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Artigo convidado: Papo de Homem

BOM DIA!

por Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do Papo de Homem, co-fundador d’o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres e professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Texto publicado em 9 de junho de 2016. [revisado]

Quase toda semana nos perguntam: “Por que o site se chama Papo de Homem? Esse nome não seria excludente, clube do bolinha demais?”

Respondo que não. A ideia é desconstruir os limites do que seria um papo de homens. Acreditamos que há vida além de mulher, cerveja e futebol, e dos papéis de gênero usuais. Afinal, papo de homem não é papo de hétero.

Não aspiramos impor que “o diferente é que é legal”. Só quebramos as caixinhas de sempre pra mostrar que é ok ser como quisermos. “O diferente também é legal” seria nossa mensagem. Mais nada.

Enxergo nossa jornada editorial ao longo dos anos como um processo bem humano. Mais do um veículo, somos uma comunidade. Nascemos de uma roda de homens confusos que conversava pelo Yahoo Groups. Não dá pra dizer que, mais de dez anos atrás, nossa visão já era assim, toda arrumadinha e estruturada, com artigos explicando homens possíveis e propondo amores menos fantasiosos. Começamos querendo ser mais felizes e nos ajudando a sofrer menos, mas cheios de cegueiras.

Por exemplo, nos sentíamos os cavalheiros conscientes e bonitões da bala chita, sem nos dar conta do quão machista e arrogante era a postura de vários dos textos publicados. Perdi a conta de quantas besteiras falamos ao longo dessa década de existência – muitas assinadas por mim. O editorial andava junto com o sangue da comunidade, que ainda pulsa por trás de cada artigo.

Desse reconhecimento do PdH como um veículo acima de tudo humano, surgiu uma capacidade de nos levar menos a sério e ajustar a rota com mais facilidade. Errar e escutar faz parte de nossa rotina, não é uma vergonha pra nós. É o que pessoas de bom senso fazem todos os dias, acho.

“Se algo faz sentido, podemos experimentar”, um dos lemas da casa.

Expandir o olhar do sensual iniciado pela série Bom dia para além da heteronormatividade – termo usado para descrever situações nas quais orientações sexuais diferentes da heterossexual são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas – faz muito sentido.

Pra quem não sabe, a série começou em setembro de 2011 regida por um olhar bem objetificador, ainda que exploratório e curioso em sua essência (fizemos um Google Docs compartilhando aspirações do projeto, com todos da casa). Nove meses depois, tornou-se para maiores de 18 anos com fotos mais explícitas.

Com o passar do tempo, as pauladas recebidas, muito diálogo nos comentários e nas reuniões de pauta, com paciência pra entender que processos são construção e não botões de liga-desliga, com ajuda dos fotógrafos e fôlego incansável do Jader Pires zelando pelo amadurecimento dos ensaios publicados, fomos melhorando.

Gay também é homem. E homem hétero pode gostar de ver outros homens, por curiosidade, pra querer saber como são outros corpos e paus que talvez tenha medo de olhar no vestiário, pra superar neuras de uma sociedade falocêntrica – a convicção baseada na ideia de superioridade masculina, na qual o pênis ereto representa o valor significativo fundamental –, que às vezes parece idolatrar rolas e dizer que homem bom é pauzudo, fodedor, ambicioso, de família e de sucesso. Essa noção de masculinidade pode ser aprisionante.

O primeiro homem apareceu somente em novembro de 2014, quando a fotógrafa Dani L. resolveu expandir seu trabalho para o corpo nu masculino (até esta edição 28 ensaios do Bom Dia com nudez masculina foram realizados.) O Bom dia tornouse um espaço pra diversidade.

Queremos ser mais acolhedores com outros tons de pele e corpos e orientações sexuais. Por isso, nossa intenção é que a série cresça. E que sejam publicados cada vez mais ensaios de homens, de homens e mulheres negras e também de mulheres e homens com corpos fora do padrão. Falta, quem sabe, coragem.

Ninguém é obrigado a gostar de todos. Basta acessar e comentar os que lhe apetecem e ignorar os demais. Não estamos aqui pra colocar cabresto em vocês, só queremos oferecer algo que já poderia estar na mídia há muitíssimo tempo, que talvez só não aconteça ainda por falta de alguém dar o primeiro passo.

Sendo então em prol da democracia e diversidade de corpos, paus, bucetas e peitos, também em defesa dos múltiplos olhares e interpretações para o sensual, fantasias, taras e tesões desse mundão que não acaba mais, abrimos o convite para receber uma enxurrada de ensaios com homens. Fotógrafos de talento, cliquem. Homens dispostos, se façam fotografar: Quebrem essas caixas!

O convite vale também para o que mais faltar no Bom dia. Fotógrafos, fotografem mais corpos e tons de pele fora do padrão e nos enviem. Há poucos ensaios com pessoas negras, não-magras, deficientes. Convidadíssimos estejam. A exploração do Bom dia – em torno do nu, sensualidade e sexualidade – segue. 8=D

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