ENTRE FLECHAS & MOSQUETES
Produto final do Estudo de Campo de Ouro Preto
Narrativa criada por Ana Galoro, Arthur Regis, Felipe Bordignon e Miguel Santinelo – 8°A
Ciências, História, História da Arte, Língua Portuguesa e Redação Escola Miró, Ribeirão Preto/SP, 2026
Em um dia como outro dia qualquer, um menino de sete anos chamado Antônio estava junto a seu pai, um bandeirante aposentado. Seu pai ensinava-o a manusear facões e outras ferramentas usadas por bandeirantes. Depois de várias tentativas de manusear o facão, eles decidiram fazer uma pausa, então seu pai disse-lhe: – Filho, para você se tornar umhomem de verdade, torne-se um bandeirante. Vá para o sertão, uma terra inóspita, onde só há animais e ‘índios imundos’. Mas lembre-se disso: no sertão, quem hesita morre.

Vinte anos se passaram, a história se passaem1730.Nessemeiotempo,opaide
Antônio faleceu de velhice e com isso
Antôniosetornouumbandeirante,queera ograndesonhodeseupai.Seuobjetivoera irparaosertãoembuscademinasdeouro, junto a seus dois parceiros: Rafael e Gabriel.

Seus meios de transporte costumavam ser carroças guiadas por mulas, porém, quando começaram a adentrar pelas florestas, tiveram que libertar as mulas, pois seriam muito atrativas para os predadores. Um dia, estavam mais uma vez desbravando um novo território, quando seu caminho foi interrompido por um acampamento de outros bandeirantes.
Acharam bem estranho as tendas continuarem montadas em plena luz do dia, então resolveram ver se tinha alguém morando lá. Eles viram que havia resquícios de comida nas tendas, acharam
suspeito e decidiram investigar. Rafael descobriu que esse acampamento na verdade era uma armadilha, então
rapidamentegritou: – PESSOAL!!! Cuidado, nesse acampamento está cheio de armadilhas!
Tem fossos camuflados com estacas, fiquem imóveis que eu os mostrarei um caminhoseguro.
Rafael mostrou um caminho seguro e, porsorte,ninguémsaiuferido.
Depois de muito andar, eles encontraram uma aldeia indígena, observaram de longe, mas decidiram
recuar, pois tinha muitos indígenas, então
Gabrieldisse: – Gente, vamos recuar. Tem muitos
índios naquela tribo, se a gente se aproximar, elespoderãonosatacar!
Antônio e Rafael concordaram com Gabriel. Antônio ficou pensando sobre isso, pois se lembrou de seu pai, alguém que odiava os indígenas e sempre falava
“Os índios são um bando de selvagens imundos, são pecadores!”. Mas, por outro lado, seu pai evitava frequentemente falar
sobre a mãe de Antônio. Ele só tinha uma pintura de sua mãe e achava que ela se
pareciacomumaindígena,masnuncateve coragemdeperguntarissoaoseu pai.

Em todos os lugares que passava,
Antônio sofria discriminação, sendo chamado de “índio”, “bravio”, “mameluco imundo”, “caboclo”. Ele lembrou-se de ter surrado um menino por ter sido zoado, falandoqueeleeraumíndiopecadoresua
mãe uma selvagem, o menino saiu com a pele toda roxa de tanta surra. Então ele pensou: será mesmo que os bandeirantes estavam certos em destruir aldeias e quilombos? Antônio começou a teorizar que sua mãe era indígena e resolveu perguntaraosseusamigos: – O que vocês acham? Que os bandeirantes estão certos em destruir quilombosealdeiasdeíndiosoueles estão errados por que não respeitam a cultura deles? Rafael respondeu:
– Eu nunca pensei nisso… Eu sempre penseiqueelesfossempecadores,mastem
esse “lado cultural”. Acho que devemos continuarcomotrabalho.
Gabrielquestionou: – Por que continuar? Se continuar é errado,entãonósestaremoserrados.
Antônio finalizou a discussão para evitarbriga.

Eles estavam andando e infelizmente encontraram uma onça. Acidentalmente
Antônio se fere, Rafael e Gabriel estavam encurralados pela onça e não tinham armas de fogo, pois elas tinham caído enquanto eles desviavam dos golpes da onça. Então, por um milagre, eles ouvem um barulho. Em seguida, uma lança é atirada e atinge o pescoço da onça, matando a fera. Depois aparecem algumas pessoasnegras,epercebemqueforameles quetinhammatadoaonça.RafaeleGabriel agradecem, eles pedem ajuda pois seu amigo Antônio estava seriamente ferido,
então os negros o levam até o Quilombo
CampoGrande. Depois de algumas horas, Antônio
acordoueperguntou: – Ondeestou?
Umapessoaoresponde: – Vocêestáseguro,vocêfoiatacadopor
umaonça,nãoselembra?
Antônioselembradetudoenovamente
perguntou: – Quem é você? Onde está o Rafael e o Gabriel?
Apessoamisteriosaresponde:
–
Meu nome é Rei Ambrósio, sou quilombola e líder do Quilombo Campo Grande, eu protejo o meu povo contra pessoasda sualaia.
Antônioresponde: – Entãoporquevocêmeajudou?Eusou um bandeirante, minha função é destruir quilombos de aldeias, meu objetivo é buscarouro.
ReiAmbrósiojustificou: – Porqueeuapenasprotejoomeupovo contra possíveis ataques, não irei te machucar sem ter me dado motivos. Eu estouerrado?
Antôniooresponde com “Não”, falando que Rei Ambrósio estava certo. Ele explica o que aconteceu, o que pensava… Depois de uma semana se recuperando do ferimento, os três decidem se aliar com Rei Ambrósio. Eles deixam de ser bandeirantesecomeçamalutarafavordos oprimidos,dosescravizados,dosindígenas edosnegros.Depoisdealgumasrebeliões, elessetornamcriminosossegundooolhar daCoroaPortuguesa.
Em um dia, depois de proteger uma aldeia indígena de invasões de outros bandeirantes, ele encontra com sua mãe, que tinha um retrato dele quando bebê.
Sua mãe ficou emocionada em revê-lo. Por
sorte, o Rei Ambrósio havia ensinado ele a falaralgumaspalavrasemtupi,eporcausa disso conseguiu falar com certa facilidade.
Amãe deAntôniodisse: – Che memby, tuichaite ningo rekakuaa! Nde ru ndohejáirakue aiko nendive, he'ígui che ha'eha peteĩ pekadóra ha ikatuha nderekobyai. Opa mba'e ningo nde ru João kúlpa. Nde nderecherembyasmo'ãicherehe,hãguache réra ha'eAracy. (Filho, como você cresceu! Seu pai não me deixou viver com você porque ele falava que eu era uma pecadora, sendo uma má
influência,foitudoculpadeseupai,oJoão.
Você não deve lembrar de mim, mas meu nomeéAracy.)
Antônioresponde: – Ko'ágã ikatúma aikumby, antende mba'érepa che ru noñe'ẽseirakue nderehe ha oñe'ẽ vai yvyporakuéra rehe, ha oipota va'ekue aiko chugui peteĩ bandeirante. Che michĩ jave, oparupiemi ojeapo'i che rehe, chembohérõ "caboclo", "índio", "bravio", "mameluco imundo", ajeity va'ekue katu peteĩ mitã rehe chembyjaraségui upéva rehe.Avyaitereiroikuaágui,chesy.
(Agora faz sentido, eu entendi por que o papai não falava sobre você, falava mal dos indígenas e queria que eu me tornasse um bandeirante. Quando eu era criança, em qualquer lugar que eu fosse, eles me discriminavam, me chamando de "caboclo", "índio", "bravio", "mameluco imundo", eu cheguei a bater em um menino que tinha me caçoado por causa disso. Estou muito feliz em te conhecer mamãe.) Com muito esforço, os três amigos junto de Rei Ambrósio conseguiram contribuir para que 158 anos depois ocorresse a abolição da escravatura no
Brasil, mas infelizmente, no ano de 1746
Rei Ambrósio foi morto por um violento
ataque das forças coloniais, mas isso não significa que ele não seria lembrado. No ano de 1816, Antônio, Rafael e Gabriel morrem de velhice. Quando ocorreu a abolição da escravatura, foi construído uma grande estátua de madeira foliada a ouro dos quatro amigos juntos, em sua homenagem. Eles sempre foram lembrados e sempre continuarão sendo lembradospelaspessoas.
