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Tô em Foco - Guerda junho 2020

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Revista TĂ´ em Foco | Abril.2020


Revista TĂ´ em Foco | Abril.2020

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Sumário 8e9

Essa Mulher Ela é... Guerda Tiziane Adão

10 e 11

“Minha infância me forjou no fogo”

12 e 13

16 e 17

Verdades da lei da

Estavam todos muito ocupados

Maternidade súbita ... E agora?

18 e 19

Violência doméstica....

Casamento, traição e perda Aprendizados profissionais

22 e 23

28 e 29

Na trilha da ascensão profissional

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Relação com a filha

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Transformando a dor em aprendizado

32

Preconceito Das coisas que vivi e ouvi na vida...

... O maior desafio

20 e 21

Início de uma nova vida

Você pode ser quem você quiser

sobrevivência

14 e 15

24 e 25

Muitas mudanças e a mudança de rumo

33

Relações familiares

35

Minha mãe | Meu pai

36 e 37

Só mais um pouquinho sobre mim...

Expediente Fábrica de Revistas Tô em Foco contato@fabricaderevistas.com.br 41 99961-6203 / 99647-2764 www.fabricaderevistas.com.br

Produção: Andrea Adelio e Sandro Oliveira

Revisão Ortográfica: Emerson Corso

Textos e edição: Andrea Adelio

Projeto gráfico: Aldemir Batista

Fotografia: Sandro Oliveira

Jornalista Responsável: Andrea Adelio - DRT 4030/PR

Distribuição dirigida / Venda proibida

Os textos foram produzidos a partir da narrativa da Guerda Tiziane Adão e os conteúdos são de sua inteira responsabilidade


Uma (bela) história de transformação pessoal “A ruína é uma dádiva. A ruína é o caminho que leva à transformação” (do livro Comer, Rezar e Amar)

A

o se lançar à proposta de narrar a sua história em uma revista personalizada pela Fábrica de Revistas Tô em

Foco, Guerda está permitindo que muitas pessoas possam se inspirar, se espelhar e se transformar. Além de um lindo ensaio fotográfico, aqui você vai encontrar o relato emocionante de alguém que atravessou os limites do caos, teve medo, mas teve fé, teve perdas, mas suportou, teve coragem e mudou. Escrever a sua biografia e registrar estas imagens nos trouxe, não apenas a satisfação do trabalho realizado, mas principalmente a certeza de estarmos diante de uma oportunidade ímpar de perpetuar uma história de vida impressionante. Somos muito gratos por isso! Mergulhe nestas páginas e boa leitura! Andrea Adelio Editora


Essa mulher... ... já superou desafios ... já realizou sonhos ... já sofreu

... já fracassou

... já celebrou conquistas

Essa mulher ... é corajosa ... é ousada ... é inquieta ... é determinada

Essa mulher ... é a filha vitoriosa ... é a irmã inspiradora ... é a mãe protetora

Essa mulher ... é a empresária admirada

Essa mulher ... cumpre a sua missão!

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Ela é... GUERDA TIZIANE ADÃO Nascida em 31 de julho de 1983, Guerda é sinônimo de triunfo. Não apenas por comandar equipes de colaboradores, em seus dois empreendimentos diferenciados em Curitiba, entre outros feitos dignos de admiração e descritos nas próximas páginas desta revista mas, principalmente, pela sua trajetória de menina pobre, negra e marginalizada, a exemplo de superação e sucesso. Não, esta não é apenas mais uma história de uma garota da favela que foi descoberta por um olheiro e, de repente, viu seu mundo se transformar. E bem que poderia ter sido assim, pois trabalhar como modelo fotográfico também está entre as suas multitarefas. Mas, definitivamente não. Guerda conquistou “com as próprias mãos” o espaço de destaque que ocupa hoje junto à classe de empreendedoras bem sucedidas. Tristeza, dor e sofrimento já ficaram para trás e as experiências do passado ajudaram a compor os valores que formam a sua personalidade. A proporção dos eventos obscuros que enfrentou durante a infância e a adolescência está diretamente ligada à sua disposição em se desenvolver, prosperar e contribuir com o próximo. Sua história é a prova de que há sim, exceções na vida, e que nem tudo o que experimentamos na infância precisa, necessariamente, determinar o nosso futuro. Sua história é surpreendente, é impactante, é inspiradora!

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Guerda Tiziane (uma alemã), era o nome do primeiro amor do seu pai. Como a sua mãe não sabia de nada, aceitou dar este nome à filha. Anos mais tarde, descobriram que o nome Guerda - que em português se assemelha ao nome Geralda, era o nome da sua avó. Assim, consideraram uma homenagem à mãe do seu pai. Nome do Pai: Cláudio Benedito Adão

Nome da mãe: Ana Izabel Pires

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“Minha infância me forjou no fogo” As experiências negativas começaram cedo. Violência, dependência química e abusos, roubaram o espaço das brincadeiras e a inocência de criança.

“

Foi ali que começou a minha sina de querer fugir. E eu fiz isso antes mesmo de completar sete anos, mais de uma vez.

”

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EM BUSCA DE UM ÔNIBUS VERDE Os bairros Itatiaia, Nossa Senhora da Luz e Vila Sandra, na Cidade Industrial de Curitiba, foram os cenários da infância e parte da adolescência de Guerda. Os pais se separaram quando tinha seis anos e apenas um irmão, na época, com um ano de idade. Ela conta que a mãe sempre fora dependente química e o pai sempre bebia. Embora nunca o tivesse visto bêbado, sabia que bebia todas as noites. Apesar disso, o local em que moravam, até então, tinha uma realidade melhor, considerando o que estariam para enfrentar, a partir do momento que a mãe fora morar com seu novo marido e a levou com seu irmão. Lá, eles passaram a conhecer as maiores dificuldades, pois todos os familiares do seu padrasto eram dependentes químicos e frequentavam a casa, levando ao ambiente todo o contexto de vidas marcadas pela drogadição. “Foi ali que começou a minha sina de querer fugir. E eu fiz isso mais de uma vez, antes mesmo de completar sete anos. Não sabia nem ler e nem escrever. Até que, um dia, peguei um ônibus verde pois ele passava perto da casa da minha avó paterna e eu queria morar com ela.” Assim, na busca de encontrar a casa da avó, ela foi parar no zoológico e não encontrou o seu destino. Decidida a não voltar para casa quis morar no terminal ou quem sabe na porta da igreja. Mas, perdida, assustada e com frio, continuou a busca até que, naquele mesmo dia, indo de um local ao outro conseguiu encontrar um ônibus verde. Sua felicidade, porém, durou bem pouco. Por coincidência, o irmão do seu padrasto estava no mesmo ônibus e acabou levando-a para casa.

Rua da casa em que morou na Vila Sandra


Rua da casa em que morou na Vila N. Sra. da Luz

NOVE GESTAÇÕES E CINCO ÓBITOS O tempo passou, porém, a ideia de fugir permanecia. Assim, aos oito anos, Guerda finalmente conseguiu encontrar o interbairros, que era o ônibus verde que procurava e fugiu para a casa da avó, onde morou por um ano. Passou pouco tempo e sua mãe foi buscá-la, dizendo que precisava dela para ajudar em casa e também com a gestação de risco. A esta altura, dona Izabel já tinha dado a luz ao Maykon, e esperava pelo Ewerton. “No total ela teve nove gestações. Todos nasciam vivos, mas morriam logo após o parto, de crise de abstinência ou de ataque do coração. Era sempre um filho vivo e um morto ao longo dos anos.” Revista Tô em Foco | Abril.2020

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Verdades da lei da sobrevivência

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Os quatro irmãos cresceram experimentando uma vida alheia a valores e princípios éticos. Entre outros acontecimentos, Guerda viu a mãe passar de usuária à traficante, como um processo natural daquela dura realidade.


C Terreno onde antes havia o barraco em que moravam, na Vila Sandra

“

A nossa verdade dizia que o que ele tinha feito era o certo, pois crescemos aprendendo que só seria errado se fosse pego

”

omo já era usuária, dona Izabel não demorou muito para também entrar no o caminho do tráfico. E foi isso que ela também ensinou àquela menina de apenas nove anos de idade. “Eu ficava no começo da Vila para encontrar as pessoas que iam buscar a maconha, pois não sabiam entrar no local. Minha mãe me ensinava como conversar com as pessoas que iam buscar droga,” lembra. Então, ela pegava o dinheiro e levava ao traficante do outro lado do bairro. Apanhava a quantia de droga que eles queriam e ganhava um pouco para fazer isso. Na terceira vez que realizava este processo, Guerda já tinha dinheiro suficiente para vender sozinha (prática conhecida como “aviãozinho”). E assim começou também sua vida no tráfico. Na casa de Guerda, sempre se falava que uma pessoa saía para o centro da cidade para roubar uma casa ou um banco. Ela recorda que, se falassem em trabalhar, por exemplo, a mãe dizia que isso era coisa de gente burra, afinal, “para que trabalhar o mês inteiro para ganhar um salário mínimo, se era possível ganhar esta mesma quantia em apenas uma ‘correria’?” Desta forma, a infância e a inocência foram sendo tomadas e alimentadas por valores desvirtuados, mas muito reais para as circunstâncias em que viviam. “Eu me lembro a primeira vez que um dos meus irmãos roubou uma TV, de um ferro velho, uma carcaça mesmo, que não iria usar para nada, foi uma comemoração e tanto lá em casa. Afinal, a nossa verdade dizia que o que ele tinha feito era o certo. Crescemos aprendendo que só seria errado se fosse pego.” Então, “ganhar” para sobreviver, ainda que fosse subtraindo algo do outro, não era errado. E ainda ouviam que não haveria problemas fazer isso, uma vez que as pessoas lesadas tinham tanto, que nem se importariam. Revista Tô em Foco | Abril.2020

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Estavam todos muito ocupados Aos 12 anos, Guerda já morava praticamente sozinha, pois a mãe estava em uma fase da dependência química que não respondia pela droga que ficava com ela. Consumia tudo. Nesta época, o crack também já estava começando a entrar no bairro, que até então era conhecida como *casca. E a mãe dela já estava usando isso também. As consequências da vida de dependência química foram ficando cada vez mais intensas. As perdas materiais, do que praticamente já nem tinham, eram constantes. Guerda conta que seu avô construiu algumas vezes, casas com móveis para morarem, mas era tudo vendido ou destruído, devido as excessivas brigas familiares. No entanto, como o terreno não estava no nome da sua mãe, ela não podia vende-lo. Ficaram algum tempo entre ter casa e não ter casa para morar. “Às vezes, me perguntam se ninguém sabia, se os demais familiares não sabiam o que se passava. Eu acredito que sim, mas todos estavam muito ocupados com suas vidas para olhar para os problemas que

PRODUTOS DO MEIO

Guerda e sua família

não saberiam como resolver,” conta Guerda, que se emociona ao lembrar. Seu avô fazia visitas uma vez por mês e levava cinco reais para cada um. E a sua chegada os deixava muito ansiosos, pois para eles, a pequena quantia era um bom dinheiro. “Ele tentou tirar minha mãe daquela situação. Internou diversas vezes, mas ela fugia. Assim, ele foi fazendo o melhor que poderia, com o que sabia,” diz.

Apesar de todo o contexto, eles não sofriam com a situação. Afinal, era a única realidade que conheciam. Somente as dificuldades financeiras é que marcavam a vida. Ela comenta que todo mundo roubava ou traficava, mas ao mesmo tempo o dinheiro não rendia. Uma semana tinham muito dinheiro, na outra não tinham nada. “Algo sem explicação”, afirma. E efêmera também, eram as vidas de muitos dos seus amigos e vizinhos.

“Era tudo muito rápido. De uma hora para outra as pessoas morriam. Tive que segurar muitas overdoses, me morderam, vi pessoas esfaqueadas, baleadas. Aprendi como fazer pressão para que não perdessem muito sangue. Era uma rotina de ver as pessoas crescerem e morrerem. Dos amigos do bairro, que eram muitos, hoje deve ter no máximo cinco vivos. Foi uma geração muito consumida por este estilo de vida. Consumida pelo tráfico. Ali, éramos produtos do meio sim. Não tínhamos como fugir. Hoje reconheço que minha mãe fez o melhor que poderia ter feito com o que sabia. Mas, foi ela quem nos transformou no que nós éramos. Todos os meus irmãos foram presos. Tanto quando ainda eram menores ou adultos. Isso era muito comum. Os irmãos do meu padrasto, com quem convivíamos, também já tinham sido presos, baleados ou morrido. Essa era a triste realidade que a gente vivia”.

*Casca – mistura de cocaína com água e bicarbonato. Eles esquentavam na colher e formava uma casquinha, mistura que acabou por originar o crack.

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Guerda e Kauane tatuaram a frase: Tal mãe, tal, filha, nos braços

“Eu engravidei aos 14 anos. Como nesta época eu já morava sozinha, tive que tomar a decisão que fez toda a diferença na minha vida”

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Maternidade súbita Chegando à casa da sua mãe, ela tinha vendido novamente a casa, as madeiras e todas as coisas. Não tinha cozinha, nem sala, nada. Havia madeiras para um único cômodo. “Coloquei meus irmãos para dormir em um colchão, porque tinha apenas uma cama de solteiro onde a mãe e meu padrasto estavam, há 15 dias fumando e cheirando direto.” No dia seguinte, Guerda pegou seu irmão (que era filho seu pai) e foi morar com ele. Lá chegando, o pai não perguntou se ela iria ficar uma semana ou um mês, apenas a deixou entrar. E foi até melhor, pois ela nem conseguiria contar o que estava acontecendo. E assim, morou com o pai por sete meses para depois contar sobre a gestação. Quando ele finalmente perguntou se ela estava grávida, na hora Guerda só questionou se ele queria conhecer o pai do bebê. Porém, seu Claudio perguntou se ela iria se casar. Como a resposta foi negativa, ele nem quis conhecê-lo..


E agora? Kauane chega e Guerda não sabe para onde ir

A gravidez precoce me levou além “Chegou a hora do parto, eu comecei a ter contrações e fiquei tímida. Na minha gestação eu fiquei muito tímida pelo que tinha acontecido. Eu sempre fui uma pessoa que tomava a frente das coisas, mas eu fiquei com vergonha por ter engravidado na adolescência, então, tudo que falavam pra mim eu abaixava a cabeça e aceitava.” A maior dificuldade foi, primeiro, saber como criar, dar de mamar, trocar fraldas. Eu realmente não sabia como educar. Mas isso me motivou a sair de onde eu estava. Daquele ambiente de tráfico, de mortes que eram comuns lá. A gravidez precoce foi uma adversidade, mas foi também, uma alavanca pra eu me tornar uma pessoa melhor.”

“Quando as contrações começaram, o pai a levou imediatamente até a sua mãe. Lá, Guerda precisou esperar até que a mãe parasse de fumar, se recuperasse, fizesse várias outras coisas para então acompanhá-la a um hospital. Com R$10,00 que recebeu do pai, falou ao taxista que precisava chegar ao Hospital Evangélico com apenas aquela quantia, sendo que já na época não era o suficiente para o trajeto. Mas o motorista a levou mesmo assim. No entanto, o hospital não tinha vaga. “Naquele momento, eu voltei a ser uma pessoa de opinião, a tomar conta da situação e disse - daqui eu não saio sem ambulância. Ou vocês me levam a outro hospital, ou eu vou ganhar meu bebê aqui mesmo no corredor,” lembra. Com isso, foi levada à Maternidade do Hauer, onde Kauane nasceu. Ali, foi uma das vezes que a Guerda teve certeza de que Deus ouvia suas orações. “Eu orei para que ela nascesse forte e grande. E a Kauane nasceu no dia 16/04/98, com 4kg e 53cm. Hoje digo que foi um parto ‘anormal’, pois além de ter sido a fórceps, eu tinha apenas 14 anos. Como pode ter nascido uma criança tão grande, de outra criança? questiona.”

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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E agora, para aonde iria? O importante diálogo com o pai sobre como seria depois do nascimento da filha, não tinha acontecido. Ela recebeu então a visita da avó materna, que a convidou para ficar na sua casa. Sem opção, aceitou. Ao chegar ao local, várias memórias dos abusos sofridos no passado, e que vinha lutando para esquecêlos, vieram à tona. As lembranças não eram nítidas, pois além de traumáticas, registravam abusos sexuais que ocorreram na primeira infância. O marido da avó materna, que poderia bem ter representado o papel de protetor, ao contrário, foi o aproveitador da inocência de uma criança de apenas três anos. A partir desta idade, quando ainda estava na creche, Guerda foi vítima, não apenas dele, mas também de outro membro da família, com tentativas de abuso. E, percebendo que estava de volta à casa do seu primeiro abusador, e agora com a sua menina nos braços, teve muito medo que o mesmo pudesse acontecer com a sua filha. “Me bateu o desespero, mas meu pai chegou e me levou para sua casa. Não que fosse o melhor local para a situação em que me encontrava, mas pelo menos havia lá o meu irmão, que mesmo pequeno, era alguém com quem eu podia contar,” recorda. Durante o período da sua gestação, os outros dois irmãos que ficaram com a sua mãe acabaram sendo levados ao orfanato, pois era a Guerda que, de certa forma, os assistia, levando-os à creche, cuidando da alimentação, entre outros cuidados. Mas, depois de dois meses, saíram e foram também morar com a avó, onde sofreram os mesmos abusos sexuais, da mesma pessoa que já havia vitimado Guerda.

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O maior desafio “Você fez, você cria.” A frase dita por seu pai, além de tê-la marcado bastante, foi uma profecia do que realmente estava por vir. Sem preparo, sem maturidade e conhecimento sobre como criar uma filha sozinha, banhos, alimentação adequada e outros cuidados foram sendo descobertos à medida que ambas cresciam. Ela conta que o primeiro banho da Kauane foi quase uma “queima”, pois não tinha noção da temperatura da água adequada para uma recém-nascida. Com apenas 14 dias a bebê já estava gripada, com orelha furada e inflamada, e a mãe com uma alimentação a base de doces e amendoim. “Eu comia isso e achava que era bom para mim, então, eu pensava que seria bom para ela também.” Só que a imunidade da filha ficou muito baixa, o que desenca-


deou diversas doenças e exigiu que ela tomasse diversos antibióticos, o que contribuiu para uma descalcificação que segue até hoje. Neste período, pressão baixa e desmaios eram constantes, porque Guerda perdia muito sangue. Não teve resguardo, uma vez que para morar com o pai era preciso obedecer à regra de manter a casa limpa e ter comida pronta para

quando ele chegasse. Ela lembra que fazia as coisas todas sentada. Um dia a dona Izabel foi visitar a neta. “Como eu não poderia deixar de recebê-la, com muita fraqueza abri a porta e logo voltei para o quarto.” Porém, mal a Guerda poderia imaginar que este seria mais um capítulo dos tantos dramas vividos naquela fase. Sua mãe conseguiu retirar diversos objetos de valor, no pouco tempo de visi-

ta, colocando – os para o lado de fora do apartamento térreo, se despediu e saiu de mãos vazias, deu a volta e levou tudo. Contar ao pai que sua ex-mulher tinha levado as coisas dele foi bem difícil. E foi então, que ele começou a trancar a porta e ela não tinha mais permissão para sair. Somente com uma vizinha, que frequentava a igreja, ele deixava que ela a acompanhasse. Revista Tô em Foco | Abril.2020

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Experiência de Deus

Casamento, traição e perda Aos 16 anos ela encontrou uma pessoa na igreja e logo, eles foram morar juntos. Viviam bem e a sua filha já tinha nele uma referência paterna - pois o seu pai biológico faleceu quando a Kauane tinha apenas oito meses. Quando Guerda tinha 19 anos o marido decidiu ir para Londres, com a promessa de juntar dinheiro e enviar uma quantia, para que ela e a Kauane fossem para lá mais tarde Como só ela trabalhava com registro em carteira, pegou todas as suas economias, juntou com o limite do cartão de crédito, e assim, eles conseguiram comprar a passagem e outros itens. E ele se foi. Quatro anos mais tarde, voltou dizendo que tinha encontrado uma pessoa com quem iria se casar, “de verdade”, porque com Guerda ele apenas havia morado junto. Segundo ele, “pelo menos com esta outra pessoa ele teria a chance de um futuro melhor”. E a dívida, então de aproximadamente R$15.000,00 ficou. Ela perdeu. “Hoje percebo que ter ido morar com o Junior foi uma fuga, porque o meu pai estava namorando naquele período, e passava mais tempo na casa da namorada do que conosco. Então eu estava me virando sozinha com a Kauane e o custo de vida lá no bairro Portão estava muito alto para mim,” assume Guerda. Apesar de somar mais este golpe da vida, ela não poderia esmorecer. Contas a pagar e filha para criar não permitiam trégua para lamentar o ocorrido. Para aliviar as dívidas, Guerda resolveu pedir um apartamento ao pai, para deixar de pagar aluguel - nessa época ele já tinha alguns imóveis -, e foi morar no bairro Fazendinha.

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Experiência de Deus Como anjos enviados por Deus, Erica, vizinha do condomínio e Célia, outra vizinha de quando ela morava na Vila Sandra, apareceram para ajudar. Idas ao hospital e cuidados com o umbigo do bebê, também inflamado, passaram a contar com este apoio. Celia ia todos os dias para auxiliar. Fazia almoço, limpava a casa, mas tinha que sair antes que ‘seu’ Claudio chegasse. E assim, as visitas escondidas duraram cerca de três anos. Até mesmo depois de se mudarem para o bairro Portão, a amiga ia do bairro Fazendinha, depois do Xaxim, de bicicleta, até lá para ajudar. O contato foi perdido somente quando se mudaram, mais uma vez. Com uma empresa de funilaria e pintura que estava indo bem, o pai da Guerda começou a namorar sério. Já a Guerda continuava indo à igreja com a vizinha Érica, e foi ali onde começou a ver a vida de forma diferente. Como não tinha ninguém que pudesse ajudá-la, de fato, na educação da Kauane, ela começou a orar a Deus e passou a ver, no ambiente religioso, o espaço para conhecer pessoas que, ainda que não fossem perfeitas, estavam em busca de serem melhores. Ela imaginou que seria uma boa influência para a filha o convívio com quem estava trilhando o caminho do bem comum.


Aprendizados profissionais

Passada a decepção e com as dívidas aumentando, Guerda consegue um novo emprego, um estágio, no IAP – Instituto Ambiental do Paraná, por R$ 125,00 por mês. Com esta remuneração ela precisava sempre escolher qual mês pagar a conta de luz e qual mês o condomínio. Como estava cursando a sétima série, no período da manhã ela lanchava na escola e a tarde comia amendoim. Era o que conseguia comprar por R$0,50. “Eu comia amendoim com água, porque incha, assim me sentia mais saciada. Depois, descobri que se eu pedisse, a tia da cantina do IAP me dava leite. Ai ficou muito melhor”, ela conta. Mas o melhor lanche ‘da vida’ era mesmo o X-salada com suco de laranja, que custava R$1,00. Então, uma vez por mês, ela se dava esse presente. “Depois aumentou para R$1,20. Eu achei um desaforo (risos)! Mas era tão delicioso. Nunca mais encontrei um com sabor igual.”

RECEPCIONISTA DE EVENTOS Período: dois anos Remuneração: dois dias correspondiam ao mês todo de salário no IAP

EMPRESA DO RAMO DE CONFECÇÕES Período: dois anos Área de atuação: Recursos humanos, mas a contratação se deu porque ela afirmou ter conhecimento. No entanto, ela sabia apenas somar cartão ponto e pagar guias de imposto, que nem sabia direito para que serviriam Vantagem: era boa em matemática e muito astuta. Pediu ajuda, aprendeu muito, trabalhou em diferentes áreas, e em pouco tempo se tornou Gerente de RH e Gerente Financeira na empresa. Com os proprietários cultiva amizade até os dias atuais.

HERBALIFE Período: dez anos O que a atraiu: possibilidade de ganhar dinheiro honesto e comer coxinha ao final das reuniões Expectativa: disseram que poderia ganhar até R$5 mil por mês. Duvidou porque acreditava que apenas artistas poderiam ganhar esse valor, afinal tinha alcançado o teto de R$1.600,00 no emprego anterior Realidade: a timidez não contribuiu. Na época não tinha habilidade em vendas e de um treinamento a outro acabou por desistir Revista Tô em Foco | Abril.2020

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Muitas muda O “Quadro dos sonhos” que ajudou a transformar as situações de estresse em alavanca para o futuro

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anças e a mudança de rumo A travessia para uma nova vida começou aos 26 anos. Mas, a exemplo da sua trajetória, até então, essa mudança também foi árdua. Seu pai terminou aquele relacionamento, que de certa forma o tinha afastado da filha, perdeu todos os seus outros imóveis e aca-

bou “colocando-a para fora” do apartamento que ela morava, pois precisou vender. Depois de um ano que ela já pagava aluguel, em outro endereço, recebeu uma ligação: “estou passando fome, será que você poderia me conseguir um prato de comida? Deixe-me

morar com você. Eu arrumo um trabalho e ajudo a pagar o aluguel,” disse seu Claudio. Assim, além do irmão que morava com ela, também o pai passou a dividir o mesmo teto. Cerca de um ano depois, ele recebeu um valor de uma ação trabalhista e comprou uma casa no bairro Rio Bonito. E se mudaram. Na bagagem foi o alívio de não precisar mais pagar aluguel. Porém, a convivência durou cerca de seis meses. Considerando também as dificuldades de infraestrutura de um bairro longe, Guerda começou a ficar depressiva. Aconteceu então, que a saída para entregar folhetos, no bairro Capão da Imbuia, foi motivação para mais uma mudança. Porém, desta vez, um novo cenário estava se desenhando para a sua trajetória. “Achei o bairro muito bonito e logo pensei que seria um bom local para criar minha filha. Não viu pontos de drogas, pessoas correndo e nem tiroteios. Vou morar aqui,” decidiu. Desta forma, alugou uma casa, deixou tudo que tinha com o pai, pegou a Kauane e se mudou novamente.

Quando Guerda foi alugar a casa no Capão da Imbuia ela precisou contar com o apoio de uma amiga porque a proprietária disse que não alugava seu imóvel para pessoas pretas e nem com crianças pequenas. Como ela tinha as duas condições, foi preciso que a amiga alugasse para ela.

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INÍCIO DA NOVA VIDA: UM COLCHÃO, UM FOGAREIRO, UM LIQUINHO E UMA CAIXA DE ISOPOR COMO GELADEIRA Assim ela começou uma nova vida. Com estes itens doados por um casal de amigos e mais nada. “Era apenas a Kauane e eu. Digo que, por sorte, havia uma árvore de abacates no quintal. Então, quando caía a fruta do pé, tínhamos alimento para o café da manhã. Quando não caia não tínhamos nada. E assim seguimos.” Na época ela ainda trabalhava com a Herbalife, que eram produtos de saúde, caso contrário, se fosse produto de limpeza teriam “se dado muito mal,” pois os produtos que vendia também serviam como alimento para ambas. Tomaram muito shake. E tamanha era a escassez, que quando ela conseguia comprar um marmitex para o almoço, pedia para se servir sozinha para poder colocar o suficiente para almoço e jantar. Mas assim que o atendente percebia, ela acabava tendo que trocar de restaurante, já que a prática não era permitida. “Um dia, comprei um macarrão instantâneo e servi primeiro a Kauane. Mas, ela derrubou no chão e como mãe, rapidamente dei a minha parte pra ela. Naquela ocasião chorei muito, afinal não era a primeira vez que eu estava passando dificuldades. Já não aguentava mais. Queria muito que isso não se repetisse.” Guerda não suportava mais passar pela mesma situação várias e várias vezes. Começou então a se perguntar que lição ela tinha que aprender. Já tinha participado de inúmeros treinamentos de vendas e via pessoas que começaram na mesma época prosperando, enquanto ela ainda tentava chegar a algum lugar. Foi então que, inspirada pelo livro “O Segredo,” de Rhonda Byrne, elaborou o seu “quadro dos sonhos”. De acordo com a obra, esse quadro é um conjunto de retratos dos seus objetivos e sonhos que você quer atrair para a sua vida.

Abacate era o café da manha da Guerda e Kauane. Por muito tempo foi seu único alimento

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“...Naquele dia chorei muito, afinal não era a primeira vez que eu estava passando dificuldades. Já não aguentava mais.”

QUADRO DOS SONHOS, A CHAVE DA VIRADA Carro Casa Lixa de unha

desejo de ter um carro novo o sonho de ter a sua própria residência o desejo de ter alguém para “cuidar” dela fazendo sua mão

Chuveiro

a vontade de tomar um banho com um chuveiro sem pingo gelado e que não fosse preciso ficar procurando a água ao cair

Mesa farta

para que pudesse comer o que quisesse e não apenas o que pudesse pagar

O quadro foi o símbolo da mudança. Trouxe forças, pois lembrava-se do seu objetivo, ajudava-a a ter sempre em mente o que buscava. Decidiu então, trabalhar todas as horas possíveis para alcançar sua meta. Além do que estava no quadro, também planejou ganhar mais do que R$5 mil por mês, e ter, em pelo menos 10 anos, um patrimônio de R$1 milhão, ajudar a família e principalmente tirar os irmãos de onde estavam, que à época tinham sido presos novamente. Temia que ao serem soltos não pudessem prosperar, voltando ao mesmo bairro, com as mesas amizades e correndo os mesmos riscos. Mas, para ajudar quem quer que fosse, precisaria se ajudar primeiro. Assim foram anos de dedicação total, trabalhando mais de 17 horas por dia. Resultados: em dois anos conseguiu comprar seu primeiro carro e em cinco anos, o primeiro carro 0km. E o que estava no quadro, se concretizou. Revista Tô em Foco | Abril.2020

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Na trilha da ascensão profissional A trajetória de sucesso, que foi motivada pelo desejo de ajudar seus irmãos, a levou aos seus dois grandes empreendimentos atuais: Car Station e Hostel Brazilian Cult Com a destreza e a determinação de quem sabe aonde quer chegar, Guerda inicia, finalmente, a sua trajetória de sucesso. Mas, novamente, em uma caminhada com revés. Aos 33 anos entra como sócia em uma funilaria. Comprou de uma conhecida a parte que havia sido deixada por um ex-sócio. E sem perguntar o motivo da parceria ter acabado, se lançou ao novo desafio buscando a sonhada liberdade financeira. Ao certo ela só conseguia pensar em oferecer uma nova oportunidade de vida aos irmãos. Na sua empresa eles poderiam, enfim, ter uma profissão e não se envolveriam mais com o tráfico de drogas e tudo o mais daquela vida passada. “Quando o ser humano tem uma profissão ele se torna mais digno. Quando alguém é preso, se for médico, por exemplo, isso sempre vai ser citado, dando mais valor à pessoa, apesar do seu erro. Então,

para mim, isso era muito importante.” Mas, em 2018 a sociedade chegou ao fim e ela descobriu, da pior maneira, porque o sócio anterior não tinha tido êxito. Então, com uma empresa apenas no papel pois o proprietário do barracão onde funcionava a funilaria havia pedido o imóvel - sem clientes, e com uma dívida superior a R$500 mil, Guerda não tinha a opção de desistir. “Eu investi na empresa os recursos financeiros de uma vida toda. Se fechasse, simplesmente perderia tudo,” conta. Assumiu a sua parcela de culpa por ter deixado a situação chegar a este ponto e pensou: “Vou fazer o que sei fazer, trabalhar.” Com uma sede gigante de fazer o negócio acontecer, se deparou, ao mesmo tempo, com a oportunidade de comprar um grande imóvel, no bairro Atuba. O espírito empreendedor

Você pode ser quem você quiser “Mais até do que um sonho, ela acredita ser uma missão oportunizar a outras pessoas também a mudança de vida, por meio de um ofício. “As pessoas não precisam ser quem elas foram ensinadas a ser quando crianças. Quando eu descobri que eu não precisava ser quem eu fui treinada para ser, eu descobri a minha liberdade.”

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falou alto. Comprou e vislumbrou como transformá-lo em um bem ativo. E assim nasceu o Hostel Brazilian Cult. Um espaço diferenciado que oferece quartos compartilhados para viajantes, mas também outros espaços para eventos e atividades culturais.


Hostel Brasilian Cult Com o objetivo de inspirar viajantes e apreciadores da arte a amarem a cultura brasileira, os ambientes são dedicados, cada um, a uma história do folclore nacional. Uma verdadeira imersão nas memórias do Brasil, com um minimuseu de esporte, que homenageia grandes estrelas nacionais,

sala de jogos e espaço para eventos. “Se você não sabe de onde veio, você não sabe para onde vai. Se não sabe a sua origem, qualquer lugar serve. Considerando tudo o que passei para chegar até aqui, saber a origem e valorizá-la, pulsa forte pra mim. Acho importante conhecer a história e sentir orgu-

Car Station Funilaria, uma empresa temática

lho da trajetória. Por isso, a minha intenção em criar este local com um conceito cultural,” explica Guerda. O Hostel é também um espaço onde os artistas que não são conhecidos podem expor sua arte e têm direito ao palco livre a cada dois meses.

“Ficar sozinha com a empresa me deu autonomia para realizar um sonho: criar um espaço temático e diferenciado. Uma estação de trem onde os clientes pudessem ser recebidos com conforto, segurança, respeito e confiança. E assim aconteceu.” Quando Guerda entrou na sociedade, ela não tinha uma ambição comercial grandiosa. Seu nobre objetivo era apenas empregar os irmãos. Mas, desta forma, ela conseguiu fazer a diferença na vida deles e também de outros jovens que entraram na empresa sem nenhum conhecimento, e hoje dominam todos os processos da funilaria e pintura. “Minha intenção agora é oferecer a oportunidade de aprendizado para o primeiro emprego. Já montei a estrutura para sala de aula onde vamos oferecer aos adolescentes a formação para a profissão de pintor, polidor ou preparador automotivo,” relata. O espaço será aberto também, para quem quiser apenas aprender como cuidar melhor do seu próprio carro, como um hobbie.

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Relação com a filha “Eu e a Kauane nos damos muito bem. Nunca tivemos problemas grandes de relacionamento. As pessoas falam que eu fui meio rígida, mas o desafio de ser mãe e pai, não me dava muito equilíbrio entre soltar e prender. Acho que prendi bastante mesmo. Ainda assim, ela é uma boa menina e hoje temos uma relação de amizade e cumplicidade. Ela é minha confidente. Claro que já tivemos situações de desentendimento, mas foram pontuais e nunca tivemos problemas em casa. Não tenho do que reclamar.”

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Transformando a dor em aprendizado

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Eu descobri que eu tinha a opção de ser o que eu quisesse e que a única pessoa que me impediria seria eu mesma, que eu não precisava ser o que minha mãe ou o meu pai me ensinaram a ser, ou o que a sociedade me ensinou a ser. Descobri que eu poderia ser a pessoa que eu escolhi ser.

”

“

Faz parte da minha missão de vida oferecer às pessoas necessitadas uma oportunidade de mudarem de vida. Meu desejo é que todos os que passam por dificuldades, como eu já passei um dia, possam reconhecer sim de onde vieram e agradecer cada acontecimento, ter gratidão aos pais, aos antepassados, à família, mas escolher para onde seguir.

”

“

Minha primeira oração fiz quando estava grávida. Falei para Deus que eu não sabia educar e com a minha imaturidade, na época, até coloquei a culpa Nele, dizendo que se Ele quis que eu engravidasse, então teria que me ajudar. E Deus me ouviu colocando muitas pessoas boas no meu caminho. Inclusive a igreja me ajudou muito com cestas básicas, quando eu mais precisei.

”

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PRECONCEITO

Das coisas que vivi e ouvi na vida... “Ser negra e me chamar Guerda era a junção perfeita para o ‘bullying raiz’. E eu ainda usava trancinhas e gaguejava. Na escola tinha plaquinha com o nome sobre a mesa, eu repetia várias vezes, mas, mesmo assim, me davam todos os apelidos possíveis.” “Depois disso, outras situações de discriminação foram minimizadas, porém eu já tinha criado uma couraça em relação a isso.” ... “Não sei quando eu comecei a ser gaga. Acho que foi durante uma das brigas dos meus pais que eu decidi que não iria mais gaguejar. Parar foi uma decisão consciente e comecei a me esforçar. Consegui.” ... “As pessoas diziam que eu tinha um currículo adequado ao que estavam procurando, mas que a minha aparência não era a adequada.” ... “Algumas vezes ouvi: ‘é comum pessoas da sua raça engravidarem cedo porque para os negros a atividade sexual começa cedo’.” ... “Mulata é quente, mulata é fogo.... As pessoas falavam que negro é para trabalho, mulata para transar e branco para casar. Era essa a sensação que eu tinha. Eu, mulata, era o objeto cobiçado, mas só no nível sexual. E como tive filha cedo, era como se eu confirmasse o que ouvi por muitas vezes.” ... “Cabelo “black” é difícil. Prefiro seu cabelo mais baixinho. Com que frequência você lava seu cabelo? Oras! Lavo normal como qualquer outra pessoa!!!!”

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PRECIOSOS ENSINAMENTOS “Tem gente que fala que preconceito não existe. Mas ele existe sim, porém, é preciso saber lidar. Não se menosprezar por isso, mas também, não esconder. É como o abuso sexual. Se alguém passa por isso e nunca mais fala a respeito, nem por isso deixa de existir. As pessoas nos veem diferente sim. Então, temos que pegar isso e entender. A minha avó era muito sábia. Ela dizia que eu tinha que ser a melhor na escola. Tinha que ter a melhor nota porque eu era negra, mas não porque era ruim ser da minha cor. Ela falava de uma forma que eu, na minha cabeça de criança entendia que era bom ser como eu era, assim não era um fardo ter que ser a melhor. Ela dizia que eu já tinha nascido melhor e tinha que mostrar isso para o mundo. Tenho certeza que isso fez toda a diferença, porque outras pessoas da minha cor e nas mesmas condições, se deixavam abalar pelo preconceito que sofriam. Foram ensinamentos da minha avó que trago para a vida toda.”


Relações familiares Várias fases marcaram a relação da Guerda com a família. Com os familiares do lado da mãe, a relação foi um pouco mais distante porque o contato era maior no período que morou com ela, na infância. Ela acredita também que o afastamento se deu por conta dos abusos que sofreu. “Parece que as famílias se fecham, não sei se por vergonha, mas o meu avô, pai da minha mãe e a esposa dele foram os únicos que acreditaram no que tinha acontecido. E, mesmo depois que o abusador foi descoberto, continuaram protegendo a ele. Gostaria muito que as famílias entendessem que proteger um abusador não diminui os abusos na

casa, uma vez que, na maioria das vezes, isso acontece com pessoas próximas.” Guerda fala que já superou tudo e não existem mais mágoas, porém, o acontecido criou um distanciamento grande que comprometeu a convivência familiar. Com a família do pai existe uma proximidade maior. A tia, irmã do pai, fez o papel de mãe logo que a Guerda saiu de casa. Quando a Kauane era pequena, a tia foi o “porto seguro”. Motivou-a a ir em busca dos seus sonhos, cuidou da sua filha quando ela começou a trabalhar e ajudou em muitas outras situações. Outra pessoa a quem Guerda cultiva gratidão é a Célia, que em-

bora não seja da família, é como se fosse, tamamho o sentimento que nutrem uma pela outra,. “Ela me conhece desde os meus seis anos de idade, desde a época em que eu ainda gaguejava. Quando a Kauane nasceu ela foi me visitar, viu que eu não sabia nada, me ensinou a cozinhar, cuidar da casa, da minha filha...” Atualmente, Celia trabalha com ela, desde um reencontro que ocorreu há dois anos. E assim como no passado, novamente ofereceu o apoio que a Guerda precisava em sua nova fase difícil com as empresas. “Sou muito grata pelo entendimento que ela tem pelos meus sonhos e pela ajuda que me oferece.”

O amor pelos irmãos foi também impulso para mudança de vida. “Meu desejo sempre foi proporcionar algo melhor para todos nós.”

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Avô materno (Amaro) Comigo é minha prima no colo meu pai (Cláudio). Sogro do meu tio (pai da prima que estava no colo do avô)

Eu, Kauane, tia Sueli, primo Enzo, filho do Primo Alessandro q está em pé atrás

Primo Alessandro e eu Madrastra da minha mãe (avó Zini) prima no colo, eu, avô pai da minha mãe

Maykon Wellington (com a Kauane no colo) eu no braço do sofá o ewerton na frente

Kauane, eu, tia Sueli, tio Jurandir, Ana e Luiz (primos)

Tio João, eu, tio Jurandir e primo Alessandro e Wellington abaixado, Kauane a prima Ana Kauane, vizinha (Glenda) Ana prima tio Jurandir, marido da tia Sueli e Luiz Guilherme no colo, eu e meu ex marido Junior

Tio João, tia Maria, prima Ana, Wellington, Kauane, eu com o Luiz no colo tio Jurandir

Eu, Maykon, Wellington

Tio Jurandir Ana no colo l, eu, Kau no portão e Wellington

Primo Leandro, eu, tio Jurandir Primo Leandro, Ana prima, Kauane e Eu

Eu, tia Sueli, prima Elisangela, prima Claudia Kauane, e prima filha da tia Sueli Ana

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Meu pai Hoje eles têm uma boa convivência, com eventuais conflitos comuns das relações entre pais e filhos. Assim como aconteceu na sua relação com a mãe, também ao pai ela liberou o perdão. A mágoa tinha ficado de um episódio de aniversário. Quando completou 15 anos, nem parabéns ela não recebeu. “É como se eu tivesse perdido o direito de comemorar um marco na adolescência, afinal eu já era mãe,” recorda. Mas não foi apenas isso que a feriu. Passados uns dois anos, a filha da namorada do seu pai fez 15 anos. Além de muitos parabéns, ganhou uma festa que até então, Guerda só tinha visto na televisão. Príncipe, valsa, troca de sapatinho e outros itens festivos. “Só vi por vídeo, porque ninguém da família foi convidado, nem mesmo meus irmãos. Isso me afastou bastante dele. Senti como se ele tivesse vergonha do nosso passado e preferisse não ficar perto.” O processo do perdão é um processo longo. Demanda muito o nosso querer, e não foi diferente nessa situação. Eu decidi perdoa-lo e entender quem ele é, e qual a sua trajetória e história. Todos merecem o perdão. Tive que fazer anos de terapia, me aprofundei em boas leituras, e ainda hoje estou em um processo. Tenho uma couraça bem forte, na qual eu me escondo constantemente, mas aprendo a conviver com ela e com a minha história todos os dias. Tudo o que aconteceu me moldou a ser quem sou. Sou grata ao meu pai e a todos que fizeram parte de tudo isso.

Minha mãe Ao longo da vida como usuária de drogas, dona Izabel ficou seis meses “limpa”. Passou 40 dias na UTI, depois, mais três meses internada. Quando saiu, passou três meses morando com a Guerda. “Foi bom para mim e para a Kauane convivermos com ela, na rotina do dia a dia. Consegui entender que uma pessoa adicta para na idade mental de quando começa a se drogar. Então, foi um processo de perdão para mim e para ela.” Antes, Guerda ainda nutria sentimentos de raiva pela educação que ela e os irmãos tinham recebido. Culpava a mãe por tudo que ela tinha ensinado de errado, por eles terem sido presos e por tudo o que aconteceu em suas vidas a partir daí. Mas, o tempo juntas serviu para entendê-la, aceitá-la e perdoá-la. Quando a mãe resolveu voltar para casa, e para as drogas, compreendeu que cada um tem o livre arbítrio. Foi uma escolha. Usuária desde os 13 anos, ela disse que não sabia mais viver no mundo em que Guerda vivia. Anestesiada pelos entorpecentes era mais fácil aceitar a dor de tantos erros cometidos e das consequências que sofreu. “Senti, chorei, mas não fiquei com raiva. Eu ia vê-la a cada 15 dias, pagava suas contas e ajudava no que era possível. No fundo eu já sabia que ela não tinha muito tempo de vida, pois o corpo já tinha apresentado sinais de que era a última chance, quando ela foi internada. Faleceu em 2018, aos 49 anos.”

Pai, mãe prima

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Só mais um pouquinho sobre mim... Atividade física “No momento só faço academia, mas gosto muito de jogar futebol. Música e Dança “Gosto de samba. Fui criada com samba raiz. Mas gosto também de música gospel.” Leitura O livro “Pense e enriqueça” marcou bastante a minha trajetória. Mas o preferido é a Bíblia Sagrada. Já li umas duas, ou três vezes.” O que mais me agrada em mim... O meu cabelo, me sinto bonita e representada!!! Quando eu fui mais feliz... Quando a minha filha e eu estivemos pela primeira vez em Paris. Estávamos procurando a torre Eiffel e após buscar no mapa, quando olhei para a esquerda eu senti um êxtase tão grande, ao olhar para ela, tão radiante, que as únicas palavras que eu disse foi: UAU! E digo até hoje UAU, para aquele monumento esplêndido. Trocaria de lugar por um mês... Eu facilmente moraria em uma casa à beira da praia, trocaria um mês por essa vida fácil, fácil Dias de chuva são bons para... Colocar leituras em dia, atualizar as séries em catálogo, fazer aquele dia de “sckin care” e

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não podendo faltar aquele cochilo da beleza (quando estou em casa). E, quando eu estou no trabalho eu gosto de colocar os relatórios em dia, revisar minhas metas e estratégias. Minha frase preferida... Na vida: ou você paga o preço da disciplina ou o preço do remorso, você escolhe. O melhor presente que recebi... O primeiro “Cruzeiro da Herbalife” que eu fiz com tudo pago pela empresa. Um objeto de desejo... Ter mais tempo e poder viajar tranquilamente a cada seis meses Minha maior extravagância... Comprar um casal de bulldogs de alto pedigree Meu bem mais precioso... Além da minha filha são os negócios que construí A pessoa que mais admiro... Minha filha. Às vezes, eu penso: “como ela foi ficar tão inteligente? Tão bonita e íntegra?” Deus fez um bom trabalho na educação dela. (risos) Meu lema... Deus é bom, Ele me ama. E todas as coisas cooperam para o meu bem! Dias de sol são bons para... Para estar na praia tomando uma água de coco Meu sentimento hoje é de... Gratidão. Olhando para a minha história, percebo que eu poderia ter sido apenas alguém que ‘deu errado’. Mas, sem levar em conta os desafios que enfrentei e ainda tenho pela frente, sou muito grata a Deus e por todas as pessoas que Ele colocou no meu caminho. Com esforço e decisão superei o passado e venci!” Revista Tô em Foco | Abril.2020

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MEU ORGULHO “Quando fecho os olhos, me vem à lembrança a imagem da Guerda, chegando de manhã, bem cedo, na minha casa. Meu marido abria a porta e falava: “Olha quem está aqui! A ‘merda’!” Ela nervosa, gaguejava ainda mais porque ele ficava caçoando. Às vezes, pedia açúcar ou café emprestado, e até mesmo cigarro. Se não levasse, a mãe não a deixava brincar. Depois, quando engravidou, ela acabou indo morar com o pai, que tinha uma situação melhor, pois na Vila Sandra era muita pobreza, miséria mesmo. E mais tarde, quando me separei do meu marido, fui morar no mesmo bairro que ela, sem saber. Um dia encontrei sua mãe, que chegava para visitar a recémnascida. Fui junto e a cena com a qual me deparei foi de uma criança tentando cuidar de outra criança. Dali para frente, até quando ela se mudou novamente, eu ajudei como pude, porque ela não tinha condições de dar conta dos cuidados com a filha e a casa. Mais tarde, o nosso contato foi reestabelecido por meio do Facebook, e quando eu menos esperava ela apareceu na minha casa. Quando eu vi aquela negra linda, dirigindo seu carrão, falei: ‘Caraca! Que orgulho desta mulher!’”

Confira mais fotos do ensaio fotográfico da Guerda

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Você, no centro das atenções Momentos especiais registrados em textos e fotos

QUEM SOMOS Andrea Adelio – Apaixonada pela comunicação, a jornalista sempre desejou fazer a diferença na vida do próximo. A idealização de uma revista que pudesse registrar histórias pessoais, de forma personalizada, e ainda, contribuir com a melhor imagem do outro, por meio da produção de um ensaio fotográfico, se tornou o projeto perfeito para consolidar suas habilidades. É mais do que escrever sobre histórias de vida. É contribuir para eternizar os melhores momentos da vida de alguém, conectando pessoas do presente, ao passado e ao futuro. Quem conta relembra e quem lê vai lembrar.

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Formação em Comunicação Social, Consultoria de Imagem e Coaching Integral Sistêmico.

Sandro Oliveira – Sempre foi fascinado pela fotografia, desde criança se encantava em como as imagens eram captadas. Seu primeiro contato com uma câmera foi com uma máquina fotográfica compacta da Kodak, cujo flash era um elemento descartável e os filmes eram do tamanho da máquina. A força do seu trabalho é capturar com criatividade e sensibilidade, principalmente a espontaneidade dos momentos especiais, permitindo que cada click seja eternizado em um perfeito encontro da imagem com a imaginação.

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Administrador, autodidata, com formação em Fotografia pela Escola Omicron, além de possuir formação em diferentes cursos de fotografia social e edição de imagem.

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Tô em Foco - Guerda junho 2020 by aldemir demir batista - Issuu