O liberto
Narrativa criada por:
André Pereira
Bento Losekann
Catharina Arantes
Luísa Polegato
Produto final do Estudo de Campo de Ouro Preto
Escola Miró – Ribeirão Preto/SP
8°A – 2024
Anos atrás, em Vila Rica, uma pequena família de escravizados trabalhava incansavelmente na Mina do Chico Rei. Assim como os outros escravizados, sobreviviam sob péssimas condições, com pouquíssima comida, muitos afazeres,semhigieneetendodepassaras noitesnosgélidos pisos das senzalas. O trabalho nas minas expunha todos os escravizados a substâncias tóxicas que ocasionavam o desenvolvimento de doenças, como o “mal do trabalhador” (causado pela inalação do silício) e a bronquite (causada pela fumaça das tochas). A família era constituída pelo casal Alberto, Clara, e seus dois filhos, Floriano e Lucas. Os pais trabalhavam desde novos na extração de minérios das minas,ecomoconsequênciade anos detrabalho,ambos adoeceram gravemente e faleceram.
A morte dos pais foi algo muito difícil para Floriano e Lucas. Sua perda fez com que Floriano, de apenas 16 anos, tivesse de sustentar a si
mesmo e ao seu pequeno irmão caçula. O menino passou a ficar todas as madrugadas minerando para ganhar mais alimentos e poder dá-los ao seu irmão. Certo dia, enquanto trabalhava, Floriano escutou passos entrando na mina. No primeiro momento, imaginou que fosse algum outro escravizado, mas na realidade era o
dono da mina Chico Rei. Ao vê-lo, espantou-se e rapidamente começou a balbuciar palavras como “eu estou trabalhando” , “não estou roubando” , “não me machuque” .
Suas palavras ecoaram por toda a caverna e logo receberam uma resposta calma e gentil. Chico Rei lhe disse que não precisaria mais se preocupar e que ele e seu irmão haviam sido alforriados. Tal notícia trouxe tanta felicidade ao garoto que em questão de segundos ele já estava no chão clamando e agradecendo.
No dia seguinte, por volta do meio dia, os irmãos saíram da mina e foram a caminho da cidade. Tudo era novo, as ruas movimentadas, grandes construções, muitas igrejas, belos lustres, fachadas detalhadas e formosos cavalos pelas estradas. Logo ao ingressarem na cidade se sentiram desnorteados, caminhavam sobre as grandes estradas sem rumo ou destino. Os dias se passaram e a procura de um emprego se tornara mais difícil, pois grande parte dos moradores da região eram preconceituosos com ex-escravizados, e não os aceitavam como trabalhadores.
Assim como todas as manhãs, Floriano estava a caminhar pelas estradas da cidade, quando de repente se deparou com uma aglomeração em frente a fonte principal, onde por curiosidade se aproximou. Lá estava ocorrendo uma espécie de reunião, a qual os trabalhadores da construção da igreja de Santa Efigênia se queixavam sobre a falta de mão de obra na extração de quartzito e pedra sabão. Logo após escutar o diálogo, se interessou e se aproximou dostrabalhadores. Ocargo eraexatamente o que Floriano imaginara, sem complexidade. Não eram necessárias outras habilidades além das já adquiridas e habituadas a realizar na extração de minério das minas. Outro aspectodesejadopelomenino eraqueelenão entraria em contato com as substâncias toxicas que ocasionaram a morte de seus pais.
A reunião persistiu ativa durante algumas horas e lá Floriano se noticiou de diversas informações sobre o trabalho. Entre elas, onde se localizava a igreja, a maneira com que os trabalhadores eram tratados pelo mestre e como ele poderia se apresentar e se oferecer para o cargo. Muito grato, ele agradece e se despede de todos já a afirmar que no dia seguinte estaria a trabalhar junto a eles.
Assim como dito, no dia seguinte às seis horas da manhã Floriano estava em frente da igreja à espera do Mestre Manuel Francisco Lisboa. Com as mãos frias, tremulas e o coração acelerado ele abriu a grande e detalhada porta da igreja e avistou no mais fundo do altar, sentado sobre um pequeno banco o Mestre Manuel, junto ao seu pequenofilho,Antônio. Estavamaconversar quando se viraram ao ouvir o som da porta se abrir. Mestre Manuel o encarou, o chamou para se aproximar e em sequência perguntou sobre a razão da visita. Pela primeira vez após a chegada na cidade Floriano haviasido tratado não como um ex-escravizado, mas como qualquer outro morador da região. O diálogo foi breve, Floriano apenas se ofereceu para o trabalho e rapidamente recebeu a aprovação.
Os primeiros dias de trabalho foram árduos e solitários. Por conta da grande diferença de idade e o fato de Floriano ter sido um escravizado, muitos dos trabalhadores não conversavam ou se aproximavam dele. A falta de companheiros ao seu lado tornava o trabalho mais cansativo e confuso, pois não tinha ninguém para lhe orientar. Muitas vezes Floriano confundia algumas das pedras ou até mesmo o caminho para a igreja. Porém, mesmo com tais distúrbios, o mestre o perdoava e lhe explicava o que deveria ser feito.
Algumas semanas após iniciar o trabalho da mina, os irmãos puderam juntar os ganhos e pagar um pequeno alojamento junto a outros exescravizados. A estrutura era pequena, dormiam em dois colchões de palha apenas sob um teto e a
iluminação de uma vela. Mesmo em tais condições ambos continuavam juntos a enfrentar todos os desafios.
Certo dia, enquanto Floriano carregava alguns quartzitos até a igreja, avistou Antônio, filho do Mestre Manuel. Sentado no chão da igreja, ele segurava uma pequena faca em uma mão, uma pedra na outra e imitava os movimentos ensinados pelo pai. Hora batia na pedra com a faca, hora analisava calmamente seu protótipo de escultura. Por ser muito novo e fraco estava tendo grande dificuldade para quebrar a dura pedra que havia escolhido. Então Floriano, ao perceber tal dificuldade se aproximou dele e lhe entregou uma pequena pedra que coletara, era uma pedra sabão. A pedra sabão é um material extremamente maleável e que se quebra facilmente sem grande esforço. O menino agradeceu e pegou a pedra. Primeiro a observou lentamente, depois, com sua faca a lascou e logo um sorriso surgiu em seu rosto.
Após horas esculpindo, Antônio pôde terminar sua primeira escultura, uma pequena cabeça de pato. Muito animado, correu até seu pai, mostrou-lhe sua obra e logo foi questionado por ele de como adquiriu um material tão maleável. O menino lhe explicou que Floriano o viu com dificuldades para esculpir e lhe entregou um pedaço dessa pedra extraída por ele. Pediu também que o pai agradecesse e o recompensasse pela boa ação.
Na manhã do dia seguinte, Floriano estava entrando na igreja para iniciar seu trabalho quando foi abordado pelo Mestre. Assim como o desejado pelo filho, Manuel lhe agradeceu e o questionou sobre o que desejava em troca da ajuda. O jovem pensou durante alguns segundos, não iria fazer grande diferença futuramente se recebesse uma quantia maior, pois por conta da falta de conhecimento em outras áreas, provavelmente continuaria neste mesmo trabalho para o resto de sua vida. Então imaginou que o melhor a se fazer seria melhorar o desenvolvimento de seu irmão, Lucas, para que ele tivesse mais oportunidades ao decorrer de sua vida. Floriano respondeu ao mestre que desejava que ele ensinasse ao seu irmão a arte de esculpir, assim como ensinara Antônio. Espantado com tal escolha,
o Mestre Manuel aceitou o desejo do jovem e lhe agradeceu novamente antes de se encaminhar para fora. Anos se passaram e assim como o previsto por Floriano, ele continuou a trabalhar na extração de pedras para a igreja. Antônio tornou-se um grande mestre, conhecido hoje como Mestre Antônio Francisco Lisboa. Lucas aprimorou as técnicas aprendidas pelo Manuel e depois de décadas de trabalho duro tornou-se também um Mestre. Com o dinheiro e fama que adquiriu pode proporcionar a melhora na vida de si mesmo e de Floriano, o qual já era um senhor. E assim Floriano pode descansar e aproveitar a pequena parte que restara de sua vida.