NASSOR ADEGOKE

Produto final do Estudo de Campo de Ouro Preto, 8°A
Caio Molina, Henrique Temporini, Iago Tinós, Laura Casellato e Marina Cunha
Ciências, Geografia, História, História da Arte e Língua Portuguesa
Escola Miró, Ribeirão Preto/SP, 2025.

O sol batia forte, os braços e pernas de Francisco tremiam. Ele sentia as gotículas de suor descendo por sua pele. Enquanto subia uma ladeira, a pedra sabão que levava estava cada vez mais pesada, sentia-a escorregando, caindo, caindo... assim como suas forças.
Ele sabia que não conseguiria ver sua igreja terminada, com certeza iria morrer antes.
Felizmente e finalmente era a última pedra que carregaria naquele dia.
Sempre andava com sua alforria, sabia que sem aquilo seria acusado de fugitivo e voltaria a ser um escravizado. Até que de trás da esquina apareceu o que aparentou ser um cavalo descontrolado.

Francisco não conseguiu distinguir o que era, pois com o susto, pulou para trás, e pisou em falso em um dos buracos da rua, esse não era o único. Normalmente, Chico sempre conseguia evitar esses buracos, em uma tentativa de se agarrar, causada pela adrenalina, não conseguiu segurar a pedra que carregava, sua última visão foi a pedra sabão caindo bem em cima dele. Neste momento, Francisco tinha se lembrado de tudo o que passou em sua vida. Seu nome, seus familiares, sua tribo, o navio que o levara de casa, seu trabalho quando escravizado, tudo. Lembrou de sua vida, a vida em que não era Francisco e sim Nassor.
Era 1747, Nassor tinha 35 anos, era um ótimo construtor e fazia vários trabalhos, até participar da guerra entre os Portugueses e sua

tribo. “Lunda era um local bonito até eles chegarem. Quando ganharam da gente, nossa tribo fez uma oferta, levar os idosos pela paz na vila. Porém, não aceitaram e levaram todos, homens velhos e jovens, mulheres idosas e jovens, além de crianças” .
Os Portugueses começaram a levá-los até o mar – eles sabiam para onde seriam enviados.
No caminho até a praia, alguns morreram, principalmente crianças entre três e oito anos, idosos e idosas que não aguentaram mais o calor e o caminho, e caíram no chão. Os familiares que tentaram ajudar foram baleados sem explicação.

Até que enfim chegaram à praia. Lá os Portugueses abriram o píer, um tipo de ilha pequena de madeira que flutua sobre o mar, e obrigaram todos a subirem.Abriram uma outra escotilha dentro do chão, onde colocaram todos aprisionados. Enquanto eram uma aldeia, eram muitos, mas só nessa caminhada morreu mais da metade de seu povo.

Aquele lugar era horrível por dentro, além de escuro, era sujo, apertado e bagunçado.
Quase não cabia as poucas pessoas que sobraram. No meio daquela multidão de pessoas, ele procurou por seus pais por todo canto, mas não os encontrou e, mesmo que não quisesse admitir, reconheceu que poderiam estar mortos também.
Mal deu tempo de ficar triste por eles, e os portugueses começaram a gritar palavras que não entendiam e os deixarampresos ali mesmo.
Aviagemfoi longa,deveterduradomais de 2 meses. Também foram colocados outros grupos de pessoas, mas eles não entendiam o que diziam.
Finalmente chegara em terra, onde foram amarrados e guiados para fora. Um dos portugueses que sabia a língua de Nassor disse a ele que era uma raça inferior, por isso não era digno de ser homem livre. Ele passou a chamar Francisco e foi levado para trabalhar.
Ele começou a trabalhar em construções na cidade. Sabia que o principal foco de escravizados era dentro da mina, mas não recebia nada em troca.
Tentativas de fuga eram recorrentes demais
em seu começo, porém seu trabalho ficava em uma cidade, então fugir se tornava muito mais difícil. Em uma dessas tentativas, ele driblou facilmente seu dono por não ser muito experiente, e correu pela cidade tanto em decidas quase caindo. Ele viu todos muito surpresos e assustados, alguns recuaram outros gritaram e, enquanto isso, Nassor correu.

Ele viu várias igrejas, e lembrou de sua primeira ida a uma igreja dessa religião. Ela era grande e rodeada de detalhes e pessoas esculpidas em rochas, tão detalhada, era um sonho da arquitetura. Até que por fim Nassor chegou a uma praça com uma fonte, onde
cabeçasdeanjosdeoutrareligiãocuspiamágua.
Lá havia escravizados com seus donos, ex escravizados e pessoas livres. Ele não entendia como havia pessoas livres.
Após procurar, achou alguém que sabia sua língua, era uma mulher alta que vendia quitutes.
A mulher contou que era de uma tribo africana rival de Nassor, e que ela não tinha dono mais, pois comprou sua liberdade com o ouro roubado da mina em que trabalhou.
Porém, antes de saber mais sobre essa história, Nassor foi pego, amarrado e o levado a seu dono. Nassor caminhou até um lugar que não sabia o que era.
O caminho era bem parecido com o de sua fuga, e Nassor reconheceu a mesma igreja por onde ele passou.
Ali perto, o prenderam em algum tipo de estátua feita de uma coluna reta, de onde saíam dois braços, em uma mão tinha uma espada e na outrauma balança. Elá tinha uma parteonde a mão de Nassor ficou presa, até que chegou outro negro com um chicote e começou a bater nele.Acada chicotada uma nova marca em seu corpoera criada. Eissocontinuouporhorasaté que o negro parou e retiraram Nassor deste inferno.
Depois disso foi levado de volta a seu trabalho. Repleto de uma raiva extrema, começou a quebrar toda a casa. Porém, com seus braços e costas doendo e ardendo, Nassor parou tudo. Sabendo que mais sofrimento seria ruim, seu dono fez um acordo com Nassor, dando dinheiro pelo seu trabalho.


Levado ao lugar onde ficavam presos na hora de dormir, quase que Nassor desistiu de sua vida.Aquele local úmido, frio e apertado, o fez pegar uma pedra afiada, e quando estava com ela próxima ao seu pescoço, algum colega de cela o parou e toda a senzala começou a observar aquilo. O homem que o impediu de se matar não falava sua língua, porém Nassor conseguiu entender o que ele quis dizer. Ele foi puxado por alguém que falava sua língua e, por fim, todos foram dormir, mesmo com suas costas e tronco sendo espetados por várias rochas.
Depois de muito tempo, Nassor por fim conseguiu sua alforria. Livre, ele começou a procurar por sua família ou outras pessoas de sua tribo, porém mesmo procurando muito, ele

não achou mais ninguém, nem uma pessoa que falassesualíngua.Eleterachadoaquelamulher que vendia quitutes aquele dia foi pura sorte, e mesmo sua tribo sendo grande, Nassor não achou ninguém.
Nassor voltou até Vila Rica e teve a ideia de construir uma igreja cristã, porém com referências à sua religião e cultura, onde seu povo poderia se identificar.
Ele procurou o direito para poder construir sua igreja, foi bem difícil, mas depois de muita procura, Nassor finalmente achou um padre que deu a autorização da construção.
No começo, trabalhar em uma construção sozinho foi muito árduo, porém sua ideia foi dando certo, e cada vez mais vinham ex escravizados para trabalhar nessa igreja,
sempre fazendo santos da igreja cristã, porém com referências à sua religião e cultura, como santos negros e esculturas em formatos de ondas.
Depois de vários anos e a igreja quase terminada, em seu caminho de volta para casa depois de várias horas de trabalho, veio um cavalo descontrolado. O sol batia forte, suas pernas tremiam. E finalmente a última pedra que carregaria naquele dia... E lembrou de sua vida, a vida em que não era Francisco e sim Nassor.