Por Trás do Brilho
Produto final do Estudo de Campo de Ouro Preto
Narrativa criada por Henrique Salomão, Isabella Habboub, João Guilherme Morales e Pedro Arruda - 8°A
Ciências, História, História da Arte, Língua Portuguesa e Redação Escola Miró, Ribeirão Preto/SP, 2026


Olga era uma negra, filha de uma mulher escravizada,quefoilevadaaoBrasilporvolta de 1750 para a extração de ouro nas antigas minas de Vila Rica. Sua vida nunca foi fácil. Ainda jovem, conheceu as dificuldades da escravidão quando chegouaoBrasil,vindadaregiãodaCosta da Mina (atual Nigéria), na África. No começo, trabalhou como escravizada domésticanacasadafamíliadeSebastião da Costa Reis. Aos 14 anos, passou a também trabalhar na mineração, retirando rejeitos das minas e ajudando no trabalho realizado por outros escravizados. No começo, podemos considerar que foi o momento mais decisivo
da vida de Olga, pois ela não compreendia o sistema de hierarquia em que ela mesma vivia em Vila Rica.


Durante o dia, era separada de sua mãe logo cedo, pois ela trabalhava em outros setores, e Olga era utilizada para cuidar da casa, para fazer comida e manutenções
necessárias na residência. Quando a menina completou 16 anos, teve que lidar com o luto da perda de sua tão amada mãe que morreu aos 26 anos, após se contaminar com uma doença dentro das senzalas lotadas de escravizados como ela. Por mais que tenha vindo a falecer muito nova, ainda era considerada uma idade avançada para o escravizado da época.
Após completar a maioridade, com 21 anos, Olga descobriu uma fonte que futuramente passaria a ser chamada de Marília de Dirceu. Na época, essa fonte era umpontodeencontrodenegrosescravizados e quilombolas para planejar fugas e estratégias para futuras rebeliões. Ao mesmo tempo, o espaço servia como um lugar de
lazer e descontração para os escravizados. Foi nessafontequeOlgafezseuprimeirocontato com outras negras quitandeiras e ficou encantada com a ideia de ajudar as pessoas nesse mundo tão difícil em que eles viviam. Desdeentão,seu sonho tornou-seodesejode comprar a própria alforria para dar suporte e ajuda para outros negros escravizados.


Olga continuou trabalhando e seguindo suarotinanormalmente,masaindapensando na ideia de ser quitandeira. Um certo dia, seu senhor que se chamava Sebastião da Costa, pediu para ela buscar uma jarra de água para o consumo de visitas que viriam mais tarde. Ela pegou a jarra de barro, colocou em cima da cabeça e foi na mesma fonte que havia ido antes. Lá, encontrou um grupo de escravizados que estavam planejando fugir para os quilombos. Os escravizados mostraram a ela que havia ouro escondido nos cabelos e nas unhas e eles dariam esse ouroparaOlgaemtrocadeinformaçõessobre seus senhores a fim de terem uma fuga bemsucedida, e assim foi feito.
No dia seguinte, quando outros escravizados se acomodavam para dormir, Olga ficou atenta a cada passo do senhor Sebastião. Por ficar em um setor diferente de trabalho, ela só conseguiria falar com os outros escravizados após dois dias na mesma fonte. Nesses dias que lhe restavam, prestou atenção em tudo que a cercava, desde o horário que Sebastião acordava até o horário que iria dormir, sempre guardando tudo na memória para não se esquecer de nada. Três dias depois, ela foi até a fonte, contou tudo o que sabia e ganhou sua tão amada recompensa. E assim ela fez por vários e vários dias, até o ouro ser suficiente para comprar sua alforria.
Ao mostrar o recurso adquirido para Sebastião, ele ficou desconfiado, afinal, não era comum uma escravizada ter essa quantia de ouro, e com isso ficou curioso para saber a origemdaqueledinheiro.Elaentãoficousem resposta e acabou sendo presa no pelourinho etomandoumachicotadaparacadapepitade ouro que ganhou. Mesmo com o castigo, Sebastiãonãoquerialibertá-la,masaquantia de ouro que ela havia conseguido chamava sua atenção. Por fim, ele aceitou todo aquele ouro e assinou a alforria de Olga. Vagando pelas ruas, ela percebeu que ser alforriada não era uma coisa tão simples quanto parecia, a população de Vila Rica ainda a enxergava como uma escravizada doméstica. Determinada a mudar esse
pensamento, ela voltou para a sua fonte e lá se encontrou com outras quitandeiras que a acolheram e a ensinaram a fazer quitutes. Porém essas outras quitandeiras não foram alforriadas, elas eram escravizadas domésticas e vendiam as sobras das refeições de seus senhores. Olga encontrou mais um obstáculo, como não havia lugar para dormir, ela fugiu para a mata passando suas noites por lá e voltando para as ruas de Vila Rica duranteodia.Quandoseencontroucomsuas amigas quitandeiras, elas lhe deram um presente:umtabuleirocomumpanobordado em cima para vender suas mercadorias. E como ainda não tinha o que vender, ela começou como uma vendedora de frutas,
principalmente caju e banana. Assim ela seguiu por cinco meses.


Atéqueumdia,aopassaremfrenteauma fazenda, ela encontra um grupo de escravizados domésticos no portão. Eles contam a ela que estavam planejando uma rebelião e perguntaram se ela poderia ajudálos quando estivessem nos quilombos, nesse grupo de escravizados havia quatro pessoas, eumadelaseraMariaRita,aúnicamulherdo grupo, Olga já logo se sensibilizou pois se identificou com Maria Rita, e foi combinado o plano. Ele se tratava principalmente pela passagem por cima do telhado da casa que dava direto para a mata. Eles fariam isso da seguinte forma: como eram escravizados domésticos, ficavam na parte de baixo da casa,ondeelesdormiam,osquatrojáestavam conseguindo deslocar algumas pedras das
paredes para conseguir passar e contornar a casa até o telhado. Nisso, passaram dias tentando retirar as pedras pesadas até finalmente conseguirem. Quando finalmente conseguiram, avisaram Olga que o plano estava marcado para a madrugada daquele mesmo dia. Ela então ficou assustada pois não imaginava que a execução da fuga estava tão perto. Então, quando o relógio da cidade bateu 12 vezes, ela seguiu até o casarão de seus amigos. O combinado era que Olga ficasse vigiando o lado de fora para que tudo desse certo. Com isso, começou o plano.
Os quatro retiraram as pedras e conseguiram sair. Eles passaram por trás da casa e subiram em um morro que havia no
jardim para que fosse possível subir no telhado. Mas quando isso aconteceu, acabaram mexendo nas telhas e fazendo barulho demais. Olga vendo tudo percebeu que vinha uma luz amarela de dentro do casarão, e era o senhor deles que havia acordado. Ele foi conferir o que era calmamente, pois achava que era apenas um gato de rua ou algo do tipo. Chegando lá, ele se assustou, como tudo estava muito escuro, acabou conseguindo enxergar apenas os olhos dos quatro escravizados. No susto, tentou iluminar o rosto das quatro “criaturas” com sua vela. Porém, quando chegou perto, Olga deu um golpe na vela que acabou se alastrando no mato seco.


Os cinco subiram no telhado, os quatro escravizados e o senhor correndo atrás deles freneticamente.Osoutrosconseguiramfugir, mas Maria Rita tropeçou em uma das telhas e foi encurralada pelo senhor. Quando Olga percebeu que Maria Rita estava correndo perigo, correu ligeiramente lá para cima para
ajudá-la. Chegando lá, viu Maria Rita toda machucada, com isso Olga deu um golpe na cabeça do senhor para que Maria Rita conseguisse fugir. Maria Rita então correu por cima das telhas e sumiu entre as chamas e nunca mais foi vista. Quando o senhor acordou, ele e Olga entraram em um grande conflito, ele logo a reconheceu, pois ela era amiga de Sebastião, seu ex senhor. Olga então parte para um confronto físico, porém o senhor é muito maioremaisforte,acabaderrubandoOlgade cima do telhado do casarão. Olga nunca mais foi avistada nas ruas da antiga Vila Rica. E mesmo que uns ou outros não se importassem com a vida de uma mulher negraescravizada,seulegadoesuashistórias
serão sempre um símbolo de força e resistência.

