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Revista ubuntu

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diretoria executiva Evelynne Gubert Gilmar Rodrigues Karoliny Gomes

comissão editorial Evelynne Gubert Gilmar Rodrigues

presidência Gilmar Rodrigues

editor Karoliny Gomes

vice-presidência Evelynne Gubert Karoliny Gomes

direção de arte Evelynne Gubert coordenação editorial Evelynne Gubert assistência de arte Gilmar Rodrigues Karoliny Gomes produção gráfica Gilmar Rodrigues preparação e revisão de texto Evelynne Gubert Gilmar Rodrigues Karoliny Gomes assistência de comunicação Evelynne Gubert

imagem da capa Karoliny Gomes ensaio visual (pág. 2,3,5,90,91) Evelynne Gubert

© Ubuntu scs qd. 1 bl. f – ed. camargo correia sala 710 61 3377-8080 www.revistaubuntu.com.br n0 I nov-dez 2013


10 editorial 12 olhar 18 andré gubert

48 aretuza lovi

26 eduardo massao

54 sofia & amigos

34 caique & kadu

64 sérgio amaral

40 bruno nascimento

74 maria de lourdes 80 janaína bittencourt

92 provocações


Nota à primeira edição

U

ma filosofia de vida, que em seu sentido mais fundamental representa a personalidade, humanidade e moralidade, uma metáfora que descreve a solidariedade do grupo que é fundamental para a sobrevivência das comunidades. A Ubuntu nasce com uma proposta tão sedutora e forte quanto seu nome, que é proveniente de dois idiomas, o Xhosa e Zulu, ambos africanos. Ubuntu é um princípio ético que define um indivíduo em termos de seus relacionamentos com os outros, assentando na máxima “umuntu ngumuntu ngabantu” (uma pessoa é uma pessoa através de outras

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pessoas). Isso sugere que o indivíduo se caracteriza pela humanidade com seus semelhantes e através do respeito aos seus ancestrais. Assim, a Ubuntu fará em cada edição uma curadoria de histórias contadas por diferentes tipos de pessoas sobre um mesmo tema. Cada pessoa e cada história compartilham de uma mesma essência, portanto a cada novo número poderemos entender melhor o que é Ubuntu. E para nós Ubuntu é solidariedade de grupo, compaixão, respeito, dignidade humana, orientação humanista e unidade coletiva, são valores fundamentais que estão

representados por Ubuntu. Surge então uma base para cooperação, compaixão, comunitarismo e preocupação com os interesses coletivos, enfatizando virtudes nas relações sociais. Ubuntu é um valor precioso, um ideal no qual as sociedades tradicionais africanas não encontram nenhuma dificuldade particular em lutar por ela. Interpretando essa grande quantidade de valores positivos percebemos que eles inspiram a amizade entre os homens, trazemos em nossa edição de lançamento diversos olhares e histórias sobre amizade, cada pessoa trouxe uma parte de si e juntas formam uma imagem daquilo que é mais

evidente sobre o tema, mas também cheia de detalhes e visões diferentes. Desejamos que você possa ao final de nossa edição compreender o espírito Ubuntu, esperamos que as histórias criem uma conexão e contribuam para enriquecer sua experiência de vida e seus relacionamentos. À seguir trazemos o ensaio visual da fotógrafa e designer Camila Muradas (20 anos, brasília–df). Camila esteve na República Democrática do Congo e em Ruanda, seu ensaio fotográfico traz um olhar profundo da África e seu espírito.

nota à primeira edição

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Camila Muradas é estudante de design e fotógrafa. Em julho de 2013 esteve na África e registrou através de suas lentes partes deste imenso continente e seu povo.


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caique & kadu

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reportagem evelynne gubert

André Gubert é um eterno jovem, gaúcho de Porto Alegre, criado em Brasília e apaixonado por Rock and Roll, seus amigos e sua família ­— que sempre fizeram parte de seus melhores momentos —, amizades para a vida toda. Conversamos com André sobre os momentos eternizados em sua memória, o que fazia para se divertir no começo de Brasília, suas companhias de noitada e a importância das amizades hoje e durante toda sua caminhada, já de 53 anos.

André Gubert no violão, à esquerda Tiago, acima Tirzá e Cláudia.


S

omos quatro irmãos com idade aproximada, o que sempre fez com que tivéssemos muita interatividade e compartilhássemos vários momentos de vida. Minha mãe sempre foi uma pessoa muito aberta e permissiva, que gostava da casa cheia, com uma família grande, era comum a casa estar lotada. Os primos e amigos sempre estavam lá em casa, nós quatro de filhos e os três primos. Todos parentes, mas muita amizade e brigas o tempo todo. Vivíamos como se fossemos todos irmãos. Os mais próximos eram Débora, Marcelo e Rogério, tinha um outro primo mas que já morreu, Luciano, que não era tão próximo assim da gente. Mas como a rua era pequena, todos se conheciam, todos os vizinhos. Dario, Ronald e criançada que às vezes quase moravam lá em casa, pois passavam o dia todo, uma creche praticamente. Era uma outra época, então ficávamos mais soltos na rua, andávamos mais na rua, não tinha tanto perigo, embora já havia incidentes de violência, não se pensava muito nisso. Rodávamos na rua sem ter o que fazer, claro que criança sempre achava uma arte para aprontar,somente pelo prazer da liberdade de fazer o que quiser, como se já soubéssemos que os tempos mudariam e que aquilo era um momento precioso e saudoso. Nunca me esqueço de quando meu irmão Felipe pegava girinos e os criava num balde embaixo da cama. A casa em pouco tempo tinha milhares de sapinhos. Quando fui fazer minha primeira comunhão, na igreja perto lá de casa, do padre Nelson, nunca me esqueço de que tinha uma quadra de futebol, dentro do espaço da igreja mesmo, e como era muito frio, inverno terrível em Porto Alegre, vestia muitas roupas e capa de chuva, com a bola de futebol

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no meio das roupas, ninguém via. E ai ao invés de fazer a comunhão, ia jogar bola e rodei na comunhão. Repeti a catequese. Não era porque era inverno com muito frio, com muitas roupas, que não íamos sair para brincar. Muitas roupas e muitos bolsos, um perigo. Que enchíamos de bombinhas, giz de cera e aquelas “cobras de vidro” (cobras que achávamos na beira do rio, mas sem veneno), que quando chegávamos em casa colocávamos no aquário. Viemos para Brasília em 79, tinha 14 anos, meu pai era do Banco do Brasil, que incentivava as famílias a mudarem pra cá. Foi uma mudança total de vida, sair de nossa cidade natal, onde crescemos, estudamos e tínhamos família, viemos pra cá onde não conhecíamos ninguém. Foi difícil no começo porque Brasília estava em construção, as quadras tinham poucos prédios, com quase nenhum comércio. Mudamos para a 315 norte, uma quadra 100% Banco do Brasil, freqüentávamos a AABB, que era um clube do Banco do Brasil, íamos ao supermercado também do Banco do Brasil, que esqueci o nome agora; ou seja, nossa vida girava em torno de pessoas que tinham alguma ligação com o Banco, que era uma grande quantidade. Conhecemos muita gente. No inicio dos anos 80 formamos uma outra turma que era na maioria do pessoal da 15 (315 norte) e outras quadras ali perto, principalmente quem gostava de musica, Rock n` Roll, bom gosto musical que adquiri em Porto Alegre, cidade com grandes laços e incentivos à boa musica, desde garoto já gostava. Queríamos ter camisetas das bandas e aprendemos na marra a mexer com serigrafia. Fazíamos estêncil de Jimmy Hendrix, Bob Dylan, Lou Reed e outras. Era um

Camiseta estampada com o guitarrista Jimmy Hendrix, feita por André e seus amigos. capão da canoa–pa, 1981.

método arcaico. Pegávamos minhas revistas, com recortes viravam xerox preto e branco, dessa xerox fazíamos um negativo e um cara amigo nosso queimava a tela e vendíamos na escola. Nessa mesma época comecei a tocar em umas bandinhas de amigos, debaixo do bloco, onde surgiu esse pessoal de Rock nacional. Toquei com Marcelo Bonfá, que depois foi para o Legião Urbana, o Ameba, que foi para o Plebe e Rude, quem viva junto com a gente era o “Negrete”, do Legião também, não saía lá de casa e mais um mundo

de gente. Conhecíamos quase todo esse pessoal. Logo que chegamos a Brasília, um pouco antes dessa fase de tocar, teve a fase do skate, estava começando na cidade. Em POA já andávamos, principalmente o Felipe, que andava muito bem, tinha jeito pra coisa, chamava a atenção. Quando chegamos aqui o pessoal estava começando esse esquema de rampa e o Felipe já mandava muito. Ficaram enlouquecidos com ele. Isso nos ajudou a conhecer muita gente nesses grupos de rock e pessoal alternativo.

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“Diversão era em festas, intrusos mesmo, invadíamos as casas e às vezes dava certo.”

Felipe Gubert (irmão) na guitarra, Rogério Souza na bateria. Os ensaios da banda Vernon Walters eram em um estúdio no Rádio Center. brasília–df, começo dos 80.

Alugamos uma sala no Rádio Center onde as bandinhas tocavam. Eu diria que o Radio Center foi o começo dessa história do Rock de Brasília, onde se reuniam. Na nossa sala tinham varias bandas, tipo o Diamante Cor de Rosa (risos), Mantenha Distância e muitas delas vingaram e fizeram sucesso. O bar que montamos foi bem depois, em 85, eu tinha uns 20 e poucos anos. Era um vídeo-bar, o nome era John Barleycorn, que era um álbum da banda Traffic, referência a um conto britânico, que tinha umas ilustrações na capa e que nos deu a ideia. Barleycorn tinha a ver com cerveja, cevada, fermentação, o que tinha tudo a ver com nosso bar. Tocávamos vídeos de Rock e lotava com esse pessoal dos anos 80 que conhecíamos dessas bandas, que já faziam sucesso. Era um bar pequeno, durou um ano, em um lugar que já era suspeito, no CONIC, mas que não impedia ninguém do nosso pessoal de frequentar. Quem montou esse bar foi minha mãe na verdade, no nome dela, pagou e ficou com as dividas depois, só não requentava. A sociedade era o Felipe, eu, Tirzá (minha Irmã) e a Marina. Na verdade eu nem estava na sociedade, ficava na parte das comidas, dos sanduíches, eu que fazia tudo. Uma característica desse nosso grupo de amigos era que tínhamos nossos pontos de frequência, batíamos ponto nesses lugares. Se não me engano começou pela Adega, no comecinho da asa sul, depois o Madrugada, um bar que tinha no “Gilbertinho” lago norte. Isso foi em 81/82. Entre outros bares, como a Broadway, Radicals. Diversão era em festas, intrusos mesmo, invadíamos as casas e às vezes dava certo, era uma festa boa que conhecíamos gente nova. Às vezes era apenas um aniversário na casa de um velhinho onde só tinha velhinhos também, era meio na sorte. Dos meus amigos — o que ficou como irmão mesmo, até hoje — é o Fábio, que virou padrinho de consideração da minha filha. Grande amigo, não me recordo de momentos que o Fábio não tenha participado. Grande sorte de encontrar esse amigo.

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“Não posso reclamar da vida, tive sorte.”

André e seus amigos Ronald, Felipe 2, Rogério e Felipe Gubert invadem o espelho d’água do Congresso Nacional. brasília–df, 1983.

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A principal droga era a bebida mesmo, até hoje isso permanece em Brasília. A pior droga que o pessoal usava nessa época, no Cine São Francisco, era o vinho Chapinha, que matava mesmo (risos). Mas o principal era o Porradinha, com uma garrafa de Fanta Laranja, uma garrafa de vodka ou cachaça, colocava essa mistura em uma garrafa menor ou copo, com uma dose de vodka e uma de Fanta, dava uma porrada na mesa com essa garrafa e quando começava a espumar botava pra dentro! Tomava isso umas 15 vezes. Não posso reclamar da vida, tive sorte. Isso aí ta gravando? Eu não vou repetir tudo novamente não (risos)!

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reportagem evelynne gubert gilmar rodrigues

Eduardo tem 25, taurino, estudante de Design na UnB e formado em Design de Interiores pelo IESB no ano de 2011, Eduardo é carismático e adora estar com seus amigos. Eduardo falou sobre o papel de seus amigos durante sua adolescência e as descobertas que realizou durante essa época.


M

“Foi um momento decisivo na minha vida, e tão novo ainda.”

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eu nome é Eduardo Massao, tenho 25 anos, nasci aqui em Brasília, me formei no Ensino Médio em 2005 e em 2006 entrei para artes plásticas na UnB, só que me cansei do curso e em 2009 entrei em Design de Interiores no IESB, acabei gostando bastante do curso e me formei em 2011. Enquanto ainda estava no curso de Design de Interiores, comecei a trabalhar em um escritório de arquitetura, fiquei lá durante dois anos. Devido alguns problemas o escritório fechou e acabei ficando sem saber o que fazer da vida. Ai comecei a trabalhar como projetista na Tok Stok, responsável pelos projetos de cozinha. Tentei passar na UnB e entrei para Desenho Industrial, que sempre foi uma opção de curso desde que estava no segundo ano do ensino médio, foi uma realização. Estou agora no quarto semestre do curso, ainda não estou estagiando. Sou Touro, ascendente em Gêmeos, lua em Aquário, isso me define um pouco. Para me divertir, é só basicamente estar acompanhado por amigos, me divirto com qualquer coisa, nem que seja fumar um cigarro na Colina com os amigos como nesse momento (risos). Eu não sei se acontece com todas as pessoas, mas comigo foram várias fases que vivi, começando pelos 12/13 anos. Eu meio que já sabia, mas pensava que ia passar, o homossexualismo, mas não passou. Por ainda não ter tido contato com o meio gay, achava que era apenas uma fase da vida de descobertas e curiosidades. Nós não somos educados e nem direcionados a ser gay, ninguém nasce para ser gay, era o que pensava. O tempo foi passando e fui percebendo que não era isso, não ia passar e a primeira vez que fiquei com alguém foi com 16 anos e foi uma mulher, uma amiga e não foi bom, como eu já imaginava, porque não tinha coragem para ficar com homens e mulheres eu não queria. Foi um momento decisivo na minha vida, e tão novo ainda. No segundo ano, com 16 anos mesmo, foi quando tive certeza, e mesmo ainda não me assumindo, os meus amigos na escola todos já eram gays, querendo ou não eu me aproximei das pessoas que compartilhavam do meu gosto, o grupinho gay já estava reunido, inevitavelmente. Tive sorte que um amigo se assumiu e acabei pegando o bonde e coragem para

Eduardo é muito expressivo, suas caras e bocas são sua marca.

eduardo massao

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“É um processo complicado, a gente não sabe qual será a reação dos amigos.”

Café Savana foi o primeiro bar gay que Eduardo conheceu, mas a noie não foi como o esperado.

me assumir também. É um processo complicado, a gente não sabe qual será a reação dos amigos, mas a verdade é que eles já sabem, as pessoas percebem, e se sabendo quem é você ainda te amam e te querem por perto, assumir não faz mais tanta diferença, mas ajuda você a se aceitar, mais que os outros. Foi quando comecei a ter as primeiras experiências. Lembro a primeira vez que fomos a um bar gay, Café Savana, ai eu e esse amigo inventamos várias histórias para nossos pais, que ele ia pra minha casa e eu ia para a dele, só para ir nesse bar e ver como que era. Era uma expectativa enorme, um apoiando o outro nessa nova experiência. Fomos a pé, acabou que ficamos no café (porque era mais um café do que um bar) conversando até as 03:00 da manhã só nós dois, não aconteceu nada e não tinha ninguém. Não foi nada do que esperávamos, porque a visão que tínhamos do mundo gay era aquela de vida louca, submundo, bagaceira todos os dias, e vimos que era apenas um café, com gays, mas apenas conversando ou simplesmente tomando um simples café como pessoas normais. Até hoje rimos disso. A primeira vez que fiquei com um homem, foi a primeira vez que fui em uma festa gay, ainda com 16 anos. Eu lembro que tinha um outro amigo da escola que tinha uma irmã que era lésbica. Era em uma boate chamada Coyote, no Terraço Shopping; entramos na festa e foi a maior emoção, porque primeiro eu não tinha 18 anos, depois porque assim que entramos, vimos vários homens de cueca e pessoas seminuas, totalmente inesperado, um mundo novo. Ai bebi duas Ice Smirnoff e fiquei muito bêbado, sentei no mezanino e um homem chegou em mim, não lembro o

nome dele, mas ele era velho, tinha 36 anos. Ai Fiquei com ele, não me lembro da cara, mas ele era feio, disso lembro, foi mais pela experiência mesmo. Depois disso eu fui naquele Frei Caneca Draft, que era do pai de uma amiga minha, mesmo sendo menor de 18 era tranqüilo de entrar. Ai fiquei com essa minha amiga lésbica e tive certeza que era gay e super gay e gostava de homens. Nunca tinha ficado com mulher antes e achei muito estranho, apenas me ajudou a entender, parecia que tinha beijado ela no rosto, nenhum tesão. Desde então, sou gay, aliás, desde sempre! Hoje em dia eu lido com muita naturalidade, acho que nunca me preocupei muito, depois de ter certeza. A questão dos meus pais foi um pouco mais duradoura, mas comparado com o que já ouvi de barracos na família e etc, pra mim foi bem tranqüilo. Me assumi pra minha mãe em 2005, estava com 17 anos. Eu tinha um caderno que anotava tudo, era quase um diário, só que mais profundo (risos), colocava os sentimentos. Pausa para meu ex-namorado que está passando aqui atrás da gente, um momento bem propício! Enfim, voltando ao diário, minha mãe achou e leu. Um certo dia estava na casa de um amigo, na volta no carro ela falou que leu meu caderno diário, ela ficou pensativa e falou: “meu filho, é obvio que eu prefiro que você não seja gay, porque ninguém cria um filho para ser gay, mas eu vou continuar te amando, te protegendo e querendo o seu bem, independente de qualquer coisa”. Fiquei mais aliviado, mas eu entendo, é uma opção mais complicada, o mundo é preconceituoso e nenhum pai ou mãe quer que o filho passe por dificuldades ou humilhações, eu entendi

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Eduardo na praia com seus amigos, durante o N-Design. salvador–ba, 2013.

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ela. Mas todos passam por isso, humilhações e problemas. Ela já sabia, eu sei, mas essa conversa tinha que acontecer. Com meu pai foi diferente, foi bem depois, acho que 2010. Nunca tinha assumido verbalmente para ele, mas acredito que ele já saberia, mesmo porque eu era muito mais assumido, andava de short curtinho, camisa de oncinha rosa, rosa!! Eu saía assim na frente dele, então pra mim estava mais que certo que ele já sabia. Então um dia eu estava chegando com meu ex-namorado, de madrugada lá em casa, no elevador estávamos rindo meio bêbados, quando a abri a porta de casa, ele estava na sala, olhando super sério para mim. Ai meu ex foi embora e eu entrei em casa, meu pai veio me perguntar “que quê é isso?”, “o que está acontecendo?”, ai falei que ele era meu namorado e ele não aceitou, ficou indignado, chamou minha mãe para conversar e foi quando eu soube que realmente ele não tinha certeza. Ai ele chamou minha mãe e foi uma confusão, porque na minha cabeça o que já estava resolvido eu tive que voltar a conversar, e voltar a ser uma pessoa enrrustida porque ele falou que não aceitava, era de uma família tradicional japonesa e realmente eu teria que mudar isso. Em nenhum momento ele falou a própria opinião, só repetia o que os amigos dele iriam

pensar, os porteiros, vizinhos... Eu cheguei à conclusão de que meu pai tinha aquele preconceito bem comum, de não saber o que pensar, de não conhecer, apenas não apoiar e não querer entender também. Seria mais uma ignorância. Ai depois de muita conversa e má aceitação, minha mãe falou que eu iria pensar sobre minha opção, na mesma hora olhei para ela pensando “não vou mudar nada, sou assim”, e ela apenas piscou de lado me dando um sinal. Eu entendi. Enquanto viver na casa do meu pai e ele me custear, meu estudos e tudo mais, eu tenho o dever de respeitar o jeito dele, mesmo me reprimindo um pouco, devo respeito, assim como ele, que mesmo sabendo disso e não concordando, continua me respeitando. Ele confia em mim bastante, provavelmente percebeu que essa minha escolha não mudou quem sou, viu que não me drogo, que não vivo pra promiscuidade, que nunca dei trabalho, e mereço ser respeitado. Ele amadureceu a idéia, acredito. Quando fui na Parada Gay em São Paulo em 2007, com 5 milhões de pessoas, eu me senti querido e apoiado, ver que muita gente passou pelo que passei, ter essa união das pessoas, sem olhar a quem, compartilhar de sentimentos meus.

eduardo massao

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reportagem gilmar rodrigues

Caique, como é conhecido Carlos Henrique, é um jovem de 27 anos, recém casado é formado em administração de empresas, atualmente trabalha com contabilidade e forma uma dupla de música sertaneja com seu irmão Kadu (Carlos Eduardo), 18 anos, que trabalha com TI e estuda Ciência da Computação. Conversamos com o Caique sobre sua carreira na música sertaneja — ele e o irmão já contam 6 anos tocando juntos — , o papel de sua família na criação da dupla e sua visão sobre a amizade dentro da família, é claro, aproveitamos para descobrir histórias vivenciadas pelos irmãos.


Caique e Kadu juntos ao final de um show registram sua parceria. luziânia–go, 2013.

M

inha família sempre esteve envolvida com música, meu avô é músico, viveu por muitos anos da música, desde novo tocava lá em Nova Rússia no Ceará. Ele é sanfoneiro, mas hoje toca só em casa com dois irmãos, eu acho que isso está no sangue, nossa família gosta muito de música. Quando eu morei no Gama eu cantava com um vizinho, a gente era entrosado e as vozes combinavam, mas não fazia show, eu tinha uns 12 ou 13 anos, então não podia. O Kadu sempre observava a gente, na verdade eu nunca pensei que ele fosse cantar; mas hoje ele é meu companheiro, meu parceiro e eu não sei cantar com outra pessoa, parece que a voz não encaixava, é incrível como uma dupla de irmãos é diferente. Meu pai diz que quando o Kadu nasceu já imaginava que a gente iria cantar junto, ele dava violinha de brinquedo, a gente cantava na casa de amigos e ele sempre apoiava. Ele é o nosso maior incentivador, eu brinco falando que eu e o Kadu não precisamos de fãs, porque ele já é o maior fã de todos, é o incentivador e empresário. Nos shows ele ajuda com tudo, no nosso disco fez a produção executiva, faz contato com o público, traz elogios e sugestões. O nosso começo como dupla foi divertido, um dia a gente estava passeando em Luziânia, foi toda a família, pai, irmãos,

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“Ele já é o maior fã de todos, ele é o nosso maior incentivador.”

mães, tios, tias e tal. A gente foi em uma pizzaria e depois passamos na festa da Igreja Matriz, que estava lotada de gente, tinha várias barraquinhas e uma banda de forró estava tocando. Meu tio Ivan, muito atrevido, falou pro pessoal da banda o seguinte: “Esses meninos aqui cantam demais, deixa eles subirem ai e cantar uma música”, nós subimos nesse palquinho, o Kadu na época tinha 10 anos; parecia o Rio Negro e Solimões, um comprido e um baixinho. Então nós cantamos e no final eu achei que a gente tinha arrebentado e o Kadu também achou, só que quando a gente acabou ninguém bateu uma palma sequer, eu desci pensando: “cara, o que eu fiz de errado?”, o som estava bom, a música era legal (era do Bruno e Marrone) e a bandinha tocava bem; isso me fez ficar muito curioso pra melhorar o meu trabalho, para adquirir reconhecimento, aplausos e tal, o que é melhor que qualquer dinheiro. A partir desse dia toda apresentação nossa era gravada para achar os erros, corrigir e melhorar a cada dia. Inclusive muitas pessoas perguntavam quando a gente iria gravar um CD e eu achava que não era a hora, o Kadu ainda era pequeno, iria mudar de voz, a gente ainda estava melhorando muita coisa. Depois que a gente já estava com a voz legal, encaixando um dueto, depois de estudar, melhorar, então veio o CD. Entre esse show, que foi invadido, e o primeiro feito por nós demorou um tempo, a gente ficou um tempo em casa ensaiando, ouvindo músicas, gravando os ensaios e ouvindo depois, era cada fita ruim que ficou guardada de recordação. Até que depois de mais ou menos um ano meu pai arranjou uma banda, então nós fizemos um show em Alexânia, em um barzinho chamado Bangalô. Na época nós estávamos com o Luisão um sanfoneiro, e o Baiano que é violeiro. Foi legal porque nesse dia estava a família toda reunida, antes desse show o pessoal só ouvia falar que a gente cantava, mas nunca ninguém tinha ido em um showzinho, esse show foi até gravado, depois de um ano daquela época da Igreja de Luziânia nós fizemos essa apresentação em Alexânia. Hoje vendo o vídeo eu acho que está tudo errado, risos, mas no dia eu achei que estava tudo certo, além disso, eu nunca tinha ganhado um real com música; e no final a gente tinha

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Caique se apresenta com banda. ipameri–go, 2012.

fechado um valor de 500 reais, só que meu pai era doido, ele pagou bem os músicos e para nós não sobrou muito, mas tudo bem, eu também sou a favor disso, foi 150 para um, 150 pro outro e ainda teve um cantor se apresentando no dia que meu pai também deu dinheiro, risos. No final sobraram 50 reais para dividir entre eu e o Kadu. Os melhores shows que nós fizemos até hoje foram em Alexânia, e o melhor foi em uma véspera de virada de ano, em 2010; o show foi só nosso, foi anunciado durante a semana com carros de som nas ruas. O show foi de graça, realizado pela prefeitura. O que me chamou a atenção foi o fato de ter dado muita gente, apesar da garoa no dia, estava frio, quando eu cheguei na cidade umas 18:00 hr já estava garoando, eu achei que não ia ninguém; mas a praça ficou cheia, quer dizer, o público não era tão grande, mas pelo fato de estar chuvoso o número foi grande. Também a estrutura era ótima, o palco, o som, a equipe; antes disso nós já tínhamos feito aberturas para outras duplas, ou dividido palco e dessa vez (a primeira) foi só nosso o show.

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Por tudo isso eu acredito que a amizade de um irmão é mais verdadeira, irmão se gosta pra valer, pelo menos no nosso caso, o irmão não carrega mágoa, quer dizer, existem irmãos que brigam e nunca mais se falam especialmente se existe um negócio envolvido no meio. Não sei ser assim, e no que depender de mim nunca vai acontecer algo parecido, dinheiro não é tudo, não sou ganancioso. Para mim a amizade entre irmãos é mais verdadeira, eu sou muito família, meu irmão e meu pai são meus melhores amigos, na rua nós temos muitos colegas, óbvio, a gente tem amigos de infância, mas é uma amizade diferente. E nossa amizade está cada vez melhor, antes ele era uma criança, um menino, às vezes a gente tinha que ensaiar e ele queria brincar, a gente não forçava a barra também, hoje o papo é outro, eu dou conselhos sobre o relacionamento dele com a namorada, cada vez mais ele é um parceiro. O papo hoje fica mais parecido, antigamente ele me tinha como um modelo, um espelho, e hoje é diferente, pode ser que ele vire a minha referência. E bom, claro que vai dar saudade do tempo que ele era criança,

“Eu sou muito família, meu irmão e meu pai são meus melhores amigos.”

A amizade não fica só no palco, fora dele os dois irmãos estão sempre juntos. rio quente–go, 2012.

eu cuidei dele enquanto minha mãe ia para o trabalho, ficava fora o dia todo e na época meu pai tinha ido morar nos Estados Unidos. Eu troquei fralda, levei e busquei na escola, fazia de tudo, eu e a Lohane (irmã). Tem uma história engraçada, eu tinha uns 13 anos e um dia o Kadu estava brincando na porta de casa, tinha uns meninos jogando bola na frente e ele passou por eles de patins, esses meninos brigaram com ele, escorraçaram ele de lá e deram uma rasteira, o Kadu veio e me contou o que tinha acontecido. O menino que deu a rasteira nele era bem maior que eu, ele morava lá na rua; eu peguei um cabo de telefone, sai de casa e fui encarar ele, que era grandão, fortão, eu disse para ele vir bater em mim ao invés de bater no meu irmão, ele veio é claro e eu bati com esse cabo no ombro dele, bati nele todinho, sapequei esse fio nele. Por um irmão você encara tudo, eu tenho o Kadu quase como um filho.


reportagem e fotografia karoliny gomes

Bruno é natural de Belém, mas reside desde novo em Brasília, jovem de espírito aventureiro e livre, saiu de casa para morar conquistar sua independência junto de seus amigos. Conversamos sobre sua personagem Aretuza, as histórias e os perrengues que viveu com seus companheiros e sua visão sobre a amizade, antes e depois de seu sucesso na noite de Brasília.


A

qui em Brasília eu tenho muitos colegas, antes da Aretuza um pouco menos, mas agora tenho muitos. Amigos de verdade eu tenho poucos e alguns deles que são muito importantes para mim não moram aqui, mas em Belém, e aqui em Brasília meu melhor amigo é o Victor que é meu maquiador. Passei minha adolescência em Belém e sai de casa muito cedo para morar com meus amigos, eu queria minha independência financeira, tinha aquela rebeldia de adolescente, além de ter muito medo que minha família descobrisse que eu era gay. Eu era novo e pra mim a minha válvula de escape era sair de casa, minha mãe ficou com raiva de mim por um tempo por eu sair de casa tão cedo, eu ainda era menor de idade. Éramos eu e mais dois colegas, passamos por muitas dificuldades juntos, porque todo mundo estava desempregado, eu lembro de uma vez que tivemos que entregar a casa que morávamos por não ter dinheiro para pagar o aluguel e sem ter para onde ir sentamos em uma praça (risos) até virar o dia, esperando que outro amigo nosso viesse e nos ajudasse; fomos para Recife juntos e passamos mais dificuldades ainda. Esse período da minha vida com eles me marcou muito porque, eu poderia ter vindo embora pra casa da minha mãe e pronto, cada um seguiria seu rumo, mas na verdade ficamos ali um com o outro, juntos nas dificuldades e isso foi uma das maiores provas de amizades que eu tive com eles. É algo que já dura mais de dez anos. Aqui em Brasília meu amigão mesmo é o Vitor, ele me maquia para eu poder interpretar a Aretuza, eu o conheci através de um colega de trabalho, nós não nos gostávamos, mas fomos nos conhecendo e ficamos cada vez mais amigos. Ele é aquele pra quem

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eu conto todas as minhas intimidades e já passamos por muita coisas juntos, a desgraça só acontece “junta” (risos), começamos a namorar no mesmo dia, o Vitor brigava com o namorado eu brigava com o meu, era algo assim “amiga eu briguei com meu namorado” e eu “amiga eu também briguei com meu namorado”, a gente terminou o nosso namoro no mesmo dia sem saber que o outro tinha terminado, enfim (risos) até sofremos juntos. Eu e o Vitor já passamos historias engraçadíssimas no carnaval, ainda mais em Brasília que nessa época é um Lixo, com carro quebrado no meio do nada então (risos), temos uma sina com carros quebrados. Ficamos numa quadra do cruzeiro dormindo quase todos os dias de carnaval, com todos os nossos amigos viajando, os dois celulares sem bateria, as duas bichas sem nenhum real no bolso, a minha mãe viajando e com fome dentro do carro do Vitor. Outra história com o carro quebrado foi uma vez que o Vitor mais um colega nosso foram me buscar no shopping, eu tinha ido dar uma palestra no Taguatinga Shopping, além de me buscar eles aproveitaram para me parabenizar, saímos para comer e o céu estava lindo e maravilhoso. Eles me buscaram e passando um pouco do início da EPTG o carro parou e pra piorar começou uma chuva que não dava para ver nada, e claro, os diabos dos celulares descarregados, os três Tentamos empurrar o carro e nada, não sabíamos o que era, e não podíamos ficar lá, o carro não tinha seguro e nem tínhamos dinheiro, empurramos o carro do começo da EPTG até o SIA. O carro quebrou era por volta de nove da noite e só conseguimos chegar ao SIA às cinco da manhã. Eu e o Vitor estamos juntos para o que der e vier, e ele é uma pessoa que eu amo , confio e adoro, ele é especial

Bruno é artista perfomático, sua preparação é longa e difícil, mas ele não perde o bom-humor.

“Amigos de verdade eu tenho poucos.”

e é uma amizade que já dura três anos e tenho certeza que irá ainda mais longe. Eu nunca sonhei em ser a Aretuza, não foi nada premeditado, não lembro quando exatamente, mas o carro do Vitor tinha quebrado, pra variar, já era tarde e perdemos o ônibus além de não termos dinheiro. Estávamos na Octogonal andando pra uma parada e conversando com o Vitor falei que eu ainda iria fazer alguma coisa engraçada, pra mostrar para todo o mundo, comecei a fazer graça no meio da rua, o Vitor se acabava de rir de madrugada, no meio da rua. Tem outra historia legal (risos) com o carro lascado da bicha que não para de quebrar, estávamos no Park Way e ele estava me levando ao Valparaíso, ai do nada o carro para por falta de gasolina, mas não sabíamos, e de tanto tentar ligar o carro a gente não percebeu que arriamos a bateria do carro. Liguei para a minha mãe e minha irmã pedindo ajuda e minha irmã veio e trouxe a gasolina, só que a bateria tinha arriado e já estava de noite, minha irmã tinha entregado

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Bruno em sua personagem Aretuza e seu grande amigo Vitor.

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a gasolina e ido embora logo em seguida. O carro não ligava e sem saber que a bateria tinha arriado ficamos lá, dormimos novamente dentro do carro e eu me lembro que acordei de manhã com uma vontade de fazer um clipe, “deita na BR”, ousadíssima. Meus amigos são muito importantes para mim, não só pelo o que a gente passou, mas por provar que eles estão junto comigo em todos os momentos, às vezes do nada da vontade de virar e falar: “amigo eu te amo!” assim do nada, ou quando sentimos que um está triste ligamos e perguntamos como está, se está tudo bem e o que posso fazer pra ajudar. Sabe, eles provaram ser meus amigos, há muito coleguismo por ai e amizade é muito diferente disso, hoje eu vejo que brota colega, do nada, e quando eu não era a Aretuza não acontecia isso. Quando algumas pessoas chegam em você sem mal te conhecer e falam “oi amigo”, nossa eu acho isso tão feio, uma coisa é ser amigo de ter intimidade para conversar e passar seus momentos particulares juntos, outra coisa é alguém que chega na Balada e falar “oi amigo”, uma pessoa que me viu três vezes e me adicionou no Facebook. É que nem falar eu te amo sem sentir aquilo, gente! Se eu adestrar um cachorro para falar “eu te amo” ele late “eu te amo”, amizade e amor é muito mais que um coleguismo, é quando temos uma pessoa em que podemos compartilhar e contar sempre.

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Aretuza Love Aretuza Lovi é a personagem Drag Queen criada por Bruno Nascimento que canta, dança, compõe e faz humor nas casas noturnas de Brasília e São Paulo É apresentadora e hostess residente da Victoria Haus desde 2012. Mistura de swing brasileiro com a modelo britânica Alice Dellal, a drag Aretuza Lovi agregou público com performances de comédia e estilo próprio de apresentação. Além de arrancar gargalhadas durante as brincadeiras, a “moça” magra e alta dos cabelos crespos entrou no universo da música com “Striptease”, sua primeira música de trabalho. Apresentadora do programa Play Diversão & Saúde, parceria de uma agência local com o Ministério da Saúde na luta contra a Aids. Aretuza Lovi é considerada uma das figuras mais importantes da militância LGBT de Brasília, participando de diversas paradas do orgulho e campanhas em defesa dos LGBT’s.


A

Aretuza foi algo inusitado que nunca tinha imaginado para minha vida. Tudo começou na casa de uns amigos meus, estava uma chuva muito forte e todo mundo queria ferver, sair. Eu dei a ideia que em vez de sair pra balada deveríamos fazer algo diferente, sugeri fazermos um vídeode mim fazendo graça todo montado. Eu nunca tinha me montado na vida e decidi me transformar pra fazer esse vídeo. O papel era de uma mulher bem brega que ficou rica, bem bagaceira; peguei as roupas da mãe de um dos meus amigos e me maquiei, uma maquiagem exagerada e espalhafatosa, algo que influenciou muito no começo da Aretuza que era uma personagem caricata, bem borrada e sem dente. Gravamos o vídeo e colocamos na internet, que por sinal ficou muito engraçado. No meio de várias brincadeiras tornou-se recorrente me vestir de Aretuza, vivia perdendo apostas e tendo que me montar. Numa dessas tive que ir para o Galeria montado e durante a festa algumas pessoas próximas começaram a chegar a mim e falar que tinham visto o vídeo. Inclusive o cara que organizava as festas no Galeria que do nada jogou o microfone na minha mão e falou: “vai lá, sobe no palco! ”, eu já estava montada então eu fui; num outro dia tinha um Drag, conhecida minha, que ia fazer um show na Victoria Haus, ela chegou pra mim e me chamou para ver o show dela na boate, eu falei que iria mas não montado, meus amigos e eu acabamos fazendo outra aposta, claro, eu me estabaquei e perdi, então eu fui montado para o show. O Thales, dono da boate, perguntou para Drag quem eu era e ela mostrou o vídeo que fizemos na casa do meu amigo para ele, do nada ele virou pra mim e falou: “A você vai subir

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“Eu sempre tive um feeling para o humor, mas nunca imaginei ser Drag. A Aretuza surgiu de uma brincadeira e era algo muito distante de mim, Bruno, e talvez quem eu sou hoje seja por causa dela.” no palco!”, eu fiquei me perguntando: “Gente como assim?!”, porque eu nunca tinha feito nada parecido na vida, em nenhuma casa de show e me chamam logo para subir no palco da Victoria Haus que é a maior casa GLS de Brasília, lotada, eu fui e passou tão rápido .Quando eu terminei, eu me senti um lixo e fiquei me perguntando: “Caralho o que eu fiz da minha vida?!”. A maquiagem era tão pesada que ninguém poderia imaginar que era eu, mas mesmo assim fui para casa pensando “eu nunca mais saio na rua”. Passando algumas semanas o Thales me chamou pra ir me apresentar na boate de novo, chegando à Victoria ele fez o convite para eu ficar permanente fazendo shows. Já faz dois anos desde essa época e o personagem mudou muito. A Aretuza era totalmente mal educada e brega e com o tempo eu vi a necessidade de muda-lá, porque eu vi muitas Drags caricatas com bocão colorido, mas percebi que dava para fazer a linha caricata de uma forma mais moderna, elegante, Diva, mas uma Diva que tivesse um contato maior com o povão, que representasse esse povo. Geralmente as Drags são muito close e glamour, cheias de não me toque, e eu não queria fazer essa linha, foi quando surgiu a ideia de assumir um cabelo afro raspado de lado com roupas diferentes, a fase Aretuza 2.0.

Algum tempo atrás eu fui pra Belém passar as férias, e tive a oportunidade de conhecer muita gente da musica paraense, Tecnobrega e ritmo Calypso, um deles me chamou para grava uma musica, ele é um compositor muito considerado em Belém e claro que topei gravar. Eu queria uma musica em que eu me sentisse bem e que gostasse do ritmo, porque eu não canto nada e amo o ritmo brega, a musica que ele fez se chama Striptease, era uma musica bem na raiz do Tecnobrega de Belém, que vindo pra cá não ia vender muito, mas mesmo assim eu gravei. Percebi que estava meio exaustiva e decidi colocar uma batida pop nela, dando uma roupagem nova na musica, gravei o clipe dela e em menos de dois dias o clipe já tinha mais de 20 mil visualizações. Foi a partir dessa música que o publico começou conhecer a Aretuza, e pegar seus bordões, um sucesso na balada . Eu continuei fazendo meu trabalho de humor tanto aqui em Brasília como fora e nunca imaginei que meu trabalho iria se expandir pra fora de Brasília, pra mim era uma coisinha que ia ficar dentro da Victoria Haus. Eu nunca gostei de sair a noite e sempre detestei balada e ai cai logo para o trabalho a noite. Se manter na noite é muito difícil, porque no começo é muita gente querendo te derrubar, ninguém valoriza o seu trabalho,

você tem que ter o felling de que se você não se valorizar ninguém vai, varias vezes eu pensei em desistir pensando que não era isso que eu queria para minha vida, mas ai quando eu lancei a música as coisas começaram ficar mais sérias e eu tinha por obrigação ser mais profissional e pensar que a Aretuza deixou de ser brincadeira. Eu abri mão de toda a minha vida pela Aretuza e com dois anos de trabalho parece que já se passaram dez, esses dias eu estava fazendo o cálculo de festas que eu já fiz e foram mais de 300 noites sem durmi, 300 roupas, cabelos, textos, porque quem trabalha com humor ao vivo tem que entender que é humor puro, criando seu próprio texto, uma piada rápida e engraçada no palco. Hoje vem acontecendo muitas coisas legais comigo, por exemplo, a entrevista com a Marília Gabriela, algo que eu nunca tive noção que iria me acontecer. Com a expansão do meu trabalho pelo país eu comecei a fazer muitos shows fora, boates cheias com as pessoas contando minha música. Fiquei muito emocionado porque quem diria que eu que não sou ninguém e não canto nada, e que vivo no truque contando pra essas gays (risos), faria sucesso, me sinto a Madona. Outras bandas até já regravaram a musica. Um dia do nada recebi uma ligação do jornal O Globo do Rio de Janeiro, ele é uns dos

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jornais com maior circulação dentro do Rio, e era um jornalista que estava pesquisando artistas que fazem musica no meio gay pra uma matéria, eles já estavam contando com banda UÓ, Daniel Peixoto, Sapa bonde e outros, eles pediram uma foto minha pra colocar no jornal, passou um tempo e a matéria saiu, quando eu fui pegar o jornal na rodoviária eu comecei a gritar feito louca, carregando 15 jornais de baixo do braço pra mostrar pro povo, porque tinha uma foto minha em destaque na capa do Globo, com uma chamada do tipo “meio gay invadindo a MPB, e a nova aposta se chama Aretuza Love”, nossa eu chorei de emoção. Desde a matéria se passaram duas semanas, eu estava no trabalho porque nessa época além de fazer a Aretuza eu trabalhava numa agencia de publicidade, e recebi uma ligação de São Paulo, nesse dia tinha acontecido tanta coisa ruim e eu estava super triste. A pessoa no telefone se apresentou como a produtora do programa Gabi quase proibida, da Marília Gabriela, e falou que a Gabi tinha lido a matéria sobre o meio gay na MPB do jornal O Globo e que ela tinha gostado muito e gostaria de me entrevistar, eu pensei na hora que era uma pegadinha. Parando pra pensar a Gabi é uma das maiores apresentadoras da televisão brasileira, se não for a mais conceituada, ela já entrevistou as maiores celebridades brasileiras desde cantoras a presidentes, e esse convite me deixou sem chão. A entrevista foi uma semana depois da ligação, a produção comprou as passagens e eu fui. Foi uma experiência mágica, muita gente achou que eu ia chegar lá e fazer a linha mais espalhafatosa e engraçada, mas ai eu quis mostrar que não é só ser engraçada, mas que temos que ter conteúdo também. A partir dessa entrevista muitas e muitas portas se abriram, por exemplo, o convite do Wald Squash, um dos maiores produtores de musica do Brasil que já produziu Gabi Amarantos e Marisa Monte, e da Gang do Eletro pra gravar uma musica mais profissional com eles. Três singles novos saindo, com participações da Gang do Eletro e Valesca Popozuda. Mais e mais oportunidades estão surgindo, inclusive essa semana recebi por e-mail um pedido de autorização para a Aretuza virar um meme do Danilo Gentili, e isso é sinal de que alguém esta vendo e reconhecendo meu trabalho.

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“Drag pra mim além de profissão é uma arte, e quando você faz algo com amor o que vier de dinheiro e fama é onsequência”

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É bom quando as pessoas respondem positivamente ao seu trabalho, houve pessoas que chegaram a mim e falaram que depois que começaram a me acompanhar suas vidas mudaram, um cara esses dias me falou que depois que viu minha entrevista na Gabi decidiu se assumir para a família como gay, e não só ele como várias pessoas pelo Brasil, e é muito bom ver a influencia do nosso trabalho na vida das pessoas, e ainda bem que boas influencias que não ficaram limitadas ao meio gay. Algumas semanas atrás eu passei por duas experiências que me marcaram muito e até me fizeram chorar, foi um cara que chegou para mim com um celular na mão e me mostrou uma foto, com os olhos cheios de lagrimas, de mim com um cara que não era ele, ai ele me falou: “esse aqui foi meu companheiro de dez anos e essa semana ele faleceu de câncer, e quando ele estava em fase terminal, pediu que caso acontecesse alguma coisa com ele que eu viesse mostrar essa foto para você”, gente! Isso me desmoronou, eu não estava preparado emocionalmente para escutar aquilo, porque eu tinha a impressão de estar presente na vida das pessoas apenas no final da semana, na balada, mas não para esses momentos tristes podendo ajudar; e na ultima festa de hallowen uma menina chegou pra mim e falou que a minha musica tinha ajudado na recuperação da sogra dela, que estava na UTI, claro que eu desmoronei a chorar de novo. Hoje vejo como essas pessoas, o publico em geral, são importantes para a vida de um artista, e eu fico muito chateado quando eu tenho contato com outros artistas e vejo todo aquele teatro no palco e por trás ele trata mal o fã. E por mais que eu esteja cansado ou com

problemas tenho que estar sorrindo, porque eu sei que as pessoas que vem para a boate para se divertir e esquecer aquele dia cansativo que tiveram, não posso deixar os meus problemas pessoais interferirem em suas vidas. Ninguém tem a noção de como é ser Drag, de como é a vida e as dificuldades de quem trabalha com isso, porque não sou só um menino de peruca. É muito diferente você assumir isso para a sua vida como algo só para dar dinheiro ou close de bonita colocando uma peruca e roupa de mulher, ser Drag não é isso, não é se travestir e nem ser mulher, e sim um homem que vê a beleza da mulher e encara isso como uma arte. Eu me considero um artista performático e não um viado, Drag pra mim além de profissão é uma arte, e quando você faz algo com amor o que vier de dinheiro e fama é consequência. Durante esses dois anos eu plantei muito trabalhei muito, e agora estou colhendo os frutos. Uma questão que ainda não falei sobre o preconceito, as pessoas são muito preconceituosas com Drags, pensam que se você é Drag é travesti, remetendo a prostituição. Algumas pessoas têm a visão do mundo gay ligado à prostituição, sujeira, drogas e safadeza. Já houve vezes ,quando eu estava indo embora da boate montado, de pessoas pararem o carro pra perguntar quanto que eu estava cobrando pelo programa, gente! Automaticamente eu xinguei todo mundo, mas que porra! Não é porque eu sou drag que sou puta. Graças a Deus comigo isso já mudou muito, pois estou sendo ligado mais como um artista. Abdiquei de muitas coisas na minha vida, família, amigos, vida social, pela Aretuza e espero alcançar mais e mais conquistas com esse personagem.

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reportagem gilmar rodrigues

Sofia é uma jovem de 23 anos, estuda Design na Universidade de Brasília e é amante de arte e literatura, Sofia é filha de pais chilenos e viajou à Buenos Aires para estudar espanhol, lá fez grandes amigos que guarda em seu coração. Ela e seus amigos nos falaram sobre seus dias em Buenos Aires, como se tornaram amigos e sobre seus planos de futuro. Quando esperam poder viver todos na mesma cidade.


Q

“Tivemos uma sintonia muito legal logo de primeira.”

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uando me pediram para dar um depoimento sobre amizade eu logo pensei neles. Bom, nos em conhecemos em janeiro de 2012, em Buenos Aires. Fui fazer um curso de espanhol de um mês na UBA (Universidade de Buenos Aires) com uma amiga de Brasília. Ela, a Isadora, namorava, e ficou em um clima mais caseiro e logo comecei me sentir só em Buenos Aires. Já estava achando que a viagem seria uma furada porque a única pessoa que falava comigo era um bombeiro esquisito da nossa turma de espanhol. Até que um dia, no meio da aula, um senhor, futuramente apelidado com sua esposa de “lendas amazônicas” começou a me irritar levemente na aula questionando o que eu fazia da vida. Logo de cara um menino (lindo, inclusive) ficou do meu lado e me defendeu. No intervalo da aula começamos a conversar, e ele (Arthur), logo me apresentou para a Jacquelinne, nossa colega de classe, e para a Fernanda, também da nossa sala e que era colega da universidade dele aqui no Brasil. Dentro de poucos dias a Jacquelinne me convidou para tomar “drinks”. Convidei o Arthur também e cada um convidou seu companheiro de casa: eu chamei a Isadora, a Jacquelinne chamou o Gustavo e o Arthur chamou a Fernanda. Fomos num bar que teria sido furada total se não fosse a dose dupla de cosmopolitan por pouquíssimos pesos. Daí fomos para uma festa numa boate nada a ver com a gente, chamada Kika. Apesar de a música ser esquisita, e de ter tomado a pior bebida da minha vida (fernet, blerg!) nos divertimos muito, tenho certeza que a partir do momento em que saímos da Kika já éramos amigos. Eu sei que tudo em intercâmbios é bem mais intenso, mas tivemos uma sintonia muito legal logo de primeira.

Sofia e Arthur compartilham um grande interesse por arte. brasília–df, 2013.

O Arthur é louco por arte, e eu também, me deu as melhores dicas de museus de Buenos Aires. E tem o privilégio de estar associado inconscientemente na minha memória com Rodin pela sua descrição da cabeça do Balzac, que fez me sentir na frente da obra. A Fernanda é artista, a sensibilidade dela é incrível. Eu e Arthur adoramos falar que vamos ver coisas dela em galerias pelo mundo. O Gustavo estava se mudando para Brasília, quando nos conhecemos em Buenos Aires. Em pouco tempo se tornou meu conselheiro, me dá vários conselhos ótimos ou quando eu tô dramatizando demais só fala um “Aí Sofi, não sei” e eu percebo que tá na hora de parar. A Jacquelinne é a pessoa mais intensa que eu conheci na minha vida. Se apaixonou umas duas vezes durante a nossa viagem e sempre tava reclamando das minhas frescuras e falando de astrologia. E todos nós ficáva-

mos comentando da tal Mariane, a menina da sala que nunca ia e tinha uma cara de quem estava super adaptada a cidade enquanto nos enfiávamos em alguns programas furados. Claro que quem começou a falar com ela foi a Jacquelinne, fazendo o que as duas fazem melhor: marcando uma viagem para o Uruguai. Claro que nunca fizemos essa viagem, mas logo a Mari estava sendo nossa guia pela cidade e nos levando para restaurantes secretos em San Telmo. A Mari é tão intensa quanto a Jacque: elas nasceram no mesmo dia. Ela mora fora de casa desde nova então é irritantemente independente e sociável. Bom, eles salvaram minha viagem, me faziam sair de casa para todos os tipos de programas: desde baladas maravilhosas, passando por tatuagens impulsivas, até andar de patins no parque em um dos dias mais quentes que já vivi. Felizmente, depois disso já nos

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encontramos várias vezes. Uma das nossas metas de vida é morar na mesma cidade. Se um de nós conseguirmos parar quietos, acho que conseguimos por pelo menos um mês de novo, já nos prometemos um “revival Buenos Aires” diversas vezes. Vai completar dois

anos que nos conhecemos, morro de saudade sempre, mas fico muito feliz de saber que dois anos depois estamos aqui, cada um de um lado do Brasil e do mundo (o Arthur está na França) contando nossa história de amor (risos).

ma r i a n e Va l ê n c i o Para mim tudo começou quando eu resolvi trocar a loucura pela cultura e me mudei para Argentina para estudar Direito Internacional e Espanhol na Universidad de Buenos Aires. Já morava há quatro meses lá quando conheci a Sofia, o Arthur, o Gustavo e a Jacque. Morava com uma argentina, tinha meus amigos e não estava buscando fazer mais amizades. A verdade é que eu tinha um pouco de preguiça de ser sociável de manhã, e ainda mais com turistas que iam pra Buenos Aires com a desculpa de estudar espanhol pra ir à balada. Mal ia às aulas, viajei no meio do curso e já era conhecida como a “mal humorada da turma”. Eu achava a Sofia a coisa mais linda do mundo. Filha de chilenos, tinha aquele sotaque lindo que eu tanto adoro. Eu e a Jacque nos apaixonamos quando eu fui pra aula com uma camiseta do AC/DC e ela com uma dos Beatles. Foi amor à primeira vista. O Arthur era o que melhor falava espanhol pra mim. Tinha cara de estudioso. Loiro, lindo e com aquele sotaque gaúcho apaixonante. A Fernanda parece uma pin-up. Eu ficava durante a aula inteira pensando como alguém podia ter tanta cara de diva. Um dia eu me intrometi numa conversa pra explicar como chegava numa galeria que eles queriam ir. Esse foi o meu primeiro contato. Inacreditavelmente no dia seguinte

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recebi um convite para uma festa na casa da Sofia. Fiquei tão feliz que até aceitei o convite para almoçar com eles e com os demais colegas da classe num restaurante ali perto. Aparentemente eu não tinha nada a ver com ninguém: todos estavam em busca de diversão, pontos turísticos — alguns até vinham da mesma cidade — e eu era a única de São Paulo e já não estava mais nesse pique de turista. Depois os convidei para conhecer um restaurante em San Telmo, com a proposta que seria algo mais local, nada turístico. Toparam na hora. E foi aí quando eu conheci o Gustavo. O Gu dividia apartamento com a Jacque e era de outra sala. Os dois vieram juntos de Roraima (sério que eu conheço DUAS pessoas de Roraima?). Ri com o Gustavo como não ria há meses. Direto do restaurante propus de andarmos de patins nos Bosques de Palermo. Entre tombos, risadas e fotos, descobrimos o que tínhamos em comum: juntos nós não precisávamos fingir nada, podíamos ser nós mesmo, pois não existia julgamento nem preconceito. Logo depois da festa da Sofia — onde já nas duas primeiras horas parecíamos amigos de infância — o Arthur e a Fernanda foram embora. Passamos o resto do verão relembrando histórias, fazendo planos e sentindo falta dos

dois gaúchos que nos deixaram. Eu já tinha visto esse filme antes, sabia que em pouco tempo ninguém mais se encontraria e tudo não passaria de uma história de verão. Mas para minha surpresa, estou aqui, quase dois anos depois escrevendo como eu conheci essas cinco pessoas fantásticas que mudaram meu conceito de amor à distância. Hoje nos dividimos do Oiapoque ao Chuí, mas dentro de cada coração bate o mesmo amor. O Arthur foi morar na França, mas a cada ligação no Skype eu tenho mais certeza que nada mudou. Já fui visitar a Sofia e o Gustavo em Brasília duas vezes. A Sofia já veio me visitar em Santos. Encontrei o Arthur e o Gustavo em São Paulo. A Fernanda até

passou o último réveillon comigo em Santos. A Jacque é um caso à parte. Descobrimos até que nascemos no mesmo dia, com duas horas de diferença (eu sou a mais velha). Ela Ficou de passar o réveillon aqui também e acabou perdendo o voo (e essa foi a primeira grande tragédia do grupo). Temos um grupo no Facebook que é mais um mural de lamentações, mas que só serve pra provar que aceitamos nossos defeitos e qualidades, e somos lindos assim, do jeitinho mais dramático de ser.

Sofia e seus amigos passearam por vários parques da capital argentina. buenos aires–ar, 2012.

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arthur ch i n n i É difícil começar a escrever sobre como os conheci sem me emocionar. Viramos amigos tão rápido que hoje parece que eu os conheço desde sempre! Encurtando um pouco a história, eu e a Fernanda, minha colega de faculdade, decidimos passar um mês das nossas férias estudando espanhol na Universidade de Buenos Aires. E por uma feliz coincidência a Mari, a Sofia, o Gustavo e a Jacque tiveram a mesma ideia. Eu lembro que no primeiro dia de aula tive a impressão de que ia odiar a turma: um casal insuportável que acabamos apelidando de “lendas amazônicas” simplesmente tomou conta do ambiente e deixou todo mundo irritado. Eu mal sabia que eles seriam na verdade uma das primeiras coisas que nos uniram: todo intervalo descíamos até a entrada do prédio da UBA para falar mal do casal lendas amazônicas. O meu primeiro contato foi com a Jacque, que se deu conta que eu era gay quando usei o termo “fag hag” numa conversa no Facebook, e a partir daí foi só amor. Depois de um trabalho em grupo com a Sofia descobrimos nossa maior característica em comum: nosso amor pela arte. Aí o grupo já estava quase formado. Ainda faltavam o Gustavo, que não era da nossa turma, e a Mari, que não ia à aula e quando ia fazia o tipo “eu moro em Buenos Aires e tenho outros amigos ok?”. O Gugs entrou automaticamente no grupo por estar viajando com a Jacque e obviamente ter tudo a ver conosco também. Começamos a fazer tudo juntos: almoços, picnics pelos parques de Buenos Aires, cafés, e muito Club 69. Foi sem duvida um dos meses mais divertidos da minha vida. Lá pelo final da viagem, na última semana, foi a vez da

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Mari entrar no grupo. Falávamos muito pouco com ela (sim porque ela raramente aparecia nas aulas), mas por algum motivo despertou um amor naquela semana e ela começou a sair conosco. Infelizmente, eu e a Fernanda tivemos que voltar para o Brasil antes, lembro que rolaram umas lágrimas na primeira conversa por Skype que tive do Brasil com todos eles, ainda juntos em Buenos Aires. No começo eu achei que a amizade pudesse acabar, pois estávamos cada um num canto do Brasil: eu e a Fernanda em Porto Alegre, a Mari em Santos, a Sofia em Brasília e o Gustavo e a Jacque em Boa Vista. Mas não, continuamos nos falando com frequência e alguns meses depois eu e a Jacque já estávamos em Brasília visitando a Sofia e o Gustavo (que tinha se mudado para estudar lá). Depois houve muitos outros encontros, a Sofia me visitou em Porto Alegre, encontrei a Mari e o Gustavo em São Paulo no Planeta Terra, e por aí vai. Apesar de eu me considerar uma pessoa difícil para fazer amigos, sempre acreditei na possibilidade de criar laços muito fortes, quase como familiares, com pessoas que aparecem na sua vida numa situação como eles apareceram. E foi o que aconteceu: hoje, morando na França, eu tenho contato quase semanal com pelo menos um deles, sempre que estou triste a Mari está lá pronta no Skype para falar comigo. Sonho com um dia fantástico em que possamos todos morar na mesma cidade e “nos amarmos” com mais frequência.

Mesmo sendo um grupo diferente entre si a amizade veio fácil e para ficar

f e r n a n da f e l d e n s Me chamo Fernanda G. Feldens, tenho 21 anos e um dos melhores meses da minha vida foi janeiro de 2012. Na época, cursava Relações Internacionais. Amigo do coração e colega, Arthur sugeriu uma viagem: “que tal estudar espanhol em Buenos Aires no verão?”. Não estava numa boa época da vida, namoro ruim e enrolado, então pensei: “por que não?”. No início ainda estranhava Buenos Aires e a sua paixão por Evita Perón e empanadas. Eu e Arthur estávamos recém descobrindo a cidade. Arriscamos alguns bares e festas, mas nunca parecíamos dar sorte! Estávamos estudando numa turma só com brasileiros. Como ainda não estava muito bem, e como tenho

um pouco de dificuldade para me enturmar rapidamente, de início não conversava muito, e interagia apenas com Arthur. Certo dia, eu e Arthur havíamos combinado de sair à noite para o bar Kilkenny, quando Arthur avisa: “ah, e vai o pessoal da nossa turma de espanhol junto, ok?”. Pronto. Não precisou mais nada além daquela noite. Com nossos Cosmopolitans em punho, arrisco a dizer que foi amor à primeira vista. Estavam lá a Jacque, o Gustavo e a Sofia, porque com a Mari ainda não havíamos tido muito contato. A partir daquela noite, tudo começou a se transformar. Buenos Aires já não era uma cidade estranha: ela ganhava

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“Percebia que já amava cada um deles.”

um brilho totalmente novo. As aulas ficaram mais interessantes, até o espanhol que nossa professora — um tanto peculiar — Daniela ensinava parecia mais fácil de aprender! Começamos a nos conhecer ainda mais, e a sair sempre juntos. Desbravamos juntos Palermo, a Recoleta, San Telmo, o Centro, a Costanera. Piquenique ao lado Cemitério da Recoleta, festas absurdas com direito a táxis com australianos desconhecidos, Gustavo falando com norueguesas sobre seus dentes, chegamos a entrar de penetra em um hostel e seguir com nossos novos amigos estrangeiros para o Club 69, enfim, altas aventuras; todas inesquecíveis. A sintonia era incrível. Eu mal podia acreditar no que estava vivendo. Toda a tristeza que havia levado junto com as malas para a viagem, puff! Desaparecia no ar. Percebia que já amava cada um deles. A Jacque e o Gu de Roraima, a Sofia de Santos, seria possível que, apesar da distância, eles fossem tão parecidos comigo e com Arthur? Então a questão inevitável: havíamos sido colocados juntos naquela cidade, naquele mês, naquela faculdade (Gu era de outra turma) por alguma razão. Éramos amigos feitos uns para os outros. Jacque uma vez fez nossos mapas astrais. Independente dos nossos signos, a energia cósmica entre nós era perfeita. No

final da viagem, por força dessas mesmas forças cósmicas, nos aproximamos da Mari. Ela logo chamou atenção, com seu jeito animado e decidido. Um almoço em San Telmo e...puff! Era ela o elemento que faltava para nosso grupo estar completo. Nosso último dia em BsAs, meu e do Arthur, lembro bem, foi uma sexta-feira, dia 27/01. O dia foi simplesmente mais perfeito do que eu poderia ter pedido. De manhã, a entrega dos boletins, era o final do curso, ares de despedida. Almoço em San Telmo. À tarde, passeio de patins, compras, e uma mesma tatuagem que eu Jacque fizemos para marcar para sempre nossa amizade. E à noite, para fechar com chave de ouro, é claro, drinks e festa. E, na manhã seguinte, um rosto inchado de tanto chorar. Depois de janeiro, do pessoal de fora do Rio Grande do Sul, revi a Sofia linda, que veio de Brasília para Porto Alegre para prestigiar eu e Arthur, e Mari querida, com quem passei o réveillon de 2012. Gostaria muito de ter reencontrado Jacque e Gustavo. Esse mês me marcou como nenhum outro. Arthur, Jacque, Sofia, Gustavo e Mari me deram nova vida. Meu coração acelera quando penso em todos eles, a saudade é extrema. E o sonho é de que possamos algum dia morar todos no mesmo lugar, sem distância nem tempo para separar o que Buenos Aires e o Universo uniram!

Os amigos se reuniam nas casas uns dos outros, bares e boites, não faltaram festas durante seu curso. buenos aires–ar, 2012.

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reportagem evelynne gubert

Sérgio Roberto do Amaral é carioca da Gema, mangueirense, vascaíno e apaixonada Cidade Maravilhosa–RJ. Conversamos com Sérgio, que normalmente é conhecido como Amaral, sobre sua infância e todo percurso que tomou até ser tranferido para Brasília-DF. Tem orgulho de seu pai que era sapateiro e seus avôs que vieram de Portugal para tentar a vida no Brasil, assim como várias famílias na época. Contou um pouco de sua história e compartilhou momentos importantes e que terá memória para sempre.


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Sérgio, 3 anos, no bairro de Osvaldo Cruz. rio de janeiro–rj.

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eu nome é Sérgio Roberto do Amaral, filho de Aristides do Amaral e Uiara do Amaral. Eu vim de uma família pobre, meu avô era português, veio fugido para o Brasil com a esposa, ele era operário de calçados. Se refugiaram em Santos em SP. Chegando lá, ele iria ser demandado para as fazendas de café, nos cafezais. Na época o Brasil estava com falta de mão de obra, próximo à abolição dos escravos, estavam importando pessoas para cuidar das fazendas. Então as oportunidades oferecidas na Europa para vir para o Brasil eram muitas. Então meu avô veio com a minha avó, aportando em Santos, e lá chegando ele seria mandado para o interior das fazendas de café. Ele simplesmente fugiu para São Paulo porque ele tinha uma profissão, ele era um calçadista, operário de calçados, sapateiro mesmo e naquela época essa profissão era muito importante, era uma profissão valiosa e respeitada na Europa. Em São Paulo, quando meu pai e o irmão nasceram, logo em seguida vieram para o Rio de Janeiro, não sei explicar o motivo exato para a mudança de estado, mas acredito que tenha sido uma melhor oportunidade, pela qual meu avô estava à procura. Pois bem, no Rio de Janeiro, foi na época da gripe espanhola, que assolou o mundo todo e que por triste tragédia, contaminou minha avo que veio a falecer. Então meu pai e meu tio foram criados pelo meu avô, que como um bom português, logo colocou os meninos para trabalharem em uma fabrica de calçados. Então meu pai também se tornou um sapateiro. Eu até me lembro bem que eu cheguei a pegar meu avô trabalhando em uma fábrica de calçados, mas próximo da aposentadoria já com uma certa idade. Meu pai passou a

conhecer tudo de calçados, desde o básico à modelagem, tanto que chegou a ser de fato modelador. Ele fazia os calçados, bolava os tipos que iam para a vitrine e voltava para a montagem, totalmente artesanal. Porém éramos pouco conhecidos na época. Só um adendo, que nunca pude confirmar, quando eu nasci minha mãe já tinha 39 anos, eu ouvi dizer que vim por uma falha no sistema reprodutor, não era para nem ter nascido, mas Deus quis. Disseram que minha avó, Idalina, mãe de minha mãe, que teve 12 filhos, não permitiu que minha mãe abortasse. Mamãe falava que eu nasci muito feio, era um macaquinho, o que não mudou muito (risos), mas graças a Deus depois fiquei muito bonito. Eu agradeço à minha avó por não ter permitido, acredito que tenho ou tive um objetivo de vida. Morávamos em um cômodo pequeno, no quintal de uma casa, me lembro disso, já tinha uns 6 anos. Era um “”puxadinho” da casa da madrinha do meu pai, que era dentista. Era uma vila, com 20 casas,em São Cristovam na Zona Norte do Rio de Janeiro. Era bem pobre, só tinha um banheiro. Mas as pessoas que moravam nessa vila era de classe média alta, família de contadores, dentistas, carregador de defunto, donos de armazém e etc, na época eram profissões que davam um certo status. Até que um dia surgiu uma vaga em uma casa, que era exatamente a casa da nossa frente. Era uma casa com dois cômodos, sala, cozinha, banheiro, quintal. Eu já tinha 9 anos. Voltando um pouco, na idade de 7 anos, eu tinha que estudar, então fui me matricular na Primeira Escola Municipal do Rio de Janeiro, 16 Gonçalves Dias, que ficava no campo de São Cristovam um bairro tipicamente residencial. Indo para essa escola, eu tive que declarar

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Sテゥrgio aos 40 anos em seu apartamento na 712. brasテュlia窶電f, 1985.


“Mamãe falava que eu nasci muito feio, era uma macaquinho, o que não mudou muito (risos).”

que era católico, fiz primeira comunhão, fui batizado na igreja Nossa Senhora de Lourdes, fiz crisma, aliás minha primeira comunhão foi uma coisa deslumbrada, foi custeada pela minha madrinha. Ela comprou um terninho pra mim todo branco, para o evento. Na verdade minha madrinha queria que eu fosse padre, porque ela era muito católica. Mas continuando a história da escola,quando fui me matricular, tinha um pequeno problema. Como faço aniversário em Junho, não poderia fazer a matricular, porque no começo do ano, ainda não tinha 7 anos, iria fazer só no meio do ano. Então perdi um ano. Fui ser matriculado somente em 1952, com 7 anos e meio. E esse 6 meses que ainda não poderia entrar no colégio, minha mãe me colocou para estudar com uma vizinha, e aprendi as primeiras letras e números. E quando pude finalmente ir para a escola, era um horror, eu chorava muito, não queria ficar longe da minha mãe. Tinha medo na verdade de nunca mais ver minha mãe.Tinha mais pavor ainda da diretora, Dona Leopoldina, uma mulher meia gorda, meio grossa e que não tinha paciência com as crianças. Minha irmã Célia também estudava nesse colégio, 5 anos mais velha. Quando mudamos para essa casa, minha irmã veio morar conosco, porque antes mo-

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rava com minha tia em Vila Isabel, ela estava com 13 anos. Eu sempre tive vontade de entrar para a Escola Militar, não consegui logo de primeira porque na época o concurso que foi aberto era para a escola de Belo Horizonte. Mas teria que pagar hospedagem e uniforme, minha família não tinha condições de pagar nada disso. Então fiz um concurso para um colégio Brasileiro de São Cristovam e passei com uma bolsa de estudos, fui fazer o Ginásio. Eu sempre fiquei em São Cristovam, nunca tinha saído de lá. Essa bolsa de estudos eu tinha que passar com notas acima de 7. Meus colegas eram filhos de papai rico, tinham carro, motorista, passavam as férias nos Estados Unidos, porque o colégio era particular. Nessa época, escola publica era muito melhor que particulares, hoje vejo que a coisa se inverteu. Na verdade eu queria ser medico, queria ser útil à sociedade, prestar bons serviços, mas com o passar dos anos fui vendo que não teria condições de seguir esse caminho, os livros eram muito caros. Acabei fazendo o concurso para Ciência Estatística e fiz o comercial básico. Então fazia o Ginásio pela manhã e pela tarde fazia estatística, ligada ao IBGE.

Sérgio aos 5 anos de idade, sua infância foi vivida no Rio. rio de janeiro–rj, 1950.

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“Mas se não tivessemos Deus na nossa família, não estaríamos aqui, assim acredito.”

Com 16 anos tive a experiência de trabalhar como fiscal de estacionamento de carro, e finalmente fui para o exército. Saí oficial com 21 anos. No Rio de Janeiro, tocando minha vida, conheci a Dona Maria de Lourdes Peixoto, em 1967, ela me fisgou, to agüentando ate hoje, sou um santo. Fomos viver juntos, ela já tinha dois filhos, Christina e José Augusto, fomos morar em Botafogo, nosso primeiro endereço era General Severiano, fomos dia 1 de Outubro. Fiquei 5 anos no exército, mas apareceu uma oportunidade em Brasília. Tive uma revelação quando tinha 15 anos de que eu iria morar em Brasília, não foi um sonho. A oportunidade que surgiu foi a de trabalhar nos Correios, transferido para Brasília. Era uma oportunidade de status muito boa, financeiramente e socialmente. Então viemos, em 1975, em Fevereiro.

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Quando aqui chegamos, não tinha o desenvolvimento que tem hoje, tinha apenas 15 anos. Recebemos apartamentos, ajuda de custo e todo o tipo de preparação na mudança. Eu acreditava que Brasília não se comparava com nenhum outro local, era maravilhoso em clima, oportunidades e tudo mais. A família cresceu e se desenvolveu. O José Augusto deve o Judah e a Sara e Christina teve a Evelynne, que são meus netos queridos e amados. Mas se não tivéssemos ao lado Deus na nossa família, não estaríamos aqui, assim acredito. Com 40 anos de serviço do exército e dos Correios, nos aposentamos. Já pensamos em sair de Brasília, sentimos falta da praia. Mais ainda na máxima de que não acharemos um local melhor para se viver, principalmente agora idosos.

Sérgio e Maria juntos em uma festa. porto alegre–rs, 1983.

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reportagem evelynne gubert

Maria de Lourde é uma vovozona apaixonada pelos netos, sua família é fundamental. Sempre viveu bons momentos durante sua infância e relembra alguns deles que foram eternizados. Conversamos com Maria sobre amizades que cultivou enquanto pequena e lembranças de brincadeiras saudáveis na fazenda onde morava, em Mato Grosso do Sul.


E

“Eu não vou me esquecer nunca dessa brincadeira.”

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u acho que tinha uns sete anos, mais ou menos, nasci em uma fazenda no Pantanal, meu pai era administrador da fazenda, eu morava em uma das várias casas que tinha na fazenda, eu e meus três irmãos; sou a mais velha. Eram muitas famílias morando lá, havia muitas crianças, e nós estudávamos todos lá na fazenda mesmo. Nas férias o dono vinha passar uns dias junto com a esposa e suas filhas, quando chegava na fazenda ele pegava todas as crianças para fazer um passeio, toda a gurizada ia. A gente era muito pequeno, a Dona Sofia já trazia tecido da cidade e fazia roupa pra gente, pegava as meninas e media, fazia um maiô para cada uma; levava para tomar banho, fazia shortinho. Os meninos da época não usavam cueca. A gente comia muito bem, a casa era boa, o administrador já tinha uma regalia, a Dona Sofia também cuidava da gente e aquele dia que eles chegavam era passeio o dia todo, a gente ficava na mesa com eles, Seu Totó era um Deus pra gente, respeitávamos muito, ele era bom, só que era miserável; ele pagava mal o povo, era quase um trabalho escravo. Ele levava doce e biscoito, essas coisas que criança gosta, dava um saquinho pra cada um e a gente fazia a festa, adorávamos quando ele ia. Quando dava 14h00 da tarde ele falava “vamos pra vazante”, e ia todo mundo pra essa represa de uma baia lá mesmo na fazenda, tinha jacaré, surubim, pintado...era no Mato Grosso, em Tupanciretã, município de Aquidauana; dessa baia escorria um córrego que caia lá na frente, de lá saia cristalina a água, era cheio de pedrinha e você enxergava todo o fundo, batia assim na cintura. Ele levava a gente pra lá, encostava a caminhonete e descia correndo, era tudo grama em volta; ele dizia “pode pular na água que eu to de olho em vocês”. A gente pulava, nadava, era aquela bagunça, criançada. Ele falava “vamos brincar”, ele ficava quase no meio da vazante, a gente subia nas costas dele e saltava na água, subia na Dona Sofia. Ela era toda delicada e falava “ai vai me molhar todinha”, “só no Totó”. Eu não vou me esquecer nunca dessa brincadeira que era gostosíssima, eu me lembro que uma das vezes eu saltei e o seu Totó começou a rir, “eu vi a baratinha da Maria”, olha aquilo foi pra mim como um balde de agua fria. Ele não

Maria aos seus 15 anos terminava o Ensino Fundamental. mato grosso do sul–ms, 1955.

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“Fiquei com uma vergonha que só dele.”

viu nada, a Dona Sofia disse “é mentira Maria, ele fala assim mesmo”. Só pra mostrar que ele estava brincando. A filha dele, a Belquisse — toda mimosinha e miudinha, sabe a outra já era estúpida — saltou de lá e ele disse também que tinha visto a baratinha dela, ai eu fiquei muito sem graça, eu passei a mão e não tinha jeito de ver a minha baratinha. Fiquei com uma vergonha que só dele, essa foi uma coisa muito engraçada, em outras vezes na vazante ele inventava brincadeira com a gente, quem jogava pedra mais longe ele prometia um prêmio, ô a gente ficava louco, ele dizia que quando chegasse em casa ia dar um prêmio, a gente ficava curioso, ele dava um saco de bombom. A gente brincava muito nessa vazante e quando dava umas 16h00 ele dizia “oh turma, vamos embora senão vai dar dor de garganta”, a gente vinha na caminhonete, lá atrás na caçamba e também no capô, ele vinha devagarzinho, a gente pedia pra ir no capô, e ele “se cair nunca mais”, iam umas três meninas lá na frente, uma gritaria de criança, tinha que revezar quem ia no capô. Voltávamos, tomávamos banho e nos vestíamos, depois lanchávamos; isso era na fazenda sede, a casa dele, ela era grande, um monstro, comprida, muito comprida; tinha quartos, salas, sala de piano onde ele tocava música, eles eram ricos, criavam gado, mas o matadouro era em Aquidauana. Depois disso ele levava cada um em casa. No dia seguinte a gente ia montar a cavalo, todo mundo gritava, os cavalos mais mansos iam pras crianças que não sabiam montar, um empregado é que puxava, e ai passeava; minha mãe era brava, batia muito em nós, mas quando estávamos lá nos esquecíamos de tudo na vida. Era boa demais a minha infância, essas amizades, as brincadeiras, nesse sentido a minha vida foi muito boa.

Maria (23) passeava a cavalo na fazenda de Santa Otilha, próximo ao Pantanal. mato grosso do sul–ms, 1963.

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maria de lourde

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reportagem evelynne gubert

Janaína tem 24 anos, é estudante de Ciência Política na UnB e trabalha na Secretaria Nacional da Juventude, onde desenvolve trabalhos junto a diferentes movimentos sociais. Ela compartilhou sua história de inserção na militância do movimento negro, as amizades que fez no “O Nosso Coletivo Negro” e como isto mudou sua visão de mundo e sua relação consigo e seus amigos.


M

eu nome é Janaína Bitterncourt, tenho 24 anos, sou estudante graduanda de Ciência Política na UnB, trabalho na Presidência da República, na Secretaria Nacional da Juventude, que faz parte da Secretaria Geral da Presidência, que embora seja uma Secretaria tem status de um Ministério, é responsável pela interlocução dos movimentos sociais e recebe as demandas sociais do governo para elaboração de políticas publicas bem especifica para principalmente grupos de minorias, grupos mobilizados da sociedade civil. Esses movimentos casam muito com a minha militância, mais do que minha formação de vida, porque sou pesquisadora. Faço parte da militância dos Movimentos Negros, do coletivo negro do DF, que é “O Nosso Coletivo Negro”, que surgiu na Universidade de Brasília em 2009 para defender o sistema de cotas quando o Partido Democrata entrou com uma ação no Superior Tribunal Federal, questionando e querendo acabar com o sistema de cotas na UnB. Então esse grupo se formou, na época eu ainda não participava, entrei depois, o julgamento foi em 2011, quando eu já fazia parte. Trabalhamos uma série de ações, não apenas de conscientização e elucidação do porquê das cotas raciais, porquê somos importantes, mas também pelas causas negras, que custa muito caro e é valioso. Eu entendo e os meus companheiros de militância, é meio que um consenso dentre os movimentos negros, que o Estado brasileiro é um estado racista, tanto na formação da sociedade como na própria constituição da máquina administrativa. O Estado é racista e a sociedade é racista. E não necessariamente nas relações interpessoais, mas nas próprias relações institucionais, na prestação de serviços, no cuidado diferenciado que se tem

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nas etnias da população, a gente sabe que a população branca é melhor tratada, cuidada e respeitada, do que as populações não brancas, que seriam os negros, povos indígenas e até mesmo asiáticos. Temos várias pesquisas que provam isso, mas na minha experiência, eu como mulher negra, mesmo que não tivesse pesquisa, é o que sinto a minha vida inteira, mas para quantificarmos isso e transformar em política pública, em política de educação, para desconstruir o racismo, é necessário material para consubstanciar. Então tem uma série de pesquisas, tanto de indicadores de relações sociais, quanto de indicadores mais práticos como serviços de atendimentos do estado. Então sabemos que, por exemplo, hoje no próprio serviço de saúde publica, embora no serviço privado também exista, pessoas negras são atendidas em tempo mais curto que pessoas brancas. Isso ao longo prazo resulta em questões deficitárias na saúde dessas pessoas desfavorecidas. Uma mulher, independentemente de ser negra ou branca, que não tiver um atendimento digno durante a gestação, pode vir a óbito durante o parto e o bebê também. Sabemos que esta questão de atendimento é um fator determinante na mortalidade. O próprio Estado brasileiro reconhece isso e tem trabalhado contra. A solução não é somente propor uma política pública, é conseguir sensibilizar os gestores e pessoas que terão que aplicar. Então entra em questão o enfermeiro, o técnico de enfermagem que fará essa primeira consulta e o próprio médico de trabalhar no racismo pessoal. Não temos como achar que o profissional, seja ele qual for e que tenha um comportamento racista, que ele não terá um comportamento racista quando exercer a profissão, nesse caso não existe ética profissional

Hoje Janaína se orgulha e luta por sua cor e por sua religião.


Janaína e sua família são muito próximos, acima seu pai a segura quando ainda era bebê.

que o impeça de não o fazer. Isso envolve todos os estereótipos que excluam alguém pela sua formação física. O racista não se apresenta apenas como aquele personagem mal que vemos na novela, vilão terrível que maltrata alguém. Pelo contrário, pode ser uma pessoa normal do cotidiano, que tem amigos e família, uma pessoa boa que vai à igreja e paga impostos e dízimos. São atitudes pequenas que atingem alguém, talvez até involuntárias ou impensadas. Se você entende que uma pessoa tem um estereótipo e estigma que condiciona quem ela é por ser negra, é um pensamento racista que vai condicionar o seu tratamento em relação a ela. Ou se você olha para um adoles-

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“Boa parte da minha vida só tive amigos brancos, porque fazia parte desse ciclo social.”

cente negro, que anda de skate numa praça e a sua primeira reação inconsciente é segurar a bolsa, o que não aconteceria se o mesmo garoto fosse branco, isso é uma questão a se pensar individualmente, onde se esconde o seu racismo. Ou mesmo se tem problemas de se relacionar com mulheres negras não pensando no relacionamento afetivo, mas principalmente no relacionamento sexual, porque uma mulher negra é dona da lascívia, ou boa de cama, isso é um preconceito que a gente aprende, a sociedade nos ensina isso desde pequenos. O que lutamos nesses movimentos e no meu trabalho é para desconstruir esses conceitos. Essa desumanização de rotular uma pessoa pela cor é um dos fatores que lutamos contra. Voltando a questão das cotas, eu sou estudante cotista, entrei na Universidade no ano de 2008 pelo sistema de cotas depois de um ano tentando passar no vestibular normal, vim de um colégio particular bom aqui em Brasília, sou de classe média e nunca aceitei ter que participar de um sistema de cotas sendo negra, principalmente tendo total capacidade de conseguir passar. Achava que seria um grande aproveitamento e iria tirar a oportunidade de outras pessoas. Não entendia o porquê desse sistema que na minha opinião favorecia alguns. Nunca tinha ouvido uma explicação substancial que me deixasse claro o real objetivo das cotas. O que já havia ouvido muito no próprio colégio, era uma opinião contrária, que durante muito tempo me norteou. Sou inteiramente a favor, acho interessante qualquer movimento que integre um quesito social. As cotas são pouco discutidas com seriedade. São sempre os mesmos argumentos, de que se for aprovado é um atentado que os negros são burros e não conseguem passar em uma prova universal, vamos justificar a desvantagem racial, temas batidos. Quando resolvi prestar o vestibular pelo sistema, no mesmo sistema que eu, um garoto também participou, só que branco e com uma trança raiz que se vangloriou de ter burlado o sistema mesmo não sendo negro, de uma forma pejorativa. Isso me indignou e procurei saber mais sobre o assunto principalmente porque me atendia diretamente e a minha não participação, não iria exterminar o racismo e muito menos o sistema de cotas, por puro recalque de uma política reparadora, da qual eu não tinha acesso.

janaína bittencourt

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Naquela época, se você era um negro, praticamente único em uma turma qualquer que fosse, você era o cotista, independente de ser mesmo ou não. Isso orientava como seria o relacionamento em relação à turma durante o curso. Principalmente em cursos mais elitizados. Ao longo da faculdade fui desconstruindo alguns estigmas por mim formados. Ainda vejo a universidade como um espaço hegemônico de hierarquização social. Não basta ser inteligente, tem que estar preparado, e ali você irá ver pessoas basicamente de um mesmo ciclo social, provavelmente pessoas que teve contato durante a época de escola, particular. E dependendo, até mesmo em espaços elitizados, incluindo o próprio emprego. E assim fica muito evidente em como esse ciclo é muito excludente. Prova disso é que durante boa parte da minha vida só tive amigos brancos, porque fazia parte desse ciclo social, de moradores da Asa Norte, meus pais funcionários públicos e mesmo convivendo nos mesmo espaços, falando a mesma linguagem, ainda havia um certo estranhamento. Você se questiona o porquê de estar freqüentando aquele espaço que não foi feito para você. Isso começou a me incomodar. Eu aprendi que o quesito das cotas, é mesmo um mecanismo de reparação histórica por tudo que houve. Na época da escravatura, os escravos não tinham acesso à informação formal. Com a abolição, esse cenário não mudou e não teve uma política de inclusão. Não é fácil pegar uma população que há 300 anos estava na escória e só porque foi alterado o status de escravizado para liberto, que ela se torna incluída. Muito pelo contrario, o Estado brasileiro promoveu política de inclusão para imigrantes europeus, e os negros que já estavam aqui no Brasil conHoje muitos de seus amigos estão junto dela na militância negra, Janaína busca amizades que a valorizem e entendam.

tinuavam deixados à margem. Foi um projeto de branqueamento do país. As cotas viram para facilitar uma camada da sociedade negra que foi excluída e que reflete até hoje, modificando o futuro dessas pessoas beneficiadas. Já que uma universidade federal agrega muito mais valor ao diploma e conseqüentemente ao mercado de trabalho, acredito que de todo esse mecanismo participa também de uma inclusão social do pobre e negro sem oportunidade à ascensão, diferença essa que irá atingir toda uma geração, sendo beneficiada ou não. Acho que devemos ocupar o espaço sim, principalmente na educação, que já é um bom começo. Fui a primeira pessoa da família, dos dois lados, a entrar em uma universidade pública, teve um valor inestimável, ainda mais mulher. Deu um ânimo na família, que era possível. Não era somente eu que estava entrando na universidade, era a família toda que estava sendo modificada, sabe? Durante muito tempo, principalmente na infância eu relevei essa posição, que era como pensar “fulano não entende”. Era uma válvula de escape, da minha parte, aceitando o preconceito como algo que não se escolhe, mas que apenas se aceita. É muito mais difícil nadar contra a maré. Principalmente sendo mulher, sabe-se quando está sofrendo um machismo, só quem sofre entende. Sendo os dois, negra e mulher, eu sei quando estou sofrendo racismo. O problema é que quem tem uma atitude preconceituosa não identifica, mas também não se comove e não pensa duas vezes antes de o fazer. Não tem como se propor uma mudança social de modelo de sociedade se não tiver o mínimo de conhecimento e dos processos, comecei a me interessar e a estudar, achei que poderia fazer

janaína bittencourt 89


alguma coisa com um processo que me atingia. Não queria mais viver em um racismo cotidiano. Sim, é todo dia. As pessoas acham que é exagero, mas eu percebo, num olhar, na forma como te tratam, um preterimento que seja, sente-se. Inclusive a palavra preterir é um termo racista, deixar de lado é tornar preto. Isso vem do Brasil colonial. O que ficou muito evidente no racismo na minha vida foi quando eu assumi minha personalidade negra e estética. Eu entendo a dificuldade que as pessoas têm de assumir, de deixar de alisar o cabelo, tem uma fixação pelos traços raciais, diminuir o nariz, tentando amenizar sua negritude, o que faz com que ela sofra cotidianamente descriminação. Meu coletivo atua principalmente em informações, palestras, rodas de conversa, atividades que ajudam a integrar e incentivar o raciocínio sobre o próximo em desvantagem. Segundo o IBGE mais da metade da população brasileira é negra e acredito eu, que muito mais que 51% segundo a pesquisa. É importante ressaltar a diferença entre a pessoa se identificar negra e a sociedade a identificar negra. Isso não necessariamente irá mudar a forma como a sociedade a trata e a respeita. Na época dos estudos das cotas, começaram a questionar a porcentagem de origem africana ou européia que cada um teria. E viram que o Neguinho da Beija-Flor tinha 98%

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de sangue europeu e isso era um absurdo já que ele concorreu às cotas sendo negro. Uma discussão absurda. Exemplo disso é que batida policial não pergunta composição genética de ninguém. É uma questão muito prática, no olho eu percebo sua negritude ou não. Policial entende um tipo suspeito, que é literalmente a cor padrão, que será mais abordado e vai morrer mais e a morte desse suspeito irá chocar menos a sociedade, do que um garoto branco na mesma situação. É mais assertivo um negro ser o bandido. Todos esses pensamentos são complexos de se entender e não de se explicar. Eu gostaria de um sistema democrático e igualitário para todos, preto ou branco, que for. E isso reflete em todas as relações de vida. Como amigo, eu quero alguém que me respeite pelo que sou, mulher, negra, candomblecista, que assume uma estética negra. E isso atinge todos, todos querem amigos que respeitem pelo que você é. Amigos que agreguem valor, no camarote da amizade (risos). Eu amadureci nesses seis anos de faculdade, aprendi a me respeitar, a gostar da minha cor e a entender que sou diferente de cor e apenas isso, nenhum outro aspecto me diferencia. Me sinto satisfeita por hoje ter a mínima noção de como o sistema funciona, quero me tornar uma pessoa culta e tentar diferenciar o preconceito dos que eu puder atingir.

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provocações

Escolha de um amigo “Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.” — Oscar Wilde.

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provocações 93


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