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Haja Saúde [Abril 2021]

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Escola de Medicina Universidade do Minho

Revista Semestral Gratuita N.˚10 · Abril 2021

Diretora Beatriz Martins

Haja Saúde


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FICH A TÉCNICA

Proprietário e Editor Alumni Medicina

Diretora Beatriz Martins

Morada Escola de Medicina Universidade do Minho Campus de Gualtar, 4710–057 Braga, PT

Editores-chefe Érica Gomes e Vasco Henriques

N.º de Registo na ERC 126906 Depósito Legal 431999/17 Periodicidade Semestral NIPC 508 321 719

Sede de Redação Escola de Medicina Universidade do Minho Campus de Gualtar, 4710–057 Braga, PT Estatuto editorial disponível no endereço www.hajasaude.org

Redatores Beatriz Lages Diogo Cruz Eva Ferreira Francisca Santana João Lima Jorge Machado José Pedro Marques Leonor Ribeiro Mariana Barroso Mariana Oliveira Nina Grillo Pedro Vasconcelos Rita André Teles Tiago Ramalho

Design Editorial OOF Design Impressão Excepcionalmente digital

www.hajasaude.org


Í N DIC E

NOTÍCI AS

P E S S OA S

O PI N I ÃO

TEMAS

2020 era o ano da mudança, mas não foi —8

Catarina Barreiros Autora do blogue e podcast “Do Zero” e uma das novas caras da luta por um mundo mais sustentável

A pandemia e o paradoxo da informação e desinformação Paula Silva — 60

4 meses, 3 semanas e 2 dias Mariana Barroso

2021: o início de uma década verde? — 14 Crise de Desinformação Três teorias conspirativas que ameaçaram a verdade — 20 Vacinação ou consequência? — 26 Eutanásia: medo da morte ou da perda de autonomia? A eutanásia está cada vez mais presente nas discussões parlamentares e sociais. Mas em que ponto estamos e que argumentos se esgrimem? — 32 Se as Paredes Tivessem Olhos — 36

E N T R E V I STA

— 42

Pedro Morgado Entrevista ao psiquiatra e investigador sobre a saúde mental – em pandemia e no pós‑pandemia E N T R E V I S TA

— 46

Cláudia Bento Nefrologista e alumna da nossa Escola. Cláudia Bento é atualmente médica e deputada à Assembleia da República E N T R E V I S TA

— 50

Quem usufrui da desinformação? Jorge Machado — 62 Breve história das pandemias Carlos Fiolhais — 64 Infodemia e a Medicina Baseada na Incerteza João Braga Simões — 66 Não podemos ignorar a nossa casa Ana Beatriz Oliveira — 68

CINEMA

— 72

O rap sai à rua Diogo Cruz M Ú SI CA

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Somos tod@s da mesma equipa João Lima DESPORTO

— 75

O Estrangeiro, de Albert Camus Mariana Oliveira L I T E R AT U R A

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Pandemias do Século XXI José Miguel Pêgo Vice-presidente da Escola de Medicina da Universidade do Minho

Passado um ano do início da pandemia lhor no desenvolvimento ultra-acelerado covid-19 importa fazer uma reflexão so‑ de vacinas, nas ações de voluntariado no bre o impacto que teve na nossa socie‑ apoio às vítimas de covid-19 e no desen‑ dade, mas mais relevante sobre a forma volvimento científico. Os principais de‑ como esta reagiu à disrupção que se su‑ safios podem estar ainda para vir como cedeu. Na sua obra épica, Tolkien, um o impacto económico e no próprio te‑ veterano da I Grande Guerra e um so‑ cido e estrutura da sociedade. Sabemos, brevivente da gripe espanhola, descre‑ desde a anterior crise económica, que a ve o conselho que um sábio Gandalf dá perda de uma perspetiva positiva impac‑ a um jovem Frodo. “Não decidimos os ta negativamente na natalidade, um fenó‑ tempos que vivemos. Só podemos deci‑ meno que cumulativamente tem levado a dir o que fazer com o tempo que nos é uma contração da população portugue‑ dado”. A crise sanitária que vivemos será sa. Apesar destas ameaças, nem tudo foi para muitos o maior desafio que encon‑ negativo. Esta crise acelerou uma transi‑ trarão na vida e serão vivências tão mar‑ ção digital há muito almejada e tornou a cantes e épicas como as que outros vi‑ sociedade mais adaptada e mais bem pre‑ veram. Para muitos tem a dimensão e o parada para a próxima crise, como de‑ impacto de uma verdadeira guerra mun‑ monstrado pela continuidade de proje‑ dial, neste caso contra um agente bioló‑ tos de sustentabilidade, diversidade ou as gico. Se por um lado a evolução vertigi‑ importantes reflexão sobre o fim de vida. nosa de casos, a sensação de impotência Nesta edição do Haja Saúde iremos perante a alta letalidade e o isolamento abordar todos estes temas. A Beatriz social criaram as condições ideais para Martins faz uma apreciação da “Susten‑ a proliferação das fake news e os de‑ tabilidade e pandemia” numa perspetiva sequilíbrios da saúde mental, a respos‑ que reflete sobre os mais recentes avan‑ ta da sociedade civil mostrou o seu me‑ ços científicos até aos movimentos polí‑


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ticos e societários em curso. A Rita Teles desporto, cinema e música. Por último explora as principais teses de desinfor- teremos quatro opiniões sobre o papel mação que surgiram com a crise, des- da ciência como determinante do deconstruindo-as com factos e evidências. senvolvimento societário e de adaptação Mais relevante faz uma reflexão impor- às crises, nomeadamente do Prof. Cartante de como a propagação dessas in- los Fiolhais sobre a Ciência e o seu paformações pode ter agravado o desen- pel no século XXI e da Paula Silva sobre volvimento da crise sanitária, qual fogo comunicação no desenvolvimento cienamigável. A Leonor Ribeiro e o Pedro tífico. João Braga Simões elcuida-nos soGonçalves explicam-nos o que é uma va- bre o tema da (des)informação em saúde cina e o seu papel central no combate aos e o nosso estudante Jorge Machado tamvírus e de uma forma simples clarificam bém aborda este relevante tópico para os receios em relação à vacinação. O Pe- estes dias. dro Morgado apresenta-nos uma visão Teremos reportagens e entrevistas socompreensiva sobre o impacto na Saú- bre: sustentabilidade – com projetos na de Mental e as medidas adotadas para UMinho e fora dela; desinformação e apoiar as populações. O impacto que fake news; vacinação contra a covid-19; esta crise teve sobre a Investigação e as saúde mental; e futuras pandemias. Temudanças esperadas no século XXI se- remos ainda trabalhos sobre alguns morão abordadas pelo João Sousa. A Vanes- mentos marcantes mais recentes: eutanása Silva aborda o tema da Natalidade e sia, LGBT+ no desporto e voluntariado parto no contexto atual. O Pedro Gon- na pandemia, por exemplo. çalves apresenta-nos um ensaio sobre a Eutanásia e uma reflexão sobre as suas implicações éticas. Como habitual teremos também as rúbricas sobre literatura,

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Não devemos menosprezar o bem comum, principalmente numa sociedade com tendência para o supérfluo, mas não devemos ignorar as próprias necessidades, a fim de manter a nossa saúde física e mental.


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Caros leitores da primeira edição sob a nova presidência do Haja Saúde: sejam muito bem vindos. Este tema foi pensado, repensado e extrapolado para o que toca a cada um de nós, nada mais, nada menos do que os desafios que a Humanidade enfrentou, e enfrenta, ao longo deste século, e que compete a cada indivíduo ser capaz de lutar pela diferença. A mudança e a instabilidade, não fossem elas caraterísticas inevitáveis, e quiçá precisas, para que algo se reinvente, se renove, se corrija, são uma constante ao longo do percurso do Homo Sapiens. Outras crises vieram, foram, e virão, mas a resiliência e a consciencialização do nosso dever enquanto seres que projetam o futuro com base no bem comum (e no progresso em direção a este) são fiéis à nossa Natureza. Neste segundo milénio, inaugurou-se a segunda década com a primeira pandemia de Saúde Pública com que este virar de página nos estupeficou. Do nada, põe-se em causa a veracidade da Ciência e dos seus métodos. Do nada, surge o histerismo em massa perante a incerteza e os receios. Do nada, vemo-nos deparados contra as próprias fraquezas que compreendem também o ser humano: o egoísmo, a inércia, a apatia, a angústia existencial. Certa vez, Albert Einstein proferiu que não cria, “no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior, mas também de acordo com uma necessidade interior”. Dito isto, arrisco-me a dizer a que somos pressionados a desempenhar determinado papel, que somos interpelados pelo debate interior do que sentimos ser mais correto e o que está ao alcance do mais fácil e do mais “perto”. Não devemos menosprezar o bem comum, princi-

palmente numa sociedade com tendência para o supérfluo, mas não devemos ignorar as próprias necessidades, a fim de manter a nossa Saúde Física e Mental. Contudo, despreze-se a tendência de cair na falácia que mascara o universo de problemáticas que enfrentamos: por um lado, numa comunidade onde a igualdade e a liberdade reinam como utopia, vemo-nos ameaçados pela facilidade de que é rendermo-nos ao medo em prol de promessa vagas, e que por entrelinhas comprometem os pressupostos por que os Capitães de Abril tanto lutaram. Por estes ideais, seja a quimera da igualdade de género, da inclusão, de uma justiça social cega (como deve ela mesmo ser per se) e da luta pela preservação do nosso Cosmos, convidamos os nossos leitores a refletirem à medida que os seus olhos pousam nas palavras que constroem a narrativa, ora mais imparcial, ora mais opinativa, que compõe esta edição. Bon appétit.

Beatriz Martins Diretora da revista Haja Saúde


NOTÍCI AS

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NO T ÍC I A S “Em 2020, esgotaram‑se os recursos naturais da Terra a 22 de agosto, aproximadamente 1 mês mais tarde do que em 2019.” — Beatriz Martins

2020 era o ano da mudança, mas não foi — página seguinte

2020 era o ano da mudança, mas não foi — página seguinte 2021: o início de uma década verde? — 14 Crise de Desinformação Três teorias conspirativas que ameaçaram a verdade — 20 Vacinação ou consequência? — 26 Eutanásia: medo da morte ou da perda de autonomia? A eutanásia está cada vez mais presente nas discussões parlamentares e sociais. Mas em que ponto estamos e que argumentos se esgrimem? — 32 Se as Paredes Tivessem Olhos — 36


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2020 era o ano da mudança, mas não foi O S A NO S ÁU R E O S DA SUS T E N TA B I L I DA DE , E N E RGI A S V E R DE S E LU TA PE L O A M B I E N T E F OR A M A DI A D O S PE L A PA N DE M I A

T EX TO BEATR IZ M A RTINS


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2020 foi idealizado como o “super‑ano” do ambiente e da biodiversidade, mas foi travado pela pandemia. Esta nova emergência, a de saúde pública, sobrepôs-se e foi capaz de unir o globo na luta pela proteção, tanto individual como coletiva.

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“Uma Só Saúde” (One Health) é o concei‑ to que, segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, responsável pela coordenação deste projeto em Por‑ tugal, reconhece que a saúde humana está relacionada com a saúde dos animais e do ambiente. Ou seja, que a alimentação hu‑ mana, a alimentação animal, a saúde hu‑ mana e animal e a contaminação ambien‑ tal estão intimamente ligadas. Em 2021, a utopia reinventa-se em resposta à urgên‑ cia que nunca se extinguiu: a de reverter a perda de biodiversidade global e de as‑ segurar um futuro sustentável para a vida selvagem, os ecossistemas e as pessoas. Já em 2011, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apontou 21 problemas emergentes para o século XXI, divididos em cinco temas: Comida, Biodiversidade e Terra; Água Doce e Marinha; Alterações Climáti‑ cas; Energia, Tecnologia e Desperdício; e, por último, o que engloba questões transversais aos restantes temas. Estas questões transversais são de ca‑ riz biopsicossocial, sendo exemplo o que ocupa o lugar prioritário: aliar Governos

no desafio de atingir a Sustentabilidade Mundial. Esta tarefa torna-se difícil pela logística que envolve, nomeadamente na coordenação e conjugação de visões dos estados. Porém, ressalva-se o esfor‑ ço implementado em 1992, na Conven‑ ção Quadro das Nações Unidas sobre Al‑ terações Climáticas, assinada no Rio de Janeiro, que deu origem aos respetivos instrumentos de aplicação: o Protocolo de Quioto de 1997 e o Acordo de Paris de 2015. Neste último, apelou-se à iniciati‑ va voluntária dos diversos países na im‑ plementação de medidas que limitem ou reduzam a emissão global de Gases com Efeito de Estufa (GEE), de modo a conter o aumento da temperatura média global, numa escala que garanta a perpetuação da vida no planeta como a conhecemos, sem alterações demasiado disruptivas. Portugal foi um dos países que se com‑ prometeu prontamente a este objetivo, que viria a ser ratificado em 2016. Em Portugal, existe atualmente o Plano Nacional de Energia e Clima 2020/2030, que à semelhança do gerado em 2006, visa o cumprimento do Protocolo de Quioto.


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A 7 de Janeiro de 2021, discutiram-se em plenário as propostas para a Lei do Cli‑ ma Nacional entregues ao Parlamento e seguindo o exemplo de alguns países da Europa que já têm de Leis do Clima Na‑ cionais, ou equivalentes, nomeadamente o Reino Unido, a Dinamarca, a França, a Alemanha e a Espanha. Anualmente é publicado o Índice de Desempenho em Alterações Climáticas (“Climate Change Performance Índex”, CCPI na sigla original), que analisa as medidas de proteção do clima e os seus efeitos, comparando-as entre 57 paí‑ ses e a União Europeia, que em conjun‑ to são os responsáveis pela emissão de 90% dos GEE. Na lista de 2020, publi‑ cada a 7 de dezembro desse mesmo ano, nota-se que nenhum dos países está num caminho compatível com os obje‑ tivos do Acordo de Paris. Contudo, é de salientar os esforços no cumprimento deste Acordo, e outras tantas metas, de que resulta, nomeadamente, a diminui‑ ção da emissão dos GEE em mais de me‑ tade dos países analisados, apesar des‑ ta ter aumentado a nível global. A União Europeia recebeu classificação “alta” re‑ lativamente à proteção do clima, de‑ monstrando uma evolução e resultados otimistas. No caso de Portugal, o País é destacado pela positiva, subindo 8 lu‑ gares em relação a 2019, ocupando o 17º lugar (ou 14º na prática, pois os 3 pri‑ meiros lugares foram propositadamente deixados vazios). Na liderança encontra‑ -se a Suécia, e de seguida o Reino Uni‑ do e a Dinamarca. Atualmente, a Arábia Saudita e os Estados Unidos ocupam os últimos lugares (60 e 61, respetivamen‑ te). Em 2018, Portugal já havia ocupa‑ do esta mesma posição; porém, em 2019 havia descido, em parte devido aos in‑ cêndios de 2017 e suas repercussões, à seca, e pela produção de eletricidade em centrais térmicas. No documento das organizações in‑ ternacionais Germanwatch e NewClimate Institute, responsáveis pela génese do CCPI, destaca-se pela positiva Portugal

as medidas fiscais verdes nas áreas das energias renováveis e transportes, as po‑ líticas de eficiência energética no sector da indústria, a nova legislação no sector das florestas; acrescenta-se também a otimização das relações internacionais e o compromisso em ser neutro em emis‑ sões GEE em 2050. Em questões analíticas, e tendo como referência a oscilação de valores entre 1990 e 2017, o setor da Energia (incluin‑ do os Transportes) é o maior responsável pela emissão de GEE em toda a série tem‑ poral, representando 72,6% das emissões nacionais em 2017, e com um crescimen‑ to de 8,7% face a 2016. Ora, o subsector dos Transportes, dominado pelo tráfe‑ go rodoviário, foi justamente aquele que teve maior crescimento de emissões nes‑ te intervalo de tempo: 68%. Em 2020, este foi o maior responsável pelas emis‑ sões, e prevê-se que assim se mantenha. De modo a conter esta progressão, algu‑ mas medidas sugeridas passam pelo fim da comercialização de veículos com mo‑ tor de combustão ou o reforço do serviço de transportes públicos. 2020 em retrospetiva 2020: o ano pandémico. Na sua gene‑ ralidade, foi a grande caraterística que pintou o fim da década. Essa mudança serviu também para a perceção da im‑ portância que tem o equilíbrio dos ecos‑ sistemas e a preservação da natureza. Se, por um lado, foi um ano marca‑ do por instabilidade económica, e com‑ prometimento da sua estabilidade futura, por outro foi também um período de de‑ saceleramento em outras dimensões. Em 2020, esgotaram-se os recursos naturais da Terra a 22 de agosto, aproximadamen‑ te 1 mês mais tarde do que em 2019. A 25 de maio esgotaram-se os recursos natu‑ rais de Portugal, um dia mais tarde do que em 2019.


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Hora de “trocar por miúdos” o que 2020 trouxe consigo

O mau

O bom

Surge a pandemia de covid-19, que adia o “super-ano” 2020; decisões importan‑ tes relativamente à biodiversidade e cli‑ ma são adiadas para 2021. À boleia da pandemia, foi adiada a entrada em vigor para o setor da restauração da Diretiva sobre Plásticos de Uso Único, agravando ainda mais a utilização de plásticos de uso único. Mais de 1,5 mil milhões de másca‑ ras descartáveis terão chegado aos ocea‑ nos globalmente, o que representa apenas uma pequena fração das 8 a 12 milhões de toneladas de plástico que entram nos oceanos todos os anos. A elaboração do Plano Estratégico da PAC continua a ser pautada pela fal‑ ta de transparência e de consulta regu‑ lar às partes interessadas, num processo pouco estruturado e sem previsibilidade. A pandemia não explica tudo. A proposta de Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de Portugal foi pre‑ parada apenas por uma pessoa, não foi tornado claro como é que a versão apre‑ sentada a Bruxelas incorporou (ou não) os mais de 1000 contributos recebidos, e as consultas ad hoc pré-submissão a Bru‑ xelas deveria ter sido mais alargadas para incluírem mais parceiros sociais e tam‑ bém as ONGAs.

Foi criado o quadro legal para a cogestão das pescas, um processo que temos in‑ fluenciado desde a sua génese, e que dá força ao trabalho nesta área. A Comissão Europeia lançou uma consulta pública sobre diminuição da desflorestação e degradação florestal que conta já com mais de 1 milhão de participações, e o Parlamento Europeu votou a favor da adoção de uma nova lei europeia ambiciosa de combate à desflo‑ restação A Comissão Europeia lançou este ano a Estratégia Do Prado ao Prato, com o objetivo de tornar os nossos sistemas ali‑ mentares mais saudáveis e sustentáveis, e a Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030, para proteger e recuperar ha‑ bitats e espécies. Fonte: ANP/WWF


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2021: o início de uma década verde? 2 02 0 E R A O A NO DA M U DA NÇ A – M A S N ÃO O F OI . S E R Á QU E E M 2 021 P ODE MO S DA R I N ÍC IO A U M C A M I N HO SUS T E N TÁV E L ?

T EX TO BEATR IZ M A RTINS


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O projeto Plasticus Maritimus, é um projeto pessoal de educação ambiental que alia ciência e arte com o objetivo de dar a conhecer a vida dos mares e sensibilizar as pessoas para a conservação dos oceanos, nomeadamente para o problema dos resíduos de plástico. Através da realização de atividades para todas as idades tem sido possível chegar milhares de pessoas de todo o país e além-fronteiras. O ARTivismo (ativismo através de meios artísticos) tem sido uma forma poderosíssima para chegar às pessoas, consciencializar e levar a uma mudança de comportamentos.

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Em 2021, a mudança é mais urgente que to conta com mais de uma centena de nunca. Segundo um estudo publicado subscritores e signatários, tais como o na revista Nature em 2020, com o títu‑ deputado Miguel Matos, a Zero – Asso‑ lo “Áreas prioritárias a nível global para a ciação Sistema Terrestre Sustentável e a recuperação dos ecossistemas”, será ne‑ ACTUAR – Associação para a Coopera‑ cessário restaurar 30% dos ecossistemas ção e o Desenvolvimento. Nele advogam mundiais em áreas prioritárias, e assim a necessidade de uma recuperação eco‑ evitar mais de 70% das extinções que se nómica com foco no combate da pobre‑ prevê. Para além disso, asseguraria tam‑ za e na conservação da natureza. Existe bém a absorção de aproximadamente ainda um foco em políticas de mobili‑ metade do carbono acumulado atmos‑ dade, energias renováveis, direitos hu‑ fera desde a revolução industrial. Assim, manos, produção florestal, economia do ainda é possível reverter o decaimento mar, agricultura familiar, soberania e se‑ da biodiversidade e evitar a extinção da gurança alimentar e nutricional. vida na forma como a conhecemos, mas Ana Pêgo, fundadora e autora de Plaspara tal a mudança terá de ocorrer agora. ticus Maritimus, e também signatária des‑ Este presente ano é também decisi‑ te Manifesto, refere que o mesmo “ape‑ vo para o curso que a economia nacio‑ la à necessidade (urgência!) de reconstruir nal poderá tomar. Segundo o Manifes- a economia tornando-a numa economia to por uma recuperação económica justa mais justa e sustentável em que o modelo e sustentável em Portugal, é necessário de recuperação deve estar alinhado com pensar numa recuperação económica o Pacto Ecológico Europeu, o Acordo de justa e também sustentável, o que pas‑ Paris, os objetivos de proteção da biodi‑ sa pelo papel das pessoas e organizações versidade e os Objetivos do Desenvolvi‑ nos mais vários setores da sociedade, e mento Sustentável (ODSs). O compromis‑ o seu trabalho conjunto. Este Manifes‑ so com uma recuperação económica justa

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e sustentável deve ser assumido como o afirma Ângela Morgado, diretora execu‑ único caminho possível. Não se trata de tiva da ANP/WWF, que também cons‑ criar uma nova economia do zero mas sim ta como signatários do Manifesto refe‑ de ajustar a uma economia que defenda rido acima. acima de tudo a vida e a saúde das pes‑ Portugal é dos países altamente afeta‑ soas. A perda de natureza e da biodiver‑ dos pelo desequilíbrio ambiental, acres‑ sidade devem ser travadas, já que a saúde cido por compreender uma elevada área das pessoas depende da saúde do planeta costeira, e propícia à erosão, de que é e do equilíbrio dos ecossistemas”. exemplo o facto da praia do Portinho da Um desafio que acresce é o dilema Arrábida ter perdido 60% do seu areal da sustentabilidade na saúde em 2021. nos últimos 50 anos. Assim sendo, torna‑ A procura e o uso de materiais descar‑ -se crucial a instituição de leis que miti‑ táveis aumentaram, seja nas idas ao ca‑ guem as alterações climáticas, passando beleireiro ou pelas embalagens de take- pelo seu enquadramento e estratégia, e -away dos restaurantes. Inês dos Santos monitorização. Já no início de 2021, hou‑ Costa, Secretária de Estado do Ambien‑ ve novidades nesse sentido, e pode-se até te, afirmou em 2020 que, a nível mundial, dizer que “há de ficar para a História”: en‑ são usadas “120 mil milhões de máscaras tre os dias 13 e 22 de fevereiro, toda a ele‑ descartáveis todos os meses”. Em Portu‑ tricidade produzida em Portugal con‑ gal, onde passou então a ser obrigató‑ tinental teve origem em fontes hídricas rio o uso de máscara no exterior pelo e eólicas. No total, somam-se 210 horas Governo, esse número rondará os “150 consecutivas em que não se recorreu às milhões” mensalmente. “Se 1% for de‑ termoelétricas a gás ou a carvão, sendo positado incorretamente [fora dos con‑ o abastecimento unicamente de etiolo‑ tentores de lixo indiferenciado], são seis gia renovável, o que fez descer o custo da toneladas de plástico a entrar nos nossos produção para os valores mais baixos dos solos, rios, ribeiros e no nosso mar todos países europeus: 27,06€ MWh. Este valor os meses”, afirmou. corresponde a menos de metade dos pre‑ No novo Orçamento de Estado foi ços de janeiro, de 60,69€ MWh, altura em apresentada e aprovada a nova propos‑ que se verificou um acréscimo do uso de ta do PAN que sugeria a realização, em combustíveis fósseis e da importação, em janeiro de 2021, de uma campanha de resposta à vaga de frio. informação nacional multimeios, assim como a criação e regulamentação de um novo circuito de gestão de resíduos que vise a recolha e tratamento de máscaras descartáveis. Feitas de polipropileno, o termoplástico mais leve de todos, cada uma destas máscaras necessita de 300 a 400 anos para se degradar. “O risco dos descartáveis que, depois de usados, são deitados na natureza, são um peri‑ go imediato para a biodiversidade, e um perigo a longo prazo para a nossa saúde”,

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Sustentabilidade “cá dentro” A esta iniciativa, faz-se jus a sua pertinên‑ A reinvenção tem sido a líder do pro‑ cia: de acordo com o relatório do Progra‑ gresso, e agora é mais necessária do que ma das Nações Unidas para o Ambiente nunca. Perante a instabilidade econó‑ e da associação ambientalista WRAP, só mica que marca o presente, é impres‑ em 2019, 930 milhões de toneladas de co‑ cindível a diminuição do desperdício, a mida foram descartadas e desperdiçadas, gestão de recursos e a sensibilização do o que corresponde a 17% de todos os ali‑ outro. As faixas etárias mais jovens têm‑ mentos produzidos. Acrescido a isto, es‑ -se mostrado proativas nesse sentido, e a tima-se que 690 milhões de pessoas se‑ comunidade da Universidade do Minho jam afetadas pela fome, e que 3 milhões é exemplo dessa mesma iniciativa. não tenham acesso a dietas equilibradas Em 2013, introduziu-se o Movimen‑ e saudáveis. to Menos Olhos Do Que Barriga, com Outro exemplo é a criação da So‑ o intuito de combater o desperdício ali‑ ciety Loving The Planet Minho, enquan‑ mentar, que perdura até hoje. O pressu‑ to braço da ONG Loving the Planet, que posto, apresentado pelo movimento cria‑ se identifica como uma organização am‑ do inicialmente por alunos de Ciências biental focada em soluções, com atua‑ da Comunicação, é que cada um leve no ção no distrito de Braga. A sua pegada tabuleiro apenas a quantidade de comi‑ digital passa pela sensibilização e ree‑ da que irá ingerir, evitando o desperdí‑ ducação para a sustentabilidade. Apesar cio; os alimentos que restam nos tabu‑ de ser uma iniciativa recente, que sur‑ leiros são resíduos, mas os alimentos que giu ainda no primeiro semestre de 2020, sobram antes de serem servidos são pos‑ promete revolucionar a forma como se síveis refeições a encaminhar para canti‑ fala e é falada a Sustentabilidade. nas sociais de IPSS de Braga e Guimarães.

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Crise de Desinformação T R Ê S T E OR I A S C ONS PI R AT I VA S QU E A M E AÇ A R A M A V E R DA DE

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Desde o início da pandemia, a sociedade é bombardeada com opiniões e factos, uns mais verosímeis que outros, sobre onde tudo começou, o porquê de ter começado, o que é este vírus e a devida proteção contra este novo inimigo público.


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A primeira crise da desinformação sur‑ giu logo nas primeiras semanas: a dúvida que pairava quando se iniciou a dissemi‑ nação da covid-19 pelos países “não-chi‑ na” e que propiciou a criação de inúmeras teorias da conspiração. A principal teoria gira em torno se a China não terá criado a covid-19 para diminuir a sua população. A teoria é falsa, mas o primeiro argu‑ mento desta teoria prende-se com o De‑ partamento Nacional de Estatísticas da China, que relatou 17,86 milhões de nas‑ cimentos em 2016 e que a população chi‑ nesa cresceu em 1,31 milhões de pessoas – foram 12,95 nascimentos a cada mil ha‑ bitantes, a maior taxa desde 2001. Apesar de que com uma primeira lei‑ tura destes dados uma pessoa efetiva‑ mente pense que a China se encontra com um crescimento populacional ex‑ cessivo, o mesmo não se verifica após uma investigação mais detalhada: é ver‑ dade que em 2016 registaram-se 17,86 milhões de nascimentos na China, o nú‑ mero mais elevado desde 2001. No en‑ tanto, já estamos em 2020 e, nos últimos anos, o ritmo de crescimento populacio‑ nal do gigante asiático voltou a abran‑ dar significativamente. De acordo com os dados estatísticos mais recentes, em 2019 registaram-se 14,65 milhões de nascimentos na China, o número mais baixo desde há cerca de seis décadas. No ano anterior, 2018, já se tinha verifica‑ do o número mais baixo de nascimentos desde 1961. Ou seja, nesta teoria apon‑ ta-se para um pico de crescimento em 2016, mas omite-se a redução que se ve‑ rificou desde então, ao ponto de se atin‑ gir mínimos históricos.

Outro ponto de desinformação refe‑ re-se às medidas que devem ser toma‑ das para proteção pessoal e comunitária. Começaram a surgir imensas teorias de que é inútil a utilização de máscara no combate ao vírus. Um dos motivos para esta teoria ter começado foi pelo facto de ter saído a seguinte notícia a 30 de março de 2020: “OMS confirma: másca‑ ras não são eficazes na rua”. É falso que a Organização Mundial de Saúde tenha confirmado que as más‑ caras cirúrgicas, ou outras com válvu‑ la respiratória, não protejam quem as utilize na rua para evitar a infeção pelo novo coronavírus. O que a OMS na rea‑ lidade comunicou é que “o coronavírus é, sobretudo, transmitido através de go‑ tículas geradas quando uma pessoa infe‑ tada tosse, espirra ou fala. Estas gotícu‑ las são demasiado pesadas para ficarem suspensas no ar. Rapidamente caem no chão, ou em superfícies”. Resumindo, a OMS quis deixar claro que o vírus não se transmite por via aérea, uma vez que as gotículas contaminadas que o trans‑ portam são demasiado pesadas para te‑ rem a capacidade de ficar a pairar. De‑ duziu-se então que, se o vírus não se transmite através do ar, a máscara não protege quando utilizada na rua. No en‑ tanto, isto não é literal, porque alguém que vá à rua pode cruzar-se com outras pessoas que falem, tussam ou espirrem e, por conseguinte, projetem gotículas contaminadas na sua direção. Um fac‑ to irrefutável é que uma máscara fun‑ ciona, sempre, como uma barreira, seja para proteger os outros, seja para prote‑ ger quem a utiliza.


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Mais recentemente, novo tópico rela‑ tivo à desinformação: a vacina funciona ou não? Existe especulação relativamente às vacinas para a covid-19, dizendo-se que estas não são eficazes contra o corona‑ vírus, uma vez que este tem uma taxa de sobrevivência de 99,98% e a vacina não garante os 0,02%. A percentagem não é atribuída a qualquer fonte e também não se explica como é que a “taxa de sobre‑ vivência” é calculada. Ainda assim, o Po‑ lígrafo da SIC procurou verificar se esta alegação tem algum fundamento através de uma entrevista com o epidemiologis‑ ta e presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Me‑ xia. O especialista começou por explicar que “a taxa de sobrevivência tipicamente utiliza-se em alguns estudos com doen‑ tes, não na população”. O valor indicado na publicação sob análise terá sido calcu‑ lado a partir do coeficiente entre o núme‑ ro de mortos e a população total, algo que não faz sentido neste contexto, uma vez que para sobreviver a uma doença, tem que se ter a doença em primeiro lugar. De acordo com a Direção-Geral da Saúde, a taxa de letalidade representa o “indica‑ dor que mede a gravidade de uma doen‑ ça, correspondente à proporção de óbitos num grupo de doentes com determinada patologia e num período de tempo bem definido”. Em Portugal registava-se em março uma letalidade de 1,9%. Segundo o Johns Hopkins School of Medicine, para uma vacina poder ser de‑ nominada de eficaz e segura, é neces‑ sário que passe por diversos testes de aprovação por organizações tais como a National Academy of Sciences, a Food and Drug Administration (FDA) e outras or‑ ganizações ou institutos de nível nacio‑ nal e internacional. Se as vacinas atual‑

mente no mercado tivessem chumbado em algum destes testes, não seriam con‑ sideradas eficazes e seguras e não seriam postas à venda. Além disto, uma vacina eficaz irá pro‑ teger a pessoa que a recebe ao diminuir a probabilidade de essa pessoa contrair a doença, diminuindo a probabilidade de contrair doença grave, hospitaliza‑ ção e morte. Atualmente, as vacinas no mercado são altamente eficazes a preve‑ nir doença grave, hospitalização e morte por covid-19. Vacinação a nível nacional e mundial leva a que haja menos pessoas infetadas com o vírus e consequente‑ mente diminui a sua transmissibilidade e a sua mutabilidade, para que não con‑ tinuem a aparecer novas variantes. Em suma, é cada vez mais importante ter em atenção a todos os factos de uma discussão e não apenas aos que nos são apresentados. Em dezembro de 2020, o Conselho da União Europeia adotou me‑ didas de apelo ao reforço das respostas a nível da UE para combater as ameaças híbridas, incluindo a desinformação. Marukus Kerber, ministro alemão e anterior responsável da presidência ale‑ mã do Conselho da União Europeia, re‑ conhece também que a pandemia torna a UE e os seus Estados-Membros mais vulneráveis às ameaças híbridas: “A pan‑ demia da covid-19 mostrou-nos que são necessários esforços redobrados para defender a União Europeia, os seus Esta‑ dos-Membros e as suas sociedades, bem como as instituições da UE das ameaças híbridas e dos seus efeitos nocivos. Te‑ mos de defender as nossas sociedades e instituições democráticas de tais amea‑ ças, nomeadamente aumentando a nossa resiliência e reforçando os instrumentos de que dispomos a nível da UE e dos Es‑ tados-Membros”.


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Vacinação ou consequência? DA C I Ê NC I A À DE SI N F OR M AÇ ÃO

T EX TO LEONOR R IBEIRO, PEDRO GONÇA LV ES


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Vivemos tempos difíceis, enevoados por medos, sofrimento e muita desinformação. Perante tantas narrativas não factuais, com vista ao lucro e às audiências, torna-se crucial transmitir a todos informações de confiança, de ânimo e, sobretudo, com transparência em cada palavra.


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Hoje, perante um novo marco na histó‑ ria, é importante esclarecer as principais dúvidas que são levantadas relativamen‑ te à pandemia, sendo uma grande parte delas relativa à vacinação. Mas o que é a vacina? Segundo a Or‑ ganização Mundial de Saúde, uma vacina é uma preparação de antigénios (partí‑ culas estranhas ao organismo) que, após administrados num indivíduo, despole‑ tam uma resposta imune protetora, que é específica para um ou mais agentes in‑ feciosos. Se recuarmos até 1796, chega‑ mos à primeira vacina, obra de Edward Jenner. Talvez pouco ortodoxo e bastan‑ te longe do ético, mas, na verdade, o pri‑ meiro passo num percurso que já vai lon‑ go: através de uma pústula de uma vaca que inoculou numa criança, o médico e naturalista foi capaz de entender que o organismo se defendia, criando uma res‑ posta a longo prazo, que minimizava os efeitos da própria infeção. Foi esta descoberta que deu aso a que este fenómeno fosse mais desbastado e, anos mais tarde, aprimorando as técni‑

cas, o perfil de segurança e a própria efi‑ cácia, podemos afirmar que contamos com um plano nacional de vacinação que engloba mais de uma dezena de vacinas implementadas. É de extrema importân‑ cia mencionar que esta primeira vacina, a vacina contra a “Cowpox”, marcou a história com a primeira (e única) doen‑ ça a ser erradicada no mundo, a varíola. Atualmente, perante a pandemia do século, a vacina badalada é a vacina con‑ tra o SARS-CoV-2. Os três principais métodos a serem implementados no mo‑ mento diferem na estratégia de inocula‑ ção. O primeiro, o mais convencional, e apoiado pela Sinopharm e Sinovac, re‑ corre ao uso do vírus inativado ou enfra‑ quecido, que gera uma resposta imunitá‑ ria do nosso organismo, mas que acabou por ser menos atraente pelo facto de ser um processo altamente dispendioso. O segundo método, levado a cabo pela par‑ ceria entre Oxford e a Astrazeneca, as‑ senta numa construção sintética de um fragmento de RNA mensageiro do SAR‑ S-CoV-2 que, utilizando o adenovírus


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como vetor, culmina na produção de ram para o desenvolvimento desta va‑ uma proteína útil no combate do pri‑ cina em tempo recorde. meiro. Finalmente, o último método, o Segundo a especialista, o fator chave preferido pela Pfizer, BioNTech e ainda na aceleração deste processo foi o desen‑ pela Moderna, consiste na inoculação do rolar dos ensaios clínicos. No modelo tra‑ fragmento de RNA diretamente na célu‑ dicional, com quatro fases, espera-se pela la, e o próprio induz a produção de uma conclusão de cada uma para iniciar a que proteína, contra a qual o sistema imune se segue. Neste caso, a meio de cada fase será capaz de gerar resposta protetora. iniciou-se a seguinte. Assim, sem com‑ É de máxima importância reforçar prometer a duração de cada passo, foi que a vacinação não é a contração da possível aplicar nos restantes parâmetros doença, mas sim o estabelecer de uma da pesquisa, o tempo poupado. resposta eficiente contra a mesma, mini‑ O segundo fator preponderante pren‑ mizando quaisquer sintomas que o nos‑ de-se com o facto de as bases para a com‑ so organismo pudesse manifestar caso preensão do SARS-CoV2 já terem sido fôssemos infetados. Contudo, a vacina estudadas em tempos anteriores à pan‑ assusta uma grande fatia da população, demia, mais concretamente em 2003, e a rapidez com que esta surgiu leva al‑ aquando do surto de SARS-CoV-1 na gumas pessoas a desacreditarem o méto‑ Ásia, o que leva Fátima Ventura a referir‑ do e a preferirem não ser vacinadas. -se a esta investigação como o “recupe‑ Em resposta a estes receios, Fáti‑ rar de conhecimento já arquivado numa ma Ventura, diretora da Unidade de gaveta”. Somando a estes fatores o fac‑ Avaliação Científica no Infarmed veio, to de estarmos perante um problema de numa entrevista ao Expresso, explicar saúde pública, justificam-se, por si só, os a forma como as novas técnicas cientí‑ meios disponibilizados e os fundos mo‑ ficas e novos procedimentos se junta‑ vidos no decorrer de todo este processo.

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No que respeita à eficácia de cada uma das vacinas em comércio no mo‑ mento, estudos recentes permitem afir‑ mar que: A Pfizer e a BioNTech atingiram va‑ lores de eficácia de 95%, liderando o top das vacinas. Seguiram-se a vacina da Moderna com 94,5% de eficácia e, larga‑ mente atrás das restantes, a vacina da co‑ laboração Oxford-Astrazeneca com uma eficácia média de 70%, podendo variar de 62 a 90% de acordo com a dose apli‑ cada. Alguns dados muito animadores, outros com algum trabalho pela frente, mas a conclusão de que as vacinas estão em trânsito, assegurando o sucesso na sua aplicação. Se restarem dúvidas quanto a estes valores, uma vez que as vacinas são ava‑ liadas em testes clínicos altamente con‑ trolados, algo que poderia não se refletir em condições reais, então vale a pena re‑ ferir um estudo israelita que contemplou uma amostra de 1,2 milhões de pessoas, pertencentes às várias faixas etárias. Confirmando à primeira toma 57% e, à segunda, 94% de eficácia da Pfizer/ BioNTech, reforçou-se a ideia de que os resultados que são especulados em con‑ dições fixas se refletem claramente na população geral. Apesar da eficácia, soma-se um outro entrave à aplicabilidade destas vacinas: a grande instabilidade do RNA mensagei‑ ro em causa, o que obriga a que estas se‑ jam mantidas em condições de tempera‑ tura altamente específicas, dificultando o processo da vacinação. A vacina da BioNTech exige -70°C para ser preservada, algo que se torna quase impraticável em regiões do globo com climas como os de África e até mes‑ mo do Brasil, algo que foi reforçado por Reynaldo Dietze, Diretor da Unidade de Ensino e Investigação Clínica de Medici‑

na Tropical da Universidade Nova de Lis‑ boa, no passado dia 17 de janeiro numa entrevista à agência Lusa. Não é apenas o clima que inviabili‑ za a administração, mas também a fal‑ ta de meios, principalmente monetá‑ rios, que dificulta que sejam adquiridas arcas frigoríficas com tal capacidade de refrigeração. O envio é feito nessas mes‑ mas arcas, garantindo a manutenção das temperaturas através do uso de gelo seco ou nitrogénio líquido. Qualquer desvio dos valores exigidos obriga a que todas as vacinas sejam desprezadas, inviabili‑ zando por completo o seu uso. A vacina da Moderna, por sua vez, requer um refrigeramento mais flexí‑ vel, entre os -25 e os -15 °C, sendo mais adequada àqueles países cujo armazena‑ mento das vacinas é um dos principais problemas. Finalmente, a vacina que surgiu da colaboração entre Oxford e a Astrazene‑ ca é capaz de se manter estável a tem‑ peraturas entre os 2 e os 8°C. Esta é, de longe, a vacina que em termos de aco‑ modação se mostra mais aprazível aos referidos países. Estes valores surgem no sentido de desmistificar a desinformação que cir‑ cula constantemente e assim motivar as pessoas a procurarem fontes fidedignas nas quais possam confiar e tomar deci‑ sões acertadamente, não só para si, mas também para os outros. Ainda assim, a principal questão mantém-se: quando é que tudo isto vai terminar? Não existe uma data certa para o fim da pandemia, contudo, é pos‑ sível afirmar que, à medida que adquiri‑ mos imunidade coletiva através da vaci‑ nação, aproximamo-nos desse fim.


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Eutanásia: medo da morte ou da perda de autonomia? A E U TA N Á SI A E S TÁ C A DA V E Z M A I S PR E S E N T E N A S DI SC US S ÕE S PA R L A M E N TA R E S E S O C I A I S . M A S E M QU E P ON TO E S TA MO S E QU E A RG U M E N TO S S E E S GR I M E M ?

T EX TO PEDRO GONÇA LV ES


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Por mais complexas e vastas que sejam as diferentes religiões todas elas têm em comum uma coisa, a vida como um bem precioso. O ensinamento moral das nos‑ sas sociedades, particularmente a influên‑ cia católica na Europa, evoluiu em torno da noção de que a vida e o pós-vida são conceitos lineares, tal que devemos pre‑ servar ao máximo a vida, e que a morte não se trata apenas da cessação da vida, mas sim uma potencialidade de “castigo” e de sofrimento. Ainda, os nossos instin‑ tos naturais fazem-nos querer lutar pela vida e à semelhança de todo o reino ani‑ mal ir perpetuando a vida, pela reprodu‑ ção e procura de segurança que preserve o bem-estar e sobrevivência.

A natureza humana, inata e moral‑ mente apreendida, teme a morte. A morte é vista como a cessação da auto‑ nomia, como a impossibilidade de rea‑ lizarmos os feitos que perspetivámos e de mantermos as relações interpessoais que dão sentido à nossa existência. Po‑ rém, esta noção a preto e branco não inclui a doença, o cinzento que marca cada vez mais a vida nas sociedades mo‑ dernas atuais. Surge então a questão: “E quando a vida nos tira a autonomia?” Com os avanços na área médico-cien‑ tífica a esperança média de vida tem vin‑ do a aumentar significativamente, algo possível também devido aos cuidados médicos. Surge assim o conceito de se‑


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nescência, a lenta perda da essência da vida durante o passar da própria vida, uma perda de funcionalidade chamada envelhecimento. O envelhecimento não poupa nenhuma célula no nosso corpo e com este surgem doenças mais ferozes que deterioram a nossa dignidade e au‑ tonomia. Ainda que com o avanço da idade e senescência celular surjam mais eventos que propiciem o aparecimento da doença, esta não está exclusivamente associada à idade. As doenças que surgem à nascen‑ ça, como as que acarretam um maior peso genético, ou então as doenças neurodege‑ nerativas que podem manifestar-se em plena juventude sem aviso prévio, não têm como não nos fazer questionar este construto da vida ensinada e perpetuada pela religião. Surge a questão de que se a vida é uma dádiva preciosa e que a deve‑ mos preservar a todos os custos, por que motivo indivíduos são sujeitos a patolo‑ gias que lhes restringem o pleno usufruir do direito à vida em tão ternas idades. Até que ponto o sofrimento conceptualizado pelos ensinamentos religiosos e de forma abstrata pelos grandes filósofos gregos se aplica ao sofrimento inerente à perda de liberdade e de autonomia? Abordando a zona cinzenta que fa‑ lámos no primeiro parágrafo, a doença pode tornar este cenário algo dramático, não só pelo sofrimento físico, como pelo sofrimento emocional – no doente e fa‑ mília ou grupo mais próximo. Os cuida‑ dos paliativos tomam um papel central da dignificação das pessoas em sofrimen‑ to, sendo por muitos vistos como a úni‑ ca solução para suavizar esta difícil etapa. Ainda assim, a morte medicamente assis‑ tida continua a ser uma hipótese ou solu‑ ção abordada por cada vez mais doentes – bem como pelos países, como o compro‑ va a sua aprovação pelo parlamento por‑ tuguês em final de janeiro. Um ponto que que surge durante a re‑ flexão sobre a cessação da vida por razões médicas prende-se com os doentes não aptos para decidir de forma autónoma.

Esta é uma questão verdadeiramente im‑ portante, especialmente em sociedades onde o envelhecimento da população im‑ plica também um aumento da prevalên‑ cia de doenças neurodegenerativas e am‑ plamente debilitantes como o Alzheimer. Os argumentos dividem-se entre o di‑ reito humano à morte medicamente as‑ sistida e a posição contrária ao juramento de Hipócrates, que guia a prática médica há três séculos. No entanto, estas restri‑ ções podem conduzir a que sejam reali‑ zados com piores e menos condições de segurança. O término da vida dos doentes não é algo para que o médico é atualmente treinado e que muitas vezes escapa à sua vocação, podendo muitos destes profis‑ sionais ficar marcados pela decisão de terminar uma vida. Porém, o facto de o tema ser polémico e gerar muitas diver‑ gências de opinião, não pode ser razão para que este mesmo seja evitado, mas sim ainda mais discutido para que a de‑ cisão informada seja uma norma pratica‑ da em ambos os lados da morte medica‑ mente assistida.


Quem tem pés pode fugir [Calçado, para que te quero?]


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Se as Paredes Tivessem Olhos O CONCURSO DE FOTOGRAFIA DA HAJA SAÚDE, PROMOVIDO DURANTE O INÍCIO DE 2021 JÁ TEM OS SEUS VENCEDORES. VÊ AS FOTOGRAFIAS VENCEDORAS DESTE PRIMEIRO CONCURSO

T EX TO VASCO HENR IQUES


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Durante o mês de fevereiro todos os estudantes da Universidade do Minho foram desafiados a participar neste concurso de fotografia, com uma câmara ou smartphone, e os dois vencedores foram definidos. O tema foca-se no quotidiano vivenciado ao longo dos meses de confinamento.


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Há um fardo metamórfico que pesa a Nesta era da história, que certamente existência do ser humano. Tão indivi‑ ficará na memória de todo o ser humano, dual como cada indivíduo, ele está lá, na o esforço pela expressão e pela cumpli‑ pessoa que te vende o pão com um sor‑ cidade é ferramenta essencial ao bem‑ riso, nos entes queridos que te encora‑ -estar e desenvolvimento salutar da nos‑ jam a ser maior, em ti que te esforças por sa espécie. Daí surge o incentivo a este continuar na senda do teu sonho… De concurso, que mais do que uma prova de uma forma ou de outra, mais ou menos fotografia, é um emprestar de olhos, de pesado, ele está lá, a vigiar, à espera de realidades. Parabéns a todos! um momento para tomar o controlo. Vivo para os momentos em que este fardo do mundo é eclipsado através de um contrapeso que o iça gloriosamen‑ te. Aí sou tela, cor e pincel, máscara gre‑ ga, magia, barco de proa estiva, desem‑ barque em foguetão na superfície lunar, sou pedra filosofal. Vivo verdadeiramen‑ te por esses momentos.

Oração [Despedi-me de ti sem ti...]


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PE S S OA S “Se não educarmos para a sustentabilidade, nada se altera”

Catarina Barreiros Autora do blogue e podcast “Do Zero” e uma das novas caras da luta por um mundo mais sustentável E N T R E V I STA

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— Catarina Barreiros

Pedro Morgado Entrevista ao psiquiatra e investigador sobre a saúde mental – em pandemia e no pós‑pandemia E N T R E V I S TA

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Catarina Barreiros — página seguinte

Cláudia Bento Nefrologista e alumna da nossa Escola. Cláudia Bento é atualmente médica e deputada à Assembleia da República E N T R E V I S TA

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Catarina Barreiros AU TOR A D O BL O G U E E P OD C A S T “D O Z E RO” E U M A DA S NOVA S C A R A S DA LU TA P OR U M M U N D O M A I S SUS T E N TÁV E L

T EX TO BEATR IZ LAGES


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A sustentabilidade é uma questão que se tem revelado cada vez mais essencial. A urgência e interesse em adotar um es‑ tilo de vida mais sustentável e com me‑ nos desperdício são prova disso. É nesse âmbito que falamos com Catarina Bar‑ reiros, uma jovem ativista e autora do blogue e podcast “Do Zero”. Catarina Barreiros dedica-se à parti‑ lha de dicas e práticas sustentáveis, seja através de uma educação descomplicada, seja pela introdução de ideias que qual‑ quer um pode aplicar ao seu dia-a-dia para fazer a diferença – e que a jovem de 27 anos partilha no seu blogue, podcast ou conta de Instagram. HAJA SAÚDE Onde surgiu o inte‑

resse pela sustentabilidade e como foi a transição? CATARINA BARREIROS Não sei bem indicar onde ou quando, porque há várias coisas na minha vida que me fizeram ter interesse na sustentabilida‑ de: fui escuteira, os meus pais eram pes‑ soas já assim muito à frente do seu tem‑ po neste aspeto, em minha casa nunca se desperdiçava comida, fazia-se reci‑ clagem desde que eu era miúda... Por‑ tanto, estive toda a minha vida rodeada do tema “sem querer”. Mas a primeira vez que pensei mais a fundo no tema foi quando o meu marido, que na altura era meu amigo, me levou a uma confe‑ rência da Bea Johnson, organizada pela Junta de Freguesia de Alvalade, e aí foi quando me voltei a cruzar de uma ma‑ neira mais “de frente” com a sustenta‑ bilidade. Qual a importância da sustentabi‑ lidade hoje? Hoje, e sempre, se não tivermos equi‑ líbrio nos nossos ecossistemas, se os

mesmos não estiverem preparados para lidar com os pequenos desequilíbrios que podem acontecer de maneira nor‑ malíssima e funcional ao longo dos mi‑ lhares de anos de evolução, entramos em colapso, os ecossistemas entram em colapso. O que nos diz a História é que mudámos de era, que há muitos ani‑ mais a morrerem, há grandes implosões na Terra, há grandes alterações a nível de estrutura e que isso vai condicionar a vida que existe na Terra. Portanto, no limite, se não nos esforçarmos para tra‑ zer esse equilíbrio que neste momento está perdido, morremos. Há alguma área cuja vertente sus‑ tentável deveria ser mais explorada? Em todas as áreas a sustentabilida‑ de deve ser explorada. Fala-se muito da água, do plástico, do carbono, mas eu acho que continuamos a perder o foco da educação. Nós se não educarmos para a sustentabilidade, nada se altera, por‑ tanto, a educação e formação será pro‑ vavelmente o sector que precisa de mais disrupção no que diz respeito à adoção de práticas mais sustentáveis e da inclu‑ são da sustentabilidade como programa educacional. Perante a transição para um mun‑ do considerado sustentável, quais são os maiores desafios? Os maiores desafios vão ser sempre conseguirmos que o equilíbrio seja jus‑ to, ou seja, que não estejamos a pedir de pessoas que não conseguem dar uma resposta. Será conseguir conciliar o rit‑ mo em que vivemos com a necessida‑ de de sustentabilidade e, portanto, vai ter de haver claramente uma mudan‑ ça de hábitos para conseguirmos este equilíbrio.


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Dicas sustentáveis

Apps: NoWaste, TooGoodToGo, OLIO, Capture e WasteApp Em vez de película descartável, opte por wraps de cera ou películas de silicone Reutilize sempre os frascos de vidro. Como vasos, recipientes para comida e água, porta-canetas... Guarde a água de cozer leguminosas e legumes para utilizar como caldo de legumes caseiro

Em vez de comprar leguminosas em frasco, compre secas a granel, coza e guarde no congelador para quando for necessário Plante uma pequena horta para ter sempre ervas aromáticas frescas Em vez de discos de algodão descartáveis ou toalhitas faciais, use discos laváveis e reutilizáveis de dupla camada (uma de tecido e outra de algodão)

De que forma a adoção de hábitos tabilidade e trazer-lhes uma visão des‑ mais conscientes do desperdício e complicada, mas realista, sobre o que é do ambiente permitem uma evolu‑ isto da sustentabilidade, no sentido em ção a nível pessoal? que todos podemos fazer alguma coisa. A verdade é que, mais uma vez, quan‑ do estamos num mundo muito acele‑ Que livro(s) recomenda aos nossos rado, acabamos por não tomar mui‑ leitores? ta consciência daquilo que fazemos. Em relação a livros, começar pelo Quando nos queremos tornar mais sus‑ “Factfullness”, que não é sobre a sustenta‑ tentáveis, nós temos obrigatoriamen‑ bilidade, mas parece-me um livro impor‑ te de analisar o nosso comportamen‑ tante para toda a gente. Depois, talvez o to para estabelecer uma espécie de “How Bad Are Bananas?”, é um livro giro, baseline, para perceber de onde vamos divertido, e que nos ajuda a perceber o e para onde é que queremos ir, e isso impacto de tudo aquilo que nós consumi‑ obriga-nos a pensar sobre aquilo que mos, pode ser um bom ponto de partida. fazemos... e pensar sobre aquilo que fazemos e aquilo que queremos ser aju‑ da-nos a descobrir quem somos e quem queremos ser. Que impacto espera alcançar no futuro? Eu não sei muito bem que impacto espero alcançar no futuro, espero conse‑ guir continuar a mudar um bocadinho o mindset das pessoas em relação à susten‑


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Pedro Morgado E N T R E V I S TA AO P SIQU I AT R A E I N V E S T IG A D OR S OBR E SAÚ DE M E N TA L – E M PA N DE M I A E NO P Ó S-PA N DE M I A .

T EX TO TI AGO R A M A LHO


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A saúde mental tem sido um dos tópi‑ cos mais abordados quando falamos de pandemia. É, inclusive, falada como uma nova pandemia que poderá suceder ao vírus. Pedro Morgado, professor e inves‑ tigador da Escola de Medicina da Uni‑ versidade do Minho, tem sido uma das vozes mais ativas pela promoção da saú‑ de mental e estudo dos efeitos provoca‑ dos pelo confinamento. HAJA SAÚDE A pandemia deu um

palco maior à saúde mental. Mas esta “epidemia da saúde mental”, como já vimos apelidada em vários jornais, é nova ou só agora é que co‑ meçámos a olhar para ela? PEDRO MORGADO A pandemia fez com que experienciássemos sintomas a que não estávamos habituados. A ansie‑ dade e o stress dominaram as primeiras respostas, mas acabaram por criar condi‑ ções para nos adaptarmos melhor. Penso que poderá existir um aumento do núme‑ ro de pessoas que sofrem de doenças psi‑ quiátricas e que, por isso, necessitam de uma maior atenção e cuidados de saúde. No seguimento, este ano trouxe maior consciencialização – e even‑ tualmente menor estigma? Penso que a pandemia democratizou a experiência de sofrimento psicológico e aumentou o conhecimento acerca das

doenças psiquiátricas. Sem dúvida que o estigma sobre as doenças psiquiátri‑ cas está a diminuir de forma significativa por via desta maior informação acerca do funcionamento psicológico das pessoas. De acordo com o estudo epidemio‑ lógico em Portugal (coordenado por Miguel Xavier e José Miguel Caldas Almeida) a prevalência de doença psiquiátrica está nos 22,9% – o segundo maior valor da Europa. Como é que isto se justifica? Maior diagnóstico? Há várias razões mas penso que a jus‑ tificação assenta sobretudo nos fatores sociais e culturais. Temos graves pro‑ blemas de pobreza e desigualdade so‑ cial; temos más condições habitacionais; e trabalhamos demasiadas horas. Além disso, temos uma vivência da doença que favorece o aparecimento e perpetuação de alguns quadros psiquiátricos. Juntamos esta grande prevalência com uma clara falta de aposta – ou de investimento – em saúde men‑ tal e psiquiatria. Miguel Xavier, diretor do Programa Nacional de Saúde Mental, adiantou ao Públi‑ co, que os 85 milhões destinados à saúde mental seriam destinados a uma reconfiguração de estrutu‑ ras (criação de unidades móveis


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e reforço dos recursos humanos) e oferta de programas à população com o intuito de diminuir o inter‑ namento. Isto é suficiente? Pare‑ cem faltar neste plano estratégias para a literacia ou até para o qua‑ dro laboral, por exemplo... A criação de equipas multidisciplina‑ res é fundamental para montar as respos‑ tas em saúde mental de que o país precisa. Mais do que medidas avulsas e centradas no interesse de uma outra classe profis‑ sional, o que precisamos é de uma rede de prestação que seja coerente e que te‑ nha objetivos comuns, garantindo a con‑ tinuidade, a qualidade e a universalidade dos cuidados. Isso é o desafio fundamen‑ tal para cuidarmos das pessoas que já têm doenças psiquiátricas. No que respeita à promoção da saúde, as medidas têm que ser muito mais abran‑ gentes e envolver diferentes atores sociais, da educação à comunicação social, in‑ cluindo também o setor da saúde, nomea‑ damente nos cuidados de saúde primários. Essa mudança requer mais tempo para adoção estrutural de novas formas de en‑ frentar a realidade, de expressar emoções, de organizar o trabalho, de gerir as tare‑ fas familiares e de integrar as pessoas mais vulneráveis. Essa mudança é da sociedade toda e não das classes profissionais que atuam na saúde. A sociedade não se trans‑ forma dentro dos consultórios.

Por fim, a saúde mental, como fo‑ mos falando, tem sido negligen‑ ciada. Em que medida é que isso também se deve a fenómenos como o reiki, naturopatias – terapias sem base científica que acabam por atrair pessoas com problemas de saúde mental em busca de ajuda? A saúde mental é estigmatizada por todos. Em parte, devido ao medo destas doenças e em parte devido ao desconhe‑ cimento que existe acerca delas. Nas pró‑ prias instituições de saúde existe mui‑ to estigma e muita ignorância, o que se manifesta na desvalorização sistemática do sofrimento das pessoas com doença mental e do trabalho dos profissionais que atuam nesta área. Além disso os re‑ cursos são insuficientes para garantir o acompanhamento de que as pessoas ne‑ cessitam. Todos estes aspetos acabam por favorecer o recurso a técnicas que, sendo fraudulentas, dão o conforto que os pacientes não encontram na medici‑ na convencional. Mas isso não é um ex‑ clusivo das doenças psiquiátricas. Tam‑ bém noutras áreas, essas alternativas são populares.


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Cláudia Bento N E F ROL O GI S TA E A LU M N A DA NO S SA E S C OL A . C L ÁU DI A BE N TO É AT UA L M E N T E M É DIC A E DE PU TA DA À A S S E M BL E I A DA R E PÚ BL IC A .

T EX TO TI AGO R A M A LHO


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Atualmente é deputada à Assembleia da República, eleita pelo PSD, e está presente nas Comissões de Cultura e de Saúde. Mas este é apenas um breve período – porque a sua carreira, diz, é ser médica. Especialista em nefrologia desde 2015, falámos com uma das estudantes da 2.ª turma de Medicina.


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HAJA SAÚDE Podemos começar

Uma casa bastante familiar, por‑ por falar do início do teu percurso tanto... em Medicina – na segunda turma Sim, sim, e é um ponto que devemos do curso na nossa Escola. A área valorizar porque é meio caminho anda‑ da saúde sempre foi o teu interesse do para nos sentirmos adaptados. Além principal? disso também tínhamos um acompanha‑ CLÁUDIA BENTO Desde pequena que mento por parte dos docentes da univer‑ o meu objetivo e o meu desejo era ser mé‑ sidade que nos ajudava muito. Lembro‑ dica. E sempre lutei para que isso fosse -me que os professores nos conheciam a possível. Não consegui entrar em Medici‑ todos pelo nome. na logo no primeiro ano que me candida‑ O aspeto menos positivo que via tei ao ensino superior por umas décimas, na altura, que também é importante, mas voltei a fazer os exames de acesso e foi em relação ao método de ensino. A consegui entrar na Universidade do Mi‑ mim custou-me um bocadinho a auto‑ nho em 2002. -aprendizagem, e eu sempre gostei de A transição do secundário para a uni‑ pesquisar, de investigar, de ir à procu‑ versidade foi bastante leve, ligeira e isto ra. E eu lembro-me de falar com colegas porquê? As turmas eram pequenas, tí‑ noutras faculdades e eles tinham, des‑ nhamos um piso só para nós, o edifício culpem o termo, a “papinha feita”. Por era novo, tudo topo de gama. Éramos vezes, como queria saber muito, pesqui‑ apenas 50 estudantes e ainda éramos di‑ sava em vários sítios e ficava com a in‑ vididos em duas turmas, e isto cria um formação importante e com a não im‑ ambiente muito familiar. Por isso é que portante. Acho que esta também é uma digo que esta transição foi ligeira e foi dificuldade que muitos temos, de que‑ bastante positivo. rer saber tudo.

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Seja como for, isto também permite ao aluno desenvolver várias competên‑ cias para a formação, como a procura, o empenho, o interesse, definir objetivos... E que memórias ficam desses seis anos? Nós tínhamos muitas apresentações e eu gostava sempre quando eram os professores a dar, porque conseguiam fazer uma boa síntese. Lembro-me do professor Nuno Sousa por vezes ter de nos “puxar as orelhas” [risos]. Mas sempre a chamar-nos pelo nome todo [risos]. E lembro-me também do professor Jorge Correia-Pinto que usava muitos exemplos e percursos – e a verdade é que ficava na cabeça! Outra coisa que também achei mui‑ to interessante, já não sei bem em que ano foi, era termos um curso muito di‑ recionado para a comunidade. Lembro‑ -me que nos foi atribuída uma família e eu tinha de ir ter com essa família, fa‑ zer um inquérito, saber como estavam, fazer um acompanhamento focado. Eu era uma estranha para eles, mas depois à medida que nos fomos conhecendo foi incrível. Estabelecemos uma boa re‑ lação, ajudava uma das crianças a fazer os trabalhos de casa – de matemática ou físico-química, já não tenho a cer‑ teza. E esse projeto foi uma experiência muito boa e muito importante. E é o contacto com a nossa comu‑ nidade que acaba sempre por ser muito importante para conhecer a realidade. Sim, é. No início só nos disseram as‑ sim: “esta família é constituída por estas pessoas e a morada é esta”. A primeira vez peguei no carro e fui ter à casa. Acha‑ ram muito estranho, mas depois cor‑ reu tão bem que quando ia lá falávamos, percebíamos os problemas que existiam, ajudava a fazer os trabalhos. E sempre que eles tinham algum problema ou al‑ guma dúvida, ligavam-me.

Depois do curso e do internato de ano comum, escolheu Nefrologia. Porquê? Confesso que o meu sonho sempre foi escolher Medicina Interna. No entanto, os colegas diziam que era uma especialida‑ de muito trabalhosa e tudo mais. Quando fui concorrer, uma vez que sou de cá [Cha‑ ves] e como queria voltar para o interior, na altura vi uma vaga em Nefrologia. É uma área que tem muita Medicina Interna e de‑ pois se especializa e pareceu-me uma boa opção para conjugar Medicina Interna e uma especialidade mais leve. Enganei-me completamente [risos]. É uma especialidade mesmo muito trabalho‑ sa, portanto não sei se foi uma boa escolha – mas é uma especialidade muito bonita. Pelo menos não se arrependeu, certo? Não, não estou arrependida. Se fos‑ se agora escolhia a mesma opção. É uma área muito importante, com procedi‑ mentos de pequena cirurgia, com técni‑ cas muito específicas, com transplantes renais e muitas patologias autoimunes. É uma especialidade mesmo muito rica. Portanto, escolhia novamente Nefrolo‑ gia. O importante na escolha é sentir‑ mo-nos felizes e realizadas. A entrada na política nacional dá-se em 2019 na Assembleia da República, apesar de já ter sido deputada municipal em Chaves no período antes. Como é conciliar as áreas? Neste momento não posso estar a exercer porque não é compatível. Obvia‑ mente que também não posso descurar a medicina, porque não havendo prática, não havendo estudo... A medicina está em constante evolução e depois algumas coisas vão-se esquecendo. E o objetivo não é esquecer, até por‑ que para mim a política não é carreira. A minha carreira é a medicina. Neste mo‑ mento, tenho de dar o melhor em ambas, mas a política ocupa-me mais tempo.


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Como surgiu esta experiência? Através de um convite e desde 2015 que era deputada na Assembleia Muni‑ cipal de Chaves. E depois em 2019 fize‑ ram-me o convite, ao qual fiquei muito honrada e com enorme sentido de res‑ ponsabilidade, e decidi aceitar. De certa maneira, isto também vai ao encontro da medicina. A medicina tem como objetivo ajudar os outros e tentar fazer o melhor pelos outros. E a políti‑ ca também a vejo dessa maneira. E sen‑ do de uma região do interior tantas ve‑ zes esquecida, também posso ajudar as pessoas a ter alguns direitos que esta po‑ pulação tem perdido ao longo do tempo. E neste momento, é fundamental criar políticas que vão ao encontro das pessoas e, este também é o meu desafio, contribuir para um Serviço Nacional de Saúde a funcionar bem e maior equidade no acesso à saúde. Pertence à comissão de saúde, o que é fundamental nestas políticas de saúde? Há várias áreas que considero fun‑ damentais para termos melhores condi‑

ções e uma melhor saúde. Primeiro, creio que é fundamental haver literacia para a saúde e para o desenvolvimento de prá‑ ticas protetoras de saúde. Isto porque à medida que vamos envelhecendo, há maior aparecimento de doenças cróni‑ cas e estas doenças consomem recursos – e é fundamental que haja literacia e pro‑ moção de saúde nesta área. Neste seguimento, o envelhecimento populacional é uma área em que temos de investir e oferecer apoios na área da saúde mental, por exemplo. Outra das áreas que tem de ser refor‑ çada, e acho isto fundamental, e a pan‑ demia exibiu as fragilidades estruturais do SNS. Fala-se agora que é muito im‑ portante que sejam implementadas me‑ didas de forma a recuperar os atrasos em consultas, cirurgias. E é fundamental dar apoio em saúde mental, através da criação das equipas comunitárias, equi‑ pas de continuados na comunidade para a saúde mental. E é importante reforçar com recursos esta área, de forma a que a resposta seja mais abrangente, direcio‑ nada e mais rápida.


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Falaste na resposta à pandemia. Também estiveste nesse apoio, como voluntária. A pandemia veio mostrar várias fra‑ gilidades, como tinha dito. E todos fa‑ zíamos falta. E eu tendo possibilidades, embora seja muito cansativo fazer Cha‑ ves-Lisboa-Chaves todas as semanas, sen‑ ti-me na obrigação e no dever de ajudar os meus colegas e os doentes. Nós somos formatados a dar o nos‑ so melhor e a ajudar o próximo – e senti esse dever de ajudar e dar um pouco de mim nesta fase. Por fim, que conselhos para os nos‑ sos estudantes e futuros médicos? Para os meninos – já crescidos... [risos]. Tanto na saúde como na política o fun‑ damental é estarmos realizados profissio‑ nalmente. E para isso temos de conciliar a nossa vida pessoal e profissional, irmos à procura e estarmos sempre atualizados.

Eu, e sou uma apaixonada pela medi‑ cina, portanto, para mim é uma das coi‑ sas mais belas do mundo, mas é uma pro‑ fissão um pouco desgastante. Exige muito de nós. Temos de ter brio naquilo que fa‑ zemos, ser médico implica ter responsa‑ bilidade, conhecimento, competência e estar em aprendizagem contínua. Só as‑ sim é que podemos ser bons médicos. A base enquanto médico assenta numa relação médico-paciente e, portanto, nós temos de dar o nosso melhor, para sermos bons. Quando estes jovens fizerem o jura‑ mento de Hipócrates, é isso que está lá: tentar fazer o bem e a dedicação ao outro.


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Nome Cláudia Bento

Formação académica e profissional

Idade 37 anos

2002–2008 Mestrado Integrado em Medicina

Curso de Medicina 2002–2008

2009 Internato do Ano Comum Hospital de São Marcos, Braga 2010–2015 Formação específica em Nefrologia Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro 2015–2019 Assistente Hospitalar de Nefrologia Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro 2019 até ao presente Deputada na Assembleia da República


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OPI N I ÃO “Com sorte e dedicação, talvez no futuro consigamos vencer os inimigos da Ciência e voltar a progredir juntos como sociedade.” — Jorge Machado

A pandemia e o paradoxo da informação e desinformação Paula Silva — página seguinte Quem usufrui da desinformação? Jorge Machado — 62 Breve história das pandemias Carlos Fiolhais — 64 Infodemia e a Medicina Baseada na Incerteza João Braga Simões — 66

Quem usufrui da desinformação? — 62

Não podemos ignorar a nossa casa Ana Beatriz Oliveira — 68


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A pandemia e o paradoxo da informação e desinformação Paula Silva


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Não me lembro de um tempo em que se falasse tan‑ não fundamentados e que são fácil e rapidamente to dos cientistas e da ciência como este que vive‑ propagados pelos meios de comunicação social. Mas mos. Paradoxalmente, este também é o tempo em também há desinformação a ser disseminada pelos que diariamente tem vindo a aumentar o número de cientistas. Sim, pelos cientistas! Por exemplo, pelos notícias falsas e a desinformação. Vamos por partes! que apesar de não dominarem o assunto gostam de Fruto da covid-19, o papel da ciência é hoje mais protagonismo e aproveitam todas as oportunida‑ reconhecido e valorizado por todos. Para mui‑ des para aparecer. Pelos que são menos sérios e que tos, os cientistas passaram de desconhecidos a he‑ não olham a meios para progredir na carreira. Es‑ róis. Autoridades locais, nacionais e globais passa‑ tes últimos, viram na covid-19 uma possibilidade de ram a atuar de acordo com as evidências científicas. obter financiamento e de publicar artigos. Desde o Os cientistas passaram a estar ao lado dos políticos início da pandemia, 74 artigos foram removidos do como conselheiros, dos jornalistas como comenta‑ registo de publicação pelo facto de ter sido deteta‑ dores e dos cidadãos como alguém que os informa e da fraude ou porque os autores incorreram em má ajuda. A pandemia, veio assim, realçar a importân‑ conduta académica. A aplicação de resultados frau‑ cia da Comunicação da Ciência. A verdade é que o dulentos relativos à covid-19, como em qualquer ou‑ trabalho de um cientista só termina quando os re‑ tra situação, pode causar graves problemas de saúde sultados do mesmo são comunicados e divulgados. pública de uma forma global. Para além disso, estes No entanto, para a maioria dos cientistas, as práti‑ casos de fraude e má conduta académica têm sempre cas de comunicação e divulgação restringem-se à es‑ uma ampla divulgação mediática que leva à descren‑ crita de artigos científicos e à participação em con‑ ça nos cientistas e na investigação científica. A de‑ gressos, ou seja, na divulgação dos resultados para sinformação também pode ser inocentemente pro‑ os seus pares. Estas práticas são muito importantes pagada pelos cientistas, como é o caso daqueles que porque permitem a validação dos resultados da pes‑ apesar de bem informados não possuem capacida‑ quisa, atrair financiamento, estabelecer colabora‑ des de comunicação. Eu defendo que os currículos ções e criar redes de trabalho e permitem ao próprio dos cursos universitários, de todos os ciclos, deviam definir a sua identidade enquanto investigador. Mas ter uma unidade curricular sobre comunicação. Por a comunicação e divulgação dos resultados científi‑ último, há ainda os cientistas que são bem informa‑ cos para um publico não-cientista é de extrema im‑ dos, íntegros e possuem capacidade de comunicação, portância e é, igualmente, um dever dos cientistas. mas que também contribuem para a desinformação. A pandemia veio alertar para esta obrigação, porque Porquê? Porque são preconceituosos na utilização criou a necessidade de informar as pessoas sobre as de determinados meios, como as redes sociais, para medidas preventivas e terapêuticas necessárias para comunicar a sua ciência. As redes sociais são um travar a doença. Para isso, os cientistas tiveram de meio de comunicação que veio para ficar e que não deixar cair os jargões e os acrónimos, e passaram a deve ser ignorado. Se queremos informar os cidadãos utilizar uma linguagem simples com recurso a me‑ devemos utilizar os meios mais eficazes para chegar táforas e um estilo mais figurativo e ilustrativo que até eles. É verdade que as redes sociais têm muita in‑ por todos fosse compreendido. Podemos então afir‑ formação que não é fidedigna, por exemplo, no caso mar que a sociedade percebeu o papel dos cientistas da covid-19, mais de metade das notícias falsas fo‑ e estes a importância de comunicar para os cidadãos. ram propagadas pelas redes sociais. Essa é mais uma Então, porque não ficamos todos mais informa‑ razão para os cientistas “alimentarem” estes meios dos sobre a covid-19? Porque é que assistimos a um com informação de qualidade e baseada nas eviden‑ aumento de notícias falsas? A verdade é que a mis‑ cias científicas. tura da incerteza, do medo e do perigo cria o am‑ Concluindo, a covid-19 veio reposicionar o lu‑ biente perfeito para a desinformação. Nestas cir‑ gar da ciência e dos cientistas na sociedade e alertar cunstâncias, as pessoas acreditam no que lhes é para a necessidade de comunicar eficazmente a ciên‑ transmitido, principalmente, por pessoas influentes. cia com todos. Veio realçar a importância dos cien‑ O problema é que algumas destas pessoas distor‑ tistas como edificadores da cultura científica através cem ou omitem informação de acordo com interes‑ da criação de um ambiente em que toda a sociedade ses individuais ou corporativos. Outras, são gover‑ valoriza e apoia a literacia científica. nantes ou figuras públicas que fazem comentários


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Quem usufrui da desinformação? Jorge Machado


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Nos últimos tempos, as raízes da desinformação sinformação. Enquanto que os partidos mais à direita têm vindo a crescer pelo meio da nossa sociedade, preferem acreditar na Criação Divina em detrimen‑ plantadas por diversos grupos com agendas políti‑ to da Evolução das Espécies e na negação do aqueci‑ cas, sociais ou até mesmo por uma necessidade de mento global e da emergência climática (muitas ve‑ quebrarem a monotonia da vida com fantasias de zes por motivos puramente económicos), os partidos algo transcendente à realidade. mais à esquerda são mais aderentes às “alternativas Desde cedo que a humanidade tem necessidade naturais”, à indústria do “bem-estar”, à promoção do de explicar o que não compreende, recorrendo para “biológico”, à demonização das energias nucleares, do isso a teorias por si inventadas e perpetuadas du‑ 5G e de tudo que seja nova tecnologia. rante séculos, muitas vezes repletas de magia e se‑ Também durante a pandemia estas fações políti‑ res místicos, cujas provas eram muitas vezes inexis‑ cas utilizaram a desinformação em seu favor, pare‑ tentes. Algumas destas crenças perpetuaram-se até cendo até que houve uma junção de crenças por par‑ aos dias de hoje, mas grande parte delas caiu por ter‑ te de grupos que sempre foram tão opostos. A criação ra com o aparecimento da Ciência e do pensamen‑ de teorias da conspiração sobre o surgimento do ví‑ to crítico. rus, o roubo de informação por parte de simples apli‑ A partir do Iluminismo, a sociedade evoluiu ex‑ cações de telemóvel (como se nenhum deles tivesse ponencialmente em termos de conhecimento, tec‑ vinte aplicações que roubam informações instaladas), nologia, saúde, economia, política, direitos humanos o controlo da população através do confinamento e e igualdade, em grande parte graças às descobertas das máscaras, o perigo das vacinas, entre outros, são da Ciência e à desconstrução de ideias erradas com exemplos de algumas desinformações espalhadas pe‑ base em provas concretas e factos. los grupos, tanto de esquerda como de direita. Infelizmente, nos últimos anos, esta evolução pa‑ Parecendo que não, este discurso é perigoso para rece ter sido atrasada e impedida por diversos gru‑ toda a sociedade, não só porque as pessoas não sa‑ pos de pessoas que pretendem misturar aquilo que é bem em quem acreditar, mas também porque traz objetivável com aquilo que é fantasia, o que tem le‑ perigos à saúde. Dados sobre a propagação do co‑ vado a uma perda de confiança na Ciência por par‑ vid-19, mostram que o aumento de casos na Alema‑ te da sociedade e a uma divisão entre aqueles que se‑ nha é particularmente alto em áreas com uma alta guem o que é a verdade e aqueles que seguem o que proporção de eleitores de extrema-direita que se re‑ os outros lhes dizem ser verdade. cusam a usar máscara. Este e muitos outros exem‑ Esta desconfiança aumentou sobretudo com a plos são provas de que a promoção do medo através pandemia, talvez porque a velocidade dos aconteci‑ da desinformação tem muitos efeitos nefastos para a mentos não permitiu à Ciência dar respostas sufi‑ sociedade, sobretudo em tempos como estes. cientemente rápidas, o que fez com que as pessoas Como combatemos isto? A resposta é difícil e criassem as suas próprias respostas. Talvez porque muitas vezes o que sentimos é que quanto mais ten‑ as pessoas têm medo desta nova realidade e então tamos lutar de frente contra as teorias da conspira‑ preferem viver em negação, ou então porque certos ção, mais elas crescem. Por outro lado, se não fizer‑ grupos da sociedade utilizam, intencionalmente ou mos nada ou se formos simplesmente “tolerantes” não, esta incerteza para difundir os seus ideais e des‑ elas também vão continuar a crescer. Na minha opi‑ ta forma aumentarem os seus seguidores e ganha‑ nião, a solução passa por apresentar os factos aos rem poder. que nos são mais próximos com calma e clareza e Toda esta desinformação acaba por ter especial não ter medo de dizer “não sei” quando efetivamen‑ efeito na política à medida que antigas e novas for‑ te não se sabe a resposta. Temos de nos habituar a ças partidárias surgem e usufruem desta incerteza procurar as respostas às nossas dúvidas em sítios se‑ para espalharem o medo e a revolta contra o sistema guros e de confiança, a confirmar várias vezes aqui‑ vigente e propagarem o seu discurso com o intuito lo que nos é apresentado e sobretudo não divulgar final de obterem o poder. teorias e “factos” sem antes termos a certeza de que Este discurso não tem apenas um campo político, são verdade. na verdade, tanto os partidos mais à esquerda como Com sorte e dedicação, talvez no futuro consiga‑ os partidos mais à direita têm vindo a aderir a esta mos vencer os inimigos da Ciência e voltar a progre‑ nova forma de fazer campanha política assente na de‑ dir juntos como sociedade.


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Breve história das pandemias Carlos Fiolhais


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A pandemia da covid-19, devida ao coronavírus SARSCoV-2, é uma das maiores epidemias dos últimos cem anos. No século XXI tivemos, por ordem cronológi‑ ca: em 2002-03, o SARS – Síndroma Respiratório Agudo Severo, surgido na China, causado pelo SARS‑ -CoV-1, que originou cerca de 800 mortos; em 200911, a gripe A ou suína, causada pelo H1N1, que pode ter provocado meio milhão de vítimas mortais em todo o globo; em 2012, o MERS – Síndrome Respi‑ ratória do Médio Oriente, em 2012, causado por um outro coronavírus, resultou num número de mortos semelhante ao do SARS; em 2014-16 o Ébola, devido ao vírus homónimo, causou cerca de 11.000 mortos na África Ocidental. Em Portugal, circularam as no‑ tícias de todas essas pandemias, mas quase todas elas se passaram em geografias suficientemente distantes para não nos suscitarem grande inquietação. De facto, só a gripe A foi uma pandemia. Causou algum susto em Portugal, mas só provocou 122 mortes, tendo sido inútil uma grande aquisição de antivirais. Todas estas epidemias anteriores não tiveram a le‑ talidade de algumas epidemias do século XX. Há que destacar pela letalidade as várias ondas de gripe: em 1918-19, «gripe espanhola» (um nome impróprio, pois ela provavelmente teve inicio nos EUA), devida ao H1N1, que originou mais de 50 milhões de mortos; em 1957-58, a gripe asiática, devida ao H2N2, com mais de um milhão de mortos; e, em 1968-70, a gri‑ pe de Hong Kong, devida ao H3N2, com um milhão de mortos. Acresce, desde 1981, a SIDA, devida ao ví‑ rus HIV, com mais de 30 milhões de mortos em todo o mundo até hoje, uma doença do sistema imunitá‑ rio que, apesar de os seus efeitos estarem actualmen‑ te muito limitados por campanhas preventivas e tra‑ tamentos inovadores, continua a fazer vítimas. Em Portugal, a “gripe espanhola”, aqui dita pneu‑ mónica, causou 135 000 mortos, um número signifi‑ cativo numa população bem menor do que a de hoje. Foram três as vagas, a mais letal foi a segunda, ao cau‑ sar uma sobrereacção do sistema imunitário de jovens entre os 25 e 35 anos. A gripe asiática, vinda de Mo‑ çambique, vitimou entre nós 2050 pessoas. Mais que a gripe de Hong Kong. A SIDA, que teve o primeiro caso português em 1983, já causou entre nós mais de 11.000 mortos. Na história mais antiga houve pandemias ainda mais assustadoras. Vinda da China, chegou à Euro‑ pa em 1347-51 a peste negra, devida à bactéria Yersinia pestis, que causou cerca de 200 milhões de mortos. Esse flagelo voltou depois a eclodir por várias vezes,

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caso da “terceira praga” na China em 1855. Uma outra doença terrível foi a varíola, causada pelos vírus Variola majoris e minor, que surgiu em vários surtos ao longo da história, com mortalidade difícil de estimar (mas, só no século XX, causou mais de 300 milhões de mortos). Grassaram ainda: a cólera, com meia dú‑ zia de surtos entre 1817 e 1923, devida à bactéria Vibrio cholerae, que causou mais de um milhão de mor‑ tos e continua a causar; a tuberculose, com grande incidência no século XIX, devido à bactéria Mycobacterium tuberculosis identificada em 1822 pelo alemão Robert Koch, que causou e ainda causa muitas mor‑ tes anuais; e a gripe russa, em 1889-1890, devida ao H2N2, com um milhão de mortos. E houve outras epidemias: o tifo, a poliomielite, o sarampo, etc. Em Portugal, a peste negra chegou em 1348 e res‑ surgiu várias vezes. Uma das últimas foi no Porto em 1899, levando ao afastamento para Lisboa do médico Ricardo Jorge, que tinha preconizado um cordão sa‑ nitário, e vitimando na flor da idade um outro médi‑ co famoso, Luís Câmara Pestana. A varíola tem uma ampla história entre nós, incluindo um surto coinci‑ dente com a pneumónica. A cólera teve entre nós va‑ gas em 1833 e 1855-1857. A nossa ciência e os nossos serviços de saúde cres‑ ceram extraordinariamente à medida que aumentava o nosso conhecimento dos microorganismos e da sua acção no nosso organismo. A medicina experimentou um progresso contínuo: nos comportamentos (o dis‑ tanciamento social, as máscaras e a higienização já se usavam na gripe espanhola), nas vacinas e nos fárma‑ cos. As vacinas tiveram um impressionante sucesso. O inglês Edward Jenner foi pioneiro ao criar a vacina da varíola em 1796, que permitiu erradicar a doença em 1980. A vacina da BCG – Bacilo de Calmette e Gué‑ rin, dois franceses – restringiu a tuberculose a partir de 1906. A vacina da pólio, devida ao americano Jo‑ nas Salk, tem diminuído a poliomielite desde 1955 E a vacina do sarampo, de 1963, eliminou esta doença em muitos países – tendo regressado só pela acção per‑ versa dos movimentos anti-vacinas. Aprendemos muito ao longo da história. Hoje, na luta contra a covid-19, estamos em muito melhor po‑ sição para vencer uma pandemia. Foi o conhecimen‑ to do código genético e da maquinaria molecular dos seres vivos que nos permitiu fabricar tanto testes mo‑ leculares como vacinas inovadoras baseadas no m-R‑ NA. Os testes foram quase imediatos ao aparecimen‑ to da doença e a vacina demorou escassos dez meses. Estes avanços dão-nos uma enorme esperança.


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Infodemia e a Medicina Baseada na Incerteza João Braga Simões


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A pandemia da covid-19 veio acelerar a tomada de A Organização Mundial de Saúde lançou o repto: ação contra uma problemática antiga, mas que este “é preciso achatar a curva da desinformação” e elen‑ acontecimento global veio evidenciar, a pandemia cou sete passos básicos para evitarmos, médicos, cien‑ de desinformação ou, no neologismo, a infodemia, tistas e público geral, ser contagiados pela infodemia: termo originalmente cunhado por David Rothkopf 1. Avaliar a fonte no Washington Post, em 2003. 2. Ler para lá dos títulos Num período da História em que dependemos 3. Identificar o autor da comunicação em rede global para nos manter‑ 4. Verificar a data de publicação mos em contacto, para atualizarmos conhecimento 5. Avaliar a evidência que suporta a afirmação e até para nos mantermos produtivos, estamos tam‑ 6. Verificar os próprios vieses bém vulneráveis à disseminação de “factos alternati‑ 7. Consultar os fact-checkers / polígrafos vos” que colocam a saúde de todos em risco. A desinformação custa vidas. Os exemplos inter‑ A incerteza que acompanha a prática médica é nacionais de recomendação de cloroquina ou iver‑ talvez um conceito estranho para a população ge‑ mectina por altas figuras de Estado denunciam o ral, e a noção de risco e o seu significado têm algo carácter infiltrante e perigoso que estas campa‑ de subjetivo, a que nem o médico nem o cientista es‑ nhas de desinformação podem ter para o comba‑ capam sem uma boa dose de pragmatismo e frieza. te à pandemia. Mesmo num dos países da Europa Perante a incerteza de uma doença nova, ou de que mais tem confiança nas vacinas, como Portugal, um tratamento novo para essa doença nova, o ins‑ não estamos imunes à desinformação, sendo inúme‑ tinto natural, e a própria prudência, levam-nos a so‑ ros os relatos de utentes que recusam ou adiam va‑ brevalorizar os riscos ou, no mínimo, a estar mais cinar-se devido ao alarme social em volta de efei‑ atentos ao seu surgimento. Mas, numa socieda‑ tos secundários de uma vacina em particular e a sua de de informação em live streaming, não há tempo deficiente contextualização, ou fruto de uma des‑ para ponderar, a comunidade exige uma resposta confiança generalizada em relação às vacinas. com certeza no imediato momento a seguir à dú‑ Uma análise recente publicada na Nature sobre a vida. A incerteza que existe em cada resposta cien‑ ecologia das interações em Facebook (100 milhões) tífica é algo que a sociedade tem relutância em to‑ ligadas ao tema das vacinas revelou que o grupo de lerar. Mas esta imposição de um ritmo mediático à anti-vaxxers (4.2 milhões) era pequeno mas mui‑ ciência enfraquece-a porque a expõe ao frenesim de to interativo, principalmente com o grupo de in‑ informação, que pode ter diferente graus de evidên‑ decisos (74.1 milhões). Já o grupo assumidamente cia, diferentes graus de certeza, ou pode até ser, em pró-vacina (6.9 milhões), também pequeno, gera‑ alguns momentos, contraditória. Isto não é menti‑ va poucas interações com os indecisos e com os ra, não é ato deliberado de enganar. Isto é apenas a anti-vaxxers. Portanto, os pró-vacinas não estão a Ciência a acontecer ao vivo. conseguir chegar aos indecisos, estão mais fecha‑ dos na sua “bolha”, deixando os indecisos mais vul‑ neráveis ao proselitismo dos anti-vaxxers. Este es‑ tudo colheu dados prévios à pandemia da covid-19, mas é lícito inferir que o problema, no mínimo, se mantém, se não se tiver agudizado. A infodemia grassa e existe uma responsabilidade coletiva de produzir informação simples, clara, com mensa‑ gens sensatas e honestas sobre os temas de saúde. E existe também uma responsabilidade individual de melhor escrutínio e literacia digital. A estratégia de produção de mais informação, por mais correta e factual, está gasta, não produz a eficácia preten‑ dida e está a ficar para trás na corrida. Precisamos de imunizar a população contra a infodemia e ain‑ da não descobrimos a fórmula certa.


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Não podemos ignorar a nossa casa Ana Beatriz Oliveira


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Depois de concretizado enquanto Projeto Porta Nova, renasce agora como Associação. Além de, no seu sentido literal, adquirir uma maior concordância gramatical de género, concretiza e reafirma aquela que sempre foi a sua essência. Uma Porta Aberta para o Mundo. Uma via de dois sentidos, pela qual atravessa quem parte nessa descoberta e quem vem na nossa direção. É, no fundo, um convite para uma partilha de identidades e aprendizagens, uma tro‑ ca em que tanto se dá como se recebe. Surgiu, assim, o Porta Nova, projeto de voluntariado médico estu‑ dantil, feito de uma enorme vontade de partir nes‑ sa descoberta e, eventualmente, de poder retribuir, em justa medida, a oportunidade de se entrar numa casa que, não nos pertencendo, não deixa ser nossa. No entanto, quem se fica por essas quatro pala‑ vras, que levianamente usamos para explicar o que é o Porta Nova, não entende na sua globalidade o seu significado nem o seu potencial. Não querendo cair em pretensiosismos, ou com receio de tentarmos ser mais do que o que realmente somos, acabamos por ser, na verdade, redutores na nossa explicação. Esse foi o principal ensinamento que a pandemia nos veio revelar e que não poderia ter chegado em melhor altura senão em plena transição de Projeto para Associação. Surgiu, assim, também ela, como um convite para a reflexão e redefinição do futuro da Porta Nova, que germinou e continua a desenvol‑ ver-se nesta dinâmica de constante aperfeiçoamen‑ to e atualização. Com isto, percebemos que a aprendizagem é o principal motor e o primeiro grande passo para a mudança. Se queremos um dia ser médicos com um papel ativo na transformação da sociedade, segundo ideais solidários e humanitários, temos de primeiro entender o mundo e conhecer a casa que nos acolhe. Não é redutor sermos voluntários, apenas temos de primeiro aprender a sê-lo. Através das ligações que formámos, fortalecer os laços e conhecer as comuni‑ dades que, com o tempo, determinarão se estamos preparados para ser quem nos propomos a ser. Portanto, o que verdadeiramente dá sentido à Porta Nova é o seu cariz inalienavelmente forma‑ tivo, que desde o início se afirmou como platafor‑ ma de educação médica para uma prática futura de voluntariado. Não que o facto de nos propor‑ mos um dia a ser agentes ativos de mudança signi‑ fique que já não o estejamos a ser agora. Mas urge esta necessidade de aceitar o percurso de aprendi‑ zagem e compreender o papel secundário que te‑

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mos no processo ativo de mudança que as comuni‑ dades desejam efetivar. Criámos uma Vizinhança Extramuros. Temos agora a oportunidade de regressar a cada lugar com olhar renovado e responsabilidade redobrada. Por‑ que, como dizia, somos recebidos numa casa que, não sendo por nós habitada, não significa que pos‑ samos ignorá-la.


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TEM AS “Efetivamente “sair do armário” como atleta profissional assumidamente gay continua a ser muito infrequente. Vejamos como exemplo o mundial de futebol de 2014 em que nenhum dos 736 participantes era abertamente gay. ”

4 meses, 3 semanas e 2 dias Mariana Barroso

— João Lima

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— página seguinte O rap sai à rua Diogo Cruz M Ú SI CA

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Somos tod@s da mesma equipa João Lima DESPORTO

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O Estrangeiro, de Albert Camus Mariana Oliveira L I T E R AT U R A

Somos tod@s da mesma equipa — 75


TEMAS

4 meses, 3 semanas e 2 dias Mariana Barroso “4 meses, 3 semanas e 2 dias”. Esta era a fase de gravidez em que se encontrava Gabriela Dragut quando decidiu avançar com um aborto. Este filme retrata a histó‑ ria de duas amigas universitárias, romenas, que tentam um aborto ilegal. Em 1966, na Roménia, o dita‑ dor comunista Nicolae Ceausescu tinha como objetivo aumentar a população do país: o uso de con‑ traceção foi proibido no país e, portanto, o acesso à mesma tor‑ nou-se muito difícil. Para além disso, o aborto passou a ser, da mesma forma, ilegal. Várias adolescentes, ao explo‑ rarem a sua sexualidade, acabam por se deparar com uma gravi‑ dez indesejada. Se isso muitas ve‑ zes acontece com o uso de con‑ traceção é de esperar que sem a mesma a probabilidade de esta acontecer seja muito alta. Segun‑ do dados da ONU, divulgados no estudo “Abortion Policies and Reproductive Health around the World”, em dois terços dos 195 países analisados em 2013, a in‑ terrupção voluntária da gravidez só era permitida quando a saú‑ de física ou psicológica da mu‑ lher era ameaçada. Desses países, metade só o permitiam em casos de violação, incesto e malforma‑ ção que pudesse colocar a vida da mulher em risco e apenas um ter‑ ço toma em consideração a situa‑ ção económica e social da mesma. Neste filme, tanto Gabriela como a sua amiga (Otilia), que a ajudou a tratar de todos os proce‑ dimentos para realizar um aborto ilegal, acabam por sofrer com as consequências que o mesmo acar‑ reta: a começar pela exigência do homem que contratam, que exi‑

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ge favores sexuais além do paga‑ ça, que permitia uma interrup‑ mento em dinheiro, e do proces‑ ção médica da gravidez até aos so doloroso do aborto em si, por nove meses, em caso de alto ris‑ não ser em ambiente controlado. co para a saúde da mulher e/ou A recordar que o filme retrata o fi‑ doença grave ou incurável do feto. nal da década de 1980, ainda nos Recentemente entrou uma nova anos finais do ditador Ceausescu lei em que a mesma passou a in‑ (que morreria na sequência da Re‑ cluir “sofrimento psicossocial”, volução Romena de 1989). onde situações como transtornos O filme mostra, cruamente, psiquiátricos graves, casos de de‑ como o corpo e sexualidade fe‑ ficiência intelectual e até mesmo minina conseguem, desta forma, casos graves de insegurança so‑ expressar a dominação e opres‑ cial passaram a ser incluídos nes‑ são por parte do sexo masculi‑ ses nove meses de interrupção. no e uma sociedade estereotipa‑ Cientificamente sabemos que da. Um exemplo disso no filme um feto já tem as suas estrutu‑ é a cena da discussão entre Oti‑ ras anatómicas viáveis bem an‑ lia e o namorado. Otilia refere que tes desse período e que há bebés a – apesar de lhe pedir que não – o nascerem prematuramente e com namorado ejaculava dentro dela vida; portanto, até que ponto será nas relações sexuais e, quando o eticamente correto, por esta últi‑ mesmo usava o argumento de ca‑ ma lei, proceder a uma interrup‑ sar caso ela engravidasse, Otilia ção da gravidez aos aos sete, oito aponta que não queria passar a ou nove meses? ser dona de casa. Esta dominação Já foram várias as lutas e pro‑ é expressa não só com uma divi‑ testos que permitiram um me‑ são desigual a nível profissional lhor reconhecimento acerca do e social, como na criminalização papel da mulher na sociedade e do aborto, dando a ideia de que uma agilização das leis no que o homem teria controlo absoluto toca aos direitos da mesma. Con‑ no corpo da mulher. tudo, são vários os países que ain‑ Apesar de cada vez um maior da possuem medidas retrógradas número de países agilizarem as que desvalorizam este seu papel leis da interrupção voluntária da e continua a haver na sociedade gravidez, há ainda muitas leis con‑ atual a necessidade de uma ree‑ troversas e distintas entre si. To‑ ducação no que toca a comporta‑ memos como exemplo a Polónia mentos que coloquem em causa e a França. Em outubro de 2020, a violação dos direitos da mulher. o Tribunal Constitucional pola‑ co decretou que a interrupção da gravidez devido à malformação do feto deveria ser proibida, sa‑ lientando que quando falamos de malformações incluem-se situa‑ ções em que o bebé pode ter um curto período de vida após o nas‑ cimento, acarretando consequên‑ cias graves não só para o mesmo, como para a saúde mental e até mesmo física da mãe. Contrastante com esta lei, dou como exemplo o caso da Fran‑


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MÚSICA

O rap sai à rua Diogo Cruz A representatividade da música na nossa “Portugalidade” é inegável. Foi através dela que soubemos o momento de sair de casa e tomar de assalto as ruas que outrora nos foram tiradas. Sérgio Godinho, Ary dos Santos, José Mário Bran‑ co e tantos outros fizeram fervi‑ lhar por todas as cabeças confina‑ das a determinada área geográfica ideais democráticos que se encon‑ travam há muito adormecidos. Por fim, José Afonso deu o mote para que o povo, em uníssono, cantas‑ se mais alto que os tenores que os oprimiam. Foram eles que nos co‑ locaram o cravo ao peito através das suas líricas e melodias firman‑ do ainda mais a música na nossa bagagem cultural. Na mesma década, do outro lado do planeta, surgiam nas ruas de Bronx vozes também elas opri‑ midas que viam nas suas rimas e instrumentais uma forma de poli‑ tizar as suas preocupações, desa‑ fios e injustiças sociais. O que no fim da década não passavam de palavras soltas, mas carregadas de sentimento, viu no início dos anos 80 tornar-se um novo género mu‑ sical. Mais do que isso, uma cultu‑ ra por si só com manifestações nas mais variadas artes. O mundo ou‑

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via o manifesto daquele povo, en‑ as primeiras cartas no recém re‑ tendia a sua dor e celebrava as suas formulado Hip-Hop Tuga. conquistas. De forma que (não ti‑ Se atentarmos nas letras de Va‑ vesse a música este poder trans‑ lete e de Halloween conseguimos, cendental) nos revíamos nestas le‑ sem descurar a genialidade indivi‑ tras e adaptávamo-las às nossas dual de cada uma, enquadrá-las no próprias vidas. O Hip-Hop abra‑ registo lírico dos primeiros versos çava a juventude e entregava poe‑ da gente de Bronx. Partilham lutas sia a uma geração que suspirava ainda que tão longe. Deixaram-se por inspiração. inspirar e, por conseguinte, inspi‑ São 5.470 quilómetros a sepa‑ raram outros a combatê-las atra‑ rar Lisboa de Nova Iorque, mas o vés das notas e através das síla‑ que é certo é que, quer para o bem bas. Ainda há décadas atrás outros quer para o mal, tendencialmen‑ num registo totalmente diferen‑ te a corrente encarrega-se de tra‑ te inspiraram gente de tal forma zer os costumes estadunidenses que houve revolução e mudança. à nossa costa. Estabelecida a po‑ Agora de liberdade de expressão pularidade do recém movimento conquistada o único obstáculo ao era apenas uma questão de tem‑ sublime era o horizonte do artis‑ po até vê-lo reinventado na nossa ta. Talvez por esse mesmo motivo própria música. Cerca de 15 anos foi produzida tanta arte boa nes‑ depois foi o tempo de chegada do sa adolescência do Hip Hop Tuga. Hip-Hop a Portugal, mas mal de‑ Por poderem ser proferidas as pa‑ sembarcou não nos acanhámos e lavras que durante tanto tempo fizemos jus à nossa fama de bons não o puderam ser. anfitriões. Instalou-se em primei‑ Se há dúvidas sobre o que con‑ ra instância nas ruas que é onde ele quistamos de há 47 anos para cá se sente mais confortável, mas ra‑ ouçamos um Pratica(mente) do pidamente conquistou o seu cami‑ Sam ou um Unpluguetto do Hallo‑ nho até às casas de todos os portu‑ ween. Pensar que toda esta música gueses, em particular no coração não poderia ter sido feita se ainda dos jovens. Nos poucos tocados de por cá houvessem lápis azuis que início bombeou-lhes de imediato riscassem os mais geniais versos vontade de replicá-lo na língua de deveria chegar para afastar coleti‑ Camões. Nesse fim de década de vamente a ideia revivalista de uma 90 e início de milénio, vimos no‑ ditadura. Até lá o Hip Hop vai es‑ mes como Boss AC, Valete, Sam crevendo a caneta. The Kid, Allen Halloween darem


TEMAS

Somos tod@s da mesma equipa João Lima A inclusão e aceitação de pessoas LGBTQI+ nos países desenvol‑ vidos tem vindo a melhorar pro‑ gressivamente nos últimos anos. Num passado não muito distan‑ te em todos estes países era ilegal dormir com uma pessoa do mes‑ mo sexo. Sem dúvida, há muito para comemorar. No entanto, isso não significa que lésbicas, gays e bissexuais se sintam incluídos em todas as partes da sociedade. Para muitos, a cultura desportiva, e em particular o desporto de equipa, não sentiu o mesmo progresso. Efetivamente “sair do armá‑ rio” como atleta profissional as‑ sumidamente gay continua a ser muito infrequente. Vejamos como exemplo o mundial de futebol de 2014 em que nenhum dos 736 participantes era abertamente gay. Ao sermos confrontados com este facto, alguns poderão prefe‑ rir pensar que talvez não haja jo‑ gadores gays. Contudo, este pen‑ samento não poderia estar mais longe da realidade, pois o pri‑ meiro estudo internacional sobre homofobia no desporto chama‑ do “out of the fields”, revelou não só que o futebol é dos desportos mais populares entre os homens

DESPORTO

gays e bissexuais à semelhança dos homens heterossexuais, como também demonstrou que muitos atletas de todas as modalidades preferem manter em segredo a sua sexualidade com medo do as‑ sédio e repúdio por parte dos pa‑ res e de prejudicarem as suas car‑ reiras, o que provavelmente será o que aconteceu a alguns dos atletas neste mundial. Não tenhamos dúvidas de que esses medos têm fundamento, pois a homofobia, que se traduz em discriminação, piadas e insul‑ tos são frequentemente percebi‑ das por atletas e fãs. Também são conhecidos relatos de grande so‑ frimento provocado por uma vida na clandestinidade e “casamentos heterossexuais” que não preen‑ chem, como resultado do esforço para manter em segredo a orien‑ tação sexual. Paradoxalmente, para as mu‑ lheres lésbicas e bissexuais parece haver uma visão mais positiva da aceitação no desporto, particular‑ mente entre os pares. Ao contrá‑ rio dos homens, se umas mulheres se destacam na prática desportiva é comum que surjam “suspeitas” quanto à sua orientação sexual. Isto poderá fazer sentido no con‑ texto de uma sociedade que luta pela igualdade, mas que ainda se mantém presa às suas origens pa‑ triarcais com a ideia da “virilidade

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máscula” como condição para um ou uma atleta com elevada perfor‑ mance. Aparentemente, os atletas que têm a coragem de “sair do armá‑ rio” incentivam outros a fazer o mesmo o que leva a aumento de visibilidade e isso parece levar a reduções no comportamento ho‑ mofóbico. No entanto, numa so‑ ciedade igualitária relevar a orien‑ tação sexual não deveria exigir bravura nenhuma, o que nos con‑ duz a uma reflexão sobre como mudar o paradigma da homosse‑ xualidade em ambientes despor‑ tivos. Essa mudança começa nas es‑ colas e nas camadas mais jovens dos clubes desportivos em que os pais e os treinadores têm de co‑ meçar a levar a sério o bullying homofóbico. A par disso é neces‑ sário e fundamental que as orga‑ nizações desportivas nacionais adotem e promovam políticas cla‑ ras de apoio à inclusão de atletas LGBTQI+ profissionais e amado‑ res e que mais estrelas do despor‑ to profissional saíam do armário para dar o exemplo.


TEMAS

O Estrangeiro, de Albert Camus Mariana Oliveira “Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução, e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio”. Assim termina a obra de Camus, “O Estrangeiro”. Através de um discurso frio e direto, o autor não hesita em descrever as emoções de Meursault, rejeitando eufemis‑ mos e suavização de uma realida‑ de crua e penosa. O protagonista é efetivamente um homem “es‑ tranho” à realidade, como sugeri‑ do pelo título. Esta obra literária é reconhe‑ cida como uma das maiores com‑ posições existencialistas, que re‑ presenta de uma forma singela o conceito do “absurdismo”, con‑ ceito este ubíquo a todas as obras de Camus. Trata-se de uma ode ao nada, à indiferença do cosmos pe‑ rante a condição humana frágil e também às forças que compelem os homens à revolta perante a cons‑ ciência deste facto. É igualmente uma sátira àqueles que escolhem viver presos à ilusão de paradigmas sociais que criaram e que interpre‑ tam como absolutos.

LITERATURA

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Desde logo, Meursault destaca‑ que nestas situações se distanciam -se como uma personagem apáti‑ de uma normalidade fabricada. ca, com comportamentos aparen‑ De facto, a vida repleta de in‑ temente bizarros e que vive num diferença de Meursault manifes‑ estado de constante alienação. Re‑ ta-se como agressiva para uma cusa sentimentos abstratos, que sociedade insincera. Encontra‑ considera fúteis, como amor, sau‑ -se inserido num mundo em que dade ou perda, religião e até con‑ é estabelecida uma verdade, atra‑ ceitos morais pré-definidos. Mo‑ vés de conceitos, preconceitos e tivado apenas por um desejo estigmas, para determinados pa‑ intrínseco de sobrevivência, sem drões de comportamento. A so‑ ambições para a construção de um ciedade falha em compreendê-lo, futuro, sem remorsos de um pas‑ rejeitando-o por ser um “estran‑ sado, vive num estado de inércia. geiro” aos preceitos do mundo Ciente da efemeridade e inutilida‑ comum. É um estranho também de de todos os seres e eventos, es‑ para os leitores, que o julgam com colhe viver indiferente, como se as normas intrínsecas impostas fosse uma folha ao sabor do vento. pela sociedade em que vivem. Em tempos estranhos de pan‑ No final, face à impotência demia, esta obra torna-se mais da racionalidade, não foi só con‑ atual que nunca. Também nós, denado pelo crime que cometeu, isolados de uma realidade que mas pela sua maneira de olhar tomávamos como garantida, nos para o mundo, marcada pela in‑ sentimos “estrangeiros” à mes‑ capacidade de mostrar arrepen‑ ma. Perante o caos inexorável e dimento. Onde estará a credibi‑ incerteza do amanhã, somos con‑ lidade de um Homem imerso no frontados com sentimentos de absurdo ao julgar outro Homem medo, cansaço e apatia. Percebe‑ igualmente imerso no nada quan‑ mos que, ao fim ao cabo, estamos to ele? Conseguinte, frente ao ab‑ à mercê das forças de uma nature‑ surdo do mundo, Meursault sen‑ za que é inflexível. Esta realização te-se purificado diante da morte, deixa-nos irrequietos, num esta‑ única certeza para além do pre‑ do de desassossego que pode pro‑ sente. Numa audiência de vazios, vocar uma apatia com a qual não despede-se de um mundo que o sabemos lidar. Também enquan‑ odeia, no qual sempre só existiu to sociedade temos dificuldade diante do nada. em adaptar a novas mentalidades, acabando por ostracizar aqueles


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