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Cabelos dourados (2026)

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Cabelos dourados

Produto final do Estudo de Campo de Ouro Preto

Narrativa criado por Laura Barbosa, Luísa Rizzi, Manoel A. de Oliveira e Miguel Rodello – 8°B

Ciências, História, História da Arte Língua Portuguesa e Redação Escola Miró, Ribeirão Preto/SP, 2026

Meu nome era Nzinga. Ou foi o que me contaram. Nasci no século XIX, em Congo, e por muito tempo fui uma douradora de talha, mas nem sempre foi assim. Quando eu era criança, em 1736, fui levada para o Brasil, mais precisamente Vila Rica (Minas Gerais), e comprada por um artesão que passou a me chamar por Maria Aparecida. Seu intuito era que eu o auxiliasse com os serviços domésticos.

Da minhahistória noCongo, eu não me lembro, mas o Brasil é difícil de esquecer. Cheguei às terras brasileiras com muito medo do que poderia acontecer,fuipesada,medidaecolocaram

um preço em mim, depois chegou um artesão, olhou o preço de todos meus irmãos e conhecidos, mas decidiu me escolher.Nocomeço,eunãoentendi,mas depois de um tempo, descobri o porquê: eu era mais barata. O primeiro dia naquela casa foi muito difícil, lá era muito frio e desconfortável. Toda manhã alguns europeus brancos desciam à casa dos artesãos, que eu acho que chamavam de “senzala”,eprendiamagentenumbanco com algemas. Por dentro delas, eles colocavam correntes e depois batiam na gente com uma palmatória, como se fosse uma mensagem de “bom dia”.

No começo, eu era só mais uma

escravizada doméstica que servia as refeições e limpava a casa, mas depois de alguns dias, descobri que o guarda que fiscalizava a igreja flagrou um escravizado dourador de talha roubando o ouro que recebia para dourar a igreja e acabou sendo morto. Após a morte do escravizado, passei a substitui-lo e pude descobrir que seu trabalho consistia em colocar folhas de ouro nas paredes e estátuasdaigreja.Eutinhaquefazertudo certinho, senão poderia ser espancada.

Quando comecei, era muito

desastrada, minhas mãos tremiam e eu deixava pedaços sem ouro. Meu senhor ficava furioso e me ameaçava constantemente. Até que um amigo, um aprendiz de um mestre famoso que havia planejado a igreja que estavamos dourando (um tal de Ataíde), muito mais experiente que eu, ensinou-me algumas técnicas. Ele me ensinou como colocar o ouro,mostrou-mequeprimeirotinhaque colocar gesso nos detalhes, normalmente de madeira, depois colocar argila e, finalmente,pôrafolhadeouro.Otipode argila mudava de acordo com o tipo de material que eu colocava na estátua (ouro

ou prata), quando aprendi isso foi bem confuso e eu também ficava confusa ao procuraroourofoleado,porqueeleficava dentrodelivroseeununcaoachava.Mas, com o tempo, fui aprendendo e não errando tanto como antes.

Depois de meses trabalhando, comecei a perceber olhares estranhos, sussurros e críticas, porque nunca havia tido uma douradora mulher naquela vila antes. Mulheres exercendo essa “profissão” eram muito malvistas, por quebrar as rigorosas normas de gênero e hierarquias corporativas da época. Isso meirritouprofundamenteedecidiqueeu seria a melhor dourada do lugar e a primeira a sair dali também. Para me livrar de tudo, primeiramente eu precisaria conseguir a alforria. Para isso, precisava roubar ouro, mas era muito arriscado, já que o meu antecessor havia sido morto por isso.

Soube de diversas formas de conseguir

ouro,masaquepareceumaisseguraseria misturar o ouro em pó ao meu cabelo. No final do dia, ao lavar a cabeça, o metal se desprendia e eu conseguia recolhê-lo.

E assim aconteceu, eu trabalhava

todo dia e aos poucos pegava pedacinhos do ouro que usava para folhear a igreja.

Depois de algumas semanas, eu tinha ouro suficiente, mas não estava na forma adequada para o comércio.

Num tempo de mais ou menos um mês, procurei um escravizado que transformaria meu ouro em barra, e ele pegaria,emvezdeumquinto,apenasum décimo do ouro que eu lhe dava, o nome

dele era Menelik.

Ele trabalhava exaustivamente para um dono de mina muito rico, mas arranjava tempo para transformar meu ouroemmoedas.Menelikeraassustadoe muito magro, porém muito habilidoso.

Com três semanas de trabalho, escondendo ouro nos meus cabelos e morrendo de medo de ser descoberta e planejando ir para o quilombo após tudo isso, consegui metade do dinheiro que precisava, metade! Mas precisava de mais, e a igreja estava quase completa, precisava correr e me arriscar mais para conseguir o resto. No entanto, o excesso deconfiançamefezignorarriscosefalhar nas ações, fiquei cega e infelizmente me descobriram.

Os senhores já

haviam notado a falta do ouro e como eu era a única mulher, fui a primeira a ser observada, eles me viram escondendo ouro no cabelo enquanto trabalhava. Por sorte, não fui morta como o outro escravizado, pois foi a primeira vez que me viram cometendo esse furto.

Mas, como punição, fui levada ao pelourinho da vila, presa num tronco de árvore com algemas e além de sofrer chicotadas, com uma faca, cortaram meu dedoindicador,umdosmeusdedosmais importantes.

Agora meu objetivo não era mais roubar o ouro e comprar minha alforria, era sair daquela situação infernal. Eram cargasexaustivas,eupassavamuitafome, além da exposição diária a toxinas severas,colocandominhasaúdeemrisco.

Eles diziam que eu morreria logo, que, aliás, eu morreria no dia seguinte no pelourinho (aquele pelourinho dos infernos!). E, mais uma vez, fui amarrada a uma coluna de pedra, a mesma onde deceparam meu dedo, e ali ficaria esperando pelo castigo severo. Estava tudo acabado, mas a esperança era a última a morrer, então passei a noite

inteira acordada fantasiando formas de ainda manter uma esperança sonhando com liberdade.

Ao amanhecer, já exausta de tanto

chorar, minha esperança talvez já estivesse morta, assim como seria o meu estado em poucos minutos. Assim que o carrasco oficial chegou para executar a minhamorte,eucomeceiachutar,morder e gritar aos montes, até que um salvador chegou.

Menelikchegou,enãosozinho,mas acompanhado por vários escravizados inspirados pela minha revolta.

Eles ameaçaram cometer a própria morte, caso não me libertassem. E os portugueses, com medo de perder todos seus escravizados, decidiram pela minha libertação, eu contei a ele minha ideia de fuga todos concordaram e decidiram arriscar. Depois disso foi uma confusão tamanha, saímos correndo em direção à liberdade e, claro, não foi fácil, o carrasco oficial e os outros brancos correram atrás de nós.

Mas, por sorte, naquela correria

toda,elesseesqueceramdesuasarmasde

fogo.Menelikeseusamigosconseguiram derrubá-los com uma dança que mais

parecia uma luta, uma luta muito eficaz.

Conseguimos fugir! Para nunca mais

voltar.

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