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Joaquim o infortuno (2024)

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Joaquim, o infortuno

Narrativa criada por

Gabriel Abatepaulo

Produto final do Estudo de Ouro Preto

Escola Miró – Ribeirão Preto/SP

8°A – 2024

Ana Beatriz Pinola Gabriela Minassian

Joaquim Almeida Filho II, o cobrador de impostos mais rico da cidade, era dono de diversas propriedades e possuía uma grande fortuna devido ao seu trabalho privilegiado, que lhe rendia muito dinheiro. Ele vivia em uma grande mansão no centro de Vila Rica e tinha muitos escravizados que lhe faziam serviços domésticos. Sua casa era repleta de luxos, como uma pintura do mestre Ataíde no teto, esculturas, móveis caros e uma grande sala de jogos.

Em sua casa aconteciam diversos eventos da elite e muitas pessoas importantes se encontravam lá aos fins de semana.

Nos dias comuns, Joaquim saía para trabalhar e voltava ao anoitecer. Quando chegava em casa, encontrava sua esposa e seus dois filhos que o esperavam para o jantar. Antes de dormir, ele costumava se ocupar com alguma coisa, como um jogo de baralho ou um livro qualquer, até que tarde da noite lhe vinha o sono e ele ia deitar-se. Todos os

dias sua rotina era assim, ela havia se tornado muito monótona após sua chegada de Portugal ao Brasil.

Ele gostava do estilo da arquitetura local, as casas eram bem parecidas de certa forma, as janelas tinham molduras coloridas e as casas geralmente eram brancas, com as telhas alaranjadas. A maioria eram sobrados e possuíam grades nas janelas do segundo andar. As ruas eram de pedra e a vila possuía muitas igrejas, que tinham um estilo rococó ou barroco.

Em um sábado qualquer, Joaquim saiu para trabalhar e fez sua rotina de sempre: passou na casa de alguns moradores que não haviam pago, conferiu se todos já tinham quitado suas dívidas, e algumas vezes trombou com um de seus amigos durante o trabalho. Por fim, quando recolheu tudo, enviou o dinheiro recebido para os representantes da coroa portuguesa. Todos os dias, ele passava na casa de 30 a 40 pessoas, era uma rotina bem cansativa. Ao

chegar em casa, lembrou-se de que alguns colegas iam se encontrar às 19h, para uma reunião. Então, pediu para alguns de seus escravizados arrumarem tudo e foi se trocar. Vestiu uma camisa branca de gola e um paletó, com uma calça preta e uma bota, que havia trazido de Portugal.

Quando começaram a chegar seus convidados para um encontro da elite, todos se sentaram à mesa e começaram a beber e conversar sobre alguns assuntos importantes. De repente, um de seus amigos, Frederico, disse-lhe para jogarem buraco e se distraírem um pouco. Frederico estava bem sóbrio, diferentemente da maioria, então, acharam aquilo meio estranho. Com um certo ressentimento, acabaram aceitando e saíram da mesa para irem à sala de jogos. Levaram vinho e rum para lá e começaram a jogar.

Em pouco tempo já estavam muito entretidos, gritandoebatendonamesa,eojogocomeçou aficar sério. Joaquim não era muito acostumado a beber demais, e a essa altura já estava fora de si. Depois de um tempo, começaram a apostar valores em torno de 100.000 réis. E assim seguiram bebendo, jogando e apostando cada vez mais dinheiro.

No passar de uma ou duas horas, a situação já estava fora de controle, o efeito da bebida não se deu muito bem com as altas apostas. Três horas se passaram e a maioria já havia perdido mais dinheiro do que podia contar, então, quando resolveram parar, os poucos que se saíram bem nessa já haviam ido embora. E Frederico, por exemplo, que não estava bêbado, ganhou muito dinheiro. Joaquim se encontrou sozinho na sala quando seus amigos disseramqueiamembora, tentouarrumarum pouco a bagunça que estava lá e falhou miseravelmente.

Escutou um barulho estranho, antes de apagar no chão.

No dia seguinte, Joaquim acordou com o barulho do sino da Igreja São Francisco de Assis, estava todo embriagado e mal se lembrava do dia anterior. Quando foi se levantar, percebeu que estava na sala de jogos e provavelmente dormira no lá na tentativa de limpar a bagunça. Seu corpo todo doía e o chão sujo de bebida exalava um cheiro forte, a maioria das cartas estavam jogadas, o que lhe deu uma leve memória do dia anterior. Chamou alguns trabalhadores para limpar a bagunça e foi trocar de roupa. Ao chegar ao quarto, percebeu que havia perdido a missa, pois sua esposa e filhos não estavam em casa. Por outro lado, ficou feliz por seus filhos não o terem visto naquele estado.

Quando começou a voltar a si, sua cabeça parecia um furacão - “O que aconteceu? ”, “Por que eu bebi tanto? ”, “Por que não consigo me lembrar

direito? ”. A culpa de ter passado dos limites tomava conta do seu pensamento, até que se lembrou das apostas. “Quanto eu gastei? 100 mil? 500 mil? Milhões de réis? Frederico deve ter colocado algo na bebida, além de que deve ter trapaceado com certeza”.

Resolveu conferir seu cofre e ver o quanto havia gasto. Ao abrir a porta, não conseguia acreditar no queviu,nemumúnicorealláestava.Nãosabiaoque fazer, estava confuso demais para fazer qualquer coisa, mas agora sim não conseguia mesmo organizar seu pensamento. Podia facilmente ter sido roubado, se não, o que teria sido aquele barulho estranho antes de apagar?

Ponderava sobre quem havia feito aquilo, ou talvez ele mesmo tivesse gasto tudo apostando. Não sabia o que acreditar, nem como iria falar para sua família ou perguntar para alguém que estava presente no dia anterior sobre o que aconteceu. Só

pensava no dinheiro perdido, afinal, como faria para bancar suas despesas? Ainda precisava pôr comida na mesa de sua família, consertar sua charrete, comprar novos sapatos e tantas outras coisas que não conseguia parar de pensar. Quando soou o sino novamente, escutou algumas batidas na porta, ao abrir, viu logo Tiago, um dos homens que estava na casa dele no dia anterior.

Tiago tambémera cobrador de impostos e tinha uma expressão séria em seu rosto. Ele disse que

precisava de dinheiro emprestado, a coroa tinha mandado recolher sua licença de cobrador devido a uma denúncia por “uso indevido” e tinha que pagar uma multa. Ao ouvir aquilo não soube o que responder, não queria admitir que havia perdido todo seu dinheiro, então, apenas disse que iria conferir se podia emprestar algo e fechou a porta. Joaquim ponderou sobre quem poderia ter feito aquela denúncia. Tudo estava se ligando, Frederico com certeza planejou tudo aquilo para nos pegar de surpresa e muito provavelmente roubou o dinheiro do cofre. Como poderia ter sido tão bobo?

No dia seguinte, ao acordar, deparou-se com uma surpresa - na porta de sua casa havia um pedido de remoção de sua licença de cobrador, era também por uma denúncia de uso indevido e precisaria pagar uma multa absurda. Não fazia ideia de que poderia algum dia perder sua licença, e nunca tinha visto aquilo acontecer. Se ele não pudesse pagar, suas

propriedades seriam entregues à coroa como forma de pagamento. Joaquim se desesperou por vários dias em busca de uma maneira para adquirir dinheiro.

Trabalhou dias e noites, pediu ajuda para seus amigos, colocou seus escravizados para fazerem comida e vender, mas nada pagaria aquela multa gigantesca. Alguns meses depois, perdeu sua casa e tudo o que tinha em seu nome. Mesmo buscando uma saída, nada conseguiu tirá-lo daquela situação.

Toda sua família passou a trabalhar nas minas, e em poucos anos adoeceram devido ao trabalho e Joaquim faleceu pouco depois de seus filhos e esposa.

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