AQUI, AINDA umlugarquesejadelas
A esperança toda numa noite… um espetáculo celebração, um espetáculo homenagem, uma festa, ou todo o contrário!
Celebrar, celebrar apesar da negritude da incerteza do amanhã… Um lugar de questionamento, de olhar sobre e para o Teatro.
Uma criação em que se pretende partilhar, questionar e refletir, com o público, a pertinência do Teatro e, em particular, do trabalho da Escola de Mulheres. A companhia impôs brechas no panorama teatral nacional e o Manifesto que substanciava a sua criação
em 1995 traçava o objetivo de reconhecer o papel da mulher nas artes em geral e no teatro em particular, trazer para a ribalta o trabalho muitas vezes ignorado ou menosprezado de encenadoras, produtoras, dramaturgas e técnicas, entre outras.
O que mudou desde então? O que fica por detrás do pano do agora e do amanhã?
A festa será como eu quiser. A festa é como eu quiser. Em tom de boas-vindas e não de despedida, a festa é aqui. As luzes hão-de saber desvendar e enganar, iluminar e esconder, levar-nos pela mão ao passado ou exibir, sem pudor, as caras que se sentarem às nossas mesas.
E há-de ser também um fio a nossa música, um sopro quase imperceptível, um lamento tímido. Há-de lembrar-nos que festa nenhuma se cumpre sem aquela brecha, aquele momento entre duas canções ou dois brindes, em que nos vem à memória o que nos falta.
E nesse intervalo, é o nosso coração que comanda e dentro de nós a música faz-se silêncio. Dentro de nós, a festa é também um desacerto por amparar.
O rock português a encher bares
E discotecas
Os tigres, a Lena, o Reininho,
O Chico Fininho, Olhó Robot, é para a menina
e para o menino… (...)
Tanta novidade, tanto avanço,
Tanto olho posto no resto da Europa
Mas faltava ainda pronunciar
A palavra muda
Que por cá as três Marias
Tinham agitado no ar
(E o plural que aqui fazemos
Porque aqui ainda mandamos nós
É num novo feminino português
E se a escola é de mulheres
Não se melindrem, vocês
E experimentem os papéis invertidos
Por uma vez)
“Mulher”, Sete bocas cheias dela, Fez-se a Escola de Mulheres, “Que conspiração era aquela?”
É na história e é no presente, Que nós cravamos o dente.
Esse casaco que tu teimas em não vestir porque é de outro tempo, no teu corpo deste tempo, no teu espectáculo deste tempo, não tem tempo. É deste tempo, porque é feito agora, mas responde a tudo o que veio antes, quer tu queiras quer não. O casaco, o teu espectáculo por vir, tu e as tuas ideias. As tuas ideias a responder ao dito momento presente.
Eu hoje em dia não penso nisso. Se o que faço é novo. Olha, sei que o que estamos aqui a fazer agora mesmo, será sempre novidade. Isso sim.
hashtag-somos-todas-nome-da-morta.
Já lá vão mais de 25 anos de companhia, todo este tempo sabe a vitória?
Sabe a desejo de continuar. Tem sido difícil, temos tido muitas desilusões… a companhia obriga-se a uma gestão austera dos seus meios e não está tão bem como outras que nasceram na mesma altura. Mas penso no futuro, pode parecer estranho ter esta idade e sonhar mais com o futuro do que com o passado, mas é a verdade.
Ainda vale a pena?
Homenagear quem já cá não está
E para os que acabam de chegar
“Portas abertas, fiquem por cá”?
Algumas de nós levantaram textos com os braços, levantaram-nos muito alto, acima das nossas cabeças. A altura não nos impedia de os compreender, de lhes dar corpo e voz.
A altura obrigava-nos a também nós ficarmos mais altas, esticadas em direção àquelas palavras: pernas, costas, ombros, braços em ascensão, tocando os textos como quem aclara uma voz sua. Do que não percebêssemos, fazíamos repetição. Do que fosse estrangeiro, tornávamos próximo. Do desconhecido, sabermos mais. Nem sempre, ouvidas pela primeira vez, as palavras se deixavam decifrar. Esse era o pacto.
Os sacrifícios, que os havia, ficavam atrás da cortina, no corredor ou camarim, partilhados entre família e amigos, sem deles fazer bandeira.
À dor, dava-se a forma de um ensaio, de um texto novo, de um espectáculo. Esse era o pacto.
E quando não havia palavra, melhor cabia ela, mais amparo nos dava o silêncio. Entre um salto e um afundamento até ao chão, a lembrança que teima em acompanhar-nos; num rodopio rápido, o regresso do timbre de uma voz; em quatro mãos que se enlaçam, que preparam a elevação: aquela expressão tão sua, aquele jeito de olhar.
O peito, as pernas, o corpo inteiro no ar.
E nessa perda de gravidade, finalmente, estar mais perto da possibilidade.
Esse era o pacto.
Um brinde, um brinde, temos uma boa notícia! É que o nosso sonho, o nosso espectáculo, Não dissolveu a ameaça
Tudo o que aqui está, é nosso, fica com quem o viveu.
textooriginalTERESACOUTINHO|encenaçãoRUYMALHEIRO|cocriaçãoeinterpretaçãoANASAMPAIOEMAIA,MARTA LAPA,SOFIAFIALHO,VITORALVESDASILVA|coreografiaMARTALAPA|desenhodeluzPAULOSANTOS|figurinosVITOR
ALVESDASILVA|fotografiaVALÉRIOROMÃO|designgráficoGABRIELASANTOSeLUÍSLOURENÇO | estagiáriosdoCursoProfissionaldeInterpretaçãoeAnimaçãoCircense–EPAOE–CRISTIANAINÊS| RICARDOBAIÃO|operaçãotécnicaSOPHIACOSTA|direçãodeproduçãoRUYMALHEIRO|assistênciade
produçãoINÊSMATOS
direçãoartísticadaEscoladeMulheresMARTALAPAeRUYMALHEIRO