - novamente Farrely - sobre os favoritos americanos Joey Cabel e Mike Doyle inaugurou uma rivalidade histórica entre os países em competições de surfe. Peru, Califórnia (duas vezes), Porto Rico e novamente Austrália receberam os mundiais seguintes. A idéia dos campeonatos mundiais, no entanto, perdeu força; para que fosse significativo, o título teria de ser definido de forma mais elaborada. Como através de um circuito com etapas ao redor do mundo - o que enfim aconteceu em 1976. Destes primeiros mundiais, a edição de 1966, em San Diego, Califórnia, teve grande importância histórica. Pela primeira vez, o campeão - o


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Os primeiros campeonatos

australiano Nat Young - foi um surfista estrangeiro ao país-sede, um marco em termos de julgamento. Young usou uma prancha de dimensões bem menores que seus adversários - a Magic Sam, desenvolvida em parceria com Bob MacTavish e George Greenough - que lhe possibilitava surfar no crítico da onda, sem perder velocidade. Logo as pranchas diminuíram drasticamente de tamanho em todo o mundo e o nose riding deu lugar à busca pelo tubo e às manobras. Promotor de diversos eventos no Hawaii incluindo Smirnoff, Pipemasters e o World Cup -, Fred Hemmings esteve a frente da criação da primeira entidade mundial de surfe profissional, a IPS, em 1976. Naquele ano, a definição do primeiro título mundial foi retroativa. Somados os resultados ao final do ano, um bronzed aussie - Peter Townend - foi o primeiro campeão, mesmo sem vencer nenhuma etapa. Ian Cairns, Wayne Bartholomew, Shaun Tomson, Mark Richards e cia ficaram conhecidos como a geração Free Ride por causa do filme homônimo, com imagens do inverno de 1975 no Hawaii. A nova geração tinha uma atitude mais agressiva nas ondas, o que sacudiu o status quo - os citados acima dominaram os pódios durante alguns anos. Em 1976, Bartholomew declarou essa nova supremacia em um artigo na revista Surfer; Bustin Down the Door desencadou uma onda de violência e localismo no inverno seguinte, contida com a intervenção de Eddie Aikau. A IPS comandou o tour durante sete temporadas, até ser substituída pela atual ASP, em 1983, e a geração Free Ride dominou: Tomson foi campeão em 1977, Bartholomew em 78, Mark Richards nos quatro anos seguintes. Nesse período, apenas duas no-

vas regiões ingressaram no tour: o Japão estreou com força em 1979, com quatro eventos, e Bali com uma etapa por ano a partir de 1981. Ser um exímio nadador deixou de ser pré-requisito para surfistas; e cair da prancha não significava mais perder um longo tempo recuperando-a. Algumas inovações foram à prova no segundo circuito mundial, em 1977. A etapa inaugural - o primeiro Stubbies Classic, em Burleigh Heads - estreou um formato inovador anunciado por Peter Drouyn no final do ano anterior: o sistema homem-a-homem. Até então, as baterias tinham seis surfistas. Também na Austrália, os organizadores proibiram o uso de cordinhas nas fases finais. Foi a gota d’água para que elas se tornassem padrão entre competidores a partir do evento seguinte. As primeiras publicações especializadas no esporte, como as norte-americanas Surfer (1960) e Surfing (1964), e as australianas Australia’s Surfing World (1961) e Tracks (1970), todas ainda em circulação. Entre o final dos anos 70 e início dos 80 também aconteceu a última grande inovação em design de pranchas: a multiplicação das quilhas. Mark Richards popularizou as biquilhas e com elas dominou o circuito por quatro anos. Em 1981, outro australiano - Simon Anderson - consagrou as triquilhas com três vitórias no tour, entre elas Bells e Pipeline. Em 1983, a IPS virou ASP; o tour não teve etapas no Hawaii e passou a ser encerrado na Austrália. Por Gustavo Cabral

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DELÍRIO

ESPECIAL ESPECIAL 1º EDIÇÃO EDIÇÃO 1º

Foto Renato Gama

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DELÍRIO

Foto Renato Gama

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INFOGRAFIA

Tunando sua prancha RABETAS

As rabetas influenciam no estilo de manobra que você pratica vejo estilos e modelos

Você que surfa, deve saber que a boa performance, de sua prancha, para sua estilo de surf, depende de pontos específicos , descubra aqui quais pontos você deve levar em consideração, quando for compra, ou mandar fazer sua prancha

ROUND ROUND Ideal para pranchas pequenas e médias. Excelente para manobras mais redondas. SWALLOW Proporciona m a n o b r a s com uma linha quebrada

SQUASH Ideal para quem gosta de velocidade e manobras fortes e longas. É a mais popular e que melhor se adapta ao surf hot dog.

SWALLOW FISH Outra rabeta que torna a linha de surf mais quebrada e radical.

ROUND SQUASH Características para um surfe de velocidade com manobras fortes e longas, é a mais popular entre os modelos de rabeta. Ideal para ondas pequenas e médias.

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ROUND PIM Tem como objetivo manter a prancha com uma curva firme e segura.

BORDAS As bordas influenciam, diretamente na flutuação da prancha, veja estilos e modelos As bordas em geral se dividem em três dimensões, baixa, média e alta. De acordo com a onda que será surfada, características da prancha e o gosto do surfista; será definida a borda que se encaixa melhor a cada design ALTA

MEDIA

BAIXA

DIAMOND Tem o memso funcionamento de uma rabeta Squash: velocidade associada a manobras fortes e longas e surf hot dog.

DURA Bordas com um contorno inferior menos arredondado, deixa a prancha mais veloz, porem mais difícil de controlar.

CHANFRADA Borda muito utilizada em Pranchões. Possibilita um ganho de velocidade e controle nas onda.

50X50 Borda dos Pranchões Clássicos, devido as grandes dimensões. Tipo de borda é fundamental para um bom controle.

ROUND SWALLOW Características parecidas com a Swallow Fish, sendo muito dificil distingui-las na agua, proporciona manobras pouco mais quebrada.

SUAVA bordas com contorno inferior arredondado, deixando a prancha mais solta. Porem deixa a prancha mais lenta.

EDGE Quina que fica no contorno da borda com o fundo da prancha. Utilizado em qualquer tipo de borda.


27 CANALETAS TURBO 2, 4 OU 6

CONCAVE

Assim como a “Flecha Dupla” são utilizadas no meio da prancha e proporcionam maior velocidade e projeção, sem perder a manobrabilidade.

São utilizadas no final da rabeta. Auxiliam na retomada da velocidade no final das manobras, deixando a prancha mais firme e direcional.

Aplicado em pranchas estreitas para ondas rápidas, deixa a prancha mais direcional e veloz. Muda muito de característica dependendo aonde é aplicado: no fundo inteiro (full concave), só no meio (concave) ou só na rabeta (tail concave).

INFOGRAFIA

CANALETAS 2 AV

FUNDO VEE FUNDOS Os funtos enterferem na velocidade da prancha veja estilos e modelos.

A “Flecha Dupla Concave” e a Flecha dupla Mista são utilizada no meio da prancha, proporcionam maior velocidade e projeção, deixando a prancha mais estável, no entanto, são soltas durante as manobras devido aos concaves.

Normalmente o fundo Vee é usado antes as quilhas, auxilia na troca das bordas rapidamente. Faz uma boa combinação com meios Flats.

O fundo flat por inteiro de borda a borda, é reto. Este tipo de fundo é o mais básico e o que manos interfere na performance da prancha, adaptando-se facilmente a qualquer tipo de prancha

FLECHA DUPLA CONCAVE

FLECHA FLAT

FLECHA DUPLA MISTA

FLECHA DUPLA

FULL CONCAVE

DUPLO CONCAVE

A Flecha dupla, assim como as canaletas 2 AV, são utilizadas no meio da prancha e possuem características semelhamtes, proporcionam maior velocidade e projeção, sem perder a manobrabilidade.

Full concave usada em pranchas estreitas as deixa mais direcional eveloz. Muda de característica dependendo aonde é aplicado: no fundo inteiro (full concave), só no meio (concave) ou só na rabeta (tail concave).

Duplo concave, um de cada lado da longarina , inician, do meio do shepe e alongado-se até o final da rabeta. pode ser combinado com todos os tipos de fundo, Deixa a rabeta um pouco mais solta.

Fonte www.tropicalbrasil.com.br

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A CONSAGRAÇÃO DO SURFE PROFISSIONAL Desde o surgimento das competições, o calendário do surfe mundial foi naturalmente definido pelas ondas: começa na Austrália, e termina no Hawaii. Só foi alterada durante cinco anos, na década de 1980. Quando a ASP substituiu a IPS - e Ian Cairns a Fred Hemmings - no comando do circuito mundial (1982/83), a temporada começava na metade de um ano e terminava na Páscoa do seguinte, na Austrália. Os campeonatos no Hawaii não eram sancionados e quem os disputasse perdia os pontos no ranking mundial - o que custou um título mundial a Dane Kealoha. Sobravam exemplos no tour de que talento não bastava; Carrol conquistou dois títulos seguidos (1983 e 84) sobre veteranos como Bartholomew e Shaun Tomson, consagrando a noção de que treinamento para surfista era mais do que surfar - exigia academia. Em 1984, logo após o bicampeonato Carrol originou um boicote contra o Apartheid - um gesto de politização do esporte que atraiu adesões, homenagens e também críticas. Em 1988, empresariado pelo polêmico Peter Mansted, assinou com a Quiksilver o primeiro contrato de um milhão de dólares do surfe profissional. No fim do ano, uma interferência tola no Pipemasters lhe custou o tricampeonato. Nos anos 80, o surfe afastou-se da associação com o movimento hippie da década anteÁUREA Dezembro

rior, do estigma de vagabundos, de abuso de drogas. O tour era disputado em ondas das mais diversas, muitas vezes pequenas. A Europa estreou no circuito mundial, primeiro com Inglaterra e França (1983), depois Espanha (1988) e Portugal (1989). O Hawaii só foi reintegrado ao tour em 1988; mas, com suas competições tradicionais, mesmo não ranqueadas, manteve-se como arena definitiva do esporte. E Carrol, como Gary Elkerton, manteve a reputação australiana de ampliar os limites do possível em ondas grandes. O domínio australiano afinal só foi quebrado nos anos 80 por Tom Curren que também tinha a determinação no treinamento como diferencial: ele simbolizou a perfeição em seu tempo. Foi campeão incontestável por duas temporadas seguidas (1985 e 86); retornou como trialista em 1990 para conquistar o tricampeonato. É apontado como o surfista mais influente de sua geração. Em 1981, Martin Potter estreou no tour com duas finais seguidas na África do Sul. Oito anos mais tarde, ao ser campeão mundial com ampla vantagem sobre os demais, Pottz consagrou uma técnica então inovadora no surfe: o floater. Em 1984, outro jovem - Mark Occhilupo - tomou o tour de assalto também na África, em Jeffrey’s Bay. Durante quatro anos, Occy travou duelos históricos principalmente com Curren. Não conseguiu


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Tom Currem Esq. Sua passagem por Floripa. Abaixo autografando para um fã

Martin Potter

Tom Carrol

CULTURA

triunfar em um circuito, para alguns, viciado. O título mundial só viria 15 anos depois. Imagens de Carrol, Curren, Occy, Pottz e cia correram o mundo em filmes como Blazing Boards; o advento do videocassete teve forte impacto no surfe. No final dos anos 80, uma nova potência veio dividir espaço com Austrália, EUA e Hawaii: o Brasil. Como muitos outros países, o Brasil conheceu o surfe no pós-guerra; talvez pelo natural empreendedorismo de sua gente, integrou o circuito mundial desde a primeira edição. Em 1987, organizou enfim seu primeiro circuito nacional. No ano seguinte, Fábio Gouveia surpreendeu o mundo ao conquistar o título mundial amador em Porto Rico. Em 1989, ele e Flávio Padaratz começaram a disputar o circuito integralmente. Na década seguinte, os brasileiros provariam que haviam chegado para ficar. Em sociedades cada vez mais consumistas, não apenas o surfe, mas derivados como o skate e o windsurf caíram nas graças da mídia e das massas. O crescimento foi tamanho que era preciso fragmentar, levando a criação de circuitos específicos. Nat Young venceu o primeiro tour mundial da categoria, em 1986. O surfe profissional estava definitivamente instituído, inclusive o feminino, integrado ao tour mundial da ASP desde os anos 70. Mas, como duas décadas antes, quando acabaram-se os mundiais, clamava-se por mudanças. Criticava-se o excesso de etapas por temporada; a baixa premiação; os critérios de julgamento; e até o mérito de campeões. Era preciso definir novos rumos; na busca de soluções, o surfe tornou-se cada vez mais especializado na década seguinte. Os anos 90 viram a divisão do circuito em dois e o surgimento de um ídolo inquestionável para direcionar os novos tempos. Ironicamente natural de um breachbreak de ondas medíocres, ele dominou - continua dominando - o surfe como ninguém antes: Kelly Slater.


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A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E CULTURA DO SURFE

A famosa foto de Makaha publicada em 1953

A Segunda Grande Guerra mudou o mundo de forma irreversível e, obviamente, o surfe também. Mudaram o mapa, os equipamentos, os surfistas. Duas descobertas dos anos 50, relacionadas com o esforço da guerra, facilitaram a prática e ajudaram na popularização do esporte nas décadas seguintes. Primeiro, a roupa de neoprene. Jack O’Neill e os irmãos Bob e Bill Meistrell estão entre os creditados pela inovação. A proteção contra o frio abriu novas possibilidades aos surfistas e deu origem a um nicho industrial tão significativo quanto o de pranchas. Segundo, as pranchas passaram por uma revolução com o surgimento do poliuretano e da resina, que gradualmente substituíram a matéria-prima da época. A produção comercial de pranchas, inaugurada na Califórnia no final dos anos 30, ganhou novo impulso a partir da década de 50 com produtos mais baratos, práticos e leves. Com isso o número de surfistas cresceu e muitos fabricantes abriram pontos-de-venda, as primeiras surfshops. Após a Grande Guerra, o surfe tornou-se conhecido especialmente no Hawaii, Califórnia e Austrália. Na Califórnia, os anos 50 foram de Malibu e Miki Dora, ícone de um novo estilo de vida, la criou-se um novo estilo de surfar (o hot dog). A “cultura surf” passou a produzir filmes, músicas,livros e revistas. Eventualmente, o estereótipo do surfista nômade em busca de ondas perfeitas veio contrapor o do local que raramente se afastava de sua comunidade. Com a nova cultura surgiu a demanda por uma identificação maior, dando origem à surfwear. Desta tríade - surfboars, wetsuits, surfwear - nasceram na década seguinte gigantes como Billabong, Quiksilver, Rip Curl, Gotcha. O Hawaii passou de berço a meca do surfe. Em 1953, um jornal na Califórnia publicou uma foto de Woody Brown, George Downing e Buzzy Trent dropando uma onda enorme em Makaha. A imagem levou um número crescente de surfistas - como Fred van Dyke e Peter Cole - a intensificar a exploração do north shore de Oahu. Uma das principais arenas do surfe na época, Makaha sediou em 1954 um campeonato organizado por Wally Froiseth e vencido por George Downing. Foi um prenúncio das mudanças que viriam na década seguinte, com o intensificação das competições e o surgimento do surfe profissional. ÁUREA Dezembro


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